KURAI YOKUBÔ (desejos obscuros)
4 Capítulo 3 - Dias de tempestade!
Notas iniciais

Kanon estava em pé como uma bela escultura do período clássico. A sala de espera exibia pinturas e retratos contando a história daquela universidade.
Apesar da beleza do rosto, havia um vinco entre as sobrancelhas. Sob seu exterior calmo, uma insegurança lhe contraía o estômago e as mãos permaneciam fechadas ao lado do corpo. Havia sido chamado ali, enquanto o monitor iniciava a aula que devia estar propiciando aos seus alunos. Não recebera nenhuma explicação, somente fora avisado que alguém pedira para falar com ele.
Será que descobriram sobre o meu passado? Pensava, nervosamente, quando a porta se abriu e um homem baixo e bem vestido entrou.
– Bom dia. Desculpe fazê-lo esperar.
– Quem é você?
– Sou o advogado e...
– Urahara, deixe os papéis aí e saia, por favor. – a voz grave pareceu retumbar no pequeno espaço, fazendo Kanon olhar para o dono dela.
– Sou um homem ocupado e não tenho tempo a perder. – disse Ângelo. – Estes papéis constituem num ressarcimento pela sua demissão.
– Espere aí! Que demissão? Do que você está falando?
– O senhor vai pedir demissão do cargo de professor e vai ser ressarcido por isso.
– Como assim? Com quem estou falando?
– Me chamo Ângelo e não digo que seja um prazer conhecê-lo. Vou direto ao assunto. Eu sei do seu passado com Afrodite e não permitirei que depois de tudo o que fez a ele, você venha constrangê-lo. Você vai pedir demissão e sumir. Estes papéis incluem uma carta de demissão, uma declaração que não voltará a lecionar nesta universidade e um cheque.
O olhar de Kanon mudou da angústia para o enfrentamento.
– Ah, entendi. Você é amante dele e tem medo que ele volte pra mim. Está me coagindo em meu emprego por isso! Pois vá esperando! Você não tem esse direito! Aliás, que desculpa deu para atrapalhar a minha aula e me fazer essa ameaça ridícula?
Os olhos azuis de Ângelo brilharam perigosamente, fazendo jus ao apelido de Máscara da Morte. Ele se aproximou de Kanon e, mesmo sendo mais baixo, pegou-o pelo colarinho batendo com as costas dele na parede.
– Você vai pedir demissão, seu filho da puta ou eu vou arrancar a sua cabeça! Entendeu? Eu estou te dando a opção de sair dessa de forma digna, mas se não quiser, eu terei prazer em te ferrar da forma mais dolorosa possível!
– S-Senhor Ângelo! – falou o advogado entrando na sala.
Mesmo estando em uma situação desfavorável, Kanon riu com escárnio.
– Você pode me matar, mas isso não muda o fato de Afrodite ter sido meu e de ainda me querer!
O soco atingiu-o em cheio no rosto, fazendo o nariz sangrar. Kanon cambaleou e Urahara afastou o executivo com dificuldade.
– Pare! O senhor tem um nome a zelar. – disse o advogado.
– Eu não estou brincando, seu covarde! Se eu encontrar você aqui, eu acabo com a tua raça! – gritou Ângelo.
Neste ínterim, Afrodite chegou. Estava angustiado e, ao ver a cena, seu coração disparou. De um lado, Kanon passava a mão sobre o rosto machucado. No outro, Ângelo parecia um cão raivoso que mal era contido pelo advogado franzino.
– O que está acontecendo aqui? – questionou o loiro.
– Eu disse para me esperar! Não era para você estar aqui, Afrodite. – falou Ângelo.
– Então é assim? É esta a sua vingança contra mim, Afrodite? Vai ferrar com a minha carreira mandando seu amante rico me ameaçar? – gritou Kanon limpando o sangue do nariz com as costas da mão.
Os olhos de Afrodite se encheram de lágrimas.
– Não!
– Não fale com ele! Esse escroto não vai continuar aqui! – vociferou Ângelo.
– Chega! Isso acaba aqui. – disse Afrodite deixando a sala.
– Afrodite... – falou Ângelo indo atrás do amante.
Kanon olhou para os papéis sobre a mesinha. Por curiosidade, verificou o cheque e se surpreendeu com a alta quantia. Então o amante de Afrodite era rico... O jogo, dali para frente, ficaria muito mais interessante. Rasgou o cheque e os papéis, decidindo comprar aquela batalha com o amante de seu ex.
Assim que fez menção de deixar a sala, um homem corpulento se interpôs em seu caminho. Tinha um maxilar quadrado e um nariz que parecia ter sido quebrado várias vezes. Trajava um terno escuro e bem cortado. A bengala que trazia na mão esquerda parecia uma obra de arte, esculpida em marfim e prata.
– Não consegui que fosse aceito aqui para criar confusão e sim para saldar a dívida que tem para comigo. Eu poderia ter deixado que o matassem, mas vi em você a oportunidade de ganhar mais com a sua vida e o seu talento.
– Eu sei e vou manter a minha palavra.
– O que aconteceu aqui?
– Pendências do passado.
– Pois é melhor resolvê-las ou minha proteção deixará de existir.
Kanon assentiu e tentou manter-se calmo. O homem deu-lhe as costas e logo uma voz feminina irrompeu o ar.
– Ei, colega! Faremos uma reunião do departamento de arte, mais tarde. Ei, o que aconteceu com o seu rosto? – perguntou Izumu se aproximando com o cenho franzido.
– Hã... Eu tropecei e acabei batendo com o rosto na parede. – respondeu Kanon meio sem graça.
Izumu retirou um lenço de papel da bolsa e ofereceu-o ao colega.
– Tome. – disse ela. – Espero você lá.
A exótica professora se afastou e Kanon suspirou. O destino era mesmo caprichoso. Quando aceitara aquele emprego, jamais pensara em reencontrar Afrodite. Mas, ao vê-lo, o passado retornara com tanta força que ele não conseguia se controlar. Precisava resgatar a relação que tivera com ele, assim que pagasse a sua dívida.
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Yoshiki explanava sobre o conteúdo, enquanto Minos fazia suas anotações. No entanto, muito do que o professor falava não era do seu entendimento e ele coçava a cabeça, tentando achar um denominador comum para todas as falas.
– Senhor Minos, dê um exemplo do que acabei de falar. – disse o professor.
O jovem elevou os olhos. Por um momento, ninguém falou, nem se mexeu. Misty sentiu um arrepio de prazer ao notar que Minos não parecia saber do que Yoshiki estava falando.
Então, Minos desmoronou na cadeira. Uma olhada sincera na direção do professor e ele deixou claro que não estava conseguindo acompanhar seu raciocínio.
– Tenho que ser verdadeiro, professor. Não compreendi este conteúdo, então preciso de mais tempo para poder responder a sua pergunta.
A classe olhou para Minos e para Yoshiki. Alguns cochicharam, outros se surpreenderam com a franqueza do colega. Na verdade, na aula do professor Yoshiki ninguém ousava mostrar-se vulnerável sob pena de ser ridicularizado pelos demais.
Yoshiki se aproximou de Minos com o semblante sério e o jovem manteve a conexão sem se abalar, embora experimentasse um desconforto por não acompanhar a aula.
– Estou, realmente, surpreso, senhor Minos. É preciso ter muita coragem e sabedoria para reconhecer os seus limites e, também, para revelá-los. – disse o professor.
– Eu não tenho porque mentir. Estou aqui, graças ao exame de proficiência, mas tem algumas coisas básicas que me faltam. Mas, vou correr atrás, eu prometo.
Percebendo que o professor direcionava seu interesse para o colega, Misty se adiantou:
– Eu entendi, perfeitamente, senhor Yoshiki. Posso dar um exemplo? – perguntou com um olhar triunfante.
– Mas é claro, senhor Misty. Inclusive, dado o seu nível, sugiro que ajude o colega, após as aulas. Vou torná-lo meu monitor.
O sorriso morreu nos lábios do jovem e Minos não conseguiu esconder que a ideia não lhe agradava.
– Acho que o Misty é adiantado demais pra mim e eu só vou aborrecê-lo. Eu me viro. – falou Minos.
O professor olhou para os dois.
– Esta disciplina é pré-requisito para as demais e sou bastante exigente. Orgulho é bom, mas em demasia pode ser a queda de um homem.
Prefiro cair de cabeça que pedir ajuda à Annabelle universitária! Pensou Minos.
Deus me livre ter que estudar com este albino obtuso! Pensou Misty.
– Terei muito prazer em ajudá-lo, meu caro colega. – falou Misty falsamente. E eu espero, sinceramente, que você recuse, seu idiota.
– Eu agradeço a sua ajuda, mas não quero abusar.– respondeu Minos com um sorriso mordaz. Nem pensar em conviver mais do que o necessário com esse imbecil.
Experiente, Yoshiki percebia que se estabelecia uma rivalidade entre os dois, mas o simples pensamento de tê-los juntos, para si, era muito excitante e desafiador. Até mesmo a animosidade poderia ser um excelente afrodisíaco...
– Pois muito bem, já que não conseguem chegar a um denominador comum, proponho um grupo de estudos no final de semana onde me disponho a orientá-los e sanar dúvidas. Está bem assim?
Minos sorriu.
– Eu aceito. – disse ele.
– Eu também. – completou Misty.
No entanto, para surpresa do professor, outras mãos se ergueram e logo, Yoshiki tinha um grupo considerável de alunos para atender.
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Afrodite não sabia o que dizer, nem o que pensar. Ao compartilhar com Ângelo sobre Kanon, não esperava uma reação violenta do amante. Sentia-se culpado e angustiado. Nem mesmo aquele belo recanto, rodeado por uma cerca viva com uma pequena fonte, podia acalmá-lo.
O que eu fui fazer? Porque não desisti de tudo isso?
Ângelo estava alterado, não esperava que Kanon o enfrentasse, nem que Afrodite presenciasse a cena.
– Eu perdi a cabeça, mas não foi assim desde o início. – disse ele passando a mão nos cabelos negros.
– Eu não pedi a você para ameaçá-lo. Eu só... só não queria que houvesse segredos entre nós. Eu...
– Eu não vou deixar aquele homem perto de você!
– Creio que é melhor eu suspender os estudos por enquanto.
– Nem pensar!
– Ângelo... eu não quero...
Máscara da Morte não o deixou terminar a frase.
– Escute... não se preocupe com nada. Eu vou dar um jeito.
– Por favor, nada de violência. Prometa!
– Vou fazer o meu melhor. Agora, vamos embora. Amanhã tudo estará resolvido.
– Eu tenho mais uma aula e combinei com os rapazes para nos encontrarmos depois.
– Então assista, eu aguardarei fora da sala.
– Não é preciso. Você é um homem ocupado e eu posso cuidar de mim.
– Já cancelei todos os meus compromissos. Não vou arriscar deixá-lo sozinho com aquele escroto circulando por aí.
Afrodite passou um dedo na face de Ângelo. O toque suave fazendo-o fechar os olhos por um segundo.
– Amo você. Nunca duvide disso. – sussurrou ele.
O executivo pareceu engasgar e, em seguida, tomou-o nos braços e o beijou avidamente, como se nunca mais fosse soltá-lo. Era uma emoção ardente e angustiada, algo que o pegara desprevenido. Sempre fora um homem controlado, embora tivesse uma personalidade irascível. No entanto, Afrodite despertava em si uma necessidade de cuidar, proteger. Não se permitiria perder aquele que amava. Nunca mais!
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Aiolia não costumava ver TV, mas naquela noite, resolveu assistir o canal Fuji News Network. Estava chateado porque Hades e Ângelo não estavam entusiasmados com a entrevista que conseguira. Talvez, se ficasse por dentro da programação, pudesse tranquilizá-los. Serviu-se de uma dose de uísque e se sentou no sofá amplo e confortável. Ainda era cedo e logo Shun estaria em casa. Pensou em pedir uma tele-entrega e assistir um filme com ele.
O telejornal iniciaria dali a dez minutos, mas antes, um daqueles momentos onde alguém famoso era flagrado em um momento íntimo no quadro conhecido como Câmera indiscreta.
E hoje no shopping Laforet, a única filha do cantor Tsuyoshi Kusanagi fazia compras ao lado de uma amiga e de um belo jovem que parece ser o novo candidato a ter a sua atenção amorosa. Parece que a universidade ganhou calouros muito interessantes para a felicidade da bela Rin Kusanagi. Os dois pareciam bem próximos e felizes!
O mundo pareceu congelar naquele exato instante. O copo de uísque deslizou entre seus dedos, indo espatifar-se no tapete, enquanto Aiolia via a imagem de Shun junto de uma garota que fazia uma selfie dos dois.
– Mas que diabos é isso?!
O som da chave na porta o fez virar-se e encarar um Shun sorridente, mas visivelmente cansado.
– Oi! – disse ele.
Aiolia não respondeu. Com o controle na mão, pausou a imagem da TV, mesmo ela sendo ao vivo. Seu rosto estava fechado em uma expressão de raiva. Shun olhou-o e, em seguida, viu a imagem na tela grande. Sentiu o sangue fugir do seu rosto.
– Eu posso explicar.
– Esse era o trabalho que tinha para fazer? Compras no shopping com aquela garota?
– Aiolia, não é bem assim, eu...
– Porra, Shun! Eu desmarquei com um corretor que possui uma infinita lista de espera! O homem abriu um horário para vermos um imóvel e você disse que não podia, porque tinha um trabalho importante para fazer. Você mentiu pra mim!
– Aiolia, por favor... Eu não estou acostumado a dizer não e... Bem, a Rin pediu para irmos com ela em um lugar antes de iniciar o trabalho. Ela disse que seria rápido e que precisava da nossa ajuda, minha e da Inoue. Mas, acabou que ela fez um montão de compras e ficava fotografando. Eu sinto muito. Se eu soubesse, não teria concordado.
– Engraçado, não é? Não pode dizer não a ela, mas disse a mim. E para algo mais importante que compras num shopping da moda.
– Eu sei que... fiz mal, mas... Por favor, me desculpe. Eu estou entrando num mundo diferente, eu... eu nem sempre consigo tomar a decisão correta, mas eu estou tentando. E eu te amo.
Os olhos suplicantes de Shun encontraram a mágoa nos de Aiolia. O leonino não estava acostumado a ser preterido e, de repente, o castelo de cartas ruiu. Mas, junto ao poderoso orgulho, vibrava um amor ardente. Já fora casado e sabia que a vida a dois tinha os seus momentos de tensão. No entanto, fora aquele incidente, Shun era uma pessoa adorável e o completava como ninguém. Valia a pena brigar e ficar emburrado?
– Vem cá... – ordenou ele.
No instante seguinte, Shun se jogava nos braços do leonino. Aiolia o beijou esfomeado e foi correspondido na mesma medida. De repente, a notícia, as imagens, tudo ficou para trás enquanto os dois se despiam e corriam para a cama, desabando nus entre os lençóis do mais macio algodão egípcio.
Shun beijava o amante nos cabelos, na testa, no pescoço. Os gemidos escapavam dos lábios, as línguas faziam amor dentro das bocas... Aiolia inclinou-se sobre o peito de Shun sugando os mamilos, enquanto o jovem sentia a pungente ereção roçar a sua para, em seguida, buscar a entrada de seu corpo.
Com habilidade, Shun levou a mão ao falo do leonino, preparando-se para deslizar e tomá-lo na boca.
– Não... – murmurou Aiolia. Com um olhar selvagem, segurou as mãos de Shun e as prendeu acima da cabeça, mantendo-o prisioneiro de seus lábios, seus dentes e seus beijos até que o amante implorasse.
– A-Aiolia... Por favor... – sussurrou Shun arqueando o corpo que ardia sob o do leonino.
Sem pressa, Aiolia ajoelhou-se entre as coxas de Shun e beijou a carne macia. O jovem arqueou o corpo novamente, enquanto o leonino deslizava o nariz e os lábios sobre os pelos que circundavam o falo túrgido.
Shun gemeu e lançou-se sobre ele, mas Aiolia o prendeu novamente, desta vez segurando-o com uma mão e usando a outra para tocá-lo.
O jovem choramingava, implorava e Aiolia... Aiolia explodiria se não o penetrasse logo. Seu falo pulsava, exibindo uma brilhante secreção, a prova que estava muito, mas muito excitado.
Colocou-se sobre o corpo esguio, afastando-lhe as coxas ao mesmo tempo em que Shun usava as pernas para cingi-lo pelo quadril.
– Você é meu... – disse Aiolia tomando-o num único e profundo movimento.
Shun gritou, mas o leonino estava transtornado. Ele investiu novamente e continuou a estocar rápido e fundo, enquanto Shun jogava a cabeça para trás e gemia rouco, o corpo estremecendo de prazer e dor.
Por um momento, o leonino estancou, arrependido do descontrole com que movia os quadris e se aprofundava dentro do corpo receptivo. Entretanto, Shun estava gostando, era delicioso perceber que Aiolia ansiava por ser saciado tanto quanto ele. Que o calor do seu corpo era capaz de abalar o rígido controle que Aiolia mantinha sobre si mesmo.
Arqueando e pressionando todo o seu corpo contra o de Aiolia, Shun fez com que ele retomasse os movimentos e fosse mais fundo, com movimentos mais rápidos e intensos. Arranhou as costas bronzeadas e fitou-o com os olhos febris, louco pelo orgasmo e por senti-lo derramar-se dentro de si.
Os dois se olharam quando o clímax abateu-se sobre os corpos unidos e os deixou banhados de suor. Shun gemeu alto e Aiolia grunhiu, movendo os quadris num último espasmo e cravando os dedos na carne macia e quente do amante.
O orgasmo explodiu, quase ao mesmo tempo para os dois.
Para Shun foi como se cargas elétricas riscassem seu corpo, ao mesmo tempo em que Aiolia se derramava dentro de si causando um prazer excruciante, intenso, ardente... O jovem gritou e sentiu seu sêmen molhar a mão de Aiolia, no mesmo instante em que ele estocava mais fundo e deixava-se gozar com fúria, estremecendo e o apertando, ainda mais...
Aiolia sentiu como se algo tivesse explodido dentro dele com tanta violência que sua visão se embaralhou. Ele gemeu alto, parecendo libertar algo preso na garganta e apertou mais o corpo de Shun, sentindo seu falo ser sugado pelas contrações do outro.
Ficaram abraçados, arfando, sentindo os espasmos do gozo, arrefecendo... Muito tempo depois, Aiolia se mexeu. Começou a sair de cima de Shun, mas ele o abraçou.
– Estou perdoado? – perguntou com aquela voz baixa e sedutora.
– Está, ágape mou.
Shun sorriu, compreendendo as palavras em grego.
– Eu te amo, Aiolia...
O leonino sorriu e rolou de costas, puxando Shun para cima de seu corpo. Abraçou-o com força e os dois ficaram assim, se beijando e acariciando até as sombras do quarto unirem-se ao sono, abraçando-os carinhosamente...
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Pandora tentava se convencer de que tudo era um pesadelo. Mas não era. Tudo era real, desde o aroma de café preenchendo o espaço até sua mãe parada na cozinha com uma expressão de fúria. Como se ela tivesse culpa por Hades desprezá-la!
– Vai mesmo se casar? – perguntou Dione com a xícara fumegante na mão.
– Sim, mamãe.
Diferente de qualquer mãe normal que ficaria feliz com a felicidade de sua filha, Dione parecia uma gárgula prestes a descer sobre sua vítima e despedaçá-la.
– Não creio que será feliz com um casamento baunilha. Será, apenas, uma questão de tempo até você deixá-lo.
Pandora respirou fundo. Tinha sido submissa em todos os sentidos, mas algo dentro de si havia mudado. Radamanthys a amava e respeitava, mesmo simpatizando com o BSMD. Às vezes, quando faziam amor, se permitiam alguns fetiches, mas nada que afrontasse a integridade ou remetesse para o passado de abuso. Eles iam se casar, construir uma vida juntos. Ela precisava romper com aquele vínculo doentio.
Olhou para Dione e esperou que ela não notasse o quanto estava nervosa.
– Eu acho melhor você ir embora. – disse calmamente, olhando-a diretamente nos olhos.
– Está me mandando embora? Quem você pensa que é?
A exigência e o tom desrespeitoso minou o que ainda restava de paciência em Pandora.
– Não sou mais aquela menina, mamãe. Admita que eu e Hades somos adultos e não queremos a sua interferência em nossas vidas.
O rosto de Dione se tornou mais duro. Quando ela mostrava aquela expressão, parecia muito com Hades. Os mesmos olhos azuis acinzentados, o brilho gélido, o magnetismo dominador...
– Eu contei ao seu irmão que você não era filha do seu pai. – disse Dione com a intenção de ferir a filha que a enfrentava. Somente assim ela se renderia e precisaria dela!
Pandora não disse nada. A revelação não pareceu abalá-la. Ela continuou a servir-se de café e então encarou a mãe.
– Eu sempre soube e ele também. – disse ela, calmamente.
– Como? Você está mentindo! – gritou Dione. A expressão do rosto mudando da raiva para a surpresa.
Foi a vez de Pandora sorrir. A sensação de recuperar o controle sobre si invadindo-a...
– Você se acha tão esperta, não é? Papai disse para mim que não era meu pai de sangue no dia em que me desvirginou. Ele afirmou que me amava e amaria para sempre, que você tinha dado a ele um presente muito valioso e que eu guardasse segredo.
– M-Mas como ele soube?
– Simples, o Dom com quem você transou contou a ele. Na verdade, ele só dormiu com você para se aproximar do meu pai. Ele era bissexual, você não sabia? Meu pai fodeu ele até se cansar!
Dione se apoiou a bancada de granito. As pernas amolecendo.
– Ele nunca disse nada.
– E porque diria? Foi a mim que ele amou. Você era, apenas, uma escrava, uma cadela ordinária que o traiu. Eu era a submissa! Eu dei e recebi todo o prazer que um Dom pode oferecer. Agora, por favor, vá embora e me deixe em paz! – gritou Pandora.
De repente, a energia que a fazia dominar tudo e todos se esvaiu e Dione sentiu que lágrimas escorriam pelo seu rosto. Pandora desviou o olhar e continuou firme, embora lhe custasse ver a mãe desabar por causa das palavras cruéis que lançara sobre ela. Radamanthys chegou a tempo de ver a matriarca sair e Pandora abraçar a si mesma. Aproximou-se devagar e tomou-a nos braços.
– O que aconteceu? – perguntou ele erguendo-lhe o rosto.
– Eu a mandei embora. Finalmente tive coragem de romper com ela. – respondeu Pandora, fungando.
– Você fez bem. Gostaria de ter estado aqui para apoiá-la. – disse ele sorrindo.
– Você estava... Quer dizer, uma parte de você estava comigo. – falou Pandora entre lágrimas e sorrisos.
Radamanthys franziu o cenho. Será que era o que estava pensando?
Pandora continuou sorrindo e tocou o ventre liso. Ainda era imperceptível, apenas um pontinho pulsante dentro dela. Mas, assim mesmo, ele lhe dera forças. Precisava de uma nova vida, era a hora de deixar o passado para trás.
– Sim, estou esperando um filho seu. – disse ela sob o olhar atônito do executivo.
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Hades olhou para o Toyota e ouviu as vantagens do novo modelo explicadas pelo vendedor entusiasmado em atender um cliente como ele.
Dali a três semanas Minos faria 18 anos e já poderia dirigir, embora a maioridade no Japão fosse aos 20 anos.
O carro seria o seu presente de aniversário, assim como a proposta de emancipação. Desejava-o ao seu lado, queria viver com ele uma relação completa, apesar dos quinze anos de diferença entre eles.
– Pode finalizar a compra. – disse ele estendendo o cartão de crédito para a alegria do jovem vendedor.
Enquanto a transação era feita, o executivo pegou o celular e ligou para o amante. Durante a semana, o combinado era que Minos ficasse com sua tia e utilizasse seu tempo livre para estudar a fim de poder acompanhar os colegas na universidade.
– Oi, como foi seu dia? – perguntou Hades.
– Pesado, mas eu quero te ver. – respondeu o jovem.
Hades sorriu. Também desejava. Não importava o quanto o dia fosse exaustivo ou estressante. Minos o deixava sempre disposto e se tornara parte da sua vida ao ponto de não imaginar-se sem ele. Mas, esperava que o seu jovem amante ficasse em pé de igualdade com os colegas e, para isso, era preciso estudar muito.
– O combinado é que nos vejamos nos fins de semana. Tem que estudar. Você mesmo já comprovou que não tem base em alguns assuntos.
– Eu to cansado de estudar. Até aceitei entrar em um grupo de estudos que o professor abriu. Eu quero te ver...
– Está bem, vamos jantar juntos.
Do outro lado da linha, Minos exultou.
– Onde?
– Quer jantar fora ou em casa?
– Na sua casa.
Mais uma vez, Hades sorriu e soube que seria preciso muita disciplina para não burlar as regras novamente...
– Estarei esperando. — falou num tom sugestivo que excitou a ambos.
Enquanto o executivo deixava a concessionária, no apartamento de Minos, Halldora olhava-se no espelho, quando o sobrinho batia de leve na porta e já ia entrando em seu quarto.
– Posso entrar?
– Claro. E então, vai namorar um pouco? — perguntou ela.
– Só vamos jantar juntos. – disse ele.
– Sei... A última vez que jantaram juntos, você só me apareceu dois dias depois.
Os dois riram.
– Daqui a três semanas eu faço dezoito anos. Eu queria que fosse vinte. Acha mesmo que Hades vai querer viver comigo quando eu for maior de idade?
Halldora sorriu. Estava rejuvenescida e bem diferente de meses atrás. O trabalho na Fundação ajudara em seu amadurecimento e suas relações com os homens também havia se transformado. Agora, ela e Minos trocavam impressões e confidências.
– Ele é louco por você, Minos. Disso, não há dúvidas.
O jovem sorriu e se deitou na cama arrumada.
– Eu também sou louco por ele. Às vezes tenho medo que ele me ache jovem demais ou que enjoe de mim.
– Você é muito maduro, Minos. E um homem como Hades não brinca com suas emoções. Agora me ajude aqui. – disse ela exibindo um belo colar de pérolas.
– Eu não conhecia esse colar...
– Foi presente do senhor Mirako.
– Vocês estão namorando?
– Digamos que estamos na fase da experiência.
– Hummm... já foi pra cama com ele?
– Minos! Isso é pergunta que se faça? Claro que não. Nesta primeira fase eu estou agindo como se fosse uma virgem. Eu preciso saber onde estou me metendo. – respondeu ela com um sorrisinho.
Minos riu.
– Bem, sorte nesta fase virginal para você. Eu vou tomar um banho.
Halldora sorriu e continuou se olhando no espelho, gostando da silhueta e do vestido discreto que a fazia parecer uma donzela madura e delicada.
Enquanto Minos se arrumava, Halldora se encontrava com seu pretendente.
O senhor Mirako era um homem na faixa dos 54 anos. Disposto e mais alto que a média dos japoneses, ele sorriu ao ver Halldora usando o presente que lhe enviara. Como um verdadeiro cavalheiro, ele a conduziu ao carro e abriu a porta para que ela entrasse.
Ela sentou no banco macio e Mirako deu a partida, sorrindo e murmurando um elogio que a fez corar.
Nem bem o carro tinha virado a esquina, uma mulher surgiu do nada, fazendo-o frear. Mesmo evitando algo mais sério, o carro de Mirako bateu na mulher que tropeçou com o impacto e caiu.
– Pela deusa Amaterasu! – exclamou ele descendo do carro.
Dione olhou para o homem com uma expressão de dor. Assim que deixara Pandora, saíra sem rumo pela cidade, esbarrando nas pessoas, submergindo ao movimento urbano e frenético que caracterizava a cidade de Tóquio.
Não sabia como lidar com a rejeição e o enfrentamento dos filhos. Quando deu por si, aquele carro viera em sua direção e, por alguns segundos, ela achou que a morte decidira livrá-la daquele fardo doloroso...
– A senhora está bem? – perguntou ele.
– A-Acho que torci o tornozelo. – queixou-se ela.
Halldora ajudou-a a levantar-se e, sorriu, tentando tranquilizá-la.
– Meu apartamento é aqui perto. Vamos dar uma olhada com calma. Se precisar, o senhor Mirako a levará ao hospital.
Amparada pelos dois estranhos, Dione concordou e logo, os três chegavam à pequena sala do apartamento.
– Coloque seu pé aqui. Eu vou fazer um chá. – disse Halldora trazendo um banquinho para acomodar a perna de Dione.
Minos já estava vestido, quando ouviu vozes na sala. Ajeitou a camisa e foi ver o que estava acontecendo.
– Algum problema? – perguntou ele.
– Ah, Minos. Aconteceu um pequeno acidente. – disse Halldora.
O senhor Mirako e Dione olharam para o jovem que os observava sem entender direito todo aquele movimento.
– Muito prazer, eu me chamo Mirako e sou... o pretendente da sua tia. – falou o japonês fazendo uma saudação no estilo oriental.
– E eu... Bem, desculpe não poder levantar-me. Eu me chamo Dione e, como dá para perceber, não sou deste país.
– Muito prazer. – disse Minos.
– Tem alguém que possamos avisar, senhora Dione? – perguntou Mirako.
Dione suspirou e recostou-se ao sofá.
– Meus filhos não querem me ver. Creio estar sozinha nessa.
– Bem, fique aqui até se sentir melhor. Podemos abrigá-la, não é Minos?
O jovem analisou Dione, sentindo a estranha sensação que a conhecia, mesmo sabendo que nunca tinha visto aquela mulher...
– Claro. Mas, posso saber quem são os seus filhos? – perguntou Minos.
Aceitando a xícara de chá e movendo os longos cílios negros, Dione fitou Minos nos olhos e disse, calmamente:
– Meus filhos são o deus do submundo e aquela cuja curiosidade foi a responsável por espalhar todos os horrores no mundo.
– Hades e Pandora... – murmurou Minos, de imediato, sob o olhar penetrante da mãe do amante.
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