Kahrir Valmont e os Sussurros do Castelo: Ano 1
9 Um domingo sob a superfície
A luz da manhã não entra de forma direta nas masmorras da Sonserina, mas se infiltra em tons esverdeados através das janelas submersas, filtrada pela água do lago negro. O quarto ainda carrega o silêncio pesado de quem dormiu fundo, quebrado apenas por pequenos sons — o tecido de alguém se mexendo na cama ao lado, o leve rangido de madeira antiga acomodando o frio da noite que ainda não foi totalmente embora.
Kahrir desperta sem pressa, como se o próprio corpo decidisse o momento certo. O colchão ainda guarda o calor, e por um instante ela permanece ali, olhando o teto de pedra escura, enquanto a mente tenta alcançar os pensamentos da noite anterior — a sala, o pingente, o livro… a sensação de que havia algo maior se formando, mesmo sem forma definida.
Mas nada vem com clareza suficiente para prender.
Só a impressão.
Algo que ficou.
O castelo já está acordado. Dá pra perceber pelo eco distante de passos nos corredores acima, pelo som abafado de vozes que atravessam as paredes, e pelo leve cheiro de comida que começa a chegar das cozinhas — pão quente, talvez, ou algo mais doce.
Quando Kahrir finalmente se senta, o tecido do robe desliza com um som suave, e o pingente, guardado no bolso interno, se ajusta levemente contra o corpo. Não há pulsação. Não há reação forte. Apenas presença.
Como se estivesse… esperando.
O salão comunal da Sonserina está mais vazio que o normal quando ela desce. Alguns alunos já saíram, outros ainda estão espalhados pelos sofás de couro escuro, conversando em grupos pequenos ou simplesmente aproveitando o ritmo mais lento do domingo. A luz esverdeada do lago projeta sombras suaves nas paredes, e o ar tem aquele silêncio confortável que não exige nada de ninguém.
Adrian está sentado em uma das poltronas próximas à lareira, mesmo apagada, folheando um pergaminho com mais distração do que foco. O cabelo castanho ainda levemente bagunçado, como se tivesse decidido não discutir com ele naquela manhã.
Ele levanta o olhar quando percebe a aproximação dela, e um sorriso leve aparece quase automático.
— Você também tem a sensação de que ontem aconteceu coisa demais pra um único dia?
A voz dele ainda carrega aquele tom meio sonolento, mas já com a leve ironia habitual.
Kahrir se acomoda ao lado, puxando o cachecol de forma quase automática, mais por hábito do que necessidade.
— Tenho… parece que a gente já tá aqui há semanas.
Adrian solta um pequeno riso pelo nariz, assentindo.
— Ótimo. Porque se isso for o ritmo normal de Hogwarts, eu não sei se a gente chega no fim do mês inteiro.
Ele dobra o pergaminho e apoia os braços nos joelhos, inclinando o corpo levemente na direção dela, a voz baixando um pouco, mas sem tensão.
— Mas hoje… a gente não faz nada disso.
Uma pausa curta.
— Nada de sala escondida, nada de professor estranho, nada de coisa misteriosa. Só… existir. Eu voto nisso.
Há um grupo de alunos rindo baixo mais ao fundo, alguém passa pelo corredor em direção à saída, e o som de passos ecoa suavemente pelo salão.
Por um instante, tudo parece normal.
Simples.
Kahrir percebe isso — não como ausência de algo, mas como contraste.
Depois de tudo, aquele silêncio tranquilo quase parece… raro.
Adrian se recosta na poltrona, cruzando os braços de forma relaxada.
— A gente pode ir pro café, depois dar uma volta nos terrenos, talvez ver o lago de perto… ou só ficar por aqui mesmo sem fazer absolutamente nada produtivo. Eu sou muito a favor dessa última opção, inclusive.
O castelo segue vivo ao redor deles, mas sem urgência. Sem pressão. Como se, pelo menos naquele momento, nada estivesse prestes a acontecer.
Mas a sensação de que aquilo não duraria muito… ainda está ali.
Discreta.
Quieta.
Kahrir encosta melhor nas costas da poltrona, puxando o cachecol com um gesto distraído enquanto observa o movimento leve do salão comunal, como se estivesse decidindo se aquele era mesmo o tipo de assunto que cabia numa manhã tranquila como aquela. A luz esverdeada do lago desliza pelas paredes e pelo rosto de Adrian, que ainda a observa com aquele meio sorriso relaxado, esperando uma resposta qualquer — talvez algo leve, talvez só mais uma reclamação sobre o cansaço.
Mas ela não responde de imediato.
Os dedos roçam de leve o tecido do robe, exatamente onde o pingente está guardado, e por um instante a lembrança da noite anterior volta mais nítida do que antes — não inteira, não organizada, mas suficiente.
Ela inclina a cabeça um pouco, olhando para ele de lado.
— Eu não fiquei no dormitório a noite toda.
A frase sai sem peso exagerado, quase como um comentário simples, mas é o suficiente para mudar o foco de Adrian. O sorriso dele não desaparece, mas se ajusta — fica mais atento.
— Não? — ele responde, virando um pouco o corpo na direção dela, apoiando o cotovelo no braço da poltrona. — Você saiu pra onde? Não me diz que já começou a explorar o castelo de madrugada sozinha.
O tom ainda tem humor, mas já não é só brincadeira.
Kahrir dá um pequeno sorriso de canto, como se soubesse exatamente como aquilo soava.
— Não foi exatamente planejado… eu acordei e não consegui voltar a dormir. O castelo tava… diferente. Mais silencioso, mas não vazio.
Ela apoia os cotovelos nos joelhos, os dedos entrelaçados por um instante antes de continuar, sem pressa, como quem está organizando a própria memória enquanto fala.
— Eu fui andando sem muito destino. Só… seguindo o corredor. E aí eu passei por uma armadura.
O salão comunal continua com seu movimento lento, vozes baixas, passos ocasionais ecoando pelas pedras, como se nada ali tivesse urgência alguma. E, ainda assim, há uma sensação discreta de que certas coisas… não pertencem totalmente àquela tranquilidade.
Mason puxou a poltrona ao lado com aquele cuidado quase automático de quem raramente faz qualquer movimento sem parecer já ter pensado nele antes, e se sentou de lado, apoiando um braço no encosto, mais à vontade do que costumava parecer perto dos outros alunos. A luz esverdeada que vinha das janelas do lago passava pelo cabelo loiro acinzentado dele e deixava o salão comunal com aquele aspecto estranho e elegante das manhãs de domingo em Sonserina, como se o castelo inteiro ainda estivesse espreguiçando os ombros de pedra antes de decidir o que faria do resto do dia. Perto da lareira apagada, o couro escuro das poltronas ainda guardava um pouco do frio da noite, e do corredor que levava para fora vinha, de tempos em tempos, o som abafado de passos e vozes baixas de alunos que já estavam a caminho do café da manhã.
Kahrir ajeitou uma mecha do cabelo castanho-claro para o lado, pensativa, e viu Adrian inclinar um pouco o corpo na direção dos dois, o semblante leve de sempre ainda ali, embora mais atento. Ele tinha aquele jeito de parecer relaxado mesmo quando claramente não estava tão relaxado assim, e os olhos avelã agora alternavam entre ela e Mason com uma curiosidade contida.
— Tá, espera — disse ele, esfregando o polegar no braço da poltrona. — Você acorda no meio da noite, resolve passear sozinha pelo castelo, encontra uma armadura esquisita e só agora me conta isso? Gostei da parte em que eu quase não tive um troço.
Kahrir soltou um pequeno sorriso, mais pelo jeito como ele disse do que pela reclamação em si.
— Eu ia te contar. Você que tava ocupado defendendo a ideia de passar o domingo inteiro sem fazer nada produtivo.
— Continuo defendendo — respondeu Adrian, sem perder o tom. — Mas preferia estar defendendo isso sabendo que minha amiga não anda fazendo visitas noturnas a armaduras possivelmente amaldiçoadas.
Mason deixou escapar um som curto pelo nariz, algo entre divertimento e concordância, e apoiou o queixo de leve na mão.
— Não precisa amaldiçoar a armadura tão rápido — disse ele. — Hogwarts já faz um trabalho excelente sozinha sem ajuda de ninguém.
A frase, dita daquele jeito seco e tranquilo, arrancou de Adrian um sorriso quase imediato.
— Obrigado, Mason. Sempre bom ver você trazendo conforto emocional pro grupo.
Mason ergueu uma sobrancelha, sem pressa.
— Faço o que posso.
O clima afrouxou de um jeito natural, sem dissolver completamente a estranheza do assunto. Era uma das coisas que começavam a acontecer com mais frequência entre os três: o incômodo não desaparecia, mas deixava de parecer grande demais para ser dito em voz alta. Kahrir percebeu isso enquanto olhava de um para o outro, sentindo a manhã avançar devagar ao redor deles, com aquele cheiro distante de pão assando e chá vindo de algum ponto invisível do castelo.
— Não foi exatamente medo — disse ela depois de um momento, escolhendo as palavras com mais cuidado do que solenidade. — Foi mais... aquela sensação de quando uma coisa parece errada sem estar fazendo nada. A armadura não se mexeu. Não fez barulho. Só ficou ali, e ainda assim eu não gostei de estar perto dela por muito tempo.
Mason assentiu muito de leve, como se aquela explicação lhe bastasse mais do que bastaria para a maioria das pessoas.
— Isso já é bastante.
Adrian lançou um olhar rápido para ele.
— Você fala isso como se fosse a coisa mais normal do mundo.
— Em Hogwarts? — Mason inclinou a cabeça, o tom calmo, mas agora com um traço mais solto. — Honestamente, eu acho que “não gostei de estar perto disso” é um critério bem saudável.
Kahrir riu baixo, e o próprio som ajudou a tirar o resto da rigidez que ainda tinha ficado na conversa. Adrian percebeu também e relaxou um pouco os ombros.
— Certo, então temos uma regra nova — disse ele. — Corredores antigos, armaduras desagradáveis e passeios de madrugada entram oficialmente na lista de coisas que ninguém faz sozinho. Principalmente você.
— Ah, claro — retrucou Kahrir, com ironia suficiente para não soar defensiva. — Porque você claramente tomaria decisões excelentes se acordasse no meio da noite sem sono.
— Eu tomaria, sim — disse Adrian, muito sério por um segundo. — A primeira delas seria continuar na cama.
Mason olhou para ele.
— Mentira.
Adrian levou a mão ao peito, fingindo ofensa.
— Eu gosto muito da falta de fé que vocês dois têm em mim.
O salão comunal foi ficando um pouco mais cheio enquanto eles falavam. Dois alunos mais velhos passaram perto das janelas submersas discutindo alguma coisa em sussurros apressados, uma garota do segundo ano atravessou o espaço carregando um livro enorme encostado no peito, e do lado de fora, além do vidro esverdeado, alguma criatura do lago passou depressa demais para ser identificada, deixando apenas uma sombra longa e líquida deslizando sobre a pedra. Nada daquilo parecia exigir atenção; ainda assim, tudo contribuía para aquela sensação permanente de que o castelo nunca estava realmente parado.
Kahrir descansou o olhar na luz ondulante das janelas por um instante, depois voltou para Mason.
— Você já viu alguma armadura estranha por aqui?
Ele pensou antes de responder, não por mistério, mas porque parecia genuinamente separar na cabeça o que era “estranho comum de Hogwarts” do que merecia ser lembrado.
— Já vi armaduras se mexendo onde não deviam, vi uma cair em cima de um monitor no ano passado e vi uma espada desaparecer de uma sem ninguém tocar — disse ele. — Mas isso... do jeito que você falou, não. Parece outra coisa.
Adrian fez uma careta leve.
— Odeio quando você diz “parece outra coisa” como se isso fosse tranquilizador.
— Não era pra tranquilizar — respondeu Mason, quase distraído. — Era só pra ser honesto.
Kahrir sentiu o peso leve do pingente dentro do robe ao ajustar a postura, uma lembrança discreta de que a armadura não era o único detalhe estranho que ela carregava consigo naquela manhã. Não havia reação alguma vinda dele, nada que transformasse o momento em algo mais dramático do que era, mas a presença do objeto bastava para manter uma parte do pensamento dela acordada, mesmo sob a calma arrastada do domingo.
Adrian percebeu quando ela tocou o tecido sobre o bolso e o olhar dele mudou só o bastante para mostrar que também tinha pensado na mesma coisa. Ele não mencionou o pingente em voz alta. Em vez disso, levantou-se da poltrona com um impulso decidido demais para alguém que, minutos antes, defendia o ócio como princípio moral.
— Certo — disse, esticando os braços acima da cabeça. — Antes que a gente transforme essa manhã numa reunião oficial de coisas inquietantes, eu proponho comida. Comida boa, pão quente, chá, qualquer coisa que lembre que ainda somos alunos normais num domingo e não três idiotas a dois passos de entrar num problema enorme.
Mason se levantou em seguida, alisando a manga do uniforme com um gesto breve.
— “A dois passos” foi otimista.
Adrian soltou um riso.
— Viu? É por isso que eu precisava levantar. Ficar sentado perto de você cedo demais no domingo me torna pessimista por osmose.
Kahrir também se levantou, e por um instante os três ficaram ali, perto das poltronas, com o salão comunal ao redor ganhando vida devagar. Havia alguma coisa reconfortante naquela cena — não por ser grandiosa, mas justamente por não ser. O frio suave nas pedras, a luz filtrada pela água, o cheiro distante do café da manhã e a sensação de que, por mais esquisito que o castelo pudesse ser, ela já não atravessava aquilo sozinha.
Eles seguiram em direção à saída, e a passagem que levava para os corredores principais se abriu diante deles com o mesmo ar úmido e frio de sempre. Do outro lado, o castelo respirava em ecos baixos de conversas, tecido roçando pedra, portas abrindo e fechando ao longe. Domingo em Hogwarts tinha uma espécie de desordem tranquila, como se até as escadas, por uma vez, preferissem não chamar tanta atenção.
Já no corredor, Adrian enfiou as mãos nos bolsos e lançou um olhar de lado para Kahrir.
— Então, além de armaduras duvidosas e passeios noturnos, tem mais alguma coisa que você resolveu viver sozinha ontem e eu ainda não sei?
O tom era leve, mas a pergunta vinha com cuidado verdadeiro por baixo.
Mason caminhava do outro lado, mais quieto, embora presente de um jeito firme, acompanhando o ritmo dos dois sem a distância calculada que mantinha perto de quase todo mundo. O trio desceu os primeiros lances de escada em direção ao Salão Principal enquanto, pelas janelas altas do corredor, uma manhã pálida se espalhava sobre os terrenos de Hogwarts, deixando o lago negro com brilho de metal escuro e as estufas ao longe cobertas por um véu fino de umidade.
Kahrir acompanhou os dois pelo corredor de pedra, sentindo o frio suave da manhã subir pelos tornozelos cada vez que a barra do robe se movia com os passos. As janelas altas deixavam entrar uma luz pálida, quase prateada, que tocava de leve os cabelos castanho-escuros de Adrian e dava ao loiro acinzentado de Mason um brilho frio por um instante, antes que os três atravessassem outra faixa de sombra. Mais abaixo, o castelo já estava desperto de verdade; ouvia-se o abrir de portas, o arrastar discreto de passos apressados, o murmúrio de conversas entrecortadas e, vindo de algum lugar mais distante, um cheiro quente de pão, manteiga e chá que fazia o domingo parecer quase comum.
Ela olhou de lado para Adrian quando ele fez a pergunta, e o canto da boca se moveu num sorriso pequeno, daquele tipo que vinha mais da consciência de que ele estava tentando ser leve do que de qualquer vontade real de rir.
— Ainda não — respondeu, ajeitando uma mecha do cabelo longo e ondulado para o lado. — Mas gostei do “ainda”. Bem otimista da sua parte.
Adrian soltou um sopro divertido pelo nariz, descendo dois degraus de cada vez sem perder o equilíbrio.
— Eu tento manter expectativas realistas. Com você, “não aconteceu mais nada” nunca soa totalmente definitivo.
— Com vocês dois também não — retrucou Kahrir, lançando um olhar rápido para Mason.
Mason, que vinha do outro lado com a postura sempre mais contida, mas sem a rigidez habitual que mostrava perto do resto da escola, apenas inclinou a cabeça de leve.
— Justo.
O comentário curto foi o suficiente para fazer Adrian rir de verdade dessa vez, e o som ecoou suavemente pela escadaria antes de se dissolver no barulho geral do castelo. Havia alguma coisa confortável naquela troca — não porque afastasse tudo o que vinha incomodando nos últimos dias, mas porque deixava as coisas caberem entre eles sem virar peso demais. Kahrir percebeu isso com nitidez enquanto viravam outro corredor, agora mais largo, com tapeçarias antigas nas paredes e um clarão distante indicando a proximidade do Salão Principal.
— Mas eu lembrei de uma coisa — disse ela depois de alguns segundos, não apressando as palavras. — Quando eu voltei pro dormitório... eu fiquei com a impressão de que não era só a armadura que tava estranha. Era o corredor inteiro. Como se ele tivesse... sei lá. Menos vazio do que devia.
Ela não olhou para nenhum dos dois imediatamente. Preferiu acompanhar com os olhos o reflexo baço da manhã nas pedras gastas do chão, como se a sensação pudesse ficar mais clara se ela não tentasse forçá-la.
— Não tinha ninguém lá. Eu sei que não tinha. Mas parecia que tinha alguma coisa prestando atenção.
Adrian diminuiu um pouco o passo. Não o bastante para dramatizar a conversa, apenas o suficiente para mostrar que estava ouvindo de verdade agora. Quando respondeu, o tom continuou leve, mas havia menos brincadeira e mais cuidado.
— Tá. Isso eu não gosto.
— Ninguém gosta — disse Mason, sem olhar para eles, os olhos claros seguindo o corredor à frente. — Principalmente quando o lugar parece normal demais.
Kahrir voltou o rosto para ele. Mason falava pouco, mas quando falava daquele jeito calmo, quase distraído, era como se dissesse algo que já vinha pensando havia algum tempo. Adrian também percebeu e franziu levemente a testa.
— Você tá falando como se já tivesse sentido isso.
Mason deu um meio encolher de ombros, mínimo.
— Não ali. Mas no castelo, sim. Às vezes você entra em algum lugar e ele parece... ocupado. Mesmo sem ninguém.
— Que reconfortante — murmurou Adrian.
Mason lançou a ele um olhar breve, quase mais paciente do que irônico.
— Você estuda em Hogwarts. Em algum momento isso precisava deixar de surpreender tanto.
A resposta arrancou de Kahrir um sorriso mais verdadeiro, e ela viu Adrian revirar os olhos com um ar ofendido demais para ser sério.
— Eu queria registrar que estou sendo muito corajoso diante de tudo isso.
— Está sendo muito falante diante de tudo isso — corrigiu Mason.
— Isso também é uma forma de coragem.
Eles finalmente alcançaram a antecâmara do Salão Principal, onde o som se ampliava e o cheiro do café da manhã ficava mais forte, envolvente, misturado ao calor agradável que escapava pelas grandes portas já abertas. Lá dentro, o teto encantado refletia uma manhã nublada, azul-clara e cinzenta, com nuvens altas correndo devagar como se o céu, lá fora, ainda estivesse decidindo se queria chover. As mesas estavam menos cheias do que em dias de aula, e o domingo dava ao lugar uma desordem mais preguiçosa, com alunos de várias casas demorando mais que o necessário sobre as torradas, o mingau ou o chá, aproveitando a única manhã da semana que não exigia pressa imediata.
Os três caminharam até a mesa da Sonserina, e Kahrir sentiu o calor do ambiente bater no rosto de um jeito agradável depois dos corredores frios. O som de pratos tocando madeira, o aroma de manteiga derretida, bacon, pão recém-saído do forno e geleia tornavam tudo quase indecentemente comum, como se o castelo insistisse em lembrar que podia ser acolhedor na mesma medida em que era inquietante.
Adrian puxou lugar para os três com a naturalidade de quem já tinha decidido que sentariam juntos antes mesmo de chegarem ali.
— Certo — disse ele, servindo-se de chá e apontando a colher na direção dos dois como se abrisse uma sessão formal. — Regra nova de domingo: ninguém anda sozinho de noite, ninguém segue corredor esquisito sem avisar, e se alguma armadura parecer minimamente ofensiva, a gente finge maturidade e vai embora.
— “Finge maturidade” foi a parte mais realista da frase — observou Kahrir, pegando uma torrada ainda quente.
Adrian abriu um sorriso de canto.
— Eu trabalho com o que tenho.
Mason serviu-se com menos entusiasmo, mas sem a reserva quase automática que tinha nos primeiros dias. Havia algo mais solto nele agora, discreto, porém perceptível, como se o simples fato de estar ali com os dois tornasse desnecessário manter aquela compostura impecável de sempre o tempo inteiro.
— A armadura ficou onde estava? — perguntou ele, enquanto passava um pouco de manteiga no pão.
Kahrir assentiu.
— Ficou. Pelo menos quando eu saí de lá.
— Então talvez esteja esperando você passar de novo — disse Adrian, e imediatamente fez uma careta. — Não gostei de ter falado isso em voz alta.
Kahrir soltou um riso baixo e tomou um gole de chá antes de responder.
— Que bom. Porque agora eu também não gostei.
Mas, apesar da resposta, a ideia não se desfez tão facilmente. Não porque parecesse uma teoria grandiosa, e sim porque combinava demais com a sensação que tinha ficado. O corredor, a armadura, aquele desconforto difícil de explicar — nada disso parecia resolvido pelo simples fato de a manhã ser clara e a mesa estar cheia de comida. Ficava ali, quieto, meio encostado no pensamento, sem pedir atenção constante, mas sem desaparecer.
Ao redor deles, o Salão Principal seguia seu ritmo fácil de domingo. Um grupo de alunos da Lufa-Lufa ria perto demais de uma jarra de suco de abóbora que quase tombou, dois corvos bicavam alguma coisa caída perto da mesa da Corvinal antes de serem espantados por uma aluna irritada, e mais adiante um fantasma atravessou vagarosamente uma coluna, como se até os mortos tivessem escolhido um ritmo mais preguiçoso para aquela manhã. Nada parecia apontar para perigo, e talvez fosse justamente isso que tornasse Hogwarts tão desconcertante às vezes: o castelo podia ser belo, antigo, confortável e absolutamente suspeito ao mesmo tempo.
Kahrir olhou por um instante para a mesa dos professores quase por hábito, sem esperar encontrar nada de particular ali, e o fez da mesma forma que alguém encosta os dedos numa gaveta fechada só para confirmar que ela continua no lugar. A manhã seguia normal. Demasiado normal. E, ainda assim, uma parte dela tinha a impressão persistente de que o domingo não terminaria sendo apenas um intervalo entre um acontecimento estranho e outro.
Adrian, já mais distraído com o prato e com a evidente felicidade de alguém que tinha decidido levar o café da manhã a sério, recostou-se um pouco e olhou para Kahrir por cima da xícara.
— Tá pensando em quê?
A pergunta veio simples, quase casual, mas havia atenção verdadeira por baixo, daquele tipo que não tentava arrancar resposta, só a deixava mais fácil.
Kahrir girou a xícara entre os dedos por um instante, sentindo o calor subir pela porcelana e aquecer a ponta das mãos, ainda um pouco frias dos corredores. O chá soltava um vapor fino com cheiro de ervas e alguma coisa adocicada que ela ainda não sabia nomear, e por um momento foi mais fácil olhar para ele do que para Adrian, como se as palavras se organizassem melhor assim. O teto encantado acima deles mostrava um céu de outono carregado de nuvens claras e compridas, e a luz daquele sete de setembro entrava no Salão Principal com uma palidez bonita, fria o bastante para fazer o ouro dos pratos e castiçais parecer mais quente.
— Tô pensando que Hogwarts é muito inconveniente — respondeu enfim, erguendo os olhos para Adrian com um meio sorriso cansado. — Você começa a achar que vai tomar café da manhã em paz, e o castelo dá um jeito de parecer suspeito até quando tá bonito.
Adrian soltou uma risada baixa, apoiando a xícara no pires com um toque leve.
— Isso foi quase poético. Acho que você tá se adaptando rápido demais.
— Isso não era elogio — disse Mason, sem levantar muito a voz, cortando um pedaço de pão como se estivesse comentando o tempo.
— Quase nada que eu digo é elogio puro — retrucou Adrian, já sorrindo de canto de novo. — Tem que aprender a ouvir as camadas.
Kahrir deixou escapar um riso curto e tomou um gole do chá antes de continuar, agora um pouco mais séria, ainda que não pesada. O calor desceu devagar, confortável, e ajudou a desfazer aquela impressão persistente da noite anterior, embora não a apagasse por completo.
— Mas também tô pensando que talvez eu tenha começado a prestar atenção demais em tudo — disse ela. — Tipo… ontem à noite parecia impossível ignorar aquela armadura. Agora eu olho pro castelo e fico com a sensação de que qualquer tapeçaria pode estar escondendo alguma coisa ou que qualquer professor pode estar mentindo por esporte.
Adrian inclinou a cabeça, os olhos avelã fixos nela com um interesse mais quieto do que o habitual.
— Você acha que é coisa da sua cabeça?
A pergunta veio sem desafio, sem a menor vontade de desmenti-la. Era mais cuidado do que dúvida. Kahrir pensou nisso por um segundo, observando o movimento do salão à sua volta. Um grupo da Grifinória ria alto demais perto das jarras de suco de abóbora, uma menina da Corvinal lia com o rosto quase dentro do livro enquanto espalhava geleia numa torrada sem olhar, e um fantasma atravessava a mesa dos professores com a calma ofendida de quem tinha toda a eternidade e sabia disso. Tudo parecia normal da maneira particular de Hogwarts, e mesmo assim o incômodo permanecia ali, não grande, não urgente — apenas firme.
— Não totalmente — respondeu ela, com honestidade. — Acho que uma parte é minha. Mas não acho que seja tudo.
Mason passou a faca pelo pão mais uma vez, sem pressa, e o gesto preciso combinava tanto com ele que parecia parte natural do próprio pensamento.
— Também não acho.
Adrian olhou para os dois, depois soltou um suspiro resignado que não era exatamente resignação, porque o canto da boca continuava inclinado daquele jeito quase divertido.
— Ótimo. Fico muito feliz que a conclusão oficial do café da manhã seja “talvez o castelo esteja mesmo estranho”. Muito repousante pra um domingo.
— Você pode fingir que não ouviu — sugeriu Kahrir.
— Não consigo. Tenho memória excelente para coisas ruins.
— Isso explica muita coisa — disse Mason.
Adrian apontou a faca de manteiga para ele, escandalizado.
— Vocês dois estão ficando confortáveis demais comigo.
— Você fala demais pra ser tratado com delicadeza o tempo inteiro — devolveu Kahrir, e desta vez o sorriso veio mais fácil.
O comentário ficou entre os três com uma leveza boa, daquelas que não pareciam esforço. Não era apenas que se conheciam melhor agora; era que a estranheza dos últimos dias tinha criado entre eles um tipo de proximidade que não dependia de grandes declarações ou promessas. Adrian fazia o ar ficar menos pesado sem forçar brincadeira demais, e Mason, mesmo quieto, tinha parado de parecer alguém que ocupava apenas a borda das conversas. Havia alguma coisa estável nos dois ali com ela, na forma como ouviam sem rir da parte errada e respondiam sem transformar tudo num caso solene.
Kahrir pegou uma das torradas e passou geleia devagar, vendo o vermelho escuro se espalhar pela superfície dourada enquanto o pensamento voltava, quase sem que ela quisesse, ao corredor da noite anterior. Não à armadura exatamente — ou não só a ela. Àquela sensação de que o castelo, às vezes, parecia reconhecer alguém antes mesmo de ser compreendido. Não era uma ideia confortável, mas também não era inteiramente ruim. Tinha a mesma qualidade do frio do lado de fora das janelas: nítido, impossível de ignorar, estranhamente vivo.
— Acho que o pior não foi a armadura — disse ela, mais baixo agora, olhando para a própria torrada como se a frase tivesse saído antes de estar pronta. — Foi voltar pro dormitório e continuar sentindo que tinha alguma coisa errada, mesmo depois que eu já tava deitada. Como se o castelo… tivesse ficado comigo um pouco.
Adrian não brincou dessa vez. O olhar dele se demorou nela por um segundo a mais, e o barulho do salão pareceu recuar um pouco, não por suspense, mas por causa da atenção simples que os dois agora lhe davam.
— Isso ainda tá aí? — perguntou ele.
Kahrir pensou antes de responder. O pingente repousava quieto sob o robe, sem pulsar, sem esquentar, apenas presente. Do lado de fora, além das janelas altas, o outono deixava os terrenos de Hogwarts com aquele aspecto de começo de estação, em que as árvores ainda seguravam parte do verde, mas algumas folhas já tinham começado a ganhar cobre e ferrugem nas pontas. O céu parecia amplo e frio sobre o lago negro, e uma rajada de vento sacudiu as copas mais distantes com uma firmeza seca, trazendo para dentro um cheiro leve de terra úmida quando alguém abriu a porta principal por alguns instantes.
— Tá mais fraco — disse ela. — Mas tá.
Mason ergueu os olhos do prato.
— Então não força nada hoje.
A recomendação foi dada do jeito dele, sem enfeite, sem tom de comando, e talvez por isso soasse mais natural do que se viesse de qualquer outra pessoa. Adrian assentiu logo em seguida, recostando-se um pouco no banco.
— Concordo. Hoje a gente faz o que pessoas normais fazem em Hogwarts num domingo de outono. Come, anda pelos terrenos, reclama do frio, talvez descubra onde os alunos mais velhos se escondem quando querem evitar todo mundo… essas coisas.
— Isso foi estranhamente específico — comentou Kahrir.
— Eu tenho ambições modestas.
— Mentira — disse Mason, e havia quase um vestígio de humor no jeito como ele falou.
Adrian levou a mão ao peito, ferido.
— Vocês realmente decidiram começar o dia me atacando.
— A gente tá sendo muito gentil, na verdade — disse Kahrir, agora já sorrindo de novo. — Você só não sabe reconhecer.
Ele ia responder alguma coisa, provavelmente longa e dramática, quando um movimento perto da mesa dos professores chamou a atenção de Kahrir por puro reflexo, do mesmo jeito que alguém percebe uma mudança de vento sem saber exatamente por quê. Não foi nada grandioso. Apenas Quirrell se levantando mais cedo do que o restante dos professores, apertando as vestes um pouco tortas contra o corpo enquanto se preparava para sair do salão. Mesmo de longe havia aquele ar apressado, o jeito de quem parecia sempre ligeiramente deslocado do próprio espaço, como se nunca conseguisse descansar completamente em lugar nenhum.
Kahrir não comentou de imediato. Também não precisou. Adrian percebeu seu olhar primeiro e seguiu a direção dele, o semblante relaxado sofrendo apenas um ajuste discreto, quase imperceptível para qualquer pessoa que não estivesse sentada à mesma mesa. Mason viu por último, mas, quando viu, não pareceu surpreso.
Quirrell atravessou o espaço da mesa dos professores com passos rápidos e saiu por uma porta lateral, sem olhar para os alunos. Nada na cena, para qualquer outra pessoa, pareceria digno de nota. Ainda assim, o desconforto da noite anterior se rearranjou dentro de Kahrir com a mesma precisão desagradável de uma peça sendo recolocada no lugar certo.
Adrian apoiou os braços na mesa e falou baixo, sem tirar os olhos da própria xícara.
— Tá. Eu ia propor um domingo normal de novo… mas agora parece que o castelo discordou.
Mason pegou o chá, tomando um gole curto antes de responder.
— O castelo nunca gostou muito de normalidade.
Kahrir ainda mantinha os olhos na porta lateral por onde Quirrell tinha saído, sentindo aquela velha impressão — não de perigo imediato, não de urgência, mas de fio puxado devagar. Era sempre assim com ele. Nada suficiente para apontar com o dedo. Nada que coubesse numa explicação limpa. Só a impressão persistente de que alguma coisa se movia embaixo da superfície, do mesmo jeito que as sombras do lago passavam sob as janelas da Sonserina: silenciosas, fundas e sempre um pouco maiores do que pareciam à primeira vista.
Kahrir manteve os olhos na porta lateral por mais um instante, não por insistência, mas porque a sensação que Quirrell deixava para trás nunca parecia ir embora no mesmo momento em que ele saía do campo de visão. Era como o cheiro de fumaça em tecido antigo: discreto, mas difícil de ignorar depois que se notava. Ela apoiou a xícara no pires com cuidado e passou o polegar pela borda da porcelana, sentindo o calor que ainda restava ali enquanto o domingo continuava em volta deles com aquela falsa tranquilidade que Hogwarts parecia cultivar tão bem.
— Eu odeio isso — murmurou ela, sem tirar completamente o olhar da porta. — Parece que ele nunca faz nada de verdade. Só passa e deixa tudo… meio errado.
Adrian soltou um pequeno sopro pelo nariz, recostando-se no banco, embora o corpo dele continuasse inclinado para a frente o bastante para denunciar que já não estava mais pensando no café da manhã.
— Sim, essa parte é particularmente irritante. Seria muito mais prático se ele resolvesse agir como um vilão de história infantil e carregasse uma capa mais suspeita ou começasse a rir sozinho nos corredores.
Mason ergueu a xícara até a boca, mas havia um brilho leve, quase cansado, no olhar claro quando respondeu:
— Não fala isso alto. Hogwarts pode achar que é sugestão.
A frase fez Adrian sorrir de canto, mas o humor não desfez completamente a impressão ruim. Kahrir baixou o olhar para o próprio prato e rasgou um pedaço de torrada entre os dedos sem muita convicção. O gesto a ocupava só o suficiente para lhe dar tempo de pensar. Não era medo, e também não era exatamente vontade de sair correndo atrás de Quirrell como se isso resolvesse alguma coisa. Era mais aquela inquietação teimosa, a mesma que a fizera sair do dormitório na noite anterior, a sensação de que ficar sentada esperando o castelo decidir o que queria dela era quase tão incômodo quanto não entender nada.
Ela ergueu os olhos de novo, agora para os dois.
— Eu não quero seguir ele — disse, antes que qualquer um deles entendesse outra coisa. — Pelo menos não hoje. Tô cansada de parecer que a gente só anda de um lugar pra outro atrás dele como se Hogwarts inteira tivesse deixado de existir.
Adrian assentiu na mesma hora, aliviado demais para disfarçar direito.
— Ótimo. Excelente. Maravilhoso. Essa é de longe a melhor coisa que você falou desde que a gente sentou.
Mason pousou a xícara.
— Mas você quer fazer alguma coisa.
Não foi uma pergunta de verdade. Kahrir lançou a ele um olhar breve, quase resignado pelo fato de ele ter acertado tão facilmente.
— Quero. Só não quero que seja sempre a mesma coisa.
O teto encantado acima deles clareou um pouco quando as nuvens se moveram, e uma luz mais fria, nitidamente outonal, escorreu pelas mesas compridas e pelos ombros dos alunos mais próximos. O salão parecia menos cheio agora; alguns já tinham ido embora, arrastando consigo o barulho mais alto, e o que restava era um ritmo mais lento de talheres e vozes abafadas, como se o castelo lhes oferecesse aquela manhã com uma espécie de generosidade preguiçosa.
Adrian apoiou o queixo na mão, observando Kahrir com atenção.
— Certo, então o que você quer fazer que não envolva perseguir professor estranho nem conversar com armadura.
Ela deixou escapar um pequeno sorriso.
— Eu queria ver o lado de fora de verdade. Não correndo pra estufa, não atravessando pátio entre uma aula e outra. Só… andar. Acho que se eu passar o domingo inteiro aqui dentro vou começar a desconfiar até das colheres.
— Tarde demais pra isso — disse Adrian. — Tenho quase certeza de que uma delas me julgou agora há pouco.
Mason não sorriu de imediato, mas a resposta veio com uma calma mais solta do que a de costume.
— Ela tinha motivo.
Adrian virou o rosto na direção dele com um ar de ofensa cansada, e Kahrir riu baixo, dessa vez sem esforço. O som pareceu acertar alguma coisa entre os três, porque o resto da tensão cedeu um pouco, não desaparecendo, mas se acomodando onde podia ser carregada sem mandar em tudo.
— Os terrenos vão estar frios — disse Mason, enxugando os dedos num guardanapo. — E provavelmente úmidos. O gramado perto do lago fica pior nessa época.
— Isso foi uma tentativa sua de desanimar a ideia? — perguntou Adrian.
— Não. Foi só informação útil. Tenta reconhecer quando ela aparece.
— Eu reconheço. Só estranho quando vem de você.
Mason ergueu levemente uma sobrancelha, e dessa vez a sombra de humor ficou mais clara.
— Problema seu.
Eles terminaram de comer sem pressa, e Kahrir sentiu que o corpo agradecia aquela pausa mais do que admitiria em voz alta. O cansaço da noite anterior ainda estava ali, mas já não pesava do mesmo jeito; o calor do chá, a comida e a companhia faziam o domingo parecer mais habitável. Quando se levantaram, o banco rangeu de leve sobre o piso de pedra, e um fantasma de gola rendada atravessou a ponta da mesa da Sonserina com um ar tão distraído que quase parecia ter esquecido que estava morto.
Os três deixaram o Salão Principal juntos e seguiram pelos corredores largos em direção às portas que davam para o exterior. A cada curva, o castelo mudava de cheiro e de som: pedra fria, madeira encerada, um resto de fumaça vindo de alguma lareira distante, o eco de passos mais apressados em escadas laterais. O domingo de sete de setembro tinha aquela claridade pálida do começo do outono, e quando finalmente atravessaram as grandes portas de carvalho, o ar bateu neles de uma vez, fresco, limpo e com cheiro de terra úmida, folhas secas e lago.
Kahrir respirou fundo sem perceber que estava fazendo isso. Os terrenos de Hogwarts se abriam diante deles em tons mais frios do que nos dias anteriores; o gramado ainda era verde, mas um verde mais escuro, mais carregado, e as árvores começavam a ganhar bordas de cobre e ferrugem nas folhas mais altas. Ao longe, o lago negro refletia o céu nublado como metal escurecido, e o vento passava sobre a superfície empurrando pequenas ondulações que pareciam arrastar a luz junto.
Adrian enfiou as mãos nos bolsos e fez uma careta ao primeiro golpe de vento.
— Certo. Retiro qualquer comentário anterior sobre sair. Tava bem melhor perto das torradas.
Kahrir puxou o cachecol verde-esmeralda um pouco mais para cima com um gesto automático, sentindo a lã aquecer o pescoço quase de imediato.
— Agora você já saiu. Aguenta.
— Gosto quando você finge simpatia.
Mason vinha do outro lado, com a postura sempre mais controlada, as mãos livres e o olhar percorrendo os terrenos com a mesma atenção tranquila com que parecia examinar quase tudo. O vento mexeu de leve nos fios loiro-acinzentados do cabelo dele, mas nem isso lhe tirava o ar de quem já tinha decidido que reclamar do frio era um desperdício de energia.
— A margem do lago vai estar pior — disse ele. — Mas a vista compensa.
Adrian soltou um som resignado.
— Eu não sei se isso é encorajamento ou ameaça.
— Depende do quanto você gosta de sentir as mãos.
Eles seguiram por um dos caminhos de pedra que desciam em direção ao gramado mais aberto, e o castelo atrás deles parecia diferente visto dali: menos labiríntico, mais antigo, com as torres altas recortadas contra o céu cinzento e as janelas refletindo uma luz indecisa. Por um momento, nada pareceu particularmente suspeito. Não havia armaduras inquietantes, nem professores saindo cedo demais de lugar nenhum, nem objetos escondidos esperando para serem encontrados. Só o vento, o cheiro da água, o som distante de alguns alunos mais velhos em outro trecho dos terrenos e a sensação boa, quase estranha, de poder estar em Hogwarts sem necessariamente procurar alguma coisa.
Kahrir deixou o olhar correr pelo lago, pelas estufas mais ao longe, pelas árvores que balançavam devagar, e sentiu a mente afrouxar só um pouco, o bastante para a manhã finalmente começar a parecer manhã.
Então, vindo de um ponto mais adiante do caminho, quase perto da curva que levava para uma área menos movimentada dos terrenos, um brilho pálido chamou sua atenção. Não foi forte, nem dramático — apenas um reflexo breve, deslocado do resto da paisagem, como se alguma coisa clara tivesse se movido entre os arbustos e sumido logo em seguida.
Adrian continuou andando por meio segundo antes de perceber que o ritmo dela tinha mudado.
— O que foi? — perguntou, olhando de lado.
Mason também virou o rosto na direção em que Kahrir olhava, e o vento trouxe com mais força o cheiro de folhas úmidas e terra revolvida, misturado a alguma coisa menos fácil de identificar, leve demais para ser nomeada de imediato.
Kahrir estreitou um pouco os olhos, não porque tivesse certeza do que vira, mas porque o brilho tinha sido rápido demais para ser ignorado e discreto demais para parecer imaginação pura. O vento atravessou o caminho de pedra e empurrou uma mecha do cabelo castanho-claro contra seu rosto; ela a afastou com os dedos sem desviar o olhar da curva adiante, onde os arbustos baixos tremiam só o suficiente para não revelar nada.
— Eu acho que vi alguma coisa ali — disse, a voz baixa, mas sem alarmar. — Não sei se foi metal, vidro… ou só alguém muito inconveniente com roupa clara.
Adrian acompanhou a direção do olhar dela e inclinou a cabeça, enfiando mais as mãos nos bolsos por causa do frio.
— “Só alguém muito inconveniente com roupa clara” é estranhamente específico.
— É uma categoria ampla — respondeu Kahrir, com um traço leve de humor, embora a atenção dela continuasse presa na curva do caminho.
Mason não falou de imediato. O olhar claro passou pelos arbustos, depois pelo gramado ligeiramente encharcado logo adiante, e desceu até o chão de terra escura perto da borda das pedras. O jeito como ele observava nunca parecia teatral; era mais como se desse às coisas a chance de se mostrarem sozinhas antes de decidir o que pensava delas.
— Vamos ver — disse por fim, simples, como se estivesse sugerindo mudar de lugar ao sol, e não seguir uma coisa mal definida nos terrenos de Hogwarts.
Adrian soltou um suspiro curto pelo nariz, mas já estava andando com os dois antes mesmo de terminar.
— Eu gosto de como nós três temos uma noção muito elástica do que seria um domingo tranquilo.
Eles deixaram o caminho principal e seguiram por um trecho de grama mais baixa, úmida o bastante para escurecer a barra dos sapatos em poucos passos. O ar ali perto do lago era mais frio, com aquele cheiro limpo de água escura, terra remexida e folhas começando a apodrecer devagar sob os arbustos — o tipo de cheiro de outono que não era desagradável, só mais vivo do que o resto do castelo. Ao longe, alguma ave gritou uma vez, e o som passou pela superfície do lago como se tivesse sido arrastado pelo vento.
Kahrir foi à frente por impulso mais do que por decisão consciente, mas não rápido demais. O brilho não se repetiu logo de início, e isso só a deixou mais certa de que tinha visto alguma coisa real, porque a paisagem dali não tinha muito costume de cintilar sozinha. Quando chegaram à curva, um tronco torto de árvore velha apareceu primeiro, depois um agrupamento de arbustos mais altos e, atrás deles, um pedaço estreito de terreno que ficava parcialmente escondido do caminho principal.
Foi ali que ela viu.
Não era alguém. Nem vidro.
Preso a um galho baixo havia um fragmento de tecido claro, pequeno, irregular, mexendo com o vento de um jeito nervoso. Não chegava a ser branco; tinha um tom esmaecido, meio acinzentado, como pano que já tinha passado tempo demais no frio ou na poeira. O que chamava atenção era o brilho que a fibra pegava quando a luz batia de lado, discreto, mas estranho o bastante para se destacar da terra escura e das folhas secas.
Adrian parou ao lado dela e franziu a testa.
— Ah. Certo. Então não era uma pessoa inconveniente. Ainda bem. Tecidos me julgam menos.
Kahrir se aproximou mais um passo, observando. O pano estava rasgado, não cortado com limpeza. Havia nas bordas uma aspereza irregular, como se tivesse prendido e sido arrancado depressa. Não parecia parte de uniforme de aluno; pelo menos não de nenhum uniforme que ela tivesse visto até então. Havia também um cheiro leve ali, quase perdido no ar úmido — não perfume, não exatamente mofo. Algo seco, fino, difícil de nomear, que a fez lembrar de pergaminho velho aquecido perto demais de uma chama.
Mason agachou-se um pouco para olhar melhor o galho e o solo ao redor, sem tocar em nada.
— Não tá aqui há muito tempo — disse, mais para os dois do que para si mesmo. — Se estivesse, já teria encharcado mais.
Adrian olhou para ele.
— Como você sabe essas coisas?
Mason deu de ombros.
— Eu olho.
— Ótimo. Revoltante, mas ótimo.
Kahrir quase sorriu, mas havia qualquer coisa naquele pedaço de pano que a mantinha atenta de um jeito desconfortavelmente familiar. Não era o tecido em si. Era a impressão de que ele não pertencia àquele lugar do mesmo jeito que o resto pertencia — como uma palavra escrita na página errada. Ela se inclinou um pouco, sem estender a mão ainda.
— Isso não parece de aluno, né?
— Não de primeiro ano — disse Adrian, se aproximando também, agora sério. — E eu me sentiria melhor se isso não estivesse aparecendo exatamente agora.
Mason ergueu os olhos do chão para o tecido, depois para a área ao redor, como se medisse o espaço inteiro e não apenas o que estava na frente deles.
— Também não parece antigo o bastante pra ser só coisa esquecida.
O vento voltou a passar, mais firme dessa vez, e o fragmento preso ao galho se agitou com um tremor seco, revelando por um segundo uma costura interna mais escura. Kahrir sentiu um arrepio subir pelos braços, não de medo, mas daquele reconhecimento incômodo que já começava a se tornar familiar demais. O castelo — ou os terrenos, ou o que quer que Hogwarts resolvesse lhe mostrar — tinha de novo aquela maneira de oferecer algo pequeno e deixar o resto por conta da imaginação.
Adrian percebeu quando ela não tirou os olhos do pano.
— Tá com a mesma sensação de ontem? — perguntou, mais baixo.
Kahrir demorou um instante antes de responder, porque estava tentando decidir se era mesmo a mesma sensação. Não era igual à armadura. A armadura tinha parecido presença. Aquilo parecia rastro. Mas o desconforto vinha do mesmo lugar, quieto e insistente.
— Não igual — disse ela. — Mas não gosto disso.
Adrian assentiu devagar, como se a resposta lhe bastasse por completo.
— Perfeito. Então continuamos com a excelente tradição de coisas que você não gosta e que depois acabam tendo motivo.
— Muito animador ouvir isso dito assim — murmurou Kahrir.
Mason finalmente estendeu a mão, mas não para puxar o tecido. Apenas segurou o galho mais abaixo, estabilizando-o por um segundo para ver melhor a fibra e a forma como estava presa. O gesto foi breve, cuidadoso, e ele soltou logo em seguida.
— Se alguém perdeu isso, foi passando com pressa — disse. — Ou tentando não ser visto.
Adrian lançou a ele um olhar de lado.
— Você podia, às vezes, escolher a interpretação menos desagradável.
— Eu escolhi a que combina com o resto da semana.
Kahrir respirou fundo e deixou o ar sair devagar, observando outra vez a curva escondida do terreno, o lago além das árvores e o caminho principal já um pouco distante dali. Não havia ninguém por perto. O castelo se erguia atrás deles em pedra cinza e janelas altas, alheio como sempre, enquanto o domingo seguia seu próprio curso para o resto da escola. Ainda assim, naquele pequeno pedaço de terra úmida, com um pano preso a um galho e um cheiro estranho no ar, a manhã tinha deixado de parecer um passeio qualquer.
Kahrir não estendeu a mão para o tecido de imediato. Ficou olhando para ele preso ao galho, balançando naquele canto meio escondido dos arbustos, enquanto o vento do lago passava por entre as árvores com um farfalhar seco de folhas começando a envelhecer. O chão ali já era mais irregular do que o caminho principal, úmido o bastante para afundar um pouco sob os sapatos, e bastava erguer os olhos para perceber que estavam perto do tipo de borda em que Hogwarts deixava de parecer passeio de domingo e começava a lembrar, com toda a naturalidade do mundo, que alunos do primeiro ano tinham limites bem claros.
Ela percebeu isso antes de qualquer um deles dizer. O trecho mais abaixo descia numa inclinação suave em direção ao lago, onde o gramado parecia mais escuro e a terra mais mexida, e não havia mais nenhum grupo de alunos por perto — o que, em Hogwarts, já era argumento suficiente para não bancar a corajosa sem necessidade. Kahrir puxou um pouco o cachecol para cima e se virou de leve para os dois.
— Antes que a gente tenha uma ideia péssima — disse, com um traço curto de ironia, — eu não vou sair entrando em canto proibido por causa de um pano feio.
Adrian, que claramente já estava a meio passo de ter exatamente esse tipo de ideia ruim só para não admitir que estava curioso, soltou um suspiro de alívio exagerado.
— Obrigado. Eu gosto muito quando você parece sensata. É um contraste revigorante com o resto da semana.
Mason continuou com os olhos no tecido, mas assentiu de leve.
— Também não compensa. Se isso veio dali de baixo, continua lá de baixo. E a gente continua sendo três primeiros anos sem autorização pra inventar moda.
O comentário, dito naquele tom calmo que ele usava quando a conclusão lhe parecia óbvia, ajudou a desfazer a parte mais impulsiva da curiosidade. Kahrir voltou a olhar para o pano. Não precisava atravessar metade dos terrenos para perceber algumas coisas. O rasgo era recente, a costura interna escura parecia fina demais para ser uniforme comum, e havia naquele tecido claro um aspecto gasto que não combinava com nada que ela tivesse visto nos corredores cheios de alunos até então. Ainda assim, visto dali, continuava sendo só um fragmento preso num galho, e talvez fosse justamente isso que mais a irritava: Hogwarts parecia ter o talento particular de colocar algo na frente deles e parar antes de dizer por quê.
Adrian se aproximou mais um pouco, mas sem sair da parte firme do chão, mantendo as mãos nos bolsos como se isso fosse uma prova de autocontrole.
— Tá, então nosso plano brilhante é o quê? Ficar encarando até o pano confessar alguma coisa?
Kahrir deixou escapar um riso baixo, sem desviar os olhos do galho.
— Você pode tentar. Vai ver ele se comove.
— Impossível. Até os objetos daqui parecem me julgar.
Mason ergueu uma sobrancelha, agora já com um resto visível de humor.
— Talvez porque você conversa com eles.
— Isso é uma qualidade social.
— Não quando o objeto é um tecido preso num arbusto.
O vento fez o fragmento se agitar outra vez, e nesse movimento Kahrir percebeu que um dos lados tinha um fio mais escuro grudado à borda, quase como linha solta ou algum resíduo seco que o frio do ar não deixava distinguir direito. Ela se abaixou um pouco, sem sair da parte segura do terreno, inclinando a cabeça para ver melhor. O cheiro estranho continuava ali, muito leve e difícil de capturar — não vinha do lago, nem da terra molhada. Tinha qualquer coisa de velho, de coisa guardada, como se aquele pequeno pedaço tivesse saído de um lugar fechado antes de parar ali fora.
— Eu não acho que isso veio parar aqui sozinho — murmurou, mais para si mesma do que para os dois.
— Eu também não — disse Adrian, desta vez sem brincar. Ele seguiu a direção do olhar dela e, depois de um segundo, baixou a voz. — Mas eu gosto mais da ideia de continuar achando isso daqui de cima do que escorregar até lá e acabar tendo que explicar pra McGonagall por que nós três estávamos pendurados perto do lago.
Kahrir imaginou a cena por um instante e fez uma pequena careta.
— Nossa, não. Eu prefiro muito continuar misteriosa a ter que passar por isso.
Mason se levantou da leve inclinação em que estava, limpando os dedos na lateral do robe, embora mal tivesse tocado em alguma coisa.
— A gente pode guardar o lugar.
Adrian olhou para ele.
— Guardar?
— Lembrar onde é — explicou Mason, com a paciência curta de quem não achava a frase tão confusa assim. — Se isso sumir depois, já diz alguma coisa. Se continuar aí, também.
Kahrir gostou da ideia imediatamente, talvez porque tinha a medida certa entre fazer algo e não fazer besteira. Ela olhou em volta com mais atenção, deixando que o lugar se fixasse na cabeça do jeito que as coisas estranhas vinham se fixando desde que chegaram a Hogwarts: a árvore torta à direita, com a casca rachada num desenho comprido; a pedra achatada meio enterrada perto do caminho; um trecho de arbustos mais altos encostando quase na curva; e, um pouco adiante, a visão parcial de uma das estufas através das copas baixas.
— Eu vou lembrar — disse ela. — E acho que se eu não lembrar, o castelo lembra por mim.
Adrian soltou uma risadinha curta.
— Isso foi bonito e profundamente inquietante ao mesmo tempo.
— Ela tem esse dom — comentou Mason.
Kahrir lançou um olhar de lado para os dois, agora mais leve, e isso foi suficiente para quebrar de vez o tipo de tensão que fazia qualquer descoberta parecer maior do que era. O pano continuava ali, o cheiro estranho continuava no ar, a sensação desagradável também, mas nenhum dos três precisou transformar aquilo num grande gesto. Às vezes, o mais sensato em Hogwarts parecia mesmo ser recuar um passo e deixar o mistério quieto por um tempo, como se ele também pudesse se mover quando não estivesse sendo apertado demais.
Eles voltaram para o caminho de pedra com a grama úmida roçando a barra dos robes, e o simples som dos sapatos encontrando novamente a superfície firme trouxe de volta a sensação de que ainda era domingo, ainda era manhã, e ainda existia um castelo inteiro acima e atrás deles vivendo sua vida antiga e complicada sem pedir licença a ninguém. O lago permaneceu à esquerda, escuro e sereno, e o vento de outono puxava o cheiro da água e das folhas secas em rajadas irregulares. Mais acima, perto do pátio, dois alunos do terceiro ano desciam rindo por outro caminho, altos o suficiente para parecerem absurdamente mais velhos do que realmente eram, e essa pequena visão de rotina ajudou a empurrar o momento estranho para um lugar menos absoluto.
Adrian caminhava entre Kahrir e Mason agora, o cabelo castanho-escuro sendo bagunçado de novo pelo vento a cada poucos passos, como se o tempo tivesse algum problema pessoal com ele.
— Certo — disse, esfregando as mãos uma na outra para aquecê-las. — Oficialmente, nosso passeio tranquilo de domingo já teve professor suspeito no café da manhã e tecido suspeito no arbusto. Eu diria que ainda está melhor que a média da semana, mas a margem é pequena.
— Você fala como se a semana tivesse cinquenta anos — observou Kahrir.
— Pra ser justo, teve momentos que pareceram.
Mason deixou escapar um som baixo, quase uma risada de verdade, e isso fez Adrian olhar para ele com uma satisfação ofendida.
— Ah, ótimo. Agora você resolveu achar graça.
— Você facilita.
Seguiram mais um pouco pelo caminho permitido que contornava os terrenos próximos ao castelo, sem descer para as margens mais baixas nem se afastar para áreas onde alunos do primeiro ano claramente não deveriam estar sozinhos. A própria arquitetura de Hogwarts ajudava a lembrar disso: as trilhas mais usadas eram visíveis, gastas pelo tempo e por gerações de estudantes; as outras, as mais estreitas, desapareciam rápido demais entre árvores, barrancos ou muros antigos para parecer boa ideia. Kahrir sentia a curiosidade ainda viva, mas agora menos afiada, mais acomodada ao ritmo do passeio e da companhia. Nem tudo precisava ser perseguido no exato instante em que aparecia.
Quando o caminho começou a subir de volta em direção ao castelo, a luz mudou um pouco, tornando o céu ainda mais claro atrás das torres. Lá do alto, Hogwarts parecia observar os próprios terrenos com aquele ar antigo e indecifrável de sempre, como se soubesse perfeitamente quantas coisas já tinham sido perdidas, escondidas ou encontradas ali e não tivesse a menor pressa de contar nada a ninguém.
O caminho subia devagar de volta ao castelo, e os três seguiram por ele sem pressa, como se a manhã enfim tivesse se acomodado num ritmo mais suportável depois dos últimos dias. O vento de outono vinha do lago em rajadas frias, atravessando o gramado e mexendo as pontas do cachecol de Kahrir, levantando também algumas folhas secas que ainda não tinham decidido se pertenciam às árvores ou ao chão. Mais acima, as torres de Hogwarts cortavam o céu claro e nublado ao mesmo tempo, e a pedra antiga do castelo parecia guardar o frio melhor do que qualquer outra coisa no mundo.
Kahrir caminhava com as mãos escondidas nas mangas do robe, sentindo a umidade do ar no rosto e tentando deixar a cabeça acompanhar o que os olhos viam sem transformar tudo em aviso. O lago continuava ali à esquerda, pesado e escuro, bonito do jeito pouco acolhedor que as coisas muito antigas costumam ser, e por alguns minutos o único som entre eles foi o das solas batendo na pedra, do vento passando pelas árvores e de um grupo de alunos mais velhos falando alto em algum trecho mais próximo das estufas.
Adrian foi o primeiro a quebrar o silêncio, como quase sempre acabava sendo, mas havia menos encenação nisso agora. O tom dele continuava leve, só que não parecia vir da necessidade de preencher o espaço — vinha mais daquela confiança crescente de que os dois ao lado dele entenderiam mesmo o que ele queria dizer.
— Eu acho incrível como toda vez que a gente decide fazer algo simples, Hogwarts escuta e pensa “não, vocês não vão”.
Kahrir lançou a ele um olhar de lado, contendo um sorriso.
— Talvez o erro seja continuar avisando.
— Então agora a gente tem que andar pelo castelo em segredo absoluto? Ótimo. Péssima notícia pra mim, excelente notícia pro resto da escola.
Mason, do outro lado, mantinha o mesmo passo firme e tranquilo, as mãos soltas ao lado do corpo, o cabelo loiro acinzentado bagunçado só o bastante pelo vento para tirar um pouco daquela aparência naturalmente impecável que ele tinha até quando estava quieto. O comentário de Adrian fez com que ele deixasse escapar um sopro curto, quase uma risada.
— Já era uma excelente notícia pro resto da escola antes disso.
Adrian levou a mão ao peito com um dramatismo cansado.
— Eu realmente ofereço amizade e recebo esse tratamento.
— Você oferece comentário desnecessário — devolveu Mason, com calma. — A amizade vem junto.
Dessa vez Kahrir riu sem segurar, e o som saiu fácil, dissolvendo um pouco o que ainda restava do desconforto do tecido preso no arbusto. Havia algo quase estranho em perceber como aquilo vinha acontecendo com mais frequência: os dias estavam ficando mais esquisitos, mas também mais sólidos. Adrian fazia tudo parecer um pouco menos pesado sem nunca fingir que nada era sério, e Mason, mesmo com aquele jeito contido, já não parecia alguém pairando ao redor da conversa — estava dentro dela, de um jeito quieto e firme, como se sempre tivesse pertencido ali.
Quando alcançaram a parte mais alta do caminho, em vez de entrar diretamente no castelo, Kahrir diminuiu o passo perto de um pequeno trecho murado que dava vista para uma parte mais ampla dos terrenos. Dali se via o gramado descendo em ondas suaves, as estufas com os vidros embaciados pela umidade, alguns alunos espalhados em grupos menores e, mais distante, a borda da Floresta Proibida, escura demais mesmo sob a luz do fim da manhã. Nada na paisagem parecia convidativo demais perto daquela linha de árvores, e talvez por isso Hogwarts tivesse colocado a palavra “proibida” no nome sem precisar se esforçar muito.
Adrian seguiu a direção do olhar dela e imediatamente fez uma careta.
— Eu sei que é bonito, mas não gosto nem de olhar pra floresta por muito tempo. Parece que ela olha de volta.
— Porque provavelmente olha — disse Mason.
Adrian virou o rosto para ele.
— Você faz isso de propósito às vezes.
— Não. Só não acho útil mentir.
Kahrir deixou os braços repousarem sobre a mureta fria, sentindo a pedra áspera sob as mangas. Lá embaixo, o domingo seguia espalhado pelos terrenos como se Hogwarts fosse apenas uma escola antiga e não uma coleção ambulante de corredores estranhos, professores suspeitos e coisas que pareciam sempre surgir um pouco cedo demais. Um grupo de meninas da Lufa-Lufa passava perto das estufas carregando o que pareciam ser cestas vazias, provavelmente saindo de alguma tarefa inventada para ocupar o resto da manhã, e dois alunos da Grifinória tentavam, sem sucesso, não escorregar perto de um trecho enlameado do gramado, sob o riso de um terceiro que claramente não ajudaria em nada.
Ver aquilo fez bem de um jeito inesperado. Nem tudo parecia recado. Nem tudo precisava significar alguma coisa.
— Acho que essa é a parte mais irritante — disse Kahrir, ainda olhando a paisagem. — O castelo continua lindo e absurdo como se não tivesse nada acontecendo. Como se fosse problema nosso estranhar tudo.
Adrian apoiou os antebraços na mureta também, ao lado dela.
— Talvez seja exatamente isso que ele quer. Finge normalidade, confunde os alunos, causa danos psicológicos de longo prazo.
— Você fala como se fosse a primeira vítima da história — observou Kahrir.
— Eu tenho perfil de vítima elegante.
Mason aproximou-se da mureta sem se escorar nela de verdade, apenas ficando perto o bastante para dividir a vista com os dois.
— Não. Você tem perfil de quem pisaria num lugar claramente errado e ainda perguntaria “mas o que podia acontecer?”.
Adrian abriu a boca para protestar, pensou melhor e fechou de novo.
— O pior é que isso foi ofensivo porque foi preciso.
Kahrir olhou para os dois e balançou a cabeça, contendo outro sorriso. O vento trouxe o cheiro das estufas, algo entre terra quente, folhas esmagadas e vidro úmido, e por um momento ela se permitiu ficar ali sem procurar mais nada além do que já estava diante deles. O pingente permanecia quieto sob o robe. A varinha também. Não havia aquele puxão estranho que às vezes a fazia prestar atenção antes mesmo de entender em quê. Só o frio, a vista, o som distante do castelo vivendo.
Foi Mason quem notou primeiro o movimento no gramado abaixo, não com alarde, mas com aquela mudança quase imperceptível no foco do olhar.
— Olha.
Kahrir acompanhou a direção do que ele via e encontrou, entre as estufas e o pátio lateral, uma figura conhecida atravessando o terreno com mais rapidez do que combinava com um domingo. Quirrell vinha com as vestes escuras agitadas pelo vento e os ombros tensos, como se estivesse atrasado para alguma coisa que ninguém mais sabia que existia. Ele não seguia para o castelo principal nem para as estufas. Pegava um caminho lateral de pedra mais estreito, desses usados por professores e funcionários, que contornava parte do edifício e desaparecia atrás de uma ala mais antiga de Hogwarts.
Adrian endireitou um pouco a postura, a expressão deixando o humor de lado sem perder totalmente a leveza.
— Claro. Porque seria pedir demais que ele simplesmente passasse um domingo estranho em paz.
Kahrir não respondeu na mesma hora. Havia qualquer coisa no modo como Quirrell andava que tornava difícil ignorá-lo. Não era exatamente pressa. Era tensão. Como se ele estivesse tentando chegar a algum lugar antes de alguém — ou de si mesmo. O vento puxou as vestes dele para trás por um instante, e aí, quase no mesmo momento, outra figura cruzou o campo de visão deles vindo do lado oposto, mais distante, mas também conhecida.
Lucien Voss.
O irmão mais velho de Adrian vinha pelo caminho principal com aquele passo controlado de sempre, a postura impecável até de longe, mas ao contrário de Quirrell ele não parecia apressado. Parecia atento. Quando o olhar dele se voltou na direção da ala lateral, foi impossível não sentir que ele tinha visto o mesmo que eles.
Adrian ficou imóvel por um segundo e então soltou, mais baixo:
— Ah. Tá. Isso eu não esperava.
Kahrir virou ligeiramente o rosto para ele, mas ele continuava olhando lá para baixo, os olhos avelã mais sérios agora. Lucien não chegou a seguir Quirrell. Apenas parou por um momento, como se decidisse alguma coisa, e então retomou o caminho normal em direção ao castelo, sem demonstrar nada além daquele controle habitual que fazia parecer impossível arrancar dele mais informação do que ele quisesse dar.
Mason foi o primeiro a quebrar a quietude que aquilo deixou.
— Então não foi só a gente que viu.
A frase veio simples, mas bastou. Não era uma revelação enorme. Não mudava nada de imediato. Ainda assim, dava àquela impressão antiga e incômoda um contorno mais firme. Quirrell seguia estranho. Lucien seguia sabendo mais do que dizia. E Hogwarts, como sempre, mantinha tudo em movimento sem oferecer resposta alguma de bandeja.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Adrian passou a mão pelo cabelo bagunçado, empurrando-o para trás por um instante antes de desistir do gesto no meio.
— Eu odeio muito quando o meu irmão aparece e, em vez de me tranquilizar, só confirma que a situação continua péssima.
Kahrir deixou os olhos voltarem para o caminho lateral vazio por onde Quirrell tinha desaparecido. Não havia mais ninguém ali agora. Só a curva do prédio, a pedra antiga e o vento passando. Mesmo assim, o espaço parecia ter guardado um resto da pressa dele, como se a imagem ainda demorasse um pouco a sumir completamente.
Ela não sentia medo. Também não sentia vontade de disparar atrás de ninguém. O que vinha era pior no seu próprio jeito: aquela curiosidade teimosa que ficava mais forte justamente porque tudo continuava incompleto.
E, ao lado disso, uma certeza pequena e firme começava a se instalar — a de que o domingo, afinal, não tinha vindo para ser só um intervalo.
Kahrir continuou olhando para o ponto onde Quirrell tinha desaparecido atrás da ala antiga, como se o vazio deixado por ele ainda estivesse um pouco ocupado. O vento passou de novo, mais frio naquela parte alta dos terrenos, e fez as folhas das árvores próximas se agitarem com um som seco, quase de papel sendo amassado devagar. Ela puxou o cachecol um pouco mais para perto do pescoço e, sem desgrudar os olhos da curva do prédio, deixou escapar o começo do pensamento antes mesmo de decidir se valia a pena dizê-lo em voz alta.
— E se—
— Não — disse Adrian na mesma hora, virando o rosto para ela com uma rapidez tão automática que a resposta saiu antes até do resto da respiração. O tom não foi duro; foi imediato, quase ofendido pela própria ideia. — Seja lá o que vier depois de “e se”, a resposta inicial é não.
Mason, ao lado deles, não pareceu surpreso com a interrupção. O olhar dele ainda estava voltado para o caminho lateral, mas a boca se inclinou num traço mínimo, quase um sinal de que, pelo menos dessa vez, Adrian tinha chegado primeiro a uma conclusão sensata.
Kahrir finalmente tirou os olhos da ala antiga e olhou para Adrian, com aquele meio sorriso que aparecia quando ela sabia perfeitamente por que ele a estava cortando e, ainda assim, pretendia implicar um pouco com isso.
— Você nem sabe o que eu ia falar.
— Sei o suficiente — respondeu ele, erguendo uma sobrancelha. O cabelo castanho-escuro, já bagunçado de natureza, continuava sendo empurrado pelo vento para a testa, e ele pareceu decidir que brigar com isso era inútil. — Seu “e se” nunca começa com “e se a gente voltar pro castelo e fingir juízo”. Sempre vem alguma coisa do tipo “e se a gente só desse uma olhada rápida naquele caminho suspeito onde um professor estranho acabou de sumir”.
Kahrir abriu a boca para responder, mas Mason falou antes, com aquela calma precisa que só fazia o comentário ficar mais definitivo.
— E ele estaria certo.
Ela olhou de um para o outro e soltou um riso curto, mais pelo absurdo de estarem tão sincronizados do que por concordar inteiramente.
— Nossa, muito obrigada aos dois pela confiança.
— Não é falta de confiança — disse Adrian, agora já sorrindo de canto, embora os olhos continuassem atentos. — É experiência. Você olha pra alguma coisa estranha do jeito que outras pessoas olham pra sobremesa.
— Isso foi ofensivo e curiosamente específico.
— E justo — acrescentou Mason.
Kahrir balançou a cabeça, mas o próprio corpo já tinha relaxado um pouco com a interrupção. O impulso de dizer “e se a gente fosse só até aquela curva” ainda estava ali, porque a curiosidade continuava mordendo por dentro, teimosa como sempre. Só que, dito daquela forma e cortado antes de ganhar corpo, ele já parecia menos uma boa ideia e mais exatamente o tipo de decisão que acabava mal em Hogwarts.
Ela voltou a apoiar os braços na mureta por um instante, deixando o olhar correr pelos terrenos outra vez. Lá embaixo, o caminho por onde Quirrell sumira agora estava vazio, banal até. As estufas brilhavam opacas sob o céu frio de setembro, alunos de outras casas cruzavam o gramado em grupos desatentos, e a Floresta Proibida seguia escura ao fundo como se não precisasse se esforçar para lembrar a ninguém que existia. Lucien já não estava mais à vista também, e isso deixava uma impressão ainda mais desagradável, como quando duas peças de um mesmo problema desapareciam do tabuleiro ao mesmo tempo.
— Eu ia dizer “e se a gente só ficasse de olho” — respondeu ela, por fim, com honestidade suficiente para não tentar se defender demais. — Não “e se a gente descesse correndo atrás dele”. Eu ainda sei diferenciar uma péssima ideia de uma ideia só levemente ruim.
Adrian inclinou a cabeça, avaliando isso com um ar profundamente cético.
— Hm.
— Isso foi um “hm” muito desrespeitoso.
— Foi um “hm” baseado em fatos.
Mason desviou o olhar do gramado para ela, e o vento mexeu de leve nos fios claros do cabelo dele, dando ao rosto controlado um ar menos rígido, quase mais jovem.
— Ficar de olho daqui é uma coisa — disse ele. — Ir atrás é outra. Se ele voltar, a gente vê. Se não voltar... continua não sendo nosso trabalho seguir professor por ala proibida.
A palavra não veio carregada de solenidade, só de realidade. E foi justamente por isso que fez sentido. Havia lugares em Hogwarts onde eles podiam andar, explorar, se perder um pouco até. Havia outros que pertenciam claramente ao mundo dos alunos mais velhos, dos professores, das regras que ninguém escrevia no chão porque não precisava. Aquele caminho lateral, estreito e escondido demais, era um deles.
Adrian respirou fundo, soltando o ar num meio suspiro.
— Eu odeio muito quando o raciocínio do Mason é irritantemente impecável. Estraga qualquer chance de drama impulsivo.
— O drama impulsivo não precisa de ajuda sua pra existir — disse Kahrir.
— Obrigado. Sempre bom ser reconhecido.
O comentário arrancou dela outro sorriso, e isso bastou para a cena se desarmar só um pouco. Não totalmente — Quirrell continuava estranho, Lucien continuava vendo mais do que dizia, e o tecido preso no arbusto não tinha deixado de existir só porque agora estavam num ponto mais alto dos terrenos. Mas o momento já não pressionava na mesma intensidade. Tinha se transformado em outra coisa, mais suportável e talvez mais perigosa justamente por isso: uma curiosidade guardada, dessas que não somem quando não são atendidas, só aprendem a esperar.
Adrian bateu de leve com os dedos na pedra fria da mureta antes de se afastar dela.
— Certo. Já que fomos impedidos, por nós mesmos, de fazer algo estupidamente previsível, eu proponho uma alternativa revolucionária: continuar andando como pessoas normais.
— O que, no seu caso, continua sendo uma definição bem frouxa — observou Kahrir.
— Eu aceito críticas construtivas, não ataques gratuitos.
Mason já tinha começado a se mover, com a tranquilidade de quem assumia que os outros dois o seguiriam. Não era um gesto de liderança propriamente dita; era mais o jeito simples dele de evitar que o grupo ficasse preso tempo demais à mesma curva da manhã.
Eles deixaram a mureta para trás e retomaram o caminho ao redor dos terrenos, agora em direção a uma parte mais próxima do pátio e das escadarias de pedra que levavam de volta às portas laterais do castelo. A luz tinha mudado um pouco, ficando mais dourada em alguns trechos onde as nuvens afinavam, e o frio do outono parecia mais suportável em movimento. Kahrir sentia a umidade do ar nas bochechas e o tecido do cachecol roçando o queixo quando o vento apertava, e havia algo quase agradável em simplesmente andar entre os dois depois daquela semana estranha demais, como se o castelo pudesse por alguns minutos ser só cenário e não recado.
Mesmo assim, quando passaram por uma fileira de roseiras já meio castigadas pela estação, ela não resistiu a olhar por cima do ombro uma última vez para a ala antiga, agora mais distante.
Quirrell não reapareceu.
Mas a sensação de fio puxado continuou, fina e persistente, acompanhando-os de volta ao castelo como o frio acompanhava o vento.
Kahrir deixou o olhar voltar para a frente e acompanhou os dois pela trilha de pedra, sem insistir mais na curva da ala antiga. O castelo erguia-se logo adiante com aquele ar severo e belo que Hogwarts parecia vestir até nos domingos mais claros, e as paredes de pedra, tocadas pela luz fria do começo da tarde, tinham um tom entre cinza e dourado gasto, como se o próprio outono tivesse se instalado nelas há séculos. O vento ainda vinha do lago, mas agora mais fraco, trazendo um cheiro úmido de folhas caídas e terra mexida que se misturava, cada vez mais, ao cheiro seco de pedra aquecida que escapava das escadarias próximas.
Adrian andava com as mãos nos bolsos e os ombros encolhidos só o suficiente para admitir que estava com frio, embora jamais fosse dizer isso com todas as letras se pudesse transformar a própria inconveniência em comentário primeiro.
— Eu queria registrar — disse ele, subindo os primeiros degraus da escadaria lateral — que, apesar de tudo, isso continua contando como um passeio. Um passeio péssimo, suspeito e emocionalmente desgastante, mas ainda um passeio.
Kahrir soltou um riso baixo, puxando o cachecol um pouco mais para perto do rosto.
— Nossa, que memória bonita você vai guardar de Hogwarts.
— Ah, eu vou guardar várias. “Aqui foi onde o vento quase me matou.” “Ali foi onde um pano me ofendeu.” “E naquele canto um professor muito estranho desapareceu como se tivesse compromisso com a desgraça.”
Mason, logo atrás deles, deixou escapar um som curto pelo nariz, quase sem olhar para os dois.
— Você devia escrever isso.
Adrian virou o rosto na direção dele com um meio sorriso.
— Tá vendo? Finalmente alguém reconhece meu potencial literário.
— Não foi elogio — disse Mason, no mesmo tom calmo de sempre.
A resposta veio seca o bastante para arrancar de Kahrir outra risada, e dessa vez até Adrian pareceu aceitar a derrota sem grande esforço. Havia alguma coisa boa naquele tipo de conversa, ela percebeu enquanto atravessavam a sombra lançada por um dos arcos da entrada lateral. Não porque fosse especialmente importante, mas justamente porque não era. O domingo estava cheio de pequenas coisas assim — comentários, vento frio, pedra úmida sob os sapatos — que mantinham o dia de pé sem deixar que tudo girasse só em torno do que não entendiam.
Assim que passaram pelas portas laterais, o ar mudou de uma vez. O interior do castelo tinha aquele frescor fechado de corredores antigos, um pouco de cera de madeira, um pouco de tecido guardado e um resto distante de lareira que nunca parecia desaparecer completamente. Depois do vento dos terrenos, a temperatura ali dentro pareceu quase acolhedora. O som também mudava; lá fora tudo se espalhava, enquanto dentro de Hogwarts os passos, as vozes e o abrir de portas ecoavam pelas paredes e retornavam de lugares que nem sempre era fácil localizar.
O corredor em que entraram era menos movimentado que os principais, usado mais por alunos que voltavam dos jardins ou por algum monitor apressado. Tapeçarias antigas pendiam nas paredes entre janelas estreitas, e em uma delas uma cena de caça se repetia de forma preguiçosa, os cães correndo sem jamais alcançar nada de verdade. Kahrir caminhou alguns passos em silêncio, deixando os olhos passearem pelo corredor sem procurar nada específico, apenas absorvendo. O castelo parecia mais tranquilo por dentro do que tinha parecido da noite anterior, e ainda assim havia momentos em que ela sentia que bastava dobrar a esquina errada para entrar de novo naquela sensação difícil de nomear.
Foi Adrian quem percebeu primeiro a figura mais adiante, próxima a uma das janelas altas.
— Ah — murmurou ele, o tom mudando só um pouco. — Óbvio.
Lucien Voss estava encostado de leve no parapeito de pedra, olhando para fora com a mesma postura impecável que fazia parecer que até parar diante de uma janela era, nele, uma decisão calculada. Quando se virou na direção deles, o rosto não mudou muito, mas o olhar passou pelos três com uma rapidez nítida demais para ser casual. Os cabelos escuros estavam arrumados como sempre, e o uniforme de Sonserina caía nele com a naturalidade irritante de quem parecia já ter nascido mais velho.
— Vocês resolveram explorar o castelo inteiro antes do almoço? — perguntou ele, num tom que ficava em algum ponto entre ironia e constatação.
Adrian aproximou-se primeiro, mas sem a soltura de antes; perto do irmão, alguma coisa nele ficava inevitavelmente mais controlada, embora nunca exatamente desconfortável.
— Não o castelo inteiro. Só a parte que ainda não tentou nos matar.
Lucien lançou-lhe um olhar breve.
— Então passaram longe de boa parte dele.
Kahrir percebeu o canto da boca de Adrian se mover como se estivesse debatendo se valia a pena responder. Não valeu. Mason parou um pouco mais ao lado, quieto, presente, sem a menor pressa de preencher o espaço.
Lucien voltou os olhos para Kahrir, e havia ali a mesma atenção da última vez, aquela sensação de que ele não fazia perguntas sem já ter pensado no que poderia ouvir.
— E o domingo? Está mais calmo do que a semana ou Hogwarts continua se esforçando?
Kahrir inclinou levemente a cabeça.
— Depende do que você considera calmo.
Isso bastou para fazer Lucien entender que a resposta real era “não”. Ele não sorriu propriamente, mas algo no rosto dele quase chegou lá por um segundo, como se estivesse menos surpreso do que satisfeito por ver que ela também já tinha aprendido a não confiar demais em manhãs tranquilas.
Adrian cruzou os braços.
— Você viu Quirrell.
Não foi acusação. Também não foi pergunta polida. Saiu como constatação reta demais para ser desfeita.
Lucien não respondeu de imediato, e esse pequeno atraso já era, por si só, quase uma resposta. Ele desviou o olhar para a janela por um instante, onde a luz do outono entrava pálida, desenhando um recorte claro na pedra.
— Eu vi um professor atravessando os terrenos num domingo — disse por fim, com a voz baixa e estável. — Isso, por si só, ainda não é crime.
— Você faz isso de propósito — disse Adrian, já meio exasperado. — Fala como se não estivesse claramente pensando outra coisa.
Lucien olhou para o irmão com uma calma que não era superioridade, mas chegava perto o bastante para irritá-lo mesmo assim.
— E você fala antes de pensar qualquer coisa, então suponho que todos temos hábitos.
Kahrir sentiu o ar entre os dois ficar mais tenso por um segundo, mas não de um jeito realmente ruim. Era familiar. Quase antigo demais para precisar de explicação. Mason percebeu também, pelo jeito como mudou o peso do corpo de um pé para o outro, discreto, sem interferir.
Lucien voltou-se para ela e para Mason.
— Vocês foram atrás?
A pergunta veio simples, objetiva. Kahrir respondeu antes que Adrian pudesse se ofender em nome do grupo.
— Não. Só vimos.
Lucien assentiu, e foi um assentir pequeno, mas mais significativo do que um elogio viria a ser nele.
— Melhor.
Adrian soltou um som derrotado.
— É impressionante como você consegue transformar “bom trabalho por não terem feito algo estúpido” numa coisa ofensiva.
— Vocês ainda estão decepcionantemente vivos, então imagino que funcione.
Mason abaixou um pouco o rosto, e Kahrir teria jurado que aquilo foi o equivalente dele a achar graça sem querer demonstrar muito. O corredor, naquele momento, parecia suspenso entre duas atmosferas: a leveza gasta de um domingo dentro do castelo e aquela corrente mais fina, quase subterrânea, de coisas que ninguém estava dizendo por inteiro.
Lucien descruzou os braços e se afastou da janela.
— Não sigam professores. Não entrem em alas fechadas. E, se alguma coisa parecer estranha o bastante para vocês hesitarem, hesitem mais um pouco.
Adrian ergueu as sobrancelhas.
— Você tem um talento extraordinário pra dar conselho como se estivesse distribuindo ameaça.
— Talvez porque vocês precisem ouvir os dois juntos.
Kahrir sustentou o olhar dele por um instante. Lucien não parecia alarmado, e isso, por algum motivo, era mais inquietante do que seria se estivesse. Alarmado qualquer um podia ficar. O problema era aquele autocontrole, aquela impressão de que ele já aceitava certas estranhezas como parte do castelo e só decidia, caso a caso, quando valia a pena prestar mais atenção.
— Você sabe de alguma coisa que a gente não sabe — disse ela, sem rodeio, mas também sem forçar. A frase saiu mais curiosa do que acusatória.
Lucien a observou por um segundo mais longo, a luz da janela pegando de leve nas bordas do rosto dele.
— Em Hogwarts, isso não reduz muito as possibilidades.
Adrian deixou a cabeça cair para trás com um desânimo teatral.
— Eu vou enlouquecer antes do Natal.
— Provável — disse Lucien.
A resposta foi tão seca que Kahrir não conseguiu evitar o sorriso, e até Adrian, ainda que profundamente ofendido, deixou escapar um sopro de riso. A tensão se quebrou, não completamente, mas o bastante para caber de novo dentro de uma conversa.
Lucien fez um leve gesto com a cabeça, como quem encerrava a própria parte naquele encontro.
— Tentem ter um domingo.
— Estamos tentando desde o café da manhã — respondeu Adrian. — O castelo não colabora.
— O castelo raramente colabora.
Com isso, Lucien seguiu corredor adiante, sem pressa, desaparecendo na curva com a mesma discrição controlada com que parecia fazer tudo. Quando ele sumiu, os três ficaram ainda por um instante perto da janela, ouvindo o castelo respirar ao redor deles — vozes distantes em algum piso acima, o arrastar de um móvel muito longe, um retrato cochichando com outro do outro lado do corredor.
Adrian soltou o ar devagar.
— Eu gosto muito dele. Dito isso, conversar com Lucien por mais de dois minutos deveria contar como atividade extracurricular.
Mason encostou levemente o ombro na parede de pedra.
— Você insiste em tentar tirar resposta de alguém que claramente prefere dar metade de uma frase.
— E você claramente gosta de me ver sofrer.
— Às vezes.
Kahrir olhou pela janela para os terrenos outra vez. O gramado lá fora parecia quase inocente dali de cima, o lago distante, as estufas quietas, o caminho lateral oculto pela própria arquitetura do castelo. Tudo seguia exatamente como se nada tivesse acontecido, e talvez fosse isso que mais lhe prendia a atenção desde que chegara a Hogwarts: as coisas estranhas nunca surgiam rasgando o mundo ao meio. Elas se encaixavam nele. Escorriam por baixo da rotina. Andavam ao lado de cafés da manhã, de aulas, de conversas bobas e de vento frio no rosto.
Ela passou os dedos pela manga do robe distraidamente e sentiu o leve relevo do pingente escondido sob o tecido. Não houve calor, nem pulsação, nem qualquer reação que a empurrasse em alguma direção. Apenas a presença silenciosa do objeto, tão discreta quanto aquela sensação que Quirrell sempre deixava quando aparecia e sumia de novo.
O domingo ainda estava longe de acabar.
O corredor continuava com aquela vida discreta de Hogwarts em domingo, sem a correria das trocas de aula, mas longe de ser realmente silencioso. Em algum ponto acima deles, uma porta bateu e o eco desceu pelos lances de escada como uma moeda rolando por pedra antiga; mais perto, dois alunos do segundo ano passaram discutindo em voz baixa sobre quadribol, carregando livros debaixo do braço como se ainda não tivessem decidido se iam estudar ou só fingir que iam. A luz que entrava pela janela ao lado desenhava uma faixa pálida no chão, iluminando o pó fino suspenso no ar e pegando de leve no perfil de Adrian, que ainda mantinha aquele meio sorriso cansado de quem tinha acabado de sobreviver a mais uma conversa com o próprio irmão sem ganhar resposta nenhuma de verdade.
Kahrir permaneceu junto à janela por mais alguns instantes, sentindo a pedra fria através da manga do robe e o peso pequeno, silencioso, do pingente junto ao corpo. Não havia reação vindo dele, nem da varinha, e talvez por isso a sensação fosse mais inquietante, de um jeito quieto e persistente. Quando alguma coisa reagia, pelo menos havia um ponto de apoio. O mais difícil em Hogwarts era justamente isso: às vezes nada acontecia, e ainda assim o castelo parecia guardar alguma coisa na dobra seguinte do corredor, como se esperasse que alguém tivesse paciência suficiente para notar.
Adrian virou um pouco o corpo na direção dela, menos expansivo do que costumava ser quando estavam só os dois, mas ainda leve o bastante para não deixar o momento afundar demais.
— Tá com aquela cara de quem vai pensar por uma hora inteira em três frases que o Lucien não quis completar — disse ele, ajeitando de leve a barra da manga. — O que, honestamente, eu respeito. Só não recomendo. Faz mal pro humor.
Mason, que continuava próximo da parede com a postura controlada de sempre, mas sem a distância rígida que mantinha perto de quase todo mundo, lançou um olhar curto para Kahrir antes de falar.
— Ele só confirmou o que já estava claro.
A voz veio baixa, firme, sem pressa.
— Que tem alguma coisa errada. E que não adianta empurrar isso antes da hora.
Adrian deixou escapar um sopro de riso pelo nariz.
— Eu adoro como você consegue fazer uma situação ficar mais séria e mais estável ao mesmo tempo.
— Você fala como se isso fosse contraditório.
— Pra maioria das pessoas é.
Kahrir deixou o olhar fugir da janela e pousar nos dois. Era uma sensação estranha, mas boa, perceber que já começava a reconhecer os ritmos deles do mesmo jeito que vinha reconhecendo os ritmos do castelo: Adrian preenchia o espaço para que ele não pesasse demais, Mason aparava o excesso para que nada se espalhasse além da conta. Entre os dois, as coisas não ficavam simples — Hogwarts parecia incapaz de oferecer simplicidade de verdade —, mas ficavam habitáveis.
Do lado de fora, os terrenos ainda estavam claros sob aquele céu de outono que nunca parecia totalmente azul nem totalmente cinza. As árvores perto das estufas se moviam devagar, as folhas já começando a perder o verde das primeiras semanas de setembro, e o lago ao longe tinha o mesmo brilho escuro e imóvel de sempre, como se tudo o que fosse fundo demais escolhesse permanecer quieto até alguém ter coragem de olhar por tempo suficiente.
Adrian empurrou o corpo para fora da parede e ergueu levemente o queixo na direção do corredor que seguia para a esquerda.
— Então — disse ele, agora num tom mais leve, como quem decide devolver o dia ao próprio eixo antes que ele escape de vez. — A gente pode continuar plantado aqui encarando o vazio como três almas profundamente perturbadas… ou pode fazer alguma coisa que se pareça minimamente com um domingo normal.
Mason ergueu uma sobrancelha.
— Você continua insistindo nessa ideia de “normal”.
— Eu sou resiliente.
Kahrir sentiu o canto da boca se mover sem esforço. O castelo continuava o mesmo — antigo, belo, cheio de meias respostas e corredores que pareciam saber mais do que diziam —, mas o domingo ainda estava ali, inteiro o bastante para ser vivido sem precisar se transformar, a cada passo, numa perseguição ou numa teoria.
Mais adiante, numa curva do corredor, um retrato antigo de uma bruxa de expressão severa virou o rosto só o bastante para acompanhar os três com os olhos, como se também estivesse aguardando para ver qual seria a escolha.
Kahrir afastou-se da janela por fim, não com a sensação de ter deixado alguma coisa para trás, mas com a impressão mais honesta de que certas coisas em Hogwarts simplesmente continuavam existindo mesmo quando ninguém as encarava diretamente. O pingente permanecia quieto sob o tecido do robe, a varinha também, e esse silêncio dos dois fazia o resto do castelo parecer ainda mais presente — as pedras antigas, os retratos atentos, o rumor baixo da escola vivendo o próprio domingo sem pedir licença para o que quer que estivesse se desenrolando por baixo.
Ela olhou para Adrian primeiro, porque era sempre mais fácil começar por quem já vinha com o humor meio preparado para amortecer as coisas, e depois para Mason, que continuava ali com aquela calma firme de quem raramente parecia fora do lugar, mesmo quando tudo em volta ficava um pouco estranho demais.
— Se a gente continuar parado aqui, a cara da mulher do retrato vai piorar — disse ela, inclinando de leve a cabeça na direção da bruxa pintada alguns passos adiante.
Adrian acompanhou o gesto e soltou um riso curto.
— Finalmente alguém dizendo o que importa.
A bruxa do retrato, que até então observava os três com uma desaprovação silenciosa muito bem ensaiada, estreitou ligeiramente os olhos como se tivesse entendido perfeitamente que estava sendo comentada, o que provavelmente tinha acontecido.
— E eu acho — continuou Kahrir, com aquele tom leve que vinha mais da vontade de devolver um pouco de ar à conversa do que de despreocupação real — que, se a gente for tentar ter um domingo, talvez seja melhor escolher alguma coisa que não envolva professor suspeito, corredor estranho ou objeto preso em arbusto.
— Você diz isso como se tivesse aprendido alguma coisa — comentou Adrian, levando uma mão ao peito com uma solenidade falsa demais para durar muito.
— Aprendi. Estou evoluindo.
— Isso é debatível — disse Mason.
Ela olhou para ele, e o jeito seco como ele disse aquilo foi quase o bastante para arrancar uma risada. Quase. O que veio foi um sorriso mais aberto, pequeno, mas genuíno, e ele pareceu satisfeito o suficiente em ter dito exatamente o mínimo necessário para provocar aquilo.
O corredor começava a ficar mais movimentado agora. Alguns alunos mais velhos passavam em pequenos grupos, falando mais baixo do que falariam nos corredores principais, como se aquela parte do castelo pedisse naturalmente outro volume. Um garoto da Corvinal carregava uma pilha de livros tão alta que mal enxergava por cima dela, e uma menina da Grifinória o ultrapassou com a familiar falta de paciência de quem já tinha decidido que o problema dos outros era, mesmo, dos outros. Mais acima, num retrato oval, um bruxo magro de barba comprida fingia dormir numa poltrona vermelha, embora o canto do olho dele continuasse escancaradamente aberto.
Kahrir sentiu que o dia ainda tinha espaço. Não o espaço de grandes descobertas — e, honestamente, talvez fosse melhor assim —, mas aquele outro, mais raro, em que Hogwarts parecia permitir simplesmente que eles estivessem ali sem cobrar entendimento imediato de nada. Depois da manhã, da vista dos terrenos, do tecido preso no galho, da aparição silenciosa de Quirrell e da confirmação muda de Lucien, ela já não queria sair correndo atrás de resposta nenhuma. Queria alguma coisa mais próxima de respirar.
— A biblioteca não — disse ela, já meio antecipando o que recusava. — Se eu entrar lá de novo hoje, começo a achar que todo livro tá tentando me dizer alguma coisa.
Adrian abriu um sorriso de canto.
— Justo. E o salão comunal vai me fazer dormir numa poltrona em cinco minutos.
— Você faria isso em qualquer lugar com tecido suficiente — observou Mason.
— Chama-se adaptação ao ambiente. Muito sonserino da minha parte, inclusive.
Kahrir deixou o olhar correr pelo corredor e então se lembrou, não de um lugar específico, mas de uma sensação — o castelo visto por dentro e por fora, os espaços abertos, o vento, as escadas, os pátios. Havia tanto de Hogwarts que ainda parecia só Hogwarts, sem pista escondida, sem objeto reagindo, sem professor estranho no centro da cena.
— E se a gente só andar? — perguntou ela, agora olhando para os dois de verdade. — Sem rumo brilhante. Sem “vamos procurar alguma coisa”. Só por andar mesmo. Tem um monte de canto do castelo que eu ainda nem vi direito quando não tô indo pra aula.
Adrian pareceu sinceramente aliviado.
— Isso, pra mim, é quase uma obra-prima de proposta.
— Quase? — Kahrir ergueu uma sobrancelha.
— Obra-prima completa seria incluir alguma coisa doce no percurso.
Mason soltou um sopro baixo pelo nariz, dessa vez claramente mais próximo de humor do que de impaciência.
— Ele consegue reduzir qualquer plano ao estômago em menos de um minuto.
— Eu tenho prioridades consistentes. É diferente.
Sem discutir mais do que isso, os três começaram a andar, deixando a janela para trás e seguindo por um corredor que logo se abria em outro mais largo, onde a luz caía de um ângulo diferente, mais morna, desenhando longas faixas no chão. As paredes mudavam sutilmente de aspecto conforme avançavam — aqui uma tapeçaria mais antiga, ali uma sequência de janelas estreitas, mais adiante um nicho de pedra com uma armadura tão empoeirada que parecia ter desistido de intimidar qualquer um séculos antes. O castelo tinha esse jeito de nunca ser exatamente o mesmo por muito tempo; mesmo quando não escondia nada de imediato, também não permitia tédio completo.
Adrian foi o primeiro a abrandar o passo perto de uma arcada que dava vista para um pátio interno menor, onde a luz do começo da tarde caía oblíqua sobre as pedras e sobre um pequeno canteiro de plantas já meio vencidas pelo início do outono.
— Isso aqui eu não tinha visto ainda — disse ele, aproximando-se um pouco da abertura. — Ou talvez tenha visto e ignorado por estar preocupado demais em não me perder.
— A segunda opção parece mais provável — disse Mason.
O pátio era simples, sem o movimento mais cheio dos espaços centrais. Havia um banco de pedra junto à parede, coberto parcialmente por hera, e um pequeno bebedouro antigo no centro, onde a água saía num fio contínuo, tão fino que o som mal passava de um sussurro. O cheiro dali era diferente do resto do corredor — pedra aquecida, folhas secas, umidade limpa. Não tinha nada de ameaçador. Nada de particularmente misterioso. E, talvez por isso mesmo, Kahrir gostou do lugar no mesmo instante em que o viu.
Ela entrou primeiro no pátio, sentindo a mudança de temperatura — um pouco menos fria, protegida do vento mais forte por aquelas paredes antigas. O banco de pedra parecia o tipo de coisa que em qualquer outro contexto seria desconfortável demais para valer a pena, mas ali combinava com tudo.
— Aqui é bom — disse ela, quase mais para si mesma.
Adrian veio logo depois, olhando ao redor como quem aprova um abrigo improvisado.
— É. Tem cara de lugar onde alguém vem quando quer sumir sem necessariamente desaparecer.
— Então combina com metade de Hogwarts — comentou Mason, parando perto do bebedouro.
Mas ele não parecia desgostar do lugar. Pelo contrário. O simples fato de ter dito isso num tom neutro já soava quase como aprovação. A água continuava caindo em seu fio fino e constante, e o som se misturava ao ruído distante do castelo, às vozes amortecidas além das paredes, ao bater ocasional de uma janela em algum piso superior.
Kahrir sentou-se no banco e apoiou as mãos ao lado do corpo, sentindo a pedra ainda fria sob a palma. Daquele ângulo, o céu aparecia só em recorte, um azul esbranquiçado atravessado por nuvens lentas. Ela inclinou a cabeça um pouco para trás, deixando o olhar subir até esse pedaço de céu e, por alguns segundos, não pensou em Quirrell, nem em Lucien, nem na ala antiga, nem no pano preso ao arbusto. Só no som da água. No cheiro das folhas. No fato quase absurdo de que Hogwarts ainda conseguia guardar pequenos lugares assim, escondidos à vista de todos, onde o mundo parecia desacelerar o bastante para caber dentro de uma tarde.
Adrian sentou-se ao lado dela, os joelhos afastados, as mãos apoiadas no banco, o cabelo castanho-escuro ainda meio rebelde apesar de todas as tentativas frustradas de arrumá-lo ao longo do dia.
— Tá vendo? — disse ele, olhando para frente com um sorriso que mal aparecia inteiro. — Isso já é um domingo melhor. Continua estranho, mas melhor.
Mason permaneceu de pé por mais um momento antes de se apoiar de leve na borda do bebedouro, de frente para os dois, mais solto do que costumava estar perto de qualquer outro grupo.
— Ainda dá tempo de piorar — disse ele, mas sem a intenção de azedar nada.
Adrian virou o rosto na direção dele.
— Você realmente se esforça.
— Nem um pouco.
Kahrir deixou escapar uma risada baixa. Não era o tipo de lugar que apagava o resto. Hogwarts não permitia apagamentos tão completos assim. Mas havia espaços em que o castelo parecia menos interessado em cobrar resposta e mais disposto a apenas existir com eles. E, naquele momento, isso bastava.
Kahrir recostou um pouco mais no banco, deixando os ombros finalmente cederem ao ritmo quieto daquele pátio pequeno, como se o corpo tivesse entendido antes da cabeça que ali não precisava se manter em alerta o tempo inteiro. A pedra continuava fria sob ela, mas já não parecia incômoda; havia um calor discreto acumulado do sol fraco de setembro nas partes menos sombreadas, e isso, misturado ao som contínuo da água escorrendo do bebedouro, criava uma sensação rara de pausa real. O ar tinha cheiro de folha seca, hera úmida e pedra antiga, um cheiro de castelo vivo, mas não ameaçador. Pela primeira vez desde o café da manhã, Hogwarts parecia menos interessada em testá-los.
Ela virou o rosto para Adrian, que continuava sentado ao seu lado com aquela postura relaxada que nunca era completamente descuidada, as mãos apoiadas no banco e o cabelo castanho-escuro caindo de um jeito teimoso sobre a testa. Mais à frente, Mason permanecia encostado no bebedouro, os braços soltos, a expressão sempre mais difícil de ler, mas menos fechada do que nos primeiros dias. O simples fato de ele ter ficado ali com eles, sem parecer que precisava inventar uma desculpa para ir embora, já dizia bastante.
— Você sabe — disse Kahrir, puxando uma ponta do cachecol entre os dedos sem olhar diretamente para nenhum dos dois por um instante — que, se eu contasse pra minha tia só metade do que aconteceu desde que eu cheguei aqui, ela provavelmente ia querer atravessar o oceano e arrancar alguém de Hogwarts pela gola.
Adrian soltou uma risada baixa, virando o rosto na direção dela.
— Honestamente? Eu respeitaria muito essa iniciativa.
— Eu também — disse Mason, com a mesma naturalidade calma de sempre.
Kahrir ergueu os olhos para ele, e o fato de a resposta ter vindo tão rápida quanto a de Adrian a fez sorrir antes mesmo que pudesse impedir.
— Você não parece alguém que respeitaria ninguém arrancando professor nenhum pela gola.
Mason inclinou levemente a cabeça.
— Não professor. Mas outras pessoas, talvez.
Adrian olhou de um para o outro e abriu um sorriso de canto.
— Certo. Isso foi discretamente ameaçador. Gostei.
O comentário ficou entre eles de um jeito leve, e Kahrir percebeu, com uma clareza tranquila, que já conseguia distinguir os silêncios bons dos ruins em Hogwarts. Havia os silêncios de corredor estranho, de sala trancada, de coisa escondida. E havia aquele, preenchido pela água, pelo vento batendo de leve nas folhas da hera, pelo rumor distante do castelo e pela presença simples de duas pessoas que já tinham deixado de parecer apenas colegas encontrados por acaso numa semana esquisita.
Ela deixou a cabeça recostar por um momento na parede de pedra atrás do banco e olhou para o pedaço de céu visível acima do pátio. As nuvens continuavam lentas, esticadas, daquele jeito que o outono inglês parecia preferir, como se nunca decidisse por completo entre fechar o tempo ou oferecer alguma claridade. A luz batia de lado nas paredes, destacando a textura áspera das pedras e o verde escuro da hera, e Kahrir pensou, não pela primeira vez, que Hogwarts tinha o talento irritante de continuar lindo mesmo quando claramente escondia alguma coisa.
— Eu acho isso muito injusto — murmurou ela, mais para o ar do que para qualquer um.
Adrian virou o rosto um pouco, curioso.
— O quê?
— O castelo. — Ela soltou um pequeno sopro de riso. — Ele pode ser completamente suspeito e ainda assim ter pátios bonitos, janelas bonitas, teto bonito… parece de propósito.
— Claro que é de propósito — respondeu Adrian. — Imagina se ele ainda fosse feio. A gente já teria ido embora.
Mason deixou escapar um som baixo pelo nariz, quase uma risada de verdade dessa vez, e isso fez Adrian se endireitar um pouco com a expressão satisfeita de quem tinha acabado de provar um ponto muito importante.
— Viu? Eu sou engraçado. Obrigado, Mason.
— Não se acostuma.
Kahrir observou os dois por um instante, o olhar passeando entre a leveza espontânea de Adrian e a contenção quase confortável de Mason, e sentiu aquela percepção silenciosa voltar — a de que os três já tinham começado a ocupar um espaço comum sem precisar nomeá-lo. Não era uma amizade antiga, nem simples, nem completamente tranquila. Ainda havia muita coisa em aberto, tanto no castelo quanto neles mesmos. Mas havia alguma coisa ali. Alguma coisa firme.
O pátio seguia quieto. O bebedouro murmurava sua água constante. Um grupo de pássaros muito pequenos pousou por um instante na borda mais alta do muro antes de levantar voo de novo quase imediatamente, e o som das asas foi breve o suficiente para parecer só mais um detalhe daquele lugar. Kahrir sentiu a mão roçar de leve o bolso do robe por hábito, não por necessidade, e o pingente permaneceu silencioso, sem calor, sem puxar a atenção. Aquilo a aliviou mais do que ela queria admitir. Nem todo momento precisava apontar para alguma coisa escondida.
Foi Adrian quem quebrou a quietude mais uma vez, mas sem atropelá-la.
— Então — disse ele, olhando para frente com os olhos meio apertados pela claridade lateral — já que a gente aparentemente sobreviveu ao domingo até agora… vocês querem apostar quanto tempo isso dura?
— Você fala como se estivesse esperando um desastre específico — comentou Kahrir.
— Não específico. Só… genérico. Hogwarts parece trabalhar assim.
Mason cruzou um tornozelo sobre o outro, ainda apoiado no bebedouro.
— Não precisa ser desastre pra estragar o resto do dia.
Adrian virou o rosto para ele.
— Isso foi surpreendentemente pessimista.
— Foi realista.
— Você usa essa palavra como se ela resolvesse tudo.
— Frequentemente resolve.
Kahrir riu baixo e abaixou o rosto por um instante, observando as próprias mãos apoiadas no banco. O cansaço da semana ainda existia, claro, mas ali parecia menos pesado, menos absoluto. Quase suportável. E, junto dele, vinha uma curiosidade mais mansa, menos afiada do que a que a empurrava para salas estranhas e corredores vazios. Uma curiosidade melhor. Sobre Hogwarts, sim. Mas também sobre os dois ali com ela, sobre aquele jeito inesperado com que uma semana podia juntar pessoas que, em qualquer outro lugar, talvez nunca tivessem realmente se escolhido.
Ela ergueu o olhar novamente, agora com um brilho mais leve nos olhos escuros.
— Tá. Já que aparentemente o castelo me deixou descansar por cinco minutos, eu quero saber uma coisa de vocês dois.
Adrian se ajeitou no banco na mesma hora, já interessado.
— Isso pode ser ótimo ou péssimo.
— Provavelmente os dois — disse Mason.
Kahrir inclinou um pouco a cabeça, quase divertida.
— Qual foi a primeira impressão que vocês tiveram de mim?
A pergunta caiu no pátio com um peso pequeno e curioso, sem transformar a cena em nada maior do que ela era. O bebedouro continuou sussurrando. A hera mexeu de leve com o vento. E, por um momento, a tarde pareceu prender a respiração só o bastante para deixar que a resposta — ou as respostas — viessem no ritmo certo.
A pergunta ficou pairando no ar do pátio com uma leveza curiosa, muito diferente do peso das conversas sobre Quirrell, corredores estranhos ou objetos que reagiam sem pedir licença. A água do bebedouro continuava escorrendo naquele fio fino e constante, a hera tremia de leve com o vento, e o céu recortado acima deles tinha adquirido um tom mais claro nas bordas das nuvens, como se a tarde estivesse finalmente se decidindo a existir sem pressa.
Adrian foi o primeiro a reagir, como Kahrir já esperava que seria. Ele virou o rosto para ela com uma expressão que oscilava entre surpresa e divertimento, como se tivesse sido pego no exato instante em que o domingo ficava leve demais para ele não desconfiar que alguém ia dizer alguma coisa inesperada.
— Nossa, você escolheu uma pergunta perigosa — disse ele, apoiando melhor um braço no encosto do banco. — Porque agora eu tenho que decidir entre ser sincero e parecer estranho ou mentir e parecer covarde.
Kahrir ergueu levemente uma sobrancelha.
— Você já parece estranho sem esforço.
— Obrigado. É bom ser reconhecido pelo meu trabalho.
Mason, ainda encostado no bebedouro, deixou escapar um sopro quase imperceptível, e por um segundo aquilo pareceu o equivalente mais próximo de uma risada completa que ele se permitiria diante de qualquer pessoa que não fossem eles. Adrian percebeu e apontou um dedo para ele sem convicção real.
— Não me ajuda.
— Ninguém pediu ajuda — disse Mason, calmo.
Adrian passou a mão pelo cabelo castanho-escuro, jogando os fios para trás só para vê-los cair quase do mesmo jeito de novo. Depois olhou para Kahrir com mais atenção, menos brincadeira do que antes, ainda que o canto da boca continuasse inclinado naquele meio sorriso quase habitual.
— Tá. Primeira impressão de verdade? — Ele pensou por um instante, não por falta de resposta, mas como se quisesse arrumar melhor a forma de entregá-la. — No trem, quando eu abri a porta da cabine, a primeira coisa que eu pensei foi que você tinha cara de quem já tinha reparado em mim antes mesmo de eu falar qualquer coisa.
Kahrir sustentou o olhar dele, ouvindo.
— Não de um jeito ruim — continuou Adrian. — Só… como se você medisse o ambiente antes de decidir se valia a pena deixar alguém entrar nele. E eu achei isso justo, sinceramente. Porque eu também não tava afim de entrar em cabine barulhenta fingindo que tava tudo ótimo. Então acho que a primeira impressão foi essa: você parecia quieta, mas não fechada. E parecia o tipo de pessoa que não fala à toa.
Ele deu de ombros de leve, agora com um tom mais solto.
— Aí depois você comeu um feijão com gosto de terra molhada e fez aquela cara de quem tava tentando sofrer com educação, e ficou impossível te achar intimidadora de verdade.
O comentário arrancou de Kahrir um sorriso rápido, automático, e Adrian viu isso com a satisfação contida de quem sabia exatamente o momento em que devia quebrar a seriedade antes que ela pesasse demais.
— Então, resumindo de forma muito madura — concluiu ele —, eu achei você inteligente, um pouco difícil de ler no começo… e muito mais engraçada do que parecia.
Kahrir virou o rosto para Mason em seguida. Ele não mudou de posição imediatamente. Continuou ali, apoiado de lado no bebedouro, a luz da tarde batendo de leve no cabelo loiro acinzentado e deixando os olhos claros ainda mais frios à primeira vista, embora o modo como olhava para ela agora não tivesse nada de frio de verdade. Mason parecia sempre pensar um pouco mais antes de falar, mas com ele isso nunca dava a sensação de ensaio; era apenas o jeito como separava o que valia a pena dizer do resto.
— Eu achei que você prestava atenção demais — disse ele por fim.
A resposta veio simples, quase seca, e Adrian soltou um pequeno som ofendido.
— Mason, isso soa como crítica.
— Não é.
Ele não tirou os olhos de Kahrir ao dizer isso.
— A maioria das pessoas entra em lugar novo tentando ocupar espaço. Você entrou tentando entender o espaço primeiro. Isso chamou atenção.
Kahrir ficou em silêncio, ouvindo com mais cuidado do que deixaria transparecer para quase qualquer outra pessoa.
— Também achei que você não faria pergunta sem ter motivo — continuou Mason, a voz baixa, controlada, mas menos dura do que costumava soar quando falava com quase todo o resto do mundo. — E que provavelmente veria coisa que outras pessoas deixariam passar. Não porque estivesse procurando. Só porque... veria.
Ele fez uma pausa breve, pequena o bastante para não parecer construída demais.
— Depois ficou claro que eu estava certo.
Adrian soltou o ar pelo nariz e inclinou a cabeça.
— Você sabe que isso, vindo de você, é praticamente um discurso emocionado, né?
Mason lançou a ele um olhar lateral.
— Controle suas expectativas.
— Não. Eu prefiro viver acreditando que acabei de testemunhar um momento histórico.
Kahrir olhou entre os dois, sentindo o calor curioso daquilo tudo se instalar num lugar mais fundo do que ela imaginava. Não porque as respostas fossem grandiosas — não eram, e talvez justamente por isso funcionassem. Vinham deles de um jeito muito próprio, sem exagero, sem teatro. Adrian tinha visto a superfície e também o que havia por trás dela. Mason, do jeito contido dele, parecia ter percebido alguma coisa mais estrutural, quase como se a presença dela já tivesse encaixado em algum padrão que ele reconhecia sem precisar explicar por inteiro.
O vento passou de novo pelo alto do pátio e fez as folhas da hera roçarem a pedra com um som seco e leve. O bebedouro continuou seu fio constante de água. Em algum corredor além da arcada, passos cruzaram depressa e se afastaram. Hogwarts seguia ali, viva e antiga e cheia de suas próprias coisas, mas por um momento tudo isso ficou um pouco mais distante.
Adrian se inclinou um pouco na direção dela, apoiando um cotovelo no joelho.
— Tá, agora por justiça — disse ele. — Sua vez. Qual foi a sua primeira impressão da gente? E, por favor, tente preservar ao menos um pouco da minha dignidade, se ainda houver alguma sobrando.
Mason não comentou nada, mas permaneceu olhando para ela, quieto, com aquela atenção sem pressão que parecia ser toda dele.
A pergunta voltou para Kahrir com uma leveza diferente da que tinha saído. Agora já não era só curiosidade. Era também uma pequena escolha sobre o quanto dizer, o quanto guardar, e de que forma.
Kahrir ficou alguns segundos sem responder, não porque a pergunta a tivesse pegado desprevenida, mas porque havia uma diferença clara entre pensar uma coisa sozinha e dizê-la em voz alta, ainda mais ali, naquele pátio escondido, com a água correndo baixo no bebedouro e o domingo inteiro parecendo ter afrouxado em torno deles. O vento moveu de leve uma mecha do cabelo castanho-claro para o rosto dela, e ela a afastou com um gesto distraído antes de olhar primeiro para Adrian, depois para Mason, como se decidisse por onde começar.
— Tá — disse enfim, com um traço de humor já aparecendo na voz. — Mas se você perder a dignidade no processo, a responsabilidade não é minha.
Adrian apoiou melhor o braço no banco e ergueu a mão numa espécie de concessão solene.
— Aceito o risco.
Kahrir deixou o olhar se demorar nele um instante.
— No trem, minha primeira impressão de você foi que você estava tentando parecer mais tranquilo do que realmente estava.
Adrian abriu a boca como se fosse protestar, mas fechou de novo quando ela continuou.
— Não de um jeito ruim. Só dava pra perceber. Você entrou na cabine como quem queria um lugar quieto, mas também como quem já tinha decidido que, se fosse preciso, ia transformar qualquer silêncio estranho numa conversa suportável.
O canto da boca dele subiu devagar.
— Isso é… surpreendentemente preciso.
— Eu sei — respondeu Kahrir, com uma leve ironia calma. — E também achei que você falava demais.
Mason soltou um pequeno sopro pelo nariz.
Adrian virou o rosto para ele imediatamente.
— Incrível. Absolutamente incrível. Todo mundo aqui resolveu se unir contra mim.
— Ainda não terminei — disse Kahrir, agora já sorrindo com mais clareza.
Ele se calou com um gesto teatral de quem estava sendo tremendamente injustiçado, mas ainda assim aceitando ouvir.
— Depois eu percebi que não era só isso. Você fala muito, sim, mas não fala por falar. Você sempre tenta deixar as coisas mais leves quando percebe que alguém tá ficando desconfortável. Às vezes é irritante — acrescentou ela, porque a verdade ficava melhor assim —, mas funciona.
Adrian levou a mão ao peito outra vez, dessa vez com menos brincadeira e mais aquela satisfação discreta que ele tentava disfarçar quando alguma coisa o atingia de verdade.
— “Às vezes é irritante, mas funciona” é uma frase incrivelmente romântica.
— Não se empolga.
— Já me apeguei.
Kahrir balançou a cabeça e então virou o rosto para Mason. A mudança foi sutil, mas suficiente para alterar um pouco o clima. Não porque houvesse tensão entre eles, mas porque Mason tinha esse efeito nas conversas: fazia tudo ficar um pouco mais quieto, mais concentrado, como se as palavras precisassem chegar menos espalhadas para valerem a pena.
Ele continuava encostado no bebedouro, o braço apoiado na pedra antiga, a expressão neutra o bastante para não entregar antecipação nenhuma. Ainda assim, havia atenção real no jeito como ele a olhava, sem pressa, sem a menor intenção de interromper.
Kahrir pensou um segundo antes de falar.
— Você foi mais difícil.
Adrian soltou um som baixo de aprovação.
— Ah, isso é verdade.
Mason nem olhou para ele.
— Continue.
Kahrir sentiu o próprio sorriso diminuir, não por desconforto, mas porque com Mason a resposta pedia outra espécie de honestidade.
— Minha primeira impressão de você foi que você já parecia conhecer o lugar, mesmo sem agir como quem quer mostrar isso. Não de verdade, claro… mas você tinha esse jeito de estar em silêncio sem parecer perdido dentro dele.
Ela apoiou melhor as mãos no banco, os dedos roçando a pedra fria.
— E você parecia o tipo de pessoa que nota as coisas e não comenta até ter certeza. O que é um pouco irritante também.
Dessa vez foi Adrian quem soltou uma risada curta.
— Perfeito. Finalmente justiça.
Mason inclinou levemente a cabeça, aceitando a observação com uma tranquilidade quase ofensiva.
— Justo.
— Também achei que você não ia fazer questão nenhuma de falar com a gente — continuou Kahrir. — Tipo… que você ia só ficar ali, por perto, vendo tudo, e talvez ir embora quando cansasse.
Ela fez uma pausa curta, não artificial, apenas natural o bastante para reorganizar o resto.
— Mas aí eu percebi que você não é distante do jeito que parece. Você só não desperdiça muito.
O comentário ficou no ar por um instante. Não pesado. Só mais nítido.
Mason a observou sem desviar o olhar, e algo muito leve mudou na expressão dele — não o bastante para qualquer um notar, talvez, mas o suficiente para quem já estava começando a ler aquele rosto com mais atenção. Não era exatamente surpresa. Era mais reconhecimento.
Adrian olhou de um para o outro e depois ergueu as sobrancelhas.
— Tá. Eu quero registrar que isso foi muito melhor do que eu esperava. E também que “você não desperdiça muito” é irritantemente boa.
— Eu também achei — disse Kahrir, num tom seco o bastante para deixar claro que a frase não seria explicada ou enfeitada mais do que aquilo.
O pátio pareceu se aquietar um pouco mais ao redor deles, como se a tarde tivesse recuado um passo para deixar a conversa ocupar espaço sem interferência. O som da água, o farfalhar baixo da hera, um chamado distante vindo de algum corredor acima — tudo continuava ali, mas mais longe. Hogwarts ainda existia em toda a sua grandeza estranha, com professores suspeitos, caminhos escondidos e segredos suficientes para ocupar anos inteiros, mas naquele momento o castelo parecia menos interessado em observar do que em escutar.
Adrian apoiou os cotovelos nos joelhos, olhando para frente, mas com um sorriso que não tinha ido embora.
— Eu acho muito injusto que você tenha respostas tão boas de primeira.
— Não foram de primeira — disse Kahrir. — Eu pensei.
— Isso é pior. Significa que a avaliação foi revisada.
Mason deixou escapar um som curto, quase divertido.
— Claro que foi revisada. Você fala demais. Exige tempo.
Adrian virou o rosto para ele com uma expressão de traição absoluta.
— Você realmente acordou e decidiu me atacar de forma coordenada hoje.
— Ninguém precisou coordenar — respondeu Kahrir.
— Exato — completou Mason.
Por um instante, os três acabaram rindo quase ao mesmo tempo, e o som saiu leve, natural, quebrando qualquer resto de rigidez que pudesse ter sobrado da manhã. Kahrir percebeu, com uma clareza tranquila, que já não precisava medir tanto a própria presença perto deles do mesmo jeito que medira no trem, ou no Salão Principal, ou na primeira aula. Não porque tivesse deixado de observar — isso ela provavelmente nunca deixaria —, mas porque a observação agora vinha junto de outra coisa. Conforto. Pequeno, recente, mas real.
Foi então que o castelo, que passara preciosos minutos permitindo aquele raro estado de paz, resolveu lembrar discretamente que ainda era Hogwarts.
Não veio como susto. Nem como cena grandiosa.
Veio num detalhe.
Primeiro, Kahrir percebeu o cheiro. Muito leve. Tão leve que, se o pátio não estivesse tão quieto, talvez passasse despercebido. Não era o cheiro de folhas secas, nem de pedra úmida, nem da água do bebedouro. Era outra coisa — seca, fina, quase metálica, misturada a um resto de tecido guardado por tempo demais.
O mesmo cheiro que ela sentira perto do pano preso no arbusto.
Ela não mudou de postura de imediato. Só ergueu um pouco o rosto, como quem tenta decidir se reconheceu mesmo alguma coisa ou se estava puxando memória onde não precisava.
Adrian percebeu primeiro a mudança mínima nela, não o cheiro.
— O que foi?
A pergunta veio baixa, sem alarme, só atenção.
Mason já não sorria mais, embora também não tivesse ficado tenso. O olhar dele passou pelo pátio com mais foco, não procurando por drama, apenas conferindo o que havia mudado.
O cheiro vinha e ia com o vento, leve demais para ser uma presença escancarada, mas próximo o bastante para não ser coincidência confortável.
Kahrir virou o rosto devagar na direção da arcada por onde tinham entrado. O corredor além dela permanecia vazio à primeira vista, banhado por aquela luz pálida de fim de tarde, com o retrato da bruxa severa agora fingindo total desinteresse. Nada se movia de forma errada. Nada chamava atenção demais.
E ainda assim o cheiro estava ali.
Como rastro.
Como aviso.
Como se alguma coisa tivesse passado perto o bastante para deixar apenas isso para trás.
Kahrir não respondeu a Adrian de imediato. Continuou sentada, mas o corpo já não descansava do mesmo jeito de um instante antes; a tranquilidade do pátio tinha se deslocado só o suficiente para deixar espaço àquela atenção mais fina, aquela que vinha antes do entendimento e que, em Hogwarts, quase sempre acabava significando alguma coisa. O cheiro voltou numa rajada curta de vento, sutil, seco, com aquele fundo estranho de metal e tecido antigo, e ela sentiu o reconhecimento se firmar sem precisar pensar muito nele.
— O cheiro — murmurou, virando um pouco mais o rosto para a arcada. — É o mesmo de lá de fora. Do tecido no arbusto.
Adrian acompanhou o movimento dela na mesma hora, e a leveza que ainda restava no rosto dele não desapareceu por completo, mas se recolheu o bastante para dar lugar à atenção. Ele não levantou correndo, não exagerou a reação. Só endireitou a postura no banco e franziu um pouco a testa, como se tentasse alcançar o cheiro antes da explicação.
— Eu não senti antes — disse ele, baixo. — Agora… talvez. Bem pouco.
Mason já tinha deixado de se apoiar no bebedouro. Não havia pressa no gesto, mas havia intenção. Ele virou o corpo na direção da arcada e ficou imóvel por um segundo, olhando não para um ponto específico, mas para o corredor inteiro, como se o espaço pudesse revelar por conta própria o que tinha passado por ali.
— Não veio do pátio — disse ele. — Veio de dentro.
Kahrir se levantou do banco, não de um salto, só com a calma de quem não queria estragar a própria percepção transformando tudo em cena. A pedra sob seus pés ainda guardava um resto morno de sol, mas o ar perto da arcada era mais frio, mais de corredor do que de pátio. O retrato da bruxa severa continuava ali, rígido dentro da moldura, fingindo uma indiferença tão disciplinada que quase parecia culpa.
Adrian também se levantou, embora com uma expressão de resignação divertida que claramente tentava impedir a tarde de ficar pesada cedo demais.
— Eu gosto muito de como a gente não consegue ter uma conversa minimamente pessoal sem Hogwarts ouvir e pensar “não, vamos pôr um cheiro suspeito nisso”.
Kahrir lançou a ele um olhar curto, e o canto da boca se moveu apesar de tudo.
— Você fala como se isso ainda te surpreendesse.
— Não surpreende. Só me ofende.
Mason passou por eles primeiro, mas só até a entrada da arcada, sem sair decidindo nada por ninguém. O cabelo loiro acinzentado dele pegou a luz do corredor de lado, e os olhos claros demoraram um pouco mais na moldura do retrato antes de ele falar, num tom tranquilo demais para ser casual.
— Ela viu alguma coisa.
A bruxa do retrato, que até então sustentava a postura altiva de quem considerava crianças uma espécie inerentemente cansativa, virou o rosto com uma lentidão ofendida.
— Vejo muitas coisas — respondeu ela, com aquele sotaque antigo e seco que combinava perfeitamente com a cara dela. — Não tenho obrigação de organizar nenhuma delas para alunos curiosos.
Adrian cruzou os braços.
— Ah, excelente. Uma personalidade adorável. Tava faltando isso no dia.
Kahrir se aproximou mais um pouco da moldura. Não o suficiente para ser invasiva, só o bastante para que a conversa não precisasse ser lançada no corredor.
— Tudo bem — disse ela, com mais gentileza do que a mulher provavelmente merecia. — Mas alguém passou por aqui agora há pouco, não passou?
A bruxa estreitou os olhos. O retrato ao lado, que mostrava um senhor adormecido numa poltrona vermelha, abriu um olho de novo com interesse indiscreto.
— Pessoas passam por corredores — respondeu ela, ríspida. — É uma das funções de corredores.
Adrian soltou um suspiro tão teatral quanto silencioso.
— Eu sabia. Eu sabia que ia ser esse tipo de conversa.
Mason não tirou os olhos do retrato.
— Tecido claro? — perguntou ele.
A pergunta foi tão direta que, por um segundo, até a bruxa pareceu decidir se valia a pena fingir ainda mais do que já estava fingindo. O silêncio não se instalou de forma dramática; foi só um pequeno atraso, um vinco a mais na expressão dela, um detalhe suficiente.
— Hm — fez ela, por fim, como quem admitia muito pouco por acidente. — Talvez.
Kahrir sentiu o cheiro outra vez, mais fraco agora, como um rastro que já começava a morrer no ar.
— Homem ou mulher? — perguntou, ainda calma.
A mulher do retrato ergueu o queixo.
— Não vi rosto. Vi pressa. O que já me pareceu falta de educação suficiente.
Adrian levou a mão ao peito.
— Finalmente um retrato com prioridades claras.
Kahrir ignorou o comentário, embora o humor rápido dele tornasse a cena mais fácil de carregar.
— Foi para qual lado?
A bruxa virou os olhos para o corredor atrás deles, como se estivesse concedendo informação sob protesto.
— Desceu. Não correu, mas também não vinha com passo de quem apreciava a arquitetura.
Mason olhou imediatamente para o lance de escadas que se escondia depois da curva, meio submerso na luz mais fraca daquela parte do castelo. Kahrir acompanhou o olhar dele e sentiu a curiosidade se mexer outra vez, não em estalo, não como urgência — mais como fio puxado devagar.
Adrian percebeu ao mesmo tempo e já antecipou, com a voz mais baixa:
— Antes que qualquer “e se” nasça, eu gostaria de lembrar que eu continuo muito a favor da gente não sair seguindo coisa esquisita por escada aleatória.
— Eu não falei nada — respondeu Kahrir.
— Você ainda não precisa falar. Seu rosto faz prévia.
Mason deixou escapar um sopro curto pelo nariz, quase uma risada.
— Ele não está errado.
Kahrir cruzou os braços, mas sem rigidez.
— Eu só estou pensando.
— Esse é exatamente o problema — disse Adrian.
Apesar do comentário, havia mais cuidado do que implicância ali. Ele se aproximou um pouco mais da arcada e inspirou de leve, como se quisesse confirmar o cheiro por conta própria. Quando falou de novo, o tom estava mais sério, embora ainda macio.
— Se alguém passou com aquilo vindo desse pano ou de roupa parecida… então isso não está mais só lá fora.
A frase não pesou no corredor como uma revelação grandiosa. Caiu de forma simples, e talvez por isso fosse pior. O castelo continuava com sua vida discreta ao redor deles — um retrato cochichando com outro mais acima, passos cruzando um andar distante, o eco breve de uma porta ao fechar —, mas a ideia já tinha encontrado lugar.
Kahrir passou os dedos pela manga do robe num gesto distraído, sentindo o pingente quieto sob o tecido. Nada nele reagia. Nada na varinha também. E ainda assim o corpo dela sabia que alguma coisa tinha mudado, nem que fosse só a proximidade do rastro com um espaço onde, poucos minutos antes, eles tinham conseguido rir sem esforço.
A bruxa do retrato já parecia arrependida de ter falado qualquer coisa. Endireitou a postura ainda mais, como se pretendesse voltar ao papel de guardiã silenciosamente julgadora daquele corredor.
— Se terminaram de perturbar minha tarde — disse ela, seca —, aconselho que vão perturbar outro lugar.
Adrian inclinou a cabeça numa falsa cortesia.
— A senhora tem um dom natural para hospitalidade.
— E você tem um dom natural para excesso.
— Ela também me falou isso — disse ele, inclinando de leve a cabeça na direção de Kahrir.
O comentário veio no momento certo, leve o bastante para impedir que a conversa afundasse de vez. Kahrir soltou um pequeno riso, mas o olhar dela continuou um instante a mais na escada depois da curva. Não havia ninguém ali agora. Só pedra, sombra clara e aquele resto de cheiro já quase sumindo.
O domingo não tinha acabado de se estragar — ainda havia alguma calma nele, ainda havia a escolha. E talvez fosse justamente isso que importasse. Hogwarts sempre oferecia um rastro. O mais difícil era decidir o que merecia ser seguido e o que merecia, por enquanto, ser apenas lembrado.
Kahrir permaneceu olhando para a curva da escada por mais alguns segundos, não por teimosia, mas porque ainda havia naquele trecho do corredor uma espécie de ausência recente, como se o espaço tivesse sido usado há pouco demais para voltar a parecer inteiramente comum. O cheiro quase já tinha se desfeito, diluído pelo ar mais frio que vinha das janelas altas e pelo perfume seco da madeira antiga dos quadros, mas o bastante dele ainda permanecia para incomodar a memória. Não era imaginação. Era pior justamente por ser tão pouco — só um resto, um rastro fino, uma prova pequena demais para sustentar qualquer coisa grande.
Ela não se moveu de imediato, e foi nessa pequena hesitação que percebeu como o pátio tinha mudado atrás deles sem precisar de anúncio algum. O som da água continuava o mesmo, o vento ainda fazia a hera roçar a pedra, mas a tarde deixara de ter aquela folga macia de antes. Não porque houvesse perigo escancarado. Só porque alguma coisa, outra vez, se aproximara o bastante para ser sentida e sumira antes de ganhar nome.
Adrian continuava ao lado dela, um pouco mais sério do que estava no banco, mas sem parecer alarmado. Havia nele aquela qualidade útil de não transformar qualquer estranheza em tragédia imediata — e, ao mesmo tempo, não fingir que não via. Ele esfregou de leve o polegar no punho do robe, olhando também para a escada.
— Eu sei que a resposta adulta e sensata aqui é “a gente deixa isso quieto” — disse ele, num tom baixo, com aquele humor mais seco que usava quando tentava não soar preocupado demais —, mas queria registrar que isso está ficando meio ridículo. Primeiro o pano. Agora o mesmo cheiro dentro do castelo. Em algum momento Hogwarts podia colaborar e explicar pelo menos uma coisa inteira.
— Não é do feitio dela — comentou Mason.
A frase veio calma, sem pressa, e ele finalmente desviou o olhar da escada para o corredor, conferindo o espaço ao redor mais do que qualquer pessoa específica. A luz pegava nas linhas precisas do rosto dele e no cabelo claro, quase prateado em alguns fios, sem tirar dele aquele ar de presença silenciosa que parecia já fazer parte da própria pedra do castelo.
— Mas isso muda uma coisa — continuou ele, mais baixo. — Não está só ligado aos terrenos. Está circulando.
Kahrir sentiu a frase encaixar de forma desagradavelmente natural. Circulando. Era isso. Não parecia mais um detalhe isolado preso do lado de fora, nem um resto esquecido num arbusto qualquer. Estava em movimento. Tinha passado ali. E o pior era que passara perto o suficiente de um lugar onde, poucos minutos antes, eles estavam simplesmente sentados falando bobagem como se Hogwarts pudesse, por uma tarde, ser só uma escola antiga e não uma coleção de coisas meio erradas.
A bruxa do retrato pigarreou de propósito, um som seco e irritado que parecia saído mais da moldura do que dela mesma.
— Se planejam ficar transformando meu corredor num centro de conspiração juvenil — disse ela, com a dignidade ofendida de quem considerava o século inteiro uma decepção —, ao menos façam isso em voz mais baixa.
Adrian inclinou a cabeça numa educação perfeitamente falsa.
— A senhora tem razão. Falhamos como hóspedes.
— Vocês não são hóspedes. São alunos. O que é muito pior.
Kahrir não conseguiu evitar o pequeno sorriso que veio com aquilo, rápido e discreto, mas suficiente para aliviar a tensão na medida certa. Talvez fosse isso que mantinha o castelo suportável: até seus momentos mais estranhos pareciam obrigados a dividir espaço com comentários absurdos, retratos mal-humorados e adolescentes que, mesmo cansados, continuavam encontrando tempo para ironizar a própria má sorte.
Ela deu um passo curto para longe da arcada, ainda olhando para a escada.
— Eu não acho que adianta descer agora — disse por fim, não como conclusão fria, mas como sensação que já vinha se formando enquanto ela encarava aquele vazio. — Se alguém passou, já foi. E se a gente começar a correr atrás de todo rastro, daqui a pouco a gente não faz mais nada além disso.
Adrian soltou o ar pelo nariz, num meio alívio.
— Obrigado. Eu estava torcendo muito para você dizer isso.
— Eu não disse que vou ignorar.
— Claro que não disse. A sua versão de paz nunca vem completa.
Mason inclinou levemente a cabeça, concordando com ambos de um jeito quase irritante.
— Dá para lembrar sem seguir agora.
Kahrir olhou para ele, e a forma simples como ele disse aquilo a fez gostar mais da ideia do que gostaria de admitir. Não era recuo. Também não era impulso. Era exatamente o meio termo difícil que Hogwarts parecia exigir deles o tempo todo: continuar prestando atenção sem transformar cada detalhe numa perseguição imediata.
Ela passou a ponta dos dedos pela pedra fria da parede junto à arcada, como se o gesto ajudasse a fixar o lugar melhor na memória. O corredor descia em curva. Havia uma rachadura fina no segundo degrau visível, um retrato oval torto alguns metros abaixo, uma tapeçaria escura do lado oposto com um ponto desfiado perto da barra. Nada grandioso. Mas suficiente para voltar ali, se fosse preciso.
Mais ao fundo do corredor, ouviu-se então o toque distante de um sino — não alto, não urgente, só claro o bastante para atravessar os andares do castelo como um lembrete de que, por mais estranho que tudo pudesse ficar, o dia ainda corria dentro de uma ordem própria. Almoço não demoraria tanto. Mais alunos começariam a circular. Os corredores deixariam de ser tão vazios quanto estavam agora.
Adrian ouviu também e fez uma pequena careta.
— Isso é o castelo nos informando, com muita delicadeza, que a nossa janela dramática de corredor suspeito está acabando.
— Ainda bem que você identificou — disse Kahrir.
— Eu sou excelente com detalhes.
— Não. Você é excelente em comentar detalhes.
Mason soltou um sopro curto, quase um riso, e dessa vez nem tentou disfarçar totalmente.
— Diferença importante.
Adrian olhou para os dois com aquele ar de ofensa já conhecido, mas o canto da boca dele traía diversão demais para aquilo durar de verdade.
Kahrir voltou-se mais uma vez para o pátio pequeno. A água seguia correndo. O banco de pedra continuava ali, a hera continuava tremendo com o vento, e tudo parecia ao mesmo tempo igual e não exatamente igual ao que era quinze minutos antes. Ela teve a impressão rápida, não desagradável, de que era assim que o castelo funcionava com ela: nunca arrancava as coisas de uma vez. Apenas as deslocava um pouco.
— Vamos guardar isso — disse ela, agora olhando para os dois. — O cheiro, o corredor, a escada… tudo. Se aparecer de novo, a gente já não tá começando do zero.
Adrian assentiu imediatamente.
— Isso eu consigo fazer sem reclamar muito.
— Você consegue reclamar fazendo também — observou Mason.
— E ainda assim faço. É um talento duplo.
Os três se afastaram da arcada aos poucos, deixando a bruxa do retrato entregue outra vez à sua desaprovação favorita. O corredor parecia mais cheio agora do que alguns minutos antes; vozes de alunos vinham de um lance de escadas acima, e um grupo de duas meninas da Corvinal passou ao longe carregando pergaminhos e falando em tom urgente sobre alguma tarefa esquecida. A tarde retomava o próprio movimento. O castelo, como sempre, continuava.
Mas Kahrir ainda sentia, debaixo da normalidade que voltava a cobrir tudo, aquela linha fina de incômodo. Não o bastante para estragar o domingo inteiro. Só o suficiente para impedir que ela o entregasse completamente à tranquilidade.
E talvez bastasse por enquanto.
Kahrir assentiu de leve, mais para si mesma do que para os dois, como se estivesse fechando por dentro aquela decisão de não sair correndo atrás do corredor, mas também de não deixá-lo cair no mesmo lugar onde tantas coisas em Hogwarts pareciam desaparecer: o da distração confortável. O sino ainda vibrava distante por entre as paredes do castelo, e o corredor já começava a receber mais movimento, mais vozes, mais o tipo de vida comum que fazia qualquer rastro parecer um pouco menos urgente à primeira vista.
Ela respirou fundo e ajeitou uma mecha do cabelo castanho-claro que o vento tinha soltado do lugar. A tarde continuava fresca, e havia no ar aquela mistura de pedra antiga, folhas secas e tecido aquecido pelo próprio corpo que só castelos muito velhos pareciam guardar. Quando olhou de novo para Adrian e Mason, sentiu com nitidez que o domingo ainda podia ser salvo — não inteiro, não limpo, mas salvo o suficiente para não virar apenas mais um capítulo de coisas estranhas.
— Tá — disse ela, com um pouco mais de decisão agora. — A gente guardou. E eu acho que, se eu continuar pensando nisso sem parar, vou começar a sentir cheiro suspeito até em cortina.
Adrian abriu um sorriso imediato, aliviado demais para esconder.
— Finalmente uma fala sensata nesta instituição.
— Não exagera — respondeu Kahrir, já com o próprio canto da boca subindo. — Ainda sou eu.
— Exatamente por isso eu valorizei tanto.
Mason, que tinha voltado a assumir aquela calma de presença estável que fazia parecer que ele nunca desperdiçava movimento nenhum, soltou um sopro curto pelo nariz e se afastou um pouco da arcada, acompanhando o ritmo dos outros dois sem pressa.
— Então o que sobra do domingo? — perguntou ele.
A pergunta não soou vazia. Soou prática, quase boa. Como se ele também estivesse aceitando, sem dizer diretamente, que o melhor naquele momento não era empurrar a tarde até ela se partir.
Kahrir olhou corredor abaixo, vendo os alunos passarem agora com mais frequência, e foi então que uma lembrança simples a alcançou. Não tinha mistério, nem pressa, nem cheiro estranho. Só uma coisa comum o bastante para parecer quase exótica em Hogwarts.
— Eu tô com fome de doce — admitiu ela, e a frase saiu com um humor leve que ela mesma não tinha planejado. — O que eu acho bem injusto, porque a gente acabou de quase transformar um corredor num caso policial.
Adrian levou a mão ao peito com um ar sinceramente comovido.
— Obrigado. Obrigado. Isso, pra mim, é sinal de caráter.
— É sinal de açúcar baixo — disse Mason.
— Que também é uma tragédia real.
Kahrir revirou os olhos, mas já estava andando, e os três deixaram o pátio e o retrato mal-humorado para trás, voltando ao corredor principal num ritmo que não tinha mais a hesitação de antes. Não era descuido. O cheiro ainda estava guardado na cabeça dela, junto com a escada, a curva, a moldura, o modo como a bruxa tinha demorado um pouco demais para responder. Só não dominava mais o passo.
O castelo parecia outro agora que mais gente circulava por ele. As sombras continuavam nas mesmas pedras, as janelas ainda deixavam entrar aquela luz clara e fria do início de setembro, mas o som dos estudantes devolvia aos corredores uma normalidade que fazia bem. Dois alunos da Lufa-Lufa passaram carregando um tabuleiro entre eles, discutindo baixinho sobre quem tinha roubado uma tortinha antes do almoço; mais à frente, uma menina da Corvinal estava parada perto de uma janela, lendo enquanto andava devagar demais para não bater em ninguém; e, num retrato alto, um bruxo gorducho com um chapéu azul dormia de boca aberta, completamente alheio ao resto do mundo.
Adrian seguia ao lado de Kahrir com o robe aberto o bastante para parecer sempre um pouco menos arrumado do que provavelmente devia, o cabelo castanho-escuro ainda bagunçado pelo vento do pátio. Havia voltado ao estado mais natural dele: atento, mas leve.
— Eu sou a favor de qualquer rota que termine com alguma coisa indecentemente doce — disse ele. — E como hoje ainda não me deram nenhuma sobremesa traumática, pretendo corrigir isso.
— Você fala como se viver fosse comer entre incidentes — comentou Kahrir.
— E não é?
Mason, do outro lado, teve a delicadeza de não responder imediatamente, o que fez Adrian olhar para ele com desconfiança.
— Não piora.
— Eu nem falei nada.
— Exatamente. Esse é o problema.
Eles seguiram por uma escadaria mais larga, descendo dois lances até um corredor que dava para uma galeria com janelas altas voltadas para um jardim interno. A luz ali era mais aberta, dourando as bordas da pedra e aquecendo o chão em faixas compridas. Kahrir deixou os olhos correrem para fora por um instante: um trecho de gramado aparado, uma árvore baixa cujas folhas já começavam a virar cobre, um grupo de corvos bicando alguma coisa junto ao muro. Nada estranho. Nada que pedisse interpretação. Aquilo por si só já parecia quase um presente.
Quando chegaram a um salão menor, anexo a uma das áreas comuns usadas fora das grandes refeições, encontraram uma mesa lateral onde ainda restavam chaleiras quentes, pequenos pratos de biscoitos amanteigados e algumas tortinhas que, ao que tudo indicava, não tinham sido completamente atacadas pelos alunos mais velhos. O cheiro de chá preto, canela e massa assada se espalhava pelo ambiente com uma honestidade tão reconfortante que Kahrir sentiu o corpo afrouxar de novo quase imediatamente.
— Eu retiro tudo de ruim que pensei do castelo nos últimos… — Adrian parou, já pegando uma tortinha. — Não, mentira, não retiro tudo. Mas retiro um pouco.
Kahrir deixou escapar uma risada baixa e se aproximou da mesa, escolhendo uma tortinha pequena de maçã com cobertura brilhante e um biscoito redondo, dourado demais para ser ignorado. Mason pegou chá primeiro, como se quisesse manter uma aparência mínima de disciplina antes de admitir que também ia comer alguma coisa doce.
Eles se acomodaram perto de uma das janelas, não numa mesa grande, mas numa menor, quase lateral, onde o movimento dos outros alunos passava sem invadir. A madeira estava morna pelo sol que vinha batendo ali ao longo da tarde, e o vidro da janela deixava entrar uma luz suave, confortável, junto com uma vista parcial do jardim.
Kahrir cortou a tortinha com a colher e, ao primeiro gosto, sentiu o calor doce da maçã e da canela subir devagar, simples e absurdo de tão bom depois daquela semana. Não era grande coisa. E ainda assim parecia.
Adrian percebeu a expressão dela e apontou a própria colher como se tivesse acabado de ganhar um debate.
— Tá vendo? Eu tinha razão. Açúcar melhora quase qualquer teoria.
— Não melhora Quirrell.
— Quase qualquer teoria — repetiu ele, muito sério.
Mason levou a xícara à boca e tomou um gole antes de falar.
— Também não melhora o seu raciocínio.
— Isso é inveja porque eu tenho prioridades emocionais claras.
Kahrir apoiou o cotovelo na mesa, mais relaxada agora, e observou os dois com aquela sensação crescente de que o castelo podia até continuar deslocando o dia o tempo todo, mas havia um limite para o quanto conseguiria fazer isso quando eles três estavam juntos. Não porque fossem invencíveis — longe disso —, mas porque começavam a criar entre si alguma coisa que segurava. Um tipo de equilíbrio. Pequeno, ainda em formação, mas firme.
Mais perto da janela, um relógio antigo embutido na parede marcou os minutos com um clique delicado. Não tardaria muito para o castelo começar a puxar a tarde em direção ao jantar, aos dormitórios, ao fim do domingo. O que significava que a próxima escolha importava: deixar o resto do dia se dissolver numa calma merecida ou permitir mais uma conversa, mais um passo, mais um pedaço de vida antes da segunda-feira chegar com suas aulas e suas próprias exigências.
Kahrir pousou a colher no prato e olhou para os dois, agora sem o peso do corredor entre eles, sem o cheiro já quase extinto na cabeça ocupando tudo sozinho.
— Tá — disse ela, com um meio sorriso mais leve do que qualquer um que tivesse dado naquela tarde. — Agora me contem uma coisa que eu ainda não sei sobre vocês. Mas uma coisa boa. Nada de trauma, irmão misterioso, varinha dramática ou corredores suspeitos. Só alguma coisa… normal.
Adrian ergueu as sobrancelhas imediatamente, como se tivesse sido desafiado do jeito favorito dele.
Mason apenas a olhou por cima da xícara, quieto, mas claramente disposto a ficar.
Lá fora, o jardim continuava imóvel sob a luz mais baixa do fim da tarde, e Hogwarts, por uma vez, parecia contente em apenas ouvir.
A pergunta de Kahrir ficou pairando sobre a mesa pequena com a mesma leveza do vapor que subia do chá de Mason e do cheiro doce de maçã e canela que ainda vinha da tortinha partida no prato dela. O salão menor permanecia agradavelmente morno, embalado por aquele tipo de sossego que só existia nos intervalos do castelo, quando as grandes urgências pareciam se afastar um pouco e sobravam apenas vozes mais baixas, o tilintar discreto de porcelana e o clarão suave do fim da tarde entrando pelas janelas altas. Do lado de fora, o jardim mantinha aquela beleza contida do começo do outono, com as folhas começando a perder o brilho do verão e o gramado escurecendo sob a luz que já se inclinava.
Adrian foi o primeiro a reagir, claro, e a reação dele veio inteira no jeito como endireitou o corpo na cadeira, levou uma mão ao peito e fez uma expressão ofendida demais para ser sincera.
— Isso é muito injusto — declarou, com toda a solenidade que alguém segurando uma colher de sobremesa podia reunir. — Porque agora eu preciso parecer interessante de um jeito saudável. É um recorte muito específico.
Kahrir apoiou o queixo de leve na mão, olhando para ele com o canto da boca puxado num meio sorriso.
— Você consegue. Eu tenho fé moderada.
— “Fé moderada” é pior do que nenhuma fé.
Mason, sentado um pouco mais para trás, a xícara ainda entre as mãos, soltou um sopro curto pelo nariz sem desviar os olhos do chá, e aquilo bastou para Adrian apontar para ele com a colher.
— Você também para de me julgar em silêncio. Sua vez vem logo depois da minha.
— Eu sei — respondeu Mason, simples.
Adrian fez uma careta, como se o fato de Mason não se incomodar com nada estragasse metade da diversão.
— Tá. Uma coisa normal. Boa. Humana. — Ele pensou por um instante, olhando de lado para a janela como se a resposta estivesse escondida entre o vidro e o jardim. — Quando eu era menor, eu tinha a péssima mania de subir no telhado da casa dos meus pais.
Kahrir ergueu levemente as sobrancelhas.
— Isso parece menos “normal” e mais “um pedido silencioso por acidente”.
— Eu sabia que você ia estragar a história cedo demais.
— Você começou no telhado.
— Porque é importante pro contexto.
Mason apoiou o cotovelo na mesa, observando-o com uma calma ligeiramente suspeita.
— Isso vai piorar.
— Não vai. Na verdade, melhora.
Adrian se recostou um pouco na cadeira, e agora havia no rosto dele uma lembrança mais clara do que o humor de superfície. O tom continuou leve, mas havia alguma coisa mais verdadeira por baixo, daquele jeito que às vezes aparecia sem esforço quando ele falava de coisas que realmente tinham ficado.
— Não era por rebeldia nem nada muito dramático — disse. — Eu só gostava de ficar lá em cima porque dava pra ver quase o bairro inteiro. As chaminés, as janelas acesas, gente entrando e saindo das casas… e, à noite, o céu ficava bem melhor do que do jardim. Minha mãe odiava a ideia. Meu pai nunca descobriu oficialmente, o que é diferente de não saber.
Kahrir sorriu de leve, imaginando.
— E você subia como?
— Pela janela do corredor do segundo andar. Era ridiculamente fácil, o que honestamente diz coisas ruins sobre a segurança da casa.
— Ou boas sobre sua vocação para fazer escolhas ruins com confiança — murmurou Mason.
Adrian aceitou a crítica com a dignidade possível.
— Enfim, eu levava um cobertor, às vezes alguma coisa de comer, e ficava lá. Não fazia nada demais. Só... gostava. Era quieto. E ninguém ficava me dizendo o que eu devia fazer nos próximos quinze anos.
A frase saiu num tom tão casual que teria passado despercebida para quase qualquer outra pessoa, mas Kahrir sentiu o subtexto do mesmo jeito que se percebe uma mudança de temperatura antes de nomeá-la. Nada pesado. Só verdade suficiente para tornar a lembrança mais nítida.
Adrian percebeu que ela percebeu, o que o fez voltar ao sorriso com a mesma naturalidade de sempre.
— Então essa é minha informação boa e normal. Eu gostava de telhados. Muito. E ainda gosto de lugares altos, desde que ninguém espere que eu pule de nenhum.
— Isso explica bastante coisa — disse Kahrir.
— Explica o quê, exatamente?
— Você tem cara de quem gostaria de janelas grandes, vento e possibilidade de fugir sem fugir de verdade.
Adrian ficou em silêncio por um segundo, olhando para ela com a expressão meio surpresa, meio divertidamente derrotada que ele fazia quando alguém acertava mais do que deveria.
— Nossa. Isso foi absurdamente específico.
— E correto — disse Mason, antes de tomar outro gole do chá.
Adrian balançou a cabeça.
— Eu devia parar de falar perto de vocês dois.
— Não devia — disse Kahrir, agora com um sorriso mais claro. — Fica mais fácil entender você quando você fala.
Ele abriu a boca como se fosse fazer uma piada, mas dessa vez a piada não veio logo. Em vez disso, o olhar dele ficou mais macio por um instante, e o meio sorriso acabou voltando menor, mais sincero.
— É. Eu imaginei.
O pequeno silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Pelo contrário. Ficou entre os três com uma naturalidade boa, preenchido pelo calor do salão, pelo cheiro doce ainda pairando da mesa e pela luz que começava a dourar mais profundamente a madeira das cadeiras e das molduras nas paredes. Em algum canto mais adiante, uma chaleira foi recolocada sobre o suporte com um ruído delicado, e duas alunas do quarto ano passaram perto da porta falando em tom urgente sobre uma redação de História da Magia, tão absorvidas no próprio desastre que nem olharam para os três junto à janela.
Kahrir voltou então o rosto para Mason.
— Tá. Sua vez.
Mason não pareceu surpreso pelo foco se voltar para ele. Apenas apoiou a xícara com cuidado no pires, os dedos longos e precisos se afastando da alça sem pressa. A luz do lado de fora pegava de leve nos cabelos claros dele, deixando alguns fios quase prateados, e por um instante Kahrir pensou que havia algo de muito próprio nele até nos gestos mais simples — como se nada saísse exatamente por acaso.
— Uma coisa normal — repetiu ele, como se testasse a ideia antes de aceitá-la.
Adrian apontou a colher na direção dele outra vez.
— Tenta não responder “gosto de silêncio” porque isso não conta. Já é conhecimento público.
— Não era o que eu ia dizer.
— Pior ainda. Agora eu fiquei curioso.
Mason olhou para frente, não para nenhum dos dois especificamente, e Kahrir teve a impressão de que ele estava puxando da memória uma coisa que quase não usava, não por segredo, mas por falta de necessidade. Quando falou, a voz veio mais baixa, mas não fechada.
— Quando eu era menor, eu gostava de observar tempestades.
Adrian piscou uma vez.
— Isso é surpreendentemente bonito.
— Não interrompe — disse Kahrir, antes que ele resolvesse comentar mais alguma coisa.
Mason continuou, e havia um traço quase imperceptível de humor no fato de ele obedecer à ordem dela sem discutir.
— Na casa dos meus pais, tem uma sala no andar de cima com janelas muito altas. Quando começava a chover forte, eu ia pra lá sozinho. Não porque eu gostasse de trovão ou de barulho. Gostava de ver como tudo mudava sem realmente sair do lugar. O jardim, as árvores, a luz nas paredes... parecia que a casa inteira virava outra, mas continuava a mesma.
Kahrir ficou olhando para ele sem desviar, sentindo a imagem se formar com uma facilidade quase imediata. Não era difícil imaginar Mason criança, parado diante de uma janela, quieto demais para a própria idade, observando o mundo mudar de forma ordenada.
— E eu gostava do som — acrescentou ele, depois de um momento. — Chuva em vidro. Chuva em pedra. Dá para perceber muita diferença quando se presta atenção.
Adrian deixou escapar um sopro admirado.
— Tá, isso foi irritantemente melhor do que a minha história do telhado.
— Não foi competição — disse Mason.
— Agora é.
Kahrir sorriu. Havia qualquer coisa naquele relato que fazia sentido demais, de um jeito quase óbvio depois de ouvido. Não porque fosse frio. Justamente porque não era. Era só... muito Mason. O tipo de gosto que não chamava atenção em voz alta, mas que explicava um mundo inteiro depois que existia.
— Eu consigo imaginar isso — disse ela, antes de pensar muito se devia ou não. — Você parado na janela ouvindo a chuva como se ela tivesse vindo te contar alguma coisa útil.
Mason voltou os olhos claros para ela, e dessa vez o traço de mudança na expressão dele foi mais nítido, ainda pequeno, mas nítido. Não parecia desconforto. Parecia o reconhecimento silencioso de alguém que não esperava ser lido com tanta precisão — e que, apesar disso, não se importava exatamente.
— Talvez — disse ele.
Adrian se recostou na cadeira com a expressão profundamente ofendida de quem se via cercado por respostas melhores do que as suas.
— Ótimo. Perfeito. Eu falei de telhado e vocês dois transformaram a conversa em literatura.
— Ninguém mandou você ser você — respondeu Kahrir.
— Isso é hostilidade gratuita.
— Não foi gratuito. Você mereceu.
O comentário saiu no tempo certo, e Adrian soltou uma risada baixa, aceitando a derrota com uma dignidade muito parcial. O salão continuava confortável em volta deles, como se Hogwarts, pelo menos por aquela meia hora, tivesse concordado em deixá-los existir sem puxar mais nenhum fio estranho do chão ou do ar. Kahrir ainda lembrava do cheiro no corredor, claro. Ainda lembrava do pano preso no arbusto, da curva da escada, do jeito como a bruxa do retrato respondera com atraso demais. Mas essas coisas agora estavam guardadas no lugar em que ficavam as coisas que não precisavam ser resolvidas no mesmo minuto em que apareciam.
Ela pousou a mão ao lado do prato vazio e olhou para fora mais uma vez. O jardim começava a perder a luz mais clara da tarde, ganhando sombras compridas junto ao muro e um brilho mais escuro na grama. Não demoraria tanto para o jantar. Depois disso, o castelo começaria a recolher o domingo de verdade, puxando alunos de volta para as salas comunais, para as tarefas que fingiriam fazer, para os dormitórios, para a segunda-feira que se aproximava com seus horários, suas escadas e, provavelmente, mais alguma coisa fora do lugar.
Por isso talvez aquele momento parecesse mais importante do que devia. Não por ser enorme. Mas por ser simples. Três pessoas junto a uma janela, falando de telhados e tempestades, como se o mundo pudesse às vezes ser reduzido a isso e ainda assim continuar inteiro.
Kahrir pousou o olhar nos dois e, com aquela mesma curiosidade que nela nunca vinha de forma invasiva, apenas viva, sentiu vontade de manter a conversa onde ela estava — nesse lugar mais leve, mais humano, mais deles.
— Tá — disse ela, com a voz baixa e um meio sorriso que já não precisava ser protegido o tempo todo. — Então agora vocês já me contaram as coisas bonitas e estranhamente coerentes de vocês. Em troca, acho justo eu contar uma minha também.
Adrian endireitou o corpo na mesma hora, já interessado.
Mason continuou quieto, mas atento, do jeito que ficava quando realmente queria ouvir e não apenas esperar a própria vez de falar.
Do lado de fora, uma brisa moveu as folhas da árvore mais próxima do vidro, e a última luz mais quente do dia se inclinou um pouco mais sobre a mesa.
Kahrir passou o polegar devagar pela borda da colher, sentindo o metal já quase frio, e por um instante pareceu medir a própria lembrança antes de soltá-la no meio da mesa. Não havia peso demais naquilo, nem vontade de transformar uma coisa simples em confissão grandiosa. Era só estranho, talvez, perceber como certas memórias pequenas ficavam inteiras por mais tempo do que outras muito maiores.
Ela ergueu os olhos primeiro para Adrian, que já estava visivelmente pronto para ouvir qualquer coisa como se fosse a parte mais importante da tarde, e depois para Mason, quieto do outro lado da xícara, com aquele tipo de atenção que não pressionava, mas também não se distraía.
— Quando eu era menor — começou ela, com a voz baixa o suficiente para combinar com o salão e com a hora — eu gostava de ficar perto do pomar da casa do meu tio quando começava a anoitecer.
Adrian apoiou melhor o cotovelo na mesa, o sorriso diminuindo só o bastante para abrir espaço à curiosidade de verdade. Lá fora, a brisa moveu outra vez as folhas da árvore junto à janela, espalhando sombras leves sobre o vidro.
— Não era nem por causa das frutas — continuou Kahrir, com um traço de humor muito sutil, como se achasse importante esclarecer isso. — Quer dizer, às vezes também. Mas eu gostava mais do momento em que o lugar mudava de som. Durante o dia tinha pássaro, gente, vento batendo nas folhas de um jeito mais alto… e no fim da tarde tudo ficava diferente. Mais baixo. Mais... atento.
Mason não se moveu, mas o olhar dele pareceu se fixar um pouco mais.
— Tinha uma árvore específica — disse ela, agora olhando por um segundo para a própria memória mais do que para os dois à sua frente. — Não era a maior nem a mais bonita. Era meio torta, na verdade. Mas eu gostava de sentar perto dela porque dali dava pra ver o resto do pomar e também o começo da mata mais adiante. E quando o céu começava a escurecer, os vaga-lumes apareciam primeiro ali.
Adrian abriu um sorriso pequeno, muito mais quieto do que os que costumava mostrar quando estava brincando.
— Tá. Isso é muito bonito.
Kahrir deixou escapar um sopro curto pelo nariz, quase um riso.
— Eu sabia que você ia falar isso desse jeito.
— Porque é verdade. Você praticamente acabou de descrever um lugar onde eu passaria horas fingindo que tinha profundidade.
— Fingindo? — perguntou ela, olhando para ele de lado.
— Tá bom. Tendo profundidade. Mas com elegância.
Mason enfim levou a xícara à boca e tomou um gole curto de chá antes de comentar, ainda olhando para ela por cima da borda.
— Faz sentido.
Kahrir voltou o rosto para ele, esperando.
— Você gosta de lugares em que dá pra perceber a mudança antes dela acontecer — disse Mason. — Não quando já aconteceu.
A frase não veio como análise excessiva. Veio simples, precisa, como se ele só estivesse encostando o dedo em uma coisa que já estava ali o tempo todo. Kahrir sentiu o reconhecimento daquilo passar por ela de forma imediata demais para ser negado, e por um segundo o silêncio que se formou não foi desconfortável, só exato.
Adrian olhou de um para o outro e balançou levemente a cabeça.
— É realmente cansativo como vocês dois às vezes parecem estar na mesma conversa uns dez minutos antes de mim.
— Você alcança depois — disse Kahrir.
— Que gentil. Muito elegante da sua parte.
Ela sorriu, agora mais abertamente.
— Mas era isso. Eu gostava de ficar ali até meu tio aparecer dizendo que já estava escuro demais e que, se eu continuasse parada, ele ia acabar me confundindo com um espírito da mata.
Adrian soltou uma risada baixa.
— Seu tio parece ótimo.
— Ele é.
A resposta veio sem esforço, sem peso, e isso por si só pareceu deixar a memória ainda mais inteira. O salão menor seguia aconchegado ao redor deles, preenchido por um ruído suave de pratos sendo recolhidos, cadeiras arrastadas sem pressa e conversas que nunca subiam demais. A luz do fim da tarde tinha descido mais um pouco, dourando o contorno da mesa e a borda da xícara de Mason, pegando de leve nos cabelos castanho-escuros de Adrian e fazendo o vidro da janela refletir parte do interior junto com o jardim lá fora.
Por alguns segundos, ninguém falou nada. Não porque faltasse o que dizer, mas porque a conversa tinha encontrado aquele tipo de pausa boa que não pede preenchimento imediato. Kahrir percebeu, com uma nitidez tranquila, que havia gostado mais do que esperava de ter dito aquilo em voz alta. Não era uma lembrança enorme, nem a mais importante da vida dela. Mas era uma das que permaneciam limpas.
Adrian foi o primeiro a quebrar a quietude, como sempre, mas com mais cuidado do que de costume.
— Tá, então oficialmente temos o seguinte — disse ele, contando nos dedos com a colher ainda na mão. — Eu fico em telhados, Mason observa tempestades e você senta perto de árvore torta esperando vaga-lume. Eu não sei o que isso diz sobre a gente, mas suspeito que nenhuma dessas coisas era totalmente normal pra crianças de onze anos.
— Nada sobre a nossa semana foi totalmente normal — respondeu Kahrir.
— Touché.
Mason descansou a xícara no pires com um clique suave.
— Pelo menos explica por que a gente se suporta.
Adrian virou o rosto para ele com uma expressão divertida demais para ser levada a sério.
— “Se suporta” é uma escolha de palavras extremamente fria pra alguém que acabou de ter um momento quase afetivo.
— Você sobreviveu a ele. Não abusa.
Kahrir deixou escapar uma risada baixa, e dessa vez ela veio fácil, sem encontrar nada pesado no caminho. O jardim do lado de fora já estava mais escuro nas bordas, e os galhos da árvore junto à janela projetavam sombras mais compridas no vidro. Não demoraria para o castelo começar a chamar os alunos de volta para suas próprias rotinas de fim de domingo — o jantar, os corredores mais cheios, a sala comunal, a preparação meio inútil para a segunda-feira. Mas, por enquanto, ainda havia esse pequeno pedaço de tempo.
Adrian empurrou o prato vazio um pouco para frente e apoiou o queixo na mão.
— Posso fazer uma pergunta sem estragar a atmosfera?
Kahrir olhou para ele com uma sobrancelha levemente erguida.
— Você nunca espera resposta pra isso.
— Verdade. Então vou reformular: vou fazer.
Mason nem se deu ao trabalho de fingir surpresa.
— Natural.
Adrian ignorou os dois com a dignidade possível.
— Quando você falou dos vaga-lumes… — disse ele, agora olhando para Kahrir com a curiosidade mais limpa do que a brincadeira — você ficou com a mesma cara que faz quando olha alguma coisa que realmente gosta. Você sente falta de casa? Tipo… agora mesmo?
A pergunta não caiu pesada entre eles. Veio com cuidado real, sem puxar nada à força. Ainda assim, mudou o ar da conversa só um pouco, o suficiente para deixar espaço para uma resposta que podia seguir mais de um caminho.
Kahrir sentiu a última luz mais quente do dia tocar a lateral do rosto enquanto, do outro lado da mesa, Adrian esperava sem pressionar e Mason permanecia quieto, atento como sempre.
Kahrir ficou olhando para Adrian por um instante, sentindo a pergunta pousar de um jeito diferente das anteriores. Não era uma daquelas curiosidades que pediam resposta rápida, nem tinha o peso de uma investigação; era simples demais para ser desviada e delicada demais para ser tratada como brincadeira. A luz do fim da tarde tocava a lateral da mesa e deixava o chá de Mason com um brilho âmbar escuro, enquanto lá fora o jardim já começava a perder os contornos mais nítidos, as folhas da árvore próxima ao vidro tremendo com um vento que não entrava, mas parecia fazer parte da conversa mesmo assim.
Ela abaixou os olhos para o prato vazio, onde restavam algumas migalhas douradas de tortinha, e passou a ponta do dedo perto delas sem realmente tocar. Sentia falta de casa? A resposta não vinha como uma coisa só. Era mais como abrir uma gaveta cheia de objetos diferentes e perceber que todos pertenciam à mesma pessoa, mesmo sem combinarem perfeitamente entre si.
— Sinto — disse ela por fim, sem dramatizar, mas também sem esconder. — Só que não do jeito que eu achei que sentiria.
Adrian não interrompeu. O meio sorriso dele tinha diminuído, ficando mais atento, mais quieto; aquela versão dele que sabia escutar sem transformar cada pausa em espaço para piada. Mason também permaneceu calado, os dedos ainda envolvendo a xícara, o olhar claro fixo nela com uma atenção que não invadia.
Kahrir olhou pela janela, para o jardim interno que escurecia aos poucos.
— Eu sinto falta de coisas pequenas. Do cheiro da casa do meu tio quando chovia. Do pomar no fim da tarde. De saber onde tudo fica sem precisar pensar. — Ela soltou um riso baixo, quase sem som. — Aqui até ir tomar café pode virar uma excursão diplomática.
Adrian sorriu de canto, mas esperou.
— Mas eu não sinto falta como se eu quisesse voltar agora — continuou ela. — É mais como… uma parte minha ainda está lá, mas outra parte já entendeu que precisava vir pra cá. Hogwarts é estranho, cansativo, inconveniente e provavelmente tem um problema sério com deixar crianças em paz.
— Grave problema — murmurou Adrian.
— Gravíssimo — concordou ela, com leveza, antes de voltar ao tom mais sincero. — Mas eu gosto daqui. Mesmo quando não entendo. Talvez principalmente porque não entendo tudo ainda.
Mason inclinou um pouco a cabeça, e Kahrir percebeu que ele tinha gostado daquela parte, ou pelo menos que a reconhecia como verdadeira. Ele não disse nada de imediato, e isso combinava com ele; Mason parecia guardar as respostas até que elas pudessem sair sem excesso.
Adrian apoiou o queixo na mão, observando-a com uma expressão mais macia.
— Então não é saudade de ir embora. É saudade de saber exatamente onde você pisa.
Kahrir olhou para ele de novo, surpresa por ele ter resumido de forma tão simples algo que nela tinha vindo meio espalhado.
— É. Acho que é isso.
— Odeio quando eu acerto alguma coisa profunda sem querer — disse ele, tentando recuperar a própria leveza com uma expressão falsamente pesarosa. — Agora vou ficar insuportável.
— Você já estava bem encaminhado — respondeu Mason.
Adrian apontou para ele com a colher, mas não havia energia real para protestar.
— Eu estou vulnerável. Tenha respeito.
— Estou tendo o suficiente.
Kahrir riu, e o riso saiu mais leve do que ela esperava. Aquela era uma das coisas curiosas sobre Adrian: ele conseguia tocar num ponto sensível e, antes que o assunto pesasse demais, abria uma janela. Não empurrava a emoção embora; só deixava ar entrar junto com ela.
Mason pousou a xícara no pires com um clique baixo, quase absorvido pelo ruído do salão menor.
— Faz sentido sentir falta disso — disse ele, e a voz dele veio calma, medida, mas não fria. — Lugares conhecidos não exigem tanta atenção.
Kahrir olhou para ele.
— Você sente falta?
A pergunta saiu naturalmente, antes que ela decidisse se estava devolvendo demais. Mason não pareceu incomodado. Apenas desviou os olhos por um segundo para a janela, onde as sombras do jardim começavam a se juntar nas bordas do vidro.
— Às vezes — respondeu. — Mais da rotina do que da casa.
Adrian ergueu uma sobrancelha.
— Isso é muito você.
Mason ignorou o comentário com prática evidente.
— Saber o que acontece depois tem certo conforto. Aqui, mesmo quando o horário diz uma coisa, o castelo parece discordar.
Kahrir sorriu de leve.
— Então Hogwarts também te irrita.
— Muitas coisas irritam — respondeu Mason. — Eu só não aviso todas.
Adrian soltou uma risada baixa, relaxando de novo na cadeira.
— Isso explica sua aura de mistério. Na verdade, é só irritação bem administrada.
— Se isso te ajuda.
A conversa se acomodou outra vez num lugar confortável, e por alguns minutos o tempo pareceu se alargar. O salão menor foi esvaziando devagar; alunos recolhiam pratos, guardavam pergaminhos, arrastavam cadeiras com o cuidado preguiçoso de domingo. A luz do lado de fora passava do dourado para um azul mais frio, e as velas nas paredes começaram a parecer mais necessárias, lançando reflexos suaves sobre a madeira e o vidro. O cheiro doce das tortinhas ainda pairava no ar, mas já se misturava ao aroma mais profundo do chá e à pedra úmida dos corredores próximos.
Kahrir percebeu, com uma espécie de surpresa quieta, que aquele tinha sido talvez o momento mais normal desde sua chegada a Hogwarts. Não normal no sentido de comum, porque nada ali era comum de verdade, mas normal o suficiente para caber dentro dela sem esforço. Telhados, tempestades, vaga-lumes, saudade. Coisas que não resolviam mistério nenhum, e por isso mesmo pareciam importantes.
Adrian olhou para a janela e depois para o relógio antigo na parede.
— Acho que o jantar vai começar logo — disse ele, sem grande entusiasmo em se levantar. — O que significa que em breve voltaremos ao ciclo oficial de comer, fingir que vamos estudar e talvez sobreviver à segunda-feira.
— Você finge estudar? — perguntou Kahrir.
— Eu estudo emocionalmente.
Mason olhou para ele.
— Isso não existe.
— Ainda não. Estou inovando.
Kahrir balançou a cabeça, sorrindo, e se levantou com calma. O corpo ainda carregava o cansaço da semana, mas agora era um cansaço mais limpo, menos cheio de pontas. A memória do cheiro no corredor continuava guardada, sim, e o rastro não desapareceria só porque eles tinham comido doce e falado de coisas bonitas. Mas já não ocupava tudo. Havia espaço para outras coisas. Para eles.
Ao saírem do salão menor, o corredor os recebeu com uma luz mais baixa e um som diferente do castelo, mais noturno, mais recolhido. As tochas ardiam nas paredes com pequenas oscilações douradas, e o ar cheirava a pedra fria, cera quente e um leve traço de comida vindo do Salão Principal. Alunos caminhavam na mesma direção, alguns rindo, outros carregando livros contra o peito, outros claramente decididos a aproveitar os últimos minutos antes de a segunda-feira existir de verdade.
Adrian caminhava ao lado de Kahrir, Mason um pouco à direita, os três se encaixando no fluxo sem pressa. Por um instante, ao passarem por uma janela estreita, Kahrir viu o céu escurecendo sobre os terrenos de Hogwarts, as primeiras sombras se espalhando pelo gramado, as árvores de outono inclinadas pelo vento. O castelo continuava enorme, antigo, cheio de segredos que não tinham intenção alguma de se explicar depressa.
Mas, naquela noite, ao menos por enquanto, Kahrir não estava sozinha dentro dele.
O caminho até o Salão Principal foi feito sem urgência, embalado pelo fluxo de alunos que descia pelos corredores como um rio irregular de robes escuros, vozes cansadas e passos ressoando na pedra. Hogwarts à noite tinha outro peso; as janelas já não traziam a claridade fria do domingo, mas reflexos escuros do lado de fora, e as tochas lançavam uma luz viva sobre as paredes, fazendo as sombras das tapeçarias se moverem como se houvesse vento onde não havia. O ar cheirava a cera quente, pedra úmida e comida recém-servida, e, conforme se aproximavam das grandes portas abertas, o burburinho do jantar crescia até envolver tudo, abafando por um tempo qualquer pensamento sobre panos rasgados, cheiros estranhos ou professores que desapareciam por caminhos laterais.
Adrian pareceu recuperar parte do ânimo quando o cheiro do jantar chegou de verdade. Ele ergueu um pouco o rosto, como se aquilo fosse uma notícia pessoalmente destinada a salvá-lo.
— Eu retiro o que disse sobre fingir estudar — murmurou, olhando para as mesas já iluminadas por centenas de velas flutuantes. — Meu plano oficial agora é comer o suficiente para justificar não fazer mais nada intelectualmente relevante hoje.
Kahrir olhou para ele de lado, o canto da boca se movendo.
— Você fala como se precisasse justificar.
— Preciso. Tenho princípios.
Mason passou ao lado dos dois, a postura controlada mesmo no meio do movimento dos alunos, mas havia um traço de cansaço discreto no jeito como soltou o ar antes de responder.
— Isso também é discutível.
— Hoje vocês dois estão especialmente dedicados a me destruir.
— Você resiste bem — disse Kahrir.
Adrian abriu um sorriso de canto, satisfeito com pouco.
— Finalmente um elogio.
— Não se acostuma.
Eles se acomodaram na mesa da Sonserina, perto o bastante de outros alunos para não parecerem isolados e longe o suficiente para manter aquela pequena bolha de conversa que já se formava naturalmente entre os três. O teto encantado acima deles mostrava um céu escuro e limpo, profundo como tinta azul, com poucas estrelas surgindo entre nuvens finas. A luz dourada das velas tornava o Salão Principal mais quente do que os corredores, e os pratos apareceram diante deles com um aroma rico de carne assada, batatas, legumes com ervas, pão escuro e uma torta salgada que soltava vapor em pequenas ondas.
Kahrir se serviu com calma, sentindo o corpo perceber o quanto estava cansado só depois de sentar. Não era exaustão pesada como nos dias de aula, mas um cansaço espalhado, feito de muitas pequenas atenções. O domingo tinha sido, de certo modo, um descanso; de outro, tinha provado que Hogwarts não parecia saber muito bem o que fazer com a palavra.
Mais adiante na mesa, Selene conversava com dois alunos mais velhos, o tom baixo e firme, como se qualquer coisa dita por ela já viesse com metade de uma conclusão. Marcus estava sentado não muito longe, tentando acompanhar uma discussão sobre tarefas sem parecer perdido demais. Quando viu Kahrir, Adrian e Mason juntos, lançou um olhar rápido, curioso, mas desviou logo em seguida, ainda sem coragem suficiente para se inserir numa conversa que parecia já ter regras próprias.
Mason percebeu, claro. Kahrir notou que ele percebeu antes mesmo de olhar para onde ele olhava.
— Ele quer perguntar alguma coisa — disse Mason, baixo, cortando um pedaço de batata com precisão quase ofensiva.
Adrian seguiu o olhar dele.
— Marcus? Ele sempre parece que quer perguntar alguma coisa e desistiu por educação ou medo.
— Talvez os dois — disse Kahrir.
Adrian pousou o garfo e ergueu a mão num pequeno gesto para chamar Marcus, sem fazer alarde. O garoto pareceu surpreso demais por um instante, depois pegou o próprio prato com uma rapidez meio desajeitada e se aproximou, sentando-se na beirada do espaço livre como se ainda pudesse fugir caso tivesse interpretado errado.
— Oi — disse ele, a voz baixa, tentando parecer casual e falhando só um pouco. — Vocês… passaram a tarde fora?
— Em parte — respondeu Adrian, com uma naturalidade fácil. — Foi uma mistura de passeio, sobremesa e tentativas heroicas de não investigar nada.
Marcus piscou.
— Isso foi… uma frase estranha.
— Você se acostuma — disse Mason.
Kahrir viu Marcus olhar para Mason com uma expressão que misturava respeito e leve receio, e sentiu uma vontade quase divertida de dizer que aquilo também era normal, embora talvez não ajudasse muito. Em vez disso, empurrou discretamente a jarra de suco de abóbora para mais perto dele.
— A gente só andou um pouco pelo castelo — disse ela. — Domingo parece menos confuso quando você para de tentar entender tudo.
Marcus pareceu aceitar aquilo como um conselho mais sério do que ela tinha pretendido.
— Eu me perdi indo pro corujal ontem — confessou ele, pegando a jarra. — Achei que estava no caminho certo e acabei perto de uma sala cheia de estátuas pequenas. Uma delas me mandou sair.
Adrian ficou imóvel por um segundo, depois inclinou a cabeça.
— A estátua falou?
— Falou “fora”.
Mason tomou um gole de suco, impassível.
— Pelo menos foi clara.
Kahrir riu baixo, e Marcus pareceu relaxar um pouco ao ouvir. O jantar seguiu assim por alguns minutos, com Marcus contando, agora mais solto, pequenas tragédias de primeiro ano: uma escada que o deixou no andar errado, uma armadura que espirrou poeira quando ele passou perto demais, uma tentativa fracassada de pedir orientação a um retrato que fingiu não falar inglês. Nada daquilo tinha relação com o mistério, e ainda assim ajudava a lembrar que, para outros alunos, Hogwarts também era estranha — só que de formas menores, mais comuns, menos carregadas de presságio.
Adrian ouviu com atenção genuína, rindo nos lugares certos e fazendo comentários que deixavam Marcus menos envergonhado. Mason falava pouco, mas quando falava, suas observações secas faziam o garoto hesitar meio segundo antes de perceber que eram, de algum modo, piadas. Kahrir participava com comentários leves, às vezes apenas sorrindo, às vezes completando com alguma ironia pequena, e percebeu que aquela mesa já não parecia apenas um lugar onde comia. Era começo de território conhecido. Um pedaço de Hogwarts que começava a reconhecer seu formato.
Quando os pratos principais desapareceram e as sobremesas surgiram, Adrian pareceu considerar aquilo uma recompensa pessoal pela existência do dia. Pegou um pudim com calda dourada e olhou para Kahrir com falsa solenidade.
— Agora sim. A parte séria do jantar.
— Você não tinha acabado de jantar? — perguntou Marcus, já mais confortável.
— Marcus, existe comida e existe sobremesa. São categorias morais diferentes.
Mason inclinou a cabeça para Kahrir, num murmúrio quase privado.
— Ele acredita nisso.
— Eu percebi.
— E estou certo — disse Adrian, ouvindo mesmo assim.
A noite se acomodou aos poucos sobre o salão. O volume das conversas foi mudando, menos animado e mais arrastado, como se todos começassem a lembrar que segunda-feira não era uma lenda distante. Professores conversavam na mesa principal; McGonagall parecia corrigir alguma informação dita por Flitwick com um olhar severo, enquanto Snape permanecia imóvel diante do próprio prato, sua presença escura contrastando com a luz quente das velas. Quirrell não estava visível de onde Kahrir se sentava. Ela percebeu isso por hábito, sem procurar demais. Notou a ausência, guardou a ausência e voltou ao pudim diante de si.
Adrian, claro, percebeu o movimento mínimo do olhar dela.
— Não começa — murmurou, baixo o bastante para Marcus não entender.
Kahrir pegou a colher com toda a calma do mundo.
— Eu só olhei.
— Com você, “só olhei” já é metade de um acontecimento.
Mason não ergueu os olhos do prato, mas comentou:
— Ele não está errado.
Kahrir respirou pelo nariz, segurando um sorriso.
— Vocês estão ficando muito confiantes em me interromper.
— Crescimento de grupo — disse Adrian, orgulhoso.
O jantar terminou sem nenhum acontecimento. E talvez justamente por isso a normalidade parecesse preciosa. Eles deixaram o Salão Principal junto com uma quantidade cada vez menor de alunos, atravessando corredores que agora pertenciam mais às tochas do que ao dia. Marcus se despediu perto de uma escadaria, seguindo com outros primeiros anos da Sonserina que discutiam se deveriam ou não revisar Transfiguração antes de dormir. Adrian respondeu que revisar emocionalmente contava, o que fez Marcus rir de verdade antes de desaparecer pela curva.
A descida até as masmorras trouxe de volta o frio familiar da Sonserina. O ar foi ficando mais úmido, e a luz das tochas mais esverdeada à medida que se aproximavam da entrada escondida. A pedra parecia absorver os sons, tornando os passos mais baixos e as vozes mais próximas. Quando a passagem se abriu e os três entraram na sala comunal, foram recebidos pelo brilho suave das janelas subaquáticas, onde sombras escuras se moviam além do vidro, lentas e indistintas, como se o lago também estivesse se recolhendo para a noite.
A sala comunal estava tranquila. Alguns alunos mais velhos ocupavam os sofás perto da lareira, conversando em tom baixo. Um garoto lia com o livro apoiado nos joelhos, mas parecia prestes a dormir sobre ele. O fogo crepitava baixo, lançando reflexos âmbar sobre os móveis verdes e prateados, e a água do lago filtrava uma luz fria que fazia tudo parecer ao mesmo tempo acolhedor e submerso.
Adrian se jogou numa das poltronas com menos elegância do que provavelmente deveria ser permitido dentro da Sonserina e fechou os olhos por um instante.
— Agora sim. Esse é o exato ponto do domingo em que eu finjo que amanhã não existe.
Mason sentou-se no braço de um sofá próximo, postura ainda controlada, mas menos formal, como se a sala comunal lhe permitisse soltar meio centímetro de si mesmo sem grande risco.
— Amanhã existe.
— Eu pedi fantasia, não verdade.
Kahrir ficou de pé por mais um momento, olhando a sala. O dia tinha se estendido tanto que a manhã parecia pertencer a outro lugar: o café, os terrenos frios, o tecido no arbusto, Quirrell desaparecendo, Lucien à janela, o pátio pequeno, o cheiro no corredor, tortinhas, telhados, tempestades e vaga-lumes. Tudo cabia no mesmo domingo, embora não parecesse justo que coubesse.
A varinha repousava quieta. O pingente também. Pela primeira vez em horas, nenhuma parte dela parecia puxada por alguma coisa externa. Só havia cansaço, calor de lareira, o som abafado da água além das janelas e a presença dos dois ali perto, como um tipo novo de estabilidade.
Adrian abriu um olho e olhou para ela.
— Você vai ficar aí em pé parecendo que está julgando poeticamente a arquitetura ou vem sentar?
Mason olhou para Adrian.
— “Julgando poeticamente” foi quase bom.
— Obrigado. Estou em recuperação intelectual pós-sobremesa.
A sala comunal respirava ao redor deles, calma e verde, enquanto a noite avançava sobre Hogwarts.
Kahrir olhou para Adrian por alguns segundos, ainda de pé no meio da sala comunal, com a luz esverdeada do lago desenhando sombras móveis sobre o robe e os cabelos castanho-claros caindo de lado como se também estivessem cansados do dia. A lareira estalou baixo, lançando um brilho quente que não chegava a vencer completamente a frieza subaquática das janelas, e a mistura das duas luzes fazia a sala parecer suspensa entre dois mundos: um íntimo e protegido, outro escuro e profundo, logo além do vidro.
— Eu estava julgando a arquitetura, sim — respondeu ela, caminhando até a poltrona próxima à dele. — Mas poeticamente é generosidade sua. Eu diria que era mais um julgamento cansado.
Adrian abriu os dois olhos dessa vez, com o sorriso voltando de imediato.
— Julgamento cansado é praticamente o estado natural de um aluno de Hogwarts depois da primeira semana.
— A gente nem completou a primeira semana direito — disse Mason, ainda sentado no braço do sofá, a voz calma demais para parecer correção e seca demais para não parecer provocação.
— Isso só prova meu ponto — retrucou Adrian. — Se já parece uma semana inteira, então emocionalmente conta.
Kahrir sentou-se, afundando um pouco no estofado verde-escuro, e sentiu o corpo agradecer de forma quase ofensiva. O cansaço não vinha mais em pontas, como durante o dia, mas como uma manta pesada e morna jogada sobre os ombros. Ela puxou as pernas para mais perto da poltrona, apoiando uma mão no braço de couro gasto, e deixou os olhos correrem pelo salão comunal com uma atenção mais branda. Havia alunos conversando junto à lareira, uma garota virando páginas de um livro grosso com expressão de quem lia a mesma frase pela terceira vez, dois meninos discutindo baixinho sobre pontos das casas e, perto da janela, um aluno mais velho observando as sombras do lago como se esperasse que alguma delas resolvesse lhe responder.
— Eu acho que o domingo foi bom — disse Kahrir depois de um tempo, a voz mais baixa, sem tentar convencer ninguém. — Estranho, claro. Porque aparentemente isso virou parte do pacote. Mas bom.
Adrian se ajeitou na poltrona, virando um pouco o corpo na direção dela.
— Foi bom mesmo. Tivemos passeio, doces, conversas quase normais e uma quantidade aceitável de ameaças indiretas do castelo.
— Aceitável? — perguntou Mason.
— Comparado com o restante da semana, sim.
Mason pareceu considerar isso por um instante, olhando para o fogo.
— Infelizmente, faz sentido.
Kahrir soltou um riso baixo, mas não disse nada logo em seguida. A frase dela sobre o domingo ser bom continuava ali, de algum modo. Talvez porque fosse verdade. Talvez porque, no meio de tantos sinais estranhos, aquilo importasse mais do que parecia. O castelo tinha oferecido pistas, desconfortos, cheiros que não deveriam estar onde estavam e a figura sempre deslocada de Quirrell atravessando o dia como uma mancha difícil de lavar. Ainda assim, também tinha oferecido outras coisas: Mason quase rindo, Adrian falando de telhados, Marcus se aproximando na mesa, o gosto de maçã quente e canela, o pátio pequeno onde por alguns minutos nada precisou ser resolvido.
Ela passou os dedos pelo tecido do robe, sentindo de leve a presença do pingente no bolso interno. Estava quieto. Mais do que quieto, parecia comum. E isso, vindo dele, quase soava como permissão.
Adrian acompanhou o gesto com os olhos, mas não comentou diretamente. Em vez disso, falou com uma delicadeza disfarçada de casualidade:
— Você vai levar ele amanhã?
Kahrir soube imediatamente do que ele falava. Mason também, pelo jeito como voltou o olhar para ela sem parecer surpreso.
A sala comunal ao redor continuava viva em sons pequenos: o virar de uma página, o estalo da lenha, uma risada abafada perto da escada dos dormitórios. Kahrir respirou devagar antes de responder.
— Não sei. Parte de mim acha melhor não usar. Outra parte acha idiota deixar no dormitório se ele reage quando alguma coisa está errada.
Adrian assentiu, o rosto mais sério agora, mas sem perder completamente a suavidade.
— Faz sentido. Só… não deixa ele virar uma muleta.
— Eu sei.
A resposta saiu imediata, talvez um pouco mais firme do que precisava. Adrian percebeu e ergueu uma das mãos, tranquilo.
— Eu sei que você sabe. Só estou sendo o amigo irritante que fala mesmo assim.
— Ah, isso você faz muito bem.
— Obrigado. É um dom.
Mason, que até então observava com a quietude costumeira, falou sem se inclinar para frente, como se a ideia já estivesse ali havia algum tempo e apenas tivesse encontrado espaço.
— Levar não significa usar.
Kahrir virou o rosto para ele.
— Você acha que devo levar?
— Acho que esconder uma coisa útil de si mesma só para provar que não depende dela é uma forma estranha de depender dela também.
Adrian olhou para Mason com uma expressão de quem tinha sido pessoalmente ofendido pela eficiência da frase.
— Eu odeio quando você diz algo muito sensato em tão poucas palavras.
— Economiza tempo.
— Economiza humildade também, aparentemente.
Kahrir ficou olhando para Mason por um instante, deixando a frase dele assentar. Não era conselho com peso de ordem, nem tentativa de decidir por ela. Era só uma observação. E, como quase sempre acontecia com ele, a observação tinha uma forma incômoda de acertar o centro sem fazer barulho.
— Então eu levo — disse ela, por fim. — Mas guardado. Se tiver que usar, eu uso. Se não tiver, ele fica quieto.
— Plano surpreendentemente razoável — disse Adrian.
— Obrigada pela aprovação emocionada.
— Estou tentando ser contido. Mason é uma influência terrível.
Mason apenas ergueu uma sobrancelha, e Kahrir sorriu, sentindo a conversa voltar ao lugar mais leve por conta própria. O fogo da lareira estalou mais alto por um segundo, lançando uma chuva breve de faíscas douradas que desapareceram antes de tocar o tapete. Do lado de fora das janelas, uma sombra grande passou lentamente pelo lago negro, distante e indistinta demais para ser identificada. Nenhum aluno na sala pareceu se importar. Talvez, em Sonserina, até as sombras do lago precisassem fazer algo mais dramático para conquistar atenção.
O tempo foi se alongando sem que nenhum dos três se apressasse para preenchê-lo. Adrian acabou falando de uma partida de quadribol que ouvira alunos mais velhos comentarem, Mason corrigiu um detalhe de regra com uma precisão que fez Adrian acusá-lo de secretamente gostar do esporte, e Kahrir escutou os dois com a sensação confortável de estar assistindo a uma discussão que não precisava dela para existir, mas que ainda a incluía naturalmente. De vez em quando, alguém da Sonserina passava por perto e cumprimentava com um aceno curto; Selene atravessou a sala em direção aos dormitórios, lançou a Kahrir um olhar que parecia avaliar o dia inteiro em menos de um segundo e disse apenas:
— Amanhã começa cedo. Não subestime segunda-feira.
Adrian esperou ela se afastar antes de murmurar:
— Eu não sabia que era possível ameaçar alguém com um dia da semana.
— Ela conseguiu — disse Kahrir.
— Com eficiência — acrescentou Mason.
A sala comunal foi esvaziando devagar. Os alunos mais novos subiram primeiro, vencidos pelo cansaço antes de admitir qualquer derrota. Alguns mais velhos permaneceram junto à lareira, mas até suas vozes ficaram mais baixas, mais arrastadas. A noite nas masmorras tinha um jeito próprio de se aprofundar; o lago além das janelas escurecia ainda mais, e a luz verde se tornava quase líquida sobre as paredes, deixando as bordas dos móveis suaves, como se tudo ali estivesse submerso em sonho.
Kahrir sentiu as pálpebras pesarem. Não de repente, nem como queda brusca, mas como uma conclusão natural. O domingo tinha se estendido até onde podia. Havia coisas guardadas para lembrar, perguntas que não tinham resposta, uma segunda-feira esperando logo depois do sono. Mas, pela primeira vez em dias, ela não sentiu vontade de organizar tudo antes de dormir.
Adrian percebeu antes dela dizer qualquer coisa. Ele se levantou da poltrona com um esforço dramático demais para alguém de onze anos.
— Certo. Antes que eu durma aqui e acorde sendo julgado por metade da Sonserina, vou subir.
— Você já é julgado acordado — disse Mason.
— Exatamente. Dormindo seria injusto, eu não poderia me defender.
Kahrir se levantou também, sentindo o frio da sala voltar um pouco quando se afastou da lareira.
— Boa noite, então.
Adrian olhou para ela, e o sorriso dele perdeu a brincadeira por um instante, ficando simples.
— Boa noite, Kahrir. Nada de passeio noturno hoje, por favor.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Você vai me vigiar?
— Eu consideraria, mas gosto muito de dormir.
— Muito nobre da sua parte.
Mason se levantou por último, ajustando a manga do robe com um gesto breve.
— Se acordar e o castelo parecer estranho, ignore por pelo menos dez minutos.
Adrian olhou para ele.
— Esse foi seu conselho de segurança?
— É melhor que sair andando.
Kahrir soltou um riso baixo, mas sentiu que o conselho ficaria. Dez minutos. O suficiente para distinguir instinto de impulso. O suficiente para não deixar Hogwarts decidir tudo por ela.
Eles se separaram junto à escada dos dormitórios. Adrian subiu para o lado dos meninos com um último aceno preguiçoso; Mason foi logo depois, mais silencioso, desaparecendo na curva sem pressa. Kahrir seguiu para o dormitório das meninas, onde a luz era baixa e suave, refletida em tons verdes pelas janelas subaquáticas. Algumas colegas já dormiam ou cochichavam quase sem som. O ar cheirava a tecido limpo, pedra fria e ao leve perfume herbal de alguma poção de sono que alguém devia ter aberto cedo demais.
Ela trocou de roupa com movimentos lentos, guardou a varinha com cuidado ao alcance da mão e deixou o pingente junto dela, não no baú, mas sob o travesseiro, onde sua presença parecia menos uma escolha grandiosa e mais uma precaução discreta. Por um momento, os dedos ficaram pousados sobre o tecido, sentindo o contorno pequeno e firme do objeto. Nenhuma reação. Nenhum calor. Nenhum chamado.
Só silêncio.
Kahrir se deitou, e o colchão cedeu de leve sob o peso do corpo cansado. A luz verde do lago se movia devagar pelo teto, como se a água lá fora sonhasse primeiro. Ela pensou no cheiro do corredor, no pano preso ao galho, em Quirrell atravessando os terrenos, em Lucien dizendo meias coisas, em Adrian rindo com torta de maçã, em Mason falando de tempestades. Tudo passou pela mente sem se prender tempo demais, como páginas viradas por uma mão sonolenta.
Do lado de fora do dormitório, Hogwarts continuava viva em seus ruídos baixos: pedra acomodando frio, água roçando vidro, passos distantes demais para importar. A noite avançou com paciência antiga, cobrindo corredores, escadas, retratos e segredos com o mesmo manto escuro.
E, pela primeira vez desde que chegara, Kahrir dormiu com a sensação de que não precisava entender tudo antes do amanhecer.
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