K²
14 Coon
Notas iniciais
Mais um dia se passou, e não fiz o que havia prometido para mim mesmo de fazer desde quarta feira. Preparo um café e sento-me na poltrona, porque não o fiz? Não é de o meu feitio ter pena ou remorso por algo, então por quê? Porque não o executei?
Ligo para o celular de minha vítima, que o atende rapidamente. Ele está mesmo vivo, eu não entendo. Digo que digitei o número errado e desligo. Essa sensação. O que houve? O que me fez hesitar? O que antes me deu como um ataque de raiva, talvez vingança, agora soa como uma obrigação para mim, um dever que eu preciso cumprir. Uma missão que falhei.
Quando pego minha arma vejo que tem duas balas faltando, isso é estranho não me lembro de ter atirado, mas o objeto metálico em minha mão descreve outra história. Lembro-me então que na quinta-feira havia sentido algo parecido. Como se as lembranças de um dia simplesmente houvessem desaparecido.
Essa sensação acontecia comigo quando criança, mas eu não ligava muito, não que eu tivesse perdido algo de importante. Mas sábado eu fui mais esperto, para saber os motivos que me impediram de fazer tal ação e não me recordar, levei comigo um gravador. Ouço as gravações.
“Os dois estão caminhando de mãos dadas, acerto um tiro daqui fácil.” Há o som de um disparo e alguns gritos. “Em cheio, bem na testa, tchauzinho Kinny.”
Ouço a gravação várias vezes. Minha própria voz confirma que o tiro foi dado e o alvo apagado, então porque não me lembro e porque ele vive? Eu não posso ter mentido para mim mesmo poderia? Eu ouço a gravação novamente, ouço o tiro e minha confirmação.
ENTÃO COMO? Jogo a caneca contra a parede quebrando-a em diversos pedaços e molhando o chão de café. como é possível que ele não tenha morrido com um tiro na cabeça? Ao menos, se estivesse hospitalizado... Que explicação que há? Eu errei? Mas eu nunca errei, principalmente duas vezes. Será possível que ele não... Não! Isso é impossível! Mas que outra explicação há? Se for verdade ou não, só existe uma pessoa quem eu possa perguntar sobre o assunto.
Pego meu celular no bolso e procuro na lista de contatos o nome, a única pessoa que conheço capaz de entender um evento como esse, ou quase isso: Damien Thorn. Diferente dos outros meninos Damien sempre fora “especial” e com isso ter um conhecimento em anormalidades como nenhum outro, embora quando crianças nós tínhamos nossos desentendimentos, ao longo dos anos cultivei com ele uma amizade para ter acesso a informações como essa.
Disco o numero e aguardo.
“O que quer gorducho?” Atende o rapaz.
“Preciso lhe perguntar algo.” Deixei claro que não se tratava de brincadeiras com meu sério tom de voz.
“Diga.”
“Quais são as chances de alguém não morrer quando morto?” Há um breve silêncio na linha, então resolvo ser mais específico. “Digo, você da um tiro nessa pessoa e no dia seguinte ela está lá, inteira e ninguém se lembra do que aconteceu no dia anterior, o dia do tiro.”
“Isso não parece ser algo normal.”
Realmente Damien, você é um gênio! Pelo amor... Mas estou sério aqui.
“E se essa pessoa fosse o Kenny?”
Damien não responde, seu silêncio indica de que sabe exatamente do que estou falando por mais que disfarce, mas tem algum receio de continuar com a conversa. Mesmo que negue, era óbvio que alguém que se intitula o filho do lorde das Trevas, saberia sobre um simples evento como esse.
“Afinal ele tem tal capacidade, não?” Prossigo com meu ‘sutil’ interrogatório.
“Sim, Kenny é incapaz de morrer ou ser morto.” Confirma.
“Como isso é possível?”
O anti-cristo suspira antes me responder.
“Parece que lhe foi jogado uma maldição antes mesmo de nascer.”
“Por quem?”
“Os garotos góticos poderiam te responder isso.”
“Pare de me enrolar porra! Conte-me logo tudo o que sabe!” Grito. Se tem algo que eu odeio é esse maldito jogo de informações quebradas, se ele sabe do que estou falando é melhor me contar, pois sabe muito bem com quem está mexendo.
“Só tenho poder para me envolver em assuntos vindos de mim ou meu pai, e bem esse ‘efeito de imortalidade’ não foi causado por nós. Porém, a maldição foi causada por uma criatura denominada Cthulhu, não é algo que venha do inferno então não tenho muito poder contar ele. Aparentemente ele ou seus pais devem ter se envolvido em algum ritual envolvendo o Necronomicon e as pessoas que veneram Cthulhu.”
Bom garoto respeite minha autoridade e me conte tudo.
“E como funciona essa imortalidade?” Porra.
“Até onde eu sei, até porque diferente de vocês mortais, eu me lembro de todas as vezes em que Kenny foi morto, e acredite em mim foram varias, principalmente quando éramos crianças, ele morre é mandado para a cidade de R’lyeh e volta, com o parto da própria mãe. Depois cresce até a idade e todas as lembranças que teve até o dia de sua morte”
“Então ele morre e a mãe pari ele de novo?” Pergunto levantando uma sobrancelha, isso é bizarro.
“Basicamente.”
“Isso é absurdo!”
“Foi você quem perguntou, eu só estou dizendo o que sei.”
Sim, foi que eu perguntei, mas eu esperava alguma coisa mais... menos esquisita! Desse jeito vai ser difícil ensinar uma lição a Kenny quanto a forma como falou comigo e me tratou nas ultimas semanas, sendo que se algo acontecer com ele eu ainda consigo ferir Kyle como brinde. O plano era tão simples.
Agora a questão é totalmente diferente e complicada, como se livrar de alguém imortal? Era preciso ter poderes extraordinários para isso, mas eu não poderia esperar menos de meu rival Mysterion. Fiquei alguns minutos em silêncio pensando em um plano, precisava pedir a coisa certa á Damien ou seria tudo em vão.
Agora não era mais uma simples lição a se ensinar, era um desafio de meu rival. Uma batalha que ninguém menos do que eu o incrível guaxinim poderia vencer.
O Guaxinim não poderia perder, nunca, não para Kenny. O maldito pobretão metido a herói, como que sua mãe consegue pari-lo todos os dias, isso não faz o menor sentido. Espera, é isso! Eu já sei o que fazer para poder derrota-lo, é complexo e ainda sim tão simples, ainda bem que cultivei essa ‘amizade’ com Damien! Sou mesmo um gênio!
“Obrigado Damien, você me foi muito útil” Desliguei o telefone com meu maldoso sorriso de gato de Cheshire. Em breve começarei a executar meu mais novo plano.
Agora as Garras do Guaxinim estavam mais afiadas do que nunca.
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