Notas iniciais
Antes de vocês lerem, alguns recadinhos do autor: Primeiro: Sobre a fic "Cinco mil e tantas páginas". Eu nunca pensei, nunca mesmo, que me sentiria decepcionado com meus leitores por ganhar tantos rewies em uma fic. Não entendam mal, eu adoro rewies, eu leio todos, e os melhores eu leio mais de uma vez, funcionam como motivadores pra mim, ainda mais nessa fase de merda que eu to passando agora. O problema é que... Ela não é uma fic séria, eu não planejei nada pra ela, só fui escrevendo de improviso e deixando sair qualquer coisa que me passasse pela cabeça. O que me incomoda é ela - uma fic de improviso pra passar o tempo - ser tão apreciada enquanto Kaen, a minha fic mais complexa e trabalhada, continua com tão poucos comentários. No último capítulo eu tive apenas um punhadinho de rewies, assim como no especial da Tigrinha. Pô, qual é a de vocês?! Sabem como é difícil escrever vinte mil palavras e revisar tudo, tentando deixar fluído o suficiente pra não ficar chato?! Se eu falhei tudo bem, eu sou humano, mas isso é mais um motivo pra comentar a fic e me explicar onde ficou chato e onde ela precisa melhorar, não deixar rewies, principalmente nesses casos, é indiferença pura e fria, é a mesma coisa que falar com uma pessoa que ta mais concentrada no vento do que em vocês, e nada desanima mais a continuar com uma história do que isso. Por isso eu estou pedindo, por favor, comentem. Não precisa ser aqueles comentários enormes e fodas que as vezes aparecem nos capítulos, como o do Gabriel ou do Lucas, mas façam um esforço. Eu garanto, fazer um rewiel decente é mil vezes mais fácil que fazer um capítulo decente, se eu já me dediquei a parte mais difícil, que custa vocês perderem dois minutinhos comentando?! Eu não estou dizendo isso pra todo mundo, mas a carapuça vai servir em quem sabe que é culpado, então se liguem. Se você não gosta da fic, ou se lê só pra passar o tempo, beleza, não vou cobrar nada de vocês, mas tem muita gente que já veio me dizer, na cara mesmo, que eu sou o autor favorito delas e que Kaen é uma ótima história, então pra que não comentar o filho de Deus?! Segundo... ... Eu esqueci qual era o próximo aviso. Enfim. Agradecimentos especiais a: Meus dedos, principalmente, e ao Ivan por inventar essa piadinha legal; ao Mateus - os dois - e ao Reshi/Gigi/Estrelinha da manhã/Pride/uma caralhada de outros nomes. Por motivos pessoais ele sumiu por quase três meses e eu fiquei preocupado que o cara tivesse sido preso e/ou expulso de casa e/ou espancado até a morte (também por motivos pessoais). Como ele voltou, já tenho mais alguém com quem atormentar a ler meus rascunhos e ouvir minhas ideias. Quero agradecer também ao Gustrubio, que mesmo dando /kit@life (sauve Cauêzão) da internet, vai voltar em algum momento e corrigir todos os erros escrotos que vocês nunca acham nos meus capítulos. Ah sim, lembrei do segundo aviso. Eu estou, de novo, começando pela primeira vez com o projeto sem nome que eu resolvi chamar de: "Doação de ideias". Quem quiser escrever uma fic e não tiver bolas, digo, manha pra isso, pode me dar um toque e eu vou ajudar como puder. Eu tenho algumas centenas de milhares de ideias que nunca cheguei a escrever, e estou disposto a emprestar qualquer uma delas pra quem tiver carente disso. Fala sério, eu sendo gente boa e vocês nem comentam né?! A consciência vai pesar agora, eu sei que vai. Vou terminar essa nota que espero ter tocado o coração de algumas pessoas, ou pelo menos, feito elas rirem de quão idiota eu sou, e começar logo com o capítulo. Eu estou baixando o número de palavras dele pra não ficar tão cansativo, então os exames chunnin vão durar um pouco mais. Abraços -Hound.

Há certas coisas nesse mundo que ninguém vê. Que ninguém deveria ver.

“Que fome...” – o youkai murmurou, com sua voz de vento nas árvores. Ele estava a dez minutos olhando fixamente para o pequeno tempo, onde uma velha senhora tinha acabado de deixar uma oração silenciosa junto com uma oferenda, um pequeno bolinho cozido de passas.

Apesar de templo soar grande e impressionante, com várias salas e muito chão e telhado, e paredes e árvores e escadas, aquele não passava de uma pequena tabula de pedra, na beirada de uma trilha que levava ao lago, dentro do bosque. A grande maioria dos templos não passava muito daquele tamanho, exceto os dos grandes Deuses, os famosos, que tinham danças e festivais e gerações de seguidores. Esquecido e enegrecido, no entanto, se aproximar daquele pequeno marco de rocha era muito mais assustador do que de um templo grande, e isso se devia, principalmente, a imagem gravada nele.

Humanos não se lembravam, é claro, mas não havia um youkai que não o reconheceria.

Acima de todos os seis mil, seiscentos e sessenta e seis demônios, o Senhor do nono inferno, o mais assustador dos quatro cavaleiros, e o mais cruel dos dois Deuses demoníacos.

A raposa de nove caudas. Guerra.

“Eu não devia... mas eu estou morrendo de fome “ – Hishigaki chorou consigo mesmo. Apesar da aparência monstruosa, com cabelos brancos compridos e a cabeça gigante, com um único olho enorme no meio da cara, sua voz era gentil. Mesmo com as garras, seu toque era delicado, e tremia de uma forma quase cômica, enquanto ele estendia a mão pra pegar o bolinho, parecendo pronto pra pular pra trás ao menor sinal de perigo. Apesar de estar tão concentrado, ele só notou a segunda mão quando ela tinha ido e vindo, como um bote de serpente, levando o bolinho consigo. Enquanto encarava a estranha, com a boca aberta em descrença, ela devorou o bolinho todo.

“Que pena... não é tão gostoso assim” – disse ela, e a ela me refiro a garota estranha que estava sentada encima do monumento da Kyuubi. Ela tinha cabelos cor de palha e o rosto pálido, mas atraente. Seus olhos, no entanto, eram dissimulados.

Um observador perspicaz poderia ter dito que a gentileza de Hishigaki combinava com suas feições, assim como a dissimulação e a sombra de crueldade carinhosa nos olhos dela combinava com a aparência monstruosa do youkai. Enquanto se encararam, no entanto, nenhum deles se pegou prestando atenção nisso.

“Meu bolinho de passa!” – o youkai puxou os cabelos, olhando quase desesperadamente pros farelos nos lábios da garota.

“Não seja um bebê chorão, ele ficou aqui bastante tempo – ela disse, com uma voz que combinava com os olhos. Divertidos, carinhosos e cruéis – Eu só peguei por que você não parecia querer...”.

Na verdade, é claro, ela só estava esperando Hishigaki fazer o primeiro movimento. Os entendidos de crueldades vão concordar comigo: As coisas simples são as que mais machucam, e ela era especialista nisso, sendo quem era, não tinha como não ser.

“Sua garota levada, sua alma vai ficar suja!”

“Se você gosta de bolinhos de passas, por que não pega os do Nanatsuji?” – a garota disse, com um sorriso amplo, se referindo a uma tenda de doces da aldeia – Eles são bem melhores e mais frescos do que esse...”

“Você consegue me ver?” – o youkai perguntou, meio desconfiado, olhando por cima do ombro e tentando sair da frente dela. Os olhos da garota, no entanto, os seguiram como lanternas amarelas.

“Claro, você é enooooooooooorme!” – ela abriu os braços, pra dar ênfase no que dizia.

“Eu não sou!”

A olhos dissimulados apenas riu, pulando para o chão e ficando cara a cara com o youkai, que se afastou um pouco, intimidado.

“Por que não fazemos assim: Se você me derrotar, eu vou te comprar todos os bolinhos de passa que você puder comer, que tal?”

“Te derrotar?”

“É, então... em guarda!”

Antes que o youkai pudesse sequer compreender do que a garota estava falando, uma espada de madeira acertou com força razoável a sua cabeça, apenas o suficiente pra manda-lo um pouco pra trás, com um galo dolorido e lágrimas nos olhos.

“Não valeu, eu ainda não estava pronto” – ele disse, com a voz de vento nas árvores mole e lamentosa.

“Azar o seu” – ela deu de ombros, entregando um pedaço de papel e um pincel – “Como você perdeu, agora vai ser um dos meus seguidores, assine aí”.

Hishigaki assinou o papel e o devolveu, ainda resmungando consigo mesmo que tudo aquilo tinha sido injusto. Sua voz morreu na garganta, no entanto, quando a garota mirou o papel e, aos poucos, um sorriso totalmente novo nasceu no seu rosto. Não era como os outros, esse realmente alcançava os olhos, e eles brilharam de uma felicidade pura e simples, que era tão raro de se ver nela.

“Ei, você tem um lindo nome!” – ela riu, em tom de brincadeira – “Agora, sempre que eu te chamar, você vai ter que vir me proteger, certo?!”

“Tudo bem...- o youkai de de ombros, até algo tremendamente óbvio lhe ocorrer – Ei, como você pode me ver? E por que estava encima do templo de Guerra, você não sabe que ele vai te fazer em pedaços se você demonstrar desrespeito?!”

A garota tentou respondeu, mas o youkai agora estava correndo em círculos, com a mão na cabeça, tão apavorado que era hilário.

“Droga, eu dei meu nome pra alguém que ofendeu um Deus-Demônio, se Guerra vier atrás de você e eu estiver junto, ele vai me fazer em pedaços com certeza!”

“Nossa, você é barulhento... – ela suspirou, e então acertou a cabeça dele mai uma vez, o mandando em silêncio pro chão – Assim é melhor...”.

“Você é muito violenta – Hishigaki fungou – Quem é você afinal?”

A garota sorriu, e por um segundo, o youkai pode jurar que seus olhos estavam vermelhos.

“Meu nome é Chihiro”.

“Chihiro...” – Hishigaki sorriu, de um jeito tão triste e sincero que era lindo – “Chihiro...”

“Chihiro...”

“Chihiro... Você também não vai me chamar hoje?”

Naruto acordou com um susto, vestindo apenas uma bermuda ao lado de Anko, que ressoava tranquilamente, apertada ao travesseiro. Ele respirou fundo por alguns instantes, antes de tirar os cabelos molhados de suor da testa.

–Hishigaki... – ele murmurou consigo mesmo, e então sorriu, um sorriso pequeno e triste, que não poderia se comparar ao dele. Ele ficou por algum tempo parado, encarando o nada, com os cabelos soltos sobre as costas nuas, observando a madrugada se tornar manhã através da janela. Foi mais ou menos nesse ponto que ele se lembrou de Anko, ao seu lado, e se virou pra observa-la.

“Boba... eu amo você”.

Ele sorriu com a lembrança e se deitou novamente, ao lado dela, pescando uma mexa dos cabelos roxos e a passando pra trás da orelha. Anko se moveu um pouco, sorrindo enquanto abraçava o travesseiro. Se inclinando, ele deixou um beijo nos lábios dela, lento e carinhoso, como todos os melhores beijos eram.

–Não... eu não quero acordar – ela resmungou.

–Mas você tem – Naruto respondeu, sem saber se ela falava com ele mesmo, ou se estava apenas murmurando durante o sono.

–Não... eu quero ficar no meu sonho – ela respondeu, com a voz mole – Ele é tão bom...

Naruto riu baixinho.

–E qual é o seu sonho?

–Eu estou na cama com o Naru-chan...

–Isso não é um sonho Anko...

–É sim... qualquer coisa tão boa não pode ser real.

Ele sorriu displicentemente, era verdade.

–Se abrir os olhos vai me ver aqui com você.

–E se eu abrir e você tiver desaparecido? – ela tremeu levemente – Eu não quero que você desapareça...

–Eu vou ficar sempre com você, a menos que você não me queira mais.

–Eu sempre vou te querer.

–Mesmo?

–Não importa o que – ela prometeu, baixinho, sem ter muita consciência do que aquilo poderia querer dizer, do que poderia querer dizer pra Guerra – A não ser que você não queira ficar comigo.

–Vou sempre desejar você Anko.

–E se eu ficar velha?

–Nós vamos ficar – ele respondeu – Juntos.

–É uma promessa?

Naruto correu os dedos, lentamente, pelo seu braço, até tomar mão dela na sua, e enlaçar seus mindinhos.

–Eu prometo.

Anko pareceu fazer um grande esforço pra abrir os olhos, e não pareceu acreditar muito quando viu Naruto ali, ao seu lado, com os cabelos bagunçados e os olhos azuis meio desfocados de sono. Ela piscou algumas vezes, tentando limpar o sonho da cabeça, mas a realidade por trás dele era idêntica ao que ela queria, perfeita.

Algumas lágrimas lhe escaparam dos olhos, antes que ela pudesse se controlar, mas foi só por um segundo. No outro Anko já era ela mesma, pulando e fazendo barulho, e no geral, constrangendo o garoto tanto quanto era possível.

–Ahh, Naru-chan, eu tive um sonho tão bobo – ela riu – Eu sonhei que nós estávamos casados, da pra acreditar?

–Não é um sonho tão mal assim – ele assegurou, vendo a incerteza e a esperança nos olhos roxos dela tanto quanto podia ver o negro da sua pupila e as pequenas veias avermelhadas.

–Você não acha? – ela riu, tentando não parecer muito contente – Imagina que chato, se a gente ficar velho e não poder mais fazer sexo, aposto que ia ser um saco.

–Se isso acontecer um dia – ele lhe assegurou, ainda segurando sua mão, e acariciando as costas dela com o dedão, distraidamente – Eu vou querer passar esse tempo com você, em vez de com outra pessoa.

–Você... esta falando sério? – ela engoliu em seco, procurando algum sinal de brincadeira naqueles olhos.

–Sim... Anko – Naruto disse, com um sorriso no rosto, enquanto a observava dormir, recostado no próprio braço apoiado no travesseiro – Você quer se casar comigo?

Foram quase cinco minutos de descrença, depois vieram as lágrimas, e então Anko estava pulando encima dele, puxando seus cabelos e apertando seu rosto entre seus seios, o deixando comicamente azul por falta de ar.

–Sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim, sim! – ela gritou, e tornou a repetir mais várias vezes, pro caso dele não ter compreendido toda a extensão da palavra, que de repente, significava muito mais do que uma confirmação, era uma promessa.

Aquele tipo de promessa bonita, mas triste, por que nunca seria cumprida.

*************

Yugao acordou cedo, de novo, com os gritos de Anko pulando na cama e quebrando as coisas no apartamento ao lado. Ela se deixou ficar recostada no travesseiro, abraçando o próprio corpo por baixo das cobertas, e sem perceber direito, começou a chorar. De medo.

Enquanto escutava a felicidade borbulhante da melhor amiga e amante, com o seu irmão, ela não pode evitar ficar com... raiva. Não era exatamente raiva deles, longe disso, apesar de haver um pouco de inveja ali, se fosse pra ser sincero. Ela estava morrendo de raiva de si mesmo, em parte por ser tão fraca e estar morrendo de medo, travada na cama como uma garotinha, e em parte por... tudo. As vezes nós ficamos assim mesmo, se você já teve um dia verdadeiramente ruim sabe do que eu estou falando, e Yugao tinha tido um dia muito ruim

Ela era uma ANBU, tinha vinte e quatro anos, um metro e sessenta e cinco, cinquenta e cinco quilos, cabelos roxos longos, até a cintura, e nem uma gota de covardia no sangue. Yugao era valente, ela o era e sabia disso, ela tinha treinado rigorosamente, desde muito jovem, pra alcançar toda aquela sutileza que era necessária numa kunoiche de alto nível, muita da qual faltava em Anko. Ela tinha passado horas numa sala escura, sendo torturada pra testar seus limites, havia sido humilhada repetidamente por todos os seus companheiros, e não demonstrara sequer uma falha na expressão, tinha passado semanas na floresta da morte, com o chakra selado e apenas com uma kunai, e sobrevivera. Ela era, sob todos os padrões, uma kunoiche de alto escalão, quase perfeita.

Mas ali, na segurança do seu quarto, ela chorou como uma garotinha, tremendo dos pés a cabeça e enfiando a cara no travesseiro, pros ouvidos afiados de Naruto não pegarem o seu lamento. Ela sentiu vontade de gritar e chorar em voz alta, mas ninjas não faziam isso.

Ela chorou em silêncio. O dia anterior tinha sido horrível...

Yugao não soube dizer exatamente o que passou pela sua cabeça enquanto subia as escadas, e se chutasse, ela diria que nem cinco por cento do seu cérebro estava funcionando direito, e era apenas por esse cinco por cento, firmemente concentrado em fazê-la sair daquele caminho, que ela conseguia se lembrar do que aconteceu. Era inútil, também, só cinco por cento de razão não podia lutar contra noventa e cinco por cento de desejo cego, ela estava quase que seguindo um cheiro, um rastro, como uma loba seguindo a pista de um coelho.

Ela só não sabia dizer se, naquele momento, ela era exatamente o lobo. Foi mais como se ela fosse um coelhinho perdido, um filhote que não tinha amadurecido o suficiente pra temer as coisas que devem ser temidas, e acabara seguindo a pista de uma loba particularmente atraente, apenas pra vê-la dormir. Ela queria... ver Lafiel, só contempla-la, não faria mais nada né?!

Cinco por cento da sua mente sussurrou que não era bem assim, noventa e cinco por cento concordou com ela. Sim, só ver... nada mal.

Quase cambaleando pelos degraus, ela caminhou até onde a garota estava cantarolando baixinho, no banheiro, arrumando os fios azuis em vários jeitos diferentes. Ela observou embasbacada por detrás da porta, mantendo o olho pregado numa fresta, a forma como a elfa, agora completamente nua, bailava de um lado a outro, ensaiando cenas românticas que Yugao não conhecia, novelas da corte, provavelmente. Os cabelos dela eram... lindos, não havia sinceramente nenhuma outra forma de descrever a forma como eles se organizavam juntos, mesmo que um pouco bagunçados, e quando ela os erguia com as mãos, tentando dar forma pro penteado, e ele se erguia obediente os braços da garota.

Depois de muito pensar, cheguei a conclusão que era como se ela estivesse embaixo d’água, e os cabelos não tivessem peso nenhum. Lafiel também não tinha peso, ela era leve como uma pluma no vento, como um peixinho particularmente saboroso entre as marés.

A nuvem de obcessão entrou fundo na mente da ANBU, de uma forma que nem mesmo o genjutsu mais sutil do mundo poderia ter esperanças de rivalizar, ela simplesmente se prostrou no chão, caída de joelhos, bebendo com os olhos a forma esbelta do corpo dele. Lafiel era magra, delicada e lindamente construída, com curvas deliciosas aqui e ali. Não era de nenhuma forma o que Yugao teria chamado de “gostosa”, não havia tanto corpo assim, mas frente aquela estrela, de repente as preferências gerais que ela tinha cultivado, por anos, pareceram de extremo mal gosto, imperfeitas. Ela não sabia o que era bom, até vê-la, era como comer pão seco e duro, por anos, e então experimentar um filé suculento, pingando molho.

Não existem alusões suficientes pra chegar a uma narração precisa sobre o que estava acontecendo na mente de Yugao naquele momento, e embora haja mais centenas que posso usar, se colocar a mente pra funcionar e dispuser desse dia todo pra escrever, ainda não chegaria a essência daquela cena. Certas coisas é preciso experimentar pra conhecer, não importa quanto tempo alguém gaste te explicando como é, por exemplo, o gosto do vinho, ou caminhar descalço na praia, sentindo a maré nos pés descalços, ou beijar uma boca. Era algo que chegava fundo em você, como música.

Como ver uma estrela no mundo.

Sem consciência de como fez, nem de quando, Yugao abriu a porta, praticamente rastejando pra dentro. A expressão dela estava em algum ponto entre o deslumbramento absoluto, a careta meio idiota de alguém que não esta pensando em nada, e aquela feição mais assustadora, de um viciado a anos em abstinência que se visse, de repente, no meio de uma sala cheia da sua droga favorita. Montanhas e montanhas de droga.

Lafiel tampouco percebeu a porta abrir, ela olhou pro seu próprio reflexo, contente com o que estava vendo lá, e se comparou mentalmente com Anko, com um toque divertidinho de zombaria. Ela não tinha chance! Seu nariz era perfeito, os olhos eram grandes e expressivos, brilhantes até mesmo pra ela, que estava acostumada consigo mesmo, e seus lábios eram belos e beijáveis. Ela já tinha visto as outras garotas, e todas elas tinham rostos macilentos, por mais bonitos que fossem, se comparados com os dela.

Havia uma certa crueldadezinha que só garotas apaixonadas conseguiam ter. Não a julguem mal por isso, Lafiel é uma boa garota e vai ter suas chances de demonstrar isso.

–Você é tão linda Lafiel – ela riu consigo mesmo, não aqueles risinhos irritantes que as garotinhas dão, mas um trinado de cristal belo como flocos de neve – Eu queria beijar você...

Ela então se aproximou do espelho, mordendo provocativamente o canto dos lábios, colocando uma mão no reflexo do seu ombro, e a outra por trás do vidro, como se segurasse sua própria cabeça. Se aproximando, ela fechou os olhos e deixou os lábios tocarem gentilmente seu próprio reflexo, imaginando que a Lafiel do outro lado era Naruto. Ela não estava muito certa sobre como devia beijar alguém, mas depois de algum tempo, só tocar os lábios nos do seu reflexo pareceu insuficiente, então ela se afastou, com um sonzinho saboroso de beijo, e tornou a se aproximar, deixando a língua escolar levemente a superfície refletida.

Yugao invejou tanto aquele espelho. Só pra fins de orientação, ela estava no momento ajoelhada ao lado dos pés da nobre, a menos de um metro do seu corpo, com as mãos no chão, os olhos arregalados e a língua levemente pra fora da boca, numa expressão quase pornográfica. Seus joelhos se afastaram mecanicamente, e ela sentiu a virilha tocar levemente o piso ladrilhado do banheiro. A garota ainda não a tinha percebido.

–Será que eu devia passar maquiagem? – Ela se questionou, sem se importar muito em falar consigo mesmo. Por um momento ela ficou com vergonha de tocar nas coisas de outra mulher, mas só durou um segundo mesmo, então ela voou até o armário ao lado do espelho, olhando a coleção de cosméticos com olhos arregalados e curiosos – Eu não sei pra que serve metade dessas coisas...

Crescer só com um pai tinha algumas desvantagens, ou vantagens, dependendo do ponto de vista. Apesar da aparência delicada, Lafiel era uma das criaturas menos femininas vivas no planeta, esperem só até conhecê-la direito. Ela observou a coleção de coisas curiosas, e meio que olhando pros lados (ainda sem perceber a ANBU quase de quatro no chão, praticamente fungando na sua perna) ela tirou uma coisa comprida do tamanho de um dedo, que mesmo ela podia dizer ser maquiagem pros lábios. Examinando o protetor de vidro por um breve instante, ela conseguiu desencaixar a tampa e tira-lo, girando a base pra sair a... coisa levemente avermelhada, que ela sabia que devia esfregar na boca pra dar cor.

Ok, não era exatamente isso, e o bom senso lhe atingiu no exato instante que ela ia esfregar a coisa no rosto, decidindo apenas encosta-lo levemente na ponta do lábio. Era frio, e deixou uma sensação grudenta, ao qual ela franziu a sobrancelha.

–Isso tem um cheiro estranho... – ela lambeu com cuidado a ponta do lábio em que tocara o troço, e fez uma careta de nojo – Isso tem um gosto horrível também, os homens beijam mesmo mulheres que põe essa coisa na boca?!

Foi nesse ponto que ela sentiu algo lhe tocar levemente o quadril, e quando se virou pra ver, tomou um susto tão grande que pulou pra trás, escorregando no piso liso e caindo de costas no chão. Se a maioria dos presentes não estivessem fora de casa, e Hanna e Ryuzen não estivessem ocupados fodendo como coelhos num quarto bem longe do banheiro, alguém teria ouvido. E então corrido até lá pra ver o que tinha acontecido, e, com sorte, impedido Yugao.

Mas não tinha quase ninguém em casa, e Hanna e Ryuzen, como já foi citado, estavam fodendo como coelhos.

Lafiel sentiu todo o ar dos pulmões escapulir enquanto batia de costas no chão, sentindo uma pontada de cor aguda na cabeça e nos cotovelos, que colidiram com o chão primeiro. Por um segundo ela pensou que ia desmaiar, mas não desmaiou, e no segundo seguinte ela temeu que estivesse sagrando sobre todo o chão, mas não estava, nem uma gota, apenas um calo que estaria melhor no dia seguinte, e um par de hematomas no cotovelo. Ela poderia lidar com aquilo, hematomas não eram tão estranhos pra ela quanto era de se supor, afinal.

O problema foi que, quando ela tentou se levantar, não conseguiu tirar de jeito nenhum o corpo do chão. Só então ela se lembrou de Yugao no banheiro, com ela, e só depois percebeu que a tal ANBU estava montada no seu estomago, sem depositar nem uma grama do próprio peso sobre ela, apenas a segurando no lugar.

Duas coisas lhe ocorreram, uma antes da outra:

Yugao provavelmente ouvira todas as bobagens que ela estava fazendo, e agora ia rir e zombar dela. Ela sentiu os olhos se encherem de lágrimas e aquela sensação quente-gelada, que sentimos no corpo todo quando estamos morrendo de vergonha.

E depois, ela notou os olhos de Yugao, e qualquer resquício de constrangimento foi substituído por puro e simples medo. Medo irracional, medo que abriu um buraco no seu estomago.

Ela conhecia aqueles olhos, olhos vazios. Não eram os olhos de uma pessoa, não eram os olhos nem de um animal, eram completamente alheios de qualquer coisa, dispostos de razão ou sentimento, exceto uma fascinação mórbida por ela.

Provavelmente ela teria tentado dizer algo agora, não é?! Falar com sua agressora, talvez fazê-la recobrar a razão, e perceber que estava prestes a estupra-la, ou mata-la, ou sabe-se lá o que num banheiro de ladrilhos coloridos. Talvez ela tivesse feito isso, se não estivesse tão completamente apavorada, e talvez mesmo assim engolisse o medo e tivesse dito algo. Ela sabia que, se a mandasse sair de cima dela, se a mandasse sair do banheiro, Yugao sairia, como um cachorro enxotado pelo dono, mas esse era um conhecimento que ficava no fundo da sua mente, na sua parte fria e metódica, não naquele alvoroço assustador em que ela estava agora.

Por isso, tremendo feito vara verde, só lhe restou observar como Yugao se remexeu encima dela, afagando seus cabelos com uma delicadeza inacreditável, como se não os compreendesse totalmente. Ela tocou seu rosto, as bochechas, o nariz pequenino e agradável, e as orelhas pontudas, e então, com as pontas dos dedos, os lábios.

Tocar a boca de Lafiel pareceu trazer um pouco mais de razão aos olhos de Yugao, e a garota esperava que fosse o suficiente pra ela notar o que estava fazendo, e se levantar. Não foi. Ela pareceu, se é que era possível, ainda mais presa no encanto da sua aparência, apenas um pouco mais racional que antes.

Racional o suficiente pra saber que não se toca os lábios de uma pessoa, os beija.

Lafiel arregalou os olhos enquanto se sentiu beijada pela mulher mais velha, os lábios dela tocando os seus, bem levemente, se entreabrindo e escovando sua boca delicadamente com um pedacinho de língua. Por pura necessidade de oxigênio, a elfa abriu a boca, tentando puxar uma lufada de ar, involuntariamente dando a permissão necessária pra ANBU aprofundar o beijo, vasculhando sua boca com a língua, como se procurasse algo ali, acariciando a sua e deixando um gosto saboroso e refrescante que ela nunca tinha experimentado.

Por mais que ela quisesse odiar o que estava acontecendo, chorar e gritar como uma boa vítima de estupro deveria fazer, Lafiel gostou. E ela se odiou por gostar. Pode parecer algo bobo, mas pra ela, que fora criada com romances e poemas escritos por nobres, e pela educação conservadora da sua mãe, gostar daquilo era quase um crime. Por Deus, ela era uma mulher! Lafiel não podia gostar de uma mulher, nem de homens, só as pessoas vulgares faziam aquilo, só havia uma boca que deveria beija-la, e em nenhum dos livros que tinha lido um beijo era descrito como algo tão... tão...

O caso é que ela se sentiu quente, mas fria ao mesmo tempo, e sentiu o cheiro da outra mulher, tão perto de si mesma, o gosto dela, o toque dela, pele a pele, tudo isso parecia trazer uma fragrância completamente nova de odores, como se o contato de pele a pele produzisse um cheiro em especial, uma combinação dela e da kunoiche, mas nada exatamente como isso, era muito confuso. Agradável, quente e molhado.

A elfa não soube por quanto tempo foi beijada, não soube exatamente quando passou a retribuir o beijo e se esticar toda embaixo da ANBU, como se buscasse um pouco mais daquele cheiro, do contato de outra pessoa. Ela se sentiu completamente entregue, livre, e não poderia ser melhor numa cama. A única coisa, que por um tempo ficou no cantinho escuro da sua mente, mas depois voltou com força total foi.

Naruto. Não era ele que ela devia estar beijando?!

Por um segundo ela quase resolveu fingir que era, pra pode continuar beijando a outra garota e provar mais daquele toque delicioso que ela lhe trouxera. O que mudou sua opinião foi sentir a sua modéstia sendo tocada, o espaço entre as pernas de repente invadido, a feminilidade posta a prova, sua intimidade acariciada. Aquilo mudou tudo de uma hora pra outra, e antes que percebesse, ela tinha pulado pra trás, se levantado meio zonza e gritado, ou ela pensara assim, a plenos pulmões.

–Saia – a palavra saiu como um rosnadinho de nada, pouco mais de um sussurro, mas pra Yugao foi como levar um tapa. Ela se encolheu, se afastou, e pulou pra correr da garota, tudo no mesmo movimento. Nos olhos de caramelo dela, de repente, Lafiel viu medo.

Medo dela.

Meio que cambaleando, a elfa caminhou até a porta e virou o fecho, dando uns puxões pra ver se ela se abriria. Quando se sentiu segura, trancada dentro de um cômodo que só podia ser aberto por ela, ou é o que ela pensava, Lafiel se recostou na parede, escorreu ate o chão, escondeu o rosto entre os joelhos apertados no peito, e chorou em silêncio.

Yugao relembrou a tarde anterior, uma e outra vez, abraçando o próprio corpo e, sem notar, arranhando os próprios braços até tirarem sangue. Ela não se lembrava como tinha chegado em casa, fora algumas imagens difusas de correr, correr rápido, do Distrito Inuzuka até o seu apartamento, se trancar ali e ficar num estado semiconsciente até dormir. Dentro tudo, ela não sabia o que era pior: O fato de quase ter estuprado uma criança, a filha de um nobre ainda por cima, que em breve, com sorte, seria enteada de Hanna, ou o fato de a uma hora dessas, todos saberem o que ela tinha feito.

Como é que ela ia olhar nos olhos deles de novo?! De Hanna, ou Anko, ou Rin, ou Naruto... Como seu irmãozinho ia se sentir sabendo que ela havia quase violentado sexualmente alguém que ele jurou proteger?!

Ela imaginou as feições dele distorcidas numa careta com raiva, as cores do rosto borradas pra fora do contorno na sua visão, como uma pintura fresca, que alguém borrasse com o polegar. Ela imaginou a espada saindo da bainha, e em seguida... negro.

Ela não conseguia imaginar uma forma de Naruto sacar a espada, na sua direção, e tudo terminar em outra cor que não preto, ou vermelho talvez, mas provavelmente preto. Ela se imaginou trancada, olhada torta, cuspida, e foi dez vezes pior do que tudo o que tinha ouvido no teste da humilhação. Ali ela não era amiga de infância dos seus companheiros, e as críticas não era nada perto do que ela sabia que ouviria dos seus amigos, assim que encontrasse com eles.

“Eu não acredito que você pode fazer algo assim Yugao, você é um monstro!”

“Eu não quero nunca mais chegar perto de você, sua maníaca pervertida!”

“Eu confiei em você, na minha casa, e você tenta molestar a filha do meu namorado, sua puta!”

“Como você pode fazer algo assim Yu-chan, eu sei que brincamos disso, mas você não pode separar a realidade da fantasia?”

“Como você foi capaz?”

“Você esta rebaixada por conduta inapropriada”

“Eu exigo a cabeça dela!”

“Você esta morta pra mim Nee-chan”

“Eu nunca pensei que ficaria tão decepcionado”

“Só... saia da minha frente, nunca mais olhe pra mim”.

Cada uma das frases, mesmo que imaginárias, era como um soco no estômago de Yugao. Ela correu até o banheiro, a passos trôpegos, e se deixou cair de joelhos, vomitando na privada, e nem se importando com o cabelo, que ficou sujo e grudou no rosto. Os olhos vermelhos e as profundas olheiras não contribuíam em nada com sua aparência desolada, e quando ela conseguiu, a contra gosto, rastejar até o chuveiro, ela acabou dormindo ali mesmo, exausta e recebendo um jato de água quente direto no rosto.

******************

Lafiel também não estava tendo um dia muito bom. Assim que Yugao havia ido embora, ela cambaleou pro seu quarto, após lavar o rosto, e se encolheu toda na cama, dizendo que estava sentindo cólicas e, muito efetivamente, mantendo qualquer homem, inclusive seu pai, o mais longe possível dali. Fisicamente... ela estava bem, ou tão bem quanto sempre tinha estado, mas sua mente era uma pilha de cacos.

“Como você pode ter feito isso Lafiel, você sabe o que Yugao esta passando por sua culpa?!”

“Eu estou tão decepcionado com você filha, eu não devia ter te trazido”

“Eu não quero ser madrasta de uma bruxa como você”

“Qual o problema com seu rosto? Os homens não conseguem nem olhar pra você sem cair de joelhos, sua prostituta!”

“Eu revogo minha promessa Lafiel, depois disso, eu quero que você morra, nunca mais olhe pra mim!”

“Como você vem na minha casa, e faz isso com um dos nossos amigos, você não tem vergonha na cara?”

“Eu avisei você Lafiel, eu te disse pra não tirar o véu, e você apareceu nua na frente de uma mesa toda”.

“Sua pequena safada, se tentar roubar meu namorado, eu vou retalhar seu rostinho bonito até ninguém conseguir olhar pra ele sem vomitar”.

“É sua culpa! Tudo sua culpa!”

Diferente de Yugao, Lafiel não era uma kunoiche de elite. Ela não tinha uma força sobre-humana, nem era rápida a ponto de confundir os sentidos dos outros. Ela não sabia lidar com uma faca de cozinha, quanto mais uma lamina, e se alguém lhe dissesse metade das coisas que Yugao ouviu durante a sessão de humilhação, ela provavelmente teria passado o resto do mês se debulhando em lágrimas, e teria um trauma pro resto da vida. Ela era frágil, quebradiça, delicada.

Se fosse pra comparar, shinobis eram diamantes, bonitos e indestrutíveis, Lafiel era um caco de vidro. Também era bonito, e pra alguém desinformado, podia até se passar por um diamante, mas se você a jogasse no chão, ela se desfaria em pedaços.

Mas, em essência, as duas eram o mesmo, mulheres, e mulheres também se desmancham em cacos, assim como vidro.

Verdade seja dita, Lafiel não sentiu a menor vontade de se levantar da cama... nunca, mas quando seu pai veio chama-la pela terceira vez, ela disse que estaria indo e tratou de limpar o rosto, tirando os fios azuis da frente da visão. Ryuzen passou a vida toda com mulheres, primeiro sua mãe, então sua esposa, e agora a filha, ele era paciente, então a garota não se importou em enrolar o máximo possível no banho, limpando o corpo e tentando, sem muito sucesso, limpar os pensamentos também. Após estar seca e sem paciência pra mais nada, ela apenas vestiu uma roupa qualquer e deu uma torção simples no cabelo, o enrolando em torno de uma mexa solta e deixando algo que poderia se passar por uma franja.

Se olhando no espelho, ela achou que estava deslumbrante, e pela primeira vez, odiou verdadeiramente isso. Por que?! Por que ela poderia rolar na lama se quisesse, e ainda parecer mais atraente que qualquer outra garota?!

Enquanto descia as escadas, ela tentou se preparar pra qualquer coisa que viesse, desde um tapa até uma ofensa, ou os dois, ou ao menos tentou se preparar. Ryuzen estava sentado na mesa, junto com Tsume e Hanna, e as duas pareciam estar apenas esperando que ela aparecesse.

Lafiel poderia ter derramado lágrimas, quando notou a comida intocada, e fria, no prato de todos, mas nenhum deles pareceu dar bola pra isso.

–Filha, você poderia ter se apressado um pouquinho, não acha? – Ryuzen disse, no tom diplomático que ele geralmente usava com ela quando não estava completamente sério.

–Não de bola pra ele – Tsume disse, alargando um sorriso – Homens não entendem nada sobre como é difícil ser uma mulher, não é?!

Hanna concordou com uma risada, e piscou pra Ryuzen, com um toque familiar carinhoso que eles sempre tiveram um com o outro. A garota engoliu em seco, e entreabriu os lábios pra responder. Não saiu muita coisa dos lábios dela. Ela tentou de novo.

A expressão alegre dos três se desmanchou, enquanto Lafiel quebrava em vários pedaços, e sem perceber, começou a chorar e se desculpar quase compulsivamente, sendo imediatamente cercada pelos três, mais uma porção de cachorros, que choraram junto com ela.

Como vidro se estilhaçando.

************************

Naruto e Anko tomaram um banho juntos, e se vestiram juntos, compartilhando toques e olhares, tão perto um do outro quanto qualquer pessoa podia ficar. Anko adorava aquela sensação, as vezes, até mais que uma carícia. Ela adorava a forma como ele amarrava o quimono na cintura, o modo como o cotovelo dele roçou nas suas costas, e o jeito brincalhão com ele pegou seu casaco e a vestiu, enquanto se beijavam. Ela adorava aquela proximidade, aquela falta de espaço entre eles. Namorados hoje em dia não são mais assim, por alguma razão, eles tentam ser próximos e fingem que são, mas eles não se sentem mesmo assim, embora, talvez, um casal que passou sua vida toda poderia ter uma fatia miúda daquela partilha espontânea e deliciosa.

Ela podia correr os dedos pelo cabelo de Naruto, podia fazer isso sempre que quisesse, e pelo tempo que quisesse, e o deixaria fazer com ela. Ela poderia toca-lo em qualquer lugar, ambos conheciam cada parte do corpo um do outro, o cheiro, o toque, a aparência, o gosto. Eles podiam se beijar a qualquer momento, podiam dormir perto um do outro, e no geral, estar perto um do outro. Eles literalmente, pertenciam um ao outro.

Anko adorava aquilo, a sensação de ter um dono, e não apenas no sentido sexual que sua mente pervertida insistia em relembra-la, envolvendo chicotes e coleiras. Ela também adorava saber que era dona de Naruto, ele lhe pertencia, era dela, todo dela, e era o bem mais preciso que qualquer pessoa poderia possuir, como apresentar uma pilha de ouro cintilante a um mendigo esfarrapado, e dizer que era tudo dele. O brilho de satisfação e incredualidade nos olhos.

–Pare de divagar Anko – Naruto a pegou pela mão, e seu próprio corpo reconheceu o toque dele, imediatamente se dispondo em totalidade a ele – Nós temos um trabalho a fazer.

–Humm... eu odeio trabalhar no fim de semana...

–É terça feira.

–Fim de semana dura do sábado até a quarta-feira...

–Claro, claro...

Ela alargou o sorriso, levando a mão até seu ombro e passando adiante, agarrando firmemente seu rabo de cavalo vermelho. Naruto não fez nada pra impedir enquanto ela o empurrava contra uma parede, o puxando pelo cabelo até que sua cabeça estivesse inclinada levemente pra cima, e a luxúria nos olhos dos dois, enquanto se satisfaziam naquele sentimento incrível de pertencer era mais erótico que qualquer outra coisa, que qualquer palavra ou ação.

–Você esta mesmo pronto?

Ele riu.

–E você?

Anko sorriu de volta, soltando seus cabelos e se aproximando, puxando suas mãos e as levando até sua própria bunda, dando um aperto firme no seu bumbum. Ela se arrepiou e se inclinou pra frente, se roçando o mais firmemente que podia contra o garoto.

–Você é uma cadela insaciável né?! – ele brincou, arreganhando uma fileira de presas de marfim que podiam, Anko sabia, esmigalhar madeira até se tornar serragem, sem o mínimo esforço – Nós temos que ir, podemos brincar mais tarde.

Ela fez beicinho, deixando os olhos brilharem o máximo que conseguia. Pena pra ela que o ruivo era imune a isso. Ele se aproximou dela, tendo a certeza de arrastar os lábios e a ponta da língua pelo seu rosto, e chegou até o ouvido, falando pertinho dele, o arranhando com seus caninos e a excitando com seu hálito fresco.

“Acho que você se lembra do que conversamos ontem a noite querida...”.

A maldade pura na voz dele a deixou imediatamente molhada. Anko também se aproximou pra lhe falar ao pé do ouvido.

“Sim papai...”

“Então, o que eu disse que faria se fosse uma garotinha impertinente?”

“Você me castigaria papai” – ela roçou mais forte nele, procurando o contato dos seus sexos com uma sede incrível.

“Então, a minha putinha sabe que não devia exigir coisas de mim, não é? – Anko assentiu veementemente, lutando pra manter uma expressão inocente e infantil no rosto – Eu vou te dar seu castigo hoje a noite, portanto esteja preparada”

“Qual vai ser minha punição papai?”

Naruto tirou uma das mãos da bunda dela, procurando o laço da hakama, e o desfazendo em um segundo. Anko sentiu o contato do membro excitado contra o estomago, e foi com muito esforço que ela conseguiu se evitar que segurá-lo.

“Eu vou estuprar a sua boca querida”

Só pra se manter no papel, ela pulou e bateu palmas. Os dois já estavam um tanto quanto atrasados, mas naquele momento, uma invasão foi a última coisa na mente deles.

“O doce favorito da Anko – ela lambeu os lábios – Eu posso provar papai?”

“Não...”

“Só um pouquinho – ela se aproximou e tocou a cabeça pulsante com a ponta do dedo, e quando o namorado não recuou, ela o apertou na mão, dando algumas bombadas e se maravilhando com o calor – Eu quero beber o leitinho do papai...”.

Anko notou luxúria no olhar do espadachim se aprofundar, e a ereção pulsando alegre na sua mão. Antes que ele pudesse responder, ela continuou:

“A Anko é uma menina malcriada, então o papai deveria puni-la agora mesmo, a Anko quer que o papai a espanque e estupre a boca bonitinha dela com essa piroca até se sentir satisfeito, e então encher o meu rostinho malcriado de porra”

“Você quer é?”

“Sim, a Anko quer mais que tudo – ela caiu de joelhos, abrindo a boca e colocando a língua pra fora, pra mostrar seu ponto, em quando continuava o masturbando com força – A Anko é uma cadelinha muito sortuda por ter um papai tão bom que da leitinho gostoso pra ela beber todo dia, mas o papai deve mostrar pra Anko que ela não passa de um brinquedinho de sexo, um bichinho de estimação estúpido que não merece se tão bem tratada”

Naruto mordeu o lábio, apreciando a sensação de ser masturbado por Anko. Aquela mulher era uma loucura!

“Então seria bom se o papai – ela se aproximou, aumentando a força e velocidade das bombadas, enquanto falava com os lábios a um centímetro da cabeça do pau de Naruto – enfiasse essa rola gostosa na garganta dela e a usasse como uma ferramenta de masturbação, por que a Anko adora ser dominada e tratada feito uma bonequinha de estupro, e...”.

Seja o que for que ala ia dizer, acabou se perdendo entre um gemido molhado, enquanto Naruto agarrava seus cabelos com força, e empurrava todo o pênis na boca da namorada, até a cabeça lhe encostar a garganta e a língua ser pressionada pra baixo. Ela engasgou levemente e salivou, olhando pra cima e tentando passar pelos olhos o quando adorava aquilo. Naruto não perdeu tempo em começar a se movimentar, num ritmo frenético, levando ao pé da letra a expressão: “Estupre minha boca”.

Os vizinhos só poderiam enfiar a cabeça nos seus travesseiros, ouvindo aqueles dois foderem como coelhos o dia todo.

**********************

Haku impulsionou um pouco os músculos, saltando de um telado para o outro, pulando várias casas no processo, e pousando com tanta leveza que não houve nem mesmo o mínimo rangido nas vigas do telhado. Ela lembrou de como tinha ido parar naquela situação divertida, e abriu um sorriso, um que Chihiro costumava dizer que estava sempre escondido.

“Você devia sorrir mais Kohaku” – Chihiro, naquela época uma garotinha de cabelos cor de palha e olhos caramelo disse, se recostando mais no corpo escamoso do Deus dragão dos rios – “Você tem um belo sorriso, mas ele sempre fica escondido no seu rosto”.

“O que você quer dizer com isso?”

Em resposta, Chihiro se virou e sorriu, e ele entendeu tudo no mesmo instante. Talvez não fosse o fato do seu sorriso ser escondido, era que Guerra tinha sorrisos descarados, deslumbrantes, soltos do rosto dela. Não foi só uma vez que ele se pegou suspirando, lembrando daquele sorriso.

Diferente das roupas que usava enquanto viajava com Zabuza, Haku tinha optado por algo mais simples e prático, que o trouxe o benefício de não ser mais tão confundido com uma garota. Ele agora usava calças simples, nem muito justas e nem muito largas, compridas o suficiente pra lhe cobrir o cano das sandálias. Ele tinha perguntado uma vez por que shinobis nunca usavam sapatos fechados, e a resposta de Zabuza o surpreendera um pouquinho.

“O que são sapatos fechados?!”

Isso levou a três minutos de descrições inúteis, que não faz sentido colocar numa narrativa também meio inútil, a resposta séria veio depois disso, e foi mais simples do que ele esperava:

“O chakra precisa de uma forma de escapar do seu corpo, inclusive dos seus pés, pro caso de precisar lutar na árvore ou se agarrar a superfícies verticais ou mesmo tetos. Essas sandálias são feitas de um tipo de borracha muito resistente, que facilita a canalização dele e também amortecem impactos, mas o contato com o ambiente facilita ainda mais a liberação de chakra.”

A resposta dele tinha sido um “Ahh”. Não que fosse realmente um problema, sapatos abertos eram moda em todo o continente, desde sandálias até tamancos ou os mais clássicos tamancos de madeira, e os poucos que usavam calçados fechados eram geralmente trabalhadores braçais, que precisavam operar em lugares úmidos ou alagados. Com o tempo aquilo tinha se tornado uma espécie de status, e apesar de bobo, não era nada diferente da maioria das outras coisas que seres humanos faziam.

Afora seus fascinantes sapatos, Haku também usava um colete sem mangas, grosso e atado bem firme ao se tórax, sumindo na cintura junto com a bainha da calça, por trás de uma faixa e um laço, também negros. A única outra cor no seu vestuário era um haori azul claro, com mangas longas e largas que escondiam suas mãos e suas armas.

Quando ele encontrou Sasuke, na frente da academia, teve a impressão que ele categorizou todos esses pequenos detalhes no seu cérebro, antes de olhar, por último, pros seus olhos.

–Sasuke-kun?

–Sou eu – ele respondeu, num tom neutro e um tanto frio – Quem é você?

“Ele parece ser tão direto ao ponto quanto Naruto disse...”.

–Meu nome é Haku, eu estou me juntando à sua equipe hoje, no lugar de Sakura-san.

–Haku... Você não é o garoto que Naruto conheceu na névoa?

–Sou eu.

–Entendo... – ele assentiu, e então travou os lábios numa linha fina, mas não tão hostil quanto era de se supor – Desde que você não fique no meu caminho, nós vamos nos dar bem.

O dragão assentiu com um sorriso alegre

–Onde esta Naruto?

–Eu não sei... pensei que já tivesse chegado.

–Não, ele nem deu sinal de aparecer, e já esta dez minutos atrasado.

–Ele costuma se atrasar?

–As vezes... – Sasuke ponderou um pouco, cruzando os braços – Normalmente ele é bem pontual, mas não rigorosamente pontual, ele se atrasa ou se adianta de vez em quando.

–Isso parece combinar bem com ele.

Sasuke deu de ombros, e por alguns minutos tentou manter na sua pose de vingador malvado, mas já tinha algum tempo que ela não funcionava muito bem.

–Haku...?

–Sim?

–Posso te fazer uma pergunta?

“Você acabou de fazer” – ele pensou em dizer, com um sorriso brincalhão, mas apenas assentiu pra que ele continuasse.

–Você lutou ao lado de Naruto na guerra, não? – mais uma confirmação – O quão forte ele ficou?

“Bom, não sei se ele ficou mais forte de uns tempos pra cá – ele pensou mais uma vez, quase rindo só de pensar na reação do garoto se ele realmente dissesse aquelas palavras – Mas ele ficou conhecido como um dos cavaleiros demônio por ter rasgado o céu com um golpe da sua espada”

–Ele é muito forte.

–Muito quanto?

–O suficiente pra derrotar um espadachim da névoa usando uma espada de madeira – ele recitou a vergonha favorita de Zabuza – e sair da luta sem um arranhão.

Pela expressão do garoto, Sasuke não tinha acreditado em nenhuma palavra.

–É verdade, eu testemunhei isso pessoalmente – ele disse – Chihiro é insanamente forte pra idade dele, facilmente um shinobi rank A.

Na verdade ele era bem mais do que isso, mas segredos eram segredos, e aqueles não eram seus pra contar. O Uchiha ficou um tanto mais mal-humorado que antes (que sempre), e por mais uns vinte minutos permaneceu em silêncio, se ocupando hora ou outra em verificar seus equipamentos na cintura, ou ajeitar a bandana na testa, ou rosnar para o vento quando ele parecia soprar, na sua concepção, de uma forma particularmente grosseira.

Trinta minutos se passaram, e não havia nem sinal de Naruto. Haku conhecia o cheiro dele, até mais que isso, ela conhecia o toque da sua presença como ninguém, e nem mesmo ele podia senti-lo no ar. Qualquer um dos dois, ou Kyuubi não viria, ou tinha escolhido um dia inusitado pra estar exageradamente atrasado.

–Vamos entrar – Sasuke disse, por fim, os dentes cerrados na boca em rancor claro – Ele não vem.

Haku concordou com um dar de ombros, seguindo o Uchiha mal-humorado pra dentro da academia.