13 Segredo


Notas iniciais
Desculpem a demora, talvez eu demore mais para postar agora, vou tentar evitar isso, sei que não interessa para muitos, mas tive uma semana difícil por conta de uns problemas aí, não é nada realmente sério. :)

Acordei com uma leve dor de cabeça, mas assim que me levantei ela desapareceu. Estava com um aperto no peito, o que aconteceu noite passada? Ah! Eu estava em um encontro com Kyle, quando de repente algo acertou minha cabeça, como um tiro. Como eu sei? Não foi a primeira vez.

Isso é estranho fui morto duas vezes na mesma semana, essas coisas não acontecem com tanta frequência... Seria possível que alguém estivesse tentando me matar? Mas isso... Porque alguém faria isso? Sacudo a cabeça. Tsk! Besteira pensar nisso.

Eu estou cansado, mas mentalmente do que fisicamente, eu estava tendo um dia ótimo e essa merda acontece. Eu sinto raiva, mas o que eu posso fazer? Agora passou.

Abri a porta do meu quarto, sim eu estava em casa, como sempre. Eu morro e quando volto de sabe-se lá onde eu estou no meu quarto, faz tudo parte do maldito processo. Esse tiro conseguiu estragar um encontro perfeito!

Espere, eu realmente espero que Kyle esteja bem, se o que me pegou foi um tiro ele pode estar em perigo!

“Ei! O que faz aqui seu merdinha?” Era meu pai, ele estava em casa e me viu saindo do quarto. Bom te ver também pai!

Ele avançou violentamente em minha direção, amassando o jornal que trazia, mas antes que pudesse fazer alguma coisa eu o empurrei contra a parede.

“Não fode velhote, não estou aqui porque quero, e você sabe disso!”

Atravessei o corredor, ele não foi atrás de mim, mas pude ouvi-lo bufar de raiva. Uma vez fora de casa procurei meu celular, não está comigo deve estar na casa de Kyle.

Chego rápido a residência e toco a campainha. Kyle atende, ele me olha um pouco surpreso.

“Kenny, onde você estava?”

Ah, é verdade ele não se lembra de que morri. Isso me fere, mesmo que sem intenção, o fato de tê-lo visto chorar ontem a minha morte e hoje estar aqui inocentemente feliz como se nada tivesse acontecido. Dói. Um dia perfeito novamente esquecido.

É sempre assim, todas as memórias do dia em que eu morro é simplesmente arrancada da memória daquele que as presencia, por mais que pareça bom, pois a pessoa esquece o trauma de minha morte e muitos momentos em que eu morro são bons, são felizes até o acidente.

Se ao menos as lembranças boas pudessem ser mantidas.

Já chega! Entro na casa, um tanto rudemente e subo as escadas em direção ao seu quarto. As coisas não podem continuar assim, eu aguento as consequências, Kyle é esperto e vai entender.

“Kenny!” Ele diz pasmado.

“Tem algo sobre mim que você precisa saber.” Respondo.

Droga eu estou ficando com dor de cabeça de tanto pensar nisso! Entro no seu quarto e lá está o meu celular, ligo para minha mãe. O mais rápido possível, agora não é hora de dar pra trás.

“Alô? Kenny?” Ela responde.

“Preciso que você venha aqui.” Meu tom é sério.

“O que houve?” Ela pergunta preocupada.

“Preciso que você conte sobre... ‘aquilo’ para alguém.” Ela sabe exatamente do que estou falando. Só ela pode fazer isso.

A linha ficou um pouco silenciosa.

“Você tem certeza?”

“Tenho.” Eu acho.

Kyle estava parado na porta do quarto me olhando confuso.

“Minha mãe está a caminho. Só ela pode te contar o que quero que saiba.”

“Por quê?”

“Porque essa é a única forma de você se lembrar.”

Kyle não pareceu levar muita fé no que eu falava, chegou até a colocar a mão em minha testa para ver se eu estava bem. Mas já estou farto de ser o único a se lembrar dos dias em que eu morro, ontem estávamos num encontro! Hoje mal sei dizer até onde ele se lembra.

“O que está acontecendo? Seu comportamento está muito estranho!”

Não respondi, tudo vai se explicar. Minha mãe não demorou muito a chegar de acordo com o relógio, mas para mim cada segundo aprecia muito mais tempo. Eu não quero me arrepender, mas tenho medo de como Kyle vai reagir depois de descobrir meu segredo.

Não é um segredo normal, como o da maioria das pessoas. Eu literalmente não sou normal, essa maldição que tenho e nunca descobri como pode ser quebrada, é a primeira vez que a revelo para alguém.

Talvez seja uma má ideia. Embora seja injusto eu carregar um segredo da pessoa que eu amo, corro muitos riscos aqui, o risco de Kyle não aceitar e me deixar é um deles, e o que eu mais temo. Como alguém pode aceitar isso? Quantas pessoas já passaram pela situação de descobrir que seu namorado é imortal. Mas é esse risco ou viver sabendo que cada dia pode ser esquecido por ele, eu sinceramente não sei o que é pior.

A campainha toca, olho para Kyle, ele desce as escadas ainda sem dizer nada, não há nada para ser dito até que eu explique tudo, acompanho-o. Ele abre a porta e do outro lado está minha mãe, ela parece com pressa, deve estar no seu horário de almoço ou algo assim.

Ela pede licença e entra na casa. Sento-me no sofá da sala, Kyle senta do meu lado e minha mãe senta-se em uma poltrona a minha direita. Kyle parece um pouco inquieto, eu acho que também estaria se tivesse que passar por todo esse suspense.

“Bem, o que eu preciso saber que só a senhora pode me dizer?” Ele enfim pergunta para minha mãe.

Ela me olha, ainda não segura se deve falar o segredo que carrega a meu respeito. Faço que sim com a cabeça em sinal de que pode prosseguir. Ela então respira fundo e responde.

“Bem, por onde começar? Escute com atenção. Há muito tempo eu e Stuart íamos a encontros de diversos cultos, não porque acreditávamos em seus ensinamentos, mas porque serviam comida e cerveja de graça. Éramos jovens e inconsequentes.” Tenho pena de minha mãe quando ela diz isso, ela e papai ainda são bem ‘inconsequentes’. “Um dia estávamos nesse culto, um culto sobre uma criatura chamada Cthulhu. Eu estava muito bêbada para lembrar-me exatamente o que houve, mas aparentemente participei de um ritual para trazer a tal criatura de volta a vida, um ritual que falhou. Durante alguns meses tive sonhos estranhos e parei de frequentar o tal culto, pouco tempo depois nasceu Kenny.”

“Como eu não era a tal criatura que o culto espera que eu fosse nunca vieram atrás de mim ou dos meus pais, mas algo aconteceu no ritual, algo que me atingiu e me amaldiçoou com um terrível poder.”

Kyle nos olhava confusos, como se estivéssemos contando a história mais absurda do mundo, e pensando agora era uma história bem absurda, sinto que se eu não tivesse morrido e voltado tantas vezes e sonhado com R’lyeh eu também não acreditaria.

“Poder?” Perguntou em um tom de descrença.

“Kenny não pode morrer.” Disse mamãe.

“O que?” Perguntou o ruivo indignado.

“Eu já fui morto varias vezes, mas eu sempre volto.”

“E sempre que volta todos se esquecem de sua morte, ou dos eventos que ocorreram nesse dia.”

“Até mesmo você.”

Houve um breve minuto de silêncio, até que Kyle fez a reação que eu esperava, em sua mente provavelmente se lembraria agora de todas as vezes em que eu morri em sua presença, todas. Sua expressão demonstrava nada além de terror e descrença, afinal eu havia sido morto muitas vezes, uma bomba de todas essas lembranças podem realmente enlouquecer alguém.

Tudo bem, agora eu estou me sentindo mal por fazê-lo se lembrar de tudo isso por mero egoísmo meu. Abracei-o, mas não houve reação estava suando frio e tremendo um pouco, estava em choque.

Kyle apertava sua cabeça como se doesse, até que soltou um grito e desmaiou. Minha mãe se levantou da poltrona e colocou a mãe em sua testa, aparentemente estava com febre, um efeito colateral.

“Ele precisa descansar, são muitas lembranças de uma só vez.”

Eu concordei com ela, desfiz o abraço, peguei-o no colo e o levei até seu quarto, depois me despedi de mamãe que disse estar atrasada para o trabalho. Sentei do lado do ruivo e beijei sua testa, depois me sentei na cama e fiquei ali esperando ele acordar. Eu o amo tanto Kyle, mas tenho medo de o que irá dizer quando acordar.

Tenho medo de algo em você mudar, talvez tenha realmente sido tudo uma má ideia, mas o que posso fazer? Agora você vai se lembrar. Meus olhos se encheram de lágrimas, mas não cheguei a chorar, meu coração acelerava eu estava mesmo com medo, foi uma aposta alta.

“Kyle, por favor não me odeie, eu só quero você do meu lado por inteiro, que sinta o que sinto por você sem restrições, eu... só quero que você saiba que eu te amo. Espero que possa me perdoar por te fazer ter essas lembranças e se possível, que me ame de volta.” Beijei-o nos lábios, segurei sua mão e esperei.

Notas finais
Okay, eu poderia ter feito uma declaração mais romântica... Mas aí está.