Os cortes bradavam ao vento como asas de pássaros que farfalham em sua migração apressada, eram como vultos prateados que brilhavam na escuridão da noite só superados pelas chamas que cercavam a cena. Estava escuro no bosque, aparentemente nenhuma luz além daquela que as chamas emanavam se pousava sobre o local, fazendo com que tudo tivesse um tom de escarlate vibrante. Além do som do metal cortando o ar, se ouvia o choque entre laminas e gritos dos combatentes que acompanhavam os seus golpes. Em torno destes dois combatentes haviam vários corpos jogados, que apesar de banhados pela luz, era impossível de identifica-los. A luta desenrolava equilibrada e com golpes quase sincronizados de espada, um dos combatentes usava uma espécie de alfanje, mas que aparentemente tinha menos brilho, mas não por ser suja ou de menor qualidade, mas o metal do qual era feita, isso é, se fosse metal, possuía uma propriedade diferente da de seu oponente, lamina deste que a cada golpe parecia vibrar como borracha.

Aquele que portava a lamina de aparência ordinária, trajava roupas esfarrapadas e sujas, além de sangue respingado por toda sua extensão, demonstrava uma inquietação no seu olhar, assim como sua lamina começava a vacilar. Seu oponente, apesar de aparentar ser bem mais novo, mantinha-se calmo e seus golpes, apesar de enérgicos, eram controlados e demonstravam grande habilidade. O desfecho que seguiu era o esperado, com o portador do alfanje incomum desarmando o seu oponente, que caia sentado, se apoiando com suas mãos no chão

–Vo... Você é um monstro! – Dizia o homem com sua voz vibrando de medo e raiva

Seu oponente passava a barra da manga de sua jaqueta de bucaneiro na lamina, como se a limpasse, mesmo ela estando alva.

–Perdoe-me – dizia a voz contida deste – Monstro eram os seus amigos, assim como o senhor é.

Ele apontava o seu alfanje para o peito de seu inimigo, que o observava com um pavor interno crescente. As luzes das chamas batiam nas maçãs do seu rosto, mas seus olhos ficavam ocultos nas sombras provenientes do tricórnio que este trajava.

–Estive no encalço de vocês por algum tempo... Não possuíam nenhum Drone ou Familiar, mas causaram muito problema tanto em Gaia, quanto em Braja... Assassinatos, latrocínios, estupros... Vocês me enojam, bom.. me enojavam.

O Olhar do homem ao chão mudava, reconhecia aquele que o mantinha sob a mira de sua lamina, seu pavor desaparecia e em seu lugar surgia uma fúria, que não só tomava conta de seu olhar, mas de todas as linhas de seu rosto, mas nada demonstrava tanto isso como o tom da voz que saía de sua boa quando ele proferia uma única palavra

–VOCÊ!

–Sim – Respondia seu adversário num tom quase de deboche, mas mais uma vez contido – Eu mesmo, “Aquele de fora”.

O homem agora tremia de raiva, assim como seus punhos se fechavam. Seu olhar fulminava o jovem em pé e seu rosto contraía mais ainda

–Você deveria morrer seu lixo de Gaij—

Com apenas um movimento de braço, o jovem calava o homem atravessando o peito do mesmo com a sua alfanje, a lamina larga da espada cortava o coração ao meio, fazendo o oponente puxar ar instintivamente, antes de cair para trás imóvel. O vencedor puxava seu alfanje de volta do peito e o balançava tirando o sangue da lamina, que estranhamente não se impregnava, provando as propriedades especiais do material desta. Em seguida, ele prendia a espada no seu cinturão, que era marrom e circulava a sua barriga em vez de sua cintura.

–E depois de tudo eu que sou o lixo? Poupem-me...

Sem olhar para os lados, ele caminhava para mais dentro do bosque, com a luz escarlate ficando para trás e as trevas o envolvendo como se engolissem a sua existência até ele sair de vista.