Kaos - A Lenda de Asay
3 Uma Segunda Chance
Notas iniciais
Era isso, tio Proteu ia buscar o meu avô.
– Me dá isso — peguei a taça de vinho das mãos de Jack e dei um gole. — Ah, isso é fraco demais — eu disse devolvendo a taça a ele.
– Concordo.
Então alguns minutos depois, tio Proteu chegou acompanhado de um homem idoso que tinha um enorme sorriso no rosto e meu coração explodiu e eu fiquei encarando-o.
– Esse é...
– Tulio — ele esticou a mão para mim interrompendo a apresentação de tio Proteu. Ele também me olhava hipnotizado, mas parecia mais encantado.
Olhei para a mão de Tulio, a mão do meu avô, a mão que pegou várias vezes as mãozinhas da minha mãe. Decidi então esticar a minha.
– Kaos — eu disse e ele beijou a minha mão.
– Kaos é um nome interessante, foram seus pais que escolheram?
Eu assenti devagar. Eu queria perguntar coisas a ele, queria abraçá-lo, queria saber se ele me ama, queria chorar e pular de alegria, queria ser uma menininha animada de ver seu avô, queria abraçá-lo e contar toda a falta que sinto da minha mãe, queria que ele me acolhesse e me chamasse de amada neta. Então eu saí correndo para longe dele.
– Kaos? — ouvi tio Proteu chamar.
Não olhei para trás e continuei correndo. Corri por um enorme corredor até chegar num grande espaço vazio, um lugar que eu conhecia de um sonho no Holandês, o lugar da execução do meu pai que foi interrompida por Eris. Fui até o meio daquele espaço aberto e comecei a chorar.
– Você gosta disso não é? — eu disse com raiva para o enorme espaço vazio, eu conversava com Eris e tentava não chorar. Cada lágrima que escorria eu ficava com mais raiva ainda. — Não, eu não vou ceder, eu não sou uma garotinha com medo — fiquei dizendo para mim mesma. — Pare de chorar, pare! — bati o pé no chão e ele rachou um pouco. Fiquei ainda com mais raiva por perder o controle dos meus poderes de deusa. Droga, pare de chorar sua fraca. Fraca! Soquei a pedra da execução e ela rachou.
– Kaos? — congelei ao ouvir me chamar e fiquei olhando para o horizonte. Tentei enxugar minhas lágrimas o mais rápido possível. — Kaos, o que está acontecendo? — percebi que era Mario.
– Nada — respondi sem olhar pra ele e tentei me acalmar com o vento batendo em meu rosto.
– Bom, você viu o seu avô e saiu correndo da festa, acho que tem alguma coisa acontecendo.
Respirei fundo e olhei pra ele, com o vento batendo do lado contrário, agora meus cabelos vinham para a minha cara.
– Por que veio atrás de mim? — perguntei.
– Fiquei preocupado. Sei que meu pai está animado de te ter aqui, ele falava de ir te visitar há um tempo mas ele não sabia como encontrá-los. Peço desculpas pelo egoísmo do meu pai.
– Seu pai não é egoísta — eu disse enxugando rapidamente uma lágrima. — É só que... eu estou assustada.
– Assustada?
– Sim. Os piratas não são tão sensíveis ou sentimentais com a morte de seus colegas. Eles sentem muito apenas uma vez e basta, continuam a viver, mas aqui, as pessoas sentem a morte com grande pesar, as pessoas quase choram como eu e meu pai choramos quando perdemos minha mãe. Eu não posso ficar tão fraca e vulnerável assim Mario.
– Quem disse isso? Seu pai?
– Não. Ninguém me disse isso, a vida me ensinou a ser assim. As vezes que fui vulnerável quase custaram a minha vida. No momento em que perdi meu pai eu aprendi a ser forte, nada de choro e sim planos de sobrevivência. Não posso ficar fraca por qualquer coisa.
– Kaos, a morte dos seus pais não é qualquer coisa. É algo pelo qual você pode chorar. Pelo qual você deve chorar.
Fiquei olhando para Mario e me deu vontade de chorar, mas eu prendi o choro. Eu o achava tão desprezível porque ele me tornava fraca.
– Mario, eu sou uma Capitã, uma Lorde Pirata, não posso ser sensível, não posso ser fraca, se eu fosse fraca estaria presa em um lugar desprezível chamado Port Royal. Eu fui ao Tártaro, acha que eu conseguiria ter ido se fosse sensível? Fiquei em um ninho de traidores que combinavam planos particulares, que só queriam se aproveitar da aventura. Um bando de víboras.
– Agora você está cercada por pessoas que te ama, te admiram, são sua família e amaram seus pais incondicionalmente. Aqui, além de ser Capitã e Lorde Pirata, você também é a Embaixatriz da Tárcia. Por que não aceita esse título deixado por sua mãe?
– Aceitá-lo é o mesmo que ser fraca?
– Não. Aceitá-lo é o mesmo que deixar seus sentimentos fluírem entre nós — Olhei para além dele e me abracei. Não queria que Jack me visse assim, ele nunca me vira fraca e vulnerável antes. — Olha — ele se aproximou e pegou em meus braços -, estamos sozinhos aqui, seus homens não verão nada. se quiser chorar, pode chorar.
Olhei nos olhos de Mario, porque os olhos dele eram tão reconfortantes? As lágrimas vieram tão naturalmente que me assustaram. Eu ainda tentava prender, mas dessa vez elas saíram muito depressa. Enxuguei as lágrimas e respirei fundo. Soltei as mãos de Mario de mim.
– Basta. Estou bem — eu disse enxugando a última lágrima.
– Acho que ainda não — disse Mario com o sorriso charmoso.
Semicerrei meus olhos, ergui minha cabeça e saí caminhando de volta para a festa. Entrei na festa, meus olhos encontraram os de Jack, peguei um pedaço empanado de peixe, comi, bebi um pouco de vinho, devolvi o copo e fui andando em direção ao quarto em que estava hospedada. Acho que eu não aguentava mais a festa. Cheguei no quarto, sentei na cama com as pernas cruzadas, tirei a tiara e fiquei observando-a. Jack de repente chegou no quarto.
– Kaos, você vai voltar para a festa? — ele perguntou.
– Não — eu disse sem tirar os olhos da tiara.
– Ótimo! — ele disse fechando a porta. — Posso tirar toda essa baboseira agora — ele disse tirando a roupa que deram a ele.
– Você ficou mesmo muito idiota nela — eu dei uma risadinha. — Não combina com você. Acho que é por causa do cabelo — apertei os olhos para tentar achar algo. Ele jogou a blusa na minha cara, eu tirei e comecei a rir.
– O que aconteceu com você? Kyle disse que era melhor não ir atrás de você.
– É, ele estava certo.
– Ah que bom. Me senti o pior amante do mundo sem ir atrás de você — disse ele sentando ao meu lado de pernas cruzadas e sem camisa, apenas com sua calça de costume e descalço.
Dei uma risadinha e continuei olhando para a tiara.
– Sabe do que você precisa? Pedir logo o navio para o seu tio, aí vamos embora desse tormento.
– Acho que darei uma segunda chance para conhecer meu avô primeiro — eu disse determinada e Jack se jogou de costas na cama. Me sentei na cintura dele.
– Calma Jack, só mais um pouquinho e nós vamos, eu prometo — eu disse rindo.
– Você é má. Nunca fiquei tanto tempo em uma cidade sem ser na cadeia.
– Está reclamando de ser bem tratado? — eu ri ainda mais.
– É estranho. Nenhuma corda, nenhuma adrenalina, nenhum plano de fuga.
Nós rimos. Era realmente muito estranho estarmos em um lugar sem confusão. Mas estava pacífico pra ele, enquanto eu estava me destruindo em meu interior. acho que eu era masoquista, de certa forma.
Na manhã seguinte coloquei a roupa da festa de novo e a tiara da minha mãe. Jack acordou com a cara amassada.
– Já vamos embora? — Jack perguntou.
– Ainda não. Estou indo me dar uma segunda chance com meu avô — Jack se jogou na cama e reclamou impaciente. Peguei o rosto dele e dei um beijinho em sua boca. — Não vou demorar.
– Bom mesmo — ele disse com a voz embargada de sono.
Saí do quarto e fui andando pelo palácio que era incrivelmente lindo e gigantesco para todos os lados. No meio do caminho, perguntei a um empregado onde estava tio Proteu, eles me apontaram a sala de café da manhã. Cheguei perto da porta e um empregado a abriu para mim. Chegando lá, vi que todos estavam à mesa. Proteu, sua esposa Julia, Mario, a garota que tinha cabelos um pouco menos dourados que os de Julia que provavelmente seria Dona, a filha do tio Proteu e por fim, meu avô Tulio.
– Desculpe atrapalhá-los — eu disse um pouco sem fôlego.
– Não atrapalha de maneira alguma — disse tio Proteu sorrindo. — Sente-se conosco. Onde estão seus homens?
– Provavelmente dormindo — eu disse enquanto me aproximava da mesa que estava com um incrível banquete. Me sentei próxima de Tulio, propositalmente.
– Pelo perdão pela animação de Proteu na festa de ontem, eu disse a ele que estava pesado demais pra você — disse Julia delicadamente.
– Está tudo bem. É só... muita informação para uma noite — eu disse rindo.
– É verdade que o mar é tão incrível quanto dizem? Meu irmão sempre vai, mas eu fico aqui, presa, pode ser perigoso pra mim, é o que eles dizem — disse Dona que parecia um pouco mais velha que eu e mais nova que Mario.
– O mar é realmente incrível e muito perigoso. Eu já quase morri um monte de vezes — eu disse rindo. — Você tem que estar muito bem preparado para encará-lo, porque o maior perigo são as pessoas, mais do que o próprio mar. Além de seres mitológicos e deuses — eu ri como se fosse algo comum. Olhei para o lado assim que coloquei um pedaço de pão na boca e meu avô me olhava com os olhos brilhantes e um sorriso doce.
– Me desculpe — ele disse quando percebeu que fiquei um pouco assustada. — me desculpe, é como ver minha Marina novamente, desculpe — ele abaixou a cabeça e ficou sem jeito. — Também sei que não gosta que fale sobre isso e... — peguei na mão dele para ele se calar e ele paralisou e me olhou na hora.
– Está tudo bem, eu gosto de parecer com a minha mãe — dei uma risadinha e um sorriso para ele. — Quanto mais me dizem que sou parecida, mais eu gosto. É como se eu a deixasse orgulhosa de alguma forma, sabe? Como se eu tivesse aprendido com ela e crescido com ela — Tulio deu uma risadinha e pegou delicadamente em meu rosto coma outra mão.
– Até o jeito de falar rápido e meio tímido é o mesmo.
– Me desculpe por ontem. Eu não sabia o que sentir, o que fazer, o que dizer...
– Tudo bem, eu também não sabia. Eu queria te abraçar mas parecia que você estava com medo.
– É que eu não sabia como lhe dizer que minha mãe morreu.
– Eu já sabia. Proteu me preparou para não falar nesse assunto e... vou deixar para chorar depois, porque agora estou aqui com a minha neta da minha querida filha que decidiu partir para viver a vida mais feliz. A neta que eu sempre quis ver e vê-la aqui, usando a tiara da minha Marina, a minha pequena Embaixatriz.
Me levantei e o abracei forte. Ele se levantou e me envolveu em seus braços, era muito gostoso aquele abraço. Ele me deu um beijo no topo da cabeça e eu o abracei mais forte ainda.
– Minha pequena, o que acha de ir conhecer a Tárcia? O lugar onde sua mãe cresceu?
Me afastei dele e o olhei animada.
– Eu adoraria — eu disse com um enorme sorriso. Ele sorriu de volta fazendo carinho em meu rosto e chorando de alegria, provavelmente porque era como ver minha mãe animada ali outra vez.
Minutos depois fomos para um navio em direção à Tárcia. pedi tio proteu para avisar para Jack que eu voltaria ainda hoje, pelo menos tentaria. Eu estava no navio do meu avô. Eu estava muito animada para chegar no palácio em que minha mãe cresceu. Meu coração pulava de alegria e Tulio sorria alegremente ao ver minha animação. Chegamos no porto e os cidadãos nos receberam com carinho. Alguns cochichavam assim que me viam. Ouvi alguns perguntarem se era Lady Marina e outro respondia que eu parecia nova demais para ser ela, alguns conseguiam deduzir que eu era filha dela e eu fiquei muito animada. Entramos em uma carruagem e fui observando a cidade pela janela. Ela era tão bonita, as pessoas eram tão felizes, vendiam suas mercadorias na porta de suas casas, outras andavam de todos os lados comprando tecidos, bijuterias, ou passeando com seus amados. Chegamos no palácio, ele era enorme e branco com detalhes em azul bem sutil. Parecia um castelo de princesa dos contos que Constance me mostrava.
A porta da carruagem se abriu, um homem esticou a mão para me ajudar e eu peguei. Desci da carruagem e Tulio apareceu me oferecendo o braço, eu o peguei e fui subindo as escadas principais com ele. esqueci de comentar do jardim, ele era magnífico, as flores tinham cores tão vivas que pareciam luzes coloridas. Passarinhos passavam até por dentro da casa, assim como borboletas. Era como chegar ao paraíso. E minha mãe trocou tudo isso pelo mar, para viver com meu pai. Minha mãe é mesmo incrível!
Tulio foi me apresentando todo o castelo, não era tão diferente como o palácio de tio Proteu.
– Gostaria de conhecer o quarto que foi de sua mãe? — Tulio perguntou.
– Adoraria — eu disse sorridente e animada.
Ele me levou até o quarto e assim que entrei eu me senti uma pessoa completamente diferente.
– Os móveis são dela, tudo dela. Não tive coragem de me desfazer das coisas, pensando que um dia ela voltaria. Quando soube que ela tinha uma filha, bom, eu comprei isto pra você — ele disse me entregando uma caixa e eu a peguei com cuidado. — Pensei que viriam você, ela e seu pai, gostaria muito de conhecê-los. Infelizmente não conheci o seu pai sem ser na execução que não ocorreu, graças aos deuses. E agradeço também a eles por terem me permitido viver para conhecer você pequena Kaos.
Eu sorri e abri a caixinha de presente, era uma luneta muito linda. Ela brilhava de tanto ouro que tinha nela.
– Uau, ela é linda — eu disse realmente encantada com a luneta. Virei a luneta e nela estava escrito: "Para minha amada neta Kaos, com carinho, Vovô Tulio". As lágrimas invadiram meus olhos sem eu conseguir pensar e eu o abracei muito forte. — Obrigada Vovô — eu disse com a voz embargada.
– Por nada meu amor — ele disse com a voz embargada também e me envolvendo em seus braços. — Bom, vou te deixar um momento a sós com o quarto da sua mãe — ele disse me dando um beijo na testa e saindo.
Abracei a luneta e olhei para todo o quarto. Era lindo, muitas coisas tinham detalhes em fios de ouro. Havia uma caixinha cheia de rubis a um canto, como se fossem balas. Haviam cavalinhos de ouro pela penteadeira dela e o mais interessante de tudo, era varanda dela que tinha uma maravilhosa visão para o mar. Mais a um canto, vi mapas e livros de navegação, com um pequeno barquinho de ouro. Minha mãe era mesmo apaixonada pelo mar e eu dei um enorme sorriso.
– Ela amava mesmo o mar, não é? — ouvi uma voz feminina que era nova para mim.
Me virei e vi uma garota de cabelos castanhos um pouco mais escuro que o meu, de olhos verdes penetrantes e com um sorriso sutil no rosto. Ela usava um coque e também uma tiara parecida com a minha. Ela também usava uma roupa parecida com a minha, mas a dela era lilás e diferenciava pelo pano cobrindo o corpo e também por ter mais bijuterias do que eu, até enormes brincos de argola dourados ela tinha e um colar de tiras douradas. A sapatilha dela tinha detalhes em ouro também. Eu acho que já a tinha visto em algum lugar, na festa talvez?
– Me desculpe entrar dessa maneira. Me chamo Laura, sou filha de Augustus, o irmão mais velho da sua mãe.
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