Kelpie - O Mal Vive Na Água
2 "Na água você não deve entrar"

Era o meu último dia na faculdade. Tantos anos haviam se passado depois do incidente com meu pai que, para mim, já estava começando a parecer apenas uma memória traumática que minha mente infantil havia criado por envolver o livro com o “afogamento” de meu pai. Porem eu nunca fui de acreditar nas outras pessoas e nem de acreditar muito em mim mesma, o que sempre me levava a estaca zero de minhas pesquisas no curso de história da faculdade. “Quem era o Kelpie?”, um ser místico que afugenta e sequestra pessoas para afoga-las nas profundezas dos rios e lagos.
Eu estava desenhando um cavalo em meu caderno enquanto esperava por meu café na lanchonete do campus, quando uma sombra surgiu atrás de mim.
—Ficou lindo. – Era Dalton Werther, éramos grandes amigos e, para falar a verdade, tínhamos uma queda um pelo outro, mas na época não se sabia quem daria o primeiro passo.
—Obrigada...
Ele sabia que eu odiava cavalos e que nunca me aproximava de nenhum, e que eu também não sabia nadar por sempre me recusar, desde criança, a entrar em algo mais fundo que a poça do chuveiro.
—Você vai voltar para Heirland quando a faculdade liberar os diplomas?
—Vou. – Eu tentei manter um pequeno sorriso em meu rosto, para fingir que estava feliz por voltar lá. Afinal minha casa, não, a minha casa e a de meu pai, ainda estava lá sobre o meu nome e eu preferiria morrer ao vendê-la e entrega-la nas mãos de outra pessoa. Aquele lugar era como uma caixa de lembranças, eu ajudei meu pai a pintar as paredes da casa, ou só pensei ter ajudado, escolhi o tipo da madeira que revestia o chão da casa, a cor das cortinas. Sem a minha mãe por perto tudo o que tínhamos era um ao outro, para mim a maior essência de meu pai era aquela casa.
—Sabe... eu pensava em ir pra lá também...
—Mas por quê? – Ele começou a enrolar os cabelos um tanto longos e ondulados em seu dedo indicador.
—Bem, é que eu acho que seria um ótimo lugar pra começar, eu também mandei uma carta para a escola pública de lá e eu descobri que tem vaga para psicólogo...
—Interessante, não tem mais nenhum motivo. — Ele se sentou ao meu lado evitando me olhar diretamente nos olhos.
Sua aparência inocente e frágil era o oposto de seu pai, ele era mais sensível e atencioso que até mesmo suas 2 irmãs mais novas. Tinha olhos grandes e verdes com um cabelo preto que destacava sua pele pálida.
—Eu também não queria diminuir nosso contato. Pronto admiti, satisfeita? – Ele beijou minha testa, seus lábios quentes eram como plumas.
Nós rimos e então meu café chegou, ele ordenou mais algumas coisas como sanduíches e um suco para tomarmos café da manhã juntos. Eu precisava daquele momento e nem sabia, era como se eu soubesse que mesmo juntos naquela semi-ilha de lugar, eu estaria muito concentrada em resolver meus demônios interiores.
—-//--//--
Poeira... o nome perfeito para descrever como ficou a casa era poeira. Afinal passei minha vida toda como uma órfã de instituições educacionais, pois o parente mais próximo que eu tinha era o irmão mais velho e bem mais rico de meu pai, só que ele não dava nada por mim, então me mandou para um internato feminino fora da cidade, ele tinha certo desgosto por mim, pois eu era mais bonita que sua filha, tirava as melhores notas da turma, depois da morte de meu pai eu me tornei um brinquedo humano que representava o perfeito. Eu me tornei o exemplo para minha prima, literalmente, que sempre brigava e gritava com seus pais, então meu tio levantava a voz para ela dizendo: “Você é uma ingrata, poderia não ter mais ninguém, como Sarah, ai vem gritar conosco?!”, sempre a mesma coisa.
Odiava quando ele dizia aquilo, eu desejava poder fugir e nunca mais voltar para passar as férias na casa daquelas pessoas, que muitas vezes viajavam e me deixavam lá para cuidar da casa, das plantas e dos cães.
—Mas que bagunça.
Foram precisas exatas 5 horas para limpar toda aquela poeira e pôr alguns lençóis para lavar na máquina. Eu precisava de um emprego para pelo menos pagar uma diarista uma vez só, depois de uma geral na casa eu conseguiria dar conta de tudo.
Eu não tinha entrado em meu quarto ainda, mesmo tendo limpado todo o chão da casa, aquele era o único lugar que eu ainda não tinha entrado, ao chegar lá, o livro que nunca fora devolvido ainda estava sobre a mesinha de desenho, coberto por alguns papeis. Eu o segurei e soprei um pouco da poeira sobre ele. “Kelpie” de Ferdinand Coper.
—Será que o Sr. Coper está vivo?
Eu saí da casa com o livro em minha mochila, fui até a biblioteca que havia sofrido por uma bela reforma depois de minha partida para a faculdade. A mesma atendente de sempre me reconheceu de longe.
—Não pode ser! Pequena Sarah?! Nossa... você agora é grande pequena Sarah! – Ela abriu um grande sorriso, que mostrava poucas rugas em seus olhos e envolta de sua boca.
—Olá, faz muito tempo... Eu terminei a faculdade recentemente.
—Parabéns querida.
—Vim aqui pra saber se você pode me ajudar a encontrar uma certa pessoa.
—Vou fazer meu possível, é um escritor não é?
—Sim, Ferdinand Coper.
A atendente fez uma expressão de que não gostava muito daquele nome, então pegou papel e lápis e começou a escrever um endereço e um número de telefone.
—Olha... você não é a primeira pessoa que aluga o Kelpie e depois vai atrás daquele homem mal educado. As pessoas leem esse livrinho, principalmente crianças e adolescentes e vão atrás do escritor pra fazer perguntas tolas como “Onde eu o acho?”, “Ele morde?”, “Como é verdade?”, mas todas são afugentadas.
—É só... um trabalho para o fim de curso.
—Certo, então é melhor você ter algo muito bom para discutir com ele, pois ele é um velho incrivelmente de mal com a vida. Não entendo por que só fez um exemplar do livro e o entregou apenas para a nossa biblioteca, já que foi completamente feito por sua mão... inclusive os desenhos.
Ela me entregou o papel, o endereço indicava que ele ainda morava na cidade e havia um recadinho no canto dizendo que provavelmente ele não atenderia telefonemas. Então me retirei muito mais que satisfeita. As coisas estavam andando bem com minha pesquisa até então, por isso decidi passar pela escola onde Dalton estaria. Ele me disse que estaria por lá apenas para pegar material e saber um pouco do perfil que a escola exigia das salas, para poder orientar os alunos.
—Isso é o que eu chamo de sinistro. – A escola era velha, mas eu não me lembrava dela, poderia ter a mesma idade do distrito.
Entrei e caminhei por seus corredores vazios, pois os alunos ainda estavam de férias e mal se via uma alma dentro das salas, nem mesmo de um zelador.
—Hey, Sarah! – A voz ecoou pelo corredor maior. Olhei para trás e vi Dalton vindo em minha direção, usava um suéter por cima de uma camisa branca, com uma gravata que ficava para dentro e uma calça jeans clara e botas.
—Nossa, você não podia estar mais nerd. Sabe, aqui quem manda é o frio. Essa calça jeans vai garantir que você congele suas pernas e caia no chão antes mesmo de chegar a sua casa.
—Seja positiva. – Ele me abraçou, apertando-me em seus braços.
—Ah, tá legal, vai congelar só uma. A outra vai te deixar chegar a sua casa pulando.
—É o melhor que pode fazer?
—Sim.
Eu contei a ele que estava fazendo uma pesquisa, mas que era segredo. Ele não ficou muito feliz em eu ter dito que era segredo, começou a implorar para que eu falasse, mas nada adiantou. Pelo menos pude ver sua nova sala de trabalho e seus programas de atividades sociais entre os alunos do fundamental.
Ele me emprestou sua velha bike que trouxe da faculdade, claro que em troca de alguma coisa, um tour pelo distrito, pois era a primeira vez que ele vinha a Heirland.
—Meu coração não vai aguentar isso. – Eu contemplava a enorme estrada de terra que eu teria de subir para chegar ao topo de uma colina, onde vivia Ferdinand Coper.
Como seria muito pior pedalando, decidi andar até lá enquanto segurava os guidons da bike. A terra fria e molhada com certeza me derrubaria da bike, mas mesmo que alta a colina não era longa, pois logo eu estava no jardim da casa velha de madeira. Aproximei-me da entrada e encostei a bike no portão, eu podia escutar “Non Je Ne Regrette Rien” de Edith Piaf suavemente tocando. Belíssima musica, mas assustadora naquele ambiente, eu me senti péssima atrapalhando seu ritmo ao bater na porta.
—Quem é?! – A voz daquela pessoa mostrava claramente que estava bêbada.
—S-Sou Sarah Owen, Sr. Coper, vim aqui para perguntar uma coisa ao senhor...
—É sobre o maldito livro?!
Ele mal se preocupou em colocar sua cabeça numa brecha da porta ou pelo menos me olhar pelo olho mágico, pois eu não escutava passo algum.
—E-Em parte sim senhor...
—Vá embora daqui, eu estou cheio de pessoas querendo saber onde encontrar a droga do Kelpie!
—Não posso ir embora senhor.
Escutei passos violentos se aproximando da porta e tratei logo de andar para trás. Um senhor idoso de seus 80 anos abriu a porta bruscamente, deixando-a bater com toda força na parede e me olhando furioso.
—Não me chame de senhor! Vá embora que eu não tenho tempo para idiotas que acham que seria um mundo fantástico encontrar aquele...!
—Não! Não é isso! – Eu gritei com ele antes que pudesse terminar de me insultar. – Eu não quero saber onde ele vive, não quero saber como acha-lo... eu só... eu só... – Meus olhos começaram a queimar, eu me ajoelhei no chão sem forças por causa da emoção do momento, estava chorando como uma criança. – Eu só quero saber por que ele levou meu pai!
Ele continuou me olhando, sem expressão. Com a garrafa de bebida ainda em sua mão, tomou um gole e entrou na casa.
—Vai ficar ai sentada ou vai entrar?!
Aquilo era música para meus ouvidos.
—-//--//--
Uma coleção de diplomas e prêmios de poesia enfeitavam a sala. Havia um quadro que mostrava um jovem menino de aproximadamente 5 anos e de cabelos loiros e olhos acinzentados como os meus bem no meio, sobre a lareira.
—Então, você é AQUELA Sarah, a Sarah do Jornal que foi encontrada no meio da floresta depois que o pai sumiu...
—Sim.
Ele pegou sobre uma mesinha de madeira negra um cachimbo e o acendeu. O silêncio se fez por alguns instantes enquanto o velho homem refletia olhando para o quadro do menino.
—Sabe quem é aquele? – Apontou para o menino.
—Não senhor.
—Aquele é o “Jovem Aventureiro”. – Ele sorriu.
—A referência do livro... – O livro tinha inicio como um aviso a um jovem aventureiro. Eu acreditava que se referia ao leitor anônimo.
—É meu filho Samuel. – Ele se levantou e foi até o quadro, colocou sua mão sobre o rosto do menino como se tentasse segurar suas bochechas. – Ele tinha 16 anos quando morreu afogado.
—Meus pêsames.
—Obrigado. Mas acho que devo meus pêsames a você também.
—Obrigada.
Ele se voltou para mim, limpava uma pequena lágrima que descia por sua bochecha enrugada. Eu lhe entreguei o livro e ele se sentou ao meu lado no sofá velho, a casa toda cheirava a álcool e fumo. Eu não o culpava por ser um homem desequilibrado.
—Eu escrevi esse livro antes do que aconteceu com meu filho, pois eu já tinha observado de longe muitas vezes o Kelpie que vive nesta parte da Escócia. – Virou a primeira página. – Mas até então nunca tinha visto aquele demônio levar ninguém... apenas complementei com outros contos antigos de Kelpies.
—Ele falou.
—O que?
—O Kelpie me chamou de barulhenta, porque eu o reconheci e comecei a gritar.
—Você o reconheceu em sua forma de cavalo?
—Sim.
—É uma raridade, pois o Kelpie tem algo envolta dele que lhe faz ver detalhes que não existem. Enquanto eu via um lindo pônei branco à beira do rio, meu filho via um corcel estupendo e castanho chocolate. Foi assim que eu percebi que aquele era o Kelpie. No momento que você percebe, os detalhes falsos desaparecem e você pode ver o cavalo negro assustador.
Ele se levantou de maneira apressada, quase tropeçando em algumas garrafas que estavam no chão, foi até um dos cômodos e depois de alguns minutos e barulhos voltou com uma agenda em sua mão.
—O que é isso?
—É o que eu chamo de precauções. Como eu disse no livro, se você escapa do Kelpie, pode apostar que ele vai se lembrar disso. – Ele abriu uma agenda que possua a foto e o nome de algumas pessoas. Em sua última página havia uma foto minha recortada do jornal quando eu tinha 7 anos. – Sarah... Owen, você voltou de balsa ou esperou para que a terra desalagasse para voltar de ônibus?
—Esperei desalagar.
—Garota esperta. Ele saberia, mesmo que encima de uma balsa, que você estava na água.
—Eu preciso me manter a vida toda afastada da água?
—Sim!
Ele começou a me fazer perguntas como o que eu vi quando olhei para o Kelpie e o que meu pai viu, também me perguntou se eu já havia me sentido observada.
—Bem... só uma vez mas foi em um bar da faculdade, acho que não faria sentido.
—Acredite, pode fazer sentido. – Continuou escrevendo em sua agenda, sua letra um tanto feia e seus olhos semicerrados, ele deveria estar com a visão debilitada pela idade.
—Sr. Coper...
—Hum?
Eu queria saber mais sobre o que aconteceu com Samuel Coper, mas eu poderia estar me expulsando daquela casa e perdendo uma grande oportunidade de conversar com alguém que não me achava louca.
—Posso perguntar como exatamente aconteceu a tragédia do seu filho...?
Ele parou de escrever, bem devagar seu rosto se voltou para o quadro e eu pude escutar sua respiração se tornar pesada.
—Eu fui visto... tudo porque me aproximei demais para observar o Kelpie. Ele não esperou para ver se eu estava enfeitiçado ou não e me atacou... mas meu filho golpeou sua cabeça com um tronco para que o Kelpie me soltasse. As marcas de seus dentes ainda estão em minha perna... – Ele colocou sua mão na testa e massageou a região entre seus olhos. – Ele voltou sua ira para Sam que tentou soca-lo no pescoço, fazendo com que sua mão grudasse em sua pele e levando-o para o rio.
—Sinto muito...
—Seu pai, Sarah, se pode me perdoar por dizer isso, talvez tenha tido a sorte de não viver para vê-la se afogar no lugar dele. Acredite...
—Eu sofri com a morte do meu pai, mas eu não conseguiria imagina-lo sem mim. Acho que eu entendo.
—Eu lhe aconselho a se afastar da história desse animal, criança. Existem coisas que é melhor pertencerem apenas a lendas.
—Não se preocupe. A última coisa que eu desejo é reviver aquele momento.
Eu me despedi de Ferdinand Coper e vi sua casa sumir sobre a colina a medida que eu me afastava. Eu imaginava o desespero que aquele homem havia passado quando viu seu filho de 16 anos sumir no rio escuro e lamacento, ainda ter que atormentar pessoas que gostariam de encontrar o Kelpie o tempo todo batendo em sua porta, sem saber da verdadeira desgraça que é encontrar um.
Eu caminhava pela estrada de terra do campo quando a pequena neblina que me acompanhara desde a saída da escola se tornou uma grossa chuva, que fez jus ao histórico do distrito, pois rapidamente o chão começou a alagar. Meu trauma me fez abandonar a bike e começar a correr para chegar o mais rápido possível em casa. Mas algo chamou minha atenção, um barulho atrás de mim, então eu me virei e alguns metros de distancia, onde estava a bike, vi um rapaz que aparentava estar nu, ele tinha cabelos prateados com mechas negras, ele estava parado olhado para mim ao lado da bike.
—Barulhenta... – Eu podia escutar como um sussurro em minha cabeça.
Eu corri o mais rápido que pude até ver as ruas asfaltadas e os pequenos prédios. Então a medida que eu entrava na cidade a água diminuía até que cheguei em minha casa, entrando como uma tempestade. Apenas entrei, fechei a porta e corri para o quarto que antes era o de meu pai, lá fiquei embaixo da cama, completamente molhada e rezando para que parasse de chover e a água secasse. Eu implorava, “Deixe ser só uma ilusão, deixe ser só uma ilusão!”, não queria acreditar no que havia escutado.
Adormeci e somente acordei as 11:00 AM do outro dia, o medo me fez hibernar, mas mesmo com receios em sair de casa, eu precisava ver se a rua estava seca. Então sai ainda de roupas úmidas debaixo da cama e fui até a porta, mas a alegria de ver a rua seca foi completamente apagada por outra coisa.
A bike estava em minha varanda, limpa e seca. Porem, amarrado por um fio em seu guidom estava algo que superou minhas expectativas. Um pequeno dente de leite.
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