Ketsueki No Omoide - Kaen No Rei
15 Capítulo 11
Notas iniciais
Eu me lembrava de tudo o que tinha acontecido durante a guerra civil no país da Névoa, cada missão, cada ataque e cada expressão de todos que lutaram nela. Foi uma coisa que eu nunca me permiti esquecer, por que eu sabia, marcaria o início de um novo círculo na minha vida. Apesar disso, contar tudo em detalhes era impossível. Levaria tempo, muito mais tempo do que tenho em mãos.
Não que tempo seja algo que me faça falta, eu o tenho a vontade, todo o tempo do mundo pra narrar cuidadosamente cada falha mínima de cada rocha pelo meu caminho, mas vocês não teriam tempo de ler. Já teriam ficado velhos e entediados antes da batalha final. A missão de recuperar mantimentos foi apenas o início, muitas vieram após aquilo, todos os dias, preparando o terreno calmamente pra que pudéssemos sangrar nele, como um pintor que calmamente prepara as tintas pra pintar o segundo plano de uma tela, geralmente posta de lado se comparado com os elementos em primeiro plano. Se isso não era arte, eu não sabia dizer o que era. Preparar a guerra foi, sem dúvida nenhuma, muito mais trabalhoso do que vive-la de fato. Lutar era rápido, levava algumas horas, até que todos estivessem mortos, e então começassem os tratados burocráticos e diplomáticos pra evitar carnificinas de acontecerem novamente. Eu já tinha visto aquilo acontecer. Centenas de vezes. Era sempre igual.
Então, vou tentar apressar um pouco tudo o que aconteceu durante aquele período de tempo. Levou aproximadamente um mês, dias e noites repletas de atividade, e lutas por informações e planejamentos, e teria levado muito mais se Yagura não tivesse perdido a paciência. Mei tampouco era paciente, então, apesar de ser demorado, foi rápido, como uma lebre é rápida em comparação com um caracol, mas lenta se comparasse com um gato.
Kiba treinou o tempo todo, arduamente e firmemente naquela determinação voraz que era tão característica dele. Seu chakra parecia queimar como fogo, e isso me fascinava naquela criança. Hinata foi tão firme quanto ele, mas ela era suave, como água, como vento, enquanto Shino era simplesmente neutro. Enquanto seus companheiros treinavam, ele coletava, e cuidava, e estudava toda sua imensa colônia de insetos. Não era menos necessário do que ficar mais forte, ou mais rápido, ou nada do tipo, cada shinobi tinha suas maneiras de lutarem, os professores na academia eram simplesmente burros demais pra notar isso. Ou talvez eles ainda acreditassem que todos os shinobis deveriam ser como clones um dos outros, espelhados em suas habilidades e fraquezas, pra que lutassem juntos e lineares como peões no xadrez. Mas se fosse dessa forma, por que clãs existiam então?! Talvez fosse pra ir contra isso, quem sabe.
Já Mei, ela passava boa parte do tempo no seu escritório, contemplando aquele mapa enorme manchado de café e creme de baunilha, como se procurasse por algo escondido que lhes cedessem a vitória. Não seria tão fácil assim, não tinha como achar um ponto desconhecido em algo que ela tinha memorizado completamente, eu tinha certeza, meses antes de eu chegar até lá. Claro, Mei também saía pra treinar as vezes, ou meditar, ou simplesmente conversar com os outros. As vezes ela e Ártemis faziam sexo encima daquele mapa, e manchavam ele mais ainda, se é que era possível, ele estava tão sujo e velho que eu não entendia como não tinha rasgado ainda.
Ártemis... ele era curioso. Arqueiros eram raros em todo o continente, exceto no país do ferro, onde eles serviam pra cobrir as costas do exército de samurais. No entanto, nenhuma daquelas pessoas estava a altura dele, sua habilidade era simplesmente assustadora, ele poderia prender as asas de uma mosca numa árvore a um quilômetro de distância sem mata-la. Fiquei pensando se haveria algo naqueles olhos castanhos escondidos, mas parecia ser completamente normal. Nós fizemos algumas missões juntos, e acabava sendo fácil demais. Eu não tinha que me preocupar em receber ataques, enquanto vários iam caindo desacordados, outros tantos tinham suas mãos presas pelas setas, ou eram mortos por elas, tão rápidas e sutis que meros chunnins não tinham chance de desviar.
Yugao e Anko ainda agiam como duas malucas enquanto eu estava por perto, e as brincadeiras íntimas continuavam enquanto elas estavam sozinhas. Irritada por sua melhor amiga ter roubado meu “primeiro beijo”, Yugao um dia me puxou pra ela e me beijou também. Tratei de corar até a morte também – não que fosse muito difícil – mas não pude evitar apreciar o gosto daqueles lábios, tão macios que pareciam asas de uma borboleta. Anko, claro, tomou isso como um insulto a sua pessoa, e resolveu se vingar durante um jantar. Mei achou tão engraçado que entrou na brincadeira, e era só eu me descuidar que acabava sendo beijado por uma das três em qualquer corredor vazio, ou mesmo numa sala cheia de gente, não parecia importar pra elas.
Claro que eu adorei aquilo, mas tratava de parecer sempre envergonhado. Eu não tinha mais que treze anos, no final das contas.
O primeiro movimento claro durante a guerra foi feito pelo Mizukage, eu quero dizer, o primeiro movimento realmente agressivo. Eu não sabia de nenhum acordo feito entre Mei e Yagura, e como aquela era uma guerra civil, achei difícil realmente ter algum, mas como nenhuma cidade tinha sido tomada ainda, acreditava que algum acordo tácito tinha sido feito sobre isso, ou que pelo menos ambos os lados não queriam causar prejuízos ao seu próprio território.
Bem... Isso até agora. Rápido como um raio, cinco shinobis, mais o próprio Yondaime, tinham destruído completamente uma cidade da fronteira, que ficava perigosamente perto de nós, pra usa-las como posto avançado.
O espião deixou claro que o Mizukage tinha permanecido ali, ou seja, uma retaliação estava completamente fora de cogitação, a não ser que quiséssemos levar a guerra a um fim precoce e sangrento. Por mais que não importasse muito pra mim, Mei decidiu não fazer isso, portanto, a segui. Em contrapartida, ela ordenou que espelhássemos suas ações. Se quiséssemos levar a sério, tínhamos que mostrar estarmos tão determinados quanto Yagura a não recuar, qualquer outra coisa simplesmente o encorajaria a ser ainda mais ousado em se aproximar do território rebelde e nos cercar.
Mei estava bastante tensa quanto a isso. Tomar uma cidade não era algo simples, e por mais que fosse fácil, de um certo ponto de vista, tanto que eu mesmo poderia fazer aquilo sozinho, era extremamente complicado de outro. Tomar uma cidade significava matar vários civis, civis do país da Névoa, que deveriam ser nossos futuros apoiantes, e nossos cidadãos. Fazer algo assim era perder apoio imediato e futuro, e por mais que isso fosse desprezível para um tirano como Yagura, pra Mei, era perigoso demais.
Esse foi um dos pontos importantes, por que foi aí que Mei descobriu que eu não era apenas uma força absurda em combate, mas também era eficiente em montar estratégias. Talvez a parte mais engraçada sobre isso, ou nem tão engraçada assim, é que estávamos todos na sala dela quando aconteceu. Anko, Yugao, Ártemis, Mei e Kurenai, inclusive as crianças e os lobos. A parte engraçada é que estávamos todos tomando café.
Pode não ser exatamente engraçado, mas se vocês soubessem exatamente o quanto tinha de café naquele mapa imundo fedendo a esperma, não tinha como não rir... ou chorar. Enfim, Mei estava batendo furiosamente com uma caneta encima da cidade dominada, onde ela distraidamente tinha desenhado um chibi Yagura com cara de mal, dando uma risada maligna, e várias setas de cores diferentes apontavam tudo, desde padrões de ataque até rotas de comércio. A questão em pauta naquela audiência informal era: Qual vila atacar?
Isso até era fácil decidir, havia pelo menos sete vilas em posições estratégicas favoráveis aos rebeldes, se forem usadas como postos avançados de observação e defesa, e todos nós sabíamos que, apesar de Yagura conhecer a todas, e com certeza ter espiões nelas, era virtualmente impossível defende-las ao mesmo tempo. O ponto mesmo era que ela realmente, realmente não queria tomar posse de nenhuma vila.
Observei o mapa, enquanto tomava um gole de café com leite bem doce da minha caneca, contemplando o silêncio na sala. Ninguém parecia com coragem de falar nada, e se continuasse assim, não demoraria pra Mei chutar alguma coisa e mandar que atacássemos logo qualquer lugar. Não aconteceu, por que eu apontei pra um ponto específico, um ponto específico realmente específico.
-Se pudermos contornar o território através das matas no litoral – circulei mais ou menos o que seria o diâmetro total de terreno visível do posto avançado, dando uma boa margem de erro pra possíveis patrulhas ou jutsus de monitoramento – Nós poderíamos atacar diretamente onde as forças do Mizukage estão concentradas.
Ninguém disse nada quanto a isso, mas Mei arregalou os olhos de uma forma quase cômica. Eu realmente pude notar que a ideia passou pela cabeça dela, e passou muito, e era tão atraente que ela quase não podia evitar de considerar. E se desse certo?!
Realmente poderia dar certo, mas Mei era cautelosa acima de tudo. Não tinha como ela mandar um batalhão completo por aí, e uma unidade de poucos shinobis, como eu sugeri... bem, simplesmente era arriscado demais. Mesmo que eu chegasse às portas de ser um shinobi rank S – todos pareceram bastante surpresos quando ela disse aquilo, considerando minha posição como recém saído da academia, era compreensivelmente difícil de acreditar, apesar de tudo – precisaria de pelo menos cinco ou seis pra fazer isso ter mesmo a menor chance de ser efetivo.
Ela descartou a ideia. Por exatamente duas horas, então decidiu que valia a pena tentar. O grande X que mudou a equação toda se vestia toda de vermelha, e tinha um nome que, apesar de não ser ouvido a alguns anos, era capaz de fazer ninjas endurecidos se molharem.
Nidaime Red Death, a “Presa escarlate” da folha. A chegada dela não foi menos que espetacular, isso se tomarmos a comoção de todos os shinobis ali como uma variável de análise. Os shinobis da guarda até tentaram parar o avanço lento dela pra dentro da resistência, mas eles simplesmente iam caindo um após outro. Hanna nunca foi paciente com apresentações, então era normal que quase todos os shinobis livres estivessem em sinal de alerta, se dirigindo para a entrada da vila como se estivéssemos sendo atacados. Eu e Kiba estávamos treinando nesse momento, e também corremos em direção a ela. Foi no meio do caminho que eu percebi que ele reconheceu o cheiro, que apesar de ser disfarçado, pertencia claramente a Inuzuka Hanna.
-Onne-san, o que ela...
-Oe, kiba – chamei sua atenção enquanto corríamos, e ele me encarou – Não faça nada quando chegarmos lá, e sobretudo não fale com ela, entendeu?
Ele poderia muito bem ter me mandado a merda numa situação como aquela, mas aqueles dias tinham construído uma espécie de hierarquia não-oficial entre nós, e por eu estar no mesmo lugar, senão acima, de Kurenai, Anko e Yugao, ele apenas assentiu, um pouco confuso, e se apressou.
Como pensávamos, era Hanna que estava ali, agora cercada de shinobis e parecendo bem mal humorada, como se considerasse acabar com todos eles na mesma hora. Me preparei pra lutar caso ela nos mandasse retornar pra Konoha, mas suas ações pegaram até mesmo eu de surpresa.
Quer dizer, eu nunca esperaria que ela caminhasse diretamente até mim, e se ajoelhasse.
-Naruto-taicho – ela disse, a voz desprovida de qualquer sentimento ainda era macia como veludo – Por ordens do Hokage-sama, Sarutobi Hiruzen, você agora é o responsável pelo grupo de Konoha a auxiliar o lado rebelde de Kiri na guerra civil. Os documentos da sua missão...
Ela puxou de dentro do colete um pergaminho selado pelo Hokage, e continuou ajoelhada, com a cabeça abaixada. Kiba parecia extremamente confuso, mas como eu pedi, ele não fez nada, nem falou com Hanna. Todos os shinobis em volta de nós falavam ao mesmo tempo, perguntando o que diabos é que estava acontecendo, e se ela tinha alguma relação comigo.
-Silêncio! – Mei atravessou a multidão, acompanhada de Yugao, Anko, Ártemis e o restante da equipe oito. Notei o olhar surpreso e meio receoso no rosto das jounnins, mas não disse nada – O que esta acontecendo aqui?
-Essa maluca chegou atacando todos nós – gritou um dos shinobis da guarda, dando um passo a frente – E agora esta se reportando ao Naruto-sama, eu não entendo o que esta acontecendo!
Os murmúrios começaram novamente, mas Mei os calou.
-Naruto-kun – Mei se voltou pra mim – Você pode nos explicar do que se trata?
-Hai, aparentemente – joguei o pergaminho pra ela, que pegou no ar sem sequer pestanejar – Hokage-sama ordenou que o meu trato com Zabuza fosse legalizado, e agora a vila da folha apoia minhas ações na guerra civil.
-E te colocou como líder de esquadrão – Mei riu – Meus parabéns, inacreditável para um gennin, se sairmos vivos dessa, isso vai ser um ponto brilhante no seu currículo.
Apenas curvei a cabeça levemente.
-No entanto... Eles enviaram apenas uma ANBU?
-Não é qualquer ANBU – quem falou foi Zabuza, acompanhado por Haku. Ele parecia bastante cansado, com ambos os braços enfaixados do cotovelo até o fim do antebraço, me perguntei se estaria treinando – Você já deve ter ouvido histórias Mei, sobre a “Presa Escarlate”...
O silêncio naquela parte da vila foi tumular. Mesmo de todos os shinobis, ninguém ousou dizer nada, era como se um zumbido arrepiante passasse por todos. Alguns arregalaram os olhos, outros simplesmente prenderam a respiração, enquanto todos os pares de olhos do lugar convergiram sobre ela. Ainda ajoelhada, com a cabeça baixa e o leve azul nas suas pálpebras contrastando com o vermelho da máscara, linda e imóvel como uma estátua.
“Você ouviu...”
“Ele disse “Presa Escarlate”, é ela mesmo?! Achei que tinha morrido”
“Dizem que é a kunoiche mais poderosa do país do fogo, desde Tsunade dos sannins”
“Ouvi dizer também que ela foi a única que já ganhou uma luta mano a mano com Uchiha Itachi”
“Ela conseguiu ganhar daquele monstro?! Assustador...”
“Ela deve ser incrivelmente poderosa”
-Silêncio! – Mei gritou, em seguida se voltou pra mim, o brilho louco nos seus olhos me contou tudo o que eu precisava saber – Naruto-kun...
-Hai! – dei as costas, e uma fração de segunda depois, Hanna estava atrás de mim, caminhando calada ao meu flanco direito – Momochi Zabuza, Koori Haku, Ártemis, venham comigo...
Apesar da seriedade da minha voz, todos sorriram enquanto curvavam as cabeças.
-Você também – eu disse baixinho – Hanna-nee-chan...
Pude ver o vermelho da sua máscara se curvar num leve sorriso, enquanto ela assentia, e todos nós saíamos dali, em formação. Imaginei que Kiba estaria muito confuso num momento desses, mas não tinha com o que se preocupar, Kurenai, ou Yugao, ou Anko, ou mais provavelmente todas elas diriam o que ele precisava saber.
-Prestem atenção todos – eu disse para os quatro correndo atrás de mim – Nossa missão é um ataque direto e furtivo a base inimiga.
-Um ataque a base inimiga com cinco shinobis?
-Eu disse direto e furtivo...
Hanna riu:
-Parece que eu cheguei no melhor momento, hein, Naruto-taichou?
-Na verdade, foi graças a você que Mei-sama aprovou esse plano – sorri gentilmente pra ela, em agradecimento – Só que não serão cinco, e sim seis...
-Vamos levar o Chojuro – Zabuza adivinhou, concordei com um aceno de cabeça – Já estava na hora de testar aquele pirralho...
-E você também... – ele grunhiu – Você estava treinando esse tempo todo?
Zabuza correu a mão pelo cabo da Zambatou, com um sorriso saudoso no rosto:
-Fazia um bom tempo que não praticávamos juntos... foi bom relembrar como é.
-Espero que tenha melhorado...
-Orusai...
-É verdade então – Hanna perguntou, correndo com seus cachorros, apesar de eu não tê-los mencionado até agora, no meu flanco direito – Você derrotou um espadachim da névoa com uma espada de madeira, sem sofrer nenhum arranhão?
Zabuza suspirou, enquanto todos ali, mesmo Haku, riam dele. Tive a boa educação de parecer envergonhado:
-Nanda...
-Não se importe com isso – Haku disse com um sorriso gentil – É que todos perguntam isso, e Zabuza não gosta de lembrar...
-Ahh... gomen... – ela se voltou pra mim – Mas é incrível que tenha conseguido fazer algo assim, taicho, com todo o respeito, o senhor acabou de sair da academia.
-Não, não – sorri tranquilamente – Você tem toda a razão.
Havia um amanhã... um tão longo que mesmo eu não pudesse alcançar?! Um dia onde eu me sentaria, e contemplaria toda a minha vida?! O que eu diria pra mim mesmo?! O que diria sobre os amores que eu vivi, as decepções, a dor, as alegrias, e a saudade daquelas pessoas que eu amei, mesmo as que me odiaram.
Com certeza eu pensaria que tive uma boa vida.
Esse era meu pensamento enquanto corríamos, eu não me sentia exatamente ali. Enquanto avançávamos em terreno inimigo, eu me senti quase como se fosse uma memória, uma memória vívida do meu eu futuro, que estivesse fechando os olhos nesse momento e dando o seu último suspiro. Eu desejei ardentemente que fosse de verdade, que eu realmente pudesse partir para o amanhã, o horizonte onde a Princesa e o Barqueiro viviam, e juntos, contemplavam o mundo dos homens. Mas não era hora. Eu sabia que aquele tempo, aquela vida, seria passageiro. Os amores que eu viveria seriam passageiros, as dores, tudo, e eu sabia que ainda tinha muito o que viver, muito tempo, mais tempo do que a perspectiva falha dos humanos poderia contemplar.
Mas mesmo assim, o gosto de ser uma memória não me abandonou tão cedo. Cruzamos todo o campo rochoso e os pântanos, rindo e conversando, tentando aliviar a tensão de uma batalha. Zabuza e Haku pareciam felizes, mesmo Chojuro, apesar de estar nervoso. Hanna também, ela parecia alegre, correr daquela forma, devia ter alguns anos que ela não fazia aquilo. Imaginei se ela sentia falta. Claro que sim. Sempre sentimos falta. Eu sentia falta?! Sim... De tudo, eu sentia tanta falta de tudo que não haviam reações possíveis além de chorar lágrimas amargas de dor, ou rir como um maníaco, rir de saudade. Daqueles momentos que parecem ficarem gravados na gente como se fossem eternos.
Sempre pensei que esses momentos fossem tesouros mais valiosos que o ouro, mais valiosos do que tudo. Aquele momento estava sendo um deles, por isso foi muito difícil pra mim não chorar ou simplesmente rir. Tantos rostos importantes me vinham a mente a cada momento, incontáveis rostos que eu tinha gravado a fogo no meu cérebro, pra nunca serem esquecidos, eles eram tão claros quanto lógica simples, quanto uma equação elementar que eu não me desse ao luxo de esquecer, nem por um momento, uma fração matemática importante, um verso rimado que fizesse todo o sentido do mundo. O rosto de Kenshin estava entre eles, claro que estaria, mas haviam outros, alguns sem nomes, outros que eu nunca tinha conhecido realmente, mas eram importantes. As vezes, pessoas que passam por um vislumbre pelas nossas vidas nos marcam mais que amigos de longa data, as vezes, uma simples troca de olhares pode nos influenciar mais do que qualquer coisa.
O rosto daquele garotinho, de cabelos azuis e fala mansa da vila da Onda estava lá também, assim como a garotinha de dentes de leite e rosto ralado. Inari também estava lá, assim como Haku e Kenshin, e tantos outros amigos, pais, filhos, esposas, mães, inimigos, todas as pessoas que eu amei, ou odiei, imortalizadas em traços, as vezes falhos, no fundo do baú de preciosidades que era a minha memória.
A formação em que corríamos eram simples. Eu estava na frente, e no centro, com Zabuza a minha direita, e Chojuro a esquerda, seriamos a linha de frente, as três espadas do grupo. Hanna, a nossa direita vinha emparelhada com Haku, a nossa esquerda, um pouco atrás de nós, cuidando de nossos flancos e atrás, um pouco afastado das duas, vinha Ártemis, protegendo nossa retaguarda e nossos pontos-cegos. Ele parecia desprotegido ali atrás, mas tanto Haku quanto Hanna estavam de olho nele. Nada passaria vivo deles. Tendo um Deus Dragão e uma Lenda viva como Inuzuka Hanna como proteções, ele não estaria mais seguro num berço.
Esse pequeno diamante que era nossa formação seguiu sem nenhum problemas, contornando o posto avançado de Yagura pela extrema-direita. Podia parecer arriscado mandar apenas cinco pessoas pra um ataque, mas não havia nada mais efetivo do que isso. Mei e os outros precisavam ficar onde estavam pra proteger a base, e tanto quanto poderia dar certo transportar um exército de shinobis pela mata sem sermos visualizados, não era nada prático. Um ataque direto como aquele seria, como Ártemis gostava de dizer, uma flecha. Éramos cinco shinobis extremamente fortes, não seria nenhum exagero dizer que cada um de nós era um exército por si mesmo, muito mais do que a própria Mei poderia imaginar. Mesmo Chojuro, que agora observava os arredores seriamente, tão diferente do jovem tímido que eu havia lutado. Hora ou outra podia notar que seus olhos se tornavam amarelos, e não podia evitar sorrir com isso. O mesmo valia pra Zabuza, sua postura parecia tão afiada quanto a própria espada em suas costas, como se fosse a própria Zambatou.
Eles estavam tão entrelaçados que era difícil dizer quem era quem...
Anko bufou irritada enquanto Naruto seguia com o resto do seu esquadrão para um ataque furtivo insano nas forças principais do Mizukage. Ela considerou sacudir a cabeça de Mei até que os neurônios começassem a funcionar ali dentro, mas não era certeza de dar certo.
-Você parece irritada Anko-chan...
Yugao engoliu em seco quando o olhar assassino da especialista em tortura cruzou com o seu. Aqueles olhos roxos tinham o incrível poder de assusta-la e excita-la até níveis absurdos. Ela se arrepiou enquanto Anko olhava ao redor, soltando fogo pelas ventas.
-Como é que o Hokage-jiji coloca o Naru-chan como líder de esquadrão?! – ela olhou pra cima com fogo nos olhos, enquanto todos ao seu redor se afastavam vários passos – Ele acabou de sair da academia, pelo amor de Deus! O que aquele velhote tem na cabeça?!
-Anko...
-E ainda mandar a Hanna-chan pra cá desse jeito!
-Anko...
-E um ataque com cinco pessoas?!
-Anko...
-O que ele...
Anko se calou quando Yugao puxou sua cabeça e abraçou com força entre seus seios, quase sufocando a jounnin. Ignorando a risada pervertida de Kiba, antes que levasse um safanão de Kurenai, ela só a apertou e a espremeu com força.
-Anko-chan, Kawaii, você esta preocupada com o Naru-chan!
-Baka yaro, você não esta?
-Claro!
-Não responda “Claro” tão alegremente idiota, ele pode morrer!
O sorriso de Yugao morreu, mas ela continuou espremendo a cabeça da kunoiche de cabelos roxos sem perceber, ou ignorando muito bem o azul que já lhe subia as bochechas.
-Ne... Kurenai, o que você acha?
Kurenai pareceu pensar um pouco, e logo um sorriso adornou os seus lábios.
-Eu acho que é apropriado.
-Eu também – Yugao sorriu feliz, até sentir a figura debatente da kunoiche de cabelos roxos amolecer nos seus braços – Anko-chan?
Anko só escorrer para o chão, como uma massa desprovida de movimento. Isso durou alguns segundos até ela pular pra cima novamente, tão agitada quanto antes.
-Como pode dizer que é apropriado? – Ela se agachou, com lágrimas escorrendo dos olhos em um fluxo interminável e imaginário – Ele pode estar machucado, com fome, com frio, ou com saudade da gente que não vamos estar pertos pra saciar sua sede de calor humano...
-Vamos, não seja tão dramática, é do Naruto que estávamos falando lembra? – Yugao se sentou e a abraçou por tás, deixando os lábios sensualmente próximos ao seu ouvido. Kiba, e surpreendentemente Hinata foram nocauteados por uma hemorragia nasal – Lembra de tudo o que ele fez?! E quando ele estava próximo, nós os seguíamos sem questionar?
-Ele é uma criança bem interessante né? – Kurenai sorriu – Acho que deve ser mais forte que a maioria dos jounnins na vila, isso inclui eu mesmo...
-E não é?! Pra derrotar Zabuza com uma espada de madeira, sem sofrer um arranhão, imagina como ele vai estar forte daqui a alguns anos?!
Anko relaxou um pouco, escorando as costas contra o corpo da sua melhor amiga, e fechando os olhos.
-Acho que você tem razão, e se qualquer coisa acontecer, Hanna esta com ele, então não deve ser um problema...
Kurenai se voltou pra Kiba, que ainda estava desmaiado com um sorriso numa poça do próprio sangue.
-Isso me lembra... temos algumas explicações a dar.
O posto central das forças de Yagura estava organizado, e o contra ataque deles, apesar de hesitante, foi bem centrado e preciso. No entanto, sem o kage ali, todos estavam nervosos, e foi fácil contornar suas defesas. Zabuza cobriu o lugar de névoa, e a contagem de mortos dele subia no mesmo ritmo que os segundos. Ártemis ficou pra trás, acertando os shinobis que vinham em reforço, a cada segundo disparando duas, três flechas. Suas aljavas esvaziariam rapidamente daquela forma, mas não antes de termos terminado o que tínhamos vindo fazer. Apesar de não matar ninguém, todos os inimigos que caíam desacordados eram esfaqueados por Chojuro ou Hanna, que foi se aprofundando cada vez mais na vila.
-Faz tempo que não brincamos juntos, ne...
Observei com quem ela falava, praticamente estática no meio de cinco shinobis, que a cercavam e tentavam encontrar uma forma efetiva de atacar. Mesmo naquela situação, ela estava tão calma que era assustador.
-...Meron... – ela terminou com um sorriso discreto por baixo da máscara, e com uma kunai, cortou a mão, mais profundamente do que seria necessário. O sangue escorreu pelos dedos, e pingou no chão, logo formando uma pequena poça.
“Kiba adoraria estar aqui pra ver isso” – pensei comigo mesmo, aparecendo atrás de um shinobi que pretendia ataca-la pelas costas e o desacordando com um golpe no pescoço. Hanna não deu sinais de ver nada, ela observava o sangue vazar quase como se estivesse hipnotizada. No meu bolso, escondido, eu senti o pergaminho das feras se aquecer ligeiramente, e logo depois ficar tão quente que parecia queimar minha pele.
Durou apenas alguns segundos, até que Hanna fizesse uma sequência rápida de selos, com as mãos empapadas de sangue, e várias tatuagens pelo seu braço começarem a brilhar.
-Dai Kuchiose no jutsu! Meron!
O mundo pareceu parar por um momento. Todos os selamentos do seu braço escorreram pelo seu corpo como barro, se alongando no chão e se separando, formando um círculo de convocação gigantesco. Os traços do selo brilharam carmesim por um segundo, e nada. Tudo ficou em silêncio, vários shinobis que estavam lutando pararam, tensos, pra ver o que ia acontecer.
“Esta vindo...”
Com um rugido, a besta lendária apareceu no campo, tão grande quanto um cavalo. Patas enormes e musculosas, a bocarra arreganhada num rugido baixo, e uma calda enorme mexendo de um lado pro outro. Meron era simplesmente enorme e lindo, tanto quanto eu me lembrava.
“Gatinho bobo” – acabei sorrindo comigo mesmo.
Hanna não deu tempo pros inimigos racionalizarem nada. Correndo até ele, ela puxou a tanto das costas, e saltou, formando um tsuna dezenas de vezes mais veloz do que Kiba conseguia.
-Nekoka Gatsuga!
Meron rugiu, e pulou no tsuga, transformando a broca pequena e vermelha num furacão furioso que atingiu o campo de batalha com a força de uma explosão. Vários ninjas perderam o equilíbrio com o tremor do golpe, e outros apenas tentaram atacar, atirando kunais ou o que fosse. Inútil. Hanna podia girar tão rápido ali dentro que qualquer coisa simplesmente seria refletida de volta, basicamente como acontecia com o kaiten dos Hyuugas.
Zabuza e Chojuro, que estavam costa a costa atacando nesse momento pareceram surpresos com a potência do golpe, que devastou dezenas de metros no campo de batalha. Os lobos trigêmeos observavam tudo com um cuidado quase clínico, mas logo perderam o interesse e começaram eles mesmos a atacar vários shinobis desavisados. Ártemis não deu nenhum sinal de ter visto o golpe, ele disparava flecha atrás de flecha, e até agora não tinha errado nenhuma. Haku estava fazendo um bom trabalho o protegendo.
-Oe Naruto – Zabuza gritou depois de separar um atacante desavisado em dois – Com ela aqui podemos realmente vencer!
-Baka yaro – gritei de volta, passando pela guarda de um jounnin e o puxando de joelhos com a perna, só pra acertar o cabo da sakabatou na sua testa, o mandando desacordado pro chão – Você tinha vindo com intenção de perder por acaso?!
-Não foi isso que eu quis dizer – ele gritou de volta, fazendo sinal pra Chojuro e se separando dele, correndo na minha direção e logo parando costa a costa comigo. Chojuro ficou emparelhado com Haku – Olhe pra ela, parece um demônio, nós vamos vencer com certeza!
Voltei os olhos pra Hanna por um momento, Zabuza tinha razão. Por onde ela passava, só restavam inimigos destroçados, alguns braços e pernas e crânios destruídos. Era brutal, mas Hanna não era uma lenda a toa, e aquilo era só uma porcentagem do que ela podia fazer.
-Meron! Cambio forma, flamia modo! – ela gritou, derrapando no chão depois de sair do tsuga combinado.
O tigre enorme rugiu, cravando as garras na terra, e seus olhos brilharam vermelhos. Imediatamente, seu pelo se eriçou, e inflamou completamente. Sua imagem através do fogo ficou embaçada, de forma que parecia que ele próprio era feito puramente de chamas, alaranjadas e tão quentes que avermelharam o chão onde ele pisava.
-Nenshõ Gatsuga!
Meron rugiu e saltou para o ar, formando um tornado de fogo que percorreu o campo como uma broca. O fogo se espalhou, e praticamente incinerava todos os inimigos tolos o bastante pra estarem por perto daquilo. Zabuza ao meu lado engoliu em seco.
-Você esta cercado de mulheres assustadoras...
-Elas são fofas...
-É claro que não são!
Acabei rindo, pulando pra perto de onde os trigêmeos estavam. Bastou um olhar, e eles latiram em acordo, imediatamente formando um enorme tsuga triplo, todo cinzento que avançou pra cima.
-Vão com calma, não quero matar ninguém – eu gritei, antes de sacar a sakabatou e pular atrás deles. A broca gigantesca fez meia volta no ar, de forma que parecia que ia me acertar, mas eu apenas sumi dentro dela. Imediatamente a broca aumentou de tamanho, ganhando um tom azul e vermelho em meio ao cinzento.
-Buraindo Gatsuga! Goei no Kõgõ en! – Presa sobre presa cega, escolta da imperatriz das chamas!
A broca enorme atingiu o campo, espalhando rochas quebradas pra todos os lados. Chojuro pulou pra fora do caminho, deixando um shinobi com a perna ferida bem na linha de fogo. As laminas cegas do Gatsuga deixaram todos os ninjas em volta inconciente, seguindo até onde o furacão de chamas de Hanna ainda causada dano. Todos gritavam e tentavam se organizar pra montar algum ataque, mas a cada segundo um na multidão era derrubado por uma flecha de Ártemis, ou por Zabuza, ou Haku. Eles estavam todos assustados e atacando sem ordem nenhuma.
Foi pouco tempo depois que o Gatsuga gigante cinzento se separou em quatro, os três lobos gêmeos e eu, um redemoinho azul e vermelho entre os outros três e Hanna, num ciclone carmesim a nossa frente. O imenso jutsu combinado devastou o campo, e mesmo os muitos que eu deixei inconscientes foram logo queimados por Hanna e Meron, ou então retalhados pelas presas afiadas dos trigêmeos. Quando o jutsu se desfez, cheiro de carne queimada e sangue invadiu minhas narinas com força.
-Vamos Naruto – Hanna gritou – Nós já terminamos o que viemos fazer.
Concordei com um aceno, embainhando a sakabatou e assobiando. Haku e Ártemis vieram imediatamente atrás de nós, e Chojuro e Zabuza logo depois. Muitos tentaram vir atrás de nós, mas era inútil. Rapidamente ordens pra reagrupar e tratar os feridos vieram entre os shinobis de nível mais alto, e eles abandonaram a perseguição. Apenas alguns minutos depois de chegarmos, nós voltamos, sem nenhum ferido e deixando pra trás cerca de três quartos da força original do Yondaime Mizukage.
Como tínhamos planejado, foi rápido e eficiente. Como uma flecha. De repente e de surpresa, sem deixar nenhuma chance de reação ou organização, acertando com o máximo de força e minimizando o máximo possível os danos. Não voltamos pelo mesmo caminho, mas deixamos dezenas de pistas falsas e armadilhas. Várias delas foram ativadas quando alguns desgarrados partiram atrás de nós procurando vingança. Àquele ponto, todos nós estávamos com nossos rostos no topo da lista de procurados pelos caçadores ninja do país da névoa. O nome Uzumaki Naruto, apesar de ainda soar abafado, estava se tornando conhecido por todo o país, e sempre vinha acompanhado do da “Presa escarlate”, ou o “Demônio da Névoa”.
Mei nos parabenizou pelo sucesso absoluto da missão, e pediu que tirássemos o resto do dia pra relaxar. Em meio a guerra, era o máximo que ela podia fazer, por isso agradecemos e nos retiramos dali. Chojuro e Zabuza imediatamente foram treinar, enquanto Haku e Hanna me acompanharam em silêncio. Não prestei atenção a onde ia, nem elas disseram nada, até que nos encontramos na praia, quase no mesmo lugar onde tinha voltado com os barcos a algumas semanas atrás. Me sentei na areia, com Haku ao meu lado, e surpreendentemente, Hanna se sentou bem atrás de mim, me abraçando e me puxando suavemente até que estivesse recostado contra seu corpo.
-Você esta bem, Naru-chan...?
-Hai...
-Você se saiu muito bem hoje, a missão toda foi um sucesso graças a você.
-Foi por você...
-Não, foi por você – ela sorriu, deitando a cabeça ao lado da minha, e sorrindo – Você pensou muito bem em cada ordem, desde as armadilhas que deixamos no percurso, até a formação e modo de ataque, foi tudo muito bem calculado, e por isso deu certo. Eu estou orgulhosa de você, sei que Yugao e Anko também vão ficar quando ouvirem falar disso.
-Onde elas estão?
-Não tenho certeza, mas com certeza devem estar em alguma missão. Mei parece bastante ocupada, passando trabalho atrás de trabalho pra todos os shinobis que não estão de guarda.
-Não vai demorar muito desse jeito...
-Hum?
-A guerra, vai acabar logo. Em conflitos shinobis, sempre que as coisas começam a acelerar desse jeito, é por que estão próximos do fim...
-Ah é... eu lembro disso. Quando era criança, as pessoas falavam disso. A terceira guerra acabou com um grande conflito... você acha...?
-Sim, provavelmente – senti um rosto aquecer um pouco ao me inclinar mais contra seus seios, as mãos pequenas de Hanna suavemente acariciando meu pescoço – um conflito como esse se estenderia pra sempre do jeito que esta, provavelmente vai terminar quando Mei e Yagura forem eles mesmos para o campo de batalha...
-...E conhecendo a Mei – Haku completou o raciocínio de Hanna, apesar de estarmos ali a apenas algumas semanas, foi tempo o bastante pra ter uma ideia de que tipo de pessoa a Líder era – Ela provavelmente não vai arriscar a vida de mais shinobis prolongando uma luta com Yagura.
-Sim... esta acabando.
Notas finais
Rewies!
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