Nem de longe poderia haver um anoitecer mais belo do que eu vi naquele dia, ironicamente, uma vez que eu o observava refletido nas águas do rio em que meu pai havia se afogado. Eu vesti o velho e empoeirado vestido de noiva da esposa do Sr. Coper, que solidariamente me emprestou para a execução de nosso plano, e me sentei à beira do rio. Eu estava exatamente no mesmo lugar que o fantasma da minha antiga eu, a pequena Sarah, ainda estava parada de pé olhando fixamente para a água.

Planos são belos num papel, suaves na teoria, mas imprevisíveis na prática. Eu estava dentro de um círculo de sal e pó de mármore (mesmo material que praticamente cobri o vestido), apenas esperando com a bela esfera vermelha em minha mão e torcendo para que Dalton não fizesse mais do que lhe fora pedido. Eu era a isca, Dalton era o observador que daria o sinal para que nosso atirador, Sr. Coper, desse um fim naquela criatura. Como? Nosso consagrado escritor e especialista sênior em Kelpies possuía um pergaminho que comprou de um escavador, gastando tudo o que tinha, mas era algo que poderia valer ouro para nós. No dialeto Scott antigo, estava escrita a historia de um pescador que com uma lança fez um buraco no peito do Kelpie e enquanto a criatura tentava afoga-lo este enfiou uma pedra de sal em sua ferida, causando assim sua morte. A pele do Kelpie pode protegê-lo um pouco do sal, mas por dentro não há como ele escapar.

Chegando a conclusão do plano: Uma espingarda + Balas de sal = Um plano.

–Mantenha-se calma... – Eu respirava profundamente, o frio estava contra mim e o sol estava sumindo, eu estava longe de meus amigos. – Vai dar certo... Vai dar certo...

O silêncio era mortificante, apenas as rãs e os grilos ousavam tocar sua sinfonia natural, enquanto em algum lugar mais acima na floresta estava Dalton, com seu binóculo e seu ombro imobilizado. Se algo desse errado, apenas o Sr. Coper poderia me socorrer, ele estava mais perto... e armado.

Então a esfera se tornou quente, como se seu interior estivesse agitado, sentia algo de diferente no ar. Não nele em si... algo que não havia reparado quando criança, mas que a repetição comprovou. O silêncio repentino. Nenhum grilo, nenhuma rã, a água estava tão parada que o rio parecia uma lagoa.

Eu estava com o isqueiro do Sr. Coper perto de mim, assim que o acendi o brilho de sua chama revelou dois olhos que brilhavam para mim no meio do rio.

–T-Tem alguém ai...?!

–Sim. – Sua voz estava exatamente como eu me lembrava da primeira vez que nos encontramos. Como uma maquina enferrujada e grossa.

Ele se aproximava enquanto seu corpo emergia, vagarosamente transformando a imagem tenebrosa do monstro marinho no rapaz de cabelos negros e prateados. A 5 passos da água, eu não me sentia muito segura, mas ele hesitou em se aproximar.

–Você está coberta de sal... – Depois de se transformar em rapaz, sua voz era suave, firme.

–Sim!

Ele olhava para mim como se eu fosse uma tartaruga que estava de casco virado.

–Você é uma tola, minha bela noiva.

Ele abriu seus braços como se estivesse pronto para receber um abraço, seus dedos pareciam leves como os de um pianista. Foi então que com um único movimento, fechando suas mãos em um punho, a água do rio se transformou em uma onda que era comandada por ele, alagando por completa a área onde estávamos. Era como um pesadelo, estar se afogando sem conseguir sair do lugar, pois a água a minha volta empurrava qualquer coisa menos eu. Apertei a esfera com força e mais força em minhas mãos, que queimavam, até sentir algo me envolver.

A água começou a baixar, eu não conseguia mais sentir a esfera em minhas mãos, então quando recobrei o sentido de gravidade percebi que algo me esmagava, me abraçava contra o chão. Abri meus olhos e me deparei com o olhar cinzento que estava me encarando bem próximo ao meu rosto.

–Este é apenas o nosso começo... – O Kelpie sussurrou em meu ouvido.

Debruçado sobre mim, segurou meus braços contra o chão. Um arrepio percorreu minha espinha... me perguntava como um plano poderia dar tão errado... como pude ser tão tola em me expor tanto se a maior lei da sobrevivência é evitar? O Kelpie se aproximou até que seus lábios gelados quase tocassem os meus, mas um barulho chamou nossa atenção. Uma arma sendo recarregada.

–Esse é o fim. – Ferdinand Coper estava com a espingarda apontada para nós.

O Kelpie tentou desviar, mas ao se levantar do chão o tiro foi diretamente em seu peito. Causando uma reação bastante diferente da vez que lhe jogaram o balde de sal e pó de mármore, ele não gritou... não fez nem mesmo um piu. A força do tiro lhe lançou um pouco para longe, mas ele ainda tinha um pouco de força para ficar de joelhos. Ainda estava em sua forma humana.

–Conseguimos...! — Eu corri até o Sr. Coper e me coloquei atrás dele.

–Não, ainda não. Ele está ciente.

Nos aproximamos devagar, a arma ainda apontada para ele, mas havia algo de errado. Sua pele parecia feita de escamas que caiam dando origem a uma nova pele.

–Finalmente... livre...– Sua voz era diferente. Algo estava mudando nele.

Coper se aproximou agressivamente dele, eu o puxava para trás, mas novamente acabei sendo puxada pela pessoa que eu tentava impedir.

–Sr. Coper...

Então o Kelpie estendeu sua mão segurou no tecido da camisa do senhor armado, seu rosto se contorcia, como se estivesse prestes a derreter.

Como uma mascara que parecia estar se quebrando.

Os cabelos se tornaram dourados como sol, os olhos se tornaram doces e o rosto que antes parecia tão bem moldado, se tornou amaciado. Não era uma ilusão, pois eu podia ver através da ilusão do Kelpie... Sr. Coper havia atirado em Samuel.

–Sam...? – Ele soltou a arma, deixando-a cair numa poça. Estava chocado, todos estávamos. Quanto mais morria mais voltava a sua aparência original.

Samuel morreu nos braços de Ferdinand Coper, ele estava exatamente igual à última vez que seu pai o viu.

Novamente o silêncio mortificante revelou outro barulho vindo da água. Virando meu rosto vagarosamente, presenciei outro cavalo negro saindo do rio, ele se aproximava de nós se um barulho se quer. Quando alcançou o lugar onde estávamos ajoelhados, onde eu e Coper apoiávamos o corpo de Samuel, eu podia sentir a respiração daquele ser sobre minha cabeça.

–A vingança é doce, não? – Disse o cavalo negro. – Podemos esperar tanto... tanto tempo por ela... e pode ser feita dos mais engenhosos modos.

Aquelas palavras foram frias em muitos sentidos e ângulos. Eu virei meu rosto de volta para Coper que estava chorando, ele apertou o corpo de Samuel mais forte contra si. Eu não queria olha para aquela criatura, eu não conseguia colocar em minha cabeça o por que daquele ato de maldade. O outro Kelpie não havia matado Samuel, pois seu maior ato de vingança contra Coper seria velo matar seu próprio filho, ele esperou por mais de uma década.

O outro Kelpie virou-se de costas e começou a caminhar na direção do rio. Eu não controlei minha ira, segurei a espingarda e mirei na direção dele. Seus olhos se encontraram com os meus e eu pude escuta-lo dando um pequeno suspiro.

–Você deveria estar mais preocupada com a pérola do que com uma espingarda de pólvora molhada.

Eu tentei disparar, mas ele estava certo. Na verdade ele estava certo sobre as duas coisas, eu não encontrava a pérola.

–Onde ela está?

–Já está dentro de você, desde o segundo que entrou em contato com a água.

Eu podia sentir algo quente em meu ventre, eu estava com medo.

–“Esse é apenas o nosso começo”.

–Adeus, minha nora.

Ele mergulhou dentro das águas e sumiu na escuridão. Eu me virei para Coper, ainda no transe de seu luto, abraçado ao seu filho. Ele era um homem que estava quebrado, não havia concerto para o que havíamos feito, era tudo culpa minha, ao mesmo tempo que era tudo culpa daquele ser. Eu nunca deveria ter me aproximado daquele homem, eu apenas o trouxe mais sofrimento, eu não podia ajuda-lo.

–Adeus, Sr. Coper.

Eu caminhei até a floresta, olhando de instante em instante para trás, para a imagem de La Pietà que desaparecia cada vez mais entre as árvores. Alguém estava vindo à minha direção, Dalton estava sem ar e assustado. Ele viu tudo.

–Sarah...

–Vamos embora.

–Mas...

–Vamos embora! – Eu não pude segurar minhas lágrimas. Ele me abraçou antes que eu caísse de joelhos no chão. Eu queria poder sumir e levar comigo todos os meus erros.

–Vai ficar tudo bem, eu sei que vai.

–-//--//--

Londres, deveria ser o último dia de inverno, eu esperava. O sol era radiante mais o ar ainda estava muito frio. Eu estava corrigindo as provas de meus alunos na mesa de jantar, Dalton estava em seu consultório e provavelmente só voltaria de noite.

–O que significa “Aurora”? – Caroline me perguntou. Havia completado 8 anos recentemente e Sr. Coper, que era seu padrinho, a mandou um exemplar bem antigo de “O Gato de Botas”.

–Significa amanhecer, meu amor.

–Hum...

Ela continuou a ler, eu gostava de lhe observar lendo, ela era igualzinha a mim. Como uma cópia autenticada, seus lindos cabelos com certeza superavam os meus e a pequena mecha prateada atrás de sua orelha estava sempre escondida entre as ondulações do resto do cabelo. Mas havia algo de estranho com ela naquele dia, estava muito cansada, diferente da animação natural que ela possuía.

–Está se sentindo bem?

–Mais ou menos...

–Caroline, já tomou banho?

–Mamãe!

Eu me levantei e fui até ela, me sentei ao seu lado no sofá.

–Eu sei que está frio e que o papai pegou toda a água quente, mas você precisa de 4 banhos por dia.

–Certo... – Ela bufou. Ela olhou para mim com uma cara pidona. – Então, você canta pra mim no banho?

–Seu desejo é uma ordem.

Nós caminhamos até o banheiro e eu tirei sua roupa gentilmente enquanto a banheira enchia de água. Não era preciso shampoo para seu segundo banho, nem sabão. Ela só precisava mergulhar e ficar ali por pelo menos 15 minutos. Eu estava sempre ao seu lado, para que ela ficasse mais confortável. Ao entrar na banheira fez uma enorme careta por conta do frio. Mas ela precisava se acostumar com aquilo.

–Mamãe?

–Sim.

–Por que eu fico melhor depois de tomar banho?

–Por que está em fase de crescimento...

–Você sempre sabe de tudo, é a pessoa mais inteligente do mundo!

–Sua bajuladora. – Eu beijei sua testa. Ela estava com febre, mas logo iria passar.

–Canta.

Me debrucei sobre a borda da banheira, seus olhos cinzas me encaravam enquanto ela se acomodava, deitada com apenas seu rosto para fora d’água.

–Galine galine, galine, galo...

Ela fechou seus olhos enquanto sorria.

–Galo, galo... Mon petit bébé.

Seu rosto afundava vagarosamente na água.

–Galo, galo... tu vas dormir...

Uma gota d’água cai na imensidão da banheira. Eu não percebi minha lágrima descer.

–Galine, galine, galine, galo...

Eu queria poder dizer para ela, quem sabe quando ela for mais velha. Eu queria dizer para ela que um dia, banhos não seriam mais o suficiente.

Notas finais
Para quem gostaria de saber a imagem que eu tinha na minha cabeça do Kelpie em forma humana: http://vegarblack.deviantart.com/ a arte desse(a) desenhista me conquistou.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!