Notas iniciais
Uma vez me disseram que até minhas notas bestas do capítulo são divertidas de ler, então eu perco uma certa quantidade de tempo pensando no que escrever, só pra deixar aquele gostinho de graça antes do capítulo. Então eu resolvi dar todos os spoilers do capítulo nas notas! Brilhante não?! Aqui vai: -Tigrinha é o verdadeiro nome de Tora, ela é um demonio. -Sasuke e Orochimaru vão ter um caso amoroso. -O terceiro Hokage na verdade é o Kazekage disfarçado. -Kumo não existe, eles são os Uzumakis disfarçados. -Mei é um homem -E tudo isso é pura bobagem, leiam e divirtam-se. Ah sim, antes que eu me esqueça... Agradecimentos especiais ao Matheus Todesco, um cabra da peste - que coisa brega - ele me ajudou pra caramba com esse especial, vocês podem considera-lo o co-autor desse, então velho, obrigado mesmo. Eu sei que se ta sentindo super orgulhoso enquanto lê isso, a beira das lágrimas, emocio-analmente tocado, então que isso sirva de incentivo pra continuar me ajudando, e ganhando mais dessas notinhas firmeza que só eu sei fazer. E mesmo que ainda não tenha revisado, mas eu sei que vai, eventualmente, um agradecimento ao meu beta Gustrubio, por ter a divina paciência de sentar, ler tudo o que eu escrevo e tentar corrigir a maior parte possível, pro cérebro de vocês não virarem gelatina. Meus agradecimentos também ao Drakon, por me ouvir quando eu tenho ideias, mesmo se elas forem idiotas, um grande abraço pra todos vocês caras, vocês são firmeza demais.

Eu me lembro de quando era jovem, quando podia contar meus anos com apenas alguns dígitos, apenas sessenta anos de idade. Verdade seja dita, eu já era bem mais velho que isso, tinha milhares e milhares de anos, mas eu gostava de pensar em mim mesmo como outra pessoa. Eu já não era Discórdia, agora, meu nome era Guerra.

Eu não era apenas um demônio, agora, também era um Deus, um dos dois únicos Deuses Demônios que aquele mundo veria. Naquela época ainda não existiam estilos, só espadas, e das três que eu levava comigo, nenhuma tinha nome, eram pouco mais que metal afiado. Tudo isso aconteceu milhões de anos antes de eu conhecer Morai, de treinar Kenshin, e de me tornar Naruto, e naquela época, nomes não significavam muito pra mim.

O que mudou minha visão das coisas foi conhecer um demônio que não tinha nome, uma jovem de pele vermelha, com listras alaranjadas por todo o corpo. Os olhos dela eram da cor do mel, e nos seus cabelos, tão negros quanto tinta, várias penas de águia estavam presas, separando as madeixas e as deixando meio arrepiadas, como a crina de uma ave. Era estranho, mas bonito.

Estava chovendo quando eu a conheci, naquela época estava quase sempre chovendo, como se as nuvens estivessem feridas pelas montanhas de cumes altos e pontiagudos, que trespassavam o céu, como se as próprias estrelas pranteassem.

Fui eu que descobri seu propósito no mundo, e na falta de uma palavra apropriada, que a descrevesse por completa, como todos os demônios tinham, eu a chamei de Tigrinha. É inútil falar dela agora, enquanto um casal de gêmeos descansavam um contra o outro, tentando dividir o calor do seu corpo. Vocês não sabem quem eles são, nem como chegaram ali, mas talvez reconhecesse aquela coisa no ar entre eles, aquele sentimento estranho recém descoberto, algo que parecia mudar sua visão do mundo, e te trazia promessas pro futuro. Poucas pessoas já sentiram isso, e hoje em dia esta cada vez mais raro, mas se você já se pegou suspirando, enquanto observava aquela amiga de infância, que seus pais levavam pra brincar com você, na sua casa, se já se pegou tentando entender quando ela ficara tão bonita, ou se ficou olhando pros lábios dela, e se perguntando que gosto sentiria se os beijasse...

Bem, talvez você entenda do que eu estou falando, mas começar uma história pela metade é inútil, então, voltemos até o começo...

O Deus Dragão

Kowthe puxou com força, enquanto atava as laterais do barco com uma corda grossa, sentindo as fibras duras rasparem pelas suas mãos calejadas. Havia apenas alguns meses desde que ele tinha se tornado um homem, segundo os costumes da sua aldeia, e sempre que pensava nisso sentia o peito inflar de orgulho. Enquanto criança, você não era levado a sério, mas como homem...

As pessoas realmente ouviam você, e sua opinião valia mais do que um safanão e um: “Vá brincar em outro lugar”. Seu pai tinha lhe abraçado quando ele passou no teste, mas não afagara seus cabelos como sempre fizera. Em vez disso, ele o levou pra dentro da cabana e deixou que ele bebesse um pouco da Sidra que tinha guardada.

“Agora você tem responsabilidades filho” – ele tinha dito, com um sorriso fácil que a maioria das pessoas não sabia apreciar – “Você não é mais um protegido da aldeia, agora, você é um dos braços dela, vai lutar e sangrar como todos nós”.

Ele tinha esperado que seu pai o ensinasse a usar a farpa, que era uma faca grande de caça, feita de metal enegrecido e retorcida até formar uma curva grosseira e sinuosa. Trabalhar com metal era difícil, e mesmo sendo uma das poucas coisas que seu povo conseguia fazer, era incrível e incomparável aos olhos de um garoto, mas Nidan tinha dito que poderia esperar. Eles estavam em bom chão com todos os seus vizinhos, então não havia necessidade de ensinar um homem jovem a tirar vidas, não ainda, ele já havia abatido seu primeiro gamo e sido reconhecido por todos, era o suficiente por hora.

“Eu te ensino quando voltar da pesca – Nidan disse, com um tom de promessa, pra acalmar o filho ansioso – Eu prometo. Mas agora pegue sua irmã e vá”.

E era isso que ele estava fazendo. Terminado de aprontar o barco, Kowthe chamou pela irmã, que voltou com um embrulho pesado abraçado ao próprio corpo. Juntos eles empurraram a canoa pro rio, e deixaram que o fluxo forte de água os levasse, cada vez mais abaixo, onde os bons peixes viviam. Pescar ali encima até rendia resultados, mas a tribo de Kowthe já sabia que os peixes subiam o rio pra deixar seus filhotes, e filhotes pequeninos não matavam a forme de toda a família.

Como a maior parte da viagem foi feita em relativo silêncio, parece-me uma boa oportunidade pra descrever esses dois, então comecemos com a mais interessante: Nita, apesar de ser sua irmã gêmea, era consideravelmente mais baixa que Kowthe, por vários centímetros, e as feições femininas eram uma das poucas coisas que os diferenciava. Ambos tinham a pele num tom marrom terroso, curtida de sol, uma cor teimosa a ponto de não empalidecer nem mesmo durante os vastos invernos, que cobriam com neve toda a vastidão da floresta, e embranqueciam até mesmo as mais imponentes montanhas. As vestimentas dos dois também era de uma cor amarronzada, feita com couro de alce, ela quase sempre era larga e meio caída, escondendo com sucesso o corpo dos dois, a ponto de ser difícil diferenciar irmãos gêmeos quando são jovens. Os cabelos pretos também eram idênticos, assim como os olhos, mas as sutilezas apareciam se você olhasse tempo o suficiente.

Nita tinha o nariz pequenino, nariz de donzela – como sua mãe gostava de dizer. As sobrancelhas também eram delicadas e as bochechas eram mais redondas, fofinhas, aumentando ainda mais o ar infantil em torno dela. Eu talvez devesse dizer que suas mãos eram belas e delicadas, mas mulheres naquele lugar trabalhavam tanto, senão mais, do que os homens, e calos eram apreciados como um sinal de dignidade. É irrelevante dizer mais do que isso, eu prefiro me atar ao pouco que me lembro dos dois do que tentar embelezar seus personagens com detalhes incertos, era na personalidade, entretanto, que eles se diferenciavam.

Kowthe era impetuoso, era forte e gostava de demonstrar isso, tanto na sua voz quanto nos seus gestos, que eram amplos e impunham respeito, ou tanto respeito como um jovem de doze anos consegue receber. Sabe aquele tipo de pessoa que concorda com uma aventura, mesmo antes de saber os detalhes?! Era ele.

Já Nita era delicada, prudente e geralmente silenciosa. Ela não falava alto, e eu tenho certeza que evitava até pensar muito alto pra não ofender suas próprias ideias. Garotas geralmente eram submissas naquele tempo, já que sabiam que estavam bem abaixo dos homens, a ponto de ser considerado fala de respeito falar junto deles, mas enquanto a maioria assumia aquelas características com um pouco de discordância, apenas se adequando a uma situação da qual não gostavam, Nita parecia ter abraçado aquilo como parte da sua própria personalidade. Ela quase não falava a não ser que Kowthe ou Nidan lhe perguntassem algo, e se lhes dizia alguma coisa, era num tom baixinho e temeroso.

Eu gostava dela, ela era fofinha, mas não gostava daqueles costumes. Se Nita não tivesse sido ensinada a obedecer cegamente seu pai e seu irmão, ela talvez tivesse feito um bom uso do enorme bom senso do qual fora agraciada ao nascer – e que parecia fazer falta a Kowthe- e eles não teriam embarcado naquela tempestade, que Kowthe insistiu, não passava de uma chuvinha boba.

Mesmo atado firmemente, as cordas que ambos jogaram para as árvores escorregaram com a força da chuva, lançando o barco mais e mais, abaixo do rio. Eles não viraram, nem bateram numa das margens e se quebraram inteiros por pura sorte, a própria força da corrente impedia que saíssem muito do meio do rio, embora isso também fosse ruim, por que a cada minuto eles se distanciavam mais e mais da aldeia. Passado meia hora Kowthe e Nita viram o marco de pedra, que era o máximo até onde eles já tinham se afastado da vila, e mais algumas horas, molhados e meio desmaiados, eles notaram a asa, do qual só tinham ouvido falar em histórias.

Eles sabiam que era o lugar mais distante conhecido, do qual poucos, incluindo seu pai, tinham visto pessoalmente. Quase ninguém tinha, desde sempre, se afastado muito daquele ponto, e se os boatos eram pra ser acreditados, os que se afastaram não voltaram vivos.

Quando os dois perderam a consciência, entretanto, a Asa era apenas algo retorcido e feio, se afastando cada vez mais no horizonte. A chuva encheu o barco dos dois, que ficou pesado e bambo, e quando encontrou a primeira rocha entre o rio, a correnteza não conseguiu redireciona-lo a tempo.

Kowthe e Nita foram arremessados pra fora, direto pra margem coberta de neve, e ficaram caídos ali.

Eu ainda não os tinha encontrado, enquanto acordavam gelados e cobertos de neve, e só tenho uma ideia vaga do que eles fizeram, pegando pistas aqui e ali, numa conversa ou outra, do que passou pelos próximos dias. Até aquele momento era noite, e por falta de uma palavra melhor, estava desgraçadamente frio. Mesmo o tom marrom teimoso tinha ficado meio azulado e a ponta dos dedos dos gêmeos estavam duras e insensíveis, assim como os pés. Isso já parece meio ruim pra um leigo, mas se você vive em algum lugar que neva, e por algum motivo já tiver ficado alguns minutos, encharcado e gelado, fora de casa, vai entender o que eu estou falando. O termo “morrer de frio” se enquadrava vários graus abaixo da situação em que os dois estavam, e é mais uma sátira do que qualquer coisa, Kowthe e Nita estavam, entretanto, a beira de ter uma hipotermia, literalmente, morrendo de frio.

Não tem graça dizer que se esta morrendo de frio quando se esta mesmo morrendo de frio.

Eu não tenho nem ideia de como eles o fizeram, mas consigo imaginar ambos acordando, talvez minutos antes do ponto que seria fatal para os dois. Gosto de pensar que Nita acordou primeiro e salvou a vida do irmão, parece se enquadrar na imagem que tenho dela, e é bem provável que ela o tenha arrastado por algum tempo, até ele se aquecer o suficiente pra se levantar e ajuda-la a chegar na caverna onde os encontrei. Era mais como uma fenda na rocha, uma ferida funda a base de uma montanha, onde a neve não conseguia cair e havia espaço o suficiente pra até cinco pessoas se deitarem, lado a lado, desconfortavelmente.

Havia espaço entre elas, claro, mas ninguém fica confortável morrendo de frio. Eu também só posso imaginar qual dos dois saiu pra pegar uns galhos quebrados e úmidos, e arrasta-los junto com sua carcaça congelada de volta pra fenda, onde eles ficaram, pateticamente amontoados no chão, ignorantes a tentativa vã de serem acendidos numa fogueira.

Foi exatamente aí que eu encontrei os dois, e acho que vale a pena dar uma descrição de mim mesmo também. Naquele ponto da minha vida eu não tinha cabelos vermelhos, não usava quimonos nem tinha feições propositalmente femininas, pra me lembrar de um discípulo que só nasceria milhões de anos depois. Em vez disso, eu tinha as faces duras e meio rancorosas de um homem no auge da velhice, o que naquela época seria em torno de quarenta anos. A barba crescia meio desgrenhada pelo meu rosto, branca assim como meu cabelo, também meio comprido e meio úmido, abaixo do capuz de couro de morsa. Ninguém tinha cabelos brancos, naquela época, então era uma boa cor pra se usar, meu corpo era grande e forte, minha espada era grosseira, comparada as que posso fazer hoje em dia, mas ainda sim não era nada como as farpas, era uma lamina grossa e larga de metal polido, meio cinzento, que ocupava a maior parte das minhas costas, o cabo de osso e o comprimento equivalente a dois braços, grande e meio desajeitada.

Ela fascinava as pessoas que olhavam pra ela, por sua extrema qualidade. Eu só posso rir ao imaginar como essas mesmas pessoas ficariam ao ver uma katana de lamina polida, prateada, com o fio agudo feito uma navalha e ainda tão forte quanto uma zambatou. Eu era só uma criança brincando com tinta naquela época, nada do pintor cuidadoso e experiente de hoje em dia.

Entendam também que, mesmo sendo o mesmo Guerra de hoje em dia, aquele homem de cabelos brancos e espada de cabo de osso não tinha muito de mim mesmo. Eu ainda estava vasculhando o mundo naquela época, subindo as montanhas e descendo os mares, tentando encontrar aquela razão, aquela filosofia que poderia trazer a tudo o seu propósito, e não estava nem perto de conseguir. Prova disso é que, quando encontrei as duas crianças, geladas e meio mortas, meu primeiro pensamento foi mata-las. Morte estava ali também, usando aquela máscara amarela e a roupa negra curiosa, montada no seu cavalo mecânico de ferro, e quando me olhou, eu quase pude vê-la crispando os lábios de irritação. Nos encaramos por alguns momentos, até ela fazer um gesto desinteressado para os dois, como se dissesse:

“Mate-os de uma vez, eu não tenho saco pra ficar esperando o frio fazer o trabalho dele, suas espadas são mais rápidas”.

Eu vi que ela tinha razão, acima de nós, traçando o ar em círculos graciosos, o Deus Dragão do frio dançava o seu interminável balé de gelo e neve, de chuva e morte lenta. Ele era bonito e agudo como um sopro, uma nota de flauta.

Eu saquei a espada, e por pura pirraça, talvez, ataquei o próprio frio do lugar. No momento me pareceu mais um gesto de desafio para a minha irmã, minha esposa. Eu teria com certeza matado os dois garotos, se ela não tivesse feito aquele gesto insolente, mas... falando francamente, eu estava curioso. Eu não podia ver os fios das parcas, como Morte podia, então o futuro ainda era um mistério pra mim, mas naquele momento eu podia ver, eu sabia que os dois morreriam, mas e se vivessem?

O que mudaria? O que aconteceria amanhã se eles ainda estivessem no mundo?

Por isso eu ataquei, Morte não pareceu nem mesmo minimamente surpresa com a minha ação impetuosa, claro que não ficaria, ela podia acompanhar os futuros conforme eles mudassem, podia ver todas as coisas que iam acontecer, milhares de variações de uma teia de acontecimentos, traçada com tanto empenho que era assustador. Frio, no entanto, não me notou até que cheguei perto, e a esse ponto eu já estava desferindo a espada contra sua calda. O rabo farpado acertou o metal com a força de um trovão, o fazendo vibrar nas minhas mãos, mas eu consegui encaixar a lamina primitiva num dos vãos das suas escamas, e o sangue que jorrou para as minhas mãos, contrariando seu nome, era quente.

Não vou te aborrecer com os detalhes sobre o quanto de tempo nos gastamos tentando matar um ao outro. Não foram três ou sete dias de intensa batalha, como seria de praxe, e nem o derrotei num único golpe. Frio era forte, ele agarrava nas coisas e se recusava a largar, e mesmo Calor demorava a convencê-lo a se retirar, a tirar sua cobertura invernal e dar lugar a primavera.

Eu levei mais ou menos dez minutos, e no final, tinha algumas cicatrizes feias pelo corpo todo, e uma espada devidamente rachada. Frio tinha sangue lhe cobrindo as escamas, e uma salva de impropérias na ponta da língua farpada. Ele se retirou do lugar, no entanto, e junto com ele foi a nevasca. A neve que cobria o chão derreteu em segundos, magicamente, e o calor voltou aos poucos a brotar ali.

Quando olhei para as crianças na caverna, eles ainda respiravam pesadamente, presos num sono pesado de quem sabe que esta prestes a morrer, mas Morte não estava mais ali.

Meio que cambaleando, eu rumei para a caverna, caindo sentado do lado oposto aonde os garotos dormiam, meio que escorados um no outro, perto da fogueira apagada. Antes de cair no sono, entretanto, eu entalhei uma runa na pedra, usando a ponta da garra, e fogo azul brotou da fogueira, queimando como uma chama fantasma por alguns segundos, até impregnar os galhos e mudar pra um laranja quente e familiar.

Insensatez

Kowthe foi o primeiro a acordar, e vendo sua irmã gêmea dormir, com a cabeça plantada no seu colo, as bochechas apertadas no couro de alce e mas peles que circundavam seu pescoço, ele teve a digníssima reação de empurra-la pro lado, com um pouco de força e grosseria a mais do que seria comum. Nita quase pulou de susto, tremendo de cima abaixo, e espirrando baixinho, tentando tirar os cabelos da frente dos olhos ao mesmo tempo que olhava ao redor.

Eu estava acordado fazia horas, observando os dois e tentando decidir se os matava e seguia meu caminho, ou deixava-os viver. Quando olhou na minha direção, a garota não viu a espada rachada, e mais duas na cintura, não viu couro de morsa e de mamute, nem sacas de estomago e barba e cabelos brancos, ela viu o vazio, apenas a parede de pedra e uma fogueira queimando quase no fim, sem se lembrar de quem tinha a acendido.

Uma coisa sobre mim, que serve pra todos os Deuses e Demônios, com raríssimas exceções: Nós não podíamos ser visto, a menos que quiséssemos, e meu papel naquela história não era nada mais que um observador silencioso, e as vezes, um benfeitor anônimo.

–Kowthe... Kowthe, onde estamos? – Nita perguntou, engolindo em seco enquanto olhava ao redor. Seu nariz estava levemente vermelho, assim como seus olhos, e ela o esfregava compulsivamente na manga das roupas, imaginei que estivesse resfriada por dormir encharcada.

O garoto tentou se manter calmo, centrado e prático, tanto quanto é possível quando se esta apavorado. Ele era um bom ator, eu vou dar o braço a torcer, e mesmo a garota que tinha crescido junto dele e dormido na mesma cama que ele até os oito anos o olhou com um ligeiro tom de admiração nos olhos.

Entretanto, não se pode mentir para um demônio, ele estava apavorado até os ossos. Olhando em torno da fenda, ainda ignorando um pouco a irmã amedrontada, ele foi ostentando, pouco a pouco, uma expressão meio desesperada. Imaginei que estivesse procurando a saca com os mantimentos e a corda, mas ele não a acharia ali, o barco tinha se espatifado na rocha e se desmanchado enquanto era arrastado pelo rio, uns pedaços de tábuas ali, outros aqui, e um saco cheio de peixe seco, queijo e pão de centeio em algum lugar, agora cheio de água. Tudo o que ele tinha era os poucos metros de corda que seu povo ensinava a sempre deixar amarrado consigo, abaixo das vestes, e uma faca razoável na cintura.

Não era muito, e hoje em dia a maioria das pessoas morreria a míngua só com aquilo, mas milhões e milhões de anos atrás os seres humanos eram feitos de algo mais resistente do que sacos de carne mole e ossos quebradiços, e os calos nas mãos não eram os únicos, eles pareciam ter calos no próprio espírito. Eu escutei a pequena conversa que ele teve com a irmã, como falaram da Asa, concluíram que estavam longe a beça de casa, e decidiram voltar, antes que o inverno, temporariamente ausente, acabasse por mata-los. Muito sensato, na minha opinião.

Kowthe tinha seus momentos.

Passei o resto da manhã os acompanhando, em silêncio, observando como o garoto dividiu a corda em duas, e montou duas armadilhas simples pra pegar coelhos, daquelas que se ensinam em aulas de sobrevivência, que não precisava de nada mais que uma corda de tamanho decente e um galho de proporções certas. Ele fez uma série de laços e nós, prendeu alguns na árvore, e deixou um bom pedaço estirado no chão. Quando acionada, a armadilha chicoteava pra cima com bastante força, os nós apertavam, e qualquer coisa presa entre o laço principal era cordialmente sufocada até a morte. Quando maior o animal, mais rápido ele morria, mas um coelho poderia ficar horas se debatendo ali, até serem abraçados pela minha esposa, de um jeito nada bonito de se ver.

Seres humanos e suas crueldades.

Enquanto esperavam as armadilhas acionarem, o que podia levar de horas, se você tivesse sorte, a dias, se não tivesse, ou nunca, se fosse um azarado, Kowthe usou a pequena faca pra arrancar cascas de algumas árvores que ele examinou cuidadosamente, usando a própria camisa como um saco pra leva-las de volta até a fenda, enquanto Nita fazia várias viagens, indo pra floresta e procurando por gravetos secos, ou razoavelmente secos. Eles mastigaram algumas das cascas, sorvendo a seiva muito nutritiva, mas também amarga que dava dó, e trocaram algumas palavras aqui e ali. Nita ficou a maior parte do tempo em silêncio, e depois de falar um pouco mais do que o normal, Kowthe lhe deu uma bronca, a deixando quietinha no lugar, tentando não demonstrar que estava magoada e aterrorizada com a situação em um todo, enquanto brincava com uma mexa do cabelo.

Foi no meio da tarde que eles voltaram pra checar as armadilhas, e por sorte, talvez, as duas estavam carregadas. Em uma delas um dos coelhos estava morto, com a pata quebrada e sangrando pela boca e os olhos, alegremente morto. O outro ainda se debatia, mas Kowthe lhe deu um fim rápido e meio indiferente com a pequena faca.

Eles assaram e comeram, e guardaram os restos numa trouxa improvisada, junto com algumas cascas do mesmo tronco do qual não lembro o nome, e uma grande quantidade de gravetos. Kowthe, em toda sua enorme gentileza, mandou que Nita os carregasse enquanto seguiam o rio acima, o que ela fez, obediente e útil como sempre.

Eu não posso dar detalhes precisos, sobre praticamente nada naquele tempo, exceto talvez o rosto do demônio que ainda viria a conhecer, dela eu me lembrava muitíssimo bem, mas eu diria que passei alguns dias os acompanhando, meio entediado com minha própria decisão de deixa-los vivos. Talvez tivesse sido melhor mata-los, eu acho, por que até o momento nada de interessante havia acontecido. A viagem que levou um dia, rio abaixo, levaria vários pra voltar, e cinco já haviam se passado àquela altura. O ponto onde a coisa mudou foi no que eu calculava, a metade da metade da viagem de volta. A Asa ainda estava bem longe de ser vista, dias e dias a frente deles, se seguissem o curso do rio, que era sinuoso e de forma nenhuma corria em linha reta.

Seria mais um dia, no entanto, até chegar a Asa, se eles pegasse um pequeno atalho muito conveniente, como todas as boas oportunidades e todos os maiores perigos são. Pra ajudar com sua visualização da coisa toda, imagine um rio que corre perfeitamente reto, até virar pra esquerda e seguir por um tempo considerável, depois voltar e mesma direção, e então fazer o caminho inverso, antes de estabilizar novamente, como um “U” gigantesco, deitado. O rio seguia de ambas as pontas, e um pequeno lago ficava dentro dele. Deu pra imaginar?! Agora mantenha em mente que, naquela época, ele devia estar com pelo menos alguns metros de gelo cobrindo sua superfície, e lembre-se também que eu havia tocado Frio pra fora do lugar.

Agora veja, Kowthe queria atravessar aquele rio, e poupar o que seria quase uma semana de viagem, o contornando. Nita engoliu o medo e fez o que toda boa irmã carinhosa e dedicada faria, mas após alguns minutos de discussão, acabou ganhando um tapa no rosto e uma grosseria em troca da sua preocupação. Podem sentir raiva de Kowthe se quiserem, ele era meio idiota.

–Você é uma boba Nita – ele disse alguns passos depois, tomando cuidado pra não escorregar e ir de cara no gelo plano – Da pra andar perfeitamente aqui.

A garota assentiu, quietinha, ainda com o rosto vermelho e os olhos meio molhados. Uma menina hoje em dia teria se ressentido em ser tão repetidamente esculachada pelo próprio irmão, mas ela... sei lá, era em parte por causa da sua própria personalidade, em parte pelo modo como fora ensinada, e em parte por que amava o irmão mais do que qualquer coisa no mundo, mas ela estava sempre muito disposta a perdoa-lo por quase qualquer coisa, um tapa no rosto não era tão anormal assim, não naquela época. Ela tomou a ardência no rosto com um consentimento meigo e carinhoso, e Kowthe, como sempre, esquecera o que tinha feito após apenas alguns minutos.

Eu já havia dito que não gostava do modo que garotas eram criadas naquele tempo, mas não é como se me importasse o suficiente pra tentar mudar o mundo. Eu ainda não era aquele Guerra. Com um ar de finalidade, eu me sentei na grama gelada, tirei um cachimbo de madeira-brava de dentro da saca, e prensei nele um pouco de erva de malte, enquanto esperava a merda que eu sabia que estava pra acontecer.

Eu gostava de fumar aquilo, e sabia que o Sandaime também gostaria, se ela ainda existisse. Era um tipo de malte diferente, mais forte e duro, quase como talos de madeira saindo do chão, que quando secos e esfarelados, faziam um fumo delicioso. Eu recarreguei o cachimbo e fiquei fazendo fumaça, meio distraidamente, enquanto Kowthe se afogava na água gelada e Nita se despia até estar completamente nua, pulando desesperada atrás do irmão.

Convém narrar como aquilo aconteceu, mas na época eu estava tão mais sinceramente interessado no meu próprio fumo que neles, que pareceu uma boa forma de contar a história, passa com um pouco mais de realidade a pessoa que eu era, e fui até algum tempo antes de conhecer Morai. Eu nunca pensei em mim como um Santo, embora já tivesse vivido sob os princípios de um algumas vezes, e aqueles dois eram tão idiotas que estavam praticamente pedindo pra morrer. Se salva uma pessoa uma vez, mas na segunda elas deviam encarar os resultados da sua própria insensatez. Chega disso, voltemos a história.

O que aconteceu, em poucas palavras, foi o seguinte: Kowthe caminhou receoso por alguns metros, na beirada do lago, onde o gelo era consideravelmente mais grosso. Acontece assim em quase todos os casos, o calor geralmente se concentra no centro das coisas, se você já teve de tomar uma tigela de sopa fumegante, apressadamente, sabe do que eu estou falando, era o mesmo princípio: Como o lago estava mais frio nas bordas, o gelo era mais grosso, no meio, era tão fino que uma agulha caindo ali poderia tê-lo espatifado.

Por pura sorte, entretanto, Kowthe não chegou ao centro do lago, se chegasse estaria morto antes de alcançar a margem, e Nita morreria, com toda a certeza, tentando salvá-lo. Ele encontrou um ponto frágil, ainda próximo a margem, e foi pra dentro d’água, se encharcando até os ossos e perdendo rapidamente o calor corporal. Nita tirou a roupa, pulou onde ele estava e o arrastou até a margem, antes de se vestir as pressas e correr com o irmão pra algum lugar onde pudessem se aquecer. Simples assim, desculpem se não dei ao fato a importância necessária, mas como eu já havia dito, prefiro narrar a história como me lembro, e no momento eu estava muito mais concentrado no meu próprio cachimbo que neles.

Mesmo assim, os segui, pra ver o que aconteceria, Morte estava longe de ser vista, por enquanto, mas não significava que não fosse aparecer, dali a pouco.

Eles não encontraram uma caverna dessa vez, mas eu tenho certeza que poderiam ter achado uma se procurassem bem, elas eram drasticamente comuns naquela época. Em vez disso, Nita o deixou no meio de uma clareira, e quase febrilmente bateu as pederneiras uma na outra, acertando o próprio dedo e arrancando um pedaço de pele, sem se importar. Em questão de segundos os gravetos estavam queimando, e ela foi adicionando mais e mais, um pouco mais rápido do que seria aconselhável. Dei uma pequena ajudinha e fiz o fogo queimar com mais intensidade do que seria normal, mas no seu estado de espírito, eu podia ter feito dragões de chamas dançarem na fogueira, e duvido que ela teria notado.

Com a pele azul de frio, e os cabelos encharcados, ela arrumou o irmão próximo a fogueira, esfregando quase compulsivamente suas bochechas, e tentando tirar a água de seus cabelos. Ela começou a chorar alguns minutos após isso, e chegou até a enfiar as mãos no fogo, as deixando lá por um segundo antes de esfrega-las nos pulsos e na nuca do irmão, como se quisesse pegar o calor da fogueira com ela e dar pro irmão, mesmo que se queimasse no processo.

Você só podia adorar Nita, ela respondia tapas com beijos, era simples assim.

Quando percebeu que o irmão não estava ficando mais quente, e quando eu notei que Morte estava próxima dali, ainda distante, mas se aproximando cada vez mais, de um jeito meio macabro, como um relógio, ou uma contagem chegando ao fim, ela começou a despi-lo. As roupas de Kowthe estavam encharcadas e geladas, e claro que estavam isolando completamente o frio no seu corpo. Tenho certeza que ela vasculhou todo seu humilde repertório de ofensas, e em seguidas dirigiu-as alegremente a si mesma, por ter esquecido de fazer algo tão básico.

Nu, Kowthe estava tremendo ainda mais fortemente que sem o peso confortável das roupas no corpo, e apesar de dar um pouco e pena, a garota sabia que seria melhor de todas as formas. Ela tornou a repetir o processo doloroso de enfiar as mãos na fogueira e passa-las pelo corpo do irmão, dessa vez procurando aquecer seu estomago, braços e pescoço, onde o sangue corria mais livremente. A cada minuto Morte se aproximava mais e mais dali, e eu confesso que por um instante fiquei em dúvida do por que. Kowthe parecia bem melhor agora, as custas das mãos machucadas da irmã, e apesar de nu em meio a uma floresta coberta de neve, estava longe de morrer de frio.

Foi quando eu notei que o estado de Nita estava pouco acima de deplorável, e que a foice da minha irmã não estava apontada pro rapaz, e sim pra ela. Eu ainda era frio o suficiente pra vê-la morrer daquela forma, mas algo em Nita me fez querer defende-la, pelo simples motivo de vê-la viva, e mais do que o jeito fofo, ou a delicadeza obediente, foi a fúria silenciosa com que ela tentava salvar a vida do irmão.

Ele me levantei, e caminhei até ela. Morte parou no mesmo instante, e com um último dar de ombros, voltou a se afastar. Eu não a aqueci nem nada do tipo, em vez disso cheguei perto do seu ouvido, e murmurei algumas poucas palavras. A língua daquele tempo não tinha uma forma escrita, e a tradução pro idiota atual seria vergonhoso na melhor das hipóteses, mas seria algo próximo em significado a: “Deite-se nua com ele”, mas não tinha nada a ver com isso. Cada língua tem suas próprias expressões únicas, daquelas que prendem uma sensação em uma palavra, e eu não sei como descrever aquela.

Nita não me viu, nem me ouviu, mas ela entendeu no mesmo instante, e arfando vapor de água, começou a se despir, deixando o corpo nu amarronzado a mostra, como uma árvore jovem de folhas negras. Com um toque de rubor no rosto, ela enlaçou as pernas com as do irmão, o abraçou o mais firmemente que pode, colando seu corpo com o dele, e escondendo o rosto na curva do seu pescoço, começou a se esfregar nele, suavemente.

Eu aumentei o calor da fogueira, e após algumas horas eles estavam dormindo, aquecidos, o azul tinha se ido da pelo deles, dando lugar a um vermelho febril. Eles estariam um pouco doentes quando acordassem, mas fora isso, bem.

Humanos eram fortes naquela época, eu acho que você esta começando a entender o que eu quero dizer.

E foi mais ou menos nesse ponto que eu a vi, pela primeira vez.

A sem nome

Dessa vez eu vou direto ao ponto, sem passar por muitas divagações, ou ao menos vou tentar fazer isso e, com certeza,falhar desgraçadamente. Pois bem, eu estava curioso sobre Kowthe, não me importava muito se ele vivesse ou não, e eu tinha gostado um pouquinho de Nita, e queria que ela vivesse, se não me desse muito trabalho. Quando senti a sensação de outro demônio por perto, eu não pensei duas vezes antes de sacar uma espada do cinto, consideravelmente menor e mais fina do que a que levava nas costas, e atacar.

Sem lutas dramáticas, nem vitórias espetaculares também, eu sinto muito se era o que vocês estavam esperando. Caso seja a principal razão de estarem lendo isso, podem parar por aqui,voltem daqui a uns milhões de anos, quando eu viver como Naruto, aí haverá algumas boas lutas de espadas pra se ver. Aquela criatura, no entanto, não representava mais ameaça que um esquilo, eu poderia tê-la matado com um golpe, e por um instantes, quase o fiz.

Acho que vale a pena outra explicação, então vamos lá: Demônios e Deuses podem morrer, mas eles não deixam de existir, você consegue compreender algo assim?! Se não, pense num gato, com suas nove vidas e olhos que eram como portões do mundo dos mortos. Se isso ainda não fizer sentido, pense numa ferida. Se eu abrir um talho no seu braço, vai doer e sangrar, as células ali serão destruídas, mas depois de algum tempo, o corte se fecharia, e você continuaria tão vivo quanto antes, senão mais. Entende?! Não era por que algumas células sua morriam, que você morria, não é por matar um demônio que ele esta realmente morto, nós morríamos, mas continuávamos a existir, e depois de algum tempo, viveríamos de novo, simples assim.

Aquela pareceu francamente assustada quando eu a segurei pelo pescoço e apontei a espada para o seu coração, ela agarrou o galho atrás dela e mexeu as pernas freneticamente por um segundo, olhando em volta e crispando os lábios rapidamente, como se quisesse que eles formassem palavras, mas não tivesse certeza de qual língua devia falar. Enquanto decidia se a matava ou não, eu tentei procurar o seu nome naquela sensação, a sensação que todo demônio trazia. Era meio óbvio que se podia reconhecer Amor por senti-lo, assim como Ganância, Paciência e Falsidade, mas aquela criatura, apesar de ter uma sensação clara, não tinha um nome.

Faltava-lhe uma palavra que a descrevesse, como no caso do que eu havia sussurrado para Nita. Eu soube em um segundo que ela não tinha o menor interesse, nem a capacidade, de me fazer mal algum, ou as crianças, a sensação em torno dela era... Como descrever aquilo?!

Doce com mel, mas amarga, triste, mas feliz, era de quebrar o coração e fazê-lo saltar, como chorar após um filme particularmente triste, do qual você não consegue evitar gostar.

Será que você se lembra da sua primeira namorada? Aquela que cresceu junto com você, que sabe tudo sobre você, desde seus medos até suas coragens, das suas qualidades até seus defeitos, e muito alem disso. Aquela que te beijou num dia qualquer, quando seus pais não estavam olhando, e disse que era uma brincadeira que vocês poderiam fazer, ou que gostava de dar as mãos e ficar assim, por algum tempo. Se já teve uma assim você se lembra dela, e acredite, vai se lembrar até o dia em que morrer. Agora pense que, após meses de namorinho inocente, trocando beijos nos cantos e passeios de mãos dadas, ela diz que vai mudar, e você a vê indo embora, pra outra cidade, outro país, algum lugar que você não tem capacidade de alcançar.

Junte tudo isso numa sensação, se você encontrar um nome pra ela, um que pareça perfeito, que a descreva completamente, trate de me dizer, por que esse é o nome daquele demônio.

Mas eu ainda não sabia disso, não sabia de nada.

O que aconteceu naqueles momentos também me é meio embaçado. Eu lembro do rosto dela, da curva brincalhona que ela mostrou nos lábios assim que perdeu o medo de mim, do brilho dos olhos, das penas no cabelo preto e da pele levemente vermelha, com marcas em laranja. Ela parecia um pequeno tigrezinho inofensivo. Mas... não lembro do que conversamos, se é que conversamos. O que eu lembro, com razoável clareza, foi daquela primeira troca de olhares entre Nita e Kowthe, do toque da pele nua dos dois, das respirações entrecortadas, e do primeiro beijo. Eles já estavam acordados a alguns minutos, olhando embasbacados um pro outro, e eu não vou negar que me senti um vouyer por assistir.

O beijo em si não tinha sido muito especial, não era a primeira vez que Kowthe, numa demonstração de carinho, beijava-lhe os lábios, era um costume daquelas pessoas, e crianças faziam muito isso, com suas mães e pais. O importante era o olhar, aquele olhar cruzado, não era o beijo de irmãos, era um toque de lábios completamente diferente daquele.

Ambos pareciam tão indecisos e espantados com o que estavam fazendo, que por um segundo eu achei que fossem se levantar e correr, cada um pra uma direção diferente, mas eles não fizeram isso. Eles continuaram deitados, nus, ao redor da fogueira, se olhando e se beijando, por longos e longos minutos, cada beijo mais demorado que o outro. Não sei quanto tempo se passou, mas ao final, os lábios de Nita estavam atraentemente inchados, vermelhos como amoras frescas, e eu não vou negar que senti vontade de prova-los. Beijos sinceros são tão raros hoje em dia.

Eles tiveram uma dose de conversa, é claro, ninguém acorda pelado ao lado do seu irmão, após quase morrer de hipotermia, e resolve que deveria passar o dia todo o beijando. O caso é que... eu realmente não tenho ideia sobre o que eles falaram, e de certa forma é embaraçoso confessar essas coisas a cada duas ou três páginas, eu devia ser um contador de histórias melhor. O demônio ao meu lado, no entanto, parecia fascinada pela troca de carinhos entre os dois, e teve uma ou duas vezes que me olhou sugestivamente, com os lábios brilhantes e entreabertos, e eu meio que estou indeciso entre contar o que fiz naquele momento ou mentir. Pra todos os efeitos, eu vou te dar duas opções: Primeiro, eu passei a tarde beijando aquele demônio, e segundo: Eu a ignorei e fumei meu cachimbo, esperando os dois retomarem a viagem deles. Vocês podem decidir no que querem acreditar, assim, democraticamente.

O fato é que, no dia seguinte, Kowthe e Nita não conseguiram olhar um pro outro sem corar profundamente, e quando um pensava que o outro estava distraído, eles ficavam se observando, parecendo completamente confusos e desamparados. O dia todo passou assim, e o seguinte também. O demônio passou a nos acompanhar, e já que não havia nada de perigoso nela, não vi por que impedi-la.

No terceiro dia, Nita levantou e caminhou baixinho até onde o irmão estava dormindo, e após um pedido silencioso, e uma permissão não verbalizada, eles se deitaram juntos, se beijaram, e dormiram abraçados um no outro.

No quarto, eles eram todos sorrisos um com o outro, aquele tipo de sorriso meio panaca que a gente gosta de ver nos jovens quando fica velho.

No quinto eles estavam rindo, já tinham quase terminado de cruzar todo o perímetro do lago, e pareciam bem contentes um com o outro. Nita praticamente dançava no próprio lugar, e hora ou outra ela interrompia o que o irmão estivesse fazendo pra lhe roubar um beijo, e por mais que Kowthe tentasse se fingir de irritado, ele estava radiante. Quando chegou a noite, ele tirou a camisa, e Nita dormiu recostada no seu peito, os lábios cheios no seu pescoço, hora ou outra roubando um pouco do cheiro da sua pele, deixando um beijo no lugar.

Não vejo necessidade que naquele dia eu me deitei com o demônio que vinha me seguindo, e nós não fomos tão inocentes em demonstrar o carinho que tínhamos um pelo outro.

Agora que você já tem uma ideia razoável de como Kowthe e Nita estavam um com o outro, vou voltar um pouco na história pra falar sobre mim e a sem-nome, mesmo que não haja muito o que dizer. A começar pela personalidade dela...

Nita poderia ter se passado por sua irmã mais nova, se não fosse de conhecimento comum que irmãs nunca eram iguais uma a outra. Ela também era quietinha, bonitinha, fofinha, e todos os “inhas” que você puder imaginar. Resumindo bem... ela era um doce,a começar por sem-nome ser bonita, como uma árvore jovem, como uma águia. Ela tinha a voz suave, os olhos brilhantes, e um jeito de brincadeira que uma carranca séria como eu não deveria gostar, se aparências fossem pra ser levadas a sério, ainda mais com demônios. No primeiro dia não fizemos muita coisa, alem de nos beijar, se for essa a opção que você escolheu, mas no segundo ela começou a fazer perguntas. Sabe... Quem eu era, qual era meu nome, se eu ia mata-la, se ia estupra-la, se ia tortura-la... vale ressaltar que ela ficou um pouco... tensa quando eu disse que era o Deus Demônio Guerra, mas não levou tanto tempo pra se soltar quando seria de praxe. Eu simplesmente disse que não ia fazer-lhe mal, e em alguns minutos ela estava saltando pelos galhos, fazendo cambalhotas e subindo nas minhas costas, como uma macaquinha. Sem-nome tinha aquela qualidade, que poucas pessoas tem, de simplesmente acreditar nas pessoas. Eu suspeitava que poderia desmentir tudo o que tinha dito antes e falar que, na verdade, eu era um padre viajante em busca de conforto espiritual, e ela ainda acreditaria piamente.

Tão bobo quanto possa parecer, era agradável, e não foram poucas as vezes que eu inventei histórias malucas, ou nem tão malucas assim, apenas pra assusta-la ou diverti-la. Não me lembro de nenhuma delas, no entanto, e não tenho vontade de perguntar, algumas coisas devem ser esquecidas pra apreciadas.

Quando chegamos a Asa, poucos dias de viagem depois, Sem-Nome estava confortável o suficiente pra espremer seu corpinho de nada dentro das minhas roupas, e dormir meio que agarrada comigo, aproveitando do calor da minha pele, enquanto eu aproveitava da sensação dos seus seios no meu peito, eles não eram grandes, mas estavam lá, e a sensação dos seios de uma mulher, e do corpo delas, no geral, é uma daquelas coisas deliciosas que vicia os que sabem aprecia-los, como tabaco, ou sakê, nem todos gostam, mas os que gostam, gostam muito.

Acho que também vale ressaltar que, enquanto os gêmeos-maravilha desfrutavam da sua recente intimidade, e da maravilha que é ter um parceiro do sexo oposto disposto a ficar nu pra você, eu desenvolvi uma espécie de passatempo, que era tentar adivinhar o nome de Sem-nome.

Demônios, como a maioria de vocês já devem ter notado, não são nomeados levianamente, como humanos fazem. Nós nascemos com um nome, ou talvez seja correto afirmar, nascemos do nome, não ter um nome era... assustador, de uma certa forma, mas não foi até alguns meses depois de deixara vila de Kowthe e Nita que eu pensei nas minhas espadas, e decidi dar um nome pra elas.

Outra coisa é que... por mais que eu me concentrasse naquela sensação, e vasculhasse meu vocabulário mental, as vezes até combinando palavras pra tentar chegar a um significado maior, eu não consegui chegar nem perto da real essência de Sem-nome. A coisa mais próxima que eu encontrei, embora ainda fosse uma tentativa patética foi “Chichio”, que se pronuncia como “Ti-ti-ô”, e significava “travessura”. Você deve estar se perguntando por que não pensei em algo como “infância”, e na verdade eu pensei, considerando que Sem-nome me disse que sempre estava próxima a crianças, mas já havia um demônio com esse nome.

Mas não vale se preocupar muito com isso, levou apenas mais dois dias, antes que eu achasse uma expressão que a traduzia, muito melhor que qualquer nome que tivesse pensado naqueles dias, e por uma expressão não ser tão boa quanto um nome, eu lhe dei um também.

O Marco de pedra

Tinha sido uma semana e pouco de viagem, subindo a pé por um caminho que, num barco descontrolado, levara apenas um punhado de horas pra percorrer. Aquele ponto da viagem Kowthe e Nita estavam tão no grude um com o outro que já estava ficando chato. Sabe aquele casalzinho alegre de namorados que ficam beliscando o nariz um do outro... então, eles não chegavam a tais extremos, mas ainda sim sorriam feito trouxas e ficam roubando beijos e toques um do outro a cada poucas horas. Naquela manhã, quando acordaram, Kowthe puxou a irmã para o colo e, enquanto a beijava, passou discretamente a mão pela sua bunda, de uma forma que poderia passar por acidental caso ela não gostasse.

O sorriso que ela deu me fez abaixar consideravelmente o tempo que tinha estipulado pra eles começarem a, invariavelmente, foder feito coelhos. Acho que algumas explicações estão em ordem antes de eu passar pra próxima e última parte dessa história, então... vamos lá.

Pense na sua irmã, você talvez tenha uma, e quase com certeza vocês não se dão muito bem, irmãos hoje são assim. Mas pense na possibilidade de vocês serem inseparáveis um do outro, e também considere, mesmo que hipoteticamente, que ela seja linda de morrer... agora, você a beijaria? Passaria a mão nela, e faria amor com ela? Talvez, dependendo de como é a sua visão do mundo, mas o que seus pais diriam se soubessem?

É desnecessário responder uma pergunta como essa, em vez disso deixe-me dizer o que os pais de Nita e Kowthe fariam.

Eu gosto de comparar as pessoas daquela época como lobos, talvez ursos combinem mais com eles, em certos aspectos, mas lobos também servem. Casar com sua própria irmã não era uma grande novidade, e quando os irmãos eram gêmeos, era ainda mais comum, e alguns séculos depois seria até mesmo incentivado, mas por enquanto era apenas normal. As cidade hoje possuem milhões e milhões de pessoas, é meio cultural que, com tanta gente pra escolher, você tem que ser meio filho da puta pra comer sua própria irmã.

A aldeia de Kowthe tinha umas sessenta pessoas, e só, e eles eram todos parentes em algum nível. A única regra geral era que mulheres estavam abaixo dos homens, e isso também era de certa forma cultural, por que de sessenta indivíduos, uns quarenta eram mulheres. Se a proporção fosse inversa, eu tenho certeza que as mulheres teriam ganho o destaque que talvez merecessem, quando se fala de seres humanos, aleatoriedade era uma coisa a se esperar. Crescendo em um lugar assim não é de se esperar que nem um dos dois tivessem pudores um com o outro, o relacionamento deles evoluiu de forma tão simples quanto se fossem dois vizinhos se apaixonado.

Acho que também vale a pena mencionar o Marco de pedra, é onde essa parte da história se passa, afinal de contas, o palco para o tão esperado clímax, embora fosse por puro humor que eu atribuísse uma importância tão poética a algo não tão importante. Enfim.

O Marco de pedra era, assim como a Marca da asa, uma estrutura de pedra. Antes de descrevê-lo propriamente, eu vou dizer que a Asa era uma coisa natural, um velho abeto tão velho que tinha petrificado, e tinha uma coleção de galhos retorcidos paralelos que formavam algo como a asa de um esqueleto, toda torta e pontiaguda, que espetava as pessoas como lascas de crueldade. Se você já viu a asa de um morcego, com as fibras arrancadas, sabe do que eu estou falando.

Mas o Marco de Pedra tinha sido construído, e havia mais de um, assim como não havia apenas uma aldeia de seres humanos naquele lugar. Alguns eram maiores, outros menores, e era sempre o ponto máximo onde as crianças da vila podiam se afastar, antes de se tornarem homens. Mulheres não tinham permissão de ir mais longe do que aquilo, nunca. Ele ficava a uma distância de cerca de dez quilômetros do centro da aldeia, distância que funcionava como um raio de circunferência de todas as terras que pertenciam a aldeia. Em suma, era um punhado de pedras chatas empilhadas, cinzas como fumaça. Alguns eram menores, outro maiores, alguns tinham formas grosseiras de animais, outros não, não importa. Aquele não era nada especial, só um punhado de pedras empilhadas que ficava a beira do rio, as mulheres na aldeia diziam pra suas crianças que eles eram as chaves da barreira mágica que protegia a aldeia contra os demônios que viviam fora delas.

Você pode achar interessante se eu mencionar que essa história se tornou uma lenda, e da lenda nasceu, curiosamente, a verdade. Levou um bom bocado de gerações, mas a importância do Marco de pedra se tornou tamanho que os xamãs das vilas buscaram formas de o tornarem mesmo as chaves que as histórias diziam que eram, e resumindo toda uma série de eventos complexos que se estendiam por alguns milênios, os seres humanos descobriram como fazer kekkais e como convocar youkais.

É engraçado como que, buscando a solução para um problema que não existia, eles criaram o problema e a solução logo depois. Eu passei algum tempo aprendendo sobre kekkais depois disso, e também pode valer a pena mencionar que, milhões de anos mais tarde, a barreira que eu pus em volta daquela velha árvore, na vila do redemoinho, na colina onde uma vez vi Kenshin se afastar e onde cravamos nossas espadas era a mesma barreira que os xamãs criaram nos marcos de pedra, e que aquela estruturazinha, aparentemente inútil, foi o começo de toda a completa arte do fuinjutsu.

Já tendo uma boa ideia de tudo isso, que pouco tem a ver com a história, voltemos a ela. Pra falar a verdade essa parte é meio curta, e eu talvez esteja buscando formas alternativas de estendê-la um pouco, quem sabe?! Eu não quero enrolar muito, então já tendo algumas páginas a mais do que deveria ter, vou direto ao assunto.

Poucas horas, ou mais precisamente, a uma hora de caminhada da aldeia, Kowthe e Nita estavam felizmente ignorantes dos seus arredores, como geralmente acontece quando estamos em lugares familiares. Se eles estivessem prestando atenção, como estavam nos lugares mais desconhecidos, eles teriam notado o imenso tigre olhando pra eles, com saliva lhe escorrendo pelas presas e os dentes de sabre escancarados pra fora da boca, e teriam feito algo a respeito. Nada como enfrentar o imenso predador, como eles tiveram de fazer, mas as chances de fugir teriam sido muito melhores.

Eu gosto de pensar que teria dado certo, mas uma vozinha irritante na minha cabeça tinha certeza que eles estariam mortos de qualquer maneira, se eu não estivesse ali. Sem-Nome era tão inútil como um gatinho nessas situações, não que ela fosse uma covarde, ela realmente rosnou para o tigre, mas fora isso, o que mais poderia fazer? Nem todos os demônios são fortes, como o senso comum as vezes prega, alguns são mais fracos que seres humanos, e Sem-Nome era uma dessas.

Agora... Eu sei o que você esta pensando, que eu saltei a frente dos filhotes, me fiz visível e chutei a bunda do tigre até o outro lado da floresta, pra então contar quem eu era e que estava os observando esse tempo todo, e que fui eu que tinha acendido a fogueira durante a primeira noite de frio, e instigado Nita a aquecer o irmão com o próprio corpo, durante a segunda. Eu aposto que pensou isso... Entretanto, não foi o que eu fiz. Provavelmente eu teria feito, se a situação fosse diferente, mas dada a forma como Kowthe pulou a frente da irmã, mandando ela se proteger – eu não tenho certeza do que ele esta pensando quando disse isso, mas imagino que estivesse pedindo pra ela subir em alguma árvore e ficar lá – enquanto sacava a pequena faca, eu acabei apenas assistindo. Eu estava, apesar de tudo, curioso pra ver o que aquelas crianças fariam com a vida que eu tinha dado de presente pra eles.

Mas eu sabia que, por mais duros que humanos fossem naquela época, literal e metaforicamente falando, era virtualmente impossível pra um garoto de doze anos lidar com um tigre adulto só um uma faquinha de péssima qualidade como aquela, então, eu fiz a coisa mais próxima que pude pensar pra ajudar, sem me meter diretamente na luta dele.

Sacando a menor das minhas espadas, eu a arremessei pelo ar. Ela se tornou visível assim que deixou minha mão, e com um som agudo, ainda que meio oco se comparado ao que minhas espadas faziam hoje em dia, parou enfincada na terra, aos pés do garoto. Ele quase pulou pra trás com o susto, e olhou ao redor, se esquecendo do tigre por um segundo. Ainda meio hipnotizado, mas mantendo um olho vivo no predador, que rosnava ameaçadoramente, Kowthe tirou a espada do chão, maravilhado com a cor clara da lamina e a forma como ela refletia razoavelmente o seu rosto.

Nita olhou diretamente pra mim, e por um momento, eu tive a impressão que seus olhos cruzaram com os meus. Só durou um segundo, antes de eu sussurrar um: “Fique de olho neles” pra Sem-Nome, que assentiu, e eu já estava voando pela terra, em direção a aldeia, como uma pequenina raposa de uma calda, laranja feito o fogo das fogueiras.

Eu não esperava que ela pudesse proteger o garoto caso ele perdesse, mas queria ouvir a história depois. Sem-Nome realmente me contou o que houve, no primeiro dia dos próximos cento e cinquenta anos que passamos juntos, mas era um pedaço inútil de história, e não vale a pena perder tempo com ele. Kowthe lutou, basta dizer isso.

A uma hora de caminhada passou como um minuto, enquanto eu corria, e mais três ou quatro segundos, enquanto observava a vila, pensando em uma maneira de...

Ah, claro.

Não pude evitar um sorriso enquanto corria em direção a uma pequena barraca. Eu não vou te aborrecer com os detalhes, só dizer que naquele tempo não existia dinheiro, e as pessoas trocavam ou emprestavam coisas quando precisavam delas, isso valia do dinheiro até a comida, e peles e as vezes histórias, que eram a única forma de entretenimento daquelas pessoas. Havia, no entanto, uma barraca cheia de frutas, vindo provavelmente de uma das fazendas no perímetro externo da vila. Ela estava sendo conduzida por uma mula e um pobre homem que estava chicoteado a pobre mula, e quando eu pulei na sua carroça, começando a revirar do melhor modo que podia as frutas, ele tentou me chicotear. Inútil. Eu fiz bagunça o suficiente pra derrubar algumas caixas de madeira no chão, e esmagar um bom bocado da comida,sujando praticamente todo o resto dela. Quando tinha certeza que o homem me perseguiria, pra me dar uma boa surra, eu concluí minha obra de arte... Não é nada bonito, agora que eu penso nisso, mas é apenas mais uma daquelas coisas que eu me arrependo de fazer. Eu posso dizer que não tinha tal intenção, mas seria uma mentira deslavada, meu único consolo é dizer que, vinte anos a partir dali, aquele garotinho seria um guerreiro respeitado por todos na vila, e as cicatrizes que eu deixei sobre seu olho esquerdo, o cegando completamente, se tornaram meio que famosas. Num outro tempo eu teria o matado no ato, e apesar de não ser como hoje, eu já era mais compassivo naquela época, cegar uma criança de sete anos, de um olho, por uma causa nobre, não é realmente tão ruim assim é?

Os moradores acharam que era, e isso era exatamente o que eu queria que fizessem, por que apenas meio minuto depois de entrar na vila, eu já estava fugindo de um punhado deles, nenhum com boas intenções nos olhos. Eu tratei de ir meio devagar enquanto corria, então a viagem que tinha levado um minuto levou dez, no caminho inverso. Quando cheguei no marco de pedra, no entanto, fiquei um pouco surpreso com o que vi.

Ele estava morto.

E a isso me refiro ao tigre.

Eu sei que assustei você por um momento, não há nenhuma vergonha em admitir isso.

Eu devo ter chegado no exato instante em que tinha acontecido, por que as expressões de Sem-Nome e Nita ainda estavam chocadas, amedrontadas e um tanto lacrimosas. Os aldeões pararam, chocados com o que viram, e Nidan, entre a multidão, saiu correndo a frente, esquecendo completamente da raposa que tinha destruído uma carroça de frutas e cegado uma criança, e essa raposa, no caso eu, fiquei feliz em subir em um galho de árvore e desaparecer dos olhos humanos novamente.

–Nita! – ele correu até ela, que pulou no peito do pai e se agarrou nele com o mesmo empenho que as folhas se agarram nas árvores, só caindo quando estão secas. Nidan era um homem carinhoso, um dos poucos daquele tempo, e eu lembro que nutria uma pontinha de respeito por ele, por causa disso, nada que me fizesse guardar seu rosto comigo, só o seu nome. As vezes nomes eram mais importantes que os rostos, ou uma desculpa pra não ter que forçar tanto a memória.

Kowthe foi o próximo a ser esmagado num abraço, assim que ele saiu debaixo do tigre. Ele largou a espada e tentou devolver o gesto, mas Nidan tinha um tronco tão grosso quanto um cipreste, e os braços do garoto conseguiram fechar menos de dois terços da sua largura total. Eles olharam o tigre e o garoto, contaram coisas e ouviram outras tantos, deram broncas e ouviram desculpas, e se surpreenderam ao ouvir a verdade, mas o meu interesse ficou nos olhos das pessoas que observavam minha espada, agora cravada elegantemente no chão. Eu não vou negar que senti um certo orgulho ao ver os olhos deslumbrados delas, qualquer artista sente isso, e se tem algo que vocês podem ter certeza sobre mim é que, até mais que os poetas, ou escritores, ou mesmo os músicos, eu respeito os ferreiros, pedreiros e arquitetos como verdadeiros artistas. Sua ciência era complexa, e suas criações úteis. Não desmereço as outras artes, até por que acho que a vida sem música não valeria a pena, apenas diferencio meu respeito pelos dois.

Kowthe estava ferido, claro que estaria, ele tinha um corte bonito no rosto, e eu digo bonito por que sabia que, quando cicatrizasse, deixaria uma bela cicatriz branca que não feriria os traços do seu rosto, mas acrescentaria a eles, e fora uns cortes no peito, eu desconfiava que tinha um braço quebrado, talvez algumas costelas. Não era nada que os xamãs não conseguissem resolver, então não me dei ao trabalho de ir para o seu quarto e cura-lo com magia. Nita estava incólume também, e livre de preocupações, eu voltei os olhos, atentos, aos que observavam minha espada. Levou quase dez minutos pra alguém tomar coragem de toma-la, crente de que tal arma deveria pertencer a um demônio – humanos estão realmente certos, as vezes, mas daquela foi sorte e não deve ser congratulada – e só depois de enrola-la em duas camadas de camisas. Com a bagagem nas costas, os moradores voltaram pra aldeia, e Sem-Nome e eu não tardamos a segui-los.

O fim da infância

O xamã da vila tinha acabado de envolver o rosto do garoto que eu havia cegado num bálsamo, e um pouco de resina de dênera tinha sido o suficiente pra acalmar sua dor. Ele mal teve tempo de acender o cachimbo quando Nidan chegou com Kowthe no ombro, e o deixou na mesa do curandeiro com um pedido nos olhos e uma reverência no resto do corpo. Sem trocar uma palavra ele assentiu, e a maioria das pessoas saíram, exceto Nita. Ela se recusou a sair do lado do irmão mesmo quando seu pai mandou que o fizesse, e por um momento eu pensei que ela fosse levar uma surra e ser arrastada de volta pra casa, mas qualquer coisa nos seus olhos pareceu ter o convencido. Eu acho que você sabe do que eu estou falando, o olhar nos olhos de quem gosta de alguém é único, é brilhante e muito bom quando dirigido a você. Com um aceno sorridente, ele saiu da oficina do xamã, que não pareceu se importar que Nita segurasse as mãos do irmão enquanto o homem esfregava o mesmo bálsamo no seu peito.

Nenhum dos dois falou nada enquanto Kowthe era tratado, e quando o curandeiro deu uma pastilha de analgésico para o garoto chupar, ele chamou Nita comele para o outro cômodo.

Naquela época as pessoas não tinham a engenharia necessária pra fazer casas de dois andares, e tanto quanto seria mais bonito eu dizer que a oficina e o consultório ficaram no andar de baixo da casa do velho mago, a verdade era que os cômodos eram meio misturados, e isso era só um pouquinho desconcertante. Ele deixou Kowthe na cozinha, na mesma mesa em que almoçava, e o outro cômodo era... bem, deixa pra lá.

O caso é que ele pegou o embrulho que os aldeões o entregaram, e tirou lá de dentro minha espada, com um toque reverente e cuidadoso. Nita não sabia muito sobre armas, então a opinião dela era a de qualquer leigo que observasse uma katana. “É bonita” – ela diria, se ele tivesse lhe perguntado o que ela achava da arma, ela não saberia observar a qualidade do metal, nem a firmeza da empunhadura, nem o balanço, o equilíbrio, o fio, a durabilidade, e muito menos a elegância e desenvoltura do trabalho. O xamã não perguntou nada disso, na verdade.

–Você viu de onde isso veio?

Nita pareceu meio inquieta, ela tinha um leve pavorzinho de fantasmas, mas mentir para um xamã era quase um pecado, então se a verdade fosse que ela usava o cabo pra se masturbar toda noite, enquanto delirava em êxtase com o pensamento de ser violentada por ursos fosse a verdade, ela teria dito exatamente isso.

–Quando o tigre apareceu – ela disse, num tom de voz baixinho e respeitoso, e meio recheado de medo – Ela saiu voando de uma árvore...

–De uma árvore?!

Nita notou a descrença dele, e só alguns segundos depois a imprecisão no próprio discurso.

–Não desse jeito... é como se alguém a tivesse arremessado, mas não havia ninguém.

O xamã coçou a barba negra encaracolada que lhe desprendia do rosto, se recostando um pouco mais no... na cadeira especial dele. Não houve muito mais conversa depois disso, sem revelações espetaculares nem nada, ele apenas acenou alguma vez e disse que a garota poderia ficar, se quisesse.

Ela ficou, e ficou até Kowthe acordar, e trouxe-lhe comida quando ele precisava comer, e o ajudou a se por de pé quando ele disse que podia andar. O único momento em que o xamã mandou Nita embora foi quando disse que precisava falar com o garoto, em particular, ele teve a gentileza de prometer que a chamaria assim que tivesse acabado, quando poderia ter dado uma surra e a expulso dali, sorriu quando a garota beijou os lábios do irmão, antes de correr pra fora. Milhões de anos atrás, ou daqui a milhões de anos, havia uma certa gentileza que humanos só alcançavam no crepúsculo da idade.

Assim que a garota saiu, o velho, apesar de não ter muito mais de quarenta anos, fez as mesmas perguntas que tinha feito a Nita, e ouviu satisfeito as mesmas respostas. Quando acabou, foi a vez de ouvir as perguntas de Kowthe, ele entendia de laminas tão pouco quanto a irmã, mas diferente dela, e como a maioria dos meninos, ele só sabia apreciar a beleza de coisas potencialmente mortais.

–Eu devo ficar com ela?

Era uma pergunta que esperava uma resposta, e esperava ansiosamente. Aquela arma era claramente superior as farpas, dado a forma como tinha trespassado tão facilmente todo o torso do tigre, quando este pulou encima dele.

–Ela pode ter sido enviada pra você, pra lhe pertencer – o xamã respondeu, com um tom de sabedoria na voz – ou pode ter sido enviada pra lhe ajudar, mas não lhe pertencer. Deixe a espada enfincada no mesmo lugar onde a achou hoje, e daqui a uma semana, volte lá. Se ela ainda estiver no mesmo lugar, ela é sua por direito, senão, saberemos que o dono voltou pra busca-la...

Tenho certeza que Kowthe sentiu vontade de discutir, de argumentar, mas ele não o fez. Eu, por outro lado, pensei se deveria deixar aquela espada nas mãos do garoto, mas por alguma razão não me pareceu certo... Eu ainda não sabia, mas eu queria ver o que eles podiam fazer, sem a minha ajuda, o quão podiam evoluir, o que poderiam aprender.

Eu também vou dizer que, em matéria de forjar, nunca nenhum humano, mesmo os ferreiros mais talentosos, foi melhor do que eu, nem de perto. Mesmo hoje, eu podia fabricar uma espada razoável, com metade das minhas habilidades, e vende-la a nobres de todo o continente pelo meu peso em ouro.

Eu fui buscar a espada, e não foi por coincidência, foi num dia que Kowthe e Nita estavam lá. Acho que, depois de uma semana viajando com eles, eu queria que eles me vissem, pelo menos uma vez. E eles me viram, enquanto a lua estava alta no céu, e os dois descansavam contra o marco de pedra, eu apareci, com uma forma um pouco mais jovem do que antes, com os cabelos brancos longos e sem barba, com orelhas de raposa na cabeça e uma calda branca elegante agitando as minhas costas. Eu lembro do olhar dos dois até hoje, e foi quase difícil demais não rir daqueles olhos esbugalhados, enquanto pegava a espada e a colocava na bainha vazia na cintura. Fiz questão de dar-lhes um último olhar, antes de desaparecer da vista deles, sem sair do lugar, apenas com o desejo de me tornar invisível. Na verdade eu passei o resto da noite com eles, os ouvi discutindo e debatendo aquele assunto, dos ângulos mais diversos possíveis, e ouvi a criação de um nome que, milhões e milhões de anos depois, ainda seria ouvido no continente todo.

Começou como uma brincadeira na verdade. Hoje Inari tem o significado aproximado de “raposa alva”, ou “raposa branca”, mas por um pequeno truque de linguagem de Nita. A palavra original queria dizer “raposa de pé”, e eu só posso dar de ombros se você não perceber a piada na palavra. Verdadeiramente, o fato de uma das religiões mais duradouras do continente elemental, e do mundo como um todo ter começado com uma brincadeira só adiciona a minha opinião.

Seres humanos são estranhos.

Quando voltaram pra aldeia, eles contaram o que viram, e não foi difícil pros sessenta moradores ligar a raposa que cegou uma criança, e atraiu uma multidão, a raposa que jogou uma espada e a tomou de volta. O xamã disse que eu era um Deus, e os aldeões construíram um templo, onde algumas vezes eles vinham queimar trigo como uma oferenda. Por causa do trigo eu fui conhecido como Deus das colheitas, e os dias aleatórios, em algum momento, ganharam um padrão e se tornaram sagrados. Nita e Kowthe cresceram, isso eu posso dizer com segurando, por que eu estava lá pra assistir quando eles se casaram, aos dezesseis anos de idade, e tiveram seus próprios filhos no ano seguinte. Kowthe aprendeu a usar a farpa como nenhum outro, mas eu sabia que ele ainda mantinha na lembrança a sensação de empunhar uma verdadeira katana, então, adiantando um pouco a história, eu vou dizer que ele teve outra chance de fazer isso.

Foi no dia que ele morreu, eu apareci pra ele como a raposa que ele tinha visto, e ele sorriu como só os enfermos sabem fazer. Dei-lhe minha espada, e ela foi enterrada com ele. Eu ficaria contente de dizer que ela enferrujou e desfez debaixo da terra, junto com seu cadáver, mas durante a guerra seus filhos desenterraram-na, e tentaram replica-la, eles tiveram um sucesso mediano nisso, a arma que proveio da minha espada era superior a uma farpa, mas consideravelmente inferior a uma verdadeira katana, o metal tinha enferrujado e suas características se perderam. A arma que eles produziram disso foi chamada de “Adaga”, e isso já é mais que suficiente pra fins de orientação, se continuar com a história eu poderia narrar fatos surpreendentes que tem ligação direta com Nita e Kowthe, mas gosto de deixa-los só na lembrança. Alem de tudo, há mais um fato a ser contado.

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Aconteceu antes de Kowthe morrer, na verdade, foi bem antes mesmo dele se casar com Nita, antes de se tornar o pai gentil que viria a ser. Foi numa tarde, quando ambos estavam sentados juntos, a beira do rio, usufruindo um do outro e do seu tempo da melhor forma que podiam. Era verão, e as roupas de Nita tinham encurtado um pouco, as pernas estavam à mostra, já que ela usava uma saia curta de pele, apesar da blusa continuar a mesma, com capuz. Kowthe era o mesmo, inverno ou não.

Sem-nome estava comigo também, ela ainda estaria comigo quando os bisnetos daqueles dois viessem a falecer, e só depois nós seguiríamos nosso próprio caminho, por certos motivos que não convém narrar.

–Você se lembra quando brincávamos disso Kowthe? – Nita pegou uma pedra plana da margem, e atirou no rio, fazendo com que ela quicasse três vezes, antes de afundar – Você sempre brigava comigo por que a minha ia mais longe que a sua...

O garoto riu, e segurou a mão da menina, a puxando pro seu colo e a beijando profundamente.

–Não faz tanto tempo com você faz parecer, e eu sei que posso ganhar de você.

–Não acho que tenha haver com tempo, só...

Ele franziu as sobrancelhas, e ela mordeu o lábio, indecisa se continuava ou não. Após algum convencimento, ela suspirou.

–Eu acho que nós crescemos – ela disse, com um sorriso delicado – Lembra o que a mamãe sempre dizia?

–“A vida é como o passar das estações, elas são completamente diferentes uma da outra – ele disse, com um sorriso triste – mas há um único dia que as separa”.

–Sim, eu acho que aquele dia, quando entramos na tempestade... foi como o solstício pra nós.

Eu sei que eles falaram por mais um longo tempo, e talvez Sem-nome saivá sobre o que, mas eu me peguei surpreendido pela lógica simples daquelas crianças, e se você pensar bem, é mesmo assim. Janeiro e fevereiro são diferentes, mas há um único dia que os separa, assim como a infância e a mocidade.

–Fim da infância... – eu sussurrei, quase sem perceber, e Sem-Nome franziu o cenho pra mim.

–O que?

–Fim da infância – eu repeti, de repente, tendo absoluta certeza que estava certo – Você é o demônio do fim da infância.

Sem-Nome ficou de boca aberta, surpresa, e por mais uma longa hora procuramos nomes que encaixassem aquele significado. “Maturidade” não dava certo, “Crescimento” também não, alem de ser bem idiota. Houve outros, vários, mas nenhum conseguia pegar aquela sensação, nenhuma palavra parecia traduzir aquilo que queríamos dizer, e ao final de uma hora, quando o sol já despontava no horizonte, e Kowthe e Nita tinham voltado pra sua casa, eu comecei a achar que seria melhor não ter dito nada, por que Sem-nome estava mais deprimida do que eu jamais tinha visto.

–Obrigado Guerra... – ela murmurou, com um sorriso – Mas eu acho que nunca vou encontrar meu nome.

Eu pensei em dizer que aquilo era fascinante nela, misterioso, exótico e atraente, mas me pareceram qualidades inúteis a se atribuir a alguém que parecia ter perdido algo tremendamente importante, e não saber dizer exatamente o que era.

Então, mais uma coisa me ocorreu. Vendo as listras alaranjadas na sua pele cor de cereja, me pareceu apropriado. Eu testei a palavra na minha língua, sem dizê-la, e fiquei satisfeito ao notar que soava como a voz dela, e tinha o gosto do beijo dela.

–Tigrinha – eu disse, em tom de resoluta finalidade – Seu nome vai ser Tigrinha então.

Ela me olhou por vários momentos, derramou uma lágrima, e me beijou.

Acho que isso diz tudo, né?!

Notas finais
O capítulo faz referências a: "Irmão Urso" e "O nome do vento", direitos destinados aos seus produtores, criadores, e idealizadores. Naruto não me pertence. A Disney não me pertence. A Ferrari e a mansão play boy também não me pertencem... infelizmente... kkkkkkkkkkkkkk Deixem comentários, seus pangarés.