Kare Uta
2 Capítulo II – My Lady
- Layla -
Minha vida toda foi vivida na Inglaterra, mais especificamente nas ruas movimentadas de Londres. E em todas as férias de verão, nossa viagem para a casa de meus avôs em Osaka era sagrada. Quando estávamos lá, eles sempre me enchiam de mimos... Aquelas coisas que todo avô e avó fazem, como por exemplo, dar doces, deixar correr na casa, dormir tarde e contar histórias antes de dormir. Aquela casa era o meu paraíso nas férias. Porém, o que mais me deixava ansiosa para voltar para lá era o fato de sempre irmos ao Tanabata em Tokyo.
Desde pequena sempre sonhei em morar naquela cidade cheia de cores e sentir para sempre aquele cheiro quente e gostoso do Tanabata.
Quando completei 19 anos consegui me mudar para Osaka e continuei minha faculdade de design de interiores enquanto morava com os meus avôs, tudo estava dando certo se não fosse pela escravização que me submetiam no estágio, quando ele acabou dei tantas graças que Deus deve ter ficado cansado. Depois da minha formatura, quando completei 22 anos, me mudei para Tokyo junto com uma amiga, com quem dividi o apartamento no bairro de Minato. Lembro que nós viramos a noite no dia em que mudamos, só comemorando.
Depois de um ano no cursinho consegui começar a minha pós-graduação em artes plásticas e enquanto não conseguia outro estágio, comecei a trabalhar na loja de CDs da senhora Ashihara. Não tem nada haver com uma designer de interiores, mas ela paga bem, o ambiente é animado e a chefa é um poço de fofura, queria eu ter uma chefa tão boa como ela pra sempre.
Até hoje agradeço aquela loja, foi ali que o encontrei pela segunda vez, pela terceira... Até perder as contas.
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- Drogaaa~~ Aonde eu coloquei?! – choraminguei me debruçando no balcão da loja de CDs
- Colocou o que? – Ouvi a pergunta vinda da moça de longos cabelos azulados que vestia o mesmo uniforme que eu.
- Mayumi-chaann! Perdi minha agenda! Não a encontro em lugar algum!
- Quando foi a última vez que a viu? – falava enquanto arrumava as prateleiras com os novos lançamentos.
- Ontem, quando sai da loja, coloquei na bolsa e sai com o Yuu-san – olhei novamente dentro da minha bolsa, era a milésima vez e tinha certeza que não estava ali.
- Hmmm... Não me diz que esqueceu na casa do bonitão?! – vi um sorriso malicioso se moldurar no rosto dela quando se debruçou no balcão na minha frente.
- MAYUMI!... – levantei o tom da voz para chamar-lhe a atenção, mas logo depois me dei conta que estava trabalhando e me auto-reprimi mesmo não tendo ninguém na loja – Para a sua informação, nós só fomos jantar! – sussurrei entre os dentes deixando clara a minha irritação
- Sei... Sei. Hahaha. Você fica tããoo bonitinha brava Layla-chan! Não me canso de fazer isso.
Girei os olhos tentando não dar ouvidos ao que ela falava. Mesmo assim não parava de me preocupar com o sumiço da agenda, minha vida toda estava ali. Suspiro pesadamente rezando mentalmente para que alguma boa alma a tivesse achado e fizesse a gentileza de devolver.
O dia foi passando rápido com o movimento agitado da loja, quando dei por mim já estava na hora de fechar e faltavam somente duas pessoas pagarem, assim que elas saíram Mayumi começou a desligar o sistema enquanto eu cobria as prateleiras com um pano preto.
- Terminou ai? – ela se aproximou estendendo a minha bolsa para irmos logo embora – Acho que tem alguém te esperando lá fora – disse sorrindo antes que eu pudesse responder algo
- Como?! – perguntei incrédula, na mesma hora virei meus olhos para o lado de fora e senti um choque arrepiar a minha pele rapidamente – O que ele tá fazendo aqui?! — virei novamente para ela e falei entre os dentes.
- E eu que sei? Vai logo lá! Deixa que eu fecho tudo aqui! – ordenou jogando minha bolsa contra o meu peito e fazendo gestos com as mãos para ir logo. Sorri em agradecimento e sai da loja, caminhando até o rapaz encostado na moto que ao sentir minha aproximação me olhou e sorriu de um jeito que me fez sorrir também.
- Yuu-san! Olá.
- Boa noite. Desculpe vim aqui sem avisar, mas... Você esqueceu isso aqui no restaurante ontem. – tirou de dentro do bolso interno do casaco a minha tão valiosa agenda e me entregou.
- Ah! Muito obrigada! Estava procurando-a em toda parte! E... Desculpe o incomodo, poderia ter me ligado, eu iria pegar.
- Que isso. Não foi incomodo nenhum, era o mínimo que eu poderia fazer. – ele sorriu balançando a cabeça negativamente e me olhou novamente, aqueles olhos castanhos tão profundos que me faziam desviar o olhar e sorrir envergonhada, sua gentileza realmente me encantava. – Você... Estava indo para algum lugar agora?
- Para casa! Estava indo para casa.
- Sobe ai, eu te levo. – ele disse sorrindo, me entregando um capacete reserva que tirou de dentro do banco da moto, hesitei por um momento achando que seria incomodo demais. – Não precisa me olhar assim, não é incomodo nenhum. Sério — falou como se houvesse lido o que se passava em minha mente.
Peguei o capacete e por um momento olhei fixamente para face dele, não sabia por que, mas tinha a impressão que o conhecia de algum lugar. Balancei a cabeça rapidamente, e coloquei o capacete na cabeça, montando depois dele na moto e abraçando a sua cintura. Como na noite passada, o cheiro da colônia que usava invadiu imediatamente meus sentidos e me fez sorrir. Agradeci mentalmente por ele não poder ver o meu rosto.
- Hey, Layla-chan. Está me ouvindo? Onde você mora? – perguntou fazendo minha atenção voltar a ele.
- D-Desculpe, estou... Eh... Moro na área de Kaigan, Minato-ku. Quando estiver perto aviso qual prédio é.
- Ok. Segure-se.
Permaneci em silencio, imersa em meus pensamentos durante todo o caminho. Pensava no que tudo aquilo significava, no por que dele ser tão gentil, se ele era sempre assim e... ah, era tão boba que já estava imaginando coisas.
- ah! É aquele prédio ali na frente! – anunciei quando já estávamos perto, prontamente ele foi tomando espaço entre os carros até estacionar na frente do prédio. Esperei que ele parasse a moto para tirar o capacete e descer da mesma – Obrigada Yuu-san por tudo – Agradeci sorrindo e recebi seu sorriso de volta
- Durma Bem, Layla-chan
- Você também – falei enquanto andava de costas até o portão do prédio e finalmente virar para abri-lo, porém antes de entrar, olhei mais uma vez para trás, me certificando que ele ainda estava ali. Vi ele dar um breve aceno com a mão e sorri novamente entrando por fim sem olhar para trás.
Não sei quanto tempo ele me olhou entrar, a única coisa que sei é que até entrar no elevador, não ouvi o ronco da moto avançar pelas ruas semi-iluminadas do bairro.
-
“Eu anseio pelo passado, mas ele parece tão distante
Eu deveria ter entendido, então por que ainda dói?
Por quanto tempo a melodia obcecante que permanece em meus ouvidos
continuará a ecoar em meu coração?”
-
A partir daquela noite, as ligações entre mim e Yuu eram cada vez mais freqüentes e demoradas, assim como a freqüência com a qual ele ia me buscar no trabalho. Era tudo tão natural entre nós que o tempo passava num piscar de olhos, quando eu percebia já eram duas da manhã e ainda estava sentada com os pés dentro do futton, uma xícara de chocolate quente vazia há horas numa mão e na outra o telefone que alternava de orelha para orelha. A voz dele não me cansava, muito menos a sua risada.
E antes que eu percebesse... Ele havia se tornado tão especial para mim que eu me vi perdidamente apaixonada, pois tudo nele me despertava uma sensação nova que eu desconhecia. E que eu não podia revelar, por mais que tivesse uma curiosidade imensa de saber como é ser beijada por aqueles lábios chamativos...
Me perguntava mentalmente agora se não estava confundindo as coisas e tudo aquilo não passava de um carinho excessivo proveniente do jeito generoso dele. Viajei em meus pensamentos até que fui acordada pelo dedo de Yuu que cutucava insistentemente a minha testa.
- Ei! Como é a terra dos sonhos, bela adormecida? – perguntou com seu habitual sorriso nos lábios, me entregando em seguida um copo de café que foi pedir no balcão.
- Por que tenho que ser a bela adormecida? – peguei o café em suas mãos, pensando em como se tornaram freqüentes também as nossas idas a essa cafeteria aonde nos vimos pela primeira vez
- Porque é a única princesa que eu lembro que está dormindo nos contos de fadas, você costuma fazer muito isso sabe? Olhar para um ponto qualquer e dormir acordada.
- Hm... Se durmo com os olhos abertos então não posso ser a bela adormecida. Ela dorme com os olhos fechados. – retruquei tomando um gole do café quente
- Mas as duas dormem de qualquer jeito. – disse assoprando o café em seguida.
- Bah... Mesmo assim, não gosto da história da Bela adormecida o príncipe se aproveita dela, se for para ser uma princesa quero ser a Cinderella! Ela come o pão que o diabo amassou, mas acaba com o príncipe no final e a madrasta se ferra.
- Hahahaha. Ok. Ok Cinderella, você venceu. Irei comprar ratos e pássaros falantes para você! – ele riu, tomando um pouco do café.
- Ah! Compre mesmo! Irei fazer com que eles falem na imprensa e ficarem rica por ter animais que falam. – falei rindo, e ele riu comigo das besteiras das quais falávamos.
Quando paramos, um silêncio se instalou entre nós, cada um estava concentrado em seu copo, ou pelo menos era o que eu pensava, pois quando levantei meus olhos se encontraram com os dele e não conseguiram desviar, nossos olhares se atraíram de certa forma que senti meu rosto esquentar e só depois de dois minutos me fazer olhar novamente para o copo em minhas mãos. Um silêncio incômodo se instalou entre nós. Não sei quanto tempo durou, já falei que ele se torna muito relativo quando estou com Yuu.
- Eu... Tenho uma coisa para te falar. Que não sei por onde começar – sua voz disse rompendo aquele silêncio e me fez olhar novamente para sua face séria.
- Comece... Pelo começo somente.
- Então... Acho que no começo devo te pedir perdão, porque eu menti para você, Layla-chan – ele começou a falar e o meu coração aos poucos foi apertando em aflição por não saber o que estava por vir.
Ele se levantou e veio sentar ao meu lado (isso estava cada vez mais estranho), em menos de um segundo minha mente pensou em várias coisas que ele poderia ter mentido para mim, tentando me auto-proteger de um choque mais forte. Yuu pousou a mão sob a minha e me fez olhar novamente para seus olhos antes de começar a falar.
- Lembra que... Você sempre me achou parecido com aquele guitarrista do the Gazette? – ele não conseguiu segurar o sorriso a me ver fazer uma expressão de interrogação e não esperou a minha resposta para continuar, agora ficando com um tom de voz mais baixo como quem conta um segredo – Não é mera coincidência... Meu nome verdadeiro é Shiroyama Yuu, eu sou o Aoi.
De repente, um alívio sem igual invadiu o meu peito e me fez rir por um bom tempo, nem percebi a cara emburrada que ele fez e muito menos quando puxou a carteira do bolso interno do casaco, abriu na aba em que estava a sua carteira de identidade e a colocou sob a mesa.
- Pára de rir! Estou falando sério – disse ainda num tom de sussurro segurando os meus pulsos, porém sua seriedade acabou quando viu as lagrimas que saíram dos meus olhos devido ao riso, rapidamente um sorriso se formou em seus lábios – Se não acredita em mim veja aqui – mostrou a carteira.
- Yuu... Eu acredito em você – aproximei minhas mãos do seu rosto e falei no mesmo tom em que ele usava – Eu só não acredito no quanto você é bobo... Ri, porque fiquei aliviada, imaginei cada coisa ruim. Quero dizer, não que tenha sido ruim o fato de ter mentido sobre seu verdadeiro nome, mas eu imagino que por ser um rock star não pode sair falando abertamente para todos. Sobre isso... Não fiquei chateada! Tem mais alguma coisa que eu deva saber?
Quanto mais ia falando, mais a expressão dele mudava, parecia que ia relaxando, como se estivesse carregando esse fardo por muito tempo... Penso em todas as vezes que ele já quis me falar e não teve coragem. Quanto tempo ficou pensando em como me falar sem que eu ficasse irritada?! Pensando assim, me arrependi por ter rido.
- Tem mais uma coisa que queria te falar... – e novamente aqueles olhos castanhos miraram os meus e me fizeram encolher meus ombros.
- D-Diga... – gaguejei inconscientemente, quando percebi me recriminei mentalmente até ouvir a respiração profunda que ele deu.
- E-Eu Gosto de você, Layla-chan... Gosto mais do que um amigo deveria gostar. Não sei se pode aceitar meus sentimentos depois de ter mentido para você, mas...
Com um sorriso doce nos lábios interrompi a sua fala colocando meu dedo indicador em cima dos seus lábios e deslizando-o depois pelo contorno de sua face. Meu olhar acompanhou o movimento da minha caricia. Parecia que estava em um sonho... Aquele Yuu ao qual me vi apaixonada estava ali na minha frente confessando sentir o mesmo por mim. Não consegui conter meu sorriso de aumentar e iluminar minha face, logo um sorriso desabrochou nos lábios dele também e as palavras se tornaram desnecessárias.
Nossos corpos esqueceram que estavam num lugar publico e fizeram nossos rostos se aproximarem, depois nossos lábios e quando percebi meus sentidos estavam todos em estado de alerta com o beijo de Yuu...
O cheiro quente do café e dos salgados folheados que as atendentes serviam nas mesas se misturavam com o cheiro amadeirado do perfume na pele dele. Nossas mãos se entrelaçavam sob nossas coxas e me arrancavam arrepios junto com o toque carinhoso que a língua dele dava na minha. Ao longe podia ouvir uma música se misturar com o barulho do café expresso sendo preparado, tudo muito baixo, já que o único som que podia ouvir mais claramente era a palpitação violenta do meu coração contra o meu peito.
Como em todos os momentos que estava com ele, para mim, aquele primeiro beijo se prolongou longamente numa viagem de anos-luz por todas as galáxias e constelações, até que percebi que não conseguia respirar no espaço e tive que voltar imediatamente para a terra... Para a última mesa do canto esquerdo daquela cafeteria, onde meus lábios já haviam se separado dos dele.
Nossos olhares se encontraram novamente e sorrimos como dois bobos um para o outro por um bom tempo.
- Posso considerar isso como um sim?! — perguntou
- Deve... – respondi retribuindo o seu sorriso. Ficamos em silencio por um curto período de tempo, até que finalmente me pronunciei chamando pelo seu nome e desviando o meu olhar rapidamente para nossas mãos entrelaçadas, mas logo levantei para mirar novamente seus olhos.
- Diga.
- Você... Ainda vai me amar amanhã?
- Para sempre – ele sorriu, um sorriso tão sincero que não me deixou duvida. Me fazendo sorrir também.
Permanecemos ali, trocando caricias e conversas curtas em forma de sussurros por tanto tempo que os restos do café que Yuu comprou já haviam esfriado.
“Nada mudou desde aquela época
Antes, eu cuidava de você. É engraçado, não é?”
Continua...
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Notas finais
Mas e ai?! Mereço reviews mesmo assim? =P
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