Kaleidoscope
2 I
Já era a terceira vez que o despertador tocava, se eu não levantasse agora, meu pai teria que vir até aqui, o que, sem dúvidas, não seria agradável. Então, meio cambaleando levantei e fui até o armário. Sem acender a luz, escolhi minha roupa, rapidamente. Era só o primeiro dia de aula, não é como se toda sua reputação estivesse em jogo.
Andei até a janela para abrir as cortinas. Mesmo que provavelmente ele não apareceria, seria bom deixar o sol entrar um pouco no meu quarto. Quando abri, vi que Kayla já estava acordada. Ela arrumava sua mochila apoiada na escrivaninha embaixo da janela. Parecia normal, sempre mantendo a postura, ao contrário de mim. Eu mal conseguia manter a cabeça reta e os olhos abertos. Ela levantou o olhar e me viu. Acenei timidamente, mas ela deu um sorriso e abriu o vidro para dizer alguma coisa.
— Bom dia, Charlie. Teve uma noite tranquila? – Ela sorria, provocando.
— Te vejo na escola, Kayla.
Ela riu e fechou o vidro, voltando a arrumar a mala. Segui seu exemplo e fui fazer o mesmo.
Sinceramente, eu não lembro de Kayla antes de começar a falar com ela. É como se alguém tivesse tirado minhas memórias antes disso. Nossa amizade foi daquelas que, do nada, vocês começam a se falar e não conseguem mais parar. Daquele tipo que parece que vir de outras reencarnações.
Lembro que a primeira vez que conversamos foi por causa de alguma besteira que o Joel fez. Ela mal sabia meu nome, mas mesmo assim foi me apoiar. Foi a primeira grande briga entre nós dois. Foi a partir daí que parei de confiar nele.
Depois descobri que ela estava na minha classe de português e tudo ficou mais fácil. No começo, ela era a única pessoa que conhecia dali. Desde então, não vivo sem sua companhia.
Olhei mais uma vez pela janela e agora ela já estava na frente do espelho, prendendo o cabelo em um rabo alto. Ela nunca vai à escola de cabelo solto, diz que atrapalha. Não faz mal, ela fica linda de qualquer jeito.
Se às vezes a vejo de outro jeito, não importa. Sei que nunca seremos mais do que somos agora.
Suspirei e sai do meu quarto, descendo para tomar café-da-manhã.
— Foi difícil acordar hoje, hein?
Meu pai, como todas as manhãs, estava na cozinha preparando o suco de laranja que é simplesmente o melhor do mundo. Ele já estava completamente arrumado e surpreendentemente de bom humor. Minha cabeça ainda explodia de dor e a luz queimava meus olhos. Com certeza, ontem não foi uma boa ideia.
— Voltar a acordar cedo nunca é fácil. – Respondi como uma voz lenta e rouca, enquanto sentava na mesa da cozinha. Ele colocou o copo na minha frente e eu engoli de uma vez só. Deveria ter bebido mais água ontem.
A palidez tomou conta do meu rosto. Controlava a minha respiração e fazia de tudo para parecer normal. Mesmo assim, acho que todos esses esforços só me denunciavam ainda mais.
Meu pai não é violento, rígido ou autoritário. Pelo contrário, sua cabeça é brilhante. Mente aberta, crítico e extremamente engraçado. Ele tenta ser o melhor que pode, principalmente depois que ele e minha mãe se separaram. Portanto, ele é bem flexível. Isso desde que eu tenha minhas prioridades bem definidas. A coisa mais importante para ele é a minha educação. Por isso, quando peço para sair numa sexta-feira e ficar até amanhecer, ele até se oferece para me levar e buscar. Mas nunca me deixaria sair no meio da semana ou em um fim semana de provas.
Exatamente por ser assim, eu prefiro que ele ainda pense que sou um anjo. Na verdade, faço de tudo para não o decepcionar. Às vezes, faço até o além do necessário. Guardo segredos sobre meus sentimentos, sobre meus amigos, sobre as merdas que faço. É inimaginável a dor que sinto quando lhe conto alguma coisa e sou respondida por um silêncio massacrante e o olhar desapontado.
— Lembra que você precisa ligar para sua mãe hoje.
Assenti e continuei comendo meu café-da-manhã. Quando terminei, corri para meu banheiro e terminei de me arrumar. Além disso, terminei de organizar minha mochila. Desci para o carro e encontrei meu pai já me esperando com aquela cara de sempre. Aquela cara que não consigo decifrar. Na maioria das vezes, eu não sei o que ele está pensando.
— A aula termina no horário de sempre, né? – Ele perguntou assim que já tinha saído da garagem
— Acho que sim. – Respondi e passamos o resto da viagem sem trocar qualquer outra palavra, só ouvindo o rádio.
Antes do sinal bater, recebemos nossos horários e cada qual foi para sua respectiva sala. Minha primeira aula seria inglês, uma matéria que eu particularmente adoro. Ainda mais porque a partir desse ano, todas as matérias de língua focam em literatura. Digamos que sou da área de humanas.
Com ainda alguns minutos faltando para a aula começar, todos conversavam no corredor. A maioria estava animada em reencontrar os amigos, mas havia aquela parcela que não aguentava o barulho. A parcela das pessoas que foram no parque ontem.
— É só ver quem está com óculos escuros ou olheiras, para saber quem bebeu. – Disse Jasmine que, usando óculos escuros, sentou do meu lado. Concordei e acrescentei.
— Quer apostar quanto que vamos levar um sermão por causa disso?
— Aposto que vai ser da Carmen. — Então vimos ela andando em nossa direção – Mudei de ideia, agora eu tenho certeza.
Carmen é uma amiga nossa, também alta igual a Jasmine. Ela é uma ótima pessoa, nunca te deixará na mão. Porém, ela é muito mandona e, ainda mais, certinha. Nunca que ela deixaria esse “incidente” em branco. Assim, parando na nossa frente e colocando as mãos na cintura, começou
— Eu não acredito. Vocês sabem o quão grave é isso? Desculpa ser sincera, mas não é como se vocês pudessem desprezar desse jeito a escola! Sério?! No domingo antes de começar as aulas?! Quando será o próximo? Segunda-feira?! É inacreditável. Vocês estão estragando suas vidas.
E ela continuou pregando como fizemos a maior besteira do mundo e como somos irresponsáveis, até Pete interrompê-la.
— Carmen, Carmen... pode deixar, na próxima vez te chamamos.
— Me chamar? Você está doido? Eu chamo a polícia se eu ficar sabendo de alguma dessas suas... suas festas.
— Próxima vez a gente faz na sua casa, Carmen – Provoquei, fazendo todos rirem e concordarem. A essa hora, Kayla já tinha chegado.
— E pode deixar que arranjamos algum garoto bem gato para você. – Jasmine brincou
— Só lembrando que estou disponível. – Brincou Pete, encarando Carmen. Ela cobriu o rosto com a mão e negou com a cabeça. Rimos mais uma vez.
— Se a Carmen não quiser, Jasmine, fica a vontade em achar um para mim. – Kayla pediu, cutucando a amiga. As duas riram e Jasmine concordou, dizendo que precisava achar um para ela também. Depois disso, eu já não tinha muito interesse na conversa, mesmo se mencionaram meu nome algumas vezes.
Eles continuaram conversando sobre domingo, relembrando os melhores momentos e contando novidades. Por exemplo, Pete comentou sobre a incrível garota do ano abaixo que ele conheceu. Falou como ele esqueceu completamente do Drew e de nós, enquanto estava com ela. Perguntei seu nome e ele demorou cinco segundos para responder. Carmen parecia irritada. Pensei que começaria outro sermão.
Então, Kayla e Jasmine começaram a discutir sobre os garotos da escola. A principal conclusão, foi de que quase nenhum prestava. No quesito de beleza, as três concordaram que faltava muito para chegar a ser suficiente. Já sobre personalidade, Carmen se empolgou e começou a despejar falhas. Disse que todos só se importavam com bebida, garotas bonitas, impressionar os amigos e fuder. Não ligavam para estudo, comprometimento nem gentileza. Acredito que ela falou tudo isso só para afrontar Pete. O que deu certo, porque chamou sua atenção.
— Como assim? Vocês sabem como eu estudo para um caralho. Ha, vou te mostrar meu boletim.
— Uma nota dez não anula o fato de que vocês só se importam em fuder. Assim que conseguem isso, não querem mais saber da garota. Bebem e fumam para ter coragem de chegar em alguém. Tudo isso só por causa da pressão dos amigos, na maioria das vezes nem é por vontade própria.
— Ah, vai dizer que as garotas também não fazem isso. – Agora foi Gabriel que interrompeu. Ele estava conversando com o grupo de amigos dele, mas pelo visto prestava mais atenção na nossa discussão. – Se nós pegamos alguém, no final das contas, é porque tem alguém para pegar. As garotas também sentem a mesma intensidade de desejo que nós. Mas vocês, por causa de pensamentos como o seu, Carmen, reprimem isso umas nas outras. Nós fazemos não por causa da pressão, mas exatamente por falta dela. Já ouviu algum garoto chamar o outro de “vadia”? Nós só aceitamos melhor nossos instintos do que vocês.
Todos se calaram e Carmen até olhou para o outro lado, brava. Eu não queria me envolver, minha cabeça já estava doendo o suficiente. Mesmo assim, tinha algumas coisas que precisava desabafar. Acho que o sono fez eu esquecer minha inibição e comecei a falar, diferentemente do habitual, sobre minha opinião.
— Olha Gabriel, até entendo seu ponto e concordo com algumas partes dele. Mas, assim, tanto os garotos quanto as garotas sofrem pressão dos amigos. Cada um por um certo motivo, não dependendo somente do gênero. Também depende do tipo de amigos que cada um tem. Por exemplo, se todos seus amigos bebem, você se sente pressionado a beber também. Assim como, se nenhum deles curte esse tipo de festa, você se sente reprimido por gostar. Concordo contigo que as garotas reprimem a maioria, se não todo, do seu desejo sexual. Mas também por culpa dos garotos. Ou ah, vai dizer que nunca ouviu um garoto chamar uma garota de “vadia”. – Gabriel estava quieto me encarando. Ele realmente não esperava isso de mim. – Tem razão quando diz que o pensamento igual o da Carmen leva a essa “repressão”, mas, com todo respeito, o seu também leva. Os dois culpam o outro sexo, porque não querem aceitar que a culpa também é de vocês próprios. A culpa é de todos que escolhem não entender o outro lado, a outra versão. É assim que gera preconceito. Sério, a gente tem que parar de generalizar tudo.
Acho que pela primeira vez, Gabriel me olhou e realmente me viu. Ele é aquele tipo de garoto que só liga para os amigos dele e acha que todos o veneram. Provavelmente porque, como ele se impõe e diz sua opinião em quase todos os momentos, as pessoas têm um pouco de receio, se não medo, dele. Afinal, alguém tão seguro de seus princípios intimida quem não é. Então, certamente ele não pensava que ao falar sua posição ele teria um contra-argumento tão direcionado a ele.
O sinal bateu e o grupo de dispersou, sem comentar mais nada, nem um com o outro.
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