Keepers
2 The Letter
Notas iniciais
Estava me sentindo com um grande peso nas costas, parecia que o mundo estava caindo sobre mim. Ainda não conseguia acreditar que Matthew havia feito aquilo comigo. Havia tirado minha única chance de entrar na equipe de natação.
Matthew é meu amigo de infância, desde que me lembro, ele sempre esteve comigo, momentos felizes ou tristes... Mas... Mesmo assim, por que havia feito aquilo comigo... Eu esperava que ele tivesse orgulho de mim.
–Mamãe o que aconteceu naquela rua? — ouvi uma criança perguntar à mãe.
Olhei para o menininho que perguntava para a mãe com certa curiosidade nos olhos como se ainda não tivesse presenciado uma fatalidade. A mãe parecia evitar o assunto, em seu rosto havia uma expressão de pura pena. Ela como uma mulher experiente, provavelmente já havia visto esses tipos de acidente e ninguém gosta de tocar em assuntos desse tipo com uma criança.
–Filho, aconteceu um acidente ali. E o melhor a se fazer é não ficar por perto. — a mãe respondeu — Pobrezinho do garoto... Ainda era tão novo...
–Ele está bem? — ele continuou perguntando.
–Eu não sei, filho. — respondeu segurando a pequena mão fortemente.
Bem, eu já podia imaginar. Nenhuma mãe gostaria que aquilo acontecesse com seu próprio filho. E eu tenho certeza que ela havia pensado: "E se fosse meu filho?".
Continuei andando a caminho de minha casa ainda pensando em meus problemas. Aos poucos me aproximava do local do acidente, pois as pessoas a minha volta sempre comentavam algo como: "Coitado...", "Deveria prestar mais atenção nas ruas", "É uma pena...". Enquanto ouvia os comentários que passavam despercebidos, acabei ouvindo um que me trouxe de volta a realidade.
–Aquele não era aquele garoto da nossa escola? Aquele que as garotas adoram? — um garoto vestindo o mesmo uniforme da minha escola perguntou.
–Era sim. Matthew, certo? — o outro respondeu com certa dúvida sobre nome.
–"Matthew?!" — minha mente gritou ao ouvir o nome.
Minhas pernas que antes não se preocupavam com o tempo lentamente tomaram velocidade. Primeiro com passos rápidos, em seguida acelerando e quando dei conta de mim mesma já estava correndo desesperadamente em direção ao amontoado de pessoas.
Minha respiração já estava acelerada e meu coração parecia prestes a explodir. Empurrei as pessoas da minha frente com todas as minhas forças. O som da ambulância estava baixo enquanto andava em direção do centro da roda, em todo o momento apenas conseguia ouvir as batidas do meu próprio coração.
Rezava que não fosse ele, mas ao ver uma poça de sangue e um corpo sobre ela minha mente ficou vazia.
–Matt?... — perguntei ao alcançar o centro da multidão.
Havia um corpo no chão, um corpo imóvel e familiar. Cabelos castanhos curtos mais escuros próximos à raiz, pele extremamente clara como a própria neve e o rosto inconfundível.
–Não... Não! — corri em direção ao corpo me ajoelhando ao lado dele me sujando com o sangue — Matthew! Diga qualquer coisa! Matthew! Por favor, responde!
Não me importava com o quão desesperado aquilo soasse. Esperava que ele me mostrasse aquele sorriso de sempre e me dissesse que estava tudo bem ou que me dissesse que era apenas uma brincadeira que costumava fazer comigo... Mas... Ele não fazia nada disso...
–Menina, afaste-se dele! O estado é grave! — um homem me disse.
–Mas ele!-
–Fique longe! — ele gritou comigo.
Senti mãos me puxarem para longe de Matthew e tentei lutar para me libertar mas foi em vão. Estendi meu braço para tentar segurar a mão de dele mas era impossível, ele já estava fora de meu alcance. Senti lágrimas se formarem em meus olhos e escorrerem pelo meu rosto sem parar.
–Não se aproxime dele agora, os médicos vão cuidar dele. — ouvi alguém me dizer.
–Vai ficar tudo bem, não precisa chorar. — ouvi outra voz.
–Precisa de ajuda? Quer ligar para a sua mãe?
Eu não conseguia processar direito o que me diziam, suas vozes pareciam distantes e eu não conseguia ouvir exatamente. Minha mente estava sendo tomada por meus próprios pensamentos impossibilitando qualquer informação exterior.
Olhei mais uma vez para o centro e vi a mãe de Matthew. Os olhos dela estavam inchados e vermelhos de tanto chorar. Ela tentava conversar com os médicos enquanto Matthew era posto dentro da ambulância.
–Diga que ele vai ficar bem! — ela gritava — Por favor...
–Senhora ainda não podemos dizer ao certo. Me desculpe, por favor entre na ambulância.
Ela precisou de ajuda para entrar. Apenas pude ver a porta da ambulância fechar diante de mim e a dor sufocar meu peito enquanto via Matthew se afastar de mim.
A culpa foi minha...
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Senti a luz do Sol em meus olhos e não tive outra escolha senão abri-los. Havia tido o mesmo pesadelo novamente e não tinha vontade de sair de meu quarto. Felizmente estava de férias, mas eu ainda não sentia aquele ritmo animado de sempre daquela época do ano, na verdade sentia um vazio.
Já faziam duas semanas desde o incidente, porém minha cabeça ainda não conseguia acreditar que aquele que era tão especial para mim não estava mais naquele mundo. Desde aquele dia, apenas tenho pesadelos todos os dias, as vezes passo a maior parte da noite em claro e lágrimas escorrem inconscientemente.
Olhei para meu relógio e ele marcava 7:30 da manhã. Suspirei. Havia acordado tão cedo de novo...
Ao lado do relógio estava uma foto. Uma foto de oito anos atrás. Eu segurava o braço esquerdo de Matt enquanto carregava meu ursinho amarelo, Matt sorria para a foto enquanto era levemente empurrado por mim. Era uma foto tão antiga. Ainda me lembro daquele ursinho, o nome dele era Anthony e sempre tinha um cachecol vermelho em seu pescoço. Era meu brinquedo favorito e éramos inseparáveis.
–O que eu faço?... — me perguntei ainda deitada.
Foi nesse momento que comecei a ouvir passos. Estavam distantes e pareciam não sair do lugar. Talvez não fossem passos, apenas algum barulho qualquer, afinal eu estava sozinha em casa. Mas por alguma razão não paravam. Então resolvi seguir o som.
Abri a porta para o corredor e tentei perceber de onde vinha o som, porém não importava para qual lado eu fosse. O som não aumentava nem diminuía.
Andando sem rumo cheguei à sala e foi ali que encontrei algo que não estava na minha casa antes. Era um relógio enorme de madeira como os de filmes. Me aproximei um pouco mais e reparei algo fora do comum.
–Está andando para o lado contrário?...
Então ouvi o barulho da janela se abrindo com tanta força que bateram contra a parede. Olhei para trás depois do susto e vi que na mesa havia surgido uma carta.
A cada momento ficava mais assustador e eu não estava com muita vontade de abrir aquela carta. Mas algo dizia que eu tinha que abri-la caso contrário coisa pior iria acontecer.
Segurei a carta em minhas mãos e senti um calafrio percorrer pelo meu corpo ao toca-la. Bem, acho que eu não poderia voltar atrás agora. Lentamente a abri e não havia nada escrito no primeiro momento mas então as palavras começaram a aparecer no papel e meus olhos apenas as acompanharam.
"Vejo que abriu a carta, seria uma pena se não fizesse, afinal pessoas como você dificilmente surgem. Ainda deve estar confusa, não?
Bem, sei que sente assim, mas vamos deixar isso de lado, sim? O que acha de uma segunda chance?..."
A partir do momento que eu abri aquela carta, não havia imaginado que minha vida se tornaria um caos...
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