Kelpie - O Mal Vive Na Água
1 É Só Um Livro

Certo dia meu pai me levou a biblioteca de nosso município, mesmo sendo muito pequena ainda possuía uma variedade de livros antigos que contavam os mais extraordinários contos de fada que se podia imaginar. Com 7 anos meu favorito era “O Conto da Bruxa Baba Yaga”, que falava de uma criança que com a ajuda de um gato escapou das garras de uma bruxa terrivelmente persistente.
Mas não foi aquele conto que fez a diferença em minha vida. Tudo começou com uma garota chamada Dorothy.
—Desculpe, mas a pequena Dorothy alugou este livro ontem à tarde. Se você precisa muito dele, posso te fazer uma reserva e ligar pra ela, dizendo que ela não demore muito para devolver...
Meu pai franziu sua testa, pois ele me conhecia bem. Naquela época eu era uma menina orgulhosa e muito mimada, por culpa dele é claro.
—Por que você não liga pra ela devolver amanhã? – Eu estava chateada, pois era meu livro favorito e mesmo que eu já o tivesse lido mil vezes, meu orgulho queria tê-lo na hora que bem entendesse.
A jovem atendente queria poder fazer minha vontade, muitos naquela cidade não me recusavam coisas por eu ser um modelo mais jovem e aprimorado de minha mãe. Uma gracinha, um docinho fofo, com cabelos ruivos bem claros e bochechas tão avermelhadas quanto meus cabelos. Eu possuía os mesmos olhos acinzentados de meu pai, o que me tornava, como minha finada avó sempre dizia, “um anjo na terra”.
—Sinto muito mesmo, Sarah.
—Isso não é justo... Eu nunca ouvi falar dessa Dorothy!
—Ela é nova aqui em Heirland.
Heirland era o pequeno distrito na Escócia, onde eu e meu pai morávamos desde meu nascimento. Era uma terra alagada pelo mar e por uma enorme quantidade de riachos que se enchiam durante a noite e transformavam aquele lugar em uma ilha por até 6 horas. Sua praia era mais chamada de pântano do que de praia. Os pescadores apenas trabalhavam no mar, pois acreditavam que pescar nos rios dava azar.
—Não gostei dela.
—Ela não precisa que você goste dela. – Meu pai disse, adorava me irritar mais do que eu já estava. – Afinal, ela deve estar bem tranquila sem nem saber da sua existência, lendo o livro da bruxa Boba Yoga numa cama quentinha.
—É Baba Yaga!
—Tanto faz, escolha outro para que EU volte pra minha cama quentinha.
—Tá...
Eu queria poder alugar um livro de física quântica só para castiga-lo, fazendo com que ele lesse o livro todo para mim antes de dormir. Mas eu mesma odiaria cada segundo, então apenas vaguei pelas prateleiras de livros infanto-juvenis até que um livro azul marinho com a imagem de um magnífico cavalo negro na capa me fez parar de andar. “Kelpie”. No começo pensei em não levar, pois era um tanto pequeno demais, mas logo em seguida pensei que matar minha curiosidade era o importante. Agarrei o livro e corri para o balcão.
—E então, vai ser esse ai? – Meu pai coçava sua cabeça de maneira impaciente, seus cabelos castanhos eram saldáveis de certa maneira que ainda não existia nenhum fio branco.
—Sim! Sim! – Minha voz soava estranha, pois um de meus dentes estava mole, na verdade prestes a cair. Mas na época eu possuía um grande pavor de puxar e sentir muita dor.
—Ótimo. – Ele pagou a taxa de aluguel para a atendente, segurou minha mão e saímos de lá.
—-//--//--
Eu estava deitada em seu colo e ele estava com braços envoltos de mim enquanto segurava o livro velho. Sua voz era suave e faria de qualquer história chata um conto emocionante, como também tinha a habilidade de reconhecer um livro bom a 10 quilômetros de distancia.
—“Cuidado você jovem aventureiro, com os rios profundos a inundar. Onde os cavalos brincam e mergulham sem voltar.” – Ele virou a primeira página que mostrava colinas parecidas com as de Heirland, que até hoje estão intactas. – “Não perturbe o guardião das águas negras, que assusta os pescadores e destrói as represas. Depende de você, ele pode ser feio ou pode ser belo. Lembre-se sempre de ser singelo”.
—Quem é?
—Precisa ter calma, o livro ainda está no começo.
—Continua! Continua! – Virei a página para ele, a nova mostrava um o cavalo negro na capa, porem muito mais detalhado.
—“Seu pelo macio e brilhante, seu andar lento e elegante. O Kelpie é um disfarce perfeito, uma vez que captura a admiração de alguém, não, não tem jeito”. – Ele parou.
—O que foi, papai?
—Eu já tive um cavalo antes...
—Sério? Como ele era?
—Era negro assim mesmo. Lindo ele, mas meu pai vendeu. – Seus olhos eram tristes.
Coloquei minha mão em sua bochecha e lhe fiz carinho.
—Por que ele fez isso?
—Alguns pais fazem besteira... o meu gostava muito de whisky, mas isso não importa mais.
Ele se manteve em silêncio, em meu coração eu sentia que precisava dizer algo, pois desde a morte de minha mãe, aquele homem era tudo o que eu tinha.
—Eu gosto de você, papai. Você nunca vendeu nada meu... e você é engraçado as vezes. – Me estiquei para beijar seu rosto com barba mal feita.
Seus olhos ficaram brilhantes por um tempo, ele os esfregou enquanto ria e beijava minhas bochechas. Eu amava meu pai.
—Vamos continuar, certo? – Disse virando a pagina.
—Certo!
—“O Kelpie pode se parecer um cavalo normal, mas você precisa ter cuidado com este mítico animal. Se o Kelpie lhe convidar, na água você não deve entrar”.
—Papai... acho melhor não irmos pegar rãs amanhã...
—Por quê? Está com medo do Kelpie? – Ele riu.
Eu e meu pai costumávamos caçar rãs a manhã de domingo toda, depois a soltávamos de qualquer jeito, era só para nos divertirmos nos riachos.
—N-Não!
—Então posso continuar...? Estou curioso. – Meu pai de fato conhecia um bom livro de longe.
—Tá legal...
—“O pelo começa a cair, seus cascos começam a sumir. Um concelho de amigo, melhor fugir”. E finalmente a última página. – Ele virou a folha, que mostrava um animal horrendo que apenas parecia um cavalo. Mas que tudo indicava para que fosse um monstro demoníaco. – “O Kelpie é antigo e inteligente, ele brinca com sua mente. Mesmo que você escape, ele poderá esperar por 10 anos, 30 anos e até mais de 50 anos assim. Você deve desconfiar jovem aventureiro, pois este ainda não será o fim”.
—Eu não vou nunca mais pegar rãs!
—Filha... é só um livro. – Ele me abraçou com força. Colocou o livro sobre minha mesa de desenhos e se levantou. – Não existe Kelpie, se não todos nessa cidade já estariam embaixo da lama dos rios.
—Mas quase ninguém vai para os riachos, por isso os pescadores dizem que ir pra lá dá azar!
—Porque o Kelpie não gosta deles?
—É!
Ele revirou os olhos, já eram 20:00 PM e era hora de dormir para mim. Meu pai colocou o cobertor sobre mim e beijou minha testa, mas eu sabia que aquilo não seria o suficiente para me fazer dormir. Mal eu sabia que ter pegado aquele livro seria o maior erro de minha vida.
—-//--//--
Na beira do rio, observava meu pai usando seu macacão velho abaixado tentando achar uma rã no meio de toda aquela lama. Estávamos perto do mar, as árvores tornavam aquele lugar escuro e úmido constantemente, mas não era uma umidade comum, era fria e causava uma névoa aterrorizante.
—Papai... – Eu estiquei aquela palavra na tentativa de chamar sua atenção.
—Está tendo uma cheia, as rãs não vão vir hoje...
—Então vamos pra casa!
Ele se virou para mim, ele não estava nem perto do meio do rio e a água já estava em suas coxas, as cheias aconteciam quando o mar estava agitado. Foi quando ele tropeçou e seu corpo mergulhou por completo na água, aquilo afligiu meu coração, eu poderia ter colocado ele para fora pela boca naquele momento.
—Papai! Papai! – Corri até a beira do rio.
Ele retornou a superfície com um enorme sorriso em seu rosto.
—Eu caí, mas achei uma! – Ele sacudia sua mão com uma rã gorda presa.
—Idiota!
—Não me chame de idiota, sou seu pai!
Ele começou a sair do rio, quando chegou até a margem onde eu estava parou com o olhar fixo em algo que estava atrás de mim.
—O que foi? – Eu me virei para olhar.
Pensei que o que estava vendo era provavelmente mentira.
Era o mais belo cavalo que eu já tinha visto. Tinha pelos negros que brilhavam como se fossem de metal. Eu me estremeci, não conseguia sair do lugar, apenas olhava para ele enquanto ele olhava para nós.
—Dyno.
—Papai... vamos embora... – Eu sabia que havia algo de errado com aquele cavalo.
—É meu cavalo, o que o meu pai vendeu... é o Dyno.
Meu pai começou a se aproximar, eu puxava as mangas de sua camisa, mas era como se eu não estivesse ali. Ele sorria para o cavalo como se fosse correr para abraça-lo.
—Não é o Dyno!
—É sim... tem a mesma cicatriz que meu pai deixou nele, tem a mesmas manchas brancas no pé.
O animal não possuía nenhuma daquelas características, eu não estava louca, nem pirando com a história. Quando o cavalo começou a andar e se aproximou de nós, meu pai soltou a rã no chão e colocou sua mão sobre sua clina, afagando seus cabelos.
—Dyno... eu devia ter juntado dinheiro e ter comprado você de volta...
Gritei desesperadamente, o que fez com que os olhos do animal se voltassem para mim. Vazios como dois buracos negros, era o momento mais assustador de minha vida, minha voz sumiu e eu soltei o braço de meu pai.
—Baru...lhenta...
Meu coração parecia ter parado ao escuta-lo, sua voz era a mistura da de um homem com uma besta, porem compreensível.
Meu pai olhou espantado para a criatura, mas já era tarde demais, pois o que no início era só um cavalo a beira do rio se tornou um pesadelo. Abriu sua boca cheia de dentes e agarrou o ombro de meu pai, ferindo-o e mantendo-o preso sem conseguir reagir, tudo o que podia fazer era gritar e socar o rosto do animal na tentativa de escapar.
—Sarah...! Sai daqui! – Foi a última coisa que escutei meu pai dizer.
Eu não podia me mover, havia tanto sangue e eu estava tão tensa que minha mandíbula que pressionava meu dente mole, praticamente o expulsou de minha boca. A criatura começou a arrastar meu pai para perto do meio do rio, enquanto seus pelos grudavam em sua pele e aos poucos se tornavam um couro escamoso.
Eu continuei imóvel até que já no meio do rio, com meu pai afundado até os ombros em água e lama, a criatura transformou suas patas traseiras em uma enorme cauda negra e afundou no rio levando meu pai consigo. Eu continuei ali por 3 horas, 5 horas e então 7 horas até que nossa vizinha, que havia marcado um piquenique no fim da tarde do qual fomos convidados, deu falta de nós e achou estranho que ainda não tínhamos chegado. Numa cidade pequena onde todos se conhecem e sabem dos hábitos um dos outros, seu marido que era amigo de meu pai foi atrás de nós perto do rio, pois ele sabia que sempre caçávamos rãs. Ao me encontrar na beira do rio completamente imóvel, ele se aproximou correndo.
—Sarah, tudo bem? Onde está seu pai?
—...Era só um livro...
—O que?
—...Era só... um livro...
Eu repeti aquilo para mim mesma por horas. Mesmo quando parei de repetir aquela frase e comecei a repetir o que eu tinha visto ninguém acreditou... ninguém escutou...
Mas como o próprio livro azulado que estava sobre minha mesa de desenhos me alertara. Este ainda não era o fim.
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