Kaleidoscope
1 Piloto
Já faz tempo que o sol não aparece, no mínimo uma semana. A maioria das pessoas acha isso ruim, elas acham que a chuva e o céu cinza trazem tristeza. Sei lá, não acho que o tempo seja a principal causa dos nossos sentimentos. Talvez se você tenha tido um dia terrível e tudo o que você deseja é chegar em casa, mas o trânsito te impede por causa da rua alagada, você pode até culpar a chuva pela sua angústia. Ainda assim, acho que o tempo é só um complemento, um fator favorável, mas não a razão primordial. Além do mais, já pensou em quão calmante é o som dos pingos de chuva contra o telhado?
São 2:30 da manhã, é domingo e eu não consigo dormir. Por mais que meu corpo esteja plenamente relaxado na cama, meus olhos fechados e meu ouvido atentamente concentrado na chuva, minha cabeça está um turbilhão. Meus pensamentos voam longe, mas ao mesmo tempo estão todos praticamente conectados. Todos voam ao redor dos meus problemas e ansiedades.
Uma notificação aparece na tela do meu celular, abro meus olhos e me levanto para ver. Joel me marcou em alguma piada idiota no Instagram. Respondo qualquer comentário inútil e tento voltar a meu estado de contemplação, mas o celular apita de novo.
“O que você está fazendo a essa hora? ”
“Te pergunto o mesmo. ” E acrescentei “Não consigo dormir. ”
“Vou te ligar, espera. ”
Voltei a deitar na cama com o celular na mão pronto para atendê-lo. Alguns segundos depois ele começou a vibrar. Atendi.
— Você não vai acreditar onde estou. – Seguido por risadas de várias pessoas, Joel atendeu, já claramente bêbado.
— Você é maluco, cara. Sério que você saiu hoje, domingo? Amanhã começa as aulas.
— Aff, se soubesse que ia levar sermão, nem teria te ligado. Enfim, você não tem noção. Tá geral aqui, Charlie, você precisa colar.
Pensei um pouco se seria uma boa ideia. Obvio que não. Sair a essa hora, certamente sem a autorização de meu pai, para beber um dia antes de começar as aulas. Somente um louco para fazer isso, ainda mais com um pai como o meu. Nunca que eu correria esse risco. Além de tudo, eu preciso muito me concentrar esse ano, minhas notas andam abaixando. Se continuar do jeito que estava, nunca que entro na faculdade que quero. Pronto, resolvido.
— É sério, todo mundo está aqui. Até sua vizinha!
Levantei num pulo. Me apressei a atravessar o quarto até a janela, abri a cortina e respondi que não era possível, já que eu conseguia vê-la deitada na cama. Pelo menos, havia um corpo embaixo das cobertas e uma luz fraca vindo de dentro do quarto. Além disso, reparei que a chuva cessou.
— Acho que você está vendo coisas, Charlie – acrescentou Joel, rindo. Algumas pessoas gritaram algo incompreensível do outro lado. – A gente está no parque do lado do Shopping, você sabe qual. Só falta você aqui.
Olhei mais uma vez para o quarto de Kayla e dessa vez, talvez porque estivesse prestando mais atenção nisso, vi que o vulto na cama não passava de travesseiros.
Merda.
— Como eu vou? Meu pai nunca toparia me levar. – Falei, já com vontade de ir
— Sei lá, pega um Uber! Só vem, porra!
— Charlieee – Ouvi uma voz diferente gritar no fundo. Logo ela pegou o telefone e reconheci quem era – Você sempre reclama que nunca está nos melhores rolês! Você precisa vir!
— Jasmine, você consegue me levar para casa depois? Seus pais vão te levar?
Rindo, ela respondeu que, na situação que estava, era melhor eu aparecer sem ela em casa. Ri e aceitando o convite, desliguei.
Suspirei para a vista e fechei as cortinas de novo. Coloquei algumas almofadas embaixo das cobertas e corri até o armário situado ao lado da cama. Vesti qualquer roupa e me preparei para sair de casa sem fazer barulho.
Sai do meu quarto, fechei a porta e respirei fundo. Meu pai sempre diz que tem sono pesado, mas nunca acreditei nisso. Fui pisando cautelosamente até chegar na escada. Desci um degrau de cada vez, parando sempre que a madeira rangia. Quando finalmente cheguei até a porta, soltei o ar que segurava sem perceber. Então destranquei a porta e consegui finalmente sair. Chamei o Uber só quando estava praticamente na rua e até ele chegar, fiquei apreciando a noite húmida, fria e não estrelada.
Obviamente, não é o tipo de noite convencional para sair. Ao contrário, é a noite perfeita para ficar em casa. Por que raios eles tinham decidido sair hoje? A pouco minutos atrás estava até chovendo. Tem umas pessoas muito desajuizadas na minha escola. Joel está virando uma delas. Jasmine está virando uma delas. Eu estou virando uma delas.
Minha carona chegou. Entrei no carro de um jeito meio atônito, com a cabeça cheia de pensamentos. O motorista provavelmente achou que eu já estava fora de mim. Principalmente porque passei a viagem inteira olhando para fora pensando em meus amigos. Calma, meu caro estranho que se submeteu a me levar para qualquer lugar que eu deseje, você ainda não viu nada.
O que tenho a dizer sobre Joel. Ele foi uma das primeiras pessoas a me acolher quando entrei na escola. As outras que dividem esse posto com ele não importam, porque já me abandonaram. Ele tem minha gratidão e companheirismo até a cagada que ele fizer me afetar de um jeito que estrague tudo. Eu digo isso porque ele já comprometeu nossa amizade algumas várias vezes. Talvez eu que seja trouxa, mas o perdoei todas as vezes. Claro que com certas limitações. Não confio mais nenhum segredo pessoal e importante com ele.
Enfim, eu gosto de Joel. Todos temos defeitos e problemas em nossas vidas que nos deixam ressentidos. Sobre a personalidade dele eu preciso dizer que ele é bem rancoroso e egocêntrico. Além disso, vingativo. Se você fuder com ele, pode esperar pela terceira guerra mundial. Porém, ele é engraçado e parcialmente leal, se você não o irritar.
Mas faz sentido. Sempre foi reprimido pelos colegas, família e sociedade em geral. Não é fácil se assumir gay já no começo do Ensino Médio. Obviamente que ele construiu essa personalidade extremamente agressiva e individualista. É como se fosse um escudo.
Eu o entendo plenamente. Afinal, todos nós damos algum jeito de nos proteger do julgamento da sociedade. Julgamento contra qualquer coisa: sexualidade, aparência, humor, personalidade, hobbys, cultura, gostos. Alguns transfiguram sua personalidade, seja deixando-a ofensiva e defensiva, como Joel, ou de uma maneira que os encaixem no padrão. Outros preferem rejeitar seus sentimentos que contradizem o “normal” e os transformam em ódio. E tem gente como eu, constantemente se escondendo e prendendo as preocupações e opiniões dentro de si, até um dia explodir.
Viramos à esquerda e meus pensamentos mudaram de novo. Agora pensava em Jasmine. Ela é um amor, porém tímida. Eu, que não sou uma das pessoas mais extrovertidas, não consegui ter uma amizade com ela até pouco tempo atrás. Ela é muito calma e pacífica. Nunca a vi alterada, nem gritando. Agora que a conheço direito, ela é muito engraçada e aberta, sempre querendo experimentar a vida. Nós dividimos esse sentimento de espirito livre. Não dividimos, porém, a tranquilidade. Eu sou um bocadinho cabeça-quente.
Jasmine é alta, poderia até ser modelo. Seu cabelo é castanho, mas com californiana loira. Olhos também castanhos, que antes eram acompanhados de um par de óculos preto. Mas ela resolveu usar lente.
Em pouco menos de dez minutos chegamos no parque e eu logo avistei o pessoal. Enquanto passava pelos grupos de pessoas, cumprimentava de longe. Conhecia a maioria, mas não queria cumprimentar todos individualmente. Eles nem ligaram, já estavam bêbados de mais para isso. Admito que não havia tanta gente como imaginei por conta do barulho no telefone. Mesmo assim, não valeu a pena identificar cada pessoa presente.
Cheguei finalmente ao grupo de amigos mais próximos e eles já me entregaram alguma bebida. Conversamos, bebemos e rimos até eu me lembrar do motivo o qual eu topei vir. Kayla.
Ela apareceu sorrindo, trazendo várias latas na mão. Distribui entre nosso grupo e sentou do meu lado. Estávamos em roda na grama, um pouco excluídos dos outros.
— Então quer dizer que você veio no final das contas? Estávamos até apostando, sabia? Falando nisso, alguém me deve uma breja. – Ela se dirigiu a alguns dos garotos
— O que te deu tanta certeza que eu viria? – Perguntei, dando mais um gole.
— Ah, Charlie, eu te conheço. Você não perde uma oportunidade de beber. Ou de fazer exatamente o que não deveria.
— Já eu apostei que você viria por outro motivo. – Intrometeu-se Drew. – Temos uma alma apaixonada entre nós, não é mesmo pessoal? Você veio só porque alguém já estava aqui.
Gelei. Se ele falasse o nome dela eu não conseguiria reagir.
— Eu obviamente! Você só queria me ver! – Ele brincou, como sempre. Eu deveria ter esperado por isso.
— Sempre atirando para todos os lados né, Drew. Para de ser desesperado, por favor. Você não para de denunciar que está na seca! – Falou Jasmine, fazendo todos rirem.
Respirei. Ele não sabe. Nenhum deles sabe. Eles nem sequer desconfiam.
— A gente bem que podia encontrar alguém para nosso querido Drew, hein? A noite mal começou. – Sugeriu Pete
— E quanto a você, Pete? Ainda pretende ficar com uma garota de cada série? Tem algumas meninas do ano abaixo aqui. – Provoquei
— Nem fala nada que em toda festa que eu te vejo, você está bloqueando meu caminho beijando alguém.
Corei. Kayla não precisava saber dessa informação.
— Ou, bora lá Pete. Eu te acompanho. – Disse Drew levantando. Então os dois foram se enturmar com o grupo das garotas do ano abaixo.
Então sobramos somente eu, Kayla, Jasmine e Joel conversando sobre assuntos sem sentindo. Conforme a noite foi passando, mais pessoas foram se juntando a nosso grupo, ao mesmo tempo que outras foram deixando.
Como sempre, terminamos perguntando segredos um para o outro e eu tenho que me segurar para não acabar me declarando. Às vezes eu até deixo escapar algumas insinuações, mas estão todos bêbados demais para lembrar ou ligar.
— Charlie, você se importa se eu deitar na sua perna? Eu estou muito tonta. – Perguntou Kayla, rindo. Respondi que sim e nos ajeitamos.
Ela deitou, mas não fechou os olhos. Kayla me encarava com aqueles lindos olhos verdes-amarronzados que são capazes de te hipnotizar. Seu cabelo macio, incrivelmente longo e liso fazia cócegas. Ela sorria e falava algo que eu não conseguia compreender, porque estava me segurando para não beijá-la. “Se segura Charlie. Se você fizer isso, a pior das piores merdas vai acontecer, e você sabe bem disso. Você sabe as consequências de um ato imprudente como este. ” Mas ela estava assustadoramente atraente deitada ali.
— Hey, você está me ouvindo ou dormiu? Eu acho que já vou para casa, quer ir junto comigo? A gente racha um taxi.
São 5 da manhã quando chego em casa. A primeira aula começa às 8. Fudeu.
Fale com o autor