Notas iniciais
Ta aí, sexto capítulo de Kaen. Estamos indo firme e forte em frente, e eu quero rewies. Critícas construtivas são bem vindas, assim como elogios, ideias e doações.

O túmulo de Kenshin ficava no interior da vila, numa pequena colina onde a muito tempo atrás, eu me sentei numa varanda de uma cabana de madeira, e observei ele indo embora, tão indeciso quanto persistente no seu caminho. A cabana já não existia mais, e mesmo as casas que ficaram próximas àquele lugar estavam destruídas, algumas delas cobertas por grandes ramos de madeira, que circulavam os prédios, tentando traze-los abaixo. Os maiores ainda conseguiam ficar de pé, e os jutsus mokuton formaram árvores enormes, que cresceram, e deram sementes que agora, quase trinta anos depois da destruição da vila, germinaram e brotaram novas árvores, formando uma floresta em torno da cidade em ruínas.

Acabei sorrindo com isso, pelo menos algo bom tinha se formado encima de toda aquela destruição. Alguns animais selvagens viviam ali, pulsos pequenos de chakra que pareciam se esconder conforme passávamos. Esquilos e pássaros que faziam os troncos ocos e os vãos das paredes destruídas de morada, e mesmo alguns lobos que aprenderam a correr entre os galhos das árvores, grossos e embrenhados uns nos outros.

A caverna de rocha que eu mesmo tinha escavado com as garras estava escondida atrás de vários ramos que se interligavam e emaranhavam um nos outros. Sorri, enquanto Haku se preparava pra agarrar os galhos e quebra-los. Antes que ele pudesse se mexer, levei a mão até a cintura e rapidamente saquei a espada verdadeira que Gekko havia me dado. Ela pareceu cantar no ar enquanto eu a deslizava pela madeira, tão alegre que eu podia ouvir seu riso. Um, dois, quatro, oito cortes que deixaram apenas o som agudo de uma flauta. Foi tão rápido que a madeira só se partiu em pedaços enquanto eu embainhava a espada novamente.

É, eu ainda era bom...

-Você ainda continua forte como um demônio, Chihiro...

-Isso era pra ser uma piada?

Ele riu baixinho, mas foi uma tentativa patética de aliviar o ar que pairava sobre nós naquele momento. Dentro da cripta, o chão estava coberto de poeira, uma grosa camada que parecia veludo enquanto caminhávamos por ela. Entrei devagar ali dentro, apenas um passo por vez, sentindo minha espinha se arrepiar mais e mais a cada passo que dávamos. Tudo estava coberto por sombras, tão negro quanto breu, e a única coisa que brilhava fracamente à distância, mesmo no escuro, me trouxe lágrimas nos olhos mais uma vez.

Kohaku não se aproximou mais. Sem se importar com a poeira, ele se ajoelhou, e com um profundo respeito, se curvou e tocou a testa no chão. Era muito estranho observar um Deus agir daquela forma, mas fez todo o sentido do mundo pra mim. Ao final da caverna, o corpo de Kenshin descansava imortalizado, os cabelos brancos compridos soltos e espalhados as suas costas, o quimono completamente branco, com uma faixa vermelha larga amarrada a sua cintura, e um haori também branco com dragões prateados. Ele estava deitado, com as mãos cruzadas no peito e com um sorriso gentil no rosto envelhecido, idêntico a oitocentos anos atrás, quando eu mesmo escavei a terra com as garras, quando banhei seu cadáver e o vesti com as melhores roupas que eu pude comprar, quando escavei na rocha sua sepultura, e o cobri com cascalho.

E depois, quando reuni todo o chakra que consegui, e moldei o cascalho em energia, fazendo com que se comprimisse e se fundisse, clareasse e ficasse liso, formando um túmulo de puro cristal, que emanava uma fraca luz cor de rosa, tão amena quanto sua própria presença. Era como se ele estivesse ali ainda, vivo, contemplando as mudanças que aconteciam na terra acima dele.

Pensei que talvez devesse dizer alguma coisa, mas nenhuma das palavras que me vieram pareceram adequadas. Kenshin era uma alma simples e gentil, alguém que poderia apreciar o silêncio e a música calma de um rio fluindo. Decidindo que não haveria maior homenagem que pudesse lhe fazer, eu apenas afaguei o cristal, voltando meus olhos para o que viera buscar.

Rurouni no Seishin, o espírito do andarilho, a lendária Sakabatou. Seu metal estava podre e rachado, quebrado em várias partes. A madeira da empunhadura estava se desfazendo como pós, as cordas a muito foram desfeitas pelo tempo, e mesmo assim, ela ainda era bela aos meus olhos. Mais linda e mais perfeita em seu significado que qualquer outra espada que eu já tivesse feito...

A toquei com cuidado, e foi quase uma surpresa que ela não tivesse se desfeito ao meu toque. Com todo o cuidado do mundo, eu a enrolei no meu quimono, e usei a faixa da cintura pra amarra-la às minhas costas.

-Haku, será que você se importa de carregar minhas espadas?

Ele se levantou de onde estava, batendo a poeira dos joelhos.

-Você não deveria...

Antes que ele terminasse de dizer algo que provavelmente seria uma reclamação, um rosnado soou no topo da gruta, e ambos viramos a cabeça no mesmo momento.

Um lobo nos encarava com olhos amarelos furiosos, os dentes arreganhados e a salivando, os pelos eriçados, enquanto tentava nos cercar. Haku não fez um movimento, e eu tampouco me mexi. O lobo rosnou mais alto, se aproximando, e num movimento, saltou pra cima de mim, os dentes afiados mirando a minha garganta.

Acertei a katana de madeira na cabeça dele, e ele tonteou com espirais nos olhos, antes de cair. Haku não fez nada pra me impedir enquanto tirava a katana verdadeira da bainha novamente, caminhando para o lobo. Apenas um golpe no coração, e seria o fim.

Foi então que outro rosnado ecoou na entrada da gruta. Um muito mais baixo e agudo. Três filhotes de lobos correram pra frente imediatamente, dois cercando o lobo... loba, e se enroscando nele, enquanto o outro ficou direto na minha frente, com as patas firmemente plantadas no chão, e rosnando, arreganhando seus pequenos dentinhos de leite e me olhando fixamente.

Levantei a espada, e Haku atrás de mim fixou os olhos nela, apreensivo. O filhotinho tremeu, mas ficou no lugar, enquanto a mãe deles observava tudo com uma preocupação clara nos olhos amarelos, e os outros dois ganiam. Ele me seguiu com os olhos, aparentemente congelado, enquanto a lamina subia e subia, cada vez mais alto, até descer repentinamente...

Em direção a bainha. Haku quase suspirou de alívio.

Mesmo assim o filhotinho de lobo ainda rosnava, enquanto eu avancei lentamente. A cada passo ele tremia e se afastava um pouco, olhando freneticamente para os lados e tentando arreganhar ainda mais as presas. Acho que ele ainda não tinha aprendido que não adianta nada arreganhar as presas enquanto se afasta, é muito inútil. Ele pareceu mais assustado, até que sua calda tocou na loba ainda caída, encolhida com os dois filhotes aconchegados nela, tremendo. Ele pareceu ganhar um novo vigor, e quando me olhou dessa vez, seus olhos não tremeram. Ele pulou e correu em minha direção, mas o máximo que conseguia alcançar era minha canela, onde ele cravou os dentinhos afiados. Doeu como o inferno, e eu tive que me conter em esmaga-lo em uma pasta de merda, o que seria minha primeira reação natural a uma situação assim.

Ignorando o cachorrindo que mastigava a minha perna, tentando de qualquer jeito me machucar, eu tirei um pergaminho de dentro do bolso, e o estendi no chão. As dez marmitas apareceram imediatamente, e os dois lobinhos chorões que estavam aconchegados à sua mãe levantaram as orelhas ao sentir o cheiro da comida. O puxando pelo cangote, eu o tirei da minha perna, que menos de um minuto depois já estava completamente lisa novamente, e o coloquei adiante de uma lata cheia de comida. Outras eu levei até a sua mãe.

A cara que ela fez foi quase cômica, surpresa e dúvida ocupando cada traço dos olhos dela. Naquele momento, aquela loba se pareceu tanto com Yugao nos momentos em que eu fazia alguma bobagem que tive que rir.

-Vamos Haku, já terminamos por aqui...

Eu poderia dizer que nem notei como a loba e os filhotes me seguiram enquanto voltávamos pela floresta, correndo entre os enormes galhos que formavam uma espécie de várias vias entre as enormes árvores daquele lugar, mas eu percebi isso o tempo todo. Os filhotes eram desajeitados e faziam muito barulho, e mesmo que fossem tão silenciosos como a mãe deles, ainda não podiam se esconder de mim. Eles correram o caminho todo atrás de nós, se escondendo quando achavam que estávamos olhando, e aparecendo novamente quando pensavam que não estávamos olhando. Vinte minutos após aquilo tudo, e quando eu estava saindo pela entrada da vila, eles finalmente apareceram na nossa frente.

Dessa vez, nenhum deles rosnou. O que tinha me enfrentado, que aparentemente era o mais velho ficou quieto ao lado da mãe, enquanto os outros dois vieram se esfregar nas minhas pernas, abanando os rabos e latindo.

-Não acredito nisso...

Kohaku riu com gosto, enquanto eu fiz uma careta.

-Quem diria Chihiro, você arrumou uns filhotinhos.

-Ignore, eles vão desistir...

Mesmo assim, enquanto refazíamos o caminho para o país da onda, fomos a pé, e em uma velocidade razoavelmente baixa. Podia ter voado com Haku, ou corrido mais rápido, mas dessa forma os lobos não conseguiriam se manter no nosso ritmo. Eu sabia disso, e Haku sabia disso, mas eu sempre podia ignorar totalmente a situação toda. Pra todos os efeitos, eu estava apenas com vontade de correr, e os lobos não tinham nada a ver com isso.

Mas guardei o resto dos bentos comigo, pra quando eles ficassem com fome...

Gathou chutou a porta do seu escritório aberta, pisando forte enquanto passava pelo tapete caro, ignorando completamente os quadros ainda mais caros que pendiam das paredes. Ele era um homem pequeno e feio, e só isso era mais que o suficiente para descrevê-lo, tanto física quanto psicologicamente. Sabe aquele tipo de pessoa que venderia a própria mãe se recebesse uma boa oferta?! Então, ele estava no momento dando socos irritados na própria mesa.

-Demônio da névoa, Há! Minha bunda – ele resmungou, pegando o telefone o descansando no ombro enquanto discava um número aos tapas e puxava uma pilha de papéis com a outra mão. Do lado de fora, Waraji e Zouri se entreolharam e riram baixinho – Derrotado por uma puta e uma criança! Eu sabia que não devia confiar em ninjas, idiotas, vou fazer da velha e boa maneira...

Ele ficou no telefone por cerca de cinco minutos, conversando com quem quer que seja sobre qualquer coisa que fosse, as vezes dando berros irritados e ameaçando com demissões.

-Waraji! – ele gritou depois de bater o telefone no gancho, e acompanhou com uma careta o samurai caminhar até ele e se curvar levemente – Reúna tantos capangas quanto conseguir, vamos invadir aquela vila e resolvermos nós mesmo as coisas.

O samurai sorriu maniacamente, se curvando mais ainda e voltando até o seu amigo.

-Parece que vamos nos divertir...

-Sim... – ele descansou a mão sobre a espada – Ela esta com sede, vamos dar sangue pra ela logo logo...

E ambos riram.

Yugao suspirou, enquanto observava a cara completamente perplexa de Kurenai. Os gennins do seu time foram pros quartos por ordem dela, já que Yugao tinha pedido pra conversar sozinha com a jounnin, como era de noite, nenhum deles reclamou muito, e dava pra ouvir Kiba roncando alto, mesmo a um andar de distância.

-Você só pode estar brincando...

-Eu disse que não – Yugao disse, deixando os ombros caírem – Naruto fez esse trato com Momochi Zabuza, e não tem maneira nenhuma de eu fazê-lo voltar atrás, você sabe como ele é...

-Mas Yugao... – ela lutou contra as palavras – Uma coisa desse calibri, é simplesmente impossível! Não tem como um gennin fazer tudo isso, você sabe!

-Eu já não sei mais, Kure-chan... – ela se deixou cair pra trás, descansando um braço acima dos olhos – A maneira como ele age... é tão...

-Idiota?

Yugao rosnou.

-Não, é quase como se ele tivesse tudo isso planejado já, eu sei que é bobagem – ela disse vendo a confusão estampado no rosto da jounnin de olhos vermelhos – Mas ele é tão confiante, eu simplesmente não consigo negar nada a ele...

-Se eu não te conhecesse, diria que esta apaixonada...

-Orusai...

Kurenai riu por um momento, mas depois ficou séria

-Você sabe que vou ter que relatar isso ao Hokage, não?!

-Não se preocupe, eu mesma já mandei um relatório pra ele hoje.

-Mesmo assim... – Yugao assentiu, respirando longamente – Onde ele esta afinal?

-Foi procurar uma espada...

-O que?

-Foi procurar uma espada...

-Mas ele já tem uma, seu namorado deu uma pra ele, não...?

-Gekko não é meu namorado – ela repetiu sem animo nenhum na voz – E sim, ele carrega uma katana de verdade e uma de madeira com ele, mas só usa a de madeira...

-Ele leva a sério aquela promessa de não matar – Kurenai suspirou – Quer dizer que ele lutou contra Zabuza contra aquela espada de madeira?

-Sim! Você devia ter visto – a ANBU se jogou de pé, os olhos brilhando – Foi tão incrível! Eu nunca vi alguém lutar tão bem com uma espada, Zabuza não teve a menor chance! E ainda, no final da luta, Naru-chan conseguiu colocar todos nós em um genjutsu! Foi tão...

-Incrível, eu sei, você parece uma fã-girl falando desse jeito – Yugao corou profundamente, fazendo beicinho – mas como ele conseguiu usar um genjutsu? Iruka-san disse que ele se recusava a aprender qualquer coisa sobre chakra na academia...

Yugao riu com gosto:

-Ele me explicou sobre isso, na verdade...

Ela foi interrompida com um latido que soou fora da casa. Trocando um olhar, as duas se armaram com kunais e foram ver. Ao abrir as portas corredeiras, ambas contraíram as sobrancelhas comicamente ao ver Naruto cercado de filhotinhos de cachorro, que pulavam nele e lhe mordiam as calças, enquanto Haku logo atrás voltava acompanhado de um cachorro... não, era um lobo, e era bem grande.

-Oe, nós voltamos, Yu-chan, Kurenai-san – ele acenou alegremente, ignorando um dos lobinhos que agora escalava pelo seu quimono até se largar exausto e com a língua pra fora encima da sua cabeça – Eu disse que nós encontraríamos uma se procurássemos bastante...

Kurenai observou ele tirar o embrulho das costas, que ela percebeu ser o seu próprio quimono, e desamarrar a faixa. Ambas deram espaço pra ele entrar e colocar o pacote encima da mesa, voltando a amarrar a faixa na cintura, e lenta e solenemente, desdobrar o quimono pra revelar...

-Que merda é essa? – Yugao meteu a mão e puxou a espada com ela, estava quase partida, toda dentada e claramente podre e inútil, não dava nem pra dizer que tinha uma lamina, por que não era possível ver nada entre as camadas de ferrugem e pó.

Naruto quase caiu pra trás, com uma face horrorizada e tentando tirar a espada dela enquanto Yugao balançava de um lado pro outro.

-Isso é inútil... – ela deu de ombros e jogou a arma por cima do ombro, observando com uma sobrancelha arqueada como seu irmãozinho pulou desesperado pra pega-la antes que caísse, e como ele soltou um suspiro aliviado quando ela parou em seus braços – Você não vai conseguir nada com essa coisa Naruto, ela parece ter uns mil anos, usar um galho seco seria mais útil...

-Não se preocupe – ele abriu o mesmo sorriso doce que ostentava por anos, aquele com os olhos fechados e a face inclinada pro lado, que conseguia tirar qualquer coisa dela – Eu só preciso concerta-la, vai ficar incrível quando eu terminar!

Kurenai franziu as sobrancelhas:

-Naruto, concertas espadas é... – ela suspirou – deixa pra lá, você vai entender depois.

-Hai!

-Não diga “Hai” tão alegremente quando estiver te dando uma bronca! – ela o fuzilou com olhar. O sorriso apenas aumentou, ainda mais bonito com as bochechas dele levemente coradas.

-Hai!

-Você é impossível – ela se jogou sentada novamente, emburrada e com os braços cruzados, tentando evitar um rubor que lhe subia a face.

-Eu vou dormir, me acordem se precisarem de mim – ele levou a katana abraçada ao peito enquanto subia as escadas, com os filhotinhos de lobo logo atrás dele – Amanhã vou até a vila pra concertar a espada... deve ter alguma ferraria por aqui...

-Naruto, você...

-Oyasumi...

-...ele não vai desistir disso – Kurenai suspirou, deixando os ombros caírem, olhando irritada pra Yugao logo em seguida, que sorria como se tudo no mundo estivesse perfeito – A culpa é sua, Yu!

-Minha culpa...?

-É! Você mimou ele demais!

Yugao pulou de pé imediatamente, fuzilando a jounnin de olhos vermelhos com o olhar, e apontando diretamente pra ela.

-Eu o mimei?! Era você que sempre levava doces pra ele!

-E você sempre ficava com ele, a noite toda!

-Mas era você que o levava pra passear sempre!

-Eu?! – as duas bateram as tetas uma na outra, tentando forçar uma a outra pra trás numa competição de força – Você que levou ele pro covil da ANBU e apresentou ele a todos os membros!

-Ahhhh... – a expressão raivosa se desmanchou em uma sonhadora – Ele ficou tão bonitinho naquele quimono verdinho...

Kurenai seguiu o exemplo dela, parecendo sonhadora e com as mãos cruzadas no peito:

-Ahhh, é mesmo... kawaii...

Em seguida elas se deram as mãos, coradas, e continuaram discutindo sobre o quão fofo era o irmãozinho delas, alheias a enorme gota que escorria da testa de Haku.

“Como ele consegue fazer essas coisas...”

-Yugao-san, Kurenai-san – Haku chamou a atenção das das mulheres – Eu vou ir dormir, tudo bem?

-Haaai!!!! – ambas responderam alegremente – Pode ficar em qualquer quarto, exceto no de Hinata.

-Hai...

Subindo as escadas, Kohaku abriu o primeiro quarto. Um garoto dormia numa cama, parecendo completamente tranquilo enquanto uma nuvem de incetos voava acima dele. Ele fechou a porta. Na próxima Chihiro e um outro garoto estavam dormindo. Ambos estavam em fuutons, cada um em um canto do quarto, e enquanto os filhotes de lobo cercavam Naruto, ajeitados em qualquer lugar confortável perto dele, o outro garoto tinha ainda um cachorro branco pequeno, que ainda estava meio acordado, observando meio incomodado os pequenos lobos. Ele passou de incomodado a amedrontado quando viu a enorme loba que seguia Haku, e se escondeu embaixo das cobertas do dono, tremendo com apenas o focinho pra fora.

Haku fechou a porta.

-Como sempre, ela se cerca de pessoas muito problemáticas – Haku suspirou, notando que a loba olhava diretamente pra ela – Nani...?

-Oooff!

-Não quer ficar com seus filhotes?

-oooff!

-Entendo, você sabe que eles estão bem...

-Oooff!

-Quer dormir comigo então... tudo bem...

Kohaku saiu com a loba nos calcanhares, talvez tivesse alguma boa árvores pra eles dormirem lá fora...

Zabuza acordou com o sol lhe batendo direto na cara, e sufocando um gemido de irritação, ele levou o braço até o rosto, se recostando mais na parede. Levou um minuto todo pra perceber que podia se mexer, e quando notou isso, ele se jogou de pé alegremente, só pra sentir os músculos travando, e ele cair de cara no fuuton, rolando de dor.

-Você é muito animado pelas manhãs, Zabuza...

Ele parou o exercício de rolar de um lado pro outro pra observar o garoto ruivo na porta, com uma tigela fumegante numa mão, e um prato de onigiris decorados com algas no outro.

-O que você quer?

-Eu vim te trazer o seu café... – ele respondeu com um sorriso tranquilo, apesar do tom claro de raiva do nukennin – Você ainda esta de mal humor?

-O que você acha, seu...

Ele ficou em silêncio como um onigiri foi arremessado diretamente na sua garganta, se virando e tossindo. Por fim, ele passou pela garganta com um bobo enorme que lhe travou o estomago.

-Não fale de boca cheia...

-Você é cruel garoto...

Ele apenas corou e virou o rosto, tentando esconder um sorriso como se tivesse sido elogiado.

-Bem, agora que você consegue se mexer, pode comer sozinho – ele deixou a travessa ao lado do fuuton dele, e logo em seguida os outros onigiris, se sentando e passando a observa-lo com uma expressão boba.

Zabuza o encarou por um minuto todo, então pegou a sopa e tomou um gole dela. Estava quente, mas não a ponto de queimar sua língua, estava grossa, mas no ponto certo, e estava completamente deliciosa. Ele enfiou outro onigiri-gatinho na boca e mandou ainda mais sopa pra dentro.

-Delicioso...

-Arigato.

Logo em seguida três cães de pelo escuro entraram correndo pela sala, só pra pularem encima do garoto, que riu e tentou sacudi-los. Um deles na cabeça, e cada um dos outros em uma das mangas do seu quimono.

-Ótimo... você fez amiguinhos na viagem.

-Eles me seguiram até aqui – ele respondeu com os ombros caídos – não tinha como faze-los voltar atrás...

-Podia tê-los matado...

Uma sombra assustadora passou pelos olhos azuis dele, os deixando gelados como calotas polares. Zabuza tremeu, mas como o olhar passou uma fração de segundo depois, ele considerou que era apenas sua imaginação lhe pregando peças.

-Eu prometi nunca matar ninguém...

-Por que fez isso? Você não é um ninja?

-Hai...

-Então?

-Matar é ruim – ele respondeu simplesmente.

Zabuza o encarou durante um longo minuto, em que ambos ficaram em silêncio, exceto os lobinhos que pulavam de um lado pro outro, lambendo as sobras das sopas na tigela de Zabuza.

-Ahh, você é um idiota, eu cansei de você.

-Que maldade...

-Por que ainda esta me incomodando afinal?

Ele pareceu lembrar de uma coisa, por que bateu um punho na mão.

-É verdade, eu tinha esquecido – ele sorriu, tirando um dos filhotes da cabeça e pondo no chão, só pra ele voltar a escalar seu quimono e se largar encima dos cabelos ruivos – Eu vou até a vila pra concertar a espada que encontrei ontem, você quer vir comigo?

-Não...

-Por que não?

-Por que não, você é chato, me deixe em paz – ele retorquiu com um olhar entediado.

-Ok... – ele se voltou pro outro lado e respirou fundo – YU-CHAN! ZABUZA ESTA ME INCOMODANDO!

Como um raio, Yugao apareceu na porta, uma faca de cozinha enorme na mão e um olhar completamente assassino no rosto.

-Za... bu...za...

O nukennin tremeu e engoliu em seco.

-Oe, era brincadeira Naruto, é claro que eu vou te acompanhar... vai ser divertido...

Naruto sorriu alegremente em resposta.

-Verdade? Legal – então se voltou pra Yugao, que já estava quase no pescoço de Zabuza – Pode deixar nee-chan, era alarme falso...

Ela tirou a faca que estava quase sobre os olhos comicamente arregalados do demônio da névoa, então sorriu e afagou os cabelos de Naruto.

-Tube bem, Naru-chan, se ele te importunar de novo pode me chamar.

Ambos assistiram como a ANBU voltou para a cozinha, girando a faca entre os dedos como se fosse um mero palito.

-Que situação... muito bem, eu vou com você, mas ainda não consigo me mexer direito.

-Tubo bem.

-Por que me quer lá de qualquer forma?

-Preciso que me ajude com uma coisa – os olhos dele ficaram sérios de repente, a expressão totalmente em branco – Enquanto eu estiver nas forjas, não deixe ninguém entrar, por qualquer motivo que seja, ok?

Zabuza o olhou surpreso por um instante.

-Vai fazer alguma coisa pervertida?

-YU-CHAN...

-Tudo bem! Tudo bem! – Zabuza se apressou a dizer, olhando em volta assustado – Vou fazer isso, só não chame aquela maluca de volta...

-Ok.

-Eu estou cercado de gente estranha...

-Você é o único sem sobrancelhas...

-Orusai...

Ártemis não estava nem um pouco contente.

Sendo um mercenário contratado pela facção rebelde de Kiri pra lutar na guerra civil contra o atual Mizukage, Yagura, ele esperava apenas ficar de backup, e matar um ou ouso shinobi, como normalmente fazia. Se intrometer diretamente naquele conflito era algo que ele disse a si mesmo pra não fazer uma porção de vezes, e mesmo assim, estava fazendo.

-Meu pagamento não cobre isso, você sabe...

Mei olhou pra ele com uma carranca irritada.

-Chega de papo, me tire logo daqui – ela olhou em volta, os dois guardas jounnin mortos com flechas no pescoço – Como conseguiu entrar afinal?

-Os guardas estavam bêbados...

-Não todos...

-Alguns estavam.

-Você os matou?

-Sim...

-Alguns?

-Todos...

Ela sorriu lascivamente a conversa tipicamente monossilábica do arqueiro.

-Você é bom – ela observou como ele tirou uma seta da aljava nas costas, e usou a ponta metálica serrilhada pra abrir o cadeado – Nível jounnin, eu diria. Que tal aceitar ser um shinobi de Kiri após a guerra?

-Não sou um shinobi...

-Mas você...

-Sou apenas um arqueiro – ele recolocou a flecha nas costas, e puxou a grade aberta, ela rangeu, mas por sorte, os outros presos continuaram dormindo – venha, não temos a noite toda.

Mei o seguiu de perto em silêncio, observando curiosamente as expressões dele por baixo do capuz marrom. Não era uma tarefa fácil, além de todo seu rosto estar escondido por trás do manto pesado e uma nuvem de cabelos compridos, não havia realmente expressões a serem analisadas. A boca dele estava travada numa linha dura e reta, que não parecia se mover nem mesmo quando ele falava, e os olhos pareciam apenas dois poços de cor escura, que quase não se distinguiam por baixo dos cabelos castanhos.

Um guarda desavisado surgiu pela entrada, parecendo assustado por um segundo ao ver seus dois colegas mortos, e um dos presos caminhando calmamente pra fora acompanhada de uma figura encapuzada.

No próximo segundo ele estava morto. Sem nem parar de andar, e tão rápido que Mei nem teve tempo de reagir, Ártemis puxou duas laminas das mangas e as atirou diretamente no pescoço do chunnins, o matando imediatamente, sem nem um barulho além do som sufocado de um último suspiro.

A líder dos rebeldes observou as laminas, não eram kunais, eram simples dardos de metal longos e afiados, que ele puxou de algum lugar dentro da manga. Foi um assassinato tão rápido e eficiente que ela não pode conter um arrepio.

-Você é realmente muito bom...

Ele deu de ombros.

-Vamos sair logo daqui, antes que descubram que você fugiu... – ele virou a cabeça pra olha-la diretamente, pela primeira vez – A propósito, conseguiu os planos?

-Quem você pensa que eu sou – ela apontou a própria testa com um sorriso afetado – Esta tudo aqui, não pensei que conseguiria tanta coisa, o plano foi um sucesso.

-Suponho... Ainda não estão me pagando por isso.

Correndo por sobre os telhados, Mei riu enquanto se jogou sobre ele, quase o derrubando. Ela o abraçou por trás e levou os lábios ao pé do seu ouvido.

-Bem... eu posso pagar por isso, se quiser... – Mei sorriu. Mesmo por baixo do capuz e da franja comprida e pontuda, era fácil ver como seu rosto ficou puramente vermelho e quente.

A única coisa que a líder dos rebeldes disse sobre o atraso do seu retorno a base foi que houveram “complicações estratégicas”. Ártemis, estoico como sempre não disse nada pra complementar isso, mas sempre que alguém perguntava a ele por detalhes, dava pra ver seu rosto se aquecendo até ficar vermelho feito um tomate.

Observei Zabuza com o canto dos olhos enquanto seguíamos pela vilha, até a ferraria que Tsunami nos indicou. Apesar da face coberta com as bandagens, e dele me seguir em silêncio, a primeira vista alheio a tudo, dava pra ver como os olhos dele corriam pelas casas velhas, algumas abandonadas e destruídas, outras quase caindo aos pedaços, mas com gente morando lá dentro. As pessoas nos observavam por onde passavam, a maioria saindo do nosso caminho, se escondendo na sombra entre os becos, outras nos acompanhando com os olhos enquanto seguíamos pela rua, os olhos presos na espada gigante de Zabuza, ou no filhote de lobo que dormia calmamente no alto da minha cabeça.

-Essas pessoas poderiam muito bem morrer... – ele comentou depois de alguns quarteirões.

-Se morressem, não restaria nada a elas.

-Elas não tem nada.

-Tem o amanhã...

Quase como se pra enfatizar o que eu dizia, uma criança pequena correu pra nos acompanhar, e me chamou a atenção puxando a manga do quimono. Ela estava com o rosto sujo e os joelhos ralados, o cabelo num tom claro de azul embaraçado e lhe caindo acima dos olhos. Com o rosto corado, ela me estendeu as mãos, sem tirar os olhos do chão.

Zabuza permaneceu em silêncio, enquanto eu tirei um pergaminho de dentro do bolso, e entreguei ao garoto. Ele me olhou curioso, enquanto me aproximei do seu ouvido e cochichei o que deveria fazer, mostrando os sinais de mão devagar pra ele decorar. Ele concordou e correu.

-O que foi isso?

-Nada demais...

A ferraria era um prédio um pouco mais conservado que os outros, reforçado com vigas e alicerces de metal, com sucata forrando o teto. Era toda aberta, como um barracão, e apesar do frio sempre constate da região, as brasas sempre presentes na forja aqueciam o ambiente, e o casulo de cascas de ferro formava um inteligente isolante térmico.

-Desculpem, mas não estou pegando mais pedidos – o velho disse, sem levantar os olhos da peça quente que ele martelava – Já estou cheio de trabalho, e...

Ele se calou quando soltei um saco de moedas encima da mesa de ferramentas, ao lado da bigorna. As moedas tiniram, e algumas rolaram pela mesa, chamando com muita eficácia sua atenção.

-Não queremos comprar nada, eu apenas preciso que me empreste a forja por algumas horas, preciso concertar minha espada.

Ele franziu as sobrancelhas pra mim, até notar a espada em minha cintura. Sem pedir permissão, e sem que eu o impedisse, ele puxou a espada de Gathou pra fora da bainha.

-Concertar, você diz... – ele examinou a lamina – Essa é uma bela espada, não vejo o que precisaria de concerto nela...

-Essa não é minha espada – eu puxeio embrulho das costas, largando os restos da Sakabatou encima da mesa de ferramenta – Essa é.

-Esse resto de sucata?! – ele pegou um dos fragmentos pra olhar, raspando a ferrugem com a unha. Testando a resistência, ele forçou a lamina, e com facilidade, ela se partiu – Você deve estar brincando.

Zabuza aparentemente concordava com ele.

-Vai ficar perfeito quando eu terminar com ela.

-Não sei se você sabe garoto – ele apontou pras pilhas de metal ali – Mas ferro comum não serve pra fazer uma espada – Não duraria um segundo numa luta de verdade...

-Não vou usar seu ferro – puxei a espada de Gekko da cintura – Vou usar isso.

Ele me olhou como se eu dissesse que ia assassinar seu único filho.

-Você é louco garoto? Estragar essa obra de arte pra tentar reparar aquela pilha de lixo?!

Zabuza, que até então estava recostado em uma das vigas, alheio a conversa, disse:

-Não se incomode em tentar mudar a mente dele, é impossível – o ferreiro tentou retorquir, mas Zabuza não lhe deu chance – apenas pegue o pagamento, e volte a noite, o que fazemos com nossas espadas não é do seu interesse.

Ele ainda ficou perplexo por alguns segundos, mas acabou dando de ombros, e largou a ferradura dentro de um barril de água. Pegando o dinheiro, ele cuspiu na forja, fazendo o carvão estalar e disse:

-Como quiserem, só não venha reclamar depois...

-Hai, Arigato.

Resmungando consigo mesmo, ele saiu a passos largos. Do dinheiro que conseguiu, ele disse que gastou todo em sakê e peixe frito, mas Tsunami me disse mais tarde que ele distribuiu quase tudo pelas famílias desabrigadas na vila.

-Muito bem garoto, agora que tem a forja pra você, o que planeja fazer? Você ao menos sabe como usar os foles?

-Não se incomode comigo Zabuza – puxei todas as ferramentas pra longe da bancada, deixando o meu espaço de trabalho o mais limpo possível. A bigorna ficava encima de um suporte reforçado, mas não iria aguentar de jeito nenhum. Sem me incomodar com o calor, a levantei e larguei no chão, tirando o suporte do caminho, e com alguns selos, levantando um pilar de rocha reforçado com chakra. Coloquei a bigorna encima novamente, a ajeitando bem no centro. Ele me acompanhou com o olhar o tempo todo, me olhando de forma repreensiva quando soltei o cabo de madeira da espada de Gekko, ignorando o lamento dela, e parti a lamina em dois.

Ela se calou após isso, mas eu ainda podia sentir a essência dela ali. Ótimo. Ela seria um sacrifício adequado. Fazer novas espadas era criar uma nova alma pra ela, mas pra reviver uma lamina morta... era um pouco mais complicado.

-As coisas vão ficar quentes aqui dentro – eu disse, o mirando seriamente com os olhos queimando em brasa pra ele saber que era sério – Cubra as entradas com telhas, e não deixe ninguém entrar aqui dentro até que eu tenha terminado.

Ele ofegou, os olhos brilhando vermelhos, mas fez como eu disse. Dez minutos depois, eu estava sozinho, no escuro da ferraria, com as brasas acesas da forja iluminando parcamente o lugar.

-Hora de começar...

Zabuza fez como o garoto pediu, e cobriu todas as entradas da ferraria, pra logo em seguida sair e ficar de guarda do lado de fora. Ele não entendia o que o garoto estava fazendo, nem por que ele era tão sério sobre isso, mas ele seria louco se não o obedecesse. Aqueles olhos vermelhos profundos pareciam prometer um mundo de dor e sofrimento pra quem fosse tolo de não ouvir o que ele dizia.

Aquele garoto não era comum, isso era um fato.

Poucos minutos depois de sair, um chakra lentamente começou a queimar ali, como um fogo baixo, que lentamente fosse aumentando. Era uma energia extremamente quente, quase como se o chakra dele fosse fogo puro. Uma gota de suor escorreu pelo rosto do espadachim da névoa, enquanto o calor aumentava lentamente, mais quente a cada centímetro que ele ficava da ferraria.

Ele não queria nem descobrir o quão quente estava lá dentro, nas forjas.

O calor aumentou ainda mais, e tornou a aumentar. Zabuza tirou zambatou das costas, e desenrolou as faixas em torno do rosto, secando o suor da testa com as guardas de braço. O chakra emanando dali era tão forte e condensado que era visível, labaredas rosa alaranjadas escapando pelas frestas de madeira, ora aquecendo em picos e se tornando vermelho carmesim, pra voltar a cor normal em seguida.

Quando o calor estava insuportável, duas coisas aconteceram:

De dentro das forjas, começaram a sair o som de marteladas.

Yugao apareceu ali, e pela cara dela, não estava nada feliz.

Yugao correu o máximo que conseguia, seguindo o traço extremamente familiar do chakra de Naruto. Ela não precisou se concentrar muito, ele estava praticamente queimando, explodindo em cor, como um farol extremamente fácil de seguir até para o mais humilde dos sensores.

O chakra vermelho sangue, da Kyuubi, também estava claro, muito nítido entre o chakra do seu irmãozinho, explodindo em ondas violentas através do dele. O que diabos estava acontecendo?!

Preocupada até a morte, ela parou de correr quando viu o galpão fechado com telhas, com Zabuza na porta. Fagulhas de chamas rosa alaranjado e vermelho sangue escapavam entre as frestas de madeira, enquanto o som de marteladas ressoava entre as vigas metálicas como trovoadas.

Ao redor da vila, as pessoas sentiram o calor aumentar de uma vez, mas não sentiram mais nada. Como não eram treinados, eles não podiam sentir o chakra, nem ver as fagulhas de energia que escapavam do galpão, mas os animais, por alguma razão, podiam. E todos eles se encolheram enquanto o chakra bestial cobria a vila em ondas de poder. Todos eles, exceto os três filhotinhos de lobo, que observavam calados as forjas, uma inteligência incomum brilhando nos olhos.

-Zabuza, o que esta acontecendo? – Yugao quase gritou, pulando para o lado dele e rumando em direção ao galpão. Ela parou quando a zambatou foi colocada entre ela e a entrada – O que...

-Desculpe, mas o garoto disse que ninguém deveria entrar.

-Do que você esta falando, o que aconteceu com ele? Ele esta bem – ela tentou contornar a espada gigantesca, mas Zabuza se moveu novamente, ficando frente a ela – Zabuza...

-Você é assustadora, mas eu prefiro mil vezes enfrentar você do que aquele garoto... – ele deu um sorriso debochado, embora os olhos estivessem tensos – Se quiser entrar, vai ter que passar por cima de mim.

-Zabuza... saia da frente.

-Não...

Yugao puxou duas kunais.

-Eu estou avisando...

Ele ergueu a espada em riste.

-Eu também...

A cena durou exatamente sete segundos muito tensos, até que Haku apareceu ao lado de Zabuza, o puxando pela orelha.

-Zabuza-sama, seja bonzinho.

Uma gota escorreu da cabeça de Yugao enquanto o espadachim lendário era sacudido pela orelha, com os olhos arregalados.

-Você pode entrar se quiser, Yugao-dono, só não interrompa o Naruto-kun... – Haku disse com um sorriso, e a ANBU, mesmo com a estranheza da situação, passou adiante.

Quando ela soltou a telha da passagem, todos seus músculos enrijeceram, e ela ficou congelada no lugar.

Naruto estava no centro da forja, martelando um pedaço incandecente de metal, com suor lhe escorrendo pelo corpo, refletindo o calor da forja e fazendo seus músculos e face brilharem. Chamas alaranjadas de chakra lhe cobriam o corpo todo, lambendo sua pele inofensivamente, ora ficando rosa claro, ora vermelho sangue, quando o chakra da Kyuubi explodia em ondas. Dessas ondas, nove pareciam varrer o ambiente, como nove caudas enormes imateriais que agitavam constantemente.

Os olhos dele, focados na lamina que queimava viva em várias cores, estavam acesos, cintilando vermelhos.

-O que... – Zabuza olhou pra dentro, tremendo – Esta acontecendo?

Naruto não se deu conta que eles estavam o observando. A cada martelada, o chakra ficava mais e mais forte, escorrendo pra espada e refletindo no ambiente. Pura energia que penetrava o metal e o derretia, o moldava, o reforçava, o livrara das impurezas. Se a expressão “forjada nas chamas do inferno” poderia descrever alguma coisa, seria aquela cena.

Ainda alheio a sua assombrada plateia, o ruivo pegou a lamina cintilante e a afundou no barril de água, a fazendo chiar pelo resfriamento bruto. Mal ele a tirou de lá, o chakra queimou novamente, tornando a aquece-la, e seguiam-se as marteladas.

Esse processo se repetiu um número incontável de vezes, até que de repente, levantando os olhos, novamente azuis, ele olhou fascinado para o fio de metal que se revelava.

-Esta perfeita... – ele brandiu a lamina espelhada, apreciando o som que o fio, mesmo ainda cego, fazia ao cortar o ar – Rurouni no seishin...

Voltando os olhos para a entrada, ele observou Yugao, ainda parada com cara de tacho, e Zabuza, igualmente perplexo, e Haku, sorrindo como se não tivesse nada a ver com aquilo.

-Ora... desde quando estão aí?

Zabuza deu de ombros, se sentando ao lado dos lobos e compartilhando o olhar perdido deles entre algum ponto do nada. Yugao, por outro lado...

Ela pulou em cima dele, o abraçando e sacudindo de um lado pro outro.

-Naru-chan – ela chorou – Eu fiquei tão preocupada com você! O que aconteceu?

-Nani... eu estava concertando a espada que encontrei – ele levantou a lamina ainda inacabada, sem o fio e sem o cabo – Ainda falta terminar, mas ela esta muito boa.

Yugao observou a espada ainda bruta nas mãos dele. O metal parecia perfeito, liso como vidro e refletindo tudo a sua volta como um espelho, mesmo ele tendo acabado de tira-la das forjas. O quão refinado era aquele trabalho?! Ela não conseguia dizer, mas por ter experiência com espadas, sabia que mesmo um ferreiro com uma vida de experiência não conseguiria produzir algo tão fino e perfeito como aquilo.

-Naru-chan... Como foi que você fez isso? – ela perguntou – Você sabe forjar?

Ele olhou pra ela com um sorriso levemente malicioso.

-Não... Mas ele sabe... – os olhos dele se acenderam em vermelho por um único instante, como que pra ilustrar o que ele dizia, antes de voltar ao azul céu de sempre – Eu ainda tenho que terminar de afiar e colocar o cabo nela, então não me atrapalhem.

Ele empurrou Yugao pra fora com um sorriso, mas dessa vez não ergueu as telhas. Com a luz incidindo novamente nas forjas, todos observaram como ele prendeu o cabo da espada de Gekko em torno da sua nova lamina, e a afiou o lado inverno som cuidado.

A cada vez que a pedra de amolhar corria pela lamina, ela parecia cantar. Rurouni no seishin, o espírito do andarilho, estava de volta ao mundo.

Inari observou com os olhos em frestas como o time de Kurenai praticou a manhã toda andar sobre a água. A garota de olhos prateados pegou o movimento de primeira, e com as dicas dela, o garoto de capuz conseguiu fazer isso logo em seguida. Eles eram fortes.

Mas o garoto com o cachorro não era, e isso o deixava irritado. Será que ele não percebia que não era forte como os outros dois?! Por que continuar tentando sempre, se era óbvio se ele nunca conseguiria?!

-Maa... – ele resmungou, saindo do rio e respirando fundo, enquanto engasgava, tirando água do pulmão – Eu quase consegui dessa vez, vamos Akamaru! Não vamos parar até conseguir!

Novamente ele pulou no rio, ficou de pé por dois segundos, e logo quando a primeira onda bateu na areia, ele caiu, indo de cabeça para o fundo e se arrastando pra praia novamente.

E de novo. E de novo. E de novo. E mais uma vez.

-Estamos quase conseguindo Akamaru, vamos mais uma vez!

-Auff!

E de novo. E de novo. E de novo...

-Vocês são idiotas? – Inari perguntou, sem conseguir se conter, fuzilando os olhos do garoto com raiva – Por que você continua tentando sendo que não vai conseguir?

Kurenai olhou pra ele por um momento, e perdeu o interesse logo em seguida, assim como Shino. Hitana, no entanto, apenas o olhou com pena, enquanto Kiba o agarrou pelo colarinho.

-O que você disse pivete?

-Por que você continua tentando, sendo que obviamente não vai conseguir? – ele repetiu entredentes, apontando pros seus outros companheiros – Aqueles dois conseguiram, eles são mais fortes que você. Por que você não aceita isso logo, por que não aceita logo que nunca vai ser tão forte quanto eles?

Kiba o largou no chão com um olhar de desprezo.

-Como se eu precisasse me explicar pra um pivete chorão que fica o dia todo chorando abraçado a um retrato.

-Oe, Kiba-kun... – Hinata tentou conter a situação, procurando alguma ajuda nos olhos da sua sensei e Shino. Não viu nada, eles não estavam sequer prestando atenção – Você...

-E o que você sabe? – Inari gritou com lágrimas nos olhos – Você não vai ficar forte nunca, isso é um fato! Você não sabe o que é sentir dor, então não pode vir aqui se achando melhor que nós!

A expressão dele endureceu. Ainda carregando o garoto pelo colarinho, ele se aproximou de uma árvore, e deu um soco nela. A árvore se partiu ao meio, caindo num ângulo estranho sobre as outras, ao olhar estupefato de Inari.

-Gathou pode fazer isso garoto? – Kiba perguntou, os olhos frios o mirando diretamente, com as pupilas em fenda focados diretamente nele – Nesse mundo existem pessoas fortes, muito mais fortes do que eu e do que Gathou. Um pivete chorão e covarde como você não ia entender isso...

Ele largou o garoto no chão, como se fosse um mero verme inútil, antes de se voltar para o cachorro e tentar mais uma vez o exercício de andar sobre a água, falhando totalmente mais uma vez.

Com os olhos tremendo, Inari se levantou e correu.

-Inari-kun... – Hinata murmurou, se voltando pra Kurenai – Kurenai-sensei, por que você não...

-Não impedi o Kiba? – ela sugeriu – Por que ele esta certo.

-Mas...

-Você ouviu a história daquele garoto Hinata, como ele perdeu o pai e como abandonou o cachorro – ela disse sabiamente, com um sorriso simpático que nada tinha a ver com a condição dele – Ele passou por maus bocados, mas então, todos nós passamos por momentos difíceis. Cabe a cada pessoa encontrar sua força, e se levantar novamente. Eu já fiz isso, assim como Kiba esta fazendo, e todos os shinobis o fazem em um momento ou outro na vida. Mas aquele garoto escolheu se encolher e chorar pelo mundo, ele nunca se levantou, e nada do que digamos pode mudar isso. Ou ele se levanta por si mesmo, ou vai continuar sendo um covarde pra sempre, e não tem nada que eu desprezo mais que covardes...

-Sensei...

Kurenai suspirou, apesar de parecer cruel, era tudo tão recheado de verdade que chegava a ser triste. Ou se levanta, ou morre caído no chão, como um cachorro. Ela observou Kiba praticando incansavelmente no rio, e não pode evitar ficar com orgulho dele. Treinar alguém que consegue fazer tudo de primeira não tem graça nenhuma, a alegria de ver alguém se esforçar com cada fibra pra conseguir fazer algo era muito mais incrível e digno de nota.

Voltando os olhos pra estrada, ela notou Yugao e Naruto andando em direção a casa, seguidos por Zabuza e Haku. Ela os acompanhou com os olhos até que estivessem a menos de dez metros a sua frente, e uma gota enorme escorreu pela sua cabeça.

-Yu, por que você... esta nos ombros do Naruto?

Com um sorriso bobo ela acenou de volta, sentada sobre os ombros do garoto e segurando firmemente o seu rabo de cavalo pra não cair. Ele fez uma careta cômica de dor quando ela puxou com mais força pra ele parar, e então sorriu aliviado quando ela desceu.

-Kure! Ver as cosias sempre da mesma altura não tem graça nenhuma!

-Isso não faz sentido... – ela resmungou com ela mesma, pesarosa por nunca ser ouvida. Yugao estava borbulhante, praticamente quicando de alegria por nenhuma razão aparente.

-É a punição do Naru-chan por me deixar preocupada! – ela disse em um tom repreensivo, mas qualquer efeito foi estragado pelo sorriso enorme que ela parecia não conseguir tirar da cara – Como seus alunos estão indo?

-Hinata pegou de primeira e Shino logo em seguida – ela apontou para os dois, que estavam observando enquanto Kiba fracassava repetidamente – Já Kiba precisa de um pouco mais de trabalho, seu controle de chakra não é muito bom.

-É por causa da quantidade de chakra dele – Naruto disse com um sorriso – Quanto se tem muito chakra, é difícil dosar ele direito, é como tentar encher um copo com uma mangueira.

Elas concordaram com um sorriso.

-Não importa! – Kiba gritou ao sair da água, mesmo eles estando longe, ainda dava pra ouvir perfeitamente pelos seus sentidos a flor da pele – Eu vou continuar praticando até conseguir, foda-se o que aquele pirralho disse!

-Nani?

Kurenai suspirou, enquanto explicava a breve discussão entre o filho de Tsunami e Kiba. Yugao apenas deu de ombros, enquanto Naruto voltou os olhos pra sacada da casa, onde sabia que ele estava encolhido, lamuriando baixinho. Sem dizer nada, ele seguiu até a casa.

-Aonde você vai Naru-chan?

-Vou ter uma conversa com ele.

-Tem certeza que...

-Hai...

Yugao deu de ombros, derrotada. Voltando-se pra Kurenai, ela a viu tentando segurar o riso.

-Nani?

-Você não consegue dizer não a ele né?!

-Ahh... é que ele é tão kawaii! – estrelas brilharam nos olhos dela – Lembra quando ele foi pra academia com um quimono rosa, e todos pensaram que era uma menina?

As mesmas estrelas se acenderam nos olhos de Kurenai.

-Ahhhh, deu vontade de abraçar e não soltar mais!

-Nee?!

-Nee?!

-Kawaaaiiii! – elas gritaram juntas, se abraçando.

Zabuza saiu dali sem dizer nada, enquanto Haku apenas sorria sem graça. Ele estava cercado de pessoas malucas.