Notas iniciais
Desculpa a demora, a vida ainda um pouco corrida :/ Música: Parece Miragem - Gabriel Elias

O dia passou relativamente rápido. A manhã já estava quase acabando, logo iriamos almoçar. Só precisava passar por mais essa aula.

A professora entrou, cumprimentando todos. Os alunos iam entrando e sentando aos poucos. Fui até a última fileira e me sentei. Fiquei olhando para fora da janela, ignorando a típica introdução de boas-vindas que todos os professores fazem. Ouvi alguém puxando a cadeira ao lado, então me virei para olhar.

— Vou sentar do seu lado, tudo bem? – Kayla perguntou. Ela sorria e colocava o cabelo preso para trás dos ombros. Concordei com a cabeça e ela sentou – Você sabe que não vamos prestar atenção, né? Essa é a aula mais chata do mundo e eu vou conversar com você.

— Mas é física. Só a matéria mais difícil.

— Ah não, para. Conversa comigo. – Ela agarrou meu braço e o abraçou rindo. Meu coração deu um salto. – Deixa o sermão para a Carmen.

Rindo, concordei. Não estava esperando sua companhia. Geralmente, ela senta com as meninas da primeira fileira. Foi bem inesperado da parte dela. Eu sempre fico com os vagabundos do fundo. Sem conseguir prestar atenção, acabo participando das conversas sem sentido e das competições de avião de papel do pessoal daqui de trás. Talvez seja por isso que não vou tão bem em física.

— Comecei aquela série que você me recomendou, Sherlock. Estou extremamente apaixonada.

— Sabia que iria gostar. É incrível.

— Só acho o Sherlock bem, como se diz... – Ela parou e mordeu a ponta da caneta. Ficou olhando para o teto do jeito mais fofo que existe. Às vezes acho que ela me provoca de propósito.

— Pedante? Esnobe? – Ela concordou, animada – Mas essa é a melhor parte! Ele é um personagem tão peculiar, tão único. Além do que o Benedict faz um trabalho impressionante.

— Sim, eu entendo. Só fico com pena do John que é tão adorável e precisa aturar ele.

— Que fofa você. O que acha de assistir um episódio amanhã à tarde? Na minha casa ou na sua, tanto faz.

Antes que ela pudesse responder, Gabriel, que sentava na fileira da frente, girou a cadeira e nos encarou, furioso.

— Será que vocês poderiam fazer silêncio?! Estou tentando prestar atenção. – Ele me fitava com o olhar pegando fogo. Estranhei sua atitude. Na maioria das aulas de física, eu fazia ainda mais bagunça do que essa e ele nunca se incomodou.

— Nossa, relaxa cara. Nem estamos falando tão alto. Além do que, a professora mal começou a matéria. Não é como se isso fosse cair na prova. – Retruquei, já começando a me irritar.

— Vocês estão me atrapalhando, isso que importa. Da para parar? Ou seu ego é maior que sua educação?

— Ah vai se fuder, Gabriel. Não precisa ser grosseiro desse jeito. Se está tão preocupado em ir bem, senta mais para frente. Ainda tem lugares lá na primeira fileira. Você bem sabe como é o fundo durante essa aula. Além de que, pedir com gentileza não dói e nem custa nada.

Ele pareceu ficar ainda mais bravo, mas virou para frente quieto. Kayla olhou para mim um pouco assustada. Depois me passou um bilhete dizendo que alguém de cachinhos loiros estava de TPM. Ri mais alto do que deveria, mas logo me controlei. Paramos de conversar.

Não consegui prestar atenção no que a professora ensinava. Voltei a olhar para fora da janela. Ainda estava nublado, mas não parecia que iria chover. O ar estava quente e abafado. A sala parecia bem menor do que já era. Só queria sair dali. Mal começaram as aulas e meu maior desejo já era voltar para as férias.

Olhei para Kayla. Seria bom viajar com ela. Seria tão divertido, não descansaríamos um segundo, sempre fazendo coisas novas. Provavelmente iríamos para uma praia. Passaríamos o dia nadando no mar e tomando sorvete. Ela sentaria numa rede presa em duas palmeiras e escreveria poesias. Diria que tudo fica mais poético quando numa rede em frente ao oceano. Eu pediria para ler, mas ela recusaria. Quem sabe eu até me declararia no final da viagem. Quem sabe ela não diria que sente o mesmo. Quem sabe nós não começaríamos a namorar? Numa noite estrelada, enquanto estivéssemos ao redor de uma fogueira, eu diria que a amo. É Charlie, está sonhando muito alto.

Ela escrevia alguma coisa. Se apoiava totalmente na mesa, espalhando o cabelo preso nas minhas coisas. Aquele cabelo tão delicado e cheiroso. Queria tanto toca-lo. Queria toca-la.

—Psiu, o que você está escrevendo?

Ela levantou e me mostrou seu caderno.

“Parece miragem

Sereia de canga

Com olhos de mel

E cabelo da cor do sol...”

— Um de seus poemas? – Ela riu e negou com a cabeça.

— Quem me dera escrever algo assim. É uma música, muito boa, por sinal. Acho que você vai gostar, é bem a sua cara. Estilo meio praiano, sabe?

— Estilo praiano? Não sabia que tinha um estilo.

— Ah, mas você tem.

Sem entender muito bem, respondi que estava pensando numa praia agora mesmo.

— Viu? Sempre pensando no mar. – Ela complementou, rindo.

— Charlie, você realmente vai começar o ano já conversando durante a aula inteira? Ano passado foi tão atormentado, por que você não começa a sentar na frente? – A professora parou de explicar para me dar uma bronca. Me segurei para não gritar que ela estava exagerando. Gabriel deu um riso abafado. Mordi meu lábio de raiva.

Ele realmente estava me provocando.

Quando o sinal bateu, já tinha meu material todo guardado e não demorou mais de um minuto para sair da sala. Fui para meu armário guardar minhas coisas. Encontrei Joel e comecei a conversar com ele. Ele tinha faltado a primeira aula de inglês, então não o tinha visto durante o dia inteiro.

— Ficou dormindo, né folgado.

— Não dava para vir com a ressaca que fiquei.

— Deu sorte e perdeu o sermão da Carmen.

Continuamos comentando sobre o dia e a noite anterior, enquanto andávamos para o refeitório. Ríamos alto e empurrávamos um ao outro de leve. Foi então que Gabriel e seus amigos passaram do nosso lado e o loiro fez questão de esbarrar em mim. Acabei derrubando a chave do armário. Me abaixei resmungando para pegá-la.

— Ué, o que deu nele? – Joel perguntou assim que chegamos na fila para comprar comida

— Sei lá, ele está implicando comigo o dia inteiro.

— Pelo menos ele te notou, né. – Ele reclamou, com um tom um pouco enciumado. Percebeu e apressou a complementar. – Ouvi dizer que suas festas são as melhores.

— Se ele me odeia não vai me convidar.

— Então faça ele parar de te odiar.

— Ah, faz você isso. Eu não ligo, gosto das festas que vou.

— É, mas me falaram que na dele rola tanta treta! Uma vez, veio até a polícia.

Ri e retruquei que não queria que me prendessem. Imagina o que falaria para meu pai.

— Estou falando sério, Charlie! Não tem festa igual! Você precisa conseguir me levar lá.

— Vai você ser amigo dele, então!

Joel encarava encantado Gabriel, que estava algumas pessoas a frente de nós. Ele sorria e tive a impressão de que suas bochechas coraram.

Terminamos de pagar e fomos nos sentar.

— Vamos sentar na mesa dele. – Ele sugeriu. Ri e assenti, pensando que Joel brincava. Ele continuou me encarando sorrindo, porém

— É zueira, né? Óbvio que não.

— Óbvio que sim, vem. – E ele começou a andar até lá.

— Você está louco. – Disse, mas ele já estava longe demais para ouvir . Fui para o lado oposto me sentar com Pete, Jasmine e Carmen. Logo que coloquei a bandeja na mesa eles me perguntaram o que Joel estava fazendo. – Enlouquecendo.

Joel se sentou bem ao lado de Gabriel, esse que pareceu bem assustado. Parou de mastigar e perguntou a meu amigo o que fazia ali. Não consegui ouvir o que ele respondeu, mas fez Gabriel rir. Eles passaram o almoço inteiro conversando e todos prestavam atenção nos dois. E quando digo todos, incluo minha mesa, os amigos e todas as pessoas que conheciam Gabriel. Eles realmente estavam se divertindo.

— Acho que alguém vai perder o melhor amigo, hein. – Brincou Jasmine, pegando uma azeitona do meu prato.

— Até parece, sou insubstituível.

— Eles realmente se deram bem. – Comentou Carmen. Pete concordou e ainda disse que era bom o Joel não se esquecer de nós.

— Que fofo, ele está com ciúmes. – Carmen brincou, tirando seus óculos. Ele se irritou e começaram a brigar. Eu e Jasmine nos olhamos e voltamos a comer, ignorando os pombinhos.

Vários minutos depois, a mesa do lado acabou de almoçar. Gabriel levantou, deu uns tapinhas nas costas de Joel e foi embora junto com os amigos. Joel, sorrindo, veio na nossa direção, puxou uma cadeira e sentou na ponta da mesa.

— Meu, ele te adorou! – Jasmine começou. Então foi seguida por vários comentários dos outros. Fiquei em silêncio, esperando ele responder.

— Ele é muito gente fina! Não sei porque você reclamou tanto dele, Charlie. Juro, ele riu de todas as minhas piadas e não me deixou de fora de nenhum assunto. – Joel animava-se. Continuou falando de sua conversa com Gabriel. Todos prestavam atenção e riam, se divertindo. Eu sorria, mas não pelo mesmo motivo que os outros.

Enquanto falava, os olhos de Joel brilhavam. A vermelhidão se espalhava por seu rosto, chegando até a testa. Ele não conseguia parar de sorrir e arrumar o cabelo, o que era um tique. Suas mãos tremiam só o bastante para eu, que conhecia muito bem, tanto o sentimento quanto o garoto, perceber o que estava acontecendo.

Joel estava se apaixonando.

Estava se apaixonando por Gabriel.