Kakera
6 Capítulo 5
Notas iniciais
Deixem reviews com a opinião de vocês.
E preparem-se psicologicamente para o próximo capítulo. Vai ser de matar. BWAHAHAHA.
Enjoy. ♥
“Ela é o meu único motivo.”
Agosto de 2009
— início do outono
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Rin acordou com o barulho de vidro sendo quebrado. Ainda sonolenta, pensou que pudesse ser um trovão rasgando o céu — chovia torrencialmente e a água batia com força na janela —, mas não, alguma coisa lhe disse que não fora um trovão. Na escuridão do quarto, tateou sobre a mesinha de cabeceira até encontrar o relógio de pulso — havia resgatado-o de trás do armário da cozinha naquela semana, abandonado e cheio de teias de aranha — e apertou o botão que ligava a luz do visor. Eram quase quatro da madrugada.
E alguma coisa não estava bem.
Colocou as pernas para fora da cama, a camiseta de Sesshoumaru que ela vestia descia-lhe até o meio das coxas, e desta vez, sim, um trovão estourou na tempestade, sacudindo vidraças e paredes. Rin afagou os próprios braços, sentindo os pelos se eriçarem num calafrio, e deixou o quarto.
O apartamento inteiro estava mergulhado num escuro profundo, apenas o som da chuva caindo pesada na rua, castigando as paredes do prédio pelo lado de fora. No entanto, enquanto avançava pelo corredor, Rin percebeu uma tênue claridade azulada vindo da sala. E sentiu o cheiro de cigarro pairando no ar.
O cheiro dele.
Ela nunca se esqueceria daquele momento, quando espiou pela quina da parede e o viu naquele estado. Ela nunca se esqueceria do medo de que ele tivesse morrido e esquecido de fechar os olhos. Sentado no sofá, diante da televisão ligada — mas sem volume — e pálido como uma assombração sob a luz doentia dela, soltando rolos de fumaça pela boca enquanto o cigarro pendia frouxo daquela mão mórbida, como se ela não tivesse mais força de segurá-lo, Sesshoumaru não parecia qualquer coisa viva. Catatônico, acabado, em ruínas, não parecia nem mesmo humano.
E quando ele a olhou — Rin não preocupava-se mais em se esconder —, ela percebeu que ele chorava. Um choro calado, de uma tristeza e um desespero tão profundos que faziam emudecer. E ela sentiu que aqueles olhos vermelhos, cheios de água, lhe imploravam ajuda. Sentiu que lhe pediam, por favor, que fizesse alguma coisa.
Mas ela não sabia o que fazer.
Um trovão chacoalhou o apartamento outra vez.
— Meu pai está morto.
E ela própria se sentiu sacudida por dentro.
— Meu pai está morto. — ele repetiu. — Morto.
Morto — a palavra a tocou e o sentimento insinuou-se nela, gelado, pela primeira vez. Rin ainda não sabia o que era a morte, e a única dor que sentia era a dor dele, uma dor pela dor dele.
Foi até o sofá — reparou vagamente nos cacos de vidro do que um dia fora um copo espalhados ao pé da parede — e abraçou-o: a única ajuda que podia ser dada perante a imponência da morte. Segurou-lhe o rosto com carinho e beijou-lhe os olhos molhados quando ele os fechou. Beijou-lhe as lágrimas que desciam pelo rosto e então beijou-lhe os lábios com gosto de tabaco.
Um beijo terno, delicado, que não durou mais do que um segundo.
Ele passou a mão pelos cabelos dela quando Rin recostou-se ao seu peito.
— Rin... Ele está aqui?
— Sim, está. O que você gostaria de dizer a ele?
Sesshoumaru ainda ergueu o rosto para o teto e soltou uma lenta baforada.
— Que eu o amava.
∷∷
Eles não dormiram. Ficaram deitados naquele velho sofá, em silêncio, encarando o teto enquanto a chuva despencava do lado de fora. Nada precisava ser dito ou feito, nada com o que sonhar. O mundo era apenas aquilo: uma nuvem de fumaça de cigarro flutuando acima deles e os trovões que explodiam como bombas.
Bombas de lembranças caindo dentro de Sesshoumaru.
∷∷
Quando o dia clareou, eles meteram-se debaixo do chuvisco insistente que restara da madrugada e foram até o Bunkyo. Aquela fora uma manhã feia — cinzenta, vazia e triste —, e para Rin, era como se tudo tivesse caído em luto. Sesshoumaru só lhe contou o básico: que recebera uma ligação de Inuyasha no meio da madrugada, que o pai estava morto, e que a família morava no Bunkyo. Para as outras perguntas que ela se arriscou a fazer, houve apenas o silêncio.
E a ousadia de deduzir.
Haviam pegado um ônibus perto da estação de metrô e descido na zona nobre do distrito. Não era um lugar agitado. Não fervia de gente como o Shinjuku e também não havia aquele zumbido de vozes e carros como no subúrbio. Pelo contrário: ali o silêncio assustava. Os casarões erguiam-se, imponentes, cheios de janelas, ao longo das ruas largas e limpas — incrivelmente limpas, pois não se via um único pedaço de papel voando pela calçada. E enquanto caminhavam — Rin não sabia pra onde —, ela teve a sensação de que as mansões inclinavam-se, assombradas, na direção deles.
Sentiu um puxão no braço quando Sesshoumaru parou e ela continuou andando, distraída. Voltou-se para ele, então, e viu-o encarando o alto e elegante portão de uma casa. Tão alto que ela nem podia ver o que havia por trás dele. Não precisou perguntar se aquela era a casa: o modo hesitante, doloroso, como ele encarava o portão deixava claro.
Durante um longo tempo, ninguém disse ou fez qualquer coisa. Ficaram ambos parados diante do painel do interfone; ele tomando coragem, ela perguntando-se se ele havia desistido. Então, finalmente, Sesshoumaru apertou o botão e eles ouviram a campainha, calma, pomposa, soando através da tela de comunicação.
Rin chegou a sentir a angústia dele, quase insuportável, crescendo sem limites naqueles segundos de silêncio que precederam a voz profissional, ausente de qualquer sentimento — a voz de um empregado, eles perceberam —, que saiu do interfone:
— Pois não?
— Eu vim ver o meu pai.
Houve um momento de silêncio do outro lado, então a voz retornou:
— Entre, por favor, Sesshoumaru-sama.
Eles ouviram quando a tranca foi desativada e o portão cedeu. Sesshoumaru não parecia mais indeciso ao segurar a maçaneta e avançar — havia agora uma máscara de força, de controle em seu rosto, e os olhos tinham ganhado um ar inflexível —, mas parou quando Rin permaneceu fincada no meio da calçada e encarou-a numa pergunta muda.
Ela balançou a cabeça.
— Você precisa fazer isso sozinho, não é? — e sorriu doce, gentil.
Sim, Rin estava certa. Era o pai dele que estava morto, o pai que ele amaldiçoara durante todos aqueles anos e que agora o esperava, frio e pálido, deitado pela última vez eu seu futon. Rin estaria ali quando ele voltasse, e aquela certeza era tudo o que Sesshoumaru precisava para seguir em frente.
Devagar, soltou os dedos finos dela e entrou naquela casa que não era mais sua. Caminhou para aquele pai que agora era apenas um fantasma, uma lembrança que o atormentaria para sempre. Caminhou para a mãe chorosa, prostrada junto ao corpo inerte do marido. Caminhou para o irmão inconformado que nada entendia. Caminhou para o seu destino desgraçado, mais uma vez, e soube que nunca seria capaz de se livrar dele.
∷∷
Rin senta-se no chão, recostada ao muro alto da casa da família de Sesshoumaru, e espera. Parou de garoar e agora as nuvens começam a se afastar para longe. O sol aparece, tímido, pela primeira vez naquele dia. Não há cheiro de nada naquela rua, nem de comida, nem de fumaça de carro, nem de gente. Só há as cores claras dos muros das mansões e aquele ar de limpeza, de coisa nova e intocada.
Pelos próximos quinze minutos, ela vai esperar.
Uma mulher bem vestida vem caminhando pela calçada. Rin escuta os toc-toc-toc ritmados dos saltos altos dela e abre melhor os olhos para vê-la passar. Ela tem uma bolsa bonita em tom pastel pendurada ao ombro que, aliás, combina com a roupa social — e cara. O cabelo está arrumado em um coque bem feito, impecável, e não há um fio fora do lugar. A mulher tem os cílios esticados como os de uma boneca e, talvez, os lábios levemente pintados. Rin não tem certeza, nunca usou maquiagem. O jeito de andar da mulher é firme e apressado, mas ainda assim feminino, elegante. Quando ela passa, dá uma rápida olhada para a menina sentada no chão — mas não tão rápida que não dê pra notar o vestido de segunda mão, as sandálias surradas e as olheiras se insinuando debaixo dos olhos — e lhe atira duas moedas, que fazem barulho e vão parar nos pés de Rin.
A mulher dobra a esquina e desaparece.
E Rin fica olhando, chocada, para as moedas.
O rosto cora numa mistura de vergonha e indignação quando ela percebe que a mulher a tomou por mendiga. Olha para si mesma, espana o vestido, e fica pensando se está realmente tão ruim assim. Mas a roupa não está suja e as pernas não estão arranhadas. Então não, não está tão ruim.
Uma formiga passeia, errante, pela calçada e Rin esmaga-a debaixo do pé. Está imaginando o que deve estar acontecendo lá dentro, naquele exato momento, quando o portão se abre de súbito e Sesshoumaru passa por ele. Ela levanta-se num pulo. Tem o coração apertado porque viu o rosto dele, e está terrível. Quer perguntar o que aconteceu, se brigou com o irmão mais novo outra vez, por que ficou tão pouco tempo, mas ele não lhe dá chance de abrir a boca. Ele apenas pega-a pelo cotovelo e a arrasta consigo para longe dali.
Para longe daquela rua de mansões assombradas.
Apenas quando chegam ao ponto de ônibus ele a solta. Ele é o inferno encarnado. Ele é a tristeza, a dor e o ódio ao mesmo tempo. Mas ele é apenas um homem, um homem cansado. Ela vê quando ele desaba no meio-fio da calçada, baixa a cabeça entre os joelhos e enfia as mãos no cabelo, aquelas mãos feito garras. E ouve a respiração dele, descompassada, ruidosa, como a respiração de um animal que agoniza. E é exatamente como ele está: agonizando.
Rin aproxima-se devagar, pelas costas dele, envolve os braços em seu pescoço e sussurra baixinho. As palavras saem como mel, como um carinho.
— Acabou. — ela afaga o peito dele que ainda sobe e desce com violência. — Acabou.
— Não. Nunca vai acabar.
— Agora você pode ser o que você quiser.
E quando ele fala, a voz sai fraca, falha:
— Eu não quero ser nada.
Ela beija-lhe o alto da cabeça e levanta-se. O ônibus se aproxima do ponto.
— Vamos pra casa.
Ele não quer ir a lugar algum, mas também não quer discutir com ela. Ele só quer desaparecer, mas deixa-se levar quando ela pega-lhe pela mão e o conduz até o fundo do ônibus. E o abraça, e o acolhe quando ele sente que a vida não vale nada.
∷∷
Duas noites depois, Rin pensou que o tinha perdido.
Fazia horas que ela batia e gritava na porta do banheiro e ele não respondia. Não ouvia um só ruído do outro lado, nada. Se ao menos tivesse força o suficiente para arrombar aquela maldita porta, mas nem isso. Nunca, nunca sentiu tanto ódio de si mesma por ser tão fraca como naquela noite. Enquanto ele poderia estar tirando a própria vida, tudo o que ela conseguia fazer era gritar e chorar.
Não adiantava pedir ajuda aos vizinhos, Rin sabia que eles nem mesmo abririam a porta para ela. Também não conhecia ninguém, exceto Kagura, a quem pudesse recorrer. E quando o desespero tomou-a por inteiro, pegou o celular de Sesshoumaru — que, felizmente, não estava no bolso dele — e ligou para ela, para aquela mulher abusada.
Havia chorado e berrado tanto ao telefone que não teve certeza de que Kagura havia entendido o que ela dissera, mas cinco minutos depois bateram com força na porta e Rin soltou um grito de alívio. Assim que girou a maçaneta, um homem alto de cabelo moreno e barba por fazer — como ela havia reparado naquilo? — invadiu o apartamento e olhou, atarantado, ao redor. Kagura estava logo atrás, nervosa sobre seus saltos altos.
— Onde ele está? — o homem quase gritou.
— No banheiro! Ele não quer abrir e... — Rin começou a choramingar, mas ele já não estava diante dela.
Kagura a pegou por um braço e a arrastou consigo para o corredor a tempo de verem o homem chutando a porta do banheiro com tanta força que puderam ouvir as dobradiças rangendo.
— Vai logo, Naraku! — Kagura gritou. — Não tem força pra derrubar uma portinha dessas?
— Cale a boca, mulher! — e berrou: — Sesshoumaru, seu desgraçado, espero que esteja vivo!
Rin gelou ao ouvir aquilo. Abriu a boca para gritar que sim, que Sesshoumaru estava vivo — tinha que estar —, mas não houve tempo para mais nada. Nakaru derrubou a porta com o segundo chute e, por um momento, ficaram todos paralisados pelo estrondo. Parecia que o apartamento inteiro tinha caído.
Então ela correu, desajeitada, até o buraco na parede onde, momentos antes, ficava uma porta, e o viu. Antes de tudo, soltou o ar e sentiu o corpo relaxar com tamanho alívio que pensou que poderia cair de joelhos, pois ele estava vivo. Vivo, encolhido no canto do box do chuveiro, olhando tudo aquilo como se fosse a coisa mais estranha do mundo. Mas então veio a decepção, e Rin deixou escapar um gemido de tristeza pelo que ele havia feito, outra vez. A seringa ainda estava ali, na mão dele, vazia, e uma gota minúscula de sangue brotara da veia que fora picada.
— Ah, que droga. — ouviu Kagura praguejando atrás de si.
Depois o assovio surpreso de Nakaru, e a voz dele:
— Que loucura, hein?
E como Rin não disse nada, eles balbuciaram qualquer coisa e foram embora. Ela não sabia se ele tinha consciência do que acontecera, do que fizera, mas havia um sentimento quente borbulhando dentro dela que não podia ser ignorado ou deixado para mais tarde. Um sentimento que lhe encheu os olhos de água e levou-a a fazer o que fez: bateu-lhe.
Bateu-lhe no rosto — um tapa cheio de amor, raiva e medo.
Sesshoumaru pareceu acordar quando voltou o rosto para ela.
— Nunca mais faça isso comigo! Nunca mais!
E saiu, bufando, do banheiro.
Sim, ele estava acordado. E se lembraria perfeitamente daquilo.
∷∷
Não tinham trocado uma única palavra desde a noite passada, quando, bem... fora preciso derrubar a porta do banheiro porque Sesshoumaru estava drogado demais para gritar que estava tudo bem, que ele só estava dando uma picadinha. Rin imaginou que ele devia estar envergonhado e abatido até o último fio de cabelo, pois quando acordou, na manhã seguinte, ele já havia saído. E dessa vez, não deixara nem mesmo um bilhete com um pedido de desculpas. Realmente, seria banal demais da parte dele.
Mas a raiva já tinha passado, e agora Rin só queria que Sesshoumaru voltasse logo para que tudo ficasse bem outra vez. No entanto, as horas demoraram a passar. A televisão exibia um filme qualquer de suspense, e ela conversava, melancólica e encolhida no sofá da sala, com Jaken esmagado num abraço. Choramingava o quanto se arrependia daquele tapa — certamente um espírito do mau se apossara de seu corpo e a induzira a aquele absurdo! —, quando ouviu a porta sendo aberta e calou-se de súbito.
Sesshoumaru havia chegado.
Inconscientemente, apertou Jaken contra o peito e enrijeceu, sentindo o olhar dele pesando às suas costas. Por que, afinal, ele continuava parado ali? Resolveu fingir que prestava atenção no filme, grudando os olhos na tela da televisão, embora não fizesse a mínima idéia do que estava acontecendo na história. Talvez tivesse até mesmo parado de respirar, pois quando finalmente ouviu-o se mover atrás do sofá, o peito começou a doer e ela soltou o ar baixinho, de um modo nervoso. Então ele sentou-se ali, ao lado dela.
Rin precisou de todo o seu controle para não virar o rosto e olhá-lo. Na verdade, não entendia por que estava agindo assim, tão arredia. Antes, teria simplesmente atirado as palavras na cara dele. Agora, preferia mantê-las entaladas na garganta. E aquilo não fazia sentido algum.
— Tudo bem. — Sesshoumaru suspirou ruidosamente. — Pode falar.
— Falar o quê?
— O que você tem pra me falar, diabos. E eu sei que tem.
Ela o encarou de cara fechada e disse, como se fossem suas últimas palavras:
— Não tenho.
Sesshoumaru deixou os ombros caírem e bufou, cabisbaixo.
— O que você quer que eu faça, droga?
— Não fale assim comigo. — foi a primeira vez que ele ouviu aquele tom na voz dela.
— Não vou pedir desculpas. Isso não vai mudar nada.
— Você já está pedindo.
Ele não pôde evitar abrir um sorriso de quem tinha sido pego no flagra. Sim, de algum modo, ele estava pedindo desculpas por ter sido um idiota sem valor algum outra vez. Uma simples palavra não ia mudar o que Sesshoumaru havia feito, não ia apagar aquela noite da memória dos dois. Não ia fazê-lo esquecer da mão dela estalando contra seu rosto. Nunca. Mas se Rin dissesse que o perdoava, talvez aquele peso enorme sobre os ombros desaparecesse por um momento. E já seria o suficiente.
De repente, uma mulher gritou no filme e os dois olharam para a televisão — ele, curioso; ela, assustada. Ficaram daquele modo, como estátuas, durante um tempo que pareceu ridiculamente longo. Então começaram a rir.
E Sesshoumaru percebeu como havia sido cego. Cego a ponto de não ter visto logo que ela já o havia perdoado. Cego a ponto de imaginar que poderiam continuar com aquela situação patética. Tão cego, porque só agora compreendia o que sempre esteve bem ali, debaixo de seu nariz: Rin.
Não a menina que falava com um bicho feio de pelúcia. Não a coisinha pequena e, à primeira vista, infantil, que ele encontrara naquele beco imundo. Não a garota que se escondia debaixo da cama quando sentia medo. Não a criança que os vizinhos e o síndico diziam que ela era.
Não.
Rin era muito mais: era aquela que se preocupava se ele demorava pra chegar, aquela que sorria quando ele entrava pela porta e que desejava um bom trabalho quando ele saía, aquela que se importava se ele gostava ou não da comida, aquela que o cobria com uma manta à mais quando esfriava de madrugada, aquela que o amparava quando ele desmoronava. Rin era aquela que fazia tudo parecer melhor com um simples abraço. Rin o arrancara do escuro e da solidão.
Rin.
O primeiro rosto que ele via ao abrir os olhos e último antes de fechá-los.
E agora ele percebia como a queria, como precisava dela.
— Rin?
Ela o olhou, ainda sorrindo. Um sorriso que foi se apagando à medida que o rosto dele ficava mais próximo — e o dela mais vermelho.
— O quê...? — não sabia se olhava para os olhos ou para a boca dele.
— Promete não gritar se eu fizer uma coisa... Esquisita?
Sesshoumaru estava invadindo seu espaço, inclinando-se sobre ela, e era incrível como o corpo cedia. Quando não houve mais para onde recuar, já praticamente deitada ao longo do sofá, o coração batendo forte, tão forte que chegava a doer, Rin encarou-o atordoada em busca de uma explicação para aquilo.
— E-Esquisita?
— Um pouco.
Ela sentiu o hálito dele caindo-lhe sobre o rosto e soltou um suspiro trêmulo.
— Promete?
— Sim...
Como, pelo céu e o inferno, ela poderia dizer que não? Quando seu coração derretia feito vela acesa e todo o seu corpo sofria de um pânico estranho, mas gostoso, que ela nunca sentira antes, como Rin poderia não prometer?
Então ele a beijou.
Os lábios dele tocaram os dela com gentileza, devagar, assim de leve, como se Sesshoumaru tivesse medo de machucá-la. Então houve uma pequena pressão — a boca dela presa debaixo da dele. Depois ele soltou o ar pelo nariz, aquele ar cheirando a cigarro, de uma vez só. E colocou as mãos na cintura dela. E apertou-a. E abriu-lhe os lábios com a língua.
A partir de então, ela não sabe ao certo como as coisas aconteceram.
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“Como eu poderia continuar sem ela?”
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