KURAI YOKUBÔ (desejos obscuros)
3 Capítulo 2 - Teia de paixões...
Notas iniciais

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Hiroaki abriu a porta para interromper as batidas infernais. A luminosidade o atingiu como uma faca afiada, obrigando-o a recuar enquanto agarrava a maçaneta e a usava como apoio. Incapaz de dizer um palavrão à altura de seu humor grunhiu algo e tocou na arma que nunca abandonava, enquanto tentava não cambalear.
A pessoa que o levara a mostrar-se daquele jeito, o olhou com uma expressão de censura e dor.
– Sinto interromper, mas eu não tive opção. Infelizmente, você continua sendo meu irmão e quem ele ama. – disse uma voz feminina.
O japonês tentou abrir os olhos contra a luz clara do corredor e surpreendeu-se com a imagem de Naoko, olhando-o e constatando que ele estava com uma horrível ressaca.
– Entre e feche a porta antes que eu use isso em você. – disse ele mostrando a arma.
O quarto bagunçado, cheirando a cigarro e bebida exibia uma cama ampla e nela, jaziam dois corpos nus e adormecidos. Hiroaki começava a lamentar a infeliz ideia de misturar vinho, saque e vodca, porém alguns vícios eram difíceis de serem abandonados.
Naoko olhou em volta, arrependendo-se de estar ali. Mas, ao mesmo tempo, sabia que, apesar de tudo, devia isso ao seu pai.
– O que veio fazer aqui? – perguntou ele.
– Nosso pai está muito doente. Acredito que ele não tem muito tempo.
– O quê? Mas... o que ele tem?. – perguntou Hiroaki, surpreso.
Um suspiro escapou dos lábios da japonesa. Ela permitiu-se mostrar seu nervosismo.
– Câncer no fígado. E... já se espalhou pelo corpo.
– Merda! Tanto filho da puta com saúde e o meu pai... Que merda!– gritou Hiroaki.
Ao som da voz grave, a jovem que estava dormindo acordou, enquanto o rapaz continuava em sua postura relaxada e ausente.
– Amor? – chamou Seiko.
– Preciso sair. Fique aqui e volte a dormir. – disse ele um tanto trêmulo.
Seiko esfregou os olhos e o rapaz que dormia ao seu lado também acordou.
– Querem que eu vá embora? – perguntou ele com um bocejo.
Hiroaki não respondeu, apenas sinalizou para Seiko que cuidasse de tudo e pegou as roupas que deixara espalhadas pelo chão, começando a vesti-las, enquanto Naoko deixava o quarto dando-lhe alguma privacidade.
No quarto ao lado, Raiden ergueu os braços acima da cabeça, alongando os músculos dos ombros. Virou o pescoço de um lado para o outro e sentiu-se bem, apesar do repuxo da cicatriz que se estendia da omoplata até a base do crânio, uma pequena lembrança de um serviço prestado ao seu chefe. Olhou para a cama vazia e pensou nela. O que estaria fazendo? Continuaria linda e venenosa como sempre?
Sentia falta de viver em uma casa. Após deixar Naoko e seguir Hiroaki, sua rotina era pernoitar em hotéis e assegurar a proteção do boss. Vestiu a camisa e preparou-se para a jornada da manhã. Chega de devaneios! Naoko é a oyabun da Gardênia e nem deve se lembrar do que houve entre nós.
Nem bem abriu a porta, Raiden viu a figura esbelta materializar-se a sua frente, fazendo-o franzir o cenho e estremecer por dentro.
– Naoko?!
– Olá, Raiden. – respondeu ela com um tom falsamente frio.
– Aconteceu alguma coisa?
– Vim ver meu irmão.
– Por quê?
– Não creio que lhe deva satisfações dos meus atos.
– Perdoe-me, não quis ofendê-la. – disse ele se afastando.
– Raiden... – falou Naoko com voz baixa e ele virou-se para encará-la, novamente.
A oyabun parecia angustiada e Raiden comprovou para si mesmo que a felicidade dela lhe importava e que o seu coração ainda pertencia a ela, mesmo sabendo que era um sentimento sem futuro. Com um sorriso meio triste, ele se aproximou, tirou-lhe uma mecha de cabelo do rosto e deslizou os dedos por sua face.
– Eu estou aqui e sempre estarei quando você precisar. – disse ele num sussurro.
Em silêncio, ela colocou a mão sobre a dele, ainda em seu rosto, e pressionou com os dedos, olhando-o no fundo dos olhos e se permitindo aquele único momento de reencontro e intimidade.
– Vamos. – disse Hiroaki interrompendo a cena.
– Vou acompanhá-los. – falou Raiden.
Hiroaki concordou com um gesto de cabeça e os três deixaram o hotel.
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– Por que fui chamado? — perguntou Yoshiki Kawasaki, sentado na sala de reuniões da Fuji News Network, com mais dois homens e uma bela vista para a baía de Tóquio.
– O senhor Kawasaki preparou uma reunião com seus filhos. – disse o advogado.
O professor sorriu.
– Creio que houve um engano, o senhor Kawasaki nunca me considerou seu filho.
– Acho que você vai descobrir que seu pai...
– Senhor Hayashi Kawasaki. É esse o nome que eu sempre ouvi. Minha mãe fez as honras de ser mãe e pai para mim. – cortou o professor.
A Fuji News Network sempre fora a vida de Hayashi Kawasaki. Yoshiki não sabia muita coisa sobre os seus meios-irmãos. Conhecia-os tão pouco quanto seu pai biológico. Talvez tivesse herdado dele o intelecto e a ambição de ser sempre o melhor. O único fato concreto era que tinha sido fruto de um caso. Sua mãe vivia num mundo fantasioso, regado a antidepressivos, álcool e memórias de um passado bem sucedido como jornalista. A história entre ela e Kawasaki fora repleta de paixão, brigas e por fim, a separação definitiva, com o ônus de um filho.
– O senhor Kawasaki está com um grave problema de saúde e quer que o legado pelo qual devotou toda a sua vida, prossiga com os filhos. – disse o advogado ajeitando a gravata e limpando a garganta.
Kimura Kawasaki e Yamanaka Kawasaki eram gêmeos e pareciam executivos bem-sucedidos. Olhavam na sua direção como que fazendo a mesma pergunta que ele mesmo se fazia: O que ele estava fazendo ali? Por acaso o velho Kawasaki pensava em inseri-lo naquele mundo?
– O velho quer dividir a fortuna. – disse um dos gêmeos.
– O senhor Kawasaki quer fazer justiça, enquanto há tempo. – completou o advogado.
– Justiça? – questionou Yoshiki com um tom irônico.
O advogado passou três pastas pela mesa, uma para cada um dos presentes. Yoshiki folheou o seu e viu uma carta endereçada a si.
Caro, Yoshiki
Você deve estar se perguntando por que eu o incluí nisso, já que apenas, dei meu nome a você e nunca convivemos. Dos meus filhos, você é aquele, cujo intelecto, possui as ferramentas necessárias para continuar o meu legado. Apesar de nunca ter dito, nem ter sido presente, me orgulhei das suas conquistas acadêmicas e fiz o que pude para que tivesse todas as oportunidades. Ser o professor titular em uma das universidades mais renomadas de Tóquio é uma honra nos dias de hoje, onde a educação se torna a única forma de mudar essa sociedade. Por isso, ainda em vida, quero dividir o meu legado e deixá-lo tão amparado quanto os seus irmãos.
Hayashi Kawasaki
O professor balançou a cabeça. O velho estava morrendo e querendo acertar as coisas... O que ele teria feito para ajudá-lo? Será que seu cargo como titular tinha influência sua? Bem, talvez algum dia lhe perguntasse. Embora sempre tivesse vivido muito bem, tornar-se rico não era nada mau...
– Muito bem, então vamos ver o que temos aqui. – disse ele sob o olhar crítico dos irmãos.
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Apesar da regra de ficarem juntos, apenas no final de semana, Minos e Hades haviam passado a noite na casa do executivo. Eram muitas novidades e conversas sobre a faculdade e os dois acabaram optando por dormir juntos.
Naquela manhã, Hades dera folga à senhora Shizuko e era ele quem providenciava o café da manhã.
– Hummm... que cheiro bom... – disse Minos entrando na cozinha e enlaçando Hades pela cintura, beijando-o no pescoço e cheirando a curva que ia da ponta da orelha até o ombro, causando um arrepio no executivo.
– Quer café? — perguntou o executivo sentindo o baixo-ventre formigar ao sentir aquela carícia.
Vestindo apenas uma cueca boxer, o jovem continuou a provocação e sorriu quando sentiu o corpo do amante reagir... Esfregou-se, malicioso, como quem não quer nada, e tomou a xícara de café da mão do amante, sorvendo um longo gole e colocando-o sobre a bancada de granito negro.
– Meio amargo, mas está bom. – disse ele tornando a abraçar o executivo.
– Ei, hoje é o seu segundo dia de aula e pelo que me contou, seu professor não admite atrasos. Já devia estar vestido... — falou Hades tentando, sem muito esforço, afastar-se do cerco de Minos.
– Não estou fazendo nada demais... Só estou te cheirando um pouco... Minhas aulas começam às 09h00min e avançam até o meio da tarde. Ou seja, tenho muito tempo... — sussurrou o jovem, baixo e rouco.
– Isso não muda... Hummm... o fato.....que....Hummm...eu tenho que chegar cedo no escritório e também não gosto de atrasos...- respondeu Hades sentindo sua resistência acabar, totalmente, ao ter Minos lambendo sua orelha e sussurrando obscenidades.
– Vai me deixar sair assim... necessitado?! — gemeu o jovem passando a língua nos lábios desenhados e levando a mão ao volume, considerável, entre as pernas do amante.
Hades olhou-o com um brilho quase demoníaco nos olhos acinzentados.
– Necessitado? Mesmo após a noite de ontem? Pois, bem seu safado insaciável, vamos cuidar disso... – falou Hades com a voz rouca, a respiração já alterada.
Minos riu e mordeu o lábio inferior, enquanto Hades mostrava sua perícia. Ele baixou e despiu a cueca de Minos, exibindo a ereção pulsante e o encostou de encontro à sua, coberta pela calça de pijama de seda e tão rija quanto o mármore da bancada.
Levantou o jovem e o pôs sobre a bancada, pondo-se entre as pernas abertas e beijando-o, lenta e profundamente, provocando-o, sentindo-o avançar com a língua impaciente sobre a sua.
Interrompeu o beijo e, mordendo-o na curvatura do pescoço, despiu a calça e posicionou-se para penetrá-lo. Tomou-o num movimento vigoroso, depois outro e mais outro, até afundar-se, completamente no corpo do jovem amante, fazendo-o ofegar a abraçar suas costas com força.
O celular tocou, no instante exato, em que ele reduzia o ritmo, torturando Minos que gemia, arqueava as costas e pedia mais força e rapidez. Gostava de vê-lo gemer e ofegar, olhando-o com os olhos úmidos de desejo. Mesmo que não exercesse o papel de Dom com Minos, ainda assim sentia certo prazer em fazê-lo implorar pela possessão.
Voltou a estocá-lo, desprezando a chamada insistente, empurrando-se mais fundo, dando a Minos o prazer que ele pedira e sentindo-se no limite, também. Minos gemeu, de um jeito estrangulado e estremeceu, gozando em seu ventre. Em seguida, Hades também chegou ao clímax, tentando segurar o urro de prazer supremo que escapou da sua garganta, enquanto tremia esgotando-se nas profundezas do jovem.
Os dois ficaram um tempo abraçados e apoiados, um no outro, acalmando a respiração pesada e rápida.
– Agora sim, posso ir prá aula. Estou saciado... Quer dizer... bem que eu tava a fim de te chupar, mas você é um homem muito ocupado... — falou Mimos mordendo o lábio e sorrindo para Hades.
– Se eu não tivesse essa reunião... ia te botar de quatro e te foder até você não poder sentar. — devolveu o outro, sério, olhando fundo nos olhos violáceos do amante, antes de tomar-lhe a boca num beijo feroz.
– Jura... ? – provocou Minos, assim que as bocas se desgrudaram.
– Não me desafie...
O celular tocou novamente. Hades franziu o cenho, respirou fundo e atendeu.
– Sim Aiolia? Adiar a reunião para concedermos uma entrevista? Agora?
A resposta dada pelo amigo e sócio não pareceu agradar ao executivo que inspirou fundo e tornou a olhar para Minos.
– Vou tomar uma ducha rápida. Tome, ligue para este número e o táxi virá buscá-lo para deixá-lo na universidade. – disse ele recolhendo a calça de pijama e direcionando-se até o banheiro.
– Táxi? Eu posso ir de metrô.
– Eu pedi ao senhor Tadaka para ficar disponível. Achei que gostaria de rever um velho amigo. – disse o executivo.
Minos sorriu. Hades sempre cuidava de todos os detalhes: o primeiro dia da universidade, o jantar para que contasse as novidades e, agora, o táxi do Tadaka... Estava se acostumando com toda aquela atenção e carinho, fazendo-o sentir-se cada vez mais ligado e apaixonado pelo executivo. A relação entre eles estava se tornando sólida e ele não tinha dúvidas que queria muito tornar-se maior de idade para viver com Hades.
– Obrigado. – disse, simplesmente.
Hades encarou-o e também sorriu. Sua boca encontrou a de Minos e, mais uma vez, as línguas se tocaram, sugaram e por fim, se separaram deixando ambos com aquela sensação misturada de amor e tesão.
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Hiroaki adentrou a casa que fora o seu lar e sentiu uma nostalgia dolorida. Apesar de sempre desejar ser dono do seu destino, o tempo em que passara ali continha algumas boas lembranças.
– Irmão!
A voz de Tsuki irrompeu pelo jardim bem cuidado.
– Irmãzinha... – disse Hiroaki correspondendo ao abraço apertado.
– Você é mau! Não deu notícias, seu irmão ingrato.
– Perdoe-me, eu...
– Não faz mal! Você está aqui agora. – falou a jovem com lágrimas nos olhos.
– Naoko tem te tratado bem? – perguntou ele.
– Digamos que ela não tem tempo para me tratar mal. Nosso pai, ele...
– Está doente, eu sei. Eu vim vê-lo. – disse ele beijando-a no topo da cabeça.
Abraçada a ele, Tsuki o acompanhou até o quarto de seu pai.
– Acho que ele quer falar sozinho com você. Volto quando terminar. – falou Tsuki abrindo a porta de correr com um sorriso tímido.
O quarto do patriarca era no estilo tradicional. Não havia cama e sim um futon cercado por um belo biombo pintado com cenas campestres. A lanterna em tom lilás conferia uma atmosfera calmante e um tanto fria ao ambiente.
Um homem, também idoso, estava ao lado de Tadashi e ambos pareciam conversar baixo e amigavelmente. Assim que a porta de correr foi fechada, novamente, os dois homens olharam na direção de Hiroaki.
– Meu filho... – falou Tadashi.
Hiroaki se aproximou, tomando a mão enrugada do pai na sua.
– Estou aqui pai.
– Esse é meu velho amigo, Hayashi Kawasaki dono da Fuji News Network. Parece que o destino se encarregou de nos aproximar em todos os momentos. – falou Tadashi apresentando o homem ao seu lado.
– Muito prazer. – disse Hiroaki curvando-se.
Hayashi apenas o saudou com a cabeça e então, despediu-se de Tadashi.
– Deixarei que converse com seu filho, meu amigo. Vou tratar dos detalhes com a senhorita Naoko.
Assim que ele deixou o quarto, Hiroaki olhou para o rosto do pai. Havia um rastro de dor nas rugas de expressão, mas os olhos brilhavam.
– Estou feliz que esteja aqui. Sua irmã tem feito um bom trabalho e eu sei que não vou durar muito. Acabamos de fechar um importante negócio e tanto eu, quanto Kawasaki desejamos deixar nossos filhos encaminhados. Naoko me fez ver algo importante, a Yakuza está se modernizando e estendendo seu domínio de forma mais eficiente e pacífica. Estamos nos tornando importantes para a sociedade e mudando a imagem de gangsteres guerreando entre si.
– Eu não entendo... O que quer de mim, pai?
– Quero que volte para casa e assuma um cargo no negócio que acabei de fechar.
– Por quê? Naoko e eu... Ela jamais aceitará a minha presença aqui, novamente.
– Foi ela quem sugeriu. – disse Tadashi com um sorriso.
– O quê? Naoko sugeriu que eu voltasse e trabalhasse com vocês?
– Sim, sua irmã tem a visão certa das coisas. Fiz bem em torná-la chefe da família.
Hiroaki fez uma careta e então sorriu.
– Preciso de um saquê.
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Aiolia desligou o telefone quando Hades entrou em sua sala. Notou o olhar sério e foi logo se desculpando.
– Eu sei que não chegamos a discutir o assunto, mas surgiu a oportunidade de aparecermos em uma rede de TV com bastante penetração na sociedade.
– Sabe que este tipo de coisa é como uma espada de dois gumes. A empresa está voltada para o mercado de ações, o que nos torna predadores e não, apenas, empresários bem sucedidos.
– Eu sei, Ângelo disse o mesmo. Mas, a Fuji News Network não é qualquer rede de televisão e não faz o gênero sensacionalista. Ela é uma das mais assistidas em Tóquio e conseguir chamar a atenção deste tipo de veículo informativo é uma raridade.
– E como você conseguiu?
– Fui procurado por um repórter que disse ter sido enviado pelo departamento de telejornalismo e que gostaria de fazer uma prévia, antes de elaborar uma reportagem definitiva. Ele deseja conhecer a empresa e conversar conosco.
– Bem, veremos. – disse Hades.
O repórter foi convidado a entrar na sala de Hades e agiu de forma bastante educada e profissional. Fez algumas perguntas sobre a empresa e negócios, tendo o cuidado de não entrar em nenhum assunto polêmico.
– Aqui está o meu cartão. Assim que tiver disponibilidade em suas agendas para uma conversa mais longa, me ligue. – disse o repórter.
– Com certeza. A secretária agendará algo, ainda essa semana. – falou Aiolia.
Assim que o repórter deixou o prédio, um silêncio pairou na sala.
– Posso sentir uma energia densa em você. O que está pensando? – questionou o leonino.
Hades não costumava ser um homem com premonições, porém sentia algo no ar, como se fosse uma marca indelével de algo errado.
– Não sei, apenas estou pensando no objetivo desta reportagem.
– Ora, a empresa está em destaque no mercado de ações e temos fechado negócios importantes, enquanto uma boa parte não consegue manter uma regularidade como a nossa. Estamos sob os holofotes, meu amigo! – disse Aiolia com orgulho.
– Veremos.
– Às vezes você é tão parecido com o Ângelo! Vocês dois já nasceram desconfiados e tudo e todos.
– Somos mais velhos, a vida nos ensinou a farejar a presa antes de abocanhá-la. As vezes, o que parece atraente se constitui em uma armadilha.
Aiolia franziu o cenho com a comparação, porém logo seu celular tocou e ele sorriu. Era Shun.
– Fala, amor. – disse o leonino com um sorriso.
Quando Shun respondeu, Aiolia parou de sorrir, mas ainda assim tentou manter-se bem-humorado.
– Eu sei. Está bem, a gente se vê à noite, então. Claro. Tchau.
Hades ficou observando-o, o entusiasmo arrefecera e Aiolia ficara pensativo.
– Algum problema?
– Não, é que... bem, eu tinha combinado com um corretor para ver uma casa com o Shun, mas ele tem um trabalho em grupo na faculdade e não vai poder. Vou ter que adiar e não sei se vai dar prá segurar a preferência. Quando eu pus os olhos naquela casa, achei perfeita para nós dois, mas... paciência. O que tiver de ser será.
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Em seu gabinete envidraçado, Naoko fez um gesto para que ele entrasse. Sorridente, o repórter adentrou a sala ampla e elegantemente decorada, enquanto ela se recostava na poltrona de couro.
– E então, como foi?
– Deu tudo certo. Um dos sócios está bem animado com a ideia da reportagem.
– E Hades?
– Bem, ele permaneceu muito sério. Foi educado, mas pareceu um tanto distante. Aquele homem parece uma esfinge, não dá para saber o que está pensando.
– Lembre-se que ele é o sócio majoritário e é ele quem pretendemos atingir. Como bem disse, ele é difícil de ser lido e é por isso que é considerado quase um deus das finanças do Shinjuku. Temos que saber qual é o calcanhar de Aquiles deste homem.
– É claro, não se preocupe. Vou insistir um pouco, mostrar que a rede tem interesse. Acabarei descobrindo o que deseja.
– Faça isso. – disse Naoko estendendo um cheque para o repórter.
Ele enrubesceu, mas pegou com firmeza. Quando olhou para a quantia, tornou a fitar Naoko que o observava com uma agudeza típica de um felino...
– M-Mas... é bem mais do que combinamos e...
– Faça bem o seu trabalho e poderá se aposentar cedo, senhor Sekai.
Ele olhou para os lábios dela por um segundo, admirando-a e ficando excitado com a força que sentiu nela. Porém, antes que dissesse algo, Raiden entrou e não gostou nada do modo como o repórter estava olhando para Naoko.
– Eu o acompanho até a saída. – disse o japonês com uma cordialidade incisiva.
Naoko quase sorriu, sentindo certo prazer em ver que Raiden, sempre tão eficiente e frio, perdia a noção quando sentia ciúmes.
– Por favor, senhor Sekai, creio que já terminamos. — disse ela.
– Claro, foi um prazer, senhorita Naoko.
O homem deixou a sala, acompanhado pelo olhar firme do yakuza. Em seguida, Raiden retornou, encontrando Naoko analisando alguns papéis. Ele havia se controlado ao máximo, mas quando ela elevou os olhos, demonstrando que também o desejava, seu corpo pediu por ela.
– Minha vontade é deitar você nesta mesa, tirar sua calcinha e me enterrar em você...
– E o que está esperando? – disse ela estendendo a mão na direção do cinto dele, abrindo-o e encontrando a ereção quente, firme e pronta...
Raiden gemeu baixo e a possuiu ali mesmo na mesa de vidro, fazendo-a completamente sua. Fez amor com ela de maneira feroz e intensa como no passado e a manteve aninhada junto a si, enquanto a sentia estremecer e ofegar com o orgasmo rápido e violento que sempre acontecia entre os dois.
Naoko pousou a cabeça no ombro dele e sentiu que jamais teria com outro o prazer e a proximidade que vivenciava cada vez que ele a possuía.
– Você é a minha única fraqueza... – disse ela rente aos lábios do japonês.
– E você é a minha.
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– Vamos lá! Digam X! – falou Rin afastando o celular e batendo mais uma foto dela, Shun e Inoue em frente à vitrine da loja cara.
O shopping Laforet era uma fonte de inspiração para os que gostavam de ousar na hora de se vestir. Marcas mais convencionais, como a Topshop e a See by Chloé, dividiam espaço com lojas menores exibindo peças de design criativo e era o lugar preferido de Rin que arrastara os colegas para fazer umas comprinhas antes de embarcarem na jornada de realizar o extenso trabalho proposto pela professora Izumu.
– Essa já é a décima foto. Você disse que era uma passagem rápida no shopping e que logo faríamos o trabalho. – disse Shun incomodado com o assédio constante da colega e também consigo por se permitir ser arrastado para aquele lugar.
– Ah, Shun... não seja um desmancha prazeres! Teremos bastante tempo para o trabalho.
– Eu desmarquei um compromisso importante para fazer este trabalho. – disse o jovem, irritado. – Já estamos há duas horas neste shopping.
– Compromisso, é? Com quem? Não me diga que você tem namorada. – falou Rin beliscando-o no braço.
– Ai! Pare com isso! – disse ele esfregando o local.
– Vamos, conte tudo seu safado... – provocou ela.
Com um suspiro, Shun resolveu abrir o jogo.
– Sim, eu tenho namorado.
– Namorado?! Shun, você é... você é gay?!
– Não precisa gritar, Rin. – disse Inoue olhando para os lados.
Shun encarou-a com os olhos grandes e verdes, como se estivesse olhando para uma criança.
– Sim, eu sou. Algum problema?
Rin estava atônita. Como assim essa belezinha é gay? Puta que pariu! Quando eu, finalmente, me interesso por um homem, ele é gay! Gay!Gay! Caralho! Puta que pariu! E eu fiz essas compras todas para impressioná-lo! Comprei até uma lingerie nova!
– Claro que não, sou uma mulher moderna. – respondeu ela com um sorriso forçado e um tom de voz suave.
– Ótimo, então. Vamos voltar para a universidade e começarmos o trabalho. – disse ele.
Inoue levou a mão aos lábios. Rin era completamente sem noção. Filha de um cantor popular do Japão, Tsuyoshi Kusanagi, ela estava costumada a ser o centro das atenções. Seu pai era um artista do popular grupo japonês SMAP, cujo desempenho podia ser acompanhado em trilhas sonoras compostas para dramas, shows de variedades e filmes na televisão, o que atraía sempre o olhar da imprensa.
Mesmo não sendo afetado, dava para perceber que Shun não se interessava por garotas, pensou Inoue. Mas, totalmente voltada para si, Rin não percebera e continuara investindo no colega kawaii e agora se defrontava com a decepção.
– Então vamos. – disse ela enfiando o braço no de Shun.
– Até que enfim. – falou o jovem, revirando os olhos.
Quando deixaram o shopping nenhum dos três percebeu, mas haviam paparazzi rastreando os seus passos de forma discreta, mas que, certamente, renderia uma boa matéria na próxima revista: Filha de Tsuyoshi faz compras com o namorado e a amiga no shopping Laforet.
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– Está doente? – perguntou Ângelo ao ver que Afrodite não fazia menção de levantar.
– Minha garganta dói, acho que estou com febre. – respondeu o loiro voltando a enrolar-se nos lençóis.
– Deixe-me ver. – falou Ângelo tocando na testa do loiro.
Franzindo o cenho, o executivo acariciou o belo rosto.
– Não me parece estar com febre. Aconteceu alguma coisa na universidade? Notei que você não falou muito sobre o seu primeiro dia.
A expressão de Afrodite se manteve neutra, embora por dentro houvesse uma revolução de sentimentos. Acostumara-se a contar consigo, a confiar apenas em si mesmo. Era difícil abrir-se, permitir-se ser ajudado. No entanto, amava aquele italiano e agora tinha certeza disso. Passara a noite em claro, pensando no que fazer e, ao encontrar os olhos azuis preocupados consigo, obteve a sua resposta...
– Sim, aconteceu.
– O que foi?
– Meu passado. É hora de você saber quem sou eu.
O celular tocou e Ângelo ignorou, porém a insistência o fez atender.
– Você ligou mais cedo? Ah, eu tinha deixado o celular no silencioso. Sim, Aiolia havia me falado sobre a tal entrevista, mas eu tinha alguns contratos pendentes para analisar antes da nossa reunião no final da tarde. Sabe que não gosto muito dessa coisa de entrevista.
Enquanto Ângelo falava, Afrodite resolveu levantar-se. O italiano percebeu o afastamento do amante e gesticulou para que ele esperasse.
– Nós conversamos quando eu chegar aí. Estou com algo importante para resolver aqui. – disse ele.
Afrodite olhou-o com um meio sorriso. Por alguns segundos, cogitou em voltar atrás e deixar aquele assunto para outra oportunidade. Porém, a atenção que Ângelo fazia questão de oferecer tornava as coisas diferentes.
– Sou todo seu, belo. Conte-me o que está acontecendo.
– Lembra quando eu contei sobre o meu ex-namorado fotógrafo? Bem, a história entre nós dois foi intensa, porque quando eu o conheci, não sabia nada da vida e ele foi o meu primeiro. Minha família sempre foi ligada à arte. Meu pai era artista plástico e, após separar-se da minha mãe que era cantora lírica, assumiu sua verdadeira natureza e encontrou seu grande amor que era um homem. Por isso, jamais tive problemas quanto à minha sexualidade e nunca precisei esconder minha condição. No entanto, apesar de toda a liberdade e compreensão, fui protegido da realidade em si. Para o meu pai, o amor era a mola mestra do mundo e todos eram confiáveis e honrados. Quando deixei a Suécia e fui para a Grécia, acabei acreditando nesta mesma filosofia. Ao me apaixonar por Kanon, acreditei em tudo o que ele dizia, inclusive, o fato que poderíamos viver em um país completamente diferente do que estávamos acostumados e que seríamos felizes para sempre. É óbvio que não foi o que aconteceu, ele não suportou a pressão de uma cultura que cobra eficiência e resultados vinte e quatro horas por dia. Começou a usar drogas e quando eu quis deixá-lo, ele me agrediu e...
– E?
– Ele fugiu e me deixou no hospital sem passaporte, dinheiro, nada. Por obra do destino, acabei despertando o interesse de um dos médicos e fui tratado, mesmo não podendo arcar com as despesas. Ele era casado, mas tinha interesse por homens. Tivemos um caso, mas prometi a mim mesmo que jamais colocaria minha vida nas mãos de outro homem. Acabei encontrando o Dark Sex e fui trabalhar lá.
– Afrodite, o que está me contando tem um motivo. Qual é? – perguntou Ângelo.
– Kanon voltou e está lecionando na universidade. – respondeu o loiro.
O olhar de Ângelo endureceu.
– Ele o quê? – perguntou com a voz num tom calmo, mas o maxilar traía a fúria que sentia.
– Ele é professor da disciplina de fotografia.
Ângelo pegou o celular sem tirar os olhos de Afrodite.
– Senhorita Aiko? Diga a Hades e Aiolia que surgiu um imprevisto e terei que cancelar a ida ao escritório hoje.
– O-O que você pretende fazer? – perguntou o loiro com os olhos arregalados.
– Vou deixar bem claro para o canalha do seu ex-namorado que se ele pretende conservar a cabeça em cima dos ombros, vai pedir demissão do cargo imediatamente!
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