Kelpie - O Mal Vive Na Água
3 Vestes Negras e Vestes Brancas
Notas iniciais

Abatida e sem um pingo de fome, estava deitada na antiga cama de meu pai, a única cama da casa que eu caberia. Eu segurava o dente com força em minha mão, me lembrava do momento em que o perdi, o momento que o medo foi tão grande que o expulsei de minha boca. Dalton havia ligado para meu celular 3 vezes naquele dia, em nenhum momento sai de casa, pois estava apavorada com o que havia acontecido na tarde passada.
Foi quando alguém bateu na porta.
–N-Não entre!
–Okay, okay! – Era a voz de Dalton, mas eu estava com medo de estar sendo enganada, então corri para a cozinha e peguei uma faca de cortar carne crua.
Olhei pelo olho mágico e vi Dalton usando um péssimo casaco com seu pescoço completamente envolvido por um cachecol avermelhado.
–Me diga algo que só o Dalton sabe!
–Sarah... Você tá bem?
–Não me enrole... fale logo!
–Tudo bem! Hum... eu fiquei bêbado uma vez no campus e acabei estragando minha camisa, você me vestiu com uma das suas com desenho de urso panda e nós dois cantamos a Macarena até chegar na minha casa...
Era o Dalton.
–É mesmo você, — Abri a porta e corri para abraça-lo, seus braços me envolvendo e sua bochecha encostada na minha me faziam sentir protegida. – me desculpa.
Ele me olhou bem fundo nos olhos, procurava ver o que estava errado comigo. Colocou suas mãos em meu rosto e sorriu. Ele sempre fazia aquilo quando sabia que eu estava aflita, era como se mesmo sem frases ou nem mesmo uma única palavra ele me falasse: “Mantenha-se firme, sorria”.
–Vamos entrar, está frio pra caramba aqui fora, estava tudo alagado ontem.
–Ah, sim...
Entramos e ele finalmente pode tirar aqueles trajes de breshop. Eu tranquei a porta atrás dele imediatamente, o que o deixou bem receoso, mas ele não entendia e estava na hora de entender o erro que eu havia cometido ao voltar. O Kelpie não esquece, nunca.
–Sarah, você tá me assustando. – Ele se sentou na antiga poltrona de couro de meu pai enquanto olhava para a faca em minhas mãos.
–Não sentei ai... por favor...
–Ah...! – Ele olhou para a o acento enquanto se levantava e foi para o sofá. – Perdão...
Eu não queria guardar a faca, apenas a coloquei sobre o móvel da TV, eu me sentei ao lado de Dalton em seguida. Não sabia por onde começar, eu poderia assusta-lo mais do que eu já estava ou pior, poderia fazê-lo achar que eu estava escapando de “meu tratamento”.
Sim. Um tratamento que eu fazia desde os 19 anos, que se resumia apenas a dois comprimidos de antidepressivos por dia até que meus “pesadelos” e “alucinações” sumissem. Eu até que gostava de meus antidepressivos, eles me mantinham concentrada nas aulas, acho que eu não estaria formada em história se não fosse por eles.
–Tenho algo muito, mas muito importante mesmo pra falar.
Seus olhos se arregalaram e ele se aproximou para escutar, sua pela pálida estava gerando bochechas e orelhas vermelhas.
–S-Sim claro.
–É sobre o acidente do meu pai... – Não sei dizer se ele ficou decepcionado em ver que se tratava daquilo, ou apenas percebeu que se tratava de algo mais diferente. Mas como Dalton era uma boa pessoa, com certeza não desprezaria os sentimentos das outras em relação a passado, presente e nem seus desejos para futuro.
–Ah, pode desabafar.
–Ele não se afogou caindo de um barco, eu menti pra você no dia da festa da fogueira.
–Então... ele tá vivo e tentou invadir a casa? Por isso a faca?
–Não cara! – Bati em sua nuca.
–Ai, ai, então o que ouve. Você está suando frio e seu rosto parece com o de um fantasma... por que está com tanto medo?
–Disso aqui, — Peguei o livro do Kelpie que estava no chão e o entreguei para Dalton. – leia e depois eu te explico.
Dalton demorou cerca de 5 minutos para ler o minúsculo livro infantil. Uma vez que o que faz o leitor ficar atento era as imagens tenebrosas.
–Então... seu pai era Ferdinad Coper?
–Dalton, você nasceu estupido ou está se fingindo?
–É que eu não quero acreditar que você acredita nisso.
Eu me levantei e coloquei minhas mãos sobre seus ombros, queria coloca-las em seu pescoço, mas precisava manter a calma naquele momento. Aquele animal arruinou metade da minha vida, é claro que vivi ótimos anos de faculdade ao lado de Dalton e alguns colegas, mas minha infância e adolescência foram como uma área obscura.
–Você não sabe o que eu vi na floresta no dia que meu pai morreu. Dalton, — Eu sentia as lágrimas chegando, mas eu as segurei. – você não faz ideia do que é ficar parada diante do próprio mal e depois esperar imóvel diante do rio em que o seu pai se afogou, aguardando, rezando para que ele saísse ferido, porem vivo lá de dentro... Dalton... você não... – Eu enrolei meus braços em seu pescoço e o abracei.
Eu podia sentir sua mão em minhas costas, afagando, dando pequenas batidas. Em seguida ele afastou um pouco meu rosto de seu ombro e juntou nossos lábios pela primeira vez, me pegou de surpresa, eu esperava dar o primeiro passo, mas na minha vida eu parecia estar sempre correndo atrás de outra coisa...
–Não vou deixar ninguém machucar você, você é minha melhor amiga e muito mais, eu amo muito você. Eu não me importo se existe um Kelpie ou se não existe, se alguém que você teme tentar ir até você, vai ter que passar por mim e pela sua faca, que é pior ainda! – Ele gargalhou. Aquilo fez um sorriso surgir em meu rosto.
–Obrigado, isso já é alguma coisa... e... obrigado pela “outra coisa”, eu estava esperando por aquilo já faz um tempo também...
–Oh, não tem de que. – Seu rosto transformou-se, ficando vermelho novamente.
–-//--//--
Dalton decidiu passar o dia em minha casa enquanto eu planejava o que fazer, afinal o Kelpie estava atrás de mim, eu só não imaginava que ele chegaria ao ponto de se transformar em humano. E quanto mais perto da noite ficava, mais a neblina se transformava em chuva grossa, o frio se tronou insuportável dentro de casa.
–Eu não aguento mais, vou aumentar a potencia do aquecedor.
–Nosso aquecedor está no máximo...
–O que?! – Dalton estava ao meu lado na mesa da cozinha, estávamos comendo espaguete.
–Sinto muito...
–Você tem lareira em algum cômodo?
–Ah, tem no quarto do meu pai.
Silêncio absoluto se fez naquele momento, ele queria me perguntar se poderia ficar lá, ou pelo menos entrar, mas achava que estaria me incomodando.
–Então... deixa pra lá.
–Não, você pode ficar lá sem problemas. – Eu lhe dei um doce sorriso.
–Obrigado.
Quando terminamos de comer, eu disse que ficaria com a louça, mesmo ele insistindo em me ajudar. Mas eu era anfitriã e não passaria por vergonhas, então ele foi para o quarto ligar a lareira, cujo cheiro de madeira queimada até me tranquilizava, aquela lareira trazia boas e velhas lembranças de meu pai.
–Que temporal horrível... – Eu olhava pela janela que ficava na frente da pia.
As ruas estavam sumindo embaixo d’água, o que era muito difícil, pois geralmente as ruas que inundavam eram as de terra. Foi quando escutei um barulho vindo da frente da casa. Era altíssimo com se uma moto a tivesse atropelado.
Eu me virei para olhar e me deparei com a porta escancarada e a água invadindo a casa.
–Droga... – Olhei pelo arco da cozinha e vi que a faca ainda estava no móvel da TV.
A água poderia ter uns 8 cm de profundidade por toda a sala e já estava chegando na cozinha.
–Dalton! Dalton!
–Estou indo! – Dalton correu até a sala com a água acima de seus tornozelos.
Eu subi em uma das bancada e fiquei agachada sobre ela e segurando meus joelhos, trovões e relâmpagos do temporal estavam apenas piorando tudo. Dalton tentou vir até mim, mas algo o fez parar, uma sombra dentro da pequena piscina.
–Não olhe! Fuja! – Eu gritei.
Mas a sombra se levantou de dentro d’água, um rapaz esbelto de seus 26 ou 25 anos, o mesmo que eu havia visto perto da bike, ele tinha uma pele esverdeada com mãos grandes e unhas enormes e negras, seu rosto era detalhado como uma escultura romana e tinha cabelos prateados misturados com pretos. Seus olhos possuíam uma cor cinza profunda e vazia, ele olhava fixamente para meus olhos. Eu não conseguia mais falar, estava petrificada de medo.
–É barulhenta, mas sempre te silencia em minha presença.
–Fique longe dela seu...! – Antes de Dalton terminar de falar e partir para cima dele, o rapaz agarrou seu pescoço, levantando-o do chão e o jogando na sala, onde bateu suas costas na poltrona que virou.
Voltando-se para mim novamente, ele puxou meus braços de maneira que eu descesse da bancada, seu rosto se aproximou e seus olhos estavam frente a frente aos meus, de forma que o fez sussurrar.
–Será minha noiva, exalas uma beleza em diferentes graus dos quais não encontrei em era alguma...
Ainda segurando meus braços ele começou a afundar na água que entrava na cozinha, me levando a me agachar até ficar de joelhos.
–Por favor, me deixe em paz... – Eu não pude evitar em chorar, estava com tanto medo.
–Não adianta chorar. — Ele aproximou sua boca de meu pescoço e sua língua o lambeu até minha orelha. — Deixarás a terra para pertencer à água, ou farei com que não pertença mais aos vivos!
Sua voz começou a se tornar mais parecida com a vez na floresta, eu já estava quase desistindo e me imaginando excruciando embaixo d’água e morrendo. Quando de repente a faca é lançada no Kelpie, acertando um dos braços do ser e fazendo que gritasse de dor, um grito horrendo como o de uma besta, libertando-me.
Dalton apareceu na cozinha segurando seu ombro, estava deslocado pela força que a criatura o jogou no móvel.
–Vamos, Sarah! – Ele gritou e eu me levantei e tentei correr.
–Não! – O Kelpie agarrou meu pé, puxando-me para ele.
–Sarah!
–Me solta! Me solta...!
Ele afundava e afundava, não importava o quanto Dalton puxava seus cabelos e o socava, era como se já fosse tarde demais. Logo seus ombros sumiram e seu pescoço também, apenas seu rosto se mantinha a me olhar profundamente, Dalton abraçou minha cintura com seu braço bom e me puxava para trás com tudo o que havia sobrado de suas forças.
–Sarah Owen?! – Alguém chamou por meu nome, eu conhecia aquela voz.
–Alguém nos ajude, por favor! – Dalton tentava não deslizar da lama, pois era o fato de ele estar me puxando que fazia com que eu afundasse devagar.
Pelo arco da cozinha apareceu Ferdinand Coper, segurando em uma de suas mãos algo envolta de um pano, algo que emitia luz, e sua outra mão segurava um balde de ferro pela alça.
–Solte-a agora mesmo, demônio das águas! Sem isto ela não pode ser sua noiva, não é?! – Colocou o balde sobre a bancada enquanto o Kelpie o olhava enfurecido. Tirou do pano uma esfera vermelha que possuía algo brilhante dentro dela, era do tamanho de uma pérola.
Os olhos do Kelpie se encheram de luz ao ver a esfera e logo começou a se erguer da água, estava pronto para avançar no Sr. Coper, mas quando se inclinou para saltar, o velho senhor fechou sua mão em um punho, protegendo a esfera e então socou o balde que derramou um pó branco sobre o Kelpie.
A criatura lançou um grito de dor excruciante enquanto sua pele queimava e sua forma humana começava a adquirir a forma de um cavalo, a água começou a secar e ao se tornar a criatura negra de quatro patas que normalmente era, o Kelpie cavalgou para fora da casa, levando a tempestade com ele.
–-//--//--
Eu e Sr. Coper levamos Dalton para o hospital, não sabíamos quem estava mais em choque, eu ou ele, mas pelo menos ele falava com as pessoas, eu apenas descansava meus olhos enquanto a enfermeira olhava melhor os machucados que ganhei em meu joelho.
–Você fez uma baita abertura no seu joelho esquerdo... faz esporte? Por que isso não é um corte, geralmente acontece por uma pressão no joelho. Como impacto.
Eu me mantive em silencio, o que eu diria? Uma criatura aquática estava me puxando para as profundezas de não-sei-aonde e eu fiz o maior esforço de toda a minha vida para não deixa-la me sequestrar. Foi assim que rasguei meu joelho enquanto estava abaixada na direção do afogamento. Fim.
–Não quer responder... está certo então... mas vou logo avisando, vamos ter que limpar isso melhor e fazer uns pontinhos.
Abri meus olhos e olhei para o teto, um silêncio mortal permanecia na ala de primeiros socorros do hospital, uma vez que as enfermeiras saíram por alguns instantes. Eu podia sentir Dalton e o Sr. Coper me observando, mas eles não sabiam exatamente o que me dizer.
–Menina. – A voz do velho senhor que vivia no alto da colina. – Sei que está com medo... também ficamos com muito medo naquele momento. Mas agora está tudo bem.
–Eu e você sabemos que não está tudo bem, Ferdinand. – Eu apenas murmurei.
Olhei para ele, um pequeno sorriso em meu rosto.
–Sim... Sinto muito. – Desanimado, abaixou sua cabeça enquanto passava a mão em sua testa.
–O que era aquilo que você jogou nele? Salvou minha vida por um momento.
–Era sal e pó de mármore.
Dalton exibiu uma expressão de estranheza, não fazia ideia do que isso significava para o Kelpie, mas era bem simples de se explicar.
–E por que isso fez mal a ele? – Perguntou Dalton.
–O Kelpie pode adquirir muitas formas verdadeiras. Sem ilusões. Como uma forma de cavalo negro, homem ou monstro, que é sua forma original. Mas para sobreviver fora d’água na forma de humano ou de cavalo o Klepie precisa manter uma ligação com a água, por isso sempre é visto em dias úmidos ou em cheias de rios. – Ferdinand Coper poderia ser chamado de especialista.
–Para ser mais direta com você, fora d’água ele é como um sapo, se ressecar está ferrado, por isso o sal e pó de mármore.
–E a pérola? Aquela esfera brilhante? Para que serve, o Ferdinand disse que ele não poderia... – Ele hesitou em ter de recorrer à palavra “noiva”, todos naquela sala estavam chocados com os motivos do ataque do Kelpie. – ...levar você embora sem ela.
Enquanto ainda estava na faculdade e gastava noites pesquisando sobre os mitos celtas e a história dos Kelpies, encontrei em um site que continha imagens e páginas escaneadas de livros e pergaminhos velhos. Havia histórias e contos sobre pessoas que cruzaram o caminho dos Kelpies, dentre elas a história das noivas. Humanas sequestradas para se casarem com os Kelpies, mas que misteriosamente conseguiam sobreviver dentro d’água. A esfera vermelha tinha alguma ligação com isso, eu podia sentir.
–Ferdinand... Sabe alguma coisa?
Ele me olhou, aproximou-se de mim e se sentou na cadeira ao meu lado. A aura envolta dele era sempre fúnebre, como se ele fosse um coveiro ou um legista, sempre carregando um fardo terrível, ou um segredo.
–Sem a pérola vermelha, você não conseguirá respirar embaixo d’água...
–Eu sabia, tinha que ter uma ligação com... – Novamente a vontade de chorar me consumiu, eu não podia acreditar no que estava acontecendo.
–Espere, eu não terminei. – Ele colocou sua mão sobre meu ombro e me olhou de maneira triste, naquele instante eu soube que o pior estava por vir. – Sem ela, você não poderá ter os filhotes do Kelpie e se tiver um será muito difícil de abandona-lo, pois eles sempre nascem perfeitos, sempre parecidos com você, mas perfeitos. Se conseguir abandona-los poderá escapar um dia, mas os filhotes serão mortos... você... não viveria em paz com isso...
Naquele instante eu pensei em chorar sem fim, mas algo maior me prendeu ao meu consciente, o fardo horrível que Ferdinand Coper carregava.
–Samuel não era seu filho...
–Era meu filho de coração... Ele estava nos braços de minha esposa quando a vi na beira da estrada de terra, estavam imundos de lama. Ela nunca nos disse nada, morreu um ano depois que nos casamos, ela cometeu suicídio por conta dos terríveis pesadelos que tinha todos os dias...
–Ferdinand...
–É claro que eu fui descobrindo as coisas aos poucos, mas eu não dividia todas as informações com Samuel... ele não suportaria saber que era... uma daquelas coisas.
–O Kelpie matou Samuel por ódio.
–Sim. – As lágrimas desceram por seu rosto.
Eu apertei sua mão, ele era apenas um senhor que estava só e que por minha causa estava revivendo seu pior pesadelo, estava revendo seu pior inimigo. Eu queria vingar o Sr. Coper e sua esposa, eu queria vingar meu pai, eu queria me vingar.
Se era uma noiva que o Kelpie queria, era uma noiva que era teria.
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