PEDRO

— Minha mãe já tinha morrido antes de chegar ao hospital. Meu pai me desertou de vez, tirando meu nome da herança e deixando somente o que era obrigado a deixar por lei. Até fui preso. Mas como era réu de primeiro grau e de “bom nome”, logo fui solto.

— Uma pena. Tudo o que eu queria era estar atrás das grades. E já que não consegui esse... Esse presente, tentei o suicídio. Três vezes. Só que eu sou tão desgraçado que nem isso consegui.

— Demorei quatro anos em hospitais psiquiátricos e alcoólicos anônimos. Não tive mais nenhuma notícia de Gabriel. Se ele tá vivo, eu sinceramente não sei. A mãe dele também sumiu do mapa. Enfim, é assim que a história termina.

Terminei meu discurso e finalmente ergui os olhos para Cristina. Ainda não era fácil para mim falar dos meus sentimentos. Mas depois de tantos psicólogos eu tinha aprendido a contar tudo aquilo em um modo robótico, que quase não me afetava. Ela ajeitou os óculos de aro verde.

— Ainda sente falta do Gabriel?

Eu tinha superado tudo. Ser gay, o desprezo de meu pai, a faculdade. Mas Gabriel era uma ferida que não sarava. Após dez anos eu sabia que a culpa dele ter ido embora era somente minha. No entanto, eu também sabia que nada seria diferente. A pessoa que eu era repetiria todas as merdas.

— Sinto. — desviei os olhos para a janela. O sol se punha no horizonte montanhoso da cidade. — Podemos encerrar por hoje?

Cristina suspirou.

— Tudo bem, Pedro. Nos vemos na próxima quinta.

Caminhei para a saída sozinho. Eu tinha 28 anos agora, mas sentia como se tivesse muito mais. Abaixo da pele ainda jovem, eu estava demasiadamente cansado. Desci para a calçada e peguei um táxi. Falei o endereço de Caio e Jéssica. Ele logo acelerou na direção indicada.

— E aí, mano? — Caio me cumprimentou na sala. Ele assistia TV com uma caixa de pizza no colo. Vestia uma camisa social branca com gravata. Depreendi que tinha acabado de chegar do trabalho. Era finalmente engenheiro civil formado. — Tudo bem lá?

— Unrum. Bem.

Sentei ao seu lado no sofá. Ele ofereceu um pedaço de pizza. Balancei a cabeça negativamente. Não acho que ele tenha se importado com a recusa. Ele continuava com o cabelo cacheado, a pele amarela. Somente havia ganhado dez anos na conta. Caio sempre seria Caio.

— E aí, como foi lá? — Jéssica apareceu.

Repeti a resposta que dei a Caio. Os dois, assim que a faculdade terminou, para surpresa geral da nação, haviam se casado. Já que ainda não tinham filhos por algum problema com Caio, tinham me adotado como um. Eram as únicas pessoas que se importavam comigo no momento.

— Troca esse canal, Caio. — Jéssica pediu.

— Eu preciso ver esse episódio de Supernatural! Eu não assisti quando saí.

— E eu quero ver Grey’s Anatomy! — ela replicou.

Caio soltou um muxoxo de quem não estava afim de dar o braço a torcer.

— Ímpar.

— Par. — Jéssica rolou os olhos.

Lançaram as mãos. Sete. Resultado ímpar.

— Ganhei. — Jéssica tomou o controle.

— Sete é ímpar! — Caio reclamou.

— Meu bem. — Jéssica bagunçou seu cabelo. — Você acha que sete é ímpar.

Só observei a discussão na minha. Nas discussões caseiras do dia-a-dia Jéssica costumava ganhar. Nenhuma novidade sob o sol. Ela tomou o lugar junto ao marido com um sorriso de vencedora. Eu olhei para a escada que levava ao segundo andar, ao meu quarto.

— Ah, e o Valdinei, Pedro? — Caio inclinou o pescoço na minha direção.

Afundei o corpo no sofá. Não era meu grande desejo do dia falar sobre Valdinei.

— Pelo amor de Deus, eu já disse que não quero ninguém chamado Valdinei. Nome ridículo de pobre.

Caio e Jéssica pararam, me encarando. Eles levaram a sério.

— Para, gente, eu tô brincando. — tranquilizei ambos.

— A gente sempre tem medo, né, Pedro? — Jéssica levantou uma sobrancelha.

Dei de ombros. Descobrir que pobre era gente era uma coisa engraçada. E na verdade, só descobri isso depois de me ver pobre. Minha maior esperança de dinheiro para o futuro era quando meu pai morresse e fosse aberto o testamento. Mas o velho maldito era feito de titânio. Eu desejava sim sua morte. Fudido.

— Não tô com ele mais. — respondi enfim.

— Não te comeu direito? — Jéssica provocou, pegando ao mesmo tempo um pedaço de pizza.

— Jéssica, vai se fuder.

A princípio foi estranho ficar com um homem que não era Gabriel. Fiquei por necessidade física. Mulheres não desciam na minha goela, eu tinha me tocado que atuar no papel de heterossexual já não cabia. No fim me acostumei a casos rápidos de sexo. Somente sexo.

Valdinei, ao contrário do que se poderia inferir do nome, porque era nome sim de pobre, não há como negar esse fato absoluto, era herdeiro de uma rede de supermercados de Goiás. Ele tinha um jeito manso que parecia em tudo com Gabriel e se eu tinha me atraído por ele, era justamente por isso.

Contudo, nossos poucos dias juntos eram o suficiente para me lembrar de que não era o gato borralheiro original. Eu estava ignorando suas mensagens. Ele desistiria em breve como os outros.

— Eu vou pro quarto. — anunciei.

— Não vai querer pizza? — Jéssica indagou. — De frango com catupiry.

— Não.

— Deve ter algo na geladeira então, se quiser comer mais tarde.

Subi para meu quarto no fim do corredor do segundo andar.

Era um quarto espaçoso demais, mobiliado só com uma cama e um guarda-roupa. Tirei a camisa e me debrucei na janela. Os carros eram luzes que não paravam de piscar lá embaixo na rua. O vento frio soprou contra meu rosto. Por um segundo, quase me senti tentado a pular. Porém, de qualquer maneira eram apenas poucos metros até o chão.

Eu matei minha mãe. Não bastava ter feito Gabriel escapar dos meus dedos. Eu tinha que acabar com a vida da pessoa que me amava sem ligar para a bosta de pessoa que eu era. Nem tive coragem de ir ao enterro, de olhar para o caixão. Passei a vida chamando Gabriel de otário. Bem, eu era o otário.

Me perdoar era doído. Eu não merecia. Caio disse que não adiantava guardar aquilo. Nada a traria de volta. Só que a mãe de Caio estava viva. Ele tinha a melhor das intenções, mas ele não saberia o que era se sentir daquela forma. Cerrei os olhos. Se ao menos Gabriel estivesse aqui, seria menos ruim.

Eu teria uma razão para caminhar.

— Pedro. — ouvi a voz de Jéssica. Volvi o rosto. Ela estava na porta. Não havia ruído de televisão embaixo. Devia ter passado algum tempo. — Tudo bem?

— Oi.

— Como foi na psicóloga? De verdade?

— Do jeito de sempre. Nada demais, sério. Bem.

Ela se aproximou e também se debruçou na janela. Foi Jéssica quem me encontrou após as três tentativas de suicídio. Agora me mantinha sob os dois olhos.

— E como foi no trabalho de manhã?

Ah sim, trabalho. Eu, Pedro Guerra Bozza, estava trabalhando por alguns mínimos salários mínimos. Eu nem pensava mais nas reviravoltas que minha vida havia dado, porque né. Era em uma companhia de produtos agrícolas (eu saía da porra da fazenda mas a fazenda não me largava). Administração.

Até que eu gostava. Mandar. Mandar era uma coisa que eu seriamente curtia fazer.

— Normal.

— O que já falei sobre esse tipo de resposta? — Jéssica mostrou um olhar de repreensão.

— Desculpa, mãe. — revirei os olhos. — Só não tenho nada para dizer.

Ela suspirou.

— Não posso obrigar a se abrir.

— Sabe que falo o que sinto. Às vezes.

— Às vezes.

— Melhor do que antes, né?

Ela sorriu, assentindo. Meu celular no bolso vibrou, provavelmente com uma milésima mensagem de Valdinei. Oh omizinho chato. Decidi ler. Puxei o aparelho para fora. Sim, era mensagem dele. Dizia: “okay, já entendi que acabou e que não quer falar comigo. Poderia me dar um fora de um jeito melhor, né? Enfim. Foi bom”.

— Ah, tava ignorando ele. — Jéssica obviamente tinha lido.

— Mais ou menos.

Ela fitou as longas unhas perfeitas com um ar pensativo.

— Nunca esqueceu o Gabriel.

O filho da puta é filho da puta demais pra sair da minha cabeça.

— Acho que vou dormir, Jéssica.

[...]

Saí para a cozinha. Eu tinha que estar no trabalho às nove. Passava de oito e meia. Nunca aprendi a acordar cedo e era complicado sem o gato borralheiro me servindo de despertador. Peguei uma xícara no alto do armário. Jéssica estava sentada na mesa com um computador azul diante de si.

— Caio já foi? — perguntei.

— Já.

— E tu?

— Eu entro só à tarde hoje. Acho que tu tá meio atrasado, num é não?

Encolhi os ombros.

— Consigo chegar a tempo.

Coloquei duas fatias de pão com queijo na sanduicheira. Ela pôs uma música modinha do momento para tocar, um chiclete que meus ouvidos fabulosos não se sentiam capazes de suportar. Sentei ao seu lado quando a sanduicheiras apitou, dizendo que o pão estava pronto. Enchi a xícara com café.

— Hm... — Jéssica minimizou a tela do navegador onde mostrava o que parecia ser uma notícia com uma foto de um carinha de rosto não estranho mas que não pude ver direito. — Hoje é sexta, né?

SÉRIO, Jéssica?

— Imagina, Jéssica.

— Eu estava pensando. — ela ignorou meu sarcasmo. — Faz tempo que nós saímos juntos.

— Unrum. — confirmei.

— Que tal a gente sair hoje?

— Pra onde?

— Não sei, eu estava com certa nostalgia da universidade. Vai ter uma semana acadêmica na federal...

Eu não estava com nostalgia da universidade. Na verdade, estava odiando tanto aquele espaço, que após os hospitais psiquiátricos, preferi cursar Administração a distância.. Jéssica estava doida de me fazer entrar em outra universidade? Ela bateu no meu ombro. Aparentemente tinha falado mais.

— Ouviu?

— Semana acadêmica, unrum.

Por que diabos isso, Jéssica, tá doida?

— Tudo bem? Vai ser legal. A gente só vê uma apresentação e vai embora.

— Hoje?

— É. Cinco horas. Já saiu do trabalho nessa hora né?

— Que seja.

Cristiana vivia dizendo que eu tinha que enfrentar meus medos. Eu podia imaginá-la falando que ninguém me chamaria de viado agora nem diria que eu “queimava a rosca”, que todo aquele pessoal estava muito longe agora. Às vezes eu a chamava de insuportável em pensamento porque eu simplesmente não estava afim de agir daquele modo.

Era difícil, porra! Mas, que seja.

— Não esquece. — Jéssica finalizou.

[...]

Às quatro e meia, Jéssica já me levava no sedã que havia comprado junto com Caio no último ano. Eu não dirigia, não mais, não depois do que fiz com minha mãe. Cinco em ponto estávamos na federal da cidade. Era outro estado, outra universidade, mas de certo modo tinha a mesma estrutura.

Era fácil me imaginar com 18 anos novamente, o filho da puta que eu era encorpado em um estudante de Engenharia Civil.

— Nossa. — Jéssica parou diante do volante. — Parece que somos estudantes de novo.

Deus me livre. Fechei os olhos. Por que diabos ela me trouxe aqui, sério?

— Okay, eu sei que talvez esteja pedindo um pouco demais de ti. — ela falou, ajeitando meu cabelo. — Se não quiser ficar, a gente vai embora.

— Não tenho mais 18 anos.

— Eu sei. — me olhou. — Mas tudo bem mesmo?

Suspirei e abri logo a porta. Um monte de pirralhos — sim, eu via aqueles universitários, em média dez anos mais novos, como um monte de pirralhos — andavam em grupos ao redor. Jéssica também saiu. Começamos a descer uma estradinha de pedra que levava a um prédio de cinco andares.

Notei o sem número de pessoas atuando no papel de Humanas. Não era um lugar para o pessoal de Exatas.

— Tem muita gente esquisita aqui.

— Pedro!

Ué, se eram esquisitos na real. Jéssica sorriu e me empurrou rápido para o primeiro andar. Li "XXXV Semana Acadêmica de Letras”. Um monte de gente ocupava o que seria um auditório. Fomos obrigados a sentar na frente, segunda fileira. Todo mundo queria ficar atrás. Eu ainda me perguntava o que estava fazendo ali.

— Senhoras e senhores. — alguém de um ponto baixo demais para ser visto anunciava. — Nós do Instituto de Linguagens estamos felizes de apresentar o nosso próximo palestrante, nosso querido Professor Doutor Gabriel Mendes, um dos maiores especialistas em Literatura LGBT da atualidade na América Latina.

Os meus órgãos, dentro de mim, pareciam ter parado de funcionar. Eu não sabia se estava sonhando. Jéssica segurou minha mão com força e sussurrou um “fica calmo”. Eu não tinha certeza se conseguia. Gabriel, O FILHO DA PUTA DO GABRIEL subiu ao palco. Ele estava com a barba feita, o que era um milagre divino, e estava vestido formalmente.

Era meu gato borralheiro, sobre isso não existia dúvidas.

— Obrigado. — ele disse. — Boa tarde.

Balancei as pernas, relembrando tudo o que aprendi a respeito de “ficar calmo” na minha vida psiquiátrica. Ele falou que havia chegado de Londres durante a manhã. LONDRES. O meu empregado (ex-empregado, tá, tá) estava em Londres. Europa. Não pareceu ter me notado na segunda fileira.

Limpei o suor que jorrava da testa. Jéssica apertou os dedos na minha pele.

Doutor? Ele tem 28 anos, vai tomar no cu!

— Eu sei que todo mundo está aqui só pelas horas extracurriculares mesmo. — risos. — Mas para começar...

Enfim começou a discorrer. O tema de sua palestra era “Mercúcio como um emblema de não-normatividade em Romeu e Julieta”. Eu não ouvi porra nenhuma. Tudo o que eu via era seu rosto bronzeado que flutuava diante de mim, longe de mim. Minha vontade era de gritar, “Por que me abandonou?”, mas eu sabia o porquê de ele ter me abandonado.

— É ele.

— Sim. — Jéssica confirmou.

A palestra finalizou. Todo mundo bateu palmas. Logo ele desceu e sumiu de minhas vistas.

— Eu preciso achar ele, Jéssica. — levantei.

— Pedro, não! — Jéssica agarrou meu braço. — Não faz merda, pelo amor de Deus.

— Eu preciso falar com ele!

Ultrapassei a multidão que estava atrás. Logo estava no lado externo. Ele conversava em francês com alguém no celular. E O CELULAR ERA UM IPHONE, O QUE TAVA ACONTECENDO? Prestes a alcançá-lo, ergui a mão para puxar sua camisa. Aquele otário! Todavia, me contive, a tempo de não puxar sua camisa, mas não a tempo dele não ver que eu estava com máxima intenção de fazê-lo.

Ele baixou o telefone. Seus olhos verdes eram os mesmos olhos verdes que me tiraram do sério dez anos atrás.

— Pedro.

— Gabriel.

— O que faz aqui? — questionou polidamente.

— O que diabos TU faz aqui?

Manter-se calmo, manter-se calmo. Eu queria explodir, mas tinha que me manter calmo. Era o meu dilema de anos. Ele umedeceu os lábios com a língua, me encarando por dois segundos em silêncio. Então respondeu.

— Bem, eu vim dar uma palestra. O que está fazendo aqui?

Eu queria explicações dele. Não dar minhas explicações.

— Pra onde foi?

— O quê?

— Tu sumiu, Gabriel! Dez anos atrás!

Ele respirou fundo. Eu desejava saber se eu o afetava ainda. Eu desejava beijá-lo. Eu desejava me jogar em seus braços. Eu desejava repetir aquela noite de sexo, nossa única noite. Eu desejava que parasse para ser meu uma segunda vez. Eu desejava que me perdoasse. Pelo amor de todos os deuses!

— Pedro, se controla.

— Eu estou bem. — respirei fundo só para garantir que fosse verdade, ao menos por fora. — Eu estou bem.

Ele guardou o telefone.

— Eu tenho que voltar para meu hotel.

— Ainda é covarde?

Ele fechou os olhos e se virou na direção da saída do prédio. Mas parou. Volveu o olhar para mim.

— Pra que isso? Você não é viado. Você me mandou embora.

— Seu idiota, eu sempre fui apaixonado por você. — soltei em tom dois décimos mais alto. — E eu sou o maior viado dessa porra de país!

Gabriel parou, me olhando como que sem reação. Era o que eu devia ter dito há dez anos, mas eu era eu, burro demais para saber, estúpido demais para agir. E ele, como o costume de antes, me deu as costas e desapareceu. Caí sobre meus joelhos. Era outro abandono. Jéssica surgiu do amontoado de pessoas.

— Pedro, Pedro. — se ajoelhou ao meu lado.

— Eu disse pra ele que era apaixonado por ele. Ele foi embora.

Ela encostou a testa na minha.

— Pelo menos agora disse, né?

Notas finais
Pronto, acabou. Foi muito bom estar com vocês durante esses dois anos, muito obrigada por todo o carinho... kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk calma, to brincando Mas tá acabando no sério.