Kaidan 2068 - Contos em Cyberpunk

2 Ponto de Partida: O destino e o entregador (parte 2)


Notas iniciais
Summer IIV está chegando a seu destino, Aries. Douglas está nervoso, mas a missão é mais importante. O ambiente agora é totalmente diferente, se a viagem até se passou em um pedaço de metal vagante pelo espaço, agora ela se torna urbana - ainda que, dentro de outro pedaço metal imenso que vaga pelo espaço. Espero que gostem.

[Doca 12, no posto de triagem dentro da Colônia Aries, o espaço extra lunar ocupando tudo a volta]

— Por favor, sigam pela fila da direita para o scanner de implantes não autorizados.— A voz mecânica de tom masculino indicava o caminho que todos os passageiros deveriam fazer assim que saíssem da nave.

Douglas deu seus primeiros passos em Aries com temor no coração. Olhou para os lados, buscando algo, que ele mesmo não sabia o que era, mas precisava de alguma coisa que desse uma força para ele continuar sua missão.

Informações diferentes são disponibilizadas pelos alto-falantes, nos projetores de hologramas, e pelas próprias ciborgues de Aries, que buscam pessoas com problemas para tentar resolve-los.

— Posso ajudá-lo Senhor?— Uma das ciborgues se aproxima notando a aparente indecisão do recém-chegado. A pequena mulher veste um uniforme padrão, de cor amarela, com um tom pastel, no peito ao lado esquerdo o macacão carrega a insígnia da colônia, o símbolo derivado da astronomia de Aries.

O jovem parecia um pouco disperso, mas assim que voltou sua atenção para a pequena mulher perguntou sem muito medo:- Claro, você saberia dizer como eu chego ao bloco habitacional E?— Perguntou o rapaz, tentando encobrir seu nervosismo com a situação com um pouco de entusiasmo que com certeza a ciborgue notou caso tenha algum sistema de micro análise facial.

A pequena mulher o encara por um segundo, algo que chama a atenção de Douglas, normalmente as respostas são rápidas, são pessoas com implantes não máquinas que precisam processar respostas.

Sem saber o que fazer, ele pega a moça pelo pulso e a conduz até um lugar próximo, mas um pouco mais vazio, a esquina entre aquela área de desembarque e um corredor usado pelos funcionários da doca.

— Ei ei garota?— Ele a sacode pelos braços. – Você tá bem? O que houve?— A pequena mulher parece não estar ali, sua consciência, os dados que seu cérebro armazena parece não ter mais controle sobre seu corpo, que apesar de não oferecer nenhuma resistência a força do rapaz, não demonstra fraqueza.

— Não vá se aproveitar de mim, certo..senpai?— A voz da garota ecoou na cabeça de Douglas, que começava a pensar se ele estava fazendo algo contra a vontade da mulher, estaria cometendo algum crime? Abusava da garota?

Com um solavanco o recém-chegado solta a menina que apenas esbarra na parede e escorrega, até suas pernas firmarem-se no chão. Sua cabeça se levanta e então Douglas entende o que estava acontecendo.

— Ah, que pena, você entendeu. — A boca da mulher proferiu as palavras, apesar de seu rosto parecer ser o de alguém que dormia ou mesmo o de alguém desmaiado.

— Você é o Contato, certo?— Falou o entregador agora com um olhar um tanto quanto aliviado, já sua voz transmitia um pouco de raiva.

— Sim, sou eu.— Respondeu a pequena mulher, que agora parece até mesmo estar sonhando. – Estava monitorando as conversas das recepcionistas de Arias, achei que você falaria com elas hora ou outra.— A boca da jovem se mexia de forma fantasmagórica, se Douglas não conhecesse o básico das operações de hacking, ele jamais ia compreender o que estava acontecendo ali.

— Espero que isso não afete a cabeça dessa garota...— O rapaz comenta ainda com o mesmo olhar irritadiço. – Vamos, me passe às informações, tem gente me sondando, alguma coisa deu errado. Tenho que ser rápido.— Após suas palavras, a mulher e seja lá quem a estivesse a controlando ficam em silêncio por mais tempo do que ele gostaria.

Com dúvidas sobre o que fazer o entregador apenas leva as mãos aos cabeços e o bagunça com raiva. Por sua cabeça diversas opções se passavam, mas a mais permanente era a de que ele acabava de ser deixado de lado.

“Bip”

Sua mão direita exibia um brilho de um azul opaco, que indicava uma mensagem recém-recebida. Sem hesitar abriu e fechou a mão ativando o modo de exibição da mensagem, um holograma projetou a mensagem em uma espécie de fina camada de luz sob a palma de sua mão.

A garota escorregou até bater de leve contra o chão, o que foi o suficiente para acordá-la de um estranho sonho como a própria falou que acabava de ter. Ela pede ajuda para Douglas que rapidamente encerra o holograma e socorre a garota.

Eles desenvolvem uma pequena conversa, e um pouco envergonhada ela o agradece por tê-la ajudado quando o mal súbito a fez desmaiar, insistindo em pagar um café para ele após seu expediente. Douglas sempre teve um problema, o que ele chama apenas de “fraco”, garotas bonitas que oferecem coisas de graça para ele.

[Bloco Habitacional E, andares inferiores, o Calor criado pelos geradores que impulsionam os motores aquece tudo a sua volta]

O longo corredor que ligava o centro comunitário e seus vários níveis até o BH – E, só podia ser percorrido por um dos veículos motorizados coletivos, ou pelos veículos particulares, mas esses eram raros, para aqueles lados, algo que Douglas rapidamente percebeu.

De acordo com o seu relógio, um modelo antigo, que só as pessoas do início do século tinham, o percurso durou cerca de 30 minutos, o que era curioso, já que sair da terra e chegar ali tinha demorado um pouco mais que o dobro disso, sem contar os períodos de espera.

O coletivo continha um bom número de pessoas, mas não chegava a estar lotado, Douglas estava encostado em um espaço vazio, ainda se perguntando se o homem da nave de transporte o seguia e, o que o “Contato” era, ou do que ele sabia. O entregador se pergunta: o tal Contato, não esta monitorando toda a viagem? Já que invadiu os implantes cerebrais da garota, Aika, que nem sequer sabe o que ocorreu.

As luzes fortes, diversas cores, uma miríade, lutando pela atenção de seus olhos por segundo, vindo de anúncios luminosos, outdoors magníficos de neon, nas fachadas dos prédios, desde as bases até suas coberturas, que se erguem como torres enormes, construções de metal e concreto, dezenas delas, quase tocando o topo um do outro, graças às zonas de gravidade singular, o mecanismo que permite as colônias cilíndricas imitem o movimento de translação terrestre, além da força gravitacional um esquema de dias e noites é criado através de outros processos dentro de um sistema complexo que faz parte do grande organismo que permite que uma colônia funcione. Entre essas torres, vias de transporte, auto-estradas como aquela que o transporte coletivo que Douglas está, corta todo o bloco e, dividem o espaço com os trajetos aéreos de drones e naves particulares que cortam o ar artificial a todo o tempo, como moscas. Na entrada do bloco E, sob o portal marcado por uma grande placa dando boas vindas aos novos visitantes, o veículo recebe a validação para prosseguir seu percurso, até chegar de fato ao Bloco.

A jovem ciborgue com quem tinha conversado, e marcado um café, disse que ele poderia ficar em um hotel de duas estrelas no bairro Azul – os blocos eram divididos em cinco partes, bairros, separados por cores. Desceu do veículo coletivo no centro do bloco E, logo percebeu que ali era o bairro Amarelo, ao ler um quadro de informações básico, que trazia informações simples sobre os bairros, locais importantes e pontos para se pegar algum transporte.

No entanto, enquanto lia o painel, pouca coisa era absorvida por sua mente, que só podia pensar nos eventos passados na Summer IIV. Aquele homem sabia o que eles estava fazendo e, provavelmente saberia onde ele estava naquele exato momento. Além disso, a reação do “contato” mostrava que algo realmente estava errado.

Douglas foi até um ponto secundário esperar a passagem de um transporte coletivo, mas só depois de ler as informações três vezes e entender para onde ele deveria ir – ele queria acreditar nisso pelo menos. Decidiu ir para o Bairro Azul, para onde Aika indicou, era próximo do apartamento dela e, com isso ele teria uma rota de fuga alternativa, caso suas suspeitas de que carregasse um rastreador se confirmassem. Estava muito claro para ele que ir para os locais combinados era um risco que ele devia evitar ao máximo, devia apenas entrar em contato com o “contato” na hora certa, como havia planejado, e cumprir seu serviço em segurança, sem balas disparadas e sangue derramado.

Mas afinal, o que era aquilo que carregava em seu bolso? Ele se perguntava enquanto tentava descobrir algo tocando a pequena caixinha de balas, que não mostra ter nada de diferente ou especial. Ele supunha, apenas, enquanto subia no transporte e buscava um local para se sentar, que aquilo devia conter informações sigilosas de alguma grande empresa que tinha sede na própria terra, mas, que fosse em Aries, que elas poderiam ser aplicadas ou testadas em totalidade, seja por leis mais brandas ou por condições mais propícias. Enquanto observava a paisagem suja, repleta de locais escuros que se iluminavam com o vai e vem das cores dos anúncios constantes, imaginou que aquele lugar – se não toda a colônia, seria um lugar perfeito para se testar em humanos alguma coisa como um vírus, uma arma, um novo código que afetaria os ciborgues. Tirou do bolso a caixinha de balas, tão normal, e a observou, seu estomago gelou com essa última hipótese em sua mente; ele seria o responsável por algo muito desumano caso aquilo fosse a verdade, mas também explicaria o que o homem misterioso queria, sua motivação logo seria a de impedir aquela entrega ou pior, roubá-la para alguma corporação ou grupo de empresas.

— Eu quero mesmo fazer isso?— Sussurrou baixinho observando a caixinha. – Eu faço qualquer coisa por dinheiro?— Se perguntou, e por isso quase não percebeu quando o aviso da parada tocou, era a dela, a que tinha registrado ao entrar no veículo de transporte coletivo.

Bairro Azul, dizia a placa bem acima de sua cabeça, quase onde ele saltou do transporte. Nada diferente do resto, anúncios – em especial da Henssel, uma empresa que ele mesmo já havia visitado em Kaidan, buscando um pouco de relaxamento, prédios enormes, uma atmosfera abafada, com nuvens de vapor morno saindo de escapamentos no chão. Mas também diferente. Aquele era o primeiro contato real com a gente dali, no transporte, sentou distante de todos e mal reparou em que estava por perto, agora, ali, ele não tinha escolha, ele estava entrando no mundo do bairro Azul. Moicanos, jaquetas de couro, olhos puxados, calças rasgadas, cabelos coloridos, óculos escuros, ele parecia ter voltado no tempo, em como era o mundo antes da Crise. A nostalgia de uma época que não viveu é interrompida quando um homem magro, e um pouco mais baixo que ele o aborda oferecendo alguma coisa que ele não conhecia o nome, mais sabia com certeza que se tratava de drogas. Negou e afastou o traficante com uma olhada muito mal encarada.

Ele tinha tempo, marcou com o “contato” uma conversa para as 17 horas, portanto ainda tinha um pouco mais de duas horas, o que se encaixava bem com o horário de saída da ciborgue, que havia dito para ele que sairia das docas às 18 horas. Perguntou-se naquele momento o que faria para passar o tempo, claro, apesar de falar em voz alta, a resposta era óbvia, e a pergunta era só uma forma de tentar se livrar dos pensamentos complexos que estava tendo. Ele tinha dinheiro, muito dinheiro e, estava pronto para usá-lo.

Alguns metros a frente uma espécie de pub do início do século; uma plaquinha de madeira – algo realmente improvável de existir num lugar como aquele com seu nome “Big Komura Bar”. Havia alguns televisores antigos, dos bem grandes e de tela fina, uma tecnologia pré Crise, o campeonato de Bola Quádrupla estava passando, assim como outros programas criados pela mídia manipuladora, para dar esperança aos Baixos. Sem perceber, ainda que fosse totalmente contra aquele tipo de programa que tinha como objetivo fazer os pobres pararem de pensar na situação ruim que viviam, ele se pegou assistindo um reality show de sobrevivência, chamado; “Segundas de Esperança”.

[Bairro Azul, no Sussurro de Adelaide, calor, muitas luzes e com barulhos abafados]

O prédio de nove andares era o menor que ele tinha visto até agora, a enorme placa feita inteiramente de projetores de hologramas de neon iluminavam toda a rua com um tom de azul que ele não reconhecia. Leu no leiteiro com alguma dificuldade “Sussurro de Adelaide”, o tal hotel de que Aika tinha lhe dito algumas horas antes. Muitas pessoas parecem circular pela entrada do local, como já havia constatado, aquele bloco era tomado, em sua maioria, por descendentes de asiáticos, apesar de hoje em dia ele saber que esse tipo de divisão não existe mais como era antes.

Faltavam 17 minutos para as 17 horas. Notar isso incomodou Douglas, aquela parte de seu ser que acreditava no oculto – e que ele tentava apagar, o indicava que algo podia estar errado. Pediu um quarto para o atendente, um homem de meia idade, aparentemente sem implantes ou componentes tecnológicos. Seu nome era Han, mas a forma com que tentava forçar que fosse chamado de “Senhor Han” incomodou o rapaz terrestre.

O quarto era no sétimo andar, o quinto quarto de dez. Assim que abriu a porta se surpreendeu com o tamanho do lugar, uma sala espaçosa, com um Holotransmissor no centro, uma cozinha conjugada, uma mesa, duas cadeiras, um sofá simples mais espaçoso, um parede que não cortava totalmente a sala separava-a do quarto, enorme, com uma grande cama no centro, em uma parede um dispositivo que acionava o armário, e ao seu lado a entrada para o banheiro. A grande janela que ocupa toda a extensão do quarto tem um controle, que emula outras paisagens, o que é muito bom, já que exatamente do outro lado da rua há um anúncio, da Salgo, com mais de dez metros brilhando constantemente em diferentes tons de vermelho.

— Vou ignorar que você desligou na minha cara, você sabe que não é assim que trabalhamos.— Falou enquanto a luz vermelha invadia o cômodo o tingindo. – É eu te entendo, tudo bem. Bom, como faremos, essa linha é segura, você pode me passar à localização do encontro.— Um aparelho retangular com uma pequena antena e uma pequena luz LED de cor azul – que tinha tons de roxo graças ao anúncio lá fora ocultava a chamada e impedia que ela fosse rastreada mesmo que houvesse algum aparelho para tal em seu corpo ou roupas. A chamada era feita por um ponto neural que estabelecia conexões via ondas de rádio, ou qualquer outra linha possível de ser achada, ou seja, ela roubava espaço de banda, algo que não era legal, mas ninguém saberia que estava acontecendo graças ao outro aparelho.

A conversa é rápida, ambos estavam em concordância, inclusive sobre as medidas de precaução; ele aguardaria por mais dois dias, e procuraria alguma clínica de biopróteses, para tentar identificar possíveis rastreadores, ou qualquer tipo de aparelho que esteja em seu corpo sem que ele saiba. Nesse meio tempo, ele se aproveitaria da garota para dar peso a sua história, uma camuflagem extra, para fazê-lo parecer algo que não era.

Assim que a transmissão foi interrompida pegou suas coisas e as guardou em um armário simples. Ele não carregava muito, alguns dispositivos, como o que bloqueava os rastreamentos de comunicação, poucas roupas, todas com o mesmo estilo e uma foto antiga de seus amigos.

Tirou então aquela bota que estava em seus pés há horas, apertando-o, esquentando-o. Tocar o piso gelado, que imitava madeira de uma forma quase displicente, o fez sentir-se em casa, lembrar-se de quando era criança. Eram aqueles pequenos momentos da vida que faziam ele se sentir vivo, distante da briga diária pela sobrevivência, das lutas de classe, de tentar não ser esmagado por um sistema que trata os baixos como lixo, pedaços descartáveis de carne.

Foi até a cozinha e pegou um pouco de água, antes de beber tentou olhar se a água parecia aceitável, sabia que geralmente as colônias extra lunares não prestavam pela qualidade dos serviços básicos, estando no bloco mais inferior, o menos abastado, isso provavelmente podia ser pior.

Bebeu, preferiu não pensar mais nisso.

Alguns minutos depois já estava saindo do hotel para procurar por alguma clínica de biopróteses. Os prédios altos até davam uma sensação de “Lar” para ele, já que deixava tudo muito parecido com as cidades subterrâneas de Kaidan. Antes de sair havia copiado alguns arquivos do local para o implante ocular que tinha, então não precisava se preocupar em se perder.

A placa de neon antiga estava repleta de caracteres orientais, era coreano, mas ele não sabia disso. Já tinha notado a grande influência do leste asiático naquele local, os nomes, as placas, os hábitos. A própria Aika com que ia se encontrar agia como as personagens dos desenhos orientais que ele via quando criança.

— Como posso ajudá-lo meu jovem? – Diz uma senhora um pouco encurvada que sentada em uma cadeira de controle acessa algumas páginas na Nuvem, que Douglas não conseguia compreender já que a língua era muito diferente. A verdade é que ele podia usar algum dispositivo de tradução apenas ativando seu implante ocular, mas do que adiantaria ler o que uma dona de loja de bioproteses estava fazendo?

— Bom, é minha ex-esposa é meio louca, sabe? – Disso olhando em volta, vendo as próteses e peças que estavam presas a suportes em todas as paredes. – Ela jogou o carro em cima de mim, então eu sumi da vida dela...- A senhora tossiu interrompendo propositalmente a fala do rapaz. – Você quer sumir da vida dela, mas não sabe como não é? – A pergunta veio junto de um olhar capcioso que foi sentido dentro da alma de Douglas.

— Não! Bom, sim, eu quero. Mas o que preciso é saber se ela consegue me achar. A senhora precisa entender ela não me larga, ela sempre me acha e torna minha vida um inferno! – Esbravejou o rapaz que balançava os braços mostrando real desespero com a ex-esposa.

A senhora então desce da cadeira de controle e nesse mesmo momento todas as atividades que eram expostas nas telas param. O jovem repara que um cabo era conectado a nuca da idosa, e que ela propositalmente o soltou para ir observá-lo mais de perto, colocando um par de óculos com certeza mais antigos do que ela própria.

— Hum... Tudo bem, já sei do que você precisa. – Disse enquanto subia em um banco mal tratado pelo tempo, pegou alguma coisa em uma prateleira na altura dos olhos de Douglas. Mexeu no lugar até encontrar alguma coisa, uma caixa, que parecia ser algum dispositivo de leitura de dados.

O dispositivo custou meros três créditos, o que para aquele lugar tão profundo em uma colônia tão distante, representava uma quantia relevante. Eram cinco pastilhas, que ele deveria tomar uma a cada hora, seguidamente. Sabia que se sentisse um leve desconforto abdominal na primeira hora – que se estenderia até o fim das pastilhas, o remédio estaria fazendo efeito e, ele estaria com pequenos nano robôs que se instalaram em seu estomago e intestino, se alimentando dos próprios nutrientes de seu corpo e, estariam mandando continuamente sua localização para alguém.

Aika estava vestida de forma encantadora, era o que ele pensava, mas não o que demonstrava. Por um lado, na verdade, ele se arrependia em ter concordado em encontrá-la. Sua consciência pesava, ele estava usando uma garota, que além de parecer ingênua podia ser literalmente hackeada por uma pessoa que ele nem sabe ao certo quem é.

A noite correu bem, com o entregador tomando seu remédio a cada hora, como indicado. Na primeira hora o rapaz não notou nenhum desconforto, mas como tomava uma bebida sintética que tinha o objetivo de deixá-lo “alto”, nem perceberia se sentisse. Na segunda hora, porém, quando o efeito da bebida já se afastava, notou algo. A confirmação veio somente na terceira hora, quando uma dor aguda percorreu sua barriga. Dai para frente ele sabia que estava sendo observado. Descobriu, depois de uma rápida pesquisa pela nuvem, que aquele tipo de rastreamento só era possível a curtas distâncias, o que levou a crer que quem estava seguindo-o estava próximo.

Apesar disso a noite continuou, os dois jovens conversaram, brincaram, dançaram, mesmo que Douglas não gostasse Aika o convenceu a participar de um hábito bem comum do Bloco E: cantar em karaokês. A ciborgue parecia uma menina comum, exceto é claro, pelas marcas evidentes de suas próteses Biosintética, em alguns pontos específicos do seu corpo. A nuca, no entanto, chamou mais a atenção do entregador. Notou a primeira vez quando ela o abraçou e ele acidentalmente tocou no lugar. A garota não notou, ou, se notou não se incomodou.

[Bairro Azul, no Sussurro de Adelaide, ar abafado e mente confusa, o Letreiro pulsa em Vermelho]

A luz vermelha do letreiro não dá trégua, deixando no mesmo tom tudo o que encontra. Douglas parece diferente do jovem entusiasmado que se mostrou a todos com que cruzava, cansado com os olhos sem o brilho e um ar de amargura. Na sua mão direita um cigarro, um tipo de droga antiga, muito popular antes da crise, cara de se encontrar hoje em dia, enquanto na mão esquerda uma garrafa de alguma coisa, que por conta da iluminação parece ser sangue puro. Ele olha para a janela, mas não parece prestar atenção no que está lá fora. Seus pensamentos fluem para muito longe, pensando sobre sua vida, o rumo que ela estava tomando, se aquilo que fazia era algo que valia a pena, se o ideal de um Baixo engajado com seu próprio futuro, realmente eram corretos.

"Ding Dong"

A campainha toca sem que ninguém tivesse sido anunciado. Nesse momento ele se arrepende de não ter colocado alguma escuta junto da recepção e do Sr.Han — isso o leva a pensar, será que o recepcionista babaca está bem?

Deu um último trago no cigarro, bem longo e furioso enquanto deixava silenciosamente a garrafa em cima de uma mesinha. A cozinha do apartamento apesar de integrada a sala, possui uma parede vazada, emulando uma "cozinha americana", bem ali em cima um aparelho pequeno, de cor preta com duas lâmpadas brilhantes em alguma cor, que por causa das luzes de fora agora são vermelhas, o entregador o pega, caminhando com extremo cuidado chegando até a porta. Ele apenas a observa por alguns instantes, tentando ouvir algum som, porém não parece haver nada ali, informação só refutada por um segundo toque na campainha e pela sombra escura, bem abaixo da porta, como se algo tivesse se colocado entre a lâmpada acesa do corredor do outro lado.

Pegou o aparelho e o colocou na parte superior da porta, no canto esquerdo, destacou uma espécie de filme e esticou em uma diagonal até cobrir toda a sua superfície, apertou um botão e quase instantaneamente o filme se tornou transparente, um logo — DTOEM, e uma taxa de carregamento surge, mas em um segundo é completa. Uma imagem composta por pontos brancos num fundo preto cria um cenário idêntico ao que está do outro lado, capaz de reproduzir movimentos, iluminação e qualquer corpo orgânico ou não.

A imagem que Douglas vê não diz muita coisa, um homem alto, maior que ele inclusive quando o porte físico é levado em consideração, veste um, sobretudo, além de usar calças compridas e o que parece ser um sapato social.

— Quem usaria um, sobretudo em um lugar como aquele? Foi à primeira dúvida que surgiu em sua cabeça ao olhar para o a imagem.

Movido por essa dúvida, aciona alguns comandos, que automaticamente fazem comparações com um banco de dados extenso, que rapidamente indica a composição do espectro eletromagnético do que se encontra do outro lado dentro da área que ele, Douglas, especificou para ser avaliada.

O leitor do filme exibe a comparação, não é humano. A composição é incompatível, apesar de haver uma camada de algo que têm componentes, dentro do espectro eletromagnético, orgânico sobre um interior feito de uma liga metálica com diferentes componentes. O aparelho sugere com mais de 90% de certeza que se trata de um andróide.

Olhou para trás procurando um bom lugar para se esconder, ele imaginava o que ia acontecer, por isso, sabia que não tinha muito tempo. O sofá não ofereceria resistência, assim como as poltronas, havia uma meia parede, que separava a sala do quarto, parecia ser o único lugar plausível de se ter uma cobertura.

— Bem.. é o que tem para hoje..— Diz em um sussurro, tentando se incentivar a tentar, mesmo sabendo que a situação em que se encontra é muito perigosa. Avançou para o quarto, fazendo uma única parada, bem a cima de uma estante, do outro lado da parede onde se esconderia, há uma pistola, um modelo antigo, pré-crise, mas que virtualmente tem o mesmo efeito de muitas armas modernas.

— Ei... Douglas-Kun, o que está acontecendo?— Pergunta Aika, com a voz baixinha, abrindo a porta do banheiro bem devagar. Douglas não precisou responder a garota pouco depois de perguntar notou o que ele segurava em uma das mãos, a arma, que parecia pintada de vermelho dada a intensa luz provinda do enorme letreiro lá fora.

“Booom”

A porta estoura violentamente, seus pedaços espalham-se pelo quarto.

— Se esconde!— Comanda Douglas com um tom autoritário sem sequer se virar para a garota que imediatamente recolhe seu corpo para trás. Ela não viu, mas ouviu com toda a clareza o som dos disparos consecutivos.

“STOOM!”
“STOOM!”
“STOOM!”

“STOOM!”

Talvez pela interface cibernética que ligava seu cérebro a Nuvem ou por alguma memória reprimida, sua mente a dizia que aquele som repetitivo vinha dos disparos da arma que Douglas tinha em mãos.

Logo a frente do cômodo onde Aika se escondia, o rapaz pintado de vermelho pela constante iluminação de fora, dispara ferrenhamente contra o invasor.

O primeiro tiro pega de raspão no ombro da figura, que não se move. O segundo tiro o atinge na altura do peito e, novamente, a figura não se move. O terceiro tiro pega exatamente no centro de seu tórax, no plexo solar de uma pessoa normal, ele não se mexe. O quarto e último tiro dado naquela seqüência de segundos gastos em que Douglas apenas conseguia captar os pequenos frames dos impactos das balas no corpo imóvel do invasor.

Os clarões segam Douglas, por isso ele para após o quarto disparo, uma pausa de dois segundos, que despertam os movimentos do invasor. A figura de sobretudo investe contra o entregador, que reage jogando-se para o lado. O dedo no gatilho é mais veloz que os motores que geram o impulso da máquina assassina.

Aika ouve novos disparos, três até o som de uma pancada forte silenciar o ambiente. Do outro lado da parede, Douglas não consegue distinguir nenhuma cor de um vermelho escuro, sombreado. Três perfurações ficam muito claras para ele, duas no rosto, em um dos olhos inclusive, a última na região do peito. Porém, antes que tivesse tempo para mais disparos, o andróide o alcança, seu braço poderoso o arremessa para trás com um único solavanco. O corpo humano cobre os três metros que o separava até a parede em uma grande velocidade, o rapaz mal compreende o que está acontecendo até bater com muita força em uma estante, partindo suas prateleiras que fingiam ser de madeira, mas eram de algum material estranhamento frágil.

Seus olhos estavam embaçados, sua cabeça girava Douglas só conseguia pensar na burrada que tinha feito não colocando uma câmera na entrada do prédio, no desleixo de comprar uma pistola, no erro de ter levado aquela garota que nada tinha a ver com aquilo para aquele quarto.

Sentiu as mãos do invasor em seu pescoço, um aperto mortal. Era estranho para ele, tudo acontecia em câmera lenta, apesar de ter compreensão de que eram segundos se passando. A sensação de sufocamento vinha aos poucos, dando espaço para a estranha idéia de que aquelas mãos ao mesmo tempo tão reais, eram de mentira, uma mentira como a dele que levaria a vida daquela garota embora também. E, quem sabe, de toda a colônia, se dependesse da sua imaginação para o que ele carregava em sua mala e para quem seu assassino trabalhava.

Seus olhos se fecharam, até que um solavanco o trouxe de volta a realidade. Gritos o fizeram sair de seu estado anterior, injetando adrenalina em seu sangue como a muito tempo ele não podia sentir.

— Levanta rápido!— Gritava Aika enquanto puxava seu braço. – Vem, vem! Pega a mochila e vem!— Dizia enquanto batia com algo que parecia pesado na cabeça do andróide que estava caído e tentava se levantar em vão.

Levantou, correu até o armário, puxou sua mochila e só olhou para trás para conferir se a garota o acompanhava. Ela estava a um passo dele, enquanto o assassino de sobretudo, ainda tentava se levantar.

Seus olhos se cruzaram, mas talvez algo mais também.

CONTINUA

Notas finais
O bicho pegou. Levei algum tempo pra chegar a essas situações, elas falam um pouco das motivações e, de quem Douglas pensa que é, e, no que ele deveria ser. A Aika é uma fofa na minha cabeça - não sei na de vocês. Gostam do casal? Vocês acham que eles são um casal? Minha primeira ideia para ela era um pouco "bad fellings".. Faria o Douglas usa-la e depois mata-la. É, bem cruel. Mas decidi mudar. PS: Essa é a parte mais longa, não podia separar essas conexões criadas. Até porque as "cenas", eram grandes e com detalhes de certa forma importantes.