Kaidan 2068 - Contos em Cyberpunk
1 Ponto de Partida: O destino e o entregador (parte 1)
Notas iniciais
[Espaço Porto, Norte de Kaidan, Sol da Manha]
Quando o homem construiu a primeira casa fora do solo terrestre ele nunca poderia esperar que em tão pouco tempo o mundo mudasse tanto.
— Coloquem os cintos, vamos decolar em um minuto.— Falava a capitã do ônibus espacial Eternity XIX. Um dos mais de dez que iam e vinham das estações espaciais de triagem, a cada dia.
Cada espaçonave podia levar até cem pessoas, em quatro andares, além da sua tripulação. O número era baixo, quando levado em consideração a quantidade de pessoas que compunham a humanidade nesse ponto. Cada cliente dos serviços desse tipo entendia, até pela sua própria classe social, que não era interessante para os mais ricos que essas viagens fossem tão comuns.
— A vantagem de ser um baixo é poder aproveitar a ambição dos Altos...— Um homem já de cabeça branca comentou com ele. Devia ser só mais um senhor de idade desgostoso com o caminho que o mundo tomou enquanto ele atingia aquela idade, afinal, ele provavelmente passou pela grande crise.
A nave decola, mas o "tranco" quase não é sentido pelos passageiros muitos nem percebem que a viagem começou, só notando, após as estruturas do espaço porto, darem lugar ao azul do céu.
— É cada empresa só pode fazer dez pontes aéreas, mas, esse ano quantas novas empresas surgiram? — Respondeu animado, um rapaz de roupas simples, que se destacava dos demais passageiros apenas por um lenço avermelhado no pescoço.
— Oh!— Reagiu o senhor um pouco espantando.
O rapaz ficou sem entender aquela reação, mas o senhor logo interveio explicando.
— É incomum alguém se importar em conversar nessas viagens, sabe?— Falou colocando a mão sobre a boca, como se não quisesse atrair olhares em reprovação ao que acabava de dizer. — Normalmente, todo mundo é caladão, não quer conversar, só quer ficar com seus PODs mesmo, essa modernidade que ficamos tão dependentes...—Acrescentou enquanto escaneava o rapaz procurando algum aparelho, fosse externo — como um POD, ou algum implante que cortava a necessidade de manuseio do aparelho.
O rapaz notou isso, e logo respondeu ao senhor:
— Não se preocupe, não tenho nada instalado em mim, bom..., não que eu saiba né?— Ele riu ao terminar de falar, o que provocou uma gargalhada no senhor, que entendia a referência a teorias de conspiração das grandes corporações.
— Me desculpe perguntar meu jovem, mas de onde você é?— A pergunta era meio óbvia, já que aquela nave vinha de um espaço porto localizado ao norte da mega cidade Kaidan.
— Ah, bom, sou de Kaidan, e o senhor?— A resposta não demonstrava nenhuma malícia, mas havia, já que a questão do senhor era muito óbvia.
— Bem, sou uma pessoa de idade, como pode ver.— O senhor levou suas mãos da cabeça ao peito, descendo devagar, mostrando sua aparência envelhecida pelo tempo ao jovem.— Então, estou viajando com minhas economias. Venho da antiga “Portugal”, mas peguei esse vôo no mesmo lugar que você.— Riu consigo mesmo ao perceber que falava o antigo nome do que hoje era chamado apenas de Bloco Comercial Europeu Franco-Espanhol.
Após isso, os dois continuaram a conversar por toda a viagem, que durou por volta de uma hora.
[Órbita externa da terra, estação de triagem B 04, a terra está logo atrás]
O rapaz e o senhor saem caminhando lado a lado do túnel de ligação, cada um carrega suas coisas: o jovem, leva sua mochila nas costas, enquanto o idoso arrasta a sua em um carrinho. Pessoas cruzam o caminho que percorrem, robôs auxiliam aqueles com muita bagagem enquanto alguns ciborgues com aparência semi-humana com as vestimentas da empresa — Phantazo Espace Lines — recebem os recém chegados.
— Bom, meu filho, se você está indo para Aries, nos despedimos por aqui... — Comentou o senhor com um pouco de tristeza, ficou claro para o rapaz durante aquele tempo que conversavam que aquele homem era alguém bem solitário, que procurava um sentido para sua vida viajando, já que não tinha mais ninguém.
— Foi um prazer o conhecer Seu Bartolo!— Dizia enquanto dava um caloroso abraço no idoso que no primeiro momento não soube reagir, mas logo retribuiu o abraço.
— Vou ficar um mês em Luna 016, se puder, vá me visitar!— Dizia enquanto anotava em um papel, algo muito raro nesse tempo, o número da sua linha própria e colocava no bolso do casaco do jovem.
— Farei o possível para ir, mas aproveite bastante o lugar... dizem que os cassinos de lá são os melhores!— Brincava enquanto olhava o papel que o senhor tinha lhe dado.
— Boa viagem Douglas... Só não sei dizer o que tem de bom lá pra onde você vai, mas aproveite!— Riram os dois, enquanto o senhor se afastava e desejava que o rapaz chegasse bem em seu destino.
Os dois homens se afastaram. Douglas já não era mais capaz de ver o senhor, mesmo se forçasse sua visão. Cercado de pessoas que ele nunca havia visto na vida, procurou um lugar para se sentar, sua linha sairia em 45 minutos e ele tinha tempo para fazer alguma coisa, nem que fosse apenas observar a terra atrás dele, ou a lua, que em seu lado escuro, oposto ao sol, era iluminada pelas colônias.
— Senhor? Posso ajudá-lo com algo?— Uma moça bonita o abordou. Ela vestia um uniforme, branco com a letra "H" estampada em um bolso, onde em um ser humano estaria o seu coração, da empresa que administra o posto de triagem e parecia muito interessada no que ele fazia. Douglas sabia que aquela mulher era um ciborgue, já que apesar da boa qualidade do material, algumas áreas, deixavam claramente as vias elétricas, que brilhavam e um tom lilás, a vista.
— Não, muito obrigado, apenas espero a minha nave atracar.— Ele respondeu com muita calma, como se já tivesse feito aquilo mais de uma vez. A ciborgue sorriu como em um desenho japonês do início do século e se virou indo procurar outras pessoas para ajudar.
A verdade é que Douglas não estava ali apenas esperando seu vôo, ele tinha um trabalho a fazer, estava no espaço a negócio, jamais gostaria de sair de Kaidan por algum outro motivo. Ganhar dinheiro, ter uma vida boa, era aquilo que o movia e, não importava qual fosse o trabalho, o "Homer", jamais deixava de fazer sua entrega.
Olhou as costas de sua mão esquerda, números surgiram iluminados através de sua pele, um cronometro indicava 45 segundos exatos, e estava correndo. Assim que o aviso silencioso surgiu, levantou sua cabeça, como que fosse observar um painel informativo dos horários das viagens, e pôs-se a fitar uma saída de um dos vôos até ali, como aquele que o trouxe, vindo da terra.
Até que seus olhos cruzaram com o de uma mulher de cabelos ruivos, na verdade, não com seus olhos, mas com seu visor, que exibia um feixe de luz laranja, que combinava com sua roupa, uma jaqueta de material branco, aberta que exibe um top curto, verde escuro, além é claro, de seu corpo escultural, vestia uma calça larga, também verde escuro, mas com estampas que lembram os militares do início do milênio, já, em seus pés, uma bota esportiva, escura, com detalhes laranja. A mulher era impecável, parecendo ser superior a todos ali, ela caminha na direção do jovem, que finge não olhá-la.
Ela esbarra em uma senhora, que carregava uma pesada mala, criando certa confusão. Rapidamente outras mocinhas como a que tinha abordado Douglas aparecem tentando ajudar ambas.
— Não me toque seu robô sujo!— Gritou a ruiva, fazendo uma cara de nojo. A senhora sem jeito se desculpou rapidamente com a mulher, que parecia simplesmente não ligar para ela, se levantando com urgência. As ciborgues com a letra "H" no uniforme ficaram um pouco perdidas, já que não sabiam se ajudavam a mulher ou cumpriam seu pedido de não tocá-la.
Logo a confusão passou, a ruiva sumiu entre as demais pessoas, e as ciborgues foram procurar outras pessoas com dúvidas ou com necessidades a serem sanadas, a senhora entrou em um portão de embarque e sumiu. Na mão de Douglas o cronômetro exibia apenas números zero, desde que a ruiva se chocou com a idosa. Ele se levantou alguns minutos depois da confusão e seguiu até uma lixeira, bem ao lado de onde a confusão aconteceu. Colocou a palma da mão direita no ouvido e começou a falar, acabava de receber uma ligação.
— Não amor, eu não vou me atrasar, pode ter certeza!— Ele falava em tom desajeitado. — Não, não vou, eu prometi pro Luisinho que não me atrasaria novamente! Eu juro, estou chegando, pode me esperar para cortar o bolo! — Dizia enquanto tirava de seu bolso esquerdo um pacotinho, eram balinhas... Enquanto ouvia sua esposa brigar com ele pelo aparelho, ele se descuida e deixa o pacotinho ainda fechado cair dentro da lixeira. Sem pensar duas vezes, o rapaz enfia a mão dentro do recipiente e retira o pacote, apesar da cara de desaprovação que faz quando observa o estado do pacote ele o guarda novamente no bolso.
— Eu prometo meu amor, vou estar ai em duas horas no máximo! — Ele diz tentando ignorar os gritos de sua mulher.— Eu te amo, já vou! — Ele termina a ligação um abruptamente, visivelmente transtornado com as cobranças de sua esposa.
O painel acabava de exibir a informação atualizada da situação das docas, e junto de uma dúzia de outras naves que acabavam de chegar, a dele, a que iria para a colônia externa Aries, acabava de aportar na Doca 011.
[Summer IIV, nave de transporte, entre a Lua e Aries, cercado pelo profundo escuro do espaço]
Estava em uma nave diferente, da que havia pego para sair da terra, era bem pintada, e trabalhada, está, ao contrário, exibia apenas as inscrições necessárias em sua lataria, seu nome, Summer IIV, e sua função, um grupo de duas letras e uma numeração que não fazia sentido algum para o rapaz. No interior, ao invés de andares diferentes com várias fileiras, a Summer contava apenas com dois, mas muito mais compridos do que os da Eternity XIX. Isso fazia sentido na sua cabeça, afinal aquela era uma nave projetada e construída no próprio espaço, enquanto aquela que o levou para fora da orbita terrestre era um ônibus Espacial, feito para romper a barreira da atmosfera e levá-lo apenas ao seu ponto mais externo.
— Amor? — Ele diz logo apos tocar alguns pontos luminosos em sua mão direita.— Já estou na nave de transporte... É, sim, Summer IIV, pode conferir no diretório. — Dizia enquanto olhava para o banco da frente, tinha em sua voz certa agonia, parecia que ansiava em chegar logo no seu destino e encontrar sua esposa.
Todas as pessoas pareciam estar vivendo sua própria vida, tomando conta da sua própria viagem, até que um homem vestindo o uniforme azul escuro da tripulação o aborda, com um sorriso peculiar no rosto.
— Viagem cansativa, hãm? — Falou de forma bem invasiva, cutucando o ombro do jovem.
Douglas observa o homem por cima de seu ombro.— Querida, eu ligo mais tarde, ok? Amo você. — Ele desliga o seu POD, e vira-se para o tripulante.
— Sim, um pouco, entediante para mim, mas tenho certeza que não para você, a tripulação deve ter muito trabalho a fazer, não? — Sua voz e escolha de palavras eram claras, ele não queria aquela pessoa ali, muito menos interrompendo sua ligação. — Calma garotão! — Disse prepotente o tripulante enquanto sentava-se ao lado de Douglas, em um assento vazio.— Vamos conversar aqui, certo? Essa viagem é entediante como você falou, preciso relaxar certo? — A prepotência na voz do tripulante incomodava profundamente o rapaz que até chegou para o canto de sua cadeira, tentando evitar a presença incomoda do homem.
— Er...não, você poderia se retirar? — Falou Douglas visivelmente incomodado com o tripulante, estava tão desgostoso com aquilo que já se preparava para se levantar.
Com uma surpresa fingida no olhar o tripulante se afasta levantando lentamente, mas não antes de dizer:
— Não queria incomodá-lo senhor, me desculpe, só queria pedir uma balinha, dessas que você leva ai no bolso esquerdo. — E saiu andando na direção de um acesso a aquele compartimento de acentos.
Douglas no mesmo instante percebeu o que estava acontecendo ali. Ele só não sabia como e o porquê estar acontecendo. Nitidamente alarmado, olhou em volta procurando alguma coisa que pudesse dar a ele algum panorama daquela situação. Contudo, nada de relevante o cercava, vários lugares vazios, meia dúzia de pessoas próximas, e vez ou outra um tripulante checando algum painel de controle.
O mesmo tripulante passa pelo rapaz novamente, ele parece perdido, e gesticula para Douglas como se indicasse para o lado que desejava ir.
— Opa, eu me perdi, sabe como é, sou novo não é. É por ali! Hahaha — Comentou risonho. — Depois volto aqui pra pegar aquela balinha, certo? — Completou enquanto andava na direção que tinha apontado.
—-
O entregador se sentiu observado, cercado por todos os lados, por outros como aquele homem que o ameaça com palavras comuns. Seus olhos percorriam o espaço a sua volta, analisando portas, passageiros, paredes, funcionários, cadeiras, qualquer coisa, até mesmo as telas de hologramas que naquele momento em especial passavam anúncios de uma empresa de mineração chamada Kopalki.
Perdidos em seus pensamentos paranóicos Douglas mal percebe a aproximação de um membro da tripulação, vestindo o mesmo uniforme azul escuro.
— Com licença, o senhor está se sentindo bem?— Disse uma voz feminina, muito calma, que o trouxe de volta a realidade. Douglas a olhou nos olhos, de um azul incrivelmente profundo, com certo temor, confuso ainda pelos pensamentos que o atormentavam até um instante atrás.
— Si..sim. Eu, só me senti mal, ás vezes acontece, meu... Tio médico, disse que tenho um quadro de claustrofobia leve. Mas já estou melhor, muito obrigado.— Disse, forçando um sorriso, com a esperança que a moça saísse de lá.
A mulher o olhou e sorrindo moveu a cabeça em sinal de positivo e se retirou. Esse comportamento o incomodou, talvez ela fosse um ciborgue, o que o levou a pensar que seu "amigo" também poderia ser um, isso seria problemático. Felizmente ao pensar nisso ele finalmente voltou a racionalizar como de costume e percebeu que aquele homem não poderia agir contra ele ali; uma luta física chamaria atenção e qualquer ameaça com alguma arma colocaria em risco toda a tripulação e passageiros — a blindagem das naves é grossa, mas é recomendado não haver disparos para que não se crie riscos desnecessários.
Algum tempo se passou enquanto o entregador buscava na lógica, aceitável, mais motivos para que em uma viagem como aquela fosse improvável algo acontecesse. Ele repensava em seus planos, onde poderia ter deixado à informação vazar, será que os domínios falsos de salas na Nuvem tinham sido hackeados por alguém? Ou que alguém teria vendido essas informações por um alto preço, colocando em sua cabeça um preço? Se for isso, a lista de nomes se resumiriam em três: Jonathan Silva, o agenciador, que passava os trabalhos para ele; Inara McDunkan, uma colega que possivelmente recebeu a oferta, tendo negado ou não tido tempo de aceitar; ou Joseph Lensthal, um amigo que tinha ótimas habilidades em atividades ilegais dentro das redes e da própria Nuvem. Só esses três podiam saber de algo, mas por que eles fariam algo como isso? Eles não fariam certo?
As duvidas eram incômodas, até conduzirem o pensamento de Douglas para um ponto diferente. Afinal de contas, o que ele levava no bolso? A aparência foi pensada para passar por algo mundano, que não chamaria a atenção de mias ninguém além dos que sabiam do seu real valor. Mas apesar disso, ele, o entregador, não tinha idéia do que se tratava, apesar de saber que aquilo era algo bem especial, dificilmente algo banal valeria 87 mil créditos, ainda mais com um adiantamento de 50%.
— POR FAVOR, VOLTEM AOS SEUS ASSENTOS, VAMOS ATRACAR EM ARIES EM 10 MINUTOS. — Um alarme sonoro, com uma voz mecânica informou que logo chegariam à Colônia Extra Lunar. Nesse momento Douglas engoliu seco, não estava armado, além de não ter planejado aquela situação de risco, portar um arma, seria ilegal, já que a entrada de itens perigosos em qualquer colônia é restrita.
Naquele momento Douglas apertou com força os braços da poltrona em que estava sentado e olhou para os lados, tentando gravar os rostos de cada um dos passageiros que estavam com ele na mesma sessão da Summer IIV.
A voz metálica anuncia que faltam 5 minutos para atracarem, e da janela já é possível ver o grande colosso de metal que é a Colônia Extra Lunar Áries.
CONTINUA
Fale com o autor