Kaos - A Lenda de Asay
2 A Embaixatriz da Tárcia
Notas iniciais
Eu estava em Siracusa, no lugar onde meus pais nasceram e cresceram. Aquele momento me trazia muitos sentimentos, alguns eu não sentia há anos, outros eu tentava ignorar e agora estava muito difícil. Seria melhor eu ser bem objetiva, não é mesmo?
– E então — disse tio Proteu se afastando para me olhar -, como estão Simbad e Marina? — ele perguntou sorridente.
Eu dei um sorriso rápido.
– Eles estão mortos — eu disse por fim e o sorriso dele sumiu.
– Oh, eu sinto muito — ele pareceu ficar abalado. — Desculpe mas, quando isso aconteceu?
– Minha mãe quando eu tinha quatro anos e meu pai eu tinha oito, quase nove.
– Eu...
– Eu sei, sente muito — dei uma risadinha. — Mas eu estou bem, foi há muito tempo — ele deu uma risadinha olhando para mim.
– Tudo bem, desculpe é que... foi uma notícia muito nova pra mim — disse tio Proteu e eu concordei com o olhar, entendendo a situação emocional que ele se encontrava. — Bom, deixe-me apresentar você. Essa é a minha esposa Julia — ele me apresentou a uma mulher de longos cabelos dourados que caíam levemente em seu vestido em tons diferentes de vermelho, o que não era bem um vestido, era como uma saia transparente longa e uma calça bem colada por baixo com uma sapatilha preta, um pano vinho sobre o braço e caindo ao longo da saia, era muito bonito, assim como o pequeno enfeite de cabelo que parecia uma flor ao lado. — Julia, essa é Kaos, filha de Simbad.
– O seu amigo pirata? — ela perguntou com a voz doce.
– Sim, ele mesmo — ele respondeu sorridente.
– É um prazer conhecê-la Lady Kaos — ela disse abaixando levemente a cabeça.
– Eu não sou Lady — eu disse dando uma risadinha. — Eu sou uma Capitã e uma Lorde Pirata. É um prazer conhecê-la Lady Julia — eu disse imitando-a e ela e tio Proteu deram uma risadinha.
– Você é uma embaixatriz também, não se esqueça — disse tio Proteu e eu fiquei surpresa, quantos títulos eu poderia ter nesse mundo? Dei uma risadinha interna. — Bom, acho que você já conheceu o meu filho Mario, não é mesmo? — ele apontou para o Capitão Sem Nome.
– Ah, então esse é o seu nome — eu disse encarando-o e colocando a mão na cintura. Ele deu uma risadinha.
– Me desculpe — ele disse com aquele sorriso charmoso -, eu não tinha certeza do que queria com meu pai e não sei se descobrir que eu era filho dele seria uma boa opção.
– E trazê-la para me matar foi sua melhor escolha? — perguntou tio Proteu e Mario riu.
– Ela não ia te matar e aqui tem muitos guardas para protegê-lo — como se guardas fossem realmente me impedir, pelos deuses. Comecei a rir. — Mas eu senti que as intenções dela não eram ruins, ela escolhia as palavras com cuidado — ele disse esticando a mão para mim e eu entreguei minha mão. Ele a beijou — É uma prazer conhecê-la Kaos, filha do melhor amigo do meu pai — ele disse com um sorriso, soltando a minha mão.
– Igualmente Mario — eu disse rindo da minha forçada cortesia.
– Tem também a minha filha Dora, mas ela não pôde descer conosco hoje. Ela disse estar ocupada. Mas teremos uma festa devido ao sucesso de Mario em sua missão.
– Não foi por matar piratas, não é mesmo? — eu perguntei desconfiada.
– Não. Não matamos piratas simplesmente porque são piratas, não é mesmo?
Ele sorriu e eu sorri de volta. Nunca me senti uma pirata tão amada e respeitada em uma cidade que não fosse de piratas.
– Bom, esses são Kyle, Rato, que acredito que você se lembre deles — tio Proteu concordou. — E esse é Jack.
Jack abaixou o chapéu cumprimentando-o.
– Vocês ficarão para a festa, não é mesmo? Por favor, serão meus convidados de honra — disse tio Proteu.
– Sim, claro — eu respondi rapidamente.
– Ah que ótimo. Vamos entrando, temos quartos para se hospedarem e daremos roupas a vocês para não ficarem tão estranhos na festa. Devem estar bem cansados, não é mesmo? — eu concordei sem perceber.
Jack e eu ficamos no mesmo quarto. Olhei tudo ao redor, era muito lindo, tudo! Eu só estive naqueles corredores uma vez em um sonho que tive no Holandês. Era tudo de um azul, roxo, azul marinho, tão sutis e todos os detalhes dourados, praticamente tudo era ouro de verdade e eram pedras preciosas de verdade. Fui até a janela, abri as cortinas de cetim brancas e abri a janela, vendo a cidade quase que por completo, eles viviam entre as montanhas, era tudo tão lindo, tão diferente de Port Royal, tão harmônico, tão... lar.
– Vamos ficar só essa noite, certo? — disse Jack.
Olhei para trás e ele via os objetos de ouro. Tomei o objeto da mão dele e coloquei de volta no lugar.
– Não vamos roubar nada daqui Jack.
– Não estou roubando, estou pegando sem pedir permissão.
– Daqui não Jack, por favor — eu disse seriamente. Jack ficou me encarando por um tempo até que aceitou obedecer ao meu pedido.
– Só porque é realmente importante pra você.
– Obrigada — eu disse tocando no nariz dele.
Alguém bateu à porta duas vezes, fui abrir e eram dois empregados, um deles carregava roupas. Eu as peguei e o outro trazia uma tiara, na qual eu fui pegar e ele recuou um pouco.
– Lady Kaos, o Embaixador Proteu pediu que dissesse que essa tiara pertenceu à sua mãe, Lady Marina — ele então ofereceu a tiara a mim.
– Obrigada — eu disse pegando a tiara com delicadeza.
Eles se curvaram e saíram. Fechei a porta com o pé e coloquei as roupas sobre a cama. Fiquei olhando a tiara. Ela era dourada, de ouro de verdade e tinha uma esmeralda no centro.
– Foi da sua mãe? — Jack perguntou observando-a comigo e eu balancei a cabeça positivamente. — Quanto você acha que ela vale?
– Muito — eu disse. — Mas ela não será vendida, nunca.
– Esperava que fosse dizer isso — disse Jack indo até uma outra porta e assim que a abriu ele me chamou. Coloquei a tiara devagar sobre a cama e fui correndo ver. Era um banheiro co uma banheira enorme e brilhante de tão limpa.
– A água deve ser tão quentinha — eu disse.
– Quer tomar um banho bem quentinho? — disse Jack mordendo o lábio inferior e olhando pra mim, eu respondi que sim.
Nós entramos na banheira e deitamos um do lado do outro. Ambos suspiramos ao mesmo tempo.
– Ah que delícia — eu disse de olhos fechados sentindo aquela água quentinha e gostosa no meu corpo.
– Vou te dizer que há muito tempo eu não tomo um banho tão quentinho e calmo como esse — disse Jack ao meu lado.
Aquele momento me lembrou o meu primeiro banho quentinho e calmo em Port Royal, era muito relaxante, por mais nervosa que eu estivesse, eu tinha gostado daquele banho, mas não queria demonstrar. Assim que eu e Jack terminamos o banho, nos enrolamos na toalha macia e branca para enxugar, parecia de puro algodão. Fui girando até a cama e então me joguei nela, uma enorme cama de casal com o colchão mais macio do mundo, pareciam os braços da minha mãe me envolvendo para cantar uma cantiga do mar.
– Jack?
Senti ele ficar por cima de mim apenas com a toalha amarrada na cintura.
– Esse colchão depois desse banho, está me dando sono — eu disse.
– Sono? — ele perguntou e eu ri, acabei de quebrar o clima do momento.
Eu o girei, ficando por cima dele.
– Muito sono — eu disse começando a beijar o pescoço dele e a procurar por debaixo da toalha dele.
Ele tirou a minha toalha e então nós nos beijamos. Acho que eu podia classificar aquele dia como um dos melhores da minha vida. Eu estava na cidade dos meus pais, reencontrei meu tio, estou com a tiara da minha mãe, estou no palácio onde meus pais se conheceram e com o homem de quem gosto pra caramba. Simplesmente perfeito.
Assim que voltamos a respirar normalmente, nos agarramos mais um pouco e depois começamos a nos arrumar para ir para ir para a festa. Decidi me vestir no banheiro, não queria que Jack visse a explosão de sentimentos que eu poderia sentir. Então fui colocando a roupa. Minha blusa era uma camiseta larga e azul marinho. Coloquei uma saia que vinha até minha cintura e coloquei a camiseta por dentro, deixando a camiseta um pouco frouxa. A saia era na diagonal, ou seja, curta de um lado e longa do outro. Havia também uma calça bem colada que era um pouco mais escura que a saia. Havia um cinto para colocar com a saia que era preto e tinha umas pedras douradas que pareciam moedas que caíam por cima da saia deixando-a ainda mais bonita. Calcei as sapatilhas pretas e meu pé ficou parecendo menor. Havia também uma pulseira dourada com minúsculas pedrinhas de safira espalhadas, uma pulseira que ia ao encontro do meu anelar e eu a coloquei na minha mão esquerda. Decidi me olhar no espelho e meu coração saltitou. Eu estava me sentindo... uma princesa. Engraçado como eram tão diferentes das pessoas de Port Royal, as roupas eram tão mais confortáveis do que aqueles espartilhos irrespiráveis. Eu me senti linda e não uma completa idiota com aquela roupa.
Agora faltava o toque final. Olhei para a tiara que estava sobre a pia. A tiara da minha mãe. A tiara que ela usava, que estava na cabeça dela, envolvida no meio de seus cabelos. Meu coração pulou muito. Eu olhava para o espelho, olhava para mim e tentava imaginar como seria a minha vida se meus pais decidissem viver em Siracusa por minha causa, se eu fosse uma embaixatriz e ficasse ali. Provavelmente eu não aguentaria, assim como a minha mãe, seria a mesma coisa todos os dias, seriam muitas responsabilidades e nenhuma emoção, que é o oposto da vida que levo, da vida que amo ter.
– Kaos? — Jack disse após bater na porta duas vezes. — Você vem?
– Sim, pode ir na frente. Preciso me preparar um pouco — eu disse respirando fundo. — Coma e beba bastante — eu disse dando uma risadinha.
– Tudo bem — ele deu uma risadinha de volta. — Não demore, as pessoas daqui são um pouco estranhas, eles... não querem me matar, me prender ou parecem temer que eu roube algo — eu ri e ele também.
– Bem-vindo à Siracusa, o lugar das pessoas que me amam pelo que eu sou — eu disse.
E então fez silêncio, provavelmente Jack se fora e agora éramos só eu e a tiara.
– Queria que estivesse aqui mãe — eu disse para a tiara. — Como seria?
Então comecei a imaginar se nós três estivéssemos ali. Papai diria animado que era bom estar ali com Proteu novamente. Minha mãe estaria me arrumando, arrumando meus cabelos, minha roupa, ajeitando a minha saia. Meu pai então me pegaria no colo e me bagunçaria, como ele costumava fazer. Ele diria que essa vida era chata, mas tinha comida e bebida por conta do príncipe. Mamãe estaria rindo por ele dizer de bebida e então ele me chamaria de princesa, a princesinha do mar e me carregaria como um troféu pelo castelo, me exibindo para todos, a sua pequena Kaos. Mamãe nos olharia com um sorriso lindo e com os olhos brilhantes, ela nos amava tão incondicionalmente. Aquele sorriso de amor e orgulho era como ela estaria olhando para mim nesse momento. Eu sorri, peguei a tiara e coloquei na minha cabeça. A tiara ficava na testa. Abaixo do cabelo na parte de trás, mas a esmeralda ficava na testa. Era tão linda que fiquei admirando-a por um longo tempo até que finalmente decidi ir para a festa.
Respirei fundo e comecei a andar devagar pelo corredor, era muito diferente andar de sapatilha, ela era pequena e eu conseguia sentir o chão mais facilmente. Meu coração saía do ritmo, eu não tinha ideia do que podia acontecer e eu estava com medo de me perder ali, de deixar de ser a Capitã Kaos, a acolhida por Eris, a mãe do Kraken, uma Lorde Pirata, era isso que eu era. Se bem que... agora eu era Embaixatriz da Trácia também, o cargo que minha mãe tinha. Meus pais me deixaram títulos tão importantes, além dos que eu consegui por conta própria e sim, eu estava nervosa.
Cheguei então em uma enorme porta e vi muitas pessoas conversando em bebendo mais ao centro do enorme salão. Pude ver Mario conversando alegremente com uma mulher, vi várias mulheres tão elegantes quanto eu ou até com um pouco mais de pano, eu estava procurando meus homens, para não sentir tão deslocada, até que tio Proteu me surpreendeu, aparecendo gentilmente ao meu lado e me oferecendo o braço.
– Seja bem-vinda Kaos — ele disse.
– Obrigada — eu disse um pouco sem graça.
– Se me permite dizer, você está linda.
– Obrigada — eu disse de novo meio tímida. — Ah e obrigada pela tiara da minha mãe, como a conseguiu?
– Seu avô mandou trazê-la.
Avô? Fiquei um pouco desorientada.
– Olá Embaixador — disse uma mulher se curvando.
– Olá Lady Catherine — Proteu respondeu. — Quero lhe apresentar a convidada de honra da noite: Capitã Kaos, a Embaixatriz da Trácia, filha de Lady Marina — eu gostei muito de todos os títulos que ganhei.
– Oh, olá Capitã Kaos — ela disse de modo delicado. — Que prazer enorme conhecê-la. Você lembra muito Lady Marina, seu jeitinho de olhar e se sorriso, sua espiritualidade também, jeitinho tímido mas que não tem nada de tímida, acertei?
– Acho que sim — eu ri com ela.
– Nossa, até o timbre da risada se parece, incrível. Lady Marina veio também?
– Não, ela está morta — eu disse de maneira simples e o sorriso dela se desfez e foi substituído pelo susto e uma mão indo até a boca dela.
– Oh, pelos deuses, eu sinto muito — ela disse. — Realmente sinto muito — os olhos dela começaram a se encher de lágrimas. — Me desculpe é que eu e Lady Marina éramos muito amigas quando jovens e... bom...
Eu peguei a mão de Lady Catherine e ela se assustou.
– Tudo bem, eu sei como é, afinal ela é a minha mãe, sem ela eu não existiria — ela me olhou nos olhos intrigada. — Quando ela morreu eu tinha quatro anos e precisei de dois dias para chorar por ela e quando eu chorei, foi o choro mais sofrido que já dei em toda a minha vida, eu gritava bem alto e chamava por ela, acho que chorei durante dias, só parava para dormir e meu pai teve que me consolar sofrendo pela perda também e ainda cuidar do navio. Então tudo bem, não precisa se desculpar, pode chorar por ela. Ela está bem, está com meu pai — eu disse e ela sorriu de volta como agradecimento. Claro que ela ficou com pena quando eu disse que ela estava bem com meu pai, ela achou que eu dizia aquilo para me confortar mas a verdade é que eu havia visto quando pulei no centro do redemoinho. O bom foi que consegui confortá-la um pouco.
Então olhei para o lado e vi meus homens.
– Com licença tio Proteu, Lady Catherine — eu disse.
Eles curvaram a cabeça levemente e eu fui até Kyle, Rato e Jack. Cheguei rindo.
– Vocês estão tão estranhos — eu disse.
Kyle estava sem camisa, não havia uma camisa que coubesse nele e rato estava com uma blusa bem comportada e seus cabelos finos levemente penteados para trás, ele parecia tão cortês. Jack estava do mesmo jeito, mas com uma roupa de Siracusa que parecia muito com a de tio Proteu, mas era menos chique.
– A Capitana está divina — disse Rato. — Parece lo dia em qué encontramos Marina pela priméra vez em la fiesta, se lembra? — ele perguntou para Kyle.
– Sim, muito parecida — disse Kyle sorrindo. — Ambos estariam felizes em te ver aqui.
Sorri para eles.
– Bom, nunca vi sua mãe na minha vida, mas tenho que admitir que está linda mesmo sem toda a roupa pirata. Sabe as roupas de princesa daqui te valorizam muito mais do que aquelas que te vi pela primeira vez em Port Royal. Se eu te conhecesse aqui acho que ia gostar de você logo de cara — Jack me analisava.
– Talvez eu também iria, já que tenho tendências piratas em minha descendência — eu ri e Jack me acompanhou. — Então, o que temos para beber — eu disse tomando o copo de Jack e olhando dentro.
– Suco de uva — ele disse desanimado.
– Vinho? — eu também disse desanimada e tomei um gole.
– Sim.
– Por que não rum? — eu disse sentindo o vinho como se fosse suco de uva.
– Você falou com seu tio sobre o navio? — Jack perguntou.
– Ainda não — respondi.
– Por que?
– Não tive a oportunidade — eu disse enquanto olhava para a festa.
– Então eis que vem a oportunidade — disse Jack olhando para o lado em que tio Proteu se aproximava.
– Me desculpe por Lady Catherine, Kaos.
– Está tudo bem tio. Ia dizer que foi o mesmo lá fora mas não foi, piratas são um pouco menos sentimentais, geralmente eles sentem muito apenas uma vez — eu disse rindo e tio Proteu riu comigo.
– Incrível como você me lembrou muito Simbad agora — ele disse e eu comecei a rir.
– É... sabe, lá fora eu descobri muito sobre o meu pai, herdei títulos como a de Lorde Pirata e meu nome é praticamente um legado da história dele, além de umas outras coisinhas que ganhei dele, mas aqui eu posso descobrir as coisas da minha mãe e também herdar títulos dela e eu acho que... — olhei para a festa e imaginei a relação daquelas pessoas com a minha mãe — acho que estou disposta a conhecer mais sobre a minha mãe — eu disse sorrindo e com os olhos brilhantes.
– Sei de alguém que pode te ajudar muito em conhecer sua mãe. O seu avô — disse tio Proteu.
– Avô — eu repeti a palavra. O pai de minha mãe. Fazia sentido, quem melhor para falar da minha mãe do que o pai dela, não é mesmo? Mas eu estava pronta para aquele encontro? Eu conseguiria encará-lo, conseguiria dizer a ele que a filha dele está morta? Conseguiria encará-lo enquanto ele via traços marcantes da minha falecida mãe em mim? Eu conseguiria ser forte?
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