Ketsueki No Omoide - Kaen No Rei
16 Especial - A donzela do cristal part02
Notas iniciais
Os lábios de Ishin dançavam nos meus, devagar, tão devagar que não era o suficiente pra satisfazer aquele fogo que começava a queimar dentro de mim, aquele impulso de rasgar suas roupas e devora-la como um animal fazia. No entanto, aquele beijo doce me fez entrar num torpor confortável, quase como se eu não estivesse ali. Suas mãos desceram pelo meu pescoço, frias e suaves, enlaçando meu torso e abaixando o quimono, deixando a mostra a pele pálida daquele corpo jovem. Ainda muito devagar, ela subiu no meu colo, me encostando na parede rochosa da caverna, acariciando minha pele e deixando rastros de fogo por onde seus dedos corriam, fogo gelado que me arrepiava.
Seus dedos encontraram minhas cicatrizes, e seus lábios se separaram dos meus, enquanto ela me envolvia num abraço, a cabeça ao lado da minha, olhando minhas costas.
-Eles te machucaram, minha criança... – ela disse, o tom tão doce quanto antes, mas trazendo uma melodia que parecia atemporal. Era como se suas palavras passassem através do vento, vindas de eras passadas, como se fosse uma mãe carinhosa, beijando o machucado de seu filho pra que ele parasse de chorar – Eles sempre te machucaram tanto ao longo do tempo, desculpe não ter estado lá pra te abraçar.
As palavras dela fizeram lágrimas escorrerem dos meus olhos, enquanto eu travava o maxilar e mordia minha língua pra não deixar os soluços escaparem da minha garganta. O que era aquilo que eu estava sentindo? Dor? Felicidade? Amor? Era uma mistura de todos, sem ser nenhum deles exatamente. Me dava vontade de chorar, de gritar, de agir como uma criança e esperar que minha mãe viesse me afagar, e dizer que tudo estava bem.
Kenshin passou pela minha mente, o sorriso tão doce dele, e depois seu rosto imortalizado no diamante moldado com o meu chakra. O rosto daquele bebê que eu assassinei no berço também voltou, a pele jovem imaculada iluminada pela luz da lua, a mesma pele e a mesma carne que eu tinha devorado, o sangue que ainda manchava a minha face. Meu filho voltou a mente, tão inocente quanto Chihiro era, um milhão de perguntas que nunca seriam feitas, pequenas asas que nunca alcançariam o céu. Ele tinha sido morto pela sua própria mãe, naquele dia em que contei quem eu realmente era. A raposa de nove caudas.
“Monstro!”
As lágrimas escorreram, e minha boca se entreabriu, nenhum som saindo dela, além de um sussurro que passou abafado pelos caninos pontiagudos.
“Monstros tem que morrer, eu não vou alimentar com meu leite o filhote do mal”
“Volte pro inferno Nanami! Volte e leve nosso filho com você!”
“O que você pensou?! Que eu aceitaria o demônio na minha casa? Morra criança! Queime no inferno pra sempre, onde você pertence”.
“Quer dizer que... esse tempo todo, o senhor era o demônio vovô? Por que não me disse? O senhor me enganou... Matou a minha mãe... eu odeio o senhor! Morra!”
“Isso não é um bebê, é a prole do mal! Queimem! O fogo vai santificar a carne manchada pelas trevas!”
Ishin me segurou firme no seu colo, enquanto minhas lágrimas escorriam pelo seu seio, e mesmo que minhas garras tenham machucado sua pele, quando eu a apertei contra mim, ela não disse nada. O sangue que escorreu pelos seus ferimentos, que manchou minhas mãos, tinha o mesmo cheiro do meu. Sangue de demônio. Sangue de raposa, sangue divino, sangue humano.
-Não se preocupe filhote... a mamãe esta aqui... chore – Ishin beijou minha face, provando do salgado das minhas lágrimas, olhando docemente pros olhos vermelhos daquele demônio perdido nas memórias do seu passado – Deixe sair, deixe isso te lavar por dentro, você escondeu tanta dor dentro de você o tempo todo, toda a dor da humanidade, toda a discórdia e toda a culpa...
Não ouvi suas palavras naquele momento, meu mundo estava resumido a dor e sofrimento. Milhares e milhares de vezes vi filhos matando seus pais, irmãos lutando entre si, famílias se desfazendo, vilas sendo destruídas, casas sendo queimadas, corpos ardendo entre as chamas, laminas manchadas de sangue, mães chorando por seus filhos, filhos pelos seus pais, e todos eles abominavam o meu nome, e me odiavam, e me culpavam, e cuspiam em mim.
-Chore Guerra, chore a dor que os homens fazem você carregar... – Ishin cantou no meu ouvido, nossos corpos ainda colados, as respirações entrecruzadas – Tente soltar ao menos um pouco desse enorme fardo...
Lá fora, sobre as árvores e em toda a floresta, começou a chover. Eu ouvi as gotas cortando o céu, e molhando a terra, e o cheiro de relva chegou as minhas narinas, entrando por aquela caverna como se fosse um perfume. O cheiro da grama molhada pareceu lavar o sangue da minha pele, deixando ele escorrer pelo chão, e levou com ele as memórias. Aos poucos, os gritos foram diminuindo, as ofensas cessaram, e aqueles olhares assustadoramente frios se escureceram, deixando meu mundo imerso numa escuridão silenciosa, onde tudo o que eu sentia era o toque frio das mãos de Ishin.
Ishin, a primeira, os primeiros passos sobre a terra, a primeira carne a sangrar, os primeiros olhos a enxergarem tão longe, tão longe quanto era possível. A primeira humana, chamada de Bruxa da Lua, ou Bruxa vermelha, a traidora, o pecado, a prostituta, a pureza, a inocência perdida... Lilith.
Notas finais
Abraço pra todo mundo, tudo de melhor, e comentem. Sempre comentem.
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