Kare Uta
1 Capítulo I - A Mão de Midas
- Aoi -
Em meus 15 anos, tinha um sonho. Um grande e brilhante sonho! Queria ser o maior guitarrista do mundo, viver da minha música e ser adorado por isso. Mas não estava dando muito certo, e minha família conservadora não ajudava muito. Lembro das discursões que tinha-mos, meu pai gritando que eu não seria um vagabundo. Eram horríveis. Foi até depois de uma delas que minha vida mudou.
Como em todas às vezes, depois de uma dura briga com meu pai sai de casa ‘bufando’ de raiva, com minha velha jaqueta de couro preto e um ipod no bolso. Caminhando pelas ruas de Mie às altas horas da noite até me ver completamente perdido em becos e mais becos. Perguntava-me mentalmente como havia parado ali enquanto procurava a saída.
Visivelmente vencido pelo cansaço sentei a porta de uma casa qualquer, acho que era uma loja de antiguidades, não lembro, e suspirei resmungando a mim mesmo ou para o meu pai, talvez, que seria o melhor guitarrista do Japão e do mundo. Mas como faria isso? Novamente aquela depressão tomou conta do meu peito... Eu queria ser um bom guitarrista, mas era horrível... Não importa o quando eu tentasse... Minhas melodias eram ruins e “infantis”, como o ultimo cara que as leu disse. Xinguei o nada com uma pontada de raiva. E então, como se houvesse me ouvido, uma risada rouca se aproximou de mim, procurei a sua fonte e deparei-me com um velho negro, de barbas, vestes e dentes tão brancos quanto à neve que caia.
Ele aproximou-se dizendo que se quisesse ele poderia me tornar o maior guitarrista do mundo, me concedendo um simples dom em troca de uma coisa mínima. Sobressaltei-me e chamei-o de louco, alegando que eu não transaria com ele se me ajudasse a ser um músico melhor. Novamente ele riu da minha cara, e quando eu estava para sair dali irritado ele voltou a falar.
Disse que era um poderoso feiticeiro vindo da Austrália e que em troca da minha sensação nos dedos, ou seja, meu tato, ele me daria o poder de transformar tudo em que tocasse com as pontas dos dedos em música. Novamente estranhei e disse que isso era impossível — “e por que não tentamos, então? Você não teria nada a perder” – ele disse. Pensei melhor e até que ele tinha razão. Aceitei.
Foi o maior erro da minha vida, pois depois de apertar-lhe a mão desmaiei e nunca mais pude sentir nada.
Quando acordei estava à porta da minha casa, minha mãe, carinhosa como sempre, me abraçou forte quando me viu atirado a nossa soleira e me levou para o quarto. Tentei dizer a ela o que aconteceu enquanto me colocava na cama, mas achou que eu estava delirando, me deu boa noite e foi embora.
Quando acordei no dia seguinte achei que tudo aquilo não havia passado de um sonho besta, mas me enganei. Assim que toquei no lençol e o tirei do meu corpo... ele desapareceu, e em seu lugar uma vaga melodia soou. Dei um pulo da cama e olhei em minha volta, eu parecia o mesmo, conseguia tocar em meu corpo, apesar de não sentir a minha pele. Desesperei-me, aquilo não foi um sonho. Comecei a rodar pelo meu ninho de desorganização tentando lembrar de mais alguma coisa da noite passada, nada além de uma recomendação e um feitiço em australiano rodavam em minha mente.
“Use essas luvas que lhe dou sempre que for tocar em alguma coisa, menos sua guitarra, assim parecerá uma pessoa normal.” -Ao final do primeiro ano do colegial eu larguei a escola e depois de um tempo me mudei para Tokyo, onde conheci quatro caras com quem formei uma banda chamada Gazette. No começo eles até estranharam o fato de só usar luvas, menos quando tocava, mas logo pararam, afinal... o fato do nosso baixista usar uma faixa no nariz era bem mais bizarro.
Mais alguns anos vieram... e junto com esses várias reviravoltas: A troca de nosso baterista, o fechamento de contrato com a PS Company, a explosão do the GazettE no mercado... e... a realização de meu sonho.
Então porque esse vazio continua me consumindo por dentro?
— Ei, Aoi! Acorda!
— Hãn? O que foi Reita? – resmunguei enquanto vestia as luvas e guardava minha guitarra no estojo.
— Eu e o Uruha vamos a um bar aqui perto, quer vim junto? – perguntou animado.
— Para ficar segurando vela para o Uruha e a Yuki enquanto você vai à caça? Não obrigado... – disse colocando o estojo nas costas e saindo com o loiro aos meus calcanhares resmungando que eu parecia um velho – só estou cansado, não enche!
— Ok! Desculpa se eu só queria tentar te animar?!
— Desculpa Akira...
— Tudo bem, eu entendo... Vai para casa e relaxa, ok? E não esquece... SESSÃO DE FOTOS AMANHÃ ÀS 9!! – terminou gritando enquanto eu me distanciava em direção a minha moto.
Como Reita sugeriu, fui direto para casa, me sentia ligeiramente cansado, parecia que meu corpo pedia ar, tranqüilidade. Mas não poderia parar, não agora, a banda está com um grande sucesso, estávamos com uma turnê marcada para daqui a um mês, e logo após nossa primeira apresentação nos Estados Unidos. Eu deveria estar feliz, mas... Ainda sinto esse vazio me consumir.
Aqui, deitado em minha cama fico pensando no que Ruki me falou uma vez – “Você precisa de uma namorada” – quando disse que estava cansado. Uma namorada... eu bem que queria, mas nenhuma delas entendia porque eu usava aquelas luvas, e eu nunca me senti seguro para contar... Sempre acabávamos terminando depois de uma briga. Aff... Só de imaginar outra briga fico ainda mais cansado... dormir é melhor.
-Acordei com um pulo da cama, o despertador tocava estridentemente no criado mudo me tirando daquele sonho... ou melhor, pesadelo que vinha me acompanhando nesses 14 anos. Incrível como nem no meu inconsciente eu estava salvo.
Levei a mão ao rosto e cabelos, olhando para a janela a qual os raios de sol entravam radiantes, parece que o dia frio e nublado de ontem deu lugar há um dia caloroso.
Levantei, tentando deixar de pensar naquele feitiço que insistia em rondar a minha mente e bati no relógio que continuava a tocar, era cedo. 7 da manhã. Acho que vou tomar café fora. Apressei-me para me vestir e sair logo, não queria pegar o horário de pique do restaurante e correr o risco de ser reconhecido por uma multidão.
No caminho fiquei pensando como hoje seria um dia cheio... Entrevistas, mais ensaio, mais fotos, mais maquiagem, e mais blá, blá, blá, acabei de acordar e já estava cada vez mais cansado, parecia que nunca iria acabar, mas é essa a minha vida, meu grande sonho, e tinha que responder aos fãs, era tudo por eles e não tinha o que reclamar, no fundo sentia-me feliz, mas que sensação de nada era essa? Será que isso tudo se tornou uma rotina? Como seria aquela vida normal que meu pai me propunha?... Meus pensamentos vagavam e vagavam pelo vazio em minha mente, até ser despertado por uma garçonete me dando bom-dia.
— Vou querer um café bem forte, por favor.
— Um minuto que já volto com o seu pedido, agradecemos a sua preferência. – agradeceu, se retirando.
Meus olhos vagaram lentamente pela cafeteria até caírem sobre uma moça que estava sentada bem a minha frente, estava tão concentrada em sua leitura que nem percebeu seus livros pendendo para cair da mesa, imaginei se aquela brisa leve que balançou os meus cabelos e os dela, junto com as folhas dos livros e de um caderno de anotações que ela escrevia calmamente seria capaz de derrubá-los. A garçonete voltou com o café, tirando a minha atenção.
Agradeci e voltei novamente o meu olhar para a mesa a frente, olhando e tomando meu café distraidamente, num estado de vácuo profundo até meus reflexos largarem a xícara e me fazerem levantar para segurar os livros da moça de tal forma que eu mesmo me assustei.
— O-Obrigada – agradeceu puxando os livros para longe da beirada e me olhando rapidamente de um jeito tímido.
— De nada, desculpe, mas... gosta de Alice Nine? – perguntei ao ver o CD, ainda lacrado, que saíra de debaixo dos livros.
— Ah! Sim, gosto muito deles! – ela me respondeu com um sorriso alegre, ao qual eu estranhamente retribuí.
— Que descuido meu, me chamo Shi... – que descuido mesmo – Shinjiko Yuu – menti.
— Prazer Shinjiko-san, Kategawa Layla, e mais uma vez obrigada.
— Não foi nada demais – disse simplesmente esticando-me para pegar minha xícara e voltar a falar com ela – eu estava logo aqui... quando vi já estava segurando eles – respondi calmamente tomando um gole do café que já estava um pouco frio.
— Você tem reflexos rápidos, é atleta? – perguntou-me fechando o caderno de anotações.
— Ah, não... Sou músico e... – parei assim que vi o celular dela tocar uma música bem conhecida por mim e ela pedir desculpas antes de mexer no aparelho e ler o e-mail recém chegado.
— Desculpe, tenho que ir... foi um prazer conhece-lo Shinjiko-san – com pressa ela puxou a bolsa junto com os livros e meu coração falhou um batida, fiz menção em pedir o seu telefone, mas fora tarde demais, ela já havia saído.
Sentei derrotado no lugar em que ela ocupara minutos atrás e me perguntei o que estava acontecendo comigo – “Será que esse vazio é carência mesmo?” – pensei enquanto meus dedos trilhavam entre meus fios de cabelo e o meu olhar corria pela lanchonete, buscando sem sucesso a visão de Layla...
— “Nome bonito...” – pensei. Ela realmente me pareceu ser estrangeira com aqueles cabelos vermelhos, mas tinha feições japonesas, e olhos também... talvez seja Nikkei. Ri sozinho das coisas que meu cérebro acabara de produzir, estava parecendo um adolescente fantasiando.
Levantei-me, paguei minha conta e voltei ao meu apartamento onde o telefone tocava de forma estridente. Por que as pessoas não ligavam para o celular que era mais fácil? Odiava o toque desse telefone, não sei por que nunca troquei.
— Moshi moshi – atendi com uma voz estranhamente feliz, não feliz...feliz... mas melhor do que a dias.
— Aoi, é o Kai! Olha a sessão de fotos foi adiantada, vai ser às oito e meia
— Oito e meia??? Mas já são oito, Kai!
— Eu sei! Mas estamos a horas tentando falar com você no seu celular e você não atende!
-Como assim? Eu estava com ele o tempo todo! Não tocou e... argh! Está sem bateria! – disse por fim, sentindo aquela enorme fadiga me invadir novamente.
— Enfim, vem logo para o estúdio, você se veste aqui, tchau – me despedi e desliguei o aparelho dando um grande suspiro por fim.
— Coragem, guerreiro – disse para mim mesmo pegando as chaves da moto novamente e tratar e ir logo, ou iria me atrasar ainda mais...
Ao chegar ao estúdio, às coisas não foram muito diferentes do que o de costume, uma roupa nova, uma maquiagem nova, um cabelo novo... e as mesmas posições para tirar as fotos. É assim que eu continuo com esses olhares vagos para a câmera, a jogada de cabelo, a mão na boca... me pergunto como as fãns conseguem gostar de uma pessoa que fica séria em fotos... prefiro o meu sorriso, acho bonito.
— Acabamos! Obrigada pelo trabalho de todos – agradecia o nosso empresário nos reunindo para nos dizer os nossos afazeres de hoje – Bem amigos, hoje Ruki e Uruha tem uma entrevista no Hey hey hey às duas da tarde! Aoi-kun, Kai-san e Reita-san tem que gravarem as suas partes para montar-mos o novo single também as duas. Depois temos uma reunião com o senhor Ozaki e com os outros diretores da PS para discutir a estratégia de marqueting que usaremos dessa vez, está tudo pronto, só querem saber se é do gosto de vocês e...só! – finalizou com aquele sorriso amarelo como se fosse pouca coisa.
— E que horas seria essa reunião?
— Cinco da tarde, Ruki-san.
— Bem... são exatamente onze e alguma coisa... e eu não estou me sentindo bem, vou dar uma volta para respirar um ar e encontro com vocês na gravadora – disse, colocando um boné e pegando os óculos escuros que geralmente trazia comigo.
— Está se sentindo mal? Não quer ir à enfermaria Aoi? – perguntou Kai num tom preocupado.
— Não tudo bem... só preciso sentir esse ar de Tokyo um pouco — sorri
— Tem certeza que não quer companhia? – perguntou o moreno me acompanhando até a saída.
— Relaxa, Kai... Vou ficar bem
— Eu quem digo... Você tem estado tenso demais ultimamente, Shiroyama... Vê se melhora ok? – sorriu e me deu um leve soco no ombro ao qual eu retribuí à altura antes de colocar os óculos e sair dali.
Comecei a vagar entre a multidão de pessoas que compunham Tóquio, eu adorava aquilo... Aquele movimento, o barulho, os letreiros, as pessoas... Caminhar no meio delas amenizava as minhas saudades de Mie muitas vezes.
Andei sem rumo por alguns minutos, talvez mais, não sei. Só parei para pensar nisso na frente de uma loja de CDs bastante movimentada. Olhei pela vitrine a agitação de várias garotas no balcão e levado pela curiosidade, entrei pedindo licença até chegar a uma área livre da multidão.
— Com licença senhorita, pode me dizer o porquê de tanto alvoroço? – toquei no ombro de uma das vendedoras e para a minha surpresa... era ela — Layla?
— Shinjiko-san! Olá, que surpresa! – disse quando virou para me olhar em cima de vários rolos do que pareciam cartazes.
— Eu quem diga... Você trabalha aqui?
— Sim! – afirmou com um sorriso – Deseja algo?
Reformulei varias e varias vezes aquela pergunta em minha mente antes de responder e nesse instante em que entrei em “vacuidade” ela continuou me olhando como se não estivesse entendendo a minha demora. A realidade é que eu desejava vê-la mais uma vez, sem estar rodeado de garotas gritando e se empurrando em uma fila enorme, acabei voltando a mim e perguntei novamente o motivo de tanta agitação na loja.
— Ah, são fãs da banda the GazettE, daqui a três semanas lançaram seu novo single e essas pessoas vieram logo reservar os seus – ela me explicou com tanta naturalidade que até me assustei (mais ainda). Será que eu era o único ali surpreso? Imagino o que o pessoal acharia se visse isso, no máximo ficariam orgulhosos, ou ao menos felizes... Como eu.
— Uau...! – ela riu da minha cara surpresa e disse que precisava voltar ao trabalho, novamente hesitei e quando ela estava indo... Tomei coragem de chamá-la para um café depois do expediente. Ela virou novamente para mim com uma expressão um tanto interrogativa no rosto e eu me senti como se houvesse falado a coisa mais vergonhosa do mundo.
— Adoraria... – respondeu tímida – Saio às nove e meia.
— Eu... Eu te vejo as nove então!! – disse animado, sem conseguir conter o sorriso que brotava do meu rosto.
Ela acenou um ‘tchau’ para mim antes de sumir dentro da porta que eu julguei ser o deposito, acenei de volta e controlei o Yuu que estava dentro de mim dizendo ‘Yes’ sem parar. Saí da loja sentindo como se a minha alma do nada estivesse acordado e me dado uma disposição que há dias não sentia. Olhei o relógio em meu pulso. Quase atrasado. Corri para a gravadora.
Quando cheguei Reita já estava passando a sua parte, logo após viria Kai e por fim eu. Não estava tão atrasado assim, e mesmo que estivesse e levasse uma bronca ou olhares tortos não me sentiria mal, estava feliz. Tanto que estava estranhando. Nem liguei pro quanto essas gravações demoram e das vezes que tive que repetir porque algo deu errado. Muito menos reclamei da reunião com os diretores e acionistas, que por sinal estava até agradável... Como o som do violão que toco agora enquanto espero a hora de ver Layla.
-Estacionei a moto em frente à loja e quando desci pude jurar que vi uma das atendentes correr para dentro do depósito cheia de risinhos. Sorri comigo mesmo, enquanto esperava que ela fosse liberada. O que não demorou muito, quando dei por mim ela já estava a minha frente sorrindo e perguntando se havia esperado muito, devolvi o sorriso e disse cordialmente que não.
— Conheço uma cafeteira aqui perto, quer ir andando ou de moto? – perguntei
— Acho melhor ir de moto, não é seguro deixa-la aqui.
— Tem razão – sorri pegando o capacete reserva para ela e logo após colocando o capacete que estava em meu pulso. Sorri novamente ao sentir os braços trêmulos dela envolvendo a minha cintura e o aperto que ela deu quando arranquei, julguei que era melhor ir mais devagar.
No meio do caminho ela me perguntou se podíamos ir a um restaurante de Lamen em vez da lanchonete e prontamente aceitei, seria melhor mesmo, precisava de algo quente no estômago.
— Você tem medo de moto? – perguntei assim que nos acomodamos em uma mesa.
— U-Um pouco – sorriu sem-graça
— É? Pois para mim parecia que você estava com os olhos fechados até o primeiro sinal – sorri de forma brincalhona para ela, o que acabou fazendo-a sorrir também e ficar menos tensa.
— Com licença – disse a garçonete – gostariam de fazer o seu pedido?
— Quero o número 12, por favor.
— E a senhorita?
— O número 5, mas sem cebola, por favor – disse tirando finalmente os olhos do cardápio pendurado em uma parede.
— Obrigada pela preferência, seus pedidos ficaram prontos dentro de 15 minutos.
Depois que a garçonete se retirou fiquei um pouco receoso sobre o que falar com ela, havia esquecido como era difícil se portar bem em um encontro.
— Então... Kategawa-san
— Por favor, pode me chamar de Layla – interrompeu-me.
— Hm...Certo! Layla-san, fazes faculdade de artes?
— Sim! Como adivinhou?
— Vi em sua pasta ali apostilas do curso de Belas Artes na Nippon – apontei para a pasta cheia de papeis ao seu lado da mesa.
— Ah! Claro, faço artes plásticas! – respondeu animada
— Hm... Legal, que estilo gosta?
— Procuro abordar elementos da cultura Japonesa tradicional e contemporânea com estilos diferentes dentro da arte.
— Sei, e o que uma artista está fazendo trabalhando numa loja de música?
— Você é músico não é? Não acha que sua música é um tipo de arte?
— Touché mademoiselle – disse antes de corresponder o sorriso vitorioso dela e agradecer pelo Lamén à minha frente.
Enquanto comia, percebi que ela havia parado para anotar alguma coisa em um caderno, o mesmo em que ela escrevia no dia em que nos conhecemos. Minha língua formigava. Louca de vontade de perguntar o que ela tanto escrevia nele e mais coisas sobre ela, aquelas questões estavam tão presas que quase esqueci da minha educação, ainda bem que me lembrei e voltei a comer antes que ela levantasse os olhos, fechasse o caderno e voltasse a comer.
— Shinjiko-san... – foi a minha vez de pedir-lhe para não usar formalidades – Caham...Yuu-san. Você nasceu aqui em Tokyo mesmo?
— Não, Sou de Mie, por quê? Você é daqui?
— Também não. Nasci em Osaka, porém fui levada ainda pequena para a Inglaterra, meu pai era inglês sabe, e tinha negócios por lá, então minha mãe o acompanhou.
— Mas fez questão que você nascesse no Japão... – sorri ao receber um aceno afirmativo dela.
— Meu pai gostava muito do Japão e minha mãe também, mas eles não podiam deixar a empresa lá, pois meu pai era filho único e tudo mais.
— Sei... Entendo bem como é isso. Meu pai queria que um de seus filhos homens cuidasse do patrimônio da família, só que meu irmão e eu nunca nos interessamos pelo ramo e acabou sobrando para minha irmã e seu marido.
Conversar com Layla era uma coisa maravilhosa, com ela as palavras saiam de forma tão harmoniosa que o papo se estendeu até uma da manhã quando ela recebeu uma ligação, parecia uma pessoa preocupada pela sua demora, quando ela atendeu e começou a falar onde estava eu achei até que era um namorado... e o meu coração apertou de tal forma que eu tive que deixar a minha coluna reta para respirar melhor.
— Desculpe Yuu-san, era minha colega de quarto, ela estava preocupada com a minha demora, daqui a pouco terei de ir embora.
— Eu lhe deixo em casa
— É que ela já saiu para vim me pegar, desculpe...
— Tudo bem... Vamos continuar conversando enquanto ela não chega?
— Claro! Onde parei?
— A sua chegada em Tokyo.
Os olhos dela brilhavam ao narrar o que sentiu ao desembarcar aqui e eu sorria inconscientemente enquanto ouvia e me lembrava de como me senti da mesma forma. Quando dei por mim ela já havia levantado da cadeira puxando a bolsa e a pasta junto, automaticamente me levantei também.
— Obrigada pelo convite Yuu-san
— De nada! – sorri me sentindo um pouco sem graça pela pergunta que iria fazer – Ano, posso te ligar amanhã?
— C-Claro! – prontamente ela anotou em um guardanapo de papel o seu número e me deu antes de ouvirmos uma buzina soar do lado de fora do restaurante – Tenho que ir, Já ne.
— Boa noite Layla-chan – retribui a sua reverencia e acompanhei com os olhos a figura ruiva sumir atrás da porta de madeira.
Pedi a conta ao garçom e deslizei até a cadeira que ela ocupou minutos atrás, como se ainda pudesse sentir o cheio doce de morango que o cabelo dela exalava naquele lugar. Meus olhos ainda fixos na porta baixaram até o lenço em minha mão e depois para a cadeira ao meu lado. Um caderno. O caderno em que ela tanto escrevia... Deve ter caído da bolsa. Peguei-o, paguei a conta e voltei para casa olhando para o pequeno livro azul claro com uma pontada de curiosidade, seria uma agenda de trabalho? Um diário? Ou então simples lembretes? – perguntava-me enquanto largava meus óculos escuros sobre a mesa de centro e minha jaqueta sobre o sofá junto com o meu corpo.
Abri-lo e ver se havia o seu endereço não seria violação de privacidade, não é?
“Querida Layla, espero que consiga realizar os seus sonhos em Tokyo e organiza-los aqui nesta pequena agenda. Com carinho... Sua avó”Era o que dizia os kanjis escritos à mão na capa dura da agenda – “Ela disse que tinha uma avó em Osaka” – Lembrei.
Pensamentos e mais pensamentos eram tudo o que ela me despertava cada vez que folheava o objeto em minhas mãos, até uma coisa me chamar à atenção: “Dados pessoais”. Hm...
Não sei quanto tempo fiquei olhando para aquela capa azul, o certo seria fechar a assim que visse os dados pessoais, porém minha curiosidade falou mais alto quando toquei em um clipe vermelho segurando alguma coisa em uma das páginas no meio da agenda. Meus dedos abriram com certo receio a folha e meu corpo todo parou quando vi uma foto anexada no clipe.
“Meu segundo dia em Tokyo, na frente da loja de CD’s que trabalharei”Era o que dizia a legenda abaixo da foto. Sorri ao ver novamente o sorriso dela e não consegui deixar de pensar o quanto ela ficava bonita assim, e encantadora concentrada. Fechei a agenda rapidamente, como se quisesse afastar aqueles pensamentos de mim e controlar a minha curiosidade que clamava cada vez mais por mais folhas.
Aquilo não era certo. Levantei do móvel sentindo minha espinha estalar, reclamando pela má posição na qual me deitara. Larguei a agenda dela na mesa de jantar e fui me deitar, eram quase duas da manhã e daqui a sete horas teria de ir para a gravadora.
-— Fala Ruki... – disse sonolento
— Oi Aoi, estou aqui perto da sua casa, quer carona para ir para o ensaio?
— Ensaio? Que horas são? – perguntei tentando achar algum relógio perto do criado mudo.
— São quase oito e meia, Aoi! Ensaio fotográfico às nove, lembra?
— Merda! – xinguei ao ver que ainda estava de pijamas e completamente atrasado – Vou aceitar a sua carona Ruki, me espera na garagem que já desço.
— Ok! Já estou chegando
— Ah! Ruki será que eu posso falar com você? Não... não é nada grave, relaxa. Uma coisa que me aconteceu — Não sei... Acho que é boa sim, tá... Te vejo daqui a 20 minutos.
-Em menos de 15 minutos encontrei Ruki me esperando em seu carro.
— Bom dia Ruki – cumprimentei sentando no banco ao seu lado.
— Bom dia Aoi, e ai? O que tinha para me falar? – perguntou dando a partida no automóvel.
— Lembra que eu disse que estava me sentindo cansado, e que não estava mais conseguindo sentir aquela alegria de antes? – recebi um aceno positivo como resposta e continuei – Pois é... hoje de manhã eu não conseguia mais sentir essa ‘má disposição’, e eu não quero acreditar no verdadeiro motivo pra ela ter ido embora...
— E por que não? Qual o suposto motivo? – perguntou já imaginando do que se tratava.
— Uma garota... A conheci naquele restaurante que eu gosto... Sai com ela ontem...
Ruki estacionou o carro perto de uma calçada por alguns instantes, abaixou os óculos escuros e virou para mim com um tom de impaciência e incredulidade no olhar. Senti que ele iria me matar ali mesmo e arrependi-me profundamente de ter contado assim que o vi respirar fundo...
— Shiroyama... Você é gay?
— QUÊ??? – era a minha vez de expressar incredulidade, afinal que diabos se passava na cabeça desse nanico?! – TÁ LOUCO RUKI?!
— Não, oras! Só falo o que penso! Porra Aoi, você ta há dias pra baixo! Eu digo que o que você precisa de uma namorada! Você não me escuta! E quando vem a chance para dizer que eu tenho razão você não acredita porque tem essa frescura de usar essas drogas ai na mão e...
— CACETE! QUANTAS VEZES TENHO QUE DIZER QUE NÃO É FRESCURA! NÃO POSSO TIRAR ESSAS DROGAS!! – Ruki com certeza conseguiu me tirar do sério.
— Ah não? Então me explica qual é o motivo para todo esse mistério e essa paranóia de não querer tocar em ninguém.
— Você não acreditaria...
— Tente – o vocalista mantinha o olhar firme sob mim e observava o receio que encontrava para me expressar, calculando se falava ou não a verdade.
— Isso pode soar estranho... Mas é verdade... Quando... – fiz uma breve pausa novamente pensando na forma que prosseguiria -... Quando eu tinha 15 anos, fiz um pacto com um feiticeiro, ele me daria o dom de transformar tudo que eu tocasse em música, em troca... eu nunca mais poderia sentir nada com os meus dedos, só as cordas da guitarra.
Ruki ficou alguns minutos olhando-me de forma séria, tentando processar o que acabara de ouvir. Revirou os olhos, respirou fundo e um sorriso de deboche brotou dos seus lábios junto com uma alta gargalhada.
— Aff... Eu disse que você não iria acreditar – Suspirei pesadamente em meios às gargalhadas do motorista. Vencido então, peguei calmamente um lenço dentro do bolso do jeans e logo após retirei uma das luvas – Ruki...Olha -recebendo um olhar debochado em resposta, mostro a maldição se concretizar ao tocar no lenço e o mesmo ir se consumindo aos poucos, e em seu lugar ficar uma melodia fraca e até bonita.
O loiro ficou estático por um longo tempo. Aquela visão o assustara profundamente e suas pupilas não conseguiam sair do estado de dilatação.
“Estou procurando um significado, no poema vazio de meu coração
Quando olhei em volta não havia mais nada lá
O tempo passa e o poema começa a desaparecer como uma flor
Poesias deveriam continuar a ecoar, não sumirem”
Continua...
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