A segunda-feira chegou sem cerimônia, como se Hogwarts achasse perfeitamente razoável empurrar todos de volta à rotina depois de um domingo que tinha sido, ao mesmo tempo, descanso, passeio, quase-investigação e uma sucessão de pequenas coisas que Kahrir preferia não chamar de pistas ainda. A luz da manhã entrou fraca pelas janelas submersas do dormitório da Sonserina, filtrada pelo lago negro em faixas verdes e ondulantes que se moviam devagar pelo teto de pedra. O quarto estava frio daquele jeito úmido das masmorras, e o som abafado da água além do vidro misturava-se ao farfalhar baixo de cortinas sendo abertas, baús sendo remexidos e alguém resmungando baixinho porque não encontrava uma meia.

Kahrir abriu os olhos antes de se mover. Por alguns segundos, ficou apenas olhando o teto, acompanhando a sombra líquida que passava de um lado a outro como se a manhã ainda não tivesse decidido se queria ser real. O domingo voltou aos poucos, não como susto, mas como lembrança organizada em pedaços: o tecido claro preso ao arbusto, Quirrell atravessando os terrenos com pressa, Lucien à janela, a bruxa do retrato admitindo menos do que sabia, o cheiro seco e metálico no corredor, e depois, por cima de tudo isso, Adrian falando de telhados, Mason falando de tempestades, o gosto quente de maçã e canela, a sala comunal verde e silenciosa no fim da noite.

Debaixo do travesseiro, o pingente continuava quieto.

Ela passou a mão até encontrá-lo pelo tecido, sentindo o contorno frio e firme contra os dedos. Nenhum calor. Nenhum aviso. Nenhuma daquelas respostas estranhas que pareciam surgir justamente quando ela começava a achar que podia ignorar tudo. Aquilo deveria ser tranquilizador. Em parte, era. Mas também fazia Hogwarts parecer ainda menos previsível, porque o castelo tinha o péssimo hábito de não avisar quando estava prestes a deixar de ser normal.

Kahrir se sentou na cama devagar, afastando os cabelos castanho-claros para o lado. O ar gelado tocou sua pele parda oliva com uma pontada fina, e ela puxou o robe para perto antes de abrir completamente as cortinas. As outras meninas do dormitório se moviam com a sonolência própria de uma segunda-feira: uma delas tentava prender o cabelo enquanto bocejava, outra folheava um livro de Feitiços com a expressão desesperada de quem lembrara de alguma tarefa tarde demais, e, perto da janela, uma aluna menor observava as sombras do lago como se esperasse que alguma criatura aparecesse só para justificar seu atraso.

Em seguida, guardou o pingente no bolso interno do robe, não como quem tomava uma grande decisão, mas como quem aceitava uma precaução discreta. Levar não significava usar. Mason tinha dito isso na noite anterior, e a frase continuava fazendo sentido mesmo com o desconforto irritante de toda coisa muito sensata. A varinha foi colocada no lugar habitual, ao alcance da mão, e dessa vez ela percebeu com mais clareza a diferença entre as duas presenças: a varinha parecia extensão, familiar e exigente; o pingente parecia companhia silenciosa, menos íntima, mas estranhamente atento.

O salão comunal estava mais cheio quando Kahrir desceu. Segunda-feira havia arrancado a Sonserina de sua letargia dominical e devolvido a todos aquele ar de eficiência contrariada. Alunos mais velhos atravessavam a sala com livros empilhados contra o peito, alguns primeiros anos tentavam conferir horários de aula em pergaminhos amassados, e perto da lareira apagada um garoto discutia com outro sobre qual escadaria evitar para não acabar no quarto andar. A luz do lago entrava pelas janelas em tons mais frios, e as sombras além do vidro pareciam mais fundas do que na noite anterior, como se até a água estivesse de mau humor.

Adrian estava encostado no braço de uma poltrona, segurando um livro fechado como se aquilo bastasse para provar alguma intenção acadêmica. O cabelo castanho-escuro parecia ter travado uma batalha breve e perdido com dignidade, e os olhos avelã ainda tinham um resto de sono que ele tentava compensar com expressão dramática. Mason estava ao lado dele, já arrumado demais para aquela hora, com o cabelo loiro acinzentado alinhado de um jeito que fazia a manhã parecer pessoalmente injusta com todos os outros.

— Bom dia — disse Adrian quando viu Kahrir se aproximar. — Ou o mais próximo disso que uma segunda-feira permite.

— Você já reclamou antes do café? — perguntou ela, ajeitando a alça da bolsa no ombro.

— Estou aquecendo. Não quero forçar a voz cedo demais.

Mason olhou para ele de lado.

— Admirável compromisso com o absurdo.

— Obrigado. Eu treino.

Kahrir sorriu, e o simples fato de conseguir sorrir tão cedo, antes mesmo do café da manhã, já dizia algo sobre o quanto os dois começavam a fazer parte do modo como Hogwarts se tornava suportável. O domingo não tinha apagado o mistério, mas havia deixado alguma coisa mais firme no lugar. O trio não parecia mais uma coincidência repetida. Parecia uma escolha que ainda não tinha sido dita em voz alta.

Eles seguiram para o Salão Principal junto com o fluxo dos alunos, subindo das masmorras para corredores cada vez mais claros. A diferença entre a Sonserina e os andares superiores parecia maior nas manhãs: lá embaixo, a escola era água, pedra fria e ecos contidos; mais acima, tornava-se tochas, janelas altas, vozes se cruzando e cheiro de pão vindo de longe. As escadas estavam especialmente temperamentais, e Adrian teve de parar no meio de uma delas quando ela se deslocou com todos ainda em cima, levando-os para um patamar que nenhum dos três pretendia visitar.

— Eu gostaria de registrar uma reclamação formal — disse ele, segurando o corrimão com uma mão e o livro com a outra. — Isso é sequestro arquitetônico.

Kahrir olhou para o corredor inesperado diante deles, onde um retrato de um cavaleiro de bigode enorme os encarava como se fossem invasores de péssima qualidade.

— Pelo menos não parece perigoso.

— Você acabou de amaldiçoar a frase.

Mason desceu do último degrau com a calma de quem já tinha aceitado que Hogwarts fazia esse tipo de coisa porque podia.

— O Salão Principal fica dois corredores à direita daqui. Se a escada não mudar de ideia de novo.

Adrian virou-se para ele.

— Você sabe isso como?

— Já errei antes.

— Isso é estranhamente reconfortante.

— Não devia ser.

O desvio acabou não custando muito tempo, e quando chegaram ao Salão Principal o céu encantado acima das mesas mostrava uma manhã de outono limpa, mas fria, com nuvens finas correndo depressa demais para prometer bom tempo duradouro. A luz caía sobre os pratos e jarras em reflexos dourados, e o cheiro de torradas, mingau, ovos e chá quente parecia ter sido criado especificamente para convencer alunos de onze anos de que talvez valesse a pena continuar vivos até a primeira aula.

Kahrir sentou-se entre Adrian e Mason, pegando uma fatia de pão ainda quente. O ruído do salão era mais alto do que no domingo, cheio de pressa, garfos batendo, páginas sendo viradas em cima de pratos e alunos lembrando de trabalhos esquecidos com expressões cada vez mais trágicas. Na mesa dos professores, McGonagall conversava com Flitwick sobre algo que envolvia muitos gestos pequenos do professor de Feitiços; Snape permanecia curvado sobre uma xícara, severo como uma sentença; e Quirrell estava em seu lugar, mexendo o chá com movimentos curtos, quase nervosos.

Kahrir percebeu antes de querer perceber.

Ele não parecia diferente à primeira vista. O turbante continuava bem ajustado, as vestes estavam fechadas até o pescoço, e o rosto tinha aquele ar pálido e cansado que talvez muitos professores tivessem numa segunda-feira, se a maioria deles não parecesse mais inteira do que ele em qualquer circunstância. Mas havia um detalhe: a mão esquerda dele permanecia fechada sobre a manga direita, apertando o tecido perto do pulso. Não era um gesto dramático. Não chamaria a atenção de ninguém que não tivesse passado os últimos dias aprendendo, contra a própria vontade, a notar coisas pequenas demais.

Adrian percebeu o olhar dela e seguiu a direção com cuidado. Não fez comentário de imediato. Pegou a jarra de suco de abóbora e serviu um copo como se aquilo fosse a coisa mais importante da manhã, mas falou baixo enquanto empurrava o copo para perto dela.

— Pulso?

Kahrir não se surpreendeu por ele ter visto. Na verdade, isso a atingiu de forma diferente: Adrian estava aprendendo a olhar.

— Acho que sim — respondeu, também baixo.

Mason, do outro lado, cortou uma fatia de pão com tranquilidade.

— Manga direita.

Adrian olhou para ele.

— Claro. Você viu também.

— Difícil não ver depois de ontem.

Kahrir manteve os olhos no prato, embora a atenção continuasse na mesa dos professores. Quirrell levou a xícara à boca, mas antes de beber olhou rapidamente para o lado, na direção de Snape. Snape não parecia estar olhando para ele. Ainda assim, Quirrell baixou a xícara sem beber e deixou a mão fechada outra vez sobre a manga.

A sensação não veio como arrepio dessa vez. Veio mais discreta, mais adulta em sua irritação: o incômodo de uma coisa que se repete com variação suficiente para não poder ser descartada. O cheiro não estava ali, pelo menos não que ela conseguisse sentir no meio do café da manhã. O pingente não reagia. A varinha permanecia quieta. Mas Quirrell, mesmo parado, parecia fora do lugar dentro da própria pele.

— Nada de seguir professor — murmurou Adrian, antecipando sem olhar para ela. — Só pra manter a tradição saudável.

Kahrir passou geleia no pão com uma calma cuidadosamente exagerada.

— Eu estou comendo.

— Isso nunca me tranquilizou totalmente.

Mason tomou um gole de chá.

— Hoje tem Defesa?

Kahrir puxou o horário da bolsa e abriu sobre a mesa, tomando cuidado para não enfiá-lo na manteiga. Segunda-feira começava com Transfiguração, depois Herbologia, almoço, e à tarde Feitiços. Defesa Contra as Artes das Trevas só voltaria no dia seguinte. Por algum motivo, saber disso a aliviou e a incomodou ao mesmo tempo.

— Não — disse ela. — Só amanhã.

Adrian soltou o ar como se tivesse vencido uma batalha pequena.

— Excelente. Um dia inteiro sem Quirrell em sala fechada. Eu considero isso progresso.

— Ele ainda existe nos corredores — disse Mason.

— Você tem um talento muito específico para estragar vitórias modestas.

O café da manhã continuou ao redor deles, e Kahrir se obrigou a terminar a comida antes de olhar de novo para a mesa dos professores. Quando olhou, Quirrell já não estava segurando a manga. A mão direita repousava sobre a mesa, pálida e imóvel, e, por um instante breve, quando ele se inclinou para pegar uma torrada, a manga escorregou só um pouco.

Havia uma linha escura no tecido interno.

Não pele. Não ferida à vista. Apenas um traço, como costura, sombra ou sujeira seca junto ao punho. Quirrell puxou a manga de volta rápido demais.

Kahrir não disse nada. Não ainda.

Adrian viu, porque o rosto dele perdeu por meio segundo o humor.

Mason também viu, porque Mason sempre via.

E então o sino tocou, espalhando pelo salão aquele movimento brusco de alunos levantando, bancos rangendo e livros sendo recolhidos às pressas. Quirrell também se levantou, mas saiu por trás da mesa dos professores antes que a massa de estudantes começasse a se mover de verdade, desaparecendo por uma porta lateral com a mesma pressa contida do dia anterior.

Adrian fechou o livro que nem tinha aberto.

— Eu sei — disse, antes que qualquer um falasse. — Não seguir. Estou só dizendo que, se ele continuar fazendo isso, vou começar a levar para o lado pessoal.

Kahrir guardou o horário na bolsa e se levantou, sentindo o peso familiar da varinha e, mais escondido, o pingente quieto junto ao corpo.

— A aula é de Transfiguração — disse ela. — McGonagall provavelmente transforma a gente em pedra se atrasar.

— Isso foi uma piada ou uma previsão?

— Com ela, prefiro não testar.

Mason já estava de pé, organizando os livros com movimentos precisos.

— Vamos.

Eles saíram do Salão Principal junto com os outros primeiros anos, entrando na corrente de alunos que subia as escadas em direção às salas de aula. A manhã parecia ter recuperado sua forma normal: passos rápidos, vozes, penas caindo de bolsas, um aluno da Grifinória reclamando que seu sapo tinha sumido outra vez. Ainda assim, a imagem da manga de Quirrell ficou com Kahrir, pequena e persistente, como o cheiro no corredor no dia anterior.

Não era uma resposta.

Mas também não era nada.

A sala de Transfiguração recebeu os alunos com a mesma severidade limpa da professora McGonagall. Havia luz fria entrando pelas janelas altas, fileiras de carteiras organizadas com precisão, e um quadro coberto por instruções que pareciam, só de serem lidas, capazes de reprovar alguém. Sobre cada mesa repousava uma pequena caixa de fósforos. McGonagall caminhava entre as fileiras com postura impecável, as vestes verde-escuras movendo-se quase sem som, e o olhar dela parecia detectar conversas antes mesmo que acontecessem.

— Hoje — disse ela, assim que todos se sentaram — continuaremos o exercício de conversão de objetos simples. Desta vez, espero menos entusiasmo e mais método.

Adrian inclinou-se minimamente na direção de Kahrir.

— Acho que isso foi direcionado a mim sem ela saber meu nome.

— Ela sabe seu nome — murmurou Kahrir.

— Isso é pior.

McGonagall virou o rosto na direção deles sem pressa.

— Sr. Rowle, se sua confiança acompanha sua disposição para comentários, espero ótimos resultados.

Adrian endireitou-se tão rápido que Mason quase sorriu.

— Sim, professora.

Kahrir mordeu o canto interno da boca para não rir. A aula começou com uma explicação clara, precisa e implacável sobre intenção, forma e resistência material. Kahrir gostava das aulas de McGonagall por uma razão que ainda não tinha dito em voz alta: a professora não deixava muito espaço para enrolação. Não havia teatralidade, nem mistério desnecessário, nem tentativa de parecer mais obscura do que era. Se algo dava errado, dava errado por um motivo. E, depois da semana que tivera, motivos eram quase um luxo.

Ela apoiou a varinha entre os dedos e olhou para a caixa de fósforos à sua frente. A tarefa era transformar parcialmente a madeira em uma fina tira metálica, mantendo o formato original. Não era difícil de entender. Difícil era fazer sem exagerar. A varinha de faia parecia responder ao foco dela antes mesmo do movimento, exigente como sempre, esperando clareza.

Kahrir respirou devagar, deixou a imagem se formar na mente — não uma caixa virando metal de uma vez, mas a textura mudando, a rigidez cedendo, a superfície adquirindo brilho — e pronunciou o encantamento com cuidado. A ponta da varinha aqueceu de leve. A caixa tremeu, as bordas escureceram por um segundo e então uma faixa fina, limpa e prateada surgiu ao longo de um dos lados, perfeita o bastante para refletir a luz da janela.

McGonagall passou por sua mesa alguns instantes depois. Olhou o resultado, depois Kahrir.

— Bom controle, Srta. Valmont. Menos força do que na última tentativa. Melhor.

O elogio foi curto, quase seco, e por isso mesmo pareceu valer mais. Kahrir assentiu, sentindo um calor breve no peito que nada tinha a ver com o pingente. Ao lado, Adrian olhou para a própria caixa, que agora tinha um canto metálico torto e o restante levemente chamuscado.

— Minha caixa está passando por uma fase difícil — murmurou.

— Ela parece ter sofrido pressão emocional — disse Kahrir.

Mason, do outro lado, examinou a dele: uma conversão quase completa, mas tão rígida que a tampa não abria mais.

— A minha virou um problema diferente.

Adrian olhou.

— A sua virou um cofre.

— Pelo menos é estável.

— Isso foi uma indireta para minha caixa?

— Foi direta.

Kahrir riu baixo, e McGonagall olhou de novo na direção deles. Os três voltaram a se concentrar com uma rapidez quase cômica.

A aula seguiu sem grandes incidentes, o que, em Hogwarts, já parecia uma espécie de presente. Adrian melhorou quando parou de tentar imitar o gesto exato de Kahrir e fez do jeito dele, mais fluido, menos preso ao resultado; Mason produziu uma segunda tentativa impecável demais para alguém que alegava estar apenas “ajustando”; e Kahrir sentiu, pela primeira vez desde que encontrara o pingente, que a própria magia podia se manter limpa sem precisar de qualquer ajuda externa. O objeto no bolso não se moveu. A varinha bastava.

Quando saíram para o corredor, a manhã já tinha perdido parte do frio inicial. A próxima aula era Herbologia, e o caminho até as estufas exigia atravessar parte dos terrenos, onde o vento de setembro vinha mais claro e o cheiro de terra úmida chegava antes mesmo das portas.

Adrian caminhava ao lado dela, olhando para a bolsa como se temesse que a caixa de fósforos deformada tivesse adquirido ressentimento.

— Eu acho que minha vocação não é transformar coisas.

— Sua vocação é conversar com elas até aceitarem mudar — disse Kahrir.

— Isso parece mais meu estilo.

Mason guardou a própria caixa convertida com cuidado.

— Talvez funcione melhor que força.

Adrian apontou para ele.

— Isso foi quase encorajador. Estou emocionado.

Kahrir estava prestes a responder quando, ao virarem o corredor que dava para uma saída lateral, um cheiro muito fraco passou por eles.

Seco.

Fino.

Quase metálico.

Não vinha forte como no pátio. Era apenas um traço preso ao ar, atravessado rapidamente pelo movimento dos alunos que seguiam para fora. Kahrir sentiu antes de decidir sentir. Adrian percebeu sua mudança de expressão antes de perceber o cheiro. Mason percebeu os dois.

Mas dessa vez havia mais gente. Alunos da Corvinal, Lufa-Lufa, alguns da Grifinória, todos indo na mesma direção, falando, rindo, reclamando do frio. Nada parecia fora do lugar. Nada, exceto uma pequena linha de tecido claro presa por um instante no fecho da porta lateral, balançando quase imperceptivelmente antes de ser arrancada pelo vento e cair do lado de fora, nos degraus de pedra.

Kahrir olhou para o tecido.

Adrian olhou para Kahrir.

Mason olhou para o corredor atrás deles, onde nenhum professor estava à vista.

O fluxo de alunos continuou passando, empurrando-os gentilmente para a saída, para a luz fria da manhã, para a aula de Herbologia que não esperaria por nenhum mistério pequeno demais para justificar atraso.

E, pela primeira vez naquele dia, o pingente no bolso de Kahrir esquentou apenas o suficiente para que ela soubesse que não tinha imaginado.

Kahrir sentiu o calor discreto do pingente antes mesmo de registrar plenamente o pedaço de tecido nos degraus. Não foi um chamado forte, nem aquele tipo de resposta que parecia querer empurrá-la para frente; foi mais como quando alguém toca seu braço no meio de uma conversa para dizer, sem palavras, que aquilo importava. A sensação atravessou o tecido do robe, breve e controlada, e desapareceu quase no mesmo instante, deixando para trás apenas a certeza incômoda de que o rastro não estava ali por acaso.

Os alunos continuavam passando ao redor deles, descendo os degraus para o lado de fora, reclamando do vento, segurando livros contra o peito, falando sobre a aula de Herbologia como se o mundo não tivesse acabado de deixar mais um fio solto preso na porta. A manhã fria de setembro entrava pelo vão aberto com cheiro de terra úmida e grama recém-pisada, misturada àquele traço seco e metálico que agora parecia fino demais para ser notado por qualquer um que não estivesse procurando. Kahrir não se abaixou de imediato; apenas acompanhou com os olhos o tecido claro caído no degrau, pequeno e irregular, quase igual ao que tinham visto no arbusto, mas com uma borda mais escura, como se tivesse sido esfregado contra alguma coisa suja ou antiga.

Adrian ficou ao lado dela, perto o suficiente para que sua voz não precisasse atravessar o corredor.

— Eu vou assumir que o seu bolso acabou de fazer alguma coisa — murmurou ele, sem olhar diretamente para o pingente.

Kahrir lançou-lhe um olhar de canto.

— Você está ficando muito bom em perceber o que eu preferia fingir que não aconteceu.

— Obrigado. É o trauma se transformando em habilidade.

Mason, que estava alguns passos mais atrás para não ser empurrado pelo fluxo dos alunos, olhou rapidamente para a porta, depois para o corredor de onde tinham vindo. O rosto dele continuava controlado, mas havia algo mais atento no jeito como os olhos claros mediam a distância entre a porta lateral, os degraus e o interior do castelo.

— Se a gente parar aqui, vai chamar atenção — disse ele, baixo. — E vai se atrasar.

A observação era prática o bastante para cortar o impulso antes que ele crescesse. Kahrir sabia que ele tinha razão. A porta estava movimentada demais, e a professora Sprout não parecia o tipo de pessoa que aceitaria “havia um fragmento de tecido suspeito no degrau” como justificativa elegante para atraso, mesmo que talvez fosse mais compreensiva do que McGonagall. Ainda assim, deixar aquilo ali parecia errado de um jeito irritante, como ver uma palavra importante escrita na margem de uma página e ser obrigada a virar antes de terminar de ler.

Ela respirou devagar e se abaixou apenas o suficiente para ajustar a tira do sapato, usando o movimento comum como desculpa. Com dois dedos, pegou o fragmento antes que outro aluno pisasse nele e o dobrou na palma da mão, pequeno demais para chamar atenção. O tecido estava frio, úmido nas bordas por causa do ar de fora, mas o centro parecia seco de um jeito estranho, quase áspero, como se repelisse parte da umidade. O cheiro veio mais nítido por um segundo, fino e desagradável, lembrando metal guardado, pano antigo e alguma coisa vagamente amarga que ela não conseguiu nomear.

Adrian percebeu o gesto e se adiantou meio passo, abrindo passagem com naturalidade entre dois alunos da Corvinal que discutiam onde ficava a Estufa Três. Mason acompanhou do outro lado, sem parecer escoltá-la, embora fosse exatamente isso que estivesse fazendo. Era curioso como os dois conseguiam agora se ajustar a ela sem transformar aquilo em cena; Adrian desviava o mundo com conversa e presença, Mason reduzia a margem de erro apenas ficando no lugar certo.

Do lado de fora, o vento atingiu os três com força suficiente para fazer Kahrir puxar o cachecol verde e prata para mais perto do pescoço. O céu estava claro, mas de um claro frio, com nuvens finas correndo depressa acima das torres. O gramado de Hogwarts brilhava em alguns pontos pela umidade da manhã, e as estufas, mais adiante, soltavam reflexos opacos de vidro molhado. O caminho até Herbologia estava cheio de alunos de primeiro ano, alguns pisando em poças pequenas com reclamações dramáticas, outros rindo de qualquer coisa sem muita necessidade. A rotina tinha uma capacidade irritante de continuar mesmo quando havia algo apertado na mão de Kahrir dizendo que não deveria.

— Você pegou? — perguntou Adrian, caminhando ao lado dela, o cabelo castanho-escuro sendo empurrado pelo vento para todos os lados possíveis.

— Peguei.

— Ótimo. Péssimo. Não sei ainda.

Mason olhou para a mão fechada dela, depois para o caminho à frente.

— Guarda. Não abre aqui.

— Eu não ia abrir aqui — disse Kahrir, embora tivesse pensado exatamente nisso por meio segundo.

Adrian soltou um som baixo, quase divertido.

— Sua cara diz outra coisa.

— Minha cara está sendo muito traidora hoje.

— Hoje?

Ela virou o rosto para ele com uma expressão seca o bastante para fazê-lo sorrir antes mesmo de terminar a provocação. Apesar disso, Kahrir guardou o fragmento no bolso interno, do lado oposto ao pingente. Quando o tecido passou perto do objeto, o pingente aqueceu de novo, mais curto ainda, quase como uma recusa. Não forte o bastante para doer. Só o bastante para tornar impossível ignorar que os dois se reconheciam de alguma forma.

Kahrir não falou nada naquele momento. Mas Adrian viu, porque Adrian estava olhando para ela; Mason viu, porque Mason via coisas mesmo quando não parecia estar olhando.

— Depois — disse Mason, antes que qualquer um perguntasse.

Kahrir assentiu uma vez, pequena, e continuaram andando.

A Estufa Três os recebeu com uma baforada de calor úmido e cheiro denso de terra, folhas esmagadas, raízes e adubo mágico. Depois do vento frio dos terrenos, o ar ali dentro parecia quase espesso, grudando na pele e embaçando por um instante as janelas de vidro. Fileiras de bancadas estavam cobertas por vasos fundos, ferramentas pequenas e plantas de folhas largas que tremiam sem que ninguém tocasse nelas. Algumas emitiam pequenos estalos, outras exalavam perfumes variados, indo de hortelã fresca a algo perigosamente parecido com meias molhadas.

A professora Sprout já estava no centro da estufa, com terra nas luvas e um sorriso animado demais para uma segunda-feira de manhã.

— Muito bem, primeiro ano, entrem, entrem, nada de bloquear a porta! Hoje vamos trabalhar com Bulbos-de-Eco jovens, e eu recomendo fortemente que ninguém grite perto deles, a menos que deseje ouvir sua própria voz repetida por meia hora.

Adrian, que tinha acabado de abrir a boca, fechou-a com uma rapidez quase comovente.

Kahrir olhou para ele.

— Sábia decisão.

— Eu estou crescendo como pessoa.

Mason pegou um par de luvas da bancada.

— Por medo.

— Crescimento ainda assim.

A aula começou com uma explicação prática sobre como soltar a terra ao redor dos bulbos sem danificar as raízes sensíveis. Os Bulbos-de-Eco pareciam cebolas grandes demais, de casca arroxeada e pequenas aberturas laterais que vibravam quando alguém falava alto. A professora Sprout demonstrou o movimento correto com uma naturalidade calorosa, sem a rigidez de McGonagall nem o peso cortante de Snape. Havia algo nela que fazia até uma planta potencialmente irritante parecer tratável, como se todo problema pudesse ser resolvido com luvas, paciência e a quantidade certa de terra úmida.

Kahrir gostava de Herbologia de um jeito diferente das outras matérias. Ali, a magia parecia menos uma ordem lançada ao mundo e mais uma negociação com alguma coisa viva. Ela enfiou os dedos enluvados na terra do vaso, sentindo a resistência macia ao redor do bulbo, e começou a soltar as raízes com cuidado. A planta vibrou quando Adrian murmurou uma reclamação muito baixa sobre o calor, repetindo em seguida, numa voz fina e vegetal, “calor, calor, calor”, até Mason olhar para ele como se aquilo confirmasse uma tese antiga.

— Eu falei baixo — disse Adrian, indignado.

— A planta discordou — respondeu Kahrir.

O Bulbo-de-Eco dela permaneceu quieto quando ela tocou a terra. Não por obediência, mas por falta de susto. Kahrir trabalhou sem pressa, afastando a camada superior, percebendo onde as raízes se prendiam com mais firmeza. Havia uma lógica silenciosa naquilo, uma resposta que vinha pelos dedos antes da cabeça. A planta parecia menos resistente quando ela não tentava puxar, apenas abrir espaço.

A professora Sprout passou por trás deles e se inclinou para observar.

— Muito bom, Srta. Valmont. Você está deixando ele se soltar em vez de arrancá-lo. Bulbos-de-Eco não gostam de ser apressados.

— Acho que poucas coisas gostam — respondeu Kahrir, antes de perceber que tinha falado.

Sprout deu uma risada satisfeita.

— Inteligente e correto. Duas qualidades raras antes do almoço.

Adrian esperou a professora se afastar para murmurar:

— Eu gostei dela. Ela elogia como se estivesse oferecendo sopa.

— Isso foi estranhamente específico — disse Kahrir.

— Eu sinto conforto em sopa.

Mason, que removia o próprio bulbo com uma precisão impecável, comentou:

— Isso explica menos do que você imagina.

A aula seguiu com uma calma que quase conseguiu convencer Kahrir de que a manhã havia voltado ao eixo. Quase. Porque, em certos momentos, ao mover o braço, ela sentia no bolso interno o pequeno volume do tecido guardado. E, toda vez que se lembrava dele, o cheiro parecia voltar por dentro da memória, misturado agora ao calor úmido da estufa. Era desagradável de um jeito discreto. Não estragava tudo. Apenas se recusava a desaparecer.

No fim da aula, quando todos estavam limpando as ferramentas e tentando remover terra das mangas, um dos Bulbos-de-Eco da bancada mais próxima começou a repetir, muito baixo, uma palavra que ninguém ali tinha dito nos últimos minutos.

— Frio… frio… frio…

A voz vegetal era fina, abafada, quase ridícula, e por isso demorou um segundo para que Kahrir percebesse que não combinava com a estufa quente. Adrian também percebeu, erguendo o rosto. Mason parou de limpar a pá pequena.

A professora Sprout franziu a testa e se aproximou do vaso.

— Ora, ora, o que foi que você ouviu?

O bulbo tremeu de leve, como se a própria pergunta o incomodasse, e repetiu outra vez:

— Frio… pano… frio…

Alguns alunos riram, achando graça da voz da planta. A professora Sprout não riu, mas também não pareceu alarmada. Apenas tocou a casca arroxeada do bulbo com cuidado e murmurou algo reconfortante, como quem acalma um animal pequeno.

Kahrir sentiu o pingente aquecer outra vez.

Dessa vez, Adrian não precisou perguntar. A expressão dele mudou o suficiente para dizer que tinha entendido. Mason olhou para o bolso dela apenas por um instante e depois desviou, como se não quisesse chamar atenção.

— Ferramentas guardadas, por favor — disse Sprout, ainda com a mão sobre o bulbo. — Eles às vezes repetem restos de som trazidos pelo vento. Nada de extraordinário, embora eu admita que sejam criaturas bastante dramáticas quando querem.

A turma aceitou a explicação com facilidade. Era uma explicação boa. Simples. Possível. E talvez até verdadeira.

Mas Kahrir sabia que o vento tinha passado pela porta lateral antes da aula.

E sabia o que tinha encontrado ali.

Enquanto os alunos começavam a sair para o caminho de volta ao castelo, o Bulbo-de-Eco, agora quase quieto, vibrou mais uma vez e soltou uma última repetição tão baixa que talvez só os três, próximos à bancada, tenham escutado.

— Esconde… esconde…

Adrian ficou imóvel por meio segundo, depois pegou sua bolsa devagar, sem olhar diretamente para a planta.

— Eu realmente sinto falta de quando plantas só eram plantas — murmurou.

Mason passou por ele, a voz baixa o bastante para não alcançar os outros.

— Em Hogwarts?

— Justo. Péssimo ponto meu.

Kahrir saiu da estufa com os dois, levando consigo o calor úmido nas mãos, o cheiro de terra no robe e o pequeno fragmento de tecido guardado no bolso, agora parecendo muito maior do que era. Lá fora, o vento frio bateu de novo no rosto dela, e o contraste fez o ar parecer mais limpo, mais cortante. Os outros alunos seguiram adiante, rindo, reclamando de sujeira, falando sobre o almoço.

O castelo os esperava ao alto, antigo e imóvel sob o céu claro de setembro.

E, no bolso de Kahrir, o pingente permaneceu morno por alguns segundos a mais antes de se apagar outra vez.

O vento frio do lado de fora pareceu limpar a pele de Kahrir depois do calor úmido da estufa, mas não limpou a sensação que o Bulbo-de-Eco deixara para trás. As palavras ainda ficavam presas no fundo da cabeça dela, pequenas e ridículas se pensadas isoladamente, mas incômodas demais quando colocadas ao lado do tecido no bolso, do cheiro seco na porta lateral e do gesto de Quirrell apertando a própria manga no café da manhã. “Frio. Pano. Esconde.” Ditas por uma planta de voz fina, talvez fossem quase engraçadas. O problema era que Hogwarts raramente parecia se importar com a aparência das coisas antes de torná-las importantes.

Ela caminhou alguns passos com Adrian e Mason sem dizer nada, acompanhando o fluxo dos alunos que subia de volta para o castelo. O gramado ainda brilhava de umidade, e a luz do fim da manhã batia nas estufas com reflexos opacos, fazendo cada vidro parecer coberto por uma camada fina de névoa. Atrás deles, a professora Sprout ainda organizava alguns vasos perto da porta aberta, sua voz alegre alcançando os últimos estudantes que saíam, lembrando-os de lavar bem as mãos antes do almoço porque “alguns bulbos tinham mais memória do que higiene”. Alguns alunos riram. Adrian teria rido também, em qualquer outro momento. Agora ele apenas olhava para Kahrir de lado, esperando que ela dissesse primeiro o que todos os três já tinham ouvido.

— Isso foi muito específico pra uma planta dramática — murmurou ele, quando já estavam longe o suficiente da estufa para não serem ouvidos pelos outros.

Kahrir manteve uma das mãos perto do bolso interno, não tocando exatamente no tecido, mas consciente demais dele ali.

— Eu queria discordar só pelo conforto de discordar.

— Conforto aceito. Discordância recusada.

Mason caminhava do outro lado, os olhos claros voltados para o caminho à frente, mas a atenção claramente dividida entre o castelo, os alunos ao redor e eles dois.

— Sprout disse que eles repetem restos de som trazidos pelo vento — disse ele. — Isso pode ser verdade.

— Esse é o tipo de frase que parece tranquilizadora até você lembrar que o vento veio da porta onde o tecido estava — respondeu Adrian.

Mason assentiu de leve, sem parecer satisfeito.

— Exatamente.

Kahrir respirou fundo, sentindo o ar frio entrar com cheiro de grama molhada, terra e pedra. O pingente já estava frio outra vez, quieto contra o robe, como se tivesse cumprido a função mínima de alertar e depois se retirado da conversa. Aquilo a irritava um pouco. Era como ter alguém apontando para uma porta sem dizer se havia perigo, resposta ou apenas mais uma escada inconveniente do outro lado.

Eles alcançaram os degraus de pedra que levavam ao castelo junto com um grupo de alunos da Lufa-Lufa que falava animadamente sobre os Bulbos-de-Eco repetirem insultos caso alguém tivesse criatividade suficiente. Adrian segurou a porta aberta com o ombro, deixando Kahrir e Mason passarem antes de entrar atrás deles. Assim que cruzaram o limiar, o cheiro da estufa ficou para trás, substituído pela mistura familiar de corredores antigos: pedra fria, cera, pergaminho e um resto distante de comida vindo do Salão Principal. O tecido no bolso dela pareceu pesar mais por contraste.

— A gente precisa olhar isso — disse Kahrir, baixo, sem parar de andar. — Mas não no corredor.

Adrian inclinou-se um pouco para ela, como se estivessem falando sobre algo perfeitamente comum.

— Concordo. Eu gosto de analisar coisas suspeitas longe de portas, plantas fofoqueiras e plateia.

— Biblioteca? — sugeriu Mason.

Kahrir pensou por um instante. A biblioteca fazia sentido, claro. Fazia sentido demais. Mas justamente por isso vinha com toda a carga de livros antigos, prateleiras fundas e a chance absurda de o castelo empurrar para eles mais uma resposta pela metade antes mesmo do almoço. Ela não queria fugir do mistério, mas também não queria oferecer a manhã inteira a ele como se fosse inevitável.

— Ainda temos almoço e Feitiços depois — disse ela. — Se formos à biblioteca agora, a gente se atrasa, esquece de comer, ou os dois.

Adrian a olhou com uma expressão quase emocionada.

— Quem é você e o que fez com Kahrir Valmont?

Ela virou o rosto devagar.

— Eu ainda posso te deixar responsável por explicar pra McGonagall por que a gente perdeu aula.

— Kahrir voltou. Tudo certo.

Mason não sorriu, mas os olhos dele tiveram aquele brilho breve que já começava a denunciar quando estava achando graça.

— Sala comunal depois das aulas — disse ele. — Menos movimento. Mais controle.

Kahrir assentiu. Era uma solução sensata, o que, de novo, tornava um pouco irritante. Guardar, esperar, olhar no momento certo. Parecia simples quando Mason dizia, mas na prática exigia que ela carregasse o fragmento no bolso por mais algumas horas sem deixar o pensamento encostar nele toda vez que algo branco, frio ou levemente metálico aparecesse no canto dos olhos.

O almoço no Salão Principal veio como uma interrupção necessária e, em certo grau, bem-vinda. O teto encantado mostrava nuvens se acumulando aos poucos sobre um azul pálido, e a luz parecia mais fria do que no café da manhã. As mesas estavam cheias daquele barulho de meio-dia: alunos falando mais alto, pratos surgindo, bancos arrastados, alguém reclamando de dever de casa com o desespero de quem achava a própria tragédia muito original. O cheiro de ensopado, pão quente e batatas assadas ocupava o salão com uma honestidade quase agressiva.

Kahrir se sentou com os dois e tentou comer sem parecer que metade da atenção estava presa no bolso. Não conseguiu completamente. Adrian, que já a conhecia bem o bastante para notar isso, empurrou discretamente uma travessa de batatas na direção dela.

— Come. Ficar encarando o prato com desconfiança não vai fazer o tecido se explicar.

— Talvez eu esteja desconfiando das batatas.

— Ofensivo. Elas parecem inocentes.

Mason serviu-se de ensopado com a precisão absurda de sempre.

— Em Hogwarts, inocência visual não prova muita coisa.

Adrian apontou a colher para ele.

— Você acabou de transformar batatas em ameaça filosófica.

— Você facilitou.

Kahrir riu baixo, e o riso a ajudou a respirar melhor. Comeu, então, porque o corpo precisava e porque havia um limite para o quanto uma pessoa podia tratar um pedaço de pano como centro do universo antes de se tornar exatamente o tipo de aluna que retratos comentariam pelos corredores. Ainda assim, quando olhou para a mesa dos professores, Quirrell não estava lá. O lugar dele permanecia vazio, a cadeira recuada como se ele tivesse saído antes ou sequer aparecido. Snape estava presente, sombrio e imóvel; McGonagall conversava com Sprout; Flitwick parecia empenhado em alcançar um saleiro que se afastava dele alguns centímetros toda vez que tentava pegá-lo. Mas Quirrell, não.

Dessa vez foi Mason quem notou o olhar dela.

— Ausente.

— Talvez tenha aula ou alguma coisa — disse Adrian, mas não parecia convencido.

— Talvez — respondeu Kahrir.

A palavra ficou pequena demais para tranquilizar alguém.

A tarde trouxe Feitiços, e com ela uma mudança de energia. A sala de Flitwick era mais leve que a de Transfiguração, mais barulhenta, cheia de pequenas faíscas, penas, livros abertos e alunos que pareciam sempre a dois segundos de fazer algo errado por entusiasmo. A luz entrava alta pelas janelas, iluminando partículas de poeira e pedaços de giz flutuante que escreviam instruções no quadro. O professor Flitwick, empoleirado sobre sua pilha de livros, parecia genuinamente encantado com a perspectiva de ensinar um feitiço simples de precisão.

— Hoje, nada de força, nada de movimentos exagerados — disse ele, com uma voz aguda e animada que conseguia atravessar a sala inteira. — Um feitiço pequeno bem executado vale mais que um grande desastre com convicção.

Adrian inclinou-se para Kahrir.

— Sinto que todos os professores estão coordenando indiretas contra mim.

— Talvez você seja um tema interdisciplinar — respondeu ela.

Mason, do outro lado, murmurou:

— Seria um estudo longo.

Adrian olhou para os dois com indignação silenciosa, mas Flitwick bateu a varinha no livro para chamar atenção, e todos se voltaram para as penas pequenas distribuídas sobre as carteiras. O exercício era conduzir uma pena por um percurso traçado no ar, sem deixá-la cair nem desviá-la demais. Parecia simples. Naturalmente, não era.

Kahrir segurou a varinha e sentiu de novo aquela exigência limpa da faia, a necessidade de fazer exatamente o bastante. A pena diante dela era leve demais, sensível demais ao excesso. Quando ela pronunciou o feitiço, a pena subiu com suavidade, balançando um pouco antes de encontrar o caminho. Kahrir ajustou o pulso, menos comando do que conversa, e a pena seguiu pelo arco luminoso desenhado no ar por Flitwick.

Adrian tentou logo depois. A pena dele subiu depressa, deu uma volta elegante demais para ser acidental e pousou sobre a cabeça de um aluno da Corvinal à frente.

— Foi intencionalmente artístico — disse ele, antes que alguém perguntasse.

— Foi excesso de confiança — disse Mason.

— Isso também pode ser arte.

Mason fez sua tentativa com um movimento mínimo. A pena subiu e percorreu o trajeto quase sem oscilação, mas de um jeito tão rígido que parecia não estar flutuando, e sim obedecendo sob protesto. Flitwick passou por eles justamente nesse momento e bateu palmas, encantado.

— Muito bom, Sr. Arkwell! Excelente contenção. Talvez um pouco mais de leveza, mas excelente contenção.

Adrian olhou para Mason.

— Até sua pena parece disciplinada.

— Melhor que posar em cabeças alheias.

Kahrir sorriu enquanto conduzia a própria pena de volta à mesa. Pela primeira vez naquele dia, durante alguns minutos, o tecido ficou realmente distante. Havia só o feitiço, a luz, as penas flutuando, a voz alegre de Flitwick, Adrian errando de modo quase charmoso e Mason sendo irritantemente competente. Era bom. Não porque apagasse o resto, mas porque provava que o resto ainda não tinha o direito de tomar tudo.

No fim da aula, enquanto os alunos recolhiam os materiais e algumas penas teimosas continuavam presas no alto, Flitwick chamou Kahrir à mesa com um gesto pequeno.

— Srta. Valmont, um instante.

Adrian, que estava enfiando o livro na bolsa de qualquer jeito, olhou para ela com curiosidade. Mason também, embora de forma mais discreta. Kahrir se aproximou da mesa do professor, sentindo o coração acelerar só um pouco, sem motivo claro.

Flitwick sorriu para ela, gentil.

— Notei seu controle hoje. Muito bom para o início do primeiro ano. Você parece compreender bem que magia nem sempre responde melhor à insistência.

— Obrigada, professor.

— Continue assim. Mas não se contenha por medo de errar, sim? Controle e hesitação podem parecer primos à distância, mas não são da mesma família.

A frase ficou com ela mais do que o elogio. Kahrir assentiu devagar, aceitando sem saber ainda onde aquilo se encaixava.

— Sim, professor.

Quando voltou para os dois, Adrian já a esperava perto da porta.

— E então? Fomos oficialmente superados por você ou isso já era sabido?

— Ele falou sobre controle — respondeu Kahrir, ainda pensando.

Mason olhou para ela.

— E hesitação.

Ela virou o rosto para ele.

— Você ouviu?

— Um pouco.

Adrian suspirou.

— Ele sempre ouve um pouco. É perturbador.

Kahrir não respondeu. Controle e hesitação. Levar o pingente, mas não depender dele. Ver o tecido, mas não sair correndo. Guardar uma pista, mas não deixar que ela virasse todo o dia. Talvez Flitwick não tivesse a menor ideia do quanto aquela frase acertava, o que, em Hogwarts, provavelmente significava que acertava ainda mais.

Quando finalmente chegaram à sala comunal da Sonserina depois das aulas, a tarde já escorria para o começo da noite. A luz verde das janelas subaquáticas era mais escura, e a sala estava relativamente vazia; a maioria dos alunos ainda se espalhava pelo castelo, aproveitando os últimos minutos antes do jantar ou fingindo estudar em lugares mais iluminados. A lareira crepitava baixo, e o ar tinha cheiro de madeira antiga, couro e a umidade constante do lago.

Adrian fechou a passagem atrás deles e olhou ao redor.

— Finalmente. Um lugar onde, teoricamente, nada deveria nos interromper.

Mason ergueu uma sobrancelha.

— Você insiste em provocar.

— Eu disse teoricamente. Estou aprendendo a me proteger com linguagem.

Kahrir se aproximou de uma mesa menor perto das janelas, onde a luz do lago caía fria e tremida sobre a madeira escura. Sentou-se, tirou o fragmento de tecido do bolso interno com cuidado e o colocou sobre a mesa.

Era pequeno, menor do que parecia quando guardado. Claro, acinzentado, rasgado nas bordas. A parte interna tinha uma linha escura, irregular, quase como se algo tivesse sido costurado ali e depois arrancado. O cheiro subiu de leve no ar fechado da sala comunal, fraco, mas presente.

Adrian sentou-se ao lado dela, a expressão perdendo um pouco do humor.

— Continua cheirando horrível.

— Menos que antes — disse Mason, aproximando-se sem tocar.

Kahrir colocou o pingente ao lado do tecido, hesitando por um instante antes de soltar os dedos. Por um segundo, nada aconteceu. A sala comunal continuou com seu ruído baixo, o lago se movendo além do vidro, o fogo estalando longe.

Então o pingente aqueceu.

Não brilhou. Não se moveu. Apenas aqueceu o bastante para embaçar muito levemente a madeira sob ele, como se o frio subaquático da mesa tivesse sido afastado por uma respiração curta.

O tecido, por sua vez, pareceu escurecer na linha interna.

Adrian se inclinou um pouco, os olhos avelã presos ao fragmento.

— Isso estava assim antes?

Kahrir sentiu a garganta apertar de leve, não de medo, mas de concentração.

— Não tanto.

Mason, muito cuidadosamente, pegou uma pena velha da mesa e empurrou uma ponta do tecido, abrindo-o um pouco mais sem tocá-lo com os dedos. A linha escura não era costura comum. Vista daquele ângulo, parecia uma sequência interrompida de pequenos traços, quase como marcas queimadas no avesso do pano.

Não formavam uma palavra clara.

Ainda não.

Mas formavam um padrão.

E Kahrir percebeu, com uma lentidão desagradável, que uma das marcas lembrava vagamente o mesmo desenho estreito que vira na manga de Quirrell naquela manhã, junto ao pulso.

Adrian soltou o ar devagar.

— Tá. Isso definitivamente não é só pano feio.

Mason não desviou os olhos.

— Não.

O pingente esfriou aos poucos, como se tivesse mostrado apenas o bastante. Lá fora, uma sombra grande passou atrás da janela subaquática, escurecendo a mesa por um instante antes de se perder no lago. Nenhum dos três se moveu até a luz verde voltar.

Kahrir sentiu a memória do Bulbo-de-Eco repetir dentro dela, fina e incômoda como a voz da planta.

Frio. Pano. Esconde.

E agora havia, sobre a mesa, algo que parecia menos rastro e mais aviso.

Kahrir permaneceu inclinada sobre a mesa, os olhos presos ao pequeno fragmento de tecido como se ele tivesse, de algum modo irritante, se tornado maior do que a própria sala comunal. A luz esverdeada do lago tremia sobre a madeira escura, passando pelas marcas queimadas em linhas instáveis, e o cheiro fino que subia do pano parecia ainda mais fora de lugar ali embaixo, no espaço úmido e protegido da Sonserina. Não era forte o bastante para incomodar outros alunos do outro lado da sala, nem claro o bastante para ser nomeado sem esforço; era um cheiro que parecia querer ser esquecido no mesmo instante em que era percebido.

Ela aproximou um pouco mais o rosto, mas não tocou. Havia algo quase ofensivo naquela sequência de marcas interrompidas, como se o pano se recusasse a entregar uma palavra inteira depois de ter feito questão de aparecer três vezes no mesmo fim de semana. O pingente, agora frio de novo, repousava ao lado dele com uma inocência difícil de aceitar.

— Isso parece uma parte de alguma coisa — disse Kahrir, baixo, sem tirar os olhos do tecido. — Não uma marca aleatória.

Adrian, sentado ao lado dela, apoiou os cotovelos na mesa e franziu a testa. O humor ainda estava nele, como sempre, mas recolhido para algum lugar atrás da atenção. Quando falava assim, mais quieto, Kahrir percebia melhor o quanto ele não era distraído; apenas escolhia, na maioria das vezes, parecer menos atento do que estava.

— Parte de uma palavra? Ou de um desenho?

Mason, de pé do outro lado da mesa, moveu a pena velha com cuidado, virando o tecido o suficiente para que a luz do lago pegasse por outro ângulo. Os fios claros se abriram um pouco na borda rasgada, e a linha escura pareceu se dividir em dois traços menores, quase como se o que antes parecia costura fosse, na verdade, uma marca escondida no avesso.

— Talvez os dois — respondeu ele. — Símbolos antigos nem sempre se comportam como letras separadas.

Adrian olhou para ele com uma mistura de curiosidade e resignação.

— Claro que você sabe dizer isso de um jeito que me deixa mais preocupado.

— Eu disse “talvez”.

— “Talvez”, vindo de você, costuma carregar uma quantidade absurda de coisa não dita.

Mason não respondeu de imediato. O olhar claro dele permaneceu no pano, mas algo em seu rosto ficou menos distante, como se uma lembrança estivesse arranhando a parte de trás da mente sem conseguir atravessar totalmente. Kahrir percebeu, e talvez por isso tenha desviado os olhos do tecido para ele.

— Você já viu algo parecido?

Mason demorou um pouco mais do que o normal para responder, e esse atraso, vindo dele, já era uma resposta parcial. A lareira estalou ao fundo, e algumas risadas baixas de alunos mais velhos se ergueram perto dos sofás antes de desaparecerem sob o murmúrio constante do salão comunal. Do lado de fora das janelas, uma sombra pequena passou rapidamente pela água escura, deixando uma ondulação de luz verde deslizar sobre o rosto dele.

— Não parecido o bastante — disse por fim. — Mas esse tipo de marca… não parece decorativa.

Adrian soltou o ar devagar.

— Ótimo. Então saímos de “pano feio” para “pano possivelmente não decorativo”. Progresso acadêmico.

Kahrir o olhou de lado.

— Você esperava que o tecido viesse com uma explicação bordada?

— Eu esperava, no mínimo, uma seta. Talvez “perigo” escrito com educação.

— O tecido provavelmente também te acha exigente demais — disse Mason.

Adrian apontou para ele, indignado.

— Isso foi quase uma piada.

— Foi uma observação.

— É assim que você chama pra não assumir.

Kahrir sorriu, mas o sorriso não ficou muito tempo. Ela puxou o pingente um pouco mais para perto do tecido, não o bastante para encostar, apenas para testar a distância. Dessa vez, o calor veio mais lento, como se o objeto demorasse para decidir se responderia ou não. O ar entre os dois pareceu ficar um pouco mais seco. Não houve brilho, nem movimento, mas a marca escura no pano ganhou definição por um instante, revelando um traço curvo interrompido no meio, parecido com uma letra incompleta ou com o canto de um selo maior.

Adrian parou de brincar.

— Isso eu vi.

Kahrir retirou a mão, e o pingente esfriou quase imediatamente. A marca voltou a parecer apenas uma queimadura irregular no avesso do tecido.

— Ele não mostra tudo — murmurou ela. — Só… acorda um pouco.

Mason apoiou as mãos na borda da mesa, sem tocar nos objetos.

— Talvez porque não tenha tudo aqui.

A frase fez sentido no mesmo instante, e Kahrir sentiu aquela irritação pequena que vinha quando uma coisa óbvia só se tornava óbvia depois que alguém dizia. O fragmento era pequeno demais, irregular demais. Se havia uma marca, ela estava partida. Se havia um símbolo, faltava o resto. E se faltava o resto, então havia mais tecido em algum lugar — na manga de Quirrell, nos terrenos, em algum corredor, ou escondido onde eles ainda não tinham acesso.

Adrian se recostou devagar na cadeira, passando a mão pelo cabelo castanho-escuro e deixando-o mais bagunçado do que antes.

— Eu não gosto de onde essa conclusão está indo.

— Ninguém disse que precisamos ir com ela — respondeu Kahrir, surpreendendo um pouco a si mesma com a firmeza calma da própria voz.

Adrian baixou a mão e a olhou.

— Isso foi novo.

Ela deu de ombros, mas o gesto não foi indiferente.

— Talvez eu esteja aprendendo. Um pouco. Contra minha vontade.

Mason a observou por um segundo, e havia algo quase aprovado no silêncio dele, embora não dissesse nada. Adrian, por outro lado, abriu um meio sorriso.

— Estou orgulhoso. Assustado, mas orgulhoso.

Kahrir dobrou o tecido com cuidado usando a pena, sem tocar nele diretamente, e o colocou sobre um pedaço de pergaminho vazio que retirou da bolsa. A ideia veio simples: guardar sem deixar misturado com as próprias coisas. O cheiro era fraco, mas persistente, e ela não queria que aquilo ficasse solto no bolso como se fosse um lenço esquecido. Com movimentos lentos, enrolou o fragmento no pergaminho e amarrou com uma tira fina de barbante que encontrou no fundo da bolsa, dessas que pareciam existir apenas para salvar situações improváveis.

— Vou guardar no baú — disse ela. — Por enquanto.

Adrian assentiu, visivelmente aliviado por não ter ouvido nada que começasse com “vamos procurar o resto”.

— Excelente. Gosto muito do “por enquanto”. Dá uma falsa sensação de controle.

— Você prefere sem controle nenhum?

— Não. Eu só gosto de reclamar.

— A gente percebeu — disse Mason.

Kahrir pegou o pingente e o guardou de volta no bolso interno. O objeto estava frio agora, quase comum, e isso a deixou novamente com aquela sensação irritante de ter sido informada pela metade. Mas, desta vez, não tentou forçar mais. A frase de Flitwick voltou a ela com uma clareza estranha: controle e hesitação não eram da mesma família. Talvez controle fosse justamente saber quando não transformar curiosidade em impulso.

A sala comunal continuava tranquila, embora mais alunos começassem a entrar conforme a tarde avançava. A luz do lago ficava cada vez mais escura, e as lâmpadas verdes nas paredes assumiam aos poucos o papel de iluminar os cantos. Perto da lareira, alguém derrubou uma pilha de livros e recebeu uma bronca sussurrada tão feroz que parecia ter vindo de um monitor. A vida normal, ou a versão de Hogwarts para isso, continuava se movendo em volta deles sem se importar muito com o pequeno embrulho de pergaminho sobre a mesa.

Mason endireitou-se.

— Se isso estiver ligado a Quirrell, amanhã pode aparecer alguma coisa na aula de Defesa.

Adrian fechou os olhos por um instante.

— Eu estava tão feliz fingindo que amanhã não existia.

— Amanhã existe desde ontem — disse Kahrir.

— Traição. Eu esperava isso do Mason, não de você.

Ela levantou-se com o embrulho na mão, e Adrian também se mexeu para acompanhá-la, mas ela balançou a cabeça com um meio sorriso.

— Eu só vou subir e guardar isso. Acho que consigo atravessar uma escada sozinha sem iniciar uma nova investigação.

Adrian pareceu considerar seriamente a afirmação.

— Estatisticamente, não tenho certeza.

— Adrian.

— Tá, tá. Vou confiar. De forma moderada.

Mason olhou para ela com aquela atenção limpa que não pedia explicação.

— Guarda separado.

— Eu sei.

Kahrir subiu para o dormitório das meninas enquanto a sala comunal ficava para trás com seus sons baixos e verdes. No quarto, ainda vazio naquele horário, a luz subaquática entrava pelas janelas com uma lentidão quase hipnótica. Ela abriu o baú, afastou livros, luvas, um frasco de tinta e alguns pergaminhos enrolados, até encontrar um pequeno estojo rígido onde guardava coisas que não queria amassadas. O tecido embrulhado foi colocado ali dentro, isolado, como se a distância física pudesse impedir que ele contaminasse o resto da noite com sua presença.

Antes de fechar o baú, Kahrir ficou um momento olhando para o estojo. Não havia nada nele agora que se movesse, brilhasse ou reagisse. Apenas um pacote pequeno, feio e silencioso.

Ainda assim, ele parecia esperar.

Ela fechou a tampa.

Quando voltou para a sala comunal, Adrian tinha conseguido se apossar de uma mesa um pouco mais próxima da lareira, e Mason estava sentado com um livro aberto, embora não parecesse realmente estar lendo. O fogo lançava luz quente sobre os dois, suavizando o verde frio das janelas. Adrian levantou os olhos quando ela se aproximou.

— Sobreviveu?

— Heroicamente.

— Sem armaduras, tecidos, cheiros ou professores?

— Só uma escada que fingiu pensar em mudar e desistiu.

Adrian levou a mão ao peito.

— Milagre.

Kahrir sentou-se novamente, agora mais perto do calor, e tirou os livros de Feitiços da bolsa. A segunda-feira ainda não tinha acabado. Havia deveres, jantar, cansaço e a inevitável aula de Defesa no dia seguinte. Mas, por alguns minutos, ela decidiu aceitar o que o castelo oferecia: uma mesa, a lareira, dois amigos por perto e a possibilidade quase absurda de fazer uma tarefa escolar como se fosse apenas uma aluna comum.

Adrian olhou para o próprio pergaminho em branco e suspirou.

— Alguém sabe como escrever quinze centímetros sobre levitação sem admitir que minha pena atacou um colega?

Mason virou uma página.

— Não use a palavra “atacou”.

— Excelente começo. Já temos censura.

Kahrir mergulhou a pena na tinta, sentindo o corpo cansado, mas a cabeça um pouco mais clara.

— Escreve que o objeto apresentou deslocamento inesperado.

Adrian ficou imóvel por meio segundo, depois olhou para ela como se tivesse acabado de receber uma revelação.

— Kahrir Valmont, você tem um talento criminoso para transformar desastre em frase aceitável.

— Obrigada. Acho.

— Não incentive — disse Mason, sem erguer os olhos.

Mas havia humor na voz dele.

E, enquanto a noite descia devagar sobre as masmorras e Hogwarts seguia viva ao redor deles, Kahrir começou a escrever, com o embrulho guardado no andar de cima e a certeza cada vez mais firme de que o pano não era a resposta. Era apenas a primeira parte de uma pergunta maior.

A pena deslizou pelo pergaminho com um som baixo e regular, misturando-se ao estalo preguiçoso da lareira e ao murmúrio abafado dos outros alunos espalhados pela sala comunal. A luz verde do lago ainda ondulava pelas paredes, mas perto do fogo ela se tornava menos fria, atravessada por reflexos âmbar que batiam nas bordas dos tinteiros, nas capas dos livros e no rosto de Adrian, que encarava o próprio título com a concentração dramática de alguém prestes a negociar com uma criatura perigosa, não escrever uma tarefa de Feitiços. Mason, por outro lado, já parecia ter encontrado um ritmo insuportavelmente estável, a pena avançando em linhas limpas, sem borrões, sem pausas longas, sem qualquer demonstração pública de sofrimento, o que Adrian claramente considerava uma falha grave de caráter.

Kahrir escreveu os primeiros parágrafos com mais facilidade do que esperava. Talvez porque o exercício da pena ainda estivesse fresco na memória, talvez porque escrever sobre controle fosse menos complicado do que viver sob ele. Ela descreveu o movimento correto do pulso, a importância da intenção clara, o modo como objetos leves respondiam rápido demais ao excesso de força. Não mencionou o jeito como a pena de Adrian tinha feito uma curva quase elegante antes de pousar na cabeça de um aluno da Corvinal, embora a tentação fosse grande; também não escreveu que a magia, às vezes, parecia ter senso de humor próprio, porque provavelmente o professor Flitwick não pediria comentários filosóficos sobre penas temperamentais.

Adrian, depois de alguns minutos de batalha silenciosa, inclinou-se para ela com o pergaminho em mãos.

— “Durante a execução do feitiço, houve uma resposta aérea superior à esperada.” Isso parece inteligente ou parece que eu estou confessando com palavras caras?

Kahrir leu a frase, segurando o sorriso.

— Parece que você está tentando sobreviver juridicamente à própria tarefa.

— Então serve.

Mason virou outra página sem levantar o rosto.

— Acrescente que houve correção posterior do movimento.

Adrian piscou, olhando para ele.

— Isso foi ajuda?

— Foi uma tentativa de impedir que Flitwick perca tempo demais entendendo sua invenção.

— Ajuda disfarçada. Aceito.

Kahrir soltou um riso baixo e voltou ao próprio pergaminho. O cansaço do dia estava se acumulando de um jeito quase confortável agora, diferente da tensão que viera com o tecido e o Bulbo-de-Eco. Havia tarefas, tinta, livros abertos, o peso morno da lareira no rosto e a presença dos dois tão natural que, por alguns instantes, o embrulho no baú parecia apenas mais uma coisa estranha guardada entre muitas outras que Hogwarts provavelmente colecionava sem pedir desculpas. Mas a tranquilidade nunca vinha inteira; de vez em quando, entre uma frase e outra, sua mente voltava à linha escura no avesso do pano, ao modo como o pingente aquecera, à palavra sussurrada pela planta. Esconde. O pensamento não a arrancava da mesa, mas ficava ali, embaixo do restante, como uma pedra no fundo de um rio.

Um pouco mais tarde, quando os pergaminhos já estavam cheios o bastante para que Adrian declarasse vitória com um exagero quase ofensivo, os três desceram para o jantar junto com outros alunos da Sonserina. A noite no castelo tinha engrossado; os corredores estavam iluminados por tochas que lançavam sombras compridas nas paredes, e o cheiro de comida vinha do Salão Principal como uma promessa simples demais para ser questionada. Adrian caminhava ao lado de Kahrir com o pergaminho enrolado debaixo do braço, protegendo-o como se carregasse prova de inocência, enquanto Mason seguia um passo adiante, silencioso, a postura controlada mesmo quando uma escada resolveu mudar de direção bem no momento em que um grupo de alunos da Grifinória começou a reclamar alto atrás deles.

— Eu ainda acho que minha redação tem potencial — disse Adrian, descendo o último degrau. — Talvez não acadêmico, mas literário.

— Você escreveu “a pena demonstrou personalidade” — lembrou Kahrir.

— E demonstrou.

— Ela caiu.

— Com intenção.

Mason olhou por cima do ombro.

— Se Flitwick der nota por criatividade defensiva, você passa.

— Vou considerar isso um voto de confiança.

O jantar teve a estranha normalidade das refeições em Hogwarts: conversas demais ao mesmo tempo, pratos surgindo cheios e desaparecendo vazios, velas flutuando sobre as mesas, o teto encantado refletindo um céu escuro e pesado de nuvens. Lá fora, a chuva que ameaçara durante a tarde começava a cair fina, quase invisível, e o som dela chegava apenas como um roçar distante contra as janelas altas. Kahrir comeu sem muita pressa, escutando Adrian comentar uma fofoca qualquer sobre um aluno mais velho que teria tentado encantar as próprias botas para não escorregar na lama e agora andava como se os pés tivessem opinião própria. Mason corrigiu um detalhe improvável sobre o tipo de feitiço necessário para aquilo acontecer, e Adrian o acusou, sem sucesso, de saber coisas demais para alguém que fingia desprezar caos.

Quirrell não estava na mesa dos professores durante boa parte do jantar. Kahrir percebeu, claro. Não procurou de forma óbvia, mas percebeu. A cadeira dele ficou vazia até quase o fim da refeição, quando ele surgiu por uma porta lateral, pálido, com os ombros mais encolhidos do que de costume e uma das mãos escondida dentro da manga. Ele falou rapidamente com Flitwick, recusou alguma coisa que Sprout lhe ofereceu com um gesto nervoso e sentou-se sem tocar na comida. À distância, poderia parecer apenas um professor frágil tendo um dia ruim. Mas Kahrir já vira tecido demais, cheiro demais e reações demais para aceitar a explicação mais simples sem ao menos guardá-la junto das outras.

Adrian, que aprendera a notar seus olhares quase antes que eles terminassem de existir, murmurou sem virar o rosto:

— Eu vi.

— Eu não disse nada.

— Você ficou muito quieta do jeito específico.

Mason cortou um pedaço de torta salgada, tranquilo demais para alguém que também observara a mesma coisa.

— Amanhã teremos mais oportunidade do que gostaríamos.

A frase fez o jantar parecer um pouco menos quente. Kahrir olhou para o próprio prato, para o reflexo das velas na borda da taça, e assentiu apenas uma vez. Não havia nada a fazer naquela noite. O embrulho estava guardado. O pingente estava quieto. Quirrell estava sentado à mesa dos professores, cercado por adultos, luz e alunos demais. Qualquer impulso de investigação ali seria tão útil quanto tentar ouvir um sussurro no meio de uma tempestade.

Depois do jantar, a volta à sala comunal veio mais lenta. O castelo parecia recolher os alunos aos poucos, engolindo vozes e passos pelos corredores de pedra. Quando os três chegaram às masmorras, a passagem para a Sonserina abriu-se com seu movimento familiar, e a sala comunal os recebeu com uma calma verde e submersa. A lareira ardia mais baixa agora; alguns alunos mais velhos conversavam perto dela em tom quase confidencial, e uma menina do segundo ano dormia com a cabeça apoiada num livro aberto, enquanto uma amiga tentava decidir se a acordava ou se deixava aquilo se tornar problema de amanhã.

Adrian se jogou numa poltrona com menos energia do que na noite anterior.

— Segunda-feira deveria ser considerada uma criatura perigosa.

Kahrir sentou-se no sofá próximo, puxando a bolsa para o colo.

— Você acha muitas coisas perigosas quando está cansado.

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— Porque quando estou cansado enxergo a verdade.

Mason acomodou-se no braço do sofá, o livro de capa escura novamente em mãos, embora não o abrisse de imediato.

— Amanhã vai ser pior.

Adrian fechou os olhos.

— Eu pedi consolo.

— Não tenho.

— Percebi.

Kahrir sorriu, mas o sorriso veio mais suave do que divertido. O dia tinha sido longo, e o pensamento de que a aula de Defesa os esperava no dia seguinte ficava no ar como uma janela mal fechada deixando entrar frio. Ainda assim, ela não sentia a mesma inquietação impaciente de antes. O tecido continuava sendo importante. Quirrell continuava sendo estranho. O padrão continuava se formando. Mas havia uma diferença em saber disso sem precisar persegui-lo a cada instante. Talvez fosse isso que Flitwick teria chamado de controle, se soubesse o contexto inteiro; talvez fosse apenas cansaço bem administrado.

Aos poucos, a sala foi esvaziando. Adrian subiu primeiro, depois de declarar que precisava dormir antes que começasse a escrever “deslocamento inesperado” em todas as tarefas da semana. Mason ficou mais alguns minutos, lendo uma página que parecia não avançar, e então também se levantou, despedindo-se de Kahrir com um aceno pequeno. Quando ela finalmente subiu para o dormitório, a luz verde do lago já se movia pelo teto em ondulações lentas, e o quarto estava quase todo quieto. Algumas cortinas permaneciam fechadas; alguém respirava fundo em sono pesado; em algum lugar perto da janela, uma pena solta rolava lentamente com uma corrente de ar impossível de localizar.

Kahrir parou diante do baú antes de se trocar. A vontade de abrir o estojo veio, como Adrian previra, mas não foi tão forte quanto ela imaginara que seria. Em vez disso, pousou a mão sobre a tampa fechada e ficou ali alguns segundos, sentindo a madeira fria, o metal da fechadura, a presença silenciosa daquilo lá dentro. Nada se moveu. Nenhum cheiro escapou. Nenhuma reação veio do pingente quando ela o tirou do bolso e colocou sob o travesseiro.

— Dez minutos — murmurou para si mesma, lembrando do conselho de Mason, e quase riu sozinha ao perceber que estava obedecendo a uma regra que ninguém tinha formalmente criado.

Ela não abriu o baú.

A noite passou sem sonhos claros. Houve apenas imagens soltas, como às vezes acontecia quando o cansaço vinha misturado a coisas não resolvidas: uma pena flutuando sobre água escura, uma porta lateral batendo ao vento, uma faixa de tecido presa num galho, a voz fina do Bulbo-de-Eco repetindo algo que o sonho já não deixava entender. Quando Kahrir despertou, a manhã parecia mais escura do que deveria. Não era tarde; era o céu. Nuvens pesadas cobriam Hogwarts, e a luz que entrava pelas janelas submersas vinha mais profunda, quase azulada, deixando o dormitório com aspecto de lugar no fundo de um lago que tivesse esquecido a superfície.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.