Ketsueki No Omoide - Kaen No Rei
33 Capítulo 22
Notas iniciais
Ryuzen observou com um sorriso ao redor, ele nunca tinha estado naquele lugar, mas era um assunto comum entre as reuniões do Senhor Feudal. Ninjas. Apesar do mundo ser, tecnicamente, guiado e comandado por nobres, ele girava ao redor de Shinobis, eles eram a figura central, de maior importância e necessidade do continente, e tudo sobre eles sempre parecia místico e excitante pra civis. Mesmo em Vermillion, onde ninjas normalmente não tinham permissão de pisar, as crianças cresciam ouvindo histórias de ninjas famosos, e eles eram sempre os heróis das suas brincadeiras. Ryuzen gostava particularmente dos três sannins, os lendários de Konoha, e mesmo sendo o menos respeitado e mais subestimado de todos, Jiraya era o seu favorito. Quantas vezes quando criança ele não tinha pintado o rosto em vermelho e corrido ao redor da mansão com um sapo, pra extremo desgosto das criadas... Era tão divertido...
Foi só quando se tornou adulto que ele entendeu a verdadeira natureza de ser um shinobi, e não era como as crianças fingiam que era. Ninjas não eram guerreiros lutando contra a tirania dos outros países, não eram heróis que resgatavam princesas e derrotavam vilões, apenas mercenários que faziam o que faziam por dinheiro. Nobres tinham dinheiro, e ninjas precisavam de dinheiro, assim como nobres precisavam de ninjas. Era um círculo auto suficiente um tanto áspero nas bordas, nas funcionava bem.
Não queria dizer, no entanto, que eles fossem maus. Mesmo sendo mercenários um tanto glorificados, e mesmo havendo as maças podres do cesto, eram, em suma, trabalhadores. Eles faziam missões por dinheiro, dinheiro que usavam pra viver e manter a vila funcionando, cobrir o treinamento de outros shinobis e seus equipamentos, e enriquecer o suficiente pra garantir uma aposentadoria confortável, quando ela tinha a graça de chegar. Ryuzen gostava de ninjas, simpatizava com eles e sua causa, mas não queria ser um, não mais.
Era uma vida muito esforçada, e muitas vezes, repleta de dor e tragédia. Não... Ele gostava de acordar todos os dias e olhar pra sua família, e saber que ia ficar velho o suficiente pra ver os filhos de Lafiel se tornarem homens crescidos.
Filhos que, ele esperava, tivessem cabelos vermelhos e fossem bons com espadas, assim como o pai.
–Anda logo pai – a garota disse, meio chorosa, o puxando pela mão pra andar mais rápido – Nós temos que encontrar o Naruto-kun!
–Tenha calma Lafiel, ele não vai pra lugar nenhum...
–Mas e se ele estiver em uma missão? – ela disse – E se tiver saído e só voltar depois que formos embora? Faz três anos que eu não o vejo... eu estou com saudade!
–Sim, sim, eu sei que você esta ansiosa pra encontrar com ele...
–Claro! Eu quero falar sobre tudo o que aconteceu com ele.
–Mesmo assim, não precisa ficar tão ansiosa, os exames chunnin começam amanhã, e ele não vai a lugar nenhum...
–Mas e se ele não participar dos exames?
–Não se preocupe com isso, Sarutobi-sama me garantiu que ele estaria lá.
–Você acha que ele vai se sair bem?
–Ele vai ser ótimo – o elfo, como as pessoas em Vermillion chamavam aqueles do seu clã, riu – Ele é muito forte né?
–Muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito!
–Bem, então o que acha de irmos logo ver a Hanna-san – ele disse- Pra que possamos procura-lo a tarde?
–Ah pai, não podemos ir agora?!
–Não filha...
–Bem, então... eu poderia ir sozinha! – ela viu a careta do pai e se apressou a mostrar seu ponto – Eu não vou me perder, é só seguir direto pra torre, e eu posso perguntar pro Hokage-jiji onde fica a casa dele, e assim... O senhor poderia ficar sozinho com a sua namorada!
–Hanna-san não é minha namorada filha... – ele disse, mesmo que a área em torno do seu nariz tenha avermelhado levemente.
–Ah, corta essa, vocês ficam olhando um pro outro daquele jeito...
–Lafiel...
–...Como se nem acreditassem que o outro fosse de verdade, e...
–Filha, eu...
–...Quando estão sozinhos vocês ficam pertinho um do outro, e se aproximam – ela cruzou as mãos ao lado do rosto e fez beicinho – E então...
Ryuzen apertou a mão na frente da boca da garota, bem suavemente, e riu enquanto ela se debatia por ar.
–Nós somos apenas bons amigos – ele disse, soando nem um pouco convincente – E ela foi amável a ponto de nos deixar ficar na sua casa enquanto duram os exames, então eu quero que você seja muito simpática com ela, ok?
–Posso chama-la de mamãe?
–Lafiel...
–Ok, só brincando – ela estendeu a mão, que o pai apertou com um ar esnobe completamente risível – Eu vou ser uma boa menina, agora...
–Não.
–Mas...
–Não.
–Mas paaaai...
–Querida – ele se abaixou, até ficar na altura dos seus olhos, e desfez o véu que cobria seu rosto. Debaixo dele, a beleza dela era brilhante como uma estrela cadente – Por que você acha que tem que usar isso?
–Por que todos os homens são safados?
–Não meu anjo, é por que você é bonita – ela corou e sorriu, e Ryuzen tratou de se corrigir – Não foi um elogio meu bem, você é linda a ponto de fazerem os homens perderem a cabeça, eu não vou te deixar andar sozinha por aí, e se o véu escorregar e alguém botar os olhos em você?! Da última vez...
Lafiel tremeu com a lembrança. Da última vez ela estava cercada de nobres, e todos eles andavam na sua direção, estendendo as mãos em frente do rosto pra toca-la. Pelo lado bom, nenhum deles ousou toca-la de uma forma íntima, mas depois de cinco minutos sendo afagada no rosto por dúzias de mãos diferentes, e aqueles olhos arregalados e enfeitiçados... Quando Ryuzen a encontrou ela estava caída no chão, chorando quietinha, cercada de pessoas.
–Eu sei, mas... – os olhos dela brilharam em reconhecimento – E se eu me sujar?
Pra ilustrar seu ponto ela correu até uma casa com jardim ao lado, e pegou um punhado de terra dos pés de uma roseira. Quando estava a ponto de esfregar tudo no rosto, as mãos do seu pai a pararam.
–Não vai adiantar em nada, é melhor ficar com o véu – ele disse, e então limpou as mãos da garota com seu próprio manto – Confie em mim filhote, eu já menti pra você?
–Já, você ta sempre mentindo pra mim!
–Ei, aquelas vezes eram brincadeirinha...
Ela não pareceu achar nem um pouco de graça.
–Ok, ok — ela sorriu vitoriosa, mas antes que pudesse sair correndo por aí, Ryuzen a segurou pelos ombros – Eu vou te deixar ir, com uma condição...
–O que o senhor quiser!
–Você vai manter o rosto coberto o tempo todo, mesmo enquanto fala com Naruto.
–Mas...
–Estou sendo claro? – ele disse, dessa vez severamente, e Lafiel sabia que não teria escolha no assunto – É isso ou vir comigo, e podemos procura-lo juntos a noite, que tal?
–Agora, eu não vou tirar o véu – ela estendeu o dedo mindinho – Eu prometo.
Ryuzen enlaçou o próprio mindinho com o dela, antes de puxa-la pra um abraço e dar-lhe um beijo na testa.
–Eu te amo querida, e pelo amor de Deus... fique fora de problemas.
–Ok, tchau! – ela saiu correndo, mas parou depois de alguns passos, e gritou – Eu também te amo pai!
O elfo sorriu consigo mesmo no lugar, até pular surpreso quando uma voz atrás dele disse:
–Crianças...
Se virando rápido, ele quase caiu pra trás quando se viu cara a cara com o rosto frio de porcelana de um gato. Por um segundo ele quase pensou que era um youkai, até se dar conta do uniforme e dos cabelos roxos escapando da cabeça que existia por trás da máscara.
–É, eu... – ele limpou a garganta, constrangido – Elas ficam meio teimosas nessa idade.
–Ah, eu já vi piores – a garota com máscara de gato riu – O senhor deveria ver o meu irmãozinho, ele é impossível.
O nobre assentiu, sem saber como levar aquela estranha conversa adiante. Por sorte, não foi necessário. A ANBU tirou a máscara e sorriu, os lábios pintados levemente de roxo combinavam com seus cabelos.
–Desculpe incomodar o senhor mas... Seu nome por acaso seria Ryuzen?
–Sim, sou eu.
–Ah, é um prazer – ela estendeu a mão, e sacudiu a do nobre amigavelmente – Naruto-kun me contou sobre o senhor e sua filha.
–Naruto? – ele sorriu – Você o conhece?
–Sim, é meu irmão mais novo – ela riu frente a descrença educada dele – Não somos irmãos de sangue, mas quando eu era jovem ia visita-lo no orfanato, acho que ficamos bem amigos depois disso.
–É bom ouvir isso, como ele esta? – o nobre apontou entre a multidão, onde a filha dele já havia desaparecido – Lafiel esta louca pra encontra-lo de novo.
–Ele esta bem, voltou hoje a algumas horas de uma missão de treinamento.
–Ele ficou mais forte?
–Ah, monstruosamente mais forte – ela riu – Mas ele não estava treinando a si mesmo, ele foi como sensei dessa vez...
–Sensei?! Com treze anos?!
–Impressionante né?!
–Muito... – ele brincou com os dedos, um tanto constrangido – Eu sinto muito, mas você poderia me dizer onde fica o distrito Inuzuka? Eu acho que não conseguiria achar por mim mesmo...
–Ah sim, Hanna-chan me disse que o namorado dela viria – Ryuzen corou perceptivelmente ao ser chamado de “namorado” – Mas eu não imaginava que era o senhor...
–Ela disse sobre a missão?
–A de dois meses atrás, sim – Yugao parou por um instante pra explicar ao nobre como chegar lá – Naruto estava fora da vila a essa altura, eu tenho certeza que ele vai ficar muito surpreso ao ver o senhor lá.
–Ah, eu também estou ansioso pra encontra-lo – ele sorriu – Obrigado pela ajuda, ANBU-san, mas eu poderia pedir um outro favor pra senhorita?
–Pode me chamar de Yugao – ela sorriu amigavelmente – E eu imagino que queira que eu ajude sua filha a encontrar o Naruto?
–Sim, se não for incomodar, ou se você não tiver nada pra fazer...
–Eu acho que não vai ser problema – ela piscou pra ele e vestiu a máscara – Foi um prazer conhecer o namorado da Hanna, se precisar de uma dica, ela gosta de rosas e doces, adeus.
E, antes que pudesse agradecê-la, Yugao desapareceu num shunshin de folhas. Ryuzen ficou parado no mesmo lugar por um momento, olhando pros lados e imaginando como ninjas faziam aquilo, era insanamente legal...
–Rosas e doces... Rosas e doces... – ele parou uma pessoa qualquer no meio da rua – Com licença, o senhor por acaso sabe onde posso encontrar uma floricultura por aqui?
***************
Yugao pulou de volta para o telhado onde estava, e após trocar algumas palavras com o parceiro, desapareceu novamente, pulando de telhado em telhado até reencontrar novamente a figura coberta de véus e lenços, parecendo extremamente perdida no meio da multidão.
“Deus do céu, essa garota não tem o menor senso de direção” – ela riu, antes de desaparecer novamente e reaparecer bem ao seu lado. Antes que Lafiel pudesse sequer reagir, ela se viu nos braços de um gato de porcelana, e então, estava voando por sobre os telhados, a uma velocidade alucinante que não sentia a três anos. Por um segundo ela imaginou que fosse Naruto, e chegou até mesmo a deitar a cabeça feliz no seu peito, até notar que, quem quer que seja, não era Naruto. Ele poderia parecer uma menina, mas com certeza não tinha seios.
–Lafiel? – a figura perguntou, parando encima de uma caixa d’água particularmente alta, com vista pra toda a aldeia.
–Sou eu... – ela respondeu, meio elétrica pela adrenalina – Quem é você...
–Eu sou amiga da namorada do seu pai – ela riu, tirando a máscara – E também sou a irmã mais velha de Naruto.
–Ele tem uma irmã mais velha?! – ela quase gritou, então, totalmente de surpresa, pulou e abraçou a ANBU – É tão bom te conhecer, onee-san!
“É... Anko não tem a menor chance” – ela pensou, com um sorriso brincalhão no rosto, a garota estava claramente interessada no ruivo – “Quem sabe não rola um a três? Naruto com certeza não ia se importar...”.
–Eu estou aqui pra te ajudar a encontra-lo – ela disse, puxando a garota pelos braços e a colocando nas costas – Se segure bem tá?
Mal tendo tempo de assentir, Lafiel só pode apertar os braços em torno do pescoço da ANBU, antes de desaparecer no ar. A sensação foi das mais estranhas, como ter se tornado vento e, então, se materializado de novo. Yugao seguiu com o movimento um número incontáveis de vezes na percepção assustada da elfa, mas foram apenas alguns shunshins até chegarem ao prédio do Hokage. Quando a soltou devagarzinho, a nobre foi de bunda no chão, respirando fundo.
–Isso foi... Isso foi...
Conhecendo nobres, a ANBU se preparou pra uma enxurrada de impropérias.
–... tão LEGAL! – Lafiel se pôs de pé num salto – Podemos fazer de novo?!
–Claro, mas vamos entrar agora tá? – ela afagou a cabeça da garota, inexplicavelmente contente com ela – Eu só vou deixar o Hokage saber que vocês chegaram antes de irmos até o apartamento do Naruto.
Assim que chegaram na entrada do prédio, eles a encontraram quase vazia. A mesa da secretária estava desocupada, e em vez dos guardas costumeiros, um jounnin, parecendo meio entediado com um cigarro nos lábios estava encostado no batente da porta, enquanto um outro pirralho, que ela reconheceu como o neto do Sandaime, pulava de um lado pro outro, parecendo meio excitado, meio temeroso, e um bocado de coisas mais.
–Azuma-sama – Yugao se curvou respeitosamente ao jounnin, e Lafiel se apressou a fazer o mesmo, apesar de não ter ideia de quem era aquela pessoa – O Hokage-sama esta ocupado?
–Não precisa de formalidades Yugao – o jounnin deu um trago no cigarro, antes de acenar pra Lafiel com um sorriso – Segundo Konohamaru, Naruto esta no escritório dele com alguns gennins de Suna que causaram problemas...
Konohamaru e Lafiel levantaram os olhos ao mesmo tempo, e cada um gritou uma coisa diferente.
–Ele tentou me matar!
–Naruto! – A garota tentou correr pro escritório, só pra ser pega pelo cangote como um gatinho pelo jounnin barbudo, que riu.
–E quem seria você mocinha?
Lafiel parou de se debater pra curvar a cabeça em um comprimento.
–Meu nome é Lafiel, eu sou filha de Ryuzen de Vermillion, eu quero ver o meu Naruto! – ela voltou a se debater novamente, enquanto a ANBU e o jounnin a observavam com uma gota nas têmporas.
–Então você é aquela garotinha que o Naruto protegeu – Azuma riu – É um prazer te conhecer...
–Igualmente... Me solte por favor, eu quero vê-lo!
–Desculpe, mas eles estão ocupados agora, se a senhorita puder esperar um pouco...
Lafiel normalmente teria esperado, mas ela estava tão ansiosa pra vê-lo novamente que nem pensou nisso. Tirando o véu da frente do rosto ela olhou diretamente pro jounnin que corou imediatamente e a largou meio sem jeito, uma nuvem estranha nublando sua visão, como um genjutsu. Aquela garota, ela era... muito bonita.
–Me deixe passar!
Sem nem perceber o que estava fazendo, ele saiu da frente. Lafiel sorriu e correu adiante, e quando Yugao tentou para-la, Azuma se pôs a sua frente, com uma kunai em cada mão.
–Nem pense em passar... – ele disse, a voz embargada e os olhos zonzos – Eu vou proteger a vontade de...
Ele se calou quando Yugao acertou um cruzado de direta no seu rosto. Konohamaru observou tudo com um tique estranho no olho, e mesmo a ANBU parecia exasperada.
–Essa garota pode ser um problema sério –ela tencionou busca-la de volta, mas seria inútil se ela queria tanto ir adiante. Mesmo Yugao achava que não conseguiria dizer não olhando pro rosto dela, era algo muito estranho – Bem, acho que não temos escolha né?! Naruto vai ficar muito surpreso...
–O que aconteceu? – Azuma só então se levantou, esfregando o queixo – Por que você me bateu Yugao?
–Você deixou a garota passar...
–O que?
–Você deixou Lafiel passar...
Ele franziu as sobrancelhas, olhando em volta e, em seguida, pro corredor. Konohamaru assentiu em concordância, quando o jounnin procurou alguma resposta nele.
–É sério?!
–Você não lembra mesmo? – ela riu – Incrível como o Naru se cerca das pessoas mais problemáticas.
–Nós devíamos ir atrás dela...
–Não vai ser preciso, Sarutobi-sama e Naru-chan estão lá no escritório, o que pode dar errado?!
Konohamaru apenas observou a discussão, sem muita vontade de adicionar nada a ela. Adultos poderiam ser tão estranhos as vezes...
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Alguns minutos atrás... atrás... atrás...
Sarutobi coçou a barba, resistindo a vontade de jogar algo pela janela, ou adormecer sobre aquela enorme pilha de papéis. Por mais odiosa que fosse, ele não podia negar que, ao menos, parecia confortável. Havia alguma coisa estranha em materiais de escritório, eles sempre pareciam muito bons pra serem atirados fora, queimados ou usados como um travesseiro, mas não prestavam em nada pra serem lidos e assassinado, e ainda de tudo... ele era velho. Poxa, ele já tinha passado dos setenta, era mais tempo do que a maioria dos ninjas viviam, e ainda sim as pessoas esperavam que ele fizesse todo aquele trabalho como se fosse um adolescente no seu primeiro emprego?! O que aconteceu com o senso comum de que velhinhos precisavam de suas sonecas pra se manter em forma?!
Foi por isso que ele quase agradeceu quando algumas batidas soaram, quase. O sorriso no seu rosto caiu em ambos os lados do cabo do cachimbo quando Naruto e Nyoko entraram, o ruivo com um corpo sobre os ombros, e a sua secretária escoltando dois outros shinobis para a sala, cada um com uma kunai no seu pescoço. Ele os reconheceu imediatamente.
–Naruto, Nyoko – ele se levantou – O que diabos vocês estão fazendo com os filhos do Kazekage?
Temari pareceu pensar que era uma ótima deixa pra jogar a carta de: “Eu sou filha de um kage, e isso é um ultrage”, e sair limpa da situação, mas ao menor movimento de mandíbula Nyoko puxou a kunai, tirando um filete fino de sangue que escorreu por sobre seus dedos.
–Quietinha princesa — ela disse, antes de se voltar ao chefe – Naru-chan tem algumas explicações a dar Hokage-sama, se o senhor tiver um tempo, se trata da segurança do seu neto...
O rosto receoso dele mudou pra um severo,como ele se sentou, esperando por uma explicação.
–Muito bem, prossiga...
Naruto deixou o corpo mole de Gaara cair na cadeira, antes de suspirar.
–Eu estava falando com Konohamaru-kun como o senhor ordenou, quando Gaara me atacou do nada, eu consegui tirar Konohamaru da frente do ataque e deixa-lo em segurança antes de voltar para a luta, quando esses dois aqui atrás disseram que...
–É mentira! – Temari conseguiu dizer, antes do corte no seu pescoço se aprofundar milimetricamente.
Foram outras tantas interrupções até que Naruto conseguisse terminar sua história, e no final Temari e Kankuro tinham cortes profundos em áreas não vitais do pescoço, Nyoko tinha um sorriso bobo no rosto, como se a oportunidade de tirar sangue de alguém lhe agradasse, e o Hokage estava precisando de uma nova mesa, de novo. Não ajudou que assim que Gaara acordou, ele recontou a história de Naruto com os mesmos fatos, sem se importar muito com o fato de que poderia estar entregando a si mesmo e seus irmãos pra morte.
–Konohamaru já deve estar aqui a essa hora – Naruto disse assim que o ruivo de Suna terminou sua história – Se o senhor achar necessário, ele pode dar seu testemunho...
–Como temos uma confissão, não vejo por que seria necessário – ele disse, se levantando e ficando de frente aos três shinobis visitantes, dois dos quais se encolheram perceptivelmente – Mas algo foge a minha compreensão, vocês três pareciam bastante determinados em não deixar testemunhas das suas arruaças, gostaria de saber se há uma explicação por trás disso...
Temari estava prestes a negar quando Gaara, por conveniência, vomitou tudo novamente. Os olhos de Kankurou foram se arregalando enquanto olhava do irmão para o Hokage, enquanto Temari apenas abaixou a cabeça, suspirando. Acho que ela já tinha se conformado com o fato de que sua cabeça, muito provavelmente, iria rolar.
–Eu nunca pensei que viveria pra ver uma traição desse tipo – o Hokage disse, um tanto teatralmente, é claro que ele esperava coisas assim, já tinha visto mais que o suficiente pra ser uma surpresa, mas gennins não precisavam saber disso, não é?! – Ainda mais de um aliado tão antigo, eu quero saber... quais as motivações por trás desse ataque?
–Suna é uma aldeia razoavelmente pobre – Temari disse, dando de ombros, derrotada – A maior parte do nosso território é um grande deserto, é muito difícil cultivar qualquer coisa...
–Eu não preciso de lições de geografia menina – Sarutobi a cortou com um olhar afiado – Eu já era Hokage antes mesmo do seu pai nascer, pode ter certeza que conheço cada palmo desse continente...
–E-Entendo, eu vou tentar ser breve – Temari respondeu, suando frio. Em Suna era de conhecimento comum que o Sandaime Hokage era um velhinho bobo, generoso e de vontade fraca, o quão errados eles estavam sobre aquilo?! Cada vez mais um ataque a vila da folha parecia ser uma grande bobagem aos olhos da kunoiche – Suna se ressente com Konoha pelo nosso Senhor Feudal enviar mais missões pra cá do que pra sua própria vila, com a falta de investimento, nós tivemos que aumentar a qualidade individual de cada ninja, reforçando os níveis da academia e de cada shinobi... sem ofensa, mas a maioria dos gennins em Suna é tão capaz quanto um chunnin de Konoha.
Antes que o Hokage pudesse responder adequadamente ao que, claramente, era uma ofensa, Naruto falou. Foi um pouco surpreendente pra Temari e Kankurou ver o velho Hokage realmente se calar pra ouvir o que um mero gennin tinha a dizer, mas se bem que... não era tão estranho assim. Com a habilidade dele, não seria nenhuma surpresa se ele fosse um jounnin, mesmo tão jovem.
–Eu acho que posso confirmar isso, Gaara aqui tem uma habilidade muito pronunciada, ele claramente esta a altura da patente de jounnin – ele disse – Em matéria de força pelo menos, e por ser um jinchuuriki não acho que ele pararia por aí...
Cada um, dentro do escritório, teve uma reação diferente. Sarutobi engoliu em seco e a carranca no seu rosto se aprofundou monumentalmente, ele parecia a ponto de destruir alguma coisa, e Temari, que estava bem na sua linha de visão, poderia muito bem ter escorrido para o chão e ficado lá, tentando parecer menor que um mísero camundongo. Kankurou pareceu mais com raiva do que surpreso, fuzilando Naruto com o olhar enquanto Gaara ainda estava estoico, no mesmo lugar. Nyoko espirrou, e... só.
–Você tem certeza disso Naruto?
–Absoluta...
O Hokage caiu sentado, esfregando firmemente a ponte do nariz.
–Essa técnica brutal, por mim ela nunca teria sido descoberta. Teria sido muito menos destrutivo deixar as nove bestas fora de controle, tranca-los em seres humanos foi a pior coisa que fizemos em toda a história – ele olhou diretamente pra Gaara – Você sabe por que sua besta foi selada em você? Sendo Suna, eu imagino que é o Ichibi...
–O Ichibi foi selado dentro de mim enquanto ainda estava no ventre da minha mãe – ele pareceu não ter percebido o arquejo que o Hokage soltou, ou como as mãos dele tremeram – Pra que eu pudesse ser uma arma pra vila, no entanto, as mesmas pessoas que fizeram isso perceberam que eu era incontrolável, então tentaram me matar dezenas de vezes, mas nunca deu certo...
Naruto quase sorriu ao notar como Sarutobi estava se segurando, a pena, a raiva, as lágrimas. Assim como ele, aquele velho homem parecia ter um fraco por crianças.
–Você parece muito manso pra alguém incontrolável...
–Eu não devo levantar a voz na presença dos meus superiores – ele disse, abaixando a cabeça pra Naruto em um gesto que seria muito cortês, se ele soubesse montar as expressões certas pra isso – Ainda mais diante do grande Nove caudas, Shukako disse que eu deveria ser o mais respeitoso que pudesse...
Temari e Kankurou pareciam não conseguir fazer suas expressões ficarem ainda mais surpresas, elas tinham chegado ao máximo em algum ponto do discurso, então a última revelação foi acompanhada com o queixo no chão e olhos arregalados, como já estavam. Antes que pudessem mesmo dizer alguma coisa, Nyoko os puxou pela gola e os desacordou com dois golpes firmes no cocuruto, com a empunhadura de ferro das kunais. Gaara não pareceu nem minimamente incomodado ao ver seus irmãos caídos, e Sarutobi imaginou que nem mesmo se estivessem mortos ele esboçaria alguma reação.
–Você contou a ele Naruto?
O ruivo não respondeu por alguns instantes, e quando o fez, a voz foi algo profundo e totalmente diferente do toque macio de antes. As palavras pareciam ser tão afiadas quanto seus caninos, e os olhos carmesim fizeram até mesmo Gaara se arrepiar da cabeça aos pés.
–Naruto não teve muito a ver com isso, ele derrotou Gaara e o parou, eu assumi desse ponto em diante...
–Por que, eu me atrevo a perguntar...
–Shukako é minha irmã menor, é minha responsabilidade limpar a bagunça que ela faz... de uma forma ou de outra.
–Você pode me dizer o que aconteceu?
–Não, eu realmente não deveria.
–Algum motivo em especial pra isso?
–Traria mais mal do que bem Sarutobi-kun, se contente em saber que eu e Naruto resolvemos a situação, Gaara não vai mais atacar ninguém...
Como que questionado, ele assentiu levemente, algumas vezes, parecendo um tanto em dúvida se devia continuar com o gesto ou fazê-lo mais vigorosamente.
–Você disse que Shukako era... sua irmã?! Do feminino, não irmão, mais irmã?
–Sim...
–Mas...
–Algum problema Hokage? – Naruto quase riu ao ver o velho se encolher, agitando levemente as mãos como faria se confrontado por Anko e Yugao. Só esse simples gesto, tão comum, foi o suficiente pra arrancar um sorriso do seu focinho, ele não parecia estar conversando com uma raposa de nove caudas gigantesca, e mesmo que não estivesse, Kyuubi tentou fazer a voz soar irritada – Será que você achou que éramos todos homens por acaso? Ou que mulheres não seriam fortes o suficiente pra serem demônios destrutivos com múltiplas caudas?
–Falando desse jeito, acho que até faz sentido que sejam todos mulheres... espere, você também?
–Meu sexo tende a mudar com o meu humor – Kyuubi riu da expressão abobalhada do Hokage – Eu já tive muitas nomes, se você se lembrar bem, alguns deles eram femininos...
–Ahh sim... Yagura lhe chamou de Nanami, se não me engano, será que...
–Isso não tem a menor importância – a raposa disse, bufando em irritação, embora ela não tivesse muita certeza de que o gesto saiu como deveria, ela estava com muito bom humor pra soar irritada... pelo menos por enquanto – Eu vou tirar um soneca, jaa ne...
Assim que os olhos de Naruto voltaram ao azul céu de sempre, o Hokage suspirou.
–Você acha que é uma boa ideia deixar Kyuubi tomar conta do seu corpo assim Naruto?
–Foi só por alguns minutos Oji-sama, não precisa se preocupar com isso, nós temos um bom entendimento...
–Entendo... O que mais me intriga, no entanto, é a razão do Yondaime mandar um jinchuuriki pra competir nos exames chunnins, eu não tenho nenhum problema com eles – ele assegurou a Gaara – Mas há um acordo que eles nunca deveriam fazer parte dos exames, é perigoso demais pros outros participantes envolvidos, dada a forma como seu nível de força é sempre maior que a de um ninja comum...
–Meu pai me enviou aqui como uma arma, não um participante – Gaara disse, arrancando a melhor expressão de surpresa que alguém poderia tirar da cara do velho – Uma arma pra destruir Konoha...
Antes que qualquer um dos presentes pudesse responder aquilo, a porta foi aberta abruptamente, e um rosto sorridente esquadrinhou o lugar com os olhos. Naruto só teve tempo de ver uma nuvem de cabelos azuis em torno de olhos amendoados chorosos vindo em sua direção, antes de ser atirado ao chão com a garota apertada firmemente em torno do seu pescoço. Sarutobi sentiu a visão falhar por um segundo, mas uma onda de chakra clareou seus pensamentos, antes que se perdessem. Temari e Kankurou não tiveram a mesma sorte, eles apenas olharam bobamente pra estrela cadente que tinha varrido a sala, como se fosse um anjo sem asas enchendo tudo de cor. Ficar de pé, de repente, pareceu uma tremenda insolência, e mesmo Gaara engoliu em seco, sentindo a cabeça bagunçar e a necessidade de fazer qualquer coisa que aquela garota pedisse se espremendo entre seus pensamentos. Nyoko e Naruto, no entanto, pareceram completamente inabalados, exceto pelo fato do ruivo estar agora no chão, com uma criança dando soquinhos fracos no seu peito e derramando lágrimas.
Temari levantou a mão pra sacar o leque, com intenção de partir o ruivo no meio por fazê-la chorar, mas uma explosão de intenção assassina completamente direcionada pra ela a aquietou, juntamente com Kankurou, que estava tendo pensamentos parecidos.
–Lafiel... – Naruto disse, com o rosto coberto de azul, tanto dos seus cabelos quanto dos véus que os mantinham parcialmente escondidos – Eu estou feliz em te ver também.
–Idiota! Idiota! – ela chorou, sentindo aquele aperto gostoso no peito se espalhar por todo o seu corpo. Sem sequer considerar os outros em torno da sala, ela se abaixou, até que estava com o rosto praticamente grudado no dele, e o abraçou – Eu senti tanta a sua falta!
Naruto alargou o sorriso, corando um pouco apenas pela posição em que estavam, o nariz e os lábios da menina praticamente colados no lado do seu rosto, acariciando sua pele enquanto ela falava, e se remexia encima do seu estomago. Ele não teria se importado de ficar daquela forma por algumas horas, mas Lafiel pareceu ter lembrado a existência das outras pessoas, e se levantou num pulo, pisando encima dele por acidente e quase caindo pra trás. Ao final de tudo ela estava ruborizada até a raiz dos cabelos, tentando se desculpar com todos ao mesmo tempo que explicava quem ela era e o que estava fazendo ali. As únicas coisas compreensivas por trás da gagueira foram o nome dela e que estava com saudades.
–Bem, esse não é o jeito que pensei que voltaria a ver a senhorita – Sarutobi se levantou da sua cadeira e se curvou levemente – Já fazem três anos não, Lafiel-sama?
A garota assentiu feliz, puxando Naruto pra cima e tornando a grudar com ele, num abraço. O ruivo apenas afagou o topo da sua cabeça, que mal chegava no seu queixo.
–Eu vou deixar o senhor sozinho pra fazer o interrogatório, Hokage-sama – Naruto se curvou o quanto pode, o gesto saindo meio desajeitado por ter uma garota se apertando nele – Se sentir que é algo que eu deva saber pode me contar depois...
–Ok, eu posso dar conta disso, não se preocupe – ele lançou um olhar de soslaio aos três ninjas da areia – Por que não leva Lafiel pra da rum passeio pela vila, eu acho que ela parece muito empolgada em estar aqui.
A resposta da garota foi sacudir a cabeça. Muitas vezes. Naruto segurou ela mão e a guiou até a porta, dando um último olhar sério para os quatro ali dentro, antes de sair.
Sem Lafiel presente, a nuvem de obcessão lentamente foi se desmanchando dos olhos dos shinobis de Suna, e todos eles, mesmo Gaara, apesar de ser apenas por um segundo, pareceram confusos e perdidos. Nyoko apenas riu agradavelmente.
–Naru-chan deve ser doce – ela riu da própria piada – Por que ele atrai as mulheres como se fossem formigas.
Sarutobi tinha que concordar com aquilo. Montando sua feição mais severa, ele voltou a olhar pra Gaara.
–Então... o que quer dizer sobre ser enviado como uma arma?!
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Os dois mal tinham saído da sala, quando Lafiel voou novamente em Naruto, o abraçando como se sua vida dependesse disso. Ela envolveu as mãos nas suas costas e enlaçou os dedos pelos seus cabelos, maravilhada com a textura suave de cada fio. Ela o soltou depois de alguns momentos, com intenção de dizer todas as coisas bonitas que tinha pensado dele durante aqueles três anos, dizer que estava morrendo de saudade e queria vê-lo de novo, que queria vê-lo lutar e que sabia que ele se sairia bem, e acima de tudo, o quanto ela gostava dele, que queria ficar com ele sempre.
Nenhuma dessas coisas saiu, e olhando pro azul cristalino dos olhos dele, ela só conseguiu ruborizar feito uma idiota, e se xingar mentalmente por isso. Era o momento perfeito, eles estavam sozinhos, num corredor vazio, não havia lugar melhor pra se confessar... Ok, com certeza haviam lugares melhores pra se confessar, mas ela não tinha esperanças de encontrar um jardim florido ao por do sol, ou uma clareira em meio a floresta, com pássaros cantando, ou um quarto aconchegante onde ela pudesse entrar devagarinho, encontra-lo na cama e deixar o quimono lentamente escorrer pelo seu corpo, como água. Ela sentiu uma tremedeira no ombro e quase não conseguiu segurar uma hemorragia nasal, ao imagina-lo nu novamente, como ela o tinha visto naquela lago.
Só piorou quando os olhos dele pareceram preocupados, e ele se aproximou, tocando a testa com a dela.
–Você esta quente... – ele disse, a expressão graciosamente triste – Você esta doente?
“Ele se preocupa comigo” – ela pensou, radiante de felicidade. A vontade de abraça-lo e beija-lo voltou com força total, mas ela se conteve. A última coisa que queria é que ele a achasse uma vagabunda, tinha que ser como nos livros, isso, tinha que ser como num romance.
Afinal, se não fosse daquele jeito não daria certo né?!
–Você quer que eu te leve pra descansar em algum lugar? – ele pareceu perdido em pensamentos por um segundo, sem parecer nem mesmo minimamente afetado pela sua beleza, como todos os outros eram. Isso a deixaria ofendida, se fosse a Lafiel de três anos atrás, mas agora ela estava praticamente quicando de felicidade com o fato, era como se ele fosse o escolhido pra ela – Eu não sei onde você esta hospedada... Você veio assistir os exames né?!
Ela só pode balançar a cabeça, a voz presa em algum ponto da sua garganta.
–Bem, eu vou te levar pra minha casa então, Anko vai ficar feliz de te conhecer!
Sim, claro... Espere, quem?!
Ela não teve tempo pra verbalizar seus pensamentos, Naruto a jogou nas costas e envolveu seus braços em torno do seu pescoço. Dando um último sorriso pra ela, ele praticamente...
Ela não sabia ao certo, mas era algo ainda mais rápido que voar, muito mais suave do que isso. Ela não sentiu o choque de adrenalina de quando tinha ido com Yugao até ali, em vez disso, ela se sentiu quase... calma. Enquanto Naruto a carregava por sobre os telhados, era como se eles não fossem mais que uma corrente de ar, entre milhares de outras, dançando no vento e se atirando pra frente. Ela não sentiu nenhum solavanco, nem um movimento brusco, apenas deslizou com ele pelo céu, todo azul e branco e vermelho. Os cabelos dos dois se agitaram, e poucos fios se enrolaram um no outro, parecendo mudar de vermelho e azul pra um roxo delicado e suave. Só durou alguns segundos, talvez um minuto, mas foi tão rápido que poderia ter levado horas, isso não fazia sentido, é claro, mas as cores também não. Tudo era branco, um branco-preto azul e vermelho, que depois se tornou roxo. Não havia encima ou embaixo, nem frente ou trás, tudo era muito, muito confuso, mas também maravilhoso como nenhuma outra coisa. Quando Naruto parou,Lafiel estava deitada nas suas costas, com as bochechas quentes e com lágrimas brilhando nos olhos.
–Você é tão fácil de impressionar – o espadachim disse, rindo, e em seguida a tirou das costas, a pondo de pé com cuidado e andando ao seu lado, pra que ela não caísse. Ambos seguiram até uma porta pintada em marrom descascando, com um “14” pregado nela, num tom de bronze velho e arranhado.
–Bem vinda Lafiel – ele abriu a porta e a ajudou a entrar, por ela ainda estar meio zonza da viagem – Não é nem um pouco grande, mas da pro gasto, fique a vontade.
Ela pensou em dizer que, se estivesse com ele, ela ficaria feliz em morar até numa caixa de papelão, mas pareceu brega demais. Antes que pudesse pensar em algo mais bonito, mas não tão estúpido, ela viu um vulto roxo pela sua visão periférica, e logo depois, estava cara a cara com uma mulher mais velha, em torno dos vinte anos, com o cabelo roxo preso num rabo de cavalo espetado, olhando diretamente pra ela.
–Yo Anko, eu trouxe visita – Naruto disse com um sorriso.
A mulher o ignorou completamente, focada totalmente nos olhos de Lafiel, como se procurasse por algo neles. Ela levantou a mão e a tocou delicadamente na bochecha, enquanto a garota tentava entender o que estava acontecendo. Quando pensou em dizer alguma coisa, Anko a pegou num abraço de urso.
–Ahh, kawaii! – ela esfregou a bochecha com a da garota – Naru-chan, você sempre traz bichinhos tão bonitinhos pra casa! Podemos ficar com ela?!
Lafiel corou, emburrada por ser chamada de um “animalzinho”, enquanto Naruto apenas riu, desfazendo o laço dos cabelos e os deixando cair as suas costas. Ele tirou algo da prateleira, e poucos minutos depois, estava com algumas xícaras e um bule de chá encima da mesa.
–Ela não é um bichinho de pelúcia Anko, mesmo que pareça um – ele riu, apesar de piscar pra deixar claro que era tudo brincadeira. Lafiel não viu nada disso, ela estava com a cabeça apertada nos seios daquela mulher maluca – Se lembra de Lafiel?
–Lafiel...? – ela pareceu confusa por um segundo, até assentir em reconhecimento, descolando a garota do abraço e olhando pra ela, vermelha e com falta de ar a ponto de desmaiar – Ah, o Naru-chan me contou sobre como vocês se conheceram e ele salvou a sua vida, ele disse que você era bem bonitinha e graciosa, eu juro que pensei que era mentira, já que todos os nobres tendem a ser bastardos irritantes, mas acho que ele tem razão, você é tão fofa!
“Essa mulher é maluca” – ela pensou, até que algo clicou na sua mente e ela se sentiu ruborizar novamente – “Naruto me chamou de bonitinha?!”.
–Venham, sente-se – Naruto as chamou pra mesa – Você esta com fome Lafiel, já é quase hora do almoço...
–N-Não – ela agitou as mãos a frente do rosto, era um costume que tinha pegado com o próprio Naruto – Eu não quero incomodar, eu tenho algum dinheiro pra ir comer fora...
Sinceramente, ela queria ficar sozinha com Naruto o máximo de tempo possível, mas aquela mulher não parecia nem minimamente disposta a larga-la. Anko se sentou bem ao lado dela, em êxtase por ter dois bichinhos de pelúcia fofinhos com ela, ela não conseguia se decidir qual era mais gostoso de apertar.
–Não esquente com isso garota, Naru-chan adora cozinhar pros outros – Anko disse – Aliás, eu acho que ainda não me apresentei, meu nome é Anko.
–Lafiel – a garota inclinou a cabeça levemente – Você é uma onee-san do Naruto também?
–Também? – ela franziu o cenho, até sorris descaradamente – Você conheceu Yugao, Kurenai ou Hanna-chan?
–Hanna-san também é irmã dele?
–Bem... na verdade eu não tenho parentes de sangue vivos – Naruto respondeu, tomando uma golada do chá – Mas tem algumas pessoas que cuidaram de mim desde que eu era pequeno, Yugao, Hanna e Kurenai são algumas delas, também tem kakashi-onii-san, e Ibiki-oji-san, e Iruka-sensei... Pra mim eles são minha família, eu morreria por eles.
Lafiel corou bonitinho com aquilo, até uma coisa tirar todo o ar dos seus pulmões.
–E tem a Anko também, ela é a minha namorada.
“Ah sim... – ela olhou da mulher mais velha pro ruivo – Espere... NAMORADA?!”
Lafiel encarou o nada de boca aberta, enquanto todos os seus sonhos foram picotados e quebrados e esmagados com brutalidade. Naruto não pareceu ter notado nada demais, e Anko estava se remexendo feliz na sua própria cadeira, por qualquer que fosse o motivo. Um minuto de silêncio se passou inteiro, e a elfa foi a primeira a quebra-lo.
–Namorada?
–É...
–Do tipo... namorada?
–Como assim?
–Quer dizer que vocês... sabe... vocês fazem... coisas?!
Anko apenas assentiu felizmente, enquanto Naruto franzia a sobrancelha, perdido em pensamentos sem sentido. Interiormente, Kyuubi suspirou. Tudo o que ele não precisava agora era de uma nobre caindo de amores por ele.
–Ah sim, nós fazemos muitas coisas – Anko respondeu, em um tom que combinaria muito com uma professora, então puxou a garota pra ela e cochichou algo no seu ouvido. A cada segundo o rosto de Lafiel foi ficando mais e mais vermelho, até que ela desmaiou encima da mesa, manchando a mesa com uma hemorragia nasal.
–Naru-chan, você só conhece garotas pervertidas – Anko riu, tomando seu chá.
Naruto suspirou. Receber visitas as vezes era tão problemático. Quando estava pra acordar Lafiel, algumas batidas soaram na porta, e Anko correu pra atender. Um segundo depois Kiba correu pra dentro da sala, pulando atrás de Naruto e tentando usa-lo como um escudo pra fúria de Anko.
–Saia daí pervertido, eu disse que ia te quebrar da próxima vez que te visse.
–Sua mulher louca, eu disse que foi um acidente!
–O caralho que eu acredito nisso, você me espiou enquanto eu e Naruto fazíamos amor!
–Vocês estavam do lado do meu fuuton, eu só acordei com o barulho! A culpa é sua por gritar tão alto!
–Não tem como não gritar, Naruto é muito bom no que faz!
–Como se eu quisesse saber disso!
–Saía daí covarde, eu vou te retalhar todo!
“Eu estou cercado de pessoas insanas” – Naruto pensou, antes de pegar Kiba pela gola da camisa e atirar pra cima do ombro, direto na namorada. Os dois caíram no chão e, um segundo depois, estavam correndo pela casa, pulando as janelas e por cima do telhado. Quando a torturadora o pegou, começou a esgana-lo na sacada.
–Você precisa de alguma coisa Kiba? – Naruto perguntou distraidamente, bebericando o chá – Eu ia levar Anko e Lafiel pra almoçar fora...
Anko parou de estrangula-lo apenas pelo tempo suficiente pra que pudesse responder:
–Mamãe mandou chamar vocês dois pro almoço – ele apontou pra Anko também – O namorado da Hanna chegou lá agora a pouco, e ela esta cozinhando...
–Hanna-chan sabe cozinhar? – Anko perguntou com um sorriso, como se não estivesse montada nele e com as mãos na sua garganta, ele apenas assentiu em resposta – Então, esse tal de Ryuzen finalmente deu as caras... Eu quero ver que tipo de homem roubou o coração da Hanna do Naruto.
–Eu não tinha o coração dela Anko...
–Ah, claro que tinha, ela era louca por você...
–Bem, o recado esta dado – Kiba chutou Anko pra trás e se levantou, esfregando o pescoço, enquanto a jounnin se revirou no chão, xingando em voz alta – Quem é essa garota Naruto?
–Humm... É a Lafiel.
–Quem?
–É a garota que eu conheci na minha primeira missão – Naruto respondeu – Também é a filha de Ryuzen.
–Hein, ele tem uma filha?! – Kiba pareceu surpreso – Ele deve ter sido realmente muito jovem quando se casou pela primeira vez...
–Por que, quantos anos ele tem?
–Uns vinte...
Anko corou com o pensamento.
–Ele é mais foda que você Naru-chan...
–Na verdade ele tem mais de quarenta anos, pelo que eu sei – Naruto ignorou o olhar estupefato dos dois – O clã dele todo envelhece bem devagar, pode chamar isso de Kekkei gekai, mesmo os anciões do clã não parecem ter mais de quarenta anos, e isso por que eles tem quase oitenta...
–As mulheres também são assim?
–Eu não sei, mas acho que sim...
–Que inveja – Anko caiu pra trás, sentada no chão e recostada na perna da mesa – Eu queria ter cabelos azuis bonitos e ficar jovem pra sempre...
“Não... não queria” – Você tem lindos cabelos roxos e olhos cor de ametista Anko – Naruto sorriu – Você não precisa ter ciúme de Lafiel.
–Ahhh... Você é tão fofo Naru! — ela pulou por cima da mesa e caiu no colo dele, que sorriu antes de beija-la.
–Eca, vocês dois são nojentos – Kiba disse – Da pra irmos logo? Hanna disse que ia me degolar se eu demorasse...
–Claro, eu estou sentindo falta de Tsokoka, é uma boa oportunidade pra vê-la – ele sacudiu Lafiel pelo ombro, mas a garota não quis acordar de jeito nenhum. Suspirando, Naruto a pegou nos braços e desapareceu num flash de movimento, com Anko e Kiba logo atrás dele.
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Tsokoka rosnou baixinho enquanto olhava diretamente para o par de cobaltos no rosto de Semimaru. Vários cachorros do clã estavam em torno dos dois, formando um círculo com partes faltando pela ausência de mais espectadores, depois que as lutas dos dois tinham se tornado comuns no distrito, a maioria dos cachorros não fazia muita questão de assistir.
“Esses dois estão lutando de novo” – murmurou um labrador marrom escuro pra um outro cachorro cinzento, assistindo a luta com ele – “Qual o placar deles mesmo?”
“Trinta e sete a quarenta para Semimaru, se eu não engano, sem contar os empates” – ele bocejou largamente, deixando a língua cair pra fora da boca.
“Ela o esta alcançando rapidamente”
“É, ele ganhou a maioria no começo, mas agora Tsokoka-san o esta pressionando muito em todas”
“O que acha que vai acontecer?”
“Sobre o que?”
“Será que ela vai acabar se rendendo aos cortejos dele?”
O grande cinzento não respondeu por um instante, os olhos pregados na forma como cão e loba se circundaram por um instante, avançando em algumas fintas e se afastando novamente. A cada luta o tempo que eles levavam pra se medir parecia aumentar em proporção inversa com o número de aberturas que conseguiam encontrar um no outro. Por lutarem tanto um com o outro, eles tinham se melhorado mutualmente, e ao mesmo tempo, se familiarizado muito com os movimentos um do outro.
“Eu realmente não sei, Semimaru sempre foi muito insistente em tudo o que quis, ele não esta muito acostumado a ouvir não...”
“Bem, acho que vem junto no pacote de ser filho do alfa” – o labrador marrom riu, apontando com o focinho um par de cadelas que reclamavam uma com a outra sobre como aquela “loba metida” podia ignorar os avanços do Semimaru-sama, e que ela se achava melhor que todos os outros ou como não devia estar ali.
“Bem, os filhotes dela gostam de Semimaru”
O marrom riu com gosto.
“Bem, você pode dizer o que quiser dele, mas não pode dizer que ele não é esperto, ele conquistou os filhotes pra tentar se aproximar da loba”.
“Com você dizendo parece uma coisa tão baixa a se fazer... você sabe que ele também gosta dos garotos”.
“Ah é, ele ficaria furioso se algo acontecesse com eles”.
“Pois é”
A maioria dos cachorros em volta concordou mentalmente com os dois, enquanto observavam Semimaru e Tsokoka avançar na garganta um do outro, com as presas cintilando de saliva e os olhos semicerrados. Infelizmente, as duas cachorras não estavam prestando atenção a isso, e com um sorriso malicioso nos lábios, as duas deram meia volta, indo direto pra área onde os filhotes ficavam.
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“Ok, eu vou contar até vinte!” – Nezumi latiu, pulando sobre as patas, excitada com a brincadeira que tinha se tornado sua favorita após Akamaru ensina-los – “Se escondam bem ou eu vou achar todos vocês!”.
“Tsc, isso é uma perda de tempo” – Garou bufou – “Eu podia estar treinando em vez de perder tempo com essa bobagem”.
“Não é bobagem Garou-kun” – Akamaru disse com um sorriso – “Nos usamos essa brincadeira pra treinar”.
“Como correr de lá pra cá e se enfiar em arbustos pode ser treinamento, cachorrinho?!” – ele disse, com um sorriso insolente no rosto, até levar uma rabada no focinho de Nami.
“Baka, seja bom com o Akamaru-kun, ele é nosso anfitrião!” – ela caminhou sensualmente, ou o que achou que era sensualmente até o cachorro branco e se aconchegou nele, fazendo a voz ficar tão manhosa quanto podia – “Então, vamos nos esconder juntos Akamaru-kun?”.
O cachorro branco apenas negou, sem perceber nada das tentativas de Nami de impressiona-lo.
“Não podemos, cada um tem que se esconder por si próprio, senão não da certo...”.
“Eu ainda não sei como isso pode ser treinamento...”.
“Bem...” – Akamaru se sentou sobre as ancas, tentando sem muito sucesso assumir o mesmo tom de Kuromaru quando dizia algo sério... se bem que, ele estava sempre sendo sério – “Em primeiro lugar, nós temos que nos esconder, então isso ajuda numa missão quando precisarmos ficar escondidos, temos que ser silenciosos e observar bem os arredores, como vocês fazem quando caçam...”
Nenhum dos lobos teve a humildade de dizer que eles, na verdade, nunca chegaram a caçar nada, então os três filhotes assentiram orgulhosos de si mesmos.
“E depois, um de nós tem que nos perseguir, é um treino pra encontrar alguém escondido ou farejar shinobis inimigos, e também ajuda a nos preparar pra ataques surpresa”.
Garou franziu a testa levemente, embora nunca fosse admitir aquilo, ele estava impressionado como aqueles cachorros ninjas conseguiram colocar tanto treinamento em uma simples brincadeira. Nezumi não pareceu se importar muito com isso, ela estava se remexendo no lugar, ansiosa pra brincar logo, e Nami, atrevida, deu uma lambida de leve no rosto de Akamaru, que avermelhou de vergonha.
“Você é tão esperto Akamaru-kun, deve ser um ninja incrível!”
Ele só deu de ombros, sem negar ou concordar com aquilo.
“Eu quero brincar, andem logo com isso!”
“Então, os filhotes querem brincar?” – disse uma voz desconhecida, lenta e agradável como um rio correndo, mas que, por algum motivo, enviou um arrepio de expectativa pela coluna de Nezumi – “Será que podemos brincar também?”.
Os quatro observaram duas cadelas adultas, mas jovens, fazerem seu caminho até eles, se sentando uma ao lado da outra com sorrisos quase idênticos no rosto. Akamaru as reconheceu imediatamente como Sora e Haruna, as duas dálmatas gêmeas que tinham uma pequena queda por Semimaru.
Nami apenas as olhou de canto, irritada, será que elas queriam dar encima do Amakamaru-kun?! Nezumi e Akamaru tiveram a mesma sensação ruim na boca do estômago, aquilo de alguma maneira não parecia ser uma boa ideia, mas quando ambos estavam prestes a negar, Garou deu um passo a frente, se ele tivesse mais baba escorrendo da boca poderia ter enchido uma tigela.
“Claro!” – ele tentou montar uma expressão atraente pra impressionar as duas belezas – “Vai ser mais divertido se vocês brincarem conosco”.
As duas dálmatas se entreolharam e sorriram uma pra outra. Fácil como tirar doce de criança.
“Eu... Eu não sei” – Akamaru tomou a frente novamente, se sentando ao lado de Garou que o olhou com raiva pelo canto dos olhos, o que diabos aquele albino idiota pensava que estava fazendo?! Ele ia espantar as cadelas, e então Garou não teria tempo de mostrar o quão impressionante ele era pras duas cruzarem com ele – “Vocês não são um pouco velhas pra brincar com filhotes?”.
“Não seja bobo querido, nós somos jovens ainda, nós mal completamente seis anos”
“É, nós ainda podemos brincar de vez em quando sabe?! – Haruna se levantou, deixando a cabeça e a calda meio baixas – “Mas se vocês acham que íamos incomodar tudo bem, nós entendemos...”
“Não, espere!” – Garou empurrou Akamaru para o lado, com o corpo, se colocando novamente a frente dele – “É claro que nós queremos brincar com vocês, não liguem pro albino, ele é meio lento pra entender as coisas...”.
Nami levantou os lábios e exibiu as presas pro irmão, mas ela poderia praticamente ter agarrado seu rabo que ainda sim ele mal notaria. Nezumi só rolou os olhos com isso, Garou sempre parecia um cervo nos faróis quando encontrava fêmeas adultas.
“Ah, isso é muito gentil da sua parte Garou-kun” – Sora disse, se aproximando levemente dele e acariciando seu rosto com o focinho, quase o deixando caído no lugar – “Mas nós cansamos de brincar de esconde-esconde aqui, não podemos ir pra outro lugar?”.
“Mas nós não devemos sair do composto” – Nezumi tentou dizer, mas Garou a calou com um rosnado.
“Onde as senhoritas – ele deu um sorriso convencido que arrancou gargalhadas mentais das dálmatas, embora elas trataram de parecer lisonjeadas – gostariam de brincar?”
“Bem, a alguns quilômetros ao sul daqui tem uma boa floresta, cheia de árvores enormes e muitos arbustos pra se esconder, é um lugar muito melhor pra jogar esconde-esconde”.
Akamaru franziu o cenho levemente, tentando mapear a distância no mapa mental que ele tinha da vila. Quando ele descobriu onde ficava, seus olhos quase saltaram do rosto.
“A-A floresta da morte!” – ele latiu, tremendo do focinho até a ponta da calda – “Vocês querem ir pra floresta da morte, será que vocês perderam o juízo?!”
Sora rosnou levemente pro filhote, mas Haruna a calou com um toque na pata que passou despercebido pra eles.
“Tudo bem Akamaru-kun, nós vamos estar lá, então nada vai acontecer com vocês – ela disse – E eu tenho certeza que, se qualquer coisa acontecer e não chegarmos lá imediatamente, você e Garou podem lidar com a situação, não é Garou-kun?”.
LoupGarou estufou o peito, orgulhoso, assentindo muitas vezes, e mesmo que Akamaru ainda estivesse receoso, ele acabou concordando levemente. Nami achou que era um pouco estranho levar filhotes pra um lugar conhecido como “floresta da morte”, mas ela tinha nascido e crescido numa floresta, não devia ser tão ruim né?! Vai ver aqueles cachorros só falavam isso por que não sabiam direito como correr em um, mas ela sabia.
Nezumi não parecia nem um pouco convencida, no entanto.
“Eu não vou brincar num lugar desses” – ela disse, se deitando no chão em e ficando ali em desafio – “Podem ir vocês”.
“Mas não vai ser divertido sem você, Nezumi-chan” – Akamaru disse tristemente, arrancando um rubor de Nezumi e outro de Nami, embora o dela fosse por irritação.
“Se ela não quer ir pode muito bem ficar aqui” – Nami disse, passando ao lado do cachorro branco e fazendo questão de roçar nele pelo caminho – “Vamos, Akamaru, nós podemos nos divertir só nós dois!”.
Ainda meio indeciso, ele caminhou até as duas cadelas, que ostentavam sorrisos gêmeos de vitória. Garou foi com elas sem dar nem um segundo pensamento, se pondo a frente de todos e caminhando no centro, como se fosse o líder, mesmo que ele não tivesse nenhuma noção de pra onde estavam indo.
Nezumi só ficou ali, emburrada no mesmo lugar.
“Bobos” – ela disse consigo mesma.
A luta de Tsokoka e Semimaru havia continuado por vários minutos, e parecia que se prolongaria pra sempre se a loba não tivesse parado, em um determinado momento, e levantado a cabeça pro alto, farejando alguma coisa. Semimaru, percebendo como ela estava distraída, parou o tsuga que estava prestes a formar e se sentou lentamente no chão, focado completamente nela pra ter certeza que não era um truque.
“Você esta bem docinho?” – ele brincou, apesar de alguma preocupação passar pelos seus caninos – “Será que você percebeu que não pode vencer e esta se rendendo?”.
Tsokoka não respondeu ao cachorro, ela apenas farejou o ar por mais alguns minutos, e em seguida, saiu em disparada na direção de Semimaru. Ele se preparou pra esquivar do golpe e contra-atacar, mas a loba passou direto através dele, pulando uma fila de cachorros surpresos na plateia e derrapando um pouco antes de voltar a correr, tão rápido quanto podia.
“Ei, se sair desse jeito vai ser derrota pra você!” – Semimaru gritou a plenos pulmões – “Você ouviu isso?! TSOKOKA!”.
Ela nem ao menos deu trela pra ele, só continuou correndo até desaparecer da vista do filho do alfa. Bufando consigo mesmo, ele se voltou pro gigantesco dogue alemão.
“Marque isso como um empate Cinzento, eu não acho que poderia ganhar se ela tivesse continuado com a luta”.
“Ok” – ele respondeu, anotando o resultado mentalmente. Cinzento tinha a fama de nunca esquecer de nada – “Onde acha que ela foi?”
“Sei lá, ela saiu correndo seguindo um cheiro... cheiro de raposa” – ele disse, parecendo surpreso consigo mesmo, e antes que qualquer um pudesse responder, ele se atirou pra frente e pulou por cima de Cinzento, só roçando a pata no topo da sua orelha.
“Semimaru!” – O labrador marrom gritou por sobre o ombro – “Onde você pensa que vai?!”.
“Eu vou atrás da minha mulher!” – o cachorro gritou por sobre o ombro, já longe. Ele podia ser arrogante, mulherengo ou o que fosse, mas ninguém podia dizer que não era determinado.
“Não vai ser uma raposa de todas as coisas a tira-la de mim” – ele pensou, consigo mesmo, disparando na mesma direção que ela tinha corrido.
Naruto apareceu na frente do composto Inuzuka em um flash de movimento, acenando pros guardas que pareciam bobalhões observando Lafiel desmaiada no seu braço, e entrando sem nem uma palavra. Anko e Kiba vieram logo atrás dele, ignorando os chunnins e se dirigindo direto pra casa de Tsume, no centro periférico do distrito.
–Ne Kiba, como Hanna-chan conheceu Ryuzen-dono?
–Hum... eu não sei de todos os detalhes – ele explicou – Mas a uns dois meses atrás o Hokage pediu que Hanna fizesse uma outra missão, ela não ficou muito feliz por estar aposentada, mas acabou aceitando, já que não seria nada muito complicado.
–E acabou se tornando?
–Não, na verdade foi tudo muito tranquilo, a missão era de escoltar Ryuzen e a filha dele, eu suponho que seja essa garota – ele apontou pra onde Lafiel ainda dormia, no colo de Naruto – De Incandescence até Vermillion, e desde aquela vez ela já vez cinco missões assim, em todas, pelo que eu sei, Ryuzen-san pediu especialmente por Hanna, e ela não pareceu mais incomodada em fazer missões com ele.
–Pelo que eu sei, Hanna e ele se apaixonaram durante a primeira missão, e Ryuzen fez mais e mais viagens até a cidade real só pra poder vê-la – Anko disse, com um sorriso – Que pena não é, Naruto?! Mais algum tempo e eu tenho certeza que ela teria se confessado pra você.
–Hanna não estava apaixonada por mim Anko...
–Ah, qual é, é claro que estava.
–Bem, deixa pra lá, vocês dois são problemáticos – Kiba disse, então se deparou com algo correndo na direção deles – Ei Naruto, aquela não é...
Ele não teve tempo de terminar o que ia dizer, por que Naruto jogou Lafiel pra ele, que se atrapalhou todo pra pegá-la antes de cair no chão. Quase imediatamente depois Tsokoka saltou, batendo as patas no seu peito e o levando pro chão, parando com o rosto em frente do seu, os dentes a mostra e um rosnado baixo escapando levemente por eles.
–Ela parece zangada com você Naruto... – Anko acrescentou seus dois centavos a situação, examinando as próprias unhas como quem não quer nada.
–É por que eu saía sem avisa-la... – Naruto disse, então se voltou até a loba e disse, parecendo arrependido de verdade – Desculpe te preocupar, Tsokoka...
Ela parou de rosnar por um momento, mas ainda o olhou seriamente, como se decidindo se o perdoava ou não. Por fim ela acabou perdoando, por que arrastou a língua pelo rosto, até o cabelo, e saiu de cima dele.
“Você não pode ficar me jogando em qualquer canto e me deixando lá sem falar nada, idiota”.
–Desculpe, eu prometo que vou vir te visitar sempre que puder daqui pra frente – Naruto levou a mão até as sua cabeça e coçou levemente atrás da orelha, quase tirando um ronronar dela – Por acaso aquele é seu namorado, Tsokoka?
A loba piscou os olhos confusos, olhando pra trás, onde Semimaru observava tudo com uma sobrancelha franzida.
“Não ligue pra ele, nós estávamos lutando quando eu vi que você chegou e vim te ver”
–Você não precisava parar a luta só pra isso, eu ia deixar Lafiel na casa de Tsume-san e já estava indo te procurar”.
“Como se eu acreditasse, aposto que você nem se lembrava que eu existia”.
–Ei, isso é maldade da sua parte – Naruto então voltou os olhos pro cachorro, observando tudo a distância – Venha aqui rapaz.
Semimaru pareceu em dúvida por um segundo se ia ou ficava, mas lentamente se aproximou do ruivo, pescando alguns detalhes nele que eram conhecidos amplamente, tanto na vila quando no distrito.
“Naruto-sama?”
–Corta essa, só me chame de Naruto – ele afagou a cabeça dele por um segundo – Tsokoka me disse que você é o namorado dela.
Semimaru pareceu infinitamente feliz, enquanto a loba pareceu infinitamente irritada.
“Então você finalmente admitiu querida?”
“É mentira, eu não disse nada disso! – ela se voltou pro ruivo, que estava rindo tranquilamente – Ei Naruto! Desminta isso, seu idiota!”
–Calma, calma – ele se levantou – Eu estava brincando Semimaru.
O cão deixou os ombros caírem, meio deprimido, até que Naruto o puxou levemente pela orelha e cochichou alguma coisa. Seja lá o que fosse, o deixou muito contente de uma hora pra outra.
–Onde estão seus filhotes Tsokoka, faz tempo que não vejo eles também...
“Eles estão brincando com Akamaru no playground dos pivetes”.
–Vamos, não pode ser tão ruim assim...
“O fato desse imbecil – a loba apontou Semimaru com o focinho – ainda brincar lá até hoje o torna ruim o suficiente pra mim”.
“Ei, eu só vou lá pra ver os filhotes, eu gosto de crianças – ele se aproximou da loba, com um sorriso convencido no rosto – Você vê, eu seria um ótimo pai não?!”
“Eu tenho pena dos filhos que você tiver”
“Que coisa feia a dizer dos seus próprios futuros filhotes querida”
Naruto riu consigo mesmo, os deixando discutir um com o outro enquanto voltava pra Kiba. Ele notou com um sorriso de canto que ele não parecia afetado pelo rosto a mostra de Lafiel, e também não fez nada pra evitar que ele a pegasse dos braços dele. Sem uma palavra, Naruto desapareceu num flash de movimento, e Anko foi a próxima.
Kiba olhou ao redor por um momento, e logo depois desapareceu num shunshin de fogo, partindo pro seu próprio destino. Tsokoka e Semimaru continuaram a discutir, sem nem notar que todos tinham ido embora.
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Algumas horas atrás... atrás... atrás...
Ryuzen seguiu o caminho indicado por Yugao sem qualquer contratempo, e quando chegou em frente ao distrito Inuzuka, ele tinha uma caixa de bombons, um buque de rosas vermelhas e brancas e um caroço estranho na garganta que não queria sair. Ambos os guardas olharam fixamente pra ele por um instante, antes de se entreolharem e rirem.
–Por mais que eu fique lisonjeado rapaz – disse um dos chunnins – Eu já tenho uma esposa, sabe?
–Então se não tivesse você aceitaria Tomoko? – brincou o outro guarda – Eu achei que você jogava noutro time hein...
–Idiota...
–Deixe só eu contar essa nova pra sua mulher, tenho certeza que ela vai dar um pé na sua bunda e aceitar sair comigo.
–Cale a boca imbecil, você esta constrangendo o garoto – O guarda que tinha falado inicialmente avançou, pegando o buque de flores e dando uma boa cheirada, antes de devolver a ele – Então, pra quem são essas flores meu chapa?
–Ah, são pra Hanna-san – ele respondeu, com um sorriso constrangido – É pra agradecê-la por me deixar ficar aqui com minha filha enquanto assistimos os exames-chunnin.
–Filha, você não é jovem demais pra isso? – Ryuzen apenas negou levemente – Quantos anos ela tem? Deve ser bem jovem, eu mesmo tive uma filha no mês passado, ela já aprendeu a bater palmas.
–Ah é, sua filha é tão inteligente – o outro guarda disse sarcasticamente – Se puxar ao pai vai levar mais alguns anos até aprender a engatinhar, até os trinta você já vai ouvi-la falando algumas palavras.
–Não ligue pra esse idiota – ele o cutucou dolorosamente na cintura com a lança, e riu quando ele se dobrou um pouco exageradamente, resmungando de dor – Então, ela tem quantos ?
–Treze.
–Ah, então já fez um aninho.
–Na verdade não... – o nobre riu consigo mesmo – Ela tem treze anos.
Ambos ficaram em silêncio no mesmo instante, enquanto um cálculo mental simples passava pela cabeça dos dois. Vinte subtraído de treze era igual a...
Ambos se curvaram imediatamente, plantando os joelhos no chão e curvando a cabeça, quase em sincronia.
–NOS ENSINE MESTRE!
Ryuzen rolou os olhos, tentando fazer os dois se levantarem e parar com as proclamações de lealdade eterna ao cara de vinte anos que tinha uma filha de treze.
–Pode não parecer – ele disse – Mas eu tenho quarenta e dois anos.
Ele tirou o manto que cobria seus cabelos, e eles caíram pelos lados do seu rosto, apenas uma pontinha branca apareceu entre a cascata azul claro, a ponta da sua longa orelha afunilada. Sem o manto, os dois reconheceram-no imediatamente e se levantaram.
–Ah sim, um elfo – Tomoko riu, coçando a nuca um tanto constrangido – O senhor deve ser Ryuzen-sama né?! Desculpe pela brincadeira...
–Só Ryuzen chega, e foi divertido – ele segurou o buque entre a dobra do braço pra tirar a camada de cabelo presa dentro do manto – Será que Tsume-sama e Hanna-san estão em casa, eu não sei se cheguei muito cedo...
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!–Ah sim, elas estão, o senhor pode entrar.
–Obrigado.
Konoha já era de, alguma forma, bem diferente do que Ryuzen tinha pensado que era. Ele sempre imaginava o lugar como... algo mais organizado, mais espartano, como locais exatos onde deviam existir as casas, e talvez um pequeno bairro comercial, coisas assim, onde soldados seriam criados, não pessoas. Claro que ele sempre pensara em ninjas como pessoas, mas era fato que muitos não pensavam assim. Até agora, Konohagakure parecia ser como qualquer cidade que ele já tinha visitado, apesar de muito mais agradável que todas elas. Não havia aquele miasma irritante de perfumes super misturados lotando a atmosfera, enquanto damas da corte passeavam em suas liteiras, cada uma se esforçando pra parecer mais notável que a outra, chegava a doer olhar pra algumas, de tanta maquiagem, brilho e perfume que elas usavam. Na vila da folha o ar era puro, puríssimo, ele podia dizer, havia tantas árvores e tanto verde por aí, cercando a maioria dos prédios e se aglomerando em parques e campos e florestas, e o distrito Inuzuka parecia ser a epítome disso. Pra qualquer lado que olhasse ele sempre via duas coisas: Árvores e cachorros.
Ryuzen decidiu, com apenas alguns minutos de caminhada despreocupada, que adorava aquele lugar. Os pássaros cantavam, os cachorros corriam de um lado a outro, brincando ou treinando ou dormindo na soleira das portas. Ele chegou a ver um lobo, enorme, deitado no galho de uma árvore, e podia jurar que o animal lhe deu um breve aceno de cabeça quando ele passou, após bocejar.
Ele retribuiu o aceno, mesmo que talvez fosse apenas imaginário.
No meio da caminhada ele acabou esquecendo exatamente de onde devia ir, e apenas seguiu por algumas ruas, observando o design das casas e das pessoas. Hora ou outra um ninja passava correndo por ele, pulando os telhados e cortando o vento como laminas afiadas, e aquela velha fascinação lhe voltou com um pouco mais de força, dos tempos que ele queria ser um shinobi. Ele parou ao lado de uma casa, e após se certificar que não tinha ninguém olhando, tentou pular o mais alto que conseguia, mal passando de meio metro do chão. Ele tentou de novo, usando a parede como apoio como tinha visto alguém fazer com uma caixa d’água, e conseguiu apenas cair de bunda no chão, murmurando de dor e rindo da própria estupidez.
Aquele corpo fraco, ao que parece, não fora feito pra correr sobre as árvores.
Quando estava prestes a se levantar, ele notou um pequeno filhote parado ao seu lado. Ela tinha pelos do mais profundo negro, contrastando perfeitamente com as muitas veias brancas que lhe surgiam entre ele, como se alguém tivesse pego um pincel e, as cegas, tentado escrever algo naquele cachorrinho.
–Oi amiguinho – ele levantou uma mão em saudação, apesar de se sentir tremendamente idiota por estar falando com um cachorro – Você não me viu cair né? Se viu não conte a ninguém, foi muito embaraçoso...
O cachorro apenas latiu uma vez, se aproximando devagarinho dele e o cheirando por um instante. Ela pareceu gostar de qualquer coisa que estivesse experimentando por que levantou a cabeça e latiu mais uma vez, deixando a língua pra fora da boca.
Ryuzen afagou a cabeçinha dele, e antes que pudesse impedir o cachorro pulou encima dele e se arrumou no seu colo, olhando diretamente pros seus olhos com orbes cor de chocolate derretido.
–Ora... você não pode se deitar aí.
O cachorrinho apenas latiu.
–Não, você tem que sair, eu estou indo ver uma amiga minha.
Outro latido.
–As pessoas acham que ela é minha namorada – ele mordeu o lábio distraidamente – Eu queria que ela fosse, mas e se ela não gostar de mim?
Outro latido.
–Você não pode ter tanta certeza, e se ela me achar apenas um nobre irritante, e estiver só fazendo o seu trabalho? – Ryuzen pareceu repentinamente apavorado – E se ela só tiver me convidado pra ficar na casa dela por que eu a pressionei demais? Droga... Eu sou um idiota, eu deveria ir embora agora e me poupa-la do infortúnio da minha presença.
O cachorro rosnou levemente pra ele, então latiu duas vezes. Ryuzen riu.
–Desculpe usar palavras difíceis com você – ele pegou o cachorrinho com cuidado e o trouxe até que estivesse cara a cara com ele – Eu queria entender o que você esta dizendo, sabe?! Por algum motivo você me parece um bom conselheiro.
–Ela disse: “Hanna-san, este cara de cabelos azuis é estranho e esta falando um monte de lorotas, mas ele tem um cheiro bom” – disse uma voz atrás dele, que gelou a espinha de Ryuzen – Ah, e ela esta brava com você por achar que ela é um macho, o nome dela é Choko...
Lentamente, muito lentamente, ele virou a cabeça até se ver cara a cara com os olhos castanhos sombreados de azul da mulher que ocupava, disparado, a primeira posição da sua lista de “ninjas favoritos”, seguida bem de longe por Naruto e Sarutobi, e então o resto do mundo.
–H-H-H-Hanna-san! – ele tentou se levantar rapidamente, mas acabou esquecendo do cachorro e, quando viu que ele ia cair, tentou pegá-lo. O resultado final disso foi um nobre parado de cara no chão e uma cadelinha rindo feliz do homem bobo azul engraçado.
A Inuzuka riu e o puxou pelo braço, tirando uma mexa do cabelo azul longo de frente do seu rosto e limpando a terra da sua testa.
–Você continua desastrado como sempre, Ryuzen... – ela riu, apesar de um tom de rosa permanecer nas suas bochechas. Quando ele estava pra dizer alguma coisa, Hanna voltou os olhos pro cachorro, que estava em silêncio – Ahã... Sim... sim, tudo bem... entendi...
O elfo olhou do cachorro pra namo... amiga com uma sobrancelha franzida.
–Ela esta dizendo alguma coisa?
–Sim, é pra você.
–O que é?
–Ela disse: “Hanna-san, por favor, diga pro Ryuzen-kun que ele não tem que ficar nervoso com isso, eu sei que você não o acha um nobre bobo como todos os outros e que você gosta muito dele”.
Ryuzen corou em vermelho profundo, mas se aproximou levemente dela, e Hanna, tão vermelha quanto, se aproximou junto.
–E... o que mais ela disse?
–Ela também disse: “Eu acho que você devia parar de bobagem, e beija-la de uma vez, por que senão ela vai fazer isso...”.
Ryuzen não pode evitar sorrir, enquanto juntava o rosto com o dela e selava os seus lábios com os seus. Hanna devolveu o beijo no mesmo instante, moldando sua boca a dele e permitindo que ele a guiasse como bem entendesse. Apesar de ser mais forte que ele, e mais rápida que ele, e ver mais longe, e ouvir mais alto, e cheirar mais forte e tocar mais fundo, ela o deixou comanda-la do jeito que quisesse. Naquele instante, se Ryuzen tirasse as roupas e quisesse fazer amor ali mesmo, ela provavelmente o deixaria fazer, do jeito que quisesse, e adoraria cada segundo disso também.
“Pra alguém tão forte, você é meio submissa Hanna-chan...” – Choco disse com um sorrisinho pervertido.
Hanna apenas deu o dedo a ela, antes de dar um tapinha na suas ancas e toca-la embora.
Os dois continuaram se beijando por vários minutos, ali no chão mesmo, só mudando levemente de posição pra que Hanna pudesse se sentar no seu colo, e guiar suas mãos até as coxas e bunda dela. Ryuzen deu-lhe um aperto suave e ela gemeu no meio do beijo, sentindo a umidade na virilha começar a aquecer sua calcinha. Ela rebolou levemente e o beijou ainda mais profundamente, provando da língua dele com volúpia, sem nem se importar de estar no meio de um dos bairros do clã, numa hora que seria bem movimentada. Qualquer um que passasse pela rua naquele momento veria a herdeira do clã praticamente se amassando com um nobre, e o pensamento de ser vista só serviu pra deixa-la ainda mais excitada. Quando estava a ponto de arrancar suas próprias roupas, ela ouviu vários cliques, e um calafrio gélido na sua espinha travou todo seu corpo.
–Huhuhuhu – Tsume riu, antes de arreganhar o sorriso, tirando foto após foto da filha e do namorado juntos. Quando ele percebeu a presença dela tentou se levantar por impulso, e deu com a cabeça na parede – Que par de pervertidos eu não encontrei aqui, no meio da rua? Será que vocês não tem vergonha?!
Ryuzen corou até a raiz dos cabelos azuis, e por mais um pouco eles teriam ficados vermelhos do excesso de sangue no seu rosto. Hanna apenas amarrou a cara, meio incomodada enquanto a mãe pulava de um canto a outro, procurando os melhores ângulos pra fotografar.
–Tsume-sama! Eu juro que...
–Vamos lá Ryuzen, beije ela de novo, dessa vez enlaçando as mãos nos seus cabelos, eu vou montar um excelente álbum disso!
–Do que você esta falando mamãe? – Hanna cruzou os braços, emburrada.
–Do que mais, eu quero registrar em fotos a primeira vez de vocês dois, então tenham certeza de ser inesquecível – ela parou de fotografar por um instante pra arrumar o cabelo da filha com algumas passadas de dedos – Isso, perfeito, agora, que posição vocês vão fazer primeiro? Mamãe e papai?! De quatro?! Hanna adora essa... que tal um bom oral pra começar? Se certifique de puxar bem os cabelos dela, eu quero emoção, quero... Ryuzen?
Ele estava desmaiado, com a cabeça praticamente enfiada na parede pela força da propulsão nasal de sangue. Hanna suspirou, saindo do colo dele e arrumando a saia e a blusa de volta, antes de caminhar até a mãe e pegar a câmera, a esmagando entre as garras sob protestos e lágrimas.
–Quantas vezes eu te disse que você não ia estar lá pra ver a minha primeira vez com o Ryu-kun?
–Haaaaaana-chaaaan... não seja malvada, vamos, eu quero guardas boas recordações do meu bebê!
–Eu não sou mais seu bebê mamãe...
–Eu estou falando do que vocês fizerem!
–Não.
–Por favor!
–Não.
–Eu te compro pocky... – ela disse, com um sorriso de quem sabe que tem uma carta na manga.
–Mãe, eu não sou mais criança, você não pode mais me subornar com doces.
–É, eu estou vendo, eu gostava mais de você quando podia... – a matriarca dos Inuzuka cruzou os braços abaixo dos seios – Alem do mais, se eu pude registrar o primeiro orgasmo do Naru-chan, por que não posso fazer o mesmo com você?
Hanna apenas revirou os olhos, puxando a cabeça de Ryuzen pra fora do concreto sólido. Ela estava feliz que naquele mundo, as leis da física previam que pessoas em momentos pervertidos podiam ignorar qualquer tipo de ferimento, ou o cérebro dele já teria virado purê àquela hora.
–Vamos pra casa mamãe, eu vou deixar Ryu-kun descansando no meu quarto e você não vai estar nos observando.
–Ahh, ansiosa pra montar ele de novo? – ela riu, com uma gota minúscula de sangue lhe escapando pelo nariz.
“Deus do céu, por que minha mãe tinha que ser uma Super-pervertida? – ela franziu o cenho – Eu fico imaginando como o papai a aguentava desse jeito...”.
De repente a imagem do homem que, com certeza, se daria muito bem com ela daquele jeito lhe veio a mente, com cabelos brancos longos, uma verruga no nariz e linhas vermelhas no rosto. Será que... nããããããoooo
Era mais fácil a próprio Kyuubi ter sido seu pai, do que aquele auto intitulado “Super-pervertido”.
Longe dali, cada um em um lugar, Jiraya e Naruto espirraram no mesmo instante, repentinamente alertas, até darem de ombros com o pensamento que alguém em algum lugar estava falando deles.
****************
Sora e Haruna guiaram os filhotes com um sorriso gêmeo nos lábios, era fácil demais. Garou ia entre elas, levemente a frente, parecendo muito orgulhoso por estar na companhia de duas fêmeas atraentes, e Akamaru seguia logo atrás, com Nami ao seu lado, ela parecia bastante assustada, tremendo levemente e grudada no seu pelo.
“Nós vamos mesmo brincar aqui?” – ela engoliu em seco – “É assustador...”.
“Não seja boba querida – Sora disse, piscando pra ela – Só tem alguns animais aqui, nada que seja perigoso pra um ninken ou um lobo – Ela mal conseguiu conter o nojo da voz, mas tratou de se corrigir com um sorriso doce.
“É Nami, fique quieta!” – Garou latiu, lá da frente, gingando animadamente – “Eu não tenho medo”
“Ora, como você é corajoso” – Haruna disse, com um sorriso nos lábios – “A sua fêmea vai ter sorte, tenho um lobo forte pra protegê-la”.
Garou mal conteve o tremor de excitação.
“É verdade nee-chan – Sora disse – Se nós fossemos um pouco mais jovens né?!”
Ambas riram quando Garou abriu um largo sorriso, começando a contar que ele na verdade era um pouco mais velho do que parecia, e tinha quase a idade deles. Filhotes, ainda mais os machos, eram tão fáceis de enganar.
Mais alguns minutos de caminhada, até chegar a uma área que, ambas sabiam, não ficaria muito tempo livre de predadores, Haruna e Sora se voltaram pros três.
“Muito bem, então vocês se escondam bem, e eu e Sora vamos procura-los, ok?”
“Ei, não é apenas um que tem que procurar?” – Akamaru disse, franzindo as sobrancelhas.
“Esse é um jogo especial, então nós duas vamos procura-los, assim quando os acharmos vocês três podem vir procurar a gente – Haruna disse – É um treinamento em equipes, que tal?”
“Parece interessante” – Nami disse, tentando soar mais corajosa do que realmente se sentia.
“Sim, sim” – Haruna piscou pra Sora, que caminhou sensualmente até Garou — “Eu vou começar a contar, vocês começam a correr quando chegar a vinte, e quando der cem, eu vou procura-los, ok?”
Akamaru e Nami se prepararam pra correr, enquanto Garou notou Sora caminhando até ele. Quando estava prestes a dizer alguma coisa ela o silenciou colocando a calda a frente da sua boca, e se abaixou até o nível do seu ouvido.
“É verdade mesmo que você tem quatro anos Garou-kun?”
Ele mal tinha feito dois ainda.
“É, quase cinco!”
Sora ronronou de propósito, bem no seu ouvido, e o som sensual arrepiou a coluna do garoto e fez algo lá embaixo dar Sinais de vida.
“Não diga pros outros, mas nós não vamos procura-los – ela riu baixinho, e o interrompeu quando ele ia perguntar por que – Nós só queríamos trazer você aqui pra ver se o que dizem de um lobo é verdade mesmo, você acha que pode dar conta de mim e minha irmã?”
LoupGarou franziu o cenho, sem entender direito a que ela se referia.
“Nós queremos cruzar com você – ela explicou – Desde a primeira vez que te vimos queremos ser as suas fêmeas – ela lambeu o lado do seu rosto, ainda discretamente, excitando o rapaz ainda mais, e a cada palavra que foi dizendo ela o lambeu mais uma vez, cada vez mais perto do seu focinho, ao final da frase Garou estava prestes a ejacular – Tem uma grande pedra a norte daqui, é quase um quilômetro de corrida, então assim que terminarmos de contar vamos até lá, nos espere lá Garou-kun, se quiser ser nosso macho”
Por fim, ela mordeu levemente o pescoço do garoto, que já estava meio que agachado no chão, tremendo e com os olhos vidrados de felicidade. Haruna riu do teatro da irmã enquanto contava, e assim que chegou a vinte, os filhotes correram, Garou praticamente voando, direto pro norte.
Assim que eles saíram, as duas se aproximaram e cheiraram o chão, bem onde uma poça branca de esperma estava caída.
“Você fez o garoto gozar só falando?”
“Ei, eu sou foda”.
“Muito bem, vamos deixar aqueles idiotas serem devorados” – ela cutucou o ombro da irmã com um sorriso insolente no rosto – “E o seu namorado também”.
“Idiota, eu só tenho olhos pra um macho, e é o Semimaru-sama, aquela loba esnobe vai aprender o que acontece quando tenta roubar o parceiro de outras cachorras, andando por aí se sentindo só por ser uma loba...”.
“Esqueça, ela em breve vai estar tão triste que vamos poder mata-la facilmente”.
“Sim, só temos que pegar a pirralha que ficou no distrito, mas não deve ser difícil”.
“Que coisa feia estamos fazendo, né?! Matando filhotes...”
“É como dizem queridinha, no amor e na guerra vale tudo”.
Ambas riram e saíram andando calmamente. Os filhotes estavam escondidos, o lugar estava limpo, sem ninguém pra ouvir, e o destino de todos eles estava selado.
******************
Quando Naruto chegou ao distrito Inuzuka, e encontrou Hanna, ela caiu na gargalhada.
–O que foi? – o ruivo perguntou, olhando pro próprio quimono pra ver se tinha alguma coisa nele, ou se os cabelos estavam numa posição estranha – Tem algo no meu rosto?
–Não – Hanna se controlou , passando apenas a rir baixinho – Nos seus braços.
–Lafiel?... O que tem ela?
–Elfos parecem propensos a ficarem desacordados com frequência – ela disse, pegando a garota e rumando para o segundo andar, pelas escadas – Mamãe esta na cozinha fazendo uma torta, por que não vão dar um “Oi” pra ela?
Naruto assentiu e seguiu pra cozinha, que ele já sabia onde era. Enquanto estava na academia, se fosse contar todo o tempo que ele passou naquela casa, e depois o tempo que passou no seu apartamento... bem, ele tinha passado muito tempo lá. Anko também, ao que parece, por que ela voou direto na geladeira, procurando por qualquer coisa, até tirar uma porção de garrafas de sakê e se acomodar numa cadeira, tomando uma golada com vontade de uma, antes de passar a bebericar o conteúdo com um sorriso tranquilo no rosto. Tsume estava no forno, e por mais clichê que possa parecer, usava um avental de babados rosa por cima da roupa de sempre, e luvas de forno cor de rosa nas mãos. Ela parecia a figura de capa perfeita pra um filme intitulado: “Minha mãe é uma assassina”, se algum assim já fosse escrito.
–Ah, Naru-chan! – Tsume tirou as luvas e o apertou num abraço – Você é uma criança malvada, por que não trás mais as suas roupas pra mim lavar?
–Eu não quero dar trabalho, Tsume-dono...
–Affs, eu já te falei mil vezes, você pode me chamar de Tsume-chan, ou Tsume-kaa-chan se quiser – ela o abraçou novamente, esfregando os seios nas costas dele enquanto beliscava suavemente suas bochechas – Afinal, você mamou dos meus seios e perdeu sua virgindade comigo, não tem por que ter vergonha...
Naturalmente, Naruto apenas ficou com vergonha, corando tão vermelho quando era possível, mas pro agrado de Tsume, ele não fez força alguma pra sair do abraço, apenas se recostou nele, confortavelmente.
–Ahh, eu queria tanto que o Kiba fosse fofinho como você! – ela riu, o soltando após lhe dar um beijo na bochecha – Mas ele parece mais um cachorro vira-lata!
–Um cachorro vira-lata molestador e pervertido! – Anko acrescentou, erguendo a taça de sakê como se fosse um brinde.
–Eu não acredito, ele fez de novo?
–Sim, ele ficou espiando enquanto Naru-chan e eu fazíamos amor.
–Ah, eu vou me entender com ele depois – ela arregaçou a manga da camisa, pra mostrar seu ponto, deixando a mostra uma cicatriz recente enfaixada. Quando notou que Naruto estava olhando pra ela, Tsume sorriu – Não se preocupe, eu fui ferida na minha última missão, mas isso é o máximo que eles conseguiram fazer comigo, afinal, eu sou incrivelmente foda!
Anko e ela riram juntos, e por um momento ficou fácil perceber que, de certa forma, Tsume era uma inspiração pra sua namorada.
–Você precisa de alguma ajuda Tsume-do... – Naruto limpou a garganta ao olhar assassino dela – Tsume-chan?
–Ah, assim esta bem melhor – ela apontou algumas coisas encima da pia – Será que você pode picar tudo isso pra mim Naru? Eu acho que vou fazer um molho pra por sobre a torta e no arroz...
–Claro – Naruto girou a faca entre os dedos, antes de descascar primeiro as cenouras. Anko e Tsume observaram com um sorriso de canto como ele cuidou de tudo rapidamente, com movimentos fortes e precisos, e depois de apenas dois minutos, havia uma tábua branca, vermelha, amarela e laranja, cheia de legumes picados em quadradinhos minúsculos que derreteriam no molho.
Anko parou o cronômetro que havia saído de... algum lugar, antes de sorrir.
–Dois minutos e seios segundos encaixados – ela riu – Naruto é mesmo bom com laminas né?
–Se é, ele seria um grande S-master se quisesse...
–Ah, eu estou o convencendo a isso – Anko disse, em tom de fofoca, ignorando Naruto no meio da cozinha. Como Tsume parecia muito mais interessada na sua vida sexual do que no almoço, ele pegou a colher da sua mão e o avental, e passou a cozinhar o molho – Outro dia eu pedi que ele usasse umas laminas em mim...
–Ah, de que?
–Barbear....
Tsume mordeu os lábios com o pensamento.
–Essas são boas, como é que foi?
–Ah, ele poderia ter ido muito mais forte, mas ficou com medo de me machucar, o bobinho – Anko riu, já meio mole pelo sakê – Ainda sim foi muito, muito bom , eu estou no processo de convence-lo a me prender em correntes.
–Ah, eu adoro essa parte – Tsume se sentou ao seu lado, compartilhando do sakê – E te deixar a noite toda presa na cama, com um vibrador né?
–Você já fez isso – Anko agarrou as mãos dela, se aproximando – Me conta tudo!
–Calma garota, eu vou dizer, veja, antes de conhecer o pai da Hanna eu estava em uma missão de assassinato, tinha que matar um ninja da névoa...
–Ah, eles tem fama de que são todos sádicos, é verdade?
–O que eu encontrei, ao menos era – Tsume riu – Eu me vesti de garçonete no restaurante onde soube que ele estava, tive que usar uma maquiagem bem forte pra apagar as marcas do rosto. No começo pensei que não fosse dar certo, mas sabia que ia ter a cabeça dele no outro dia quando ele apalpou minha bunda no momento em que fui servi-lo.
–Você deixou?
–Claro!
–Tsume-san... sua pervertida!
As duas riram, enquanto Naruto continuou mexendo na panela, de olhos fechados.
“Essas garotas” – ele riu.
Até o ponto que Kia chegou, trazendo Hinata, Shino e Haku no reboque, Tsume já estava na parte que o ninja da névoa tinha usado dois vibradores enquanto cortava seus seios levemente e a obrigava a fazer oral nele. Hinata pegou apenas um pedaço da conversa e desmaiou no processo, enquanto Haku e Shino deram meia volta no mesmo momento, indo pro quintal até que a história terminasse. Kiba apenas suspirou.
–Mãe, temos visita, da pra parar de contar suas aventuras sexuais?
–Ei, não me venha com essa, filhote de cachorro, você vai precisar dessas aulas sexuais quando for iniciar a Hinata no mundo S&M.
Kiba esfregou a ponte dos olhos.
–Mãe... pela última vez, eu não vou cortar ou amarrar a Hinata, nem obriga-la a vestir coisas, ou fazer coisas constrangedores, ou nada do tipo...
–Ela vai largar de você se não fizer isso.
–Não, só você é doente a esse ponto.
–Ei – Anko levantou a mão pro ar, com um sorriso meio torto no rosto – Eu também!
–Então você me deixaria se eu não te amarrasse? – Naruto brincou, e riu quando Anko avermelhou até a raiz dos cabelos.
–N-Não, eu... eu gosto de ser amarrada, mas... eu g-gosto mais de você.
Foi a vez de Naruto corar, puramente por ser pego de surpresa, até a área em torno do seu focinho interno esquentou. Tsume apenas olhou de um pra outro, antes de se debulhar em lágrimas.
Lafiel acordou em algum momento do meio da tarde, ou pelo menos foi o que ela pensou, dada a intensidade da luz que batia na sua janela e era refletida diretamente no seu rosto. Por um segundo ela esqueceu que estava fora de casa e tentou alcançar a cortina e fecha-la, rastejando pela cama ainda com os olhos pregados no colchão e tateando em volta. O problema é que ela não estava no seu quarto, aquela cama não era tão grande quando a sua, e ela acabou indo de cara pro chão... De novo.
“Isso deve ser um karma, eu vivo dando de cara com as coisas” – ela pensou, meio rabugenta consigo mesma. Felizmente ela tinha caído encima de um tapete fofinho, e graças a isso não ia ficar com um vermelho embaraçoso na testa – “Onde é que eu estou...?”
As lembranças vieram um segundo depois, junto com o seu senso de tempo e espaço, e o cheiro maravilhoso de algo que fez sua boca encher de água. Ela inconscientemente seguiu o cheiro, sem se dar conta que estava vestida com apenas alguns dos véus que antes compunham sua roupa, e por isso os braços, as costas, as pernas e boa parte da barriga lisa estavam a mostra, graciosamente peroladas para o mundo ver.
“Isso é tão boooom...” – ela pensou, um pouco mais acordada, apenas o suficiente não tropeçar nos degraus ou dar de rosto com a porta – “É o que eu queria daquela vez que cozinhei pro papai, mas eu não sabia que não se deve colocar perfumes no arroz pra fazer ele cheirar melhor...”
Por fim ela chegou a uma ampla sala, com uma mesa repleta de cadeiras e cheia de comida, pratos e pratos e tigelas e travessas cheias de coisas que, pelo cheiro, não deviam existir fora do paraíso. Foi mais ou menos o tempo que ela notou que:
A: Estava seminua frente a uma multidão.
B: Todos eles estavam em silêncio e a encarando de boca aberta.
Esquecendo rapidamente da comida, Lafiel tencionou se virar e correr de volta pro quarto, gritando, e então bater a porta e chorar por duas horas direto até dormir de novo, mas acabou congelando no lugar quando se lembrou daquele bando de nobres em Vermillion. Tinha sido quase a mesma coisa, e daquela vez ela estava apenas com o rosto a mostra.
Ali, com as coxas lisas aparecendo, o vento arrepiando suas costas nuas e a barriga a vista de todos, ela se sentiu como um pequeno gatinho frente a uma alcateia de lobos famintos.
As reações, no entanto, não foram as que ela esperava. Um garoto usando um casaco que escondia seu rosto e óculos escuros começou imediatamente a bater a testa na mesa, murmurando algo que poderia muito bem ser uma oração ao Deus das cabeçadas ou um mantra frenético, uma outra garota, de pele branca e cabelos negros como ébano fez o mesmo, mas na parede, murmurando: “Dragão mal, dragão mal” uma vez atrás da outra. Na surpresa da situação ninguém notou isso e também não se perguntou por que mencionar dragões. Um outro deles, com cabelos escuros e marcas vermelhas na bochecha foi imediatamente nocauteado com uma hemorragia nasal, assim como a garota que ela lembrava ser Anko, e uma outra garota bonitinha com olhos brancos. Yugao apenas corou em vermelho profundo, apertando as bordas da mesa e olhando vidrada pro próprio prato, enquanto o pai dela a encarava em temor óbvio.
O primeiro a reagir, de fato, foi Naruto. Ele se levantou e caminhou até ela.
Agora, Lafiel realmente gostava dele, e num futuro próximo esperava ansiosamente que ele pudesse passar a mão por todo seu corpo, que já era dele mesmo na sua compreensão, mas isso não queria dizer que ela gostaria se ele fizesse isso na frente de um monte de gente, mesmo que alguns estivessem desacordados, e outros estivessem dando cabeçadas nas coisas. Fechando os olhos, que cintilaram com pequenas lágrimas brilhantes prestes a escorrer pelo seu rosto, ela se preparou pro que, com certeza, viria a seguir.
Uma pequena parte do seu cérebro se perguntou onde ele a tocaria primeiro. Seria o seu rosto? Ou os braços trêmulos? Ou quem sabe as coxas firmes e bonitas, ou o bumbum empinadinho e redondinho que qualquer mulher no mundo mataria pra ter, ou os seios ainda pequenos, mas cheirosos e convidativos? Todo seu corpo se arrepiou esperando o toque que deveria ser reconfortante, mas naquele momento, foi assustador.
Ela não esperava, no entanto, que ele tocasse seus ombros. Quer dizer, Lafiel tinha ombros bonitos, tudo nela era bonito, mas ombros não eram exatamente uma tara comum dos homens, ainda incomuns, só que mais frequentes, eram os pés, mas ele nem deu bola pra eles. Curiosamente, no entanto, ele não apalpou ou esfregou seus ombros, apenas a puxou um pouco pra frente, enquanto ela sentia um tecido mais pesado, embora ainda suave, cobrir todo o seu corpo, até o meio das suas coxas.
Naruto tinha apenas tirado seu quimono e a vestido com ele, e agora levantava seu queixo com os dedos, pra que ela pudesse olhar nos seus olhos sorridentes. Sem perceber ela semicerrou os olhos, entreabrindo os lábios e esperando o toque íntimo que ela estava mais do que ansiosa pra receber.
E ele realmente veio, mas não foi nos lábios. Com um toque quase paternal, Naruto a puxou pra si e beijou a sua testa, por vários segundos, deixando uma impressão quente dos lábios dele ali, antes de afagar seus cabelos e tirar uma lágrima do seu olho com a ponta do dedão.
–Não precisa ficar com medo Lafiel – ele disse, baixinho – Enquanto eu estiver presente, você nunca vai precisar ter medo de nada, eu vou sempre te proteger.
O rosto dela aqueceu em vermelho profundo enquanto olhava a sinceridade quente nos olhos cor de safira, e ela poderia muito bem ter começado a chorar feito uma garotinha e se agarrado nele ali, senão tivesse mais uma porção de pessoas assistindo os dois como se fossem o casal principal de uma novela particularmente emocionante. Anko e Tsume estavam de braços dados uma a outra, com lágrimas escorrendo dos olhos de uma forma completamente cômica, e Ryuzen...
O sorriso dele poderia ter rasgado seu rosto ao meio. Netos com cabelos vermelhos e bons com espadas, lá vamos nós!
Hanna apenas assistiu a interação com um sorriso de canto, as mãos dadas com as do pai da garota por baixo da mesa, enquanto Yugao estava ofegante e meio corada, embora o efeito de ver o corpo dela quase nu ainda a afetasse internamente. Ela murmurou um pedido de desculpas e saiu da mesa, meio que cambaleando até fora do cômodo pra limpar a nuvem de obcessão do cérebro. Do lado de fora da casa ela se permitiu encostar na parede, tremendo da cabeça aos pés enquanto se masturbava freneticamente, até escorrer para o chão num orgasmo avassalador
.
Ela ficou lá por um bom tempo, quase o resto da tarde, e enquanto fumava distraidamente um cigarro, coisa rara de se ver nela, se perguntou se alguma vez na vida esqueceria a textura de cetim ou o toque brilhante daquela pele, ou a maciez extremamente atraente dos seus lábios rosados.
Ela achava que não, a vontade de correr de volta pra dentro, toma-la nos seus braços e beija-la como se sua vida dependesse disso corria como fogo nas suas veias, mas nunca que ela cederia a essa tentação. Não tinha como ela fazer isso com uma criança inocente e fofinha.
Bem... Não uma que não fosse Naruto, as vezes, quando dava vontade, ela ainda o beijava, e já que Anko não se importava, nem ele, aparentemente, por que ela deveria se importar?!
Dentro de casa, após o constrangimento inicial, Lafiel passou a conversar com todos na mesa, cada vez mais animadamente, principalmente enquanto falavam das missões que Naruto tinha realizado na vila da névoa, ou como era a sua vida na aldeia da folha, depois que ele tinha a deixado em Vermillion com seu pai três anos antes. Mesmo sem querer ela acabou monopolizando a atenção de todos, e mais tarde, quando seu pai brincou com ela sobre isso, ela corou envergonhada e pensou em pedir desculpas.
Nenhum deles parecia zangado com isso, apesar de tudo, Naruto era um assunto interessante pra todos ali.
Foi só depois do almoço, quando o sol já estava mais quente no céu e Lafiel saiu pra um banho foi que duas coisas aconteceram, ao mesmo tempo:
Primeiro: Quando estavam a ponto de irem levar comida para os filhotes, Nezumi entrou correndo dentro de casa, o pelo manchado de lágrimas, sangue e terra.
E segundo: Sem que ninguém percebesse, por desgraça, Yugao seguiu Lafiel silenciosamente até o banheiro da casa.
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Após ser dito onde esperar, Garou correu como um louco para o norte, em direção a formação rochosa que as duas dálmatas disseram que ele encontraria. Sua cabeça estava um turbilhão de pensamentos conflitantes, e todos eles pareciam meio anestesiados, enquanto ele se lembrava da textura e do calor agradável das lambidas femininas que ainda aqueciam seu rosto.
Ele nunca pensou que estar com uma fêmea seria tão bom, mas agora que tinha ideia de quão bom era, queria sentir aquele calor agradável no seu corpo novamente, e mesmo que, em vários momentos do caminho, todos os seus instintos e sentidos gritassem que ele não deveria ir naquela direção, ele apenas foi. Impulsionado pelo desejo, e não querendo perder tempo ou fazê-las esperar, ele correu o mais rápido que pode pra encontrar suas fêmeas no lugar marcado.
Era muito bom pensar nelas como suas fêmeas, agradável de várias maneiras diferentes, e enquanto corria, ansiando pra se encontrar novamente com elas, ele prometeu a si mesmo que protegeria aquelas duas com tudo o que tinha, não importa o que lhe custasse.
Por que, inevitavelmente, o pequeno filhote de lobo tinha acabado de se apaixonar. Azar que os objetos de sua afeição tinham intenções tão ruins em mente.
Akamaru e Nami também correram se esconder assim que as lobas chegaram a vinte na contagem, e mesmo que o cachorrinho branco tivesse dito que a loba devia achar seu próprio arbusto, ela insistiu em segui-lo, então ele desistiu. Ambos adentraram num canto escuro e repleto de lama, abaixo de uma velha raiz de abeto, e se sujaram um pouco pra disfarçar o cheiro. O cachorro albino apurou os ouvidos e tentou ouvir alguma coisa, enquanto permanecia agachado, tentando se misturar a escuridão, mas Nami continuava se encostando nele, e aquilo já estava ficando chato.
“Da pra parar de se aconchegar em mim?” – ele disse, soando um pouco mais grosseiro do que queria – “Por que esta aqui afinal de contas? você tem que achar seu próprio esconderijo!”
Nami recuou um pouco no tom zangado, e pra mostrar que era uma boa filhote encolheu o rabo entre as pernas e se afastou um pouquinho, com a expressão magoada. Akamaru viu isso e se chutou mentalmente por ser tão idiota. Chegando mais perto, foi a vez dele se aconchegar nela.
“Desculpe, é que eu estava tentando escutar alguma coisa e você me distraiu” – ele disse – “Eu não ligo que você fique comigo”.
Nami se permitiu um sorrisinho esperançoso.
“Sério?”
“Sim... eu gosto de você”.
Aquela tinha sido uma declaração totalmente inocente por parte do cachorrinho branco, mas Nami corou e sentiu o coração avançar algumas batidas, repentinamente feliz da vida. Ela se aconchegou mais forte nele, quase como se tentasse colar seus corpos e misturar os pelos um no outro.
“De verdade?”
“Sim, claro”.
“Por que não me disse antes?”
Akamaru franziu a testa em incompreensão, sem achar muito estranho o fato que o focinho dela enquanto sussurrava estava praticamente colado ao seu.
“Bem... eu não sei, não achei que precisava dizer isso...”.
“Eu... também gosto de você Akamaru-kun” – ela se aproximou mais ainda, os olhos caramelo mais claros que o normal – “Muito...”.
Ele sorriu largamente a isso, contente que tinha amigos que gostavam dele, mesmo sendo um albino. Ele estava pra dizer isso mesmo quando Nami fez algo que o pegou de surpresa. Ela o beijou. Não era como os seres humanos beijavam, era um beijo de cachorro, uma lambida carinhosa na ponta do seu focinho, que aqueceu seu nariz e avermelhou seu rosto. Apesar de diferente, o significado era o mesmo, ele só tinha visto adultos fazerem aquilo e nunca se preocupou se um dia faria também, pra ele era apenas algo bobo e nojento.
Mas então por que... por que era tão bom? Por que ele sentiu o peito apertar e um sentimento gostoso, que era como o mel nos olhos dela, percorrer pelas suas patas até o seu rabo?! Se aproximando, sem nem notar o que estava fazendo, ele a beijou dessa vez.
Nami não precisou de mais nenhum incentivo pra mudar de posição, esfregando o rosto no dele e dando uma lambida atrevida no seu pescoço, arrepiando os pelos brancos do lado do seu rosto. Akamaru sentiu o calor aumentar e devolveu o toque, provando da pele cheirosa dela, mesmo que manchada de lama. Eles se desligaram completamente do mundo por vários minutos, apenas concentrados nas sensações que podiam trazer um ao outro, e como elas eram boas. Nami se deitou na lama, convidativamente, e Akamaru sem jeito ficou por cima dela, num abraço sensual que filhotes não deviam fazer ainda, foi também o máximo que eles avançaram, e pra uma primeira vez, era mais que suficiente.
“Eu quero ficar pra sempre com você Akamaru” – Nami disse, num tom feliz, enquanto lambia levemente o companheiro, ou o que ela gostava de pensar que ele era, mas ainda não tinha certeza.
“Por que fizemos isso?” – o cachorro perguntou, ainda mortalmente confuso, focinho a focinho com ela. Pro seu constrangimento, ela riu baixinho, falando num tom sabido.
“Você é bem inocente mesmo né? Eu acho isso tão bonito em você”.
“Do que você esta falando?”
“Você tem um papai e uma mamãe certo? Eles não faziam coisas assim?”
“Sim, eles morreram, mas quando estavam vivos viviam grudados, eu achava nojento, mas é... bom, muito bom, eu quero fazer isso sempre”.
“Você pode fazer isso comigo sempre que quiser”
“Mesmo?” – ele perguntou, feliz, e como que pra provar seu ponto, Nami se inclinou pra cima e lambeu demoradamente o seu focinho.
“Sim, nós podemos fazer até muito mais que isso...”.
“O que?”
“Podemos cruzar quando formos mais velhos...”
Akamaru quase caiu pra trás.
“Por que faríamos isso?!”
“Ué, pra termos nossos filhotes, e por que é bom... – ela se afastou, meio magoada e zangada consigo mesma por ir longe demais numa hora tão boa – “Você não quer?”.
“Não!” – ele quase gritou, arrancando o que seria um começo de lágrimas da loba, até que ele continuou falando, num tom completamente apavorado – “Minha mãe disse que nós tínhamos que lamber nossos pelos até que formassem uma bola, e então engolíamos ela, e então essa bola de pelos crescia e virava um cachorrinho, que nós vomitávamos, eu não quero lamber pelos, é nojento!”
Nami piscou, confusa por vários segundos, até explodir numa gargalhada.
“O que?” – Akamaru disse, meio mal humorado, enquanto a garota se divertia as suas custas – “Eu disse ago bobo? Pare de rir de mim!”
“Des-Desculpe” – ela engasgou com o riso e se remexeu um pouquinho pra sair debaixo dele, se inclinando na árvore e respirando fundo, enquanto a barriga doía – “Mas foi muito engraçado, não é assim que se faz filhotes, nós não temos que comer os pelos de ninguém”.
“Não?”
“Com certeza não...”.
“Então por que... por que me disseram isso? E como se faz de verdade?”
“Acho que você era jovem demais e ela não quis te deixar confuso” – Nami respondeu, voltando a se deitar ao lado dele, e o puxando pra junto dela – “Não se preocupe com isso, eu vou te dizer quando ficarmos velhos o suficiente pra fazer”.
“Não podemos fazer agora?” – ele perguntou, repentinamente ansioso pra ter seu próprio filhotinho, agora que sabia que não teria que engolir e vomitar seus próprios pelos.
“Ah, eu com certeza queria fazer agora” – Nami pensou, mordendo os lábios e olhando discretamente pro corpo atraente do cachorro branco – “Nós ainda somos muito jovens pra isso, eu não vou poder ter um filhote até alguns anos”.
“Então é você que tem o filhotinho? E eu? Eu quero ter um também!”
“Só as fêmeas tem filhotinhos Akamaru” – Nami respondeu suavemente – “Mas você seria o papai, que acha?”
“Eu vou ser papai?”
“Se quiser...” – ela o lambeu ao lado do rosto, deixando seu rosto descansar ao lado do dele enquanto ronronava de felicidade – “Você pode ser o papai os meus filhotinhos”.
“Eu quero, eu vou ser o melhor papai do mundo!”
Ela riu baixinho, contente com sua própria maturidade. Apesar de ter quase a mesma idade que ele, fêmeas cresciam mais rápido né?!
“Eu tenho certeza que vai meu amor...”
Akamaru franziu o cenho e ela corou com o que deixou escapar, não era sua intenção dizer aquilo tão cedo.
“E-Eu... quero dizer..”
Akamaru, surpreendentemente, apenas sorriu, acariciando seu rosto.
“Obrigado...” – ele corou um pouquinho, envergonhado, enquanto dizia aquilo – Meu amor”.
Nami sentiu o calor no peito aumentar, e se recostou mais nele. Nenhum dos dois lembrava que estavam no meio de uma brincadeira, e que deveriam estar atentos aos seus arredores, embaixo daquela raiz, no meio da lama, tudo o que importava era que eles estavam juntos, com uma coisa recém descoberta que era extremamente agradável, mas meio assustadora também. Quando voltaram pro distrito, depois, Akamaru e Nami se sentiram mais velhos, e brincar com os filhotes já não os agradava tanto.
Acima dos galhos das árvores, um demônio que não sabia seu nome sorriu, meio feliz, meio triste. Ela gostava de chamar a si mesma de Tigrinha, o nome que Guerra havia lhe dado por causa das marcas negras na sua pele avermelhada, apesar de haver muitos outros ao lado daquele. As penas de águia presas nos seus cabelos negros ondularam levemente, enquanto ela se aproximava do jovem casal, vendo a felicidade estampada no focinho dos dois.
Ela sempre gostava dever aquilo acontecendo, mesmo que, de certa forma, fosse triste. Ela sentiria saudade daqueles dois, dos tempos em que corria entre eles e brincava com eles, sem que eles soubessem disso. Ela era o ar em torno das gargalhadas, era a sujeira no corpo das crianças que voltavam pra casa, e os ralados nos joelhos. Era as espadas de madeira, os piões e as bonecas, e era ela que cuidava das crianças que brincavam na floresta.
Ela era o demônio do fim da infância, e naquele momento, o ar, a lama e a árvore, o toque dos pelos e as respirações entrecortadas um do outro estavam repletos dela mesma.
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Foi rápido, tão rápido que ele quase não percebeu, e se não percebesse, estaria morto. Num minuto ele estava sentado, esperando as garotas que nunca vieram, e no outro, estava correndo pela sua vida de um tigre gigantesco enfurecido. Ele tinha a pele toda amarela, vermelha, laranja e preta e dentes caninos que fariam um Smilodon ficar verde de inveja, e só pra merdiar com tudo, ele estava morrendo de fome.
Garou não era uma pessoa muito exigente, apesar de ser meio mal humorado e cabeça quente demais na opinião geral da sua mãe e irmãs, mas ele gostava de muitas coisas. Ele gostava de Nami, mesmo que ela fosse chata e se achasse uma adulta, e de Nezumi, que ainda era pequenina e bonitinha como um recém nascido, mesmo que as vezes ela ficasse o importunando pra brincar com ela. LoupGarou também gostava de Tsokoka, ela caçava comida que matava sua fome, e o tinha ensinado como viver como um lobo de verdade deveria, por sobre as árvores gigantescas que mais ninguém conseguia escalar, ela também lhe contava histórias e tinha lhe dado um nome muito foda na sua opinião.
Mas ele realmente, realmente não gostava de gatos, ainda mais quando eram enormes e famintos.
Garou correu desesperado, procurando uma árvore que pudesse subir rápido o suficiente antes do tigre alcança-lo, o que era meio difícil, as árvores daquele lugar eram lamentavelmente pequenas e sem galhos, e o gato faminto estavam ficando cada vez mais perto do seu lanchinho, as patas enormes e poderosas fazendo o trabalho de persegui-lo e alcança-lo. Se fosse um filhote qualquer Garou já seria apenas uma carcaça no chão da floresta e uma memória daqueles que o conheciam, mas a manobrilidade dele era muito mais arredia mesmo que a de um felino. Foi no meio da corrida que ele pegou o cheiro familiar de Nami e Akamaru, meio misturados e disfarçados, e por um segundo ele se perguntou rabugento o que aqueles dois pensavam que estavam fazendo. Sem dar um segundo pensamento, no entanto, ele fez o que todo bom irmão faria e correu na direção oposta ao cheiro, torcendo pro gato burro não pegar a pista deles.
Não deu muito certo.
O tigre parou derrapando na terra, e sem ligar mais pro filhote, partiu em direção ao novo rastro, ansioso por porção dupla de filhotes pra saciar a fome monstruosa. Garou notou isso no mesmo instante e parou de fugir, correndo atrás dele, apenas o suficiente pra que pudesse segui-lo de perto e, Deus que o ajude, salvar sua irmã e melhor amigo – mesmo que ele negasse isso até a morte – mas distante o suficiente pra que pudesse fugir a tempo caso ele mudasse de opinião de novo.
“Ei seu idiota! – ele gritou o mais alto que podia, tentando ter certeza que o tigre enlouquecido de fome o notaria no seu estado de selvageria – Você não quer um bom almoço?! Venha atrás de mim!”
O tigre não fez qualquer movimento pra mudar de direção, apenas continuou correndo o mais rápido que pode, enquanto Garou já começava a ficar mais lento, os músculos queimando pelo excesso de ácido lático. Ele ainda não era forte o suficiente pra correr tão rápido por tanto tempo, e se amaldiçoou por isso, e Akamaru e Nami pareciam não ter notado ainda o cheiro do tigre gigante, e ele amaldiçoou os dois por isso também.
Foi mais ou menos nesse ponto que ele sentiu mais dois cheiros vindo, e a percepção de quem eram fez ele ficar, ao mesmo tempo, feliz e assustado.
Tsokoka e Semimaru.
No caso, Tsokoka e Semimaru estavam no meio de uma discussão, pra variar, quando deram por falta dos filhotes. Naruto e os outros ainda estavam almoçando, e ela resolveu não incomoda-los com algo assim, eles com certeza estavam brincando em qualquer lugar, ou ao menos foi o que ela pensou. Semimaru ficou um pouco mais preocupado, nenhum filhote devia deixar o distrito sem companhia de um ninja ou um cão adulto, e todos eles, mesmo os três jovens lobos sabiam disso. A única que eles encontraram, no entanto, foi a mais jovem da ninhada, e ela estava fugindo desesperada de duas cachorras quando Semimaru pôs os olhos sobre elas.
Não foi uma cena bonita de se ver, e no tempo de dois minutos, ele tinha uma explicação apressada repleta de lágrimas de Nezumi, uma salva de mentiras e impropérias, declarações de amor a ele, e declarações de ódio a Tsokoka de Sora e Haruna, e agora...
Bem, não era difícil entender o que tinha acontecido, ele só torcia que os filhotes não vissem os pedaços retalhados de carne de cachorro,e sangue e ossos quebrados que ele tinha deixado, em sua fúria, em qualquer lugar. Com o pelo ainda manchado de sangue, e surpreendendo até Tsokoka com a selvageria que ele destroçou suas duas fãs mais fiéis, Semi tinha a puxado com ele, e agora ambos corriam em direção a floresta, enquanto Nezumi, ainda assustada, corria em direção a casa principal do composto, tentando esquecer a imagem das duas dálmatas sendo retalhadas e procurando apressadamente o único cheiro que ela sabia que podia confiar naquela situação.
O cheiro de raposa e gente, de madeira envernizada e livro velho, de aço e sangue, carvão e relva, frésias e rosas, tinta e tabaco. Naruto.
O tigre também pareceu perceber a presença do cheiro do cachorro e da loba correndo atrás dele, mas não parou nem um momento de correr, e Garou seguiu exaustivamente atrás dele, se esforçando pra não se distanciar muito, tropeçando nas raízes e cortando o rosto nos arbustos, sem perceber direito. Um profundo corte, feito por um espinho em um galho chicoteado deixou uma cicatrizes limpa e lisa no seu rosto, cortando seu olho direito verticalmente. Ela não o cegou, mas repartiu a sobrancelha e a pálpebra eu uma linha grossa que, algumas semanas depois, já teria se tornado branca, contrastando com o pelo meio negro e marrom dele.
Aquela cicatriz também seria famosa, com o tempo, mas não seria a única. Naquele momento, a única preocupação dele eram seus irmãos. Akamaru e Nami pareciam ter percebido o cheiro só quando estava fatalmente próximos, e tiveram tempo apenas de subir na árvore em que estavam , se arrumando no galho mais alto a ponto de ver o imenso tigre saindo das folhagens, as presas arreganhadas pingando saliva e os músculos retesados. Ele teria chegado até eles num único salto, se Semimaru não tivesse aparecido, no mesmo instante, e acertado um tsuga bem no seu corpo, o mandando longe. O furacão de presas não era tão forte sem a ajuda do seu parceiro humano, e o golpe que teria retalhado a carne daquele tigre como se fosse manteiga apenas o jogou um pouco longe, com alguns cortes e pelo arrancado, que só serviu pra deixa-lo ainda mais furioso.
Ninguém disse nada, mesmo que tigres pudessem entender os cachorros e lobos pudessem entender os tigres, e no geral, todos eles pudessem entender um ao outro. Eles apenas ficaram se encarando, fixamente, se rodeando a espera do outro atacar. Garou subiu num galho assim que viu a situação, engolindo sem seco, arfando e se remoendo de preocupação, enquanto Tsokoka salivava sangue pelas presas, tão louca pra crava-las na carne do tigre que ela estava.
Ele atacou um momento depois, e o tsuga enfraquecido de Semimaru não foi o suficiente pra para-lo completamente. Tsokoka tencionou se juntar ao movimento, mas ela tinha aprendido o tsuga muito recentemente, e nunca dera sequer um pensamento em praticar aquilo com Semimaru, ele era apenas um cachorro idiota, certo?!
Agora ela estava se arrependendo mortalmente disso, e essa foi a segunda razão pelo sangue nas suas presas, ela tinha mordido a própria língua em fúria, tentando se manter alerta a tudo enquanto lutava com um predador muito mais capaz do que ela mesma.
Semi caiu após alguns minutos de luta, uma marca de mordida feia na perna traseira quebrada, ele já era completamente inútil pra lutar, e Tsokoka foi a próxima. Os dentes do tigre se afundaram no seu pescoço, e ela sentiu coluna retorcer e a traqueia comprimir até que ela estivesse a ponto de sufocar com o próprio sangue. Um segundo a mais ele teria partido sua coluna com a força dos molares, se ela não conseguisse acertar um tapa no seu olho, as garras arrastando dolorosamente sobre a pele dele, levando o globo ocular esquerdo junto.
Ela caiu no chão arfando, o tigre se afastou rugindo, Garou pulou no chão rosnando e Nami escondeu a cabeça no pescoço de Akamaru, chorando. Nenhum deles viu exatamente o que aconteceu no próximo momento, mas todos ouviram o farfalhar de folhas e o de aço, antes de tudo ficar em silêncio.
E então, do silêncio, veio a coisa mais horripilante que qualquer um deles já tinha sentido em toda a sua vida. Lobos e tigres não tem medo de raposas, elas eram pequenas, predadores de coelhos e ratos, indignas e abaixo até mesmo dos mais humildes cães, mas a partir daquele dia, todos eles criaram uma certa fobia de raposas, mesmo o tigre, que nunca mais ousou caçar nenhuma, mesmo que estivesse morrendo de fome e cercado de filhotinhos inofensivos.
Semi arregalou os olhos, enquanto via as nove caudas, e a espada dele que, de repente não parecia mais uma espada, era como presas longas de metal afiado, os olhos eram chamas e a presença dele era algo comparável a um incêndio selvagem, preso num só lugar, como toda a fúria de milhões e milhões de sóis comprimidos, todo o calor deles presos em dois orbes rubis que cintilaram e ameaçaram a todos a sua volta. O tigre não deu um segundo pensamento, antes de ganir e fugir pra longe dali, com o rabo entre as pernas e o passo manco. Havia cortes leves cobrindo todo o seu corpo, das patas até o estomago e até mesmo o rosto, nenhum muito fundo pra mata-lo e nenhum muito raso pra não deixar cicatriz inundaram seu pelo de vermelho.
Quando Tsokoka abriu os olhos, no entanto, as nove caudas já não existiam mais, e em vez de uma raposa de fogo furiosa, havia apenas Naruto, o seu Naruto, seu amigo e seu parceiro, segurando nos braços Akamaru e seus filhotes, após salvar suas vidas pela segunda vez.
“Uma promessa dentro de uma promessa – ela lembrou a si mesma – Eu vou cumprir as duas nem que leve toda a minha vida”.
–Vocês vivem me dando trabalho – Naruto murmurou num tom cansado e meio desconcertante que arrancou uma gota da cabeça dos dois adultos – Mas, dessa vez eu cheguei a tempo, tenham cuidado onde vocês brincam daqui pra frente.
“Ei, por que estamos levando bronca?” – Tsokoka o contrariou, num tom irritado não tão irritado assim – “Nós só viemos pegar essas bolas de pelo inconsequentes!”
–Eu sei, você fez bem Tsokoka – Naruto se agachou e deixou os filhotinhos caírem meio moles aos seus pés, antes de afagar a cabeça dela de um jeito brincalhão que ela nunca deixaria qualquer outra pessoa fazer – Obrigado.
“Eu não fiz nada pelo qual você precisa agradecer...” – ela resmungou.
–Então de nada – ele disse, e em seguida voltou os olhos pros filhotes, eles pareciam exaustos – “Eu vou levar esses três de volta, vocês dois podem voltar sozinhos?
“Claro”
–Bom, nada vai ficar no seu caminho, eu vou ter certeza disso – ele disse, antes de desaparecer num flash quente de pura velocidade.
Na floresta, repentinamente silenciosa, só sobraram Tsokoka e Semimaru, esse último ainda um tanto em choque pelo fogo do Nove caudas.
“Você... Você viu aquilo?” – ele perguntou, gaguejando de forma incoerente – “Era...”
Semi nunca terminou com a fala, nem com o pensamento, por que a loba fez algo que o pegou totalmente de surpresa. Se aproximando, ela tocou a ponta da língua no seu focinho, através do seu queixo para os lábios, e parou na ponta do seu nariz gelado, num beijo rápido, carinhoso, e com gosto de sangue. Mesmo assim, foi o melhor que o cachorro já se lembrava de ter ganho de alguém.
“Não se anime com isso, imbecil” – Tsokoka disse, tentando não gaguejar e rezando pra ele não perceber o rubor por tás dos seus pelos – “I-Isso foi só um agradecimento, por ter me ajudado a proteger meus filhotes”.
Nove caudas, de repente, foi a última coisa na mente do jovem husky siberiano.
“Isso quer dizer que somos companheiros?”
“Não!”
“Mas você me beijou, eu sei que vem querendo isso a tempos querida, não precisa se fazer de difícil...”
“Cale a boca ou eu vou te matar, seu cachorro estúpido”.
“Você é muito fria, mas eu tenho certeza que vai se abrir pra mim quando me tornar o alfa, e então eu vou querer outro beijo desses”.
“Já não disse pra calar a boca?”
Enquanto voltavam pra Konoha, o demônio do fim da infância foi a única a presenciar a discussão boba dos dois, todos os outros animais tinham sido espantados por Guerra, o mesmo Guerra que lhe tinha dado seu nome.
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