Júpiter e Vênus
40 Eu sei
Notas iniciais
GABRIEL
Eu observava a noite cintilante da cidade, sentado em uma poltrona diante da janela do hotel. Já fazia quase três horas desde que cheguei da universidade. Tinha jantado no restaurante embaixo, respondido meus orientandos e tomado um banho desde então. Agora eu finalmente sentava para pensar.
Pedro.
Por dez anos fugi de Pedro. Comecei naquela noite, pegando um ônibus para casa de Iara. Ela disse que jamais me deixaria olhar para cara de Pedro novamente. Ela nem sabia que eu mesmo já estava disposto a não fazê-lo. Eu estava magoado demais e com medo. Pedro não mudaria por mim. Deixá-lo ir doeria menos.
— Eu vou embora, Iara. — foi o que falei quando ela terminou.
Ela parou na minha frente.
— Ir embora para onde?
— Não sei. Qualquer lugar.
— Okay. — para minha surpresa assentiu após uns segundos de silêncio. — Você tem que ir. Você vai acabar voltando para ele se ficar aqui. Tu vai destruir tua vida.
Uma semana depois eu estava indo de avião com um dinheiro que guardei na poupança para o Paraná. Avisei minha mãe. Ela concordou com tudo. Não contatei meu pai. Ele estava indiferente à minha situação. Não queria filho gay como eu supus há tempos.
Ao chegar, trabalhei da maneira que pude em shoppings, cafeterias e lojas. Peguei um quarto em uma pensão para morar. Demorou só alguns meses para que outra vez eu fosse aprovado na federal em Letras, no segundo semestre do ano. E assim eu reiniciava minha jornada. Mas sem Pedro. Sem o coração sendo rasgado a cada dois dias.
Cortei qualquer mínima relação com o nome dele. Minha mãe não falava absolutamente nada a respeito. A única pessoa da minha ex-universidade com quem eu mantinha conversa era Iara e ela imitava minha mãe. O que Pedro fez durante os últimos dez anos, eu não tive ideia. Somente uma vez escutei alguém o mencionando de novo.
— Gabriel?
Era Marcelo no Messenger por vídeo-chamada. Eu estava há onze meses fora.
— Oi.
— Onde você tá, cara?
Ponderei por um segundo se deveria contar que estava a mais de 2000 km. Decidi enfim que sim. Marcelo era um amigo.
— Paraná.
— O que você tá fazendo no PARANÁ?
— Soube alguma novidade de mim?
Ele assentiu.
— Soube que largou o Pedro e sumiu. É o que se conta por aqui. O Pedro...
— Não fala. — interrompi.
— Mas Gabriel...
— Ele tá vivo?
— Tá.
— Só me avisa se não estiver mais.
Depreendi que estava durante todos aqueles anos, pois Marcelo ainda falava comigo vez ou outra (ele estava no Canadá) e não deu nenhuma notícia acerca de mortes. Até que tive a confirmação horas antes. Ele em carne em osso na minha frente. Um verdadeiro fantasma do passado para me assustar. E olha onde estávamos: Minas Gerais.
Última coisa que iria imaginar era me encontrar com Pedro ali.
Na verdade eu já tinha o visto na plateia. Ele estava na frente. Mas pensei que fosse alguma alucinação da minha cabeça. Estava mudado. Cabelo cortado cuidadosamente e uma barba relaxada em contraste. BARBA. Pedro havia criado barba. Chegava quase a ser engraçado. Eu riria se não fosse tudo mais. Quando ele finalmente me alcançou do lado de fora que acreditei.
E doeu.
Doeu porque apesar de todo o esforço Pedro não saiu da minha cabeça.
Doeu porque eu não esperava e portanto não tive como preparar.
E doeu principalmente porque ele disse o que eu sonhei ardentemente que dissesse.
“Seu idiota, eu sempre fui apaixonado por você. E eu sou o maior viado dessa porra de país!”
Quem era aquele cara?
O Pedro que conheci jamais diria isso.
Meu celular tocou. Levantei da poltrona e caminhei para meu celular esquecido sobre a cama. Era Auguste.
— Oi. — eu disse.
— O que aconteceu naquela hora?
Meu primeiro cara apareceu vindo simplesmente do nada, desculpa, eu não soube como agir.
— Eu só encontrei uma pessoa que não via há muito tempo. Foi um susto.
— Ah. Tudo bem. Volta para Londres depois de amanhã, certo?
— Sim, depois de amanhã.
— Queria conversar melhor, Gabriel...
— A gente conversa aí.
Desliguei uns minutos depois. Conheci Auguste em um verão em Berlim. Descobrimos que éramos da mesma universidade na Inglaterra, eu como professor visitante e ele como aluno de Matemática. Tivemos uma noite juntos, mas como todos os casos que tive após Pedro, se resumia a isso apenas. Ele quem insistia em me ligar.
Deitei na cama, tornando a atenção para Pedro. Se ele tivesse parado na parte de “ainda é covarde?”, eu teria certeza de que ele era ele e não necessitaria emaranhar minha cabeça com aquele velho problema. Porém, ele admitiu ser gay na minha frente. Pedro batia no peito para afirmar ser heterossexual. E o pior, ele admitiu sentir algo por mim.
Como que eu poderia lidar?
Agora eu nem tinha expectativas de vê-lo novamente.
Eu sabia que estava na cidade. Onde e por que eram perguntas sem respostas.
Eu deveria vê-lo?
Minha cabeça queimava.
Já esqueceu o que ele fez com você, Gabriel? O que ele disse? Cerrei os olhos e recordei da nossa primeira e última vez. Todo o mel que abriu caminho para o fel. Era demais. Eu não poderia perdoar. Pedro quebrou meu coração e ainda pisou em cima dos cacos. Eu iria realmente jogar no lixo toda a dedicação que tive em estar longe e a salvo dele?
Peguei meu computador. Mas eu precisava ao menos saber o que aconteceu com ele. Loguei no Facebook. Pus seu nome na caixa de pesquisa. Nada. Suspirei. Pedro não tinha Facebook antes, por que teria nessa altura? Pensei um pouco e pus “Jéssica Benoliel”. Isso supondo que Pedro tinha mantido os amigos. Nada. Tentei por fim “Caio Silva”. Nada.
Pedi ajuda ao Google. Dessa vez apareceu resultado para Caio e Jéssica. Eles trabalhavam ambos em uma empreiteira em Minas. Um telefone aparentemente residencial acompanhava seus nomes. Segurei o celular, refletindo se discava ou não. Disquei. Todavia, não cliquei para ligar. Eu sou burro ou o quê?? Para com isso, Gabriel!
Atirei o celular no travesseiro.
Eu não poderia cometer essa atrocidade com meu coração.
[...]
Tirei a manhã seguinte de total folga e decidi dar uma volta na cidade. Não era uma cidade grande. Tinha mais ou menos cem mil habitantes. Peguei um táxi e fui até um café no centro. Enquanto uma garçonete de cabelos loiros deixava meu pedido sobre a mesa, chequei meu telefone. O número residencial de Jéssica e Caio ainda estava lá.
Será que eles estão morando juntos? Mesmo número...
Isso é ligar para um dos dois, não para Pedro necessariamente.
Mas os três estão em Minas.
No mínimo curioso.
Dei um longo gole de café e liguei de vez. Eu iria pegar um avião no domingo. Ainda que eu estivesse fazendo uma merda tamanha, assim que cruzasse o oceano, ela não me atingiria.
— Oi. — a voz ainda familiar de Caio atendeu após uns toques. Estava sonolenta. — Caio Silva, bom dia.
— Bom... — hesitei. Meu estômago embrulhava. E nem era porque fazia anos que eu tinha falado com Caio. Era o início de uma ponte de volta para Pedro. — Dia.
— Eu conheço você?
— Conhece.
— E quem é?
Baixei a xícara e fiquei em silêncio um pouco. Consegui escutar Jéssica falando sobre a roupa suja, uma zoada de aspirador de pó e um som de música longe. Aparentemente, sim, eles moravam juntos, Caio e Jéssica. Casados, namorando? O que eu perdi? Caio tossiu do outro lado da linha. Esperava que eu respondesse.
— Gabriel. O Gabriel que morava com o Pedro, se tiver dificuldade em lembrar.
Ele emudeceu.
— Quem é, Caio? — Jéssica perguntou.
— Lá do trabalho. — Caio mentiu.
— Trabalho? — eu ri.
— Pelo amor de Deus, hoje é sábado, ô povo que não deixa a gente em paz. — Jéssica reclamou.
— O que tu quer, cara? — Caio voltou após, ao que pareceu, Jéssica se afastar.
Me dá algo de Pedro. Parei. Por que tô fazendo isso comigo mesmo? A vontade automática foi de desligar. Se meu avião fosse no sábado, eu já estaria em Londres e não estaria naquele lugar com aquele aparelho na mão. Eu me mudei, passei dez anos longe... O que ele estava fazendo naquela palestra? Por quê? Por que me atormentar de novo?
— Eu...
— Eu vou subir para falar do quarto. — falou baixo, me interrompendo. — Espera.
Continuei na linha até ele voltar.
— Então está na cidade? — Caio questionou com um suspiro. — Professor!
— Como sabe que estou na cidade?
— Pedro estava com a Jéssica ontem. Acho que não a viu.
— Como assim?
— Ele mora com a gente, Gabriel. Ele estava lá embaixo, por isso eu não podia falar.
Vacilei com o celular. Evitei saber qualquer coisa sobre a vida de Pedro. E primeira coisa que eu sabia: ele morava com Jéssica e Caio. Por quê? Ele, como filhinho de papai que era, deveria estar esbanjando dinheiro sozinho ou deveria estar, sei lá, na fazenda. Eu não preciso continuar isso, eu tenho que parar com isso. Limpei suor da testa com a camisa.
Pedro me custou tudo o que eu tinha. Tive que começar uma vida do zero.
— Ele passou por muita coisa. Não sei se sabe.
— O quê?
— Quer vir aqui? Sua escolha. Não digo que falei contigo.
Passou um endereço muito rápido e desligou. Mordi o lábio, o endereço já memorizado. Minha escolha, claro. Desgraçar minha vida outra vez por alguém que foi amor perdido ou retornar ao meu quarto no hotel para ocupar a mente com algo menos doído. Não faz isso, Gabriel. Não faz isso, Gabriel. Para de ser estúpido, você escolheu estar longe disso, não retorne.
28 anos nas costas. Eu tinha plena maturidade para ter ciência de que era burrice ao quadrado.
Não, eu não iria.
Eu não poderia ir.
— Moça. — a garçonete retornou para apanhar minha xícara. — Onde fica a Avenida JK?
Não vou mas estou perguntando.
— Daqui três ruas. Paralela a essa aqui.
— Obrigado.
Batuquei os dedos na mesa. Fantasmas do passado devem continuar sendo fantasmas. Iara me mataria assim que soubesse o que eu estava cogitando. Iara, eu juro que se eu não o tivesse visto, eu não iria procurar saber de nada, e principalmente, se ele não tivesse me dito aquilo. Eu não tô sabendo lidar, cara! Amanhã eu volto para a Inglaterra e tudo se enterra de novo. Prometo.
Paguei a conta e deixei o café. Em um minuto caminhava para o endereço que Caio me deu.
[...]
Era uma casa amarela de dois andares, não grande demais mas também não pequena. Ergui o dedo para tocar a campainha com a intuição de que deveria voltar antes que o fizesse. Entretanto, a porta se abriu. Jéssica apareceu, vestida em um short azul e blusa branca. Era exatamente a mesma Jéssica que conheci dez anos antes, nada diferente.
— Te vi da janela.
— Ah.
— Caralho, Gabriel!
Caio surgiu atrás dela.
— A gente pediu para ele ir na padaria. — ele disse. “Ele” se referia ao Pedro, claramente. — Sobe lá em cima. O quarto dele é o último.
— Gente...
“Esperem!”, era como gostaria de completar. Já que Pedro não estava em casa eu poderia fugir. Ainda dava tempo de fugir. Ainda dava tempo de não estragar tudo o que fiz durante todo aquele tempo. Mas eles me empurraram escada acima sem me escutar ou me dar atenção. Logo eu me encontrava em um quarto praticamente vazio, só com uma cama e um guarda-roupa.
— Sabe que tá um calor da desgraça lá fora? — ouvi a voz de Pedro ao vivo assim que Jéssica e Caio desceram. Um iceberg perfurou meu coração. — Tá aqui o pão.
Andei em círculos de braços cruzados. Por que eu estava cometendo tamanha maldade comigo mesmo? Sentei na cama.
— Vou tomar um banho. — ele falou depois.
Uma gota de suor pingou de minha testa a cada passo de Pedro que ouvi. Arrumei os botões de minha camisa, tentei respirar direito. Sério que eu estava insistindo em Pedro? Mas agora não existia saída. Ele estava a pouquíssimos metros de distância. A maçaneta girou. Engoli em seco e levantei o rosto para o encarar. Ele me encarou de volta sem cor.
— Eu estava no Paraná. Passei cinco anos lá, fazendo graduação e mestrado mais ou menos ao mesmo tempo. Depois fui para a Inglaterra fazer doutorado. Agora divido meu tempo entre São Paulo e Londres.
Era a resposta de sua pergunta que neguei na universidade.
— O que faz em Minas Gerais? — indaguei.
Pedro se virou para a janela aberta com as mãos na nuca. Ele vai surtar? Segurei os joelhos, aguardando que falasse alguma coisa, qualquer coisa. De verdade. Que pudéssemos ter uma conversa. Ele balançou a cabeça por uns segundos e enfim retornou o olhar para mim. Seus olhos castanhos eram gotas de chocolate amargo.
— Foi horrível ficar sem tu.
— Você me mandou embora.
Esperei que discordasse, que dissesse que eu NÃO TINHA O DIREITO DE IR EMBORA porque era o gato borralheiro dele, mas ele se limitou a dar de ombros.
— Eu sei.
— Sabe?
— Eu sei que te tratei mal todo o tempo, que te acusei de algo que não tinha feito e que dei o foda-se para todo sentimento que tinha por mim.
Eu nunca, nunca mesmo, imaginei que Pedro pronunciaria de fato todas aquelas palavras. Nem consegui responder. Juntei as mãos na frente do rosto sem ter ideia de como agir. Não era justo comigo. O que estava acontecendo? No sério, quem era aquele cara? O que eu perdi da vida dele? Porque o Pedro que deixei em um quarto de apartamento...
— Pedro, sério, você tem ideia do que fez comigo? — afrouxei o controle próprio. — Acabou comigo, Pedro. Você não pode aparecer do nada na minha vida e dizer que sempre foi apaixonado por mim, que...
— EU SEI, GABRIEL! Acha que eu não fiquei remoendo essa merda durante dez anos da minha vida?
Ele respirou fundo.
— Só me dá uma segunda chance, eu juro que conserto tudo que eu fiz.
SEGUNDA CHANCE, PEDRO? SEGUNDA CHANCE? EU TE DEI MIL CHANCES. VOCÊ DESPERDIÇOU TODAS.
— Pedro, eu nem devia ter vindo aqui. — me pus de pé. — Tarde demais pra isso tudo.
— Para de ir embora, cace... Para de ir embora. Deixa eu falar. — Pedro replicou. — Por favor.
Por favor? Pedro Guerra Bozza pedindo por favor?
— Até quando vai ficar na cidade? — questionou. — Sai comigo.
Sair com ele? Pedro Guerra Bozza me chamando para sair?
— Vou pegar um voo para Londres amanhã em São Paulo.
— Sai comigo hoje à noite então. Oito e meia.
Falou de um restaurante aparentemente famoso da cidade. Minha cabeça zumbiu. Quem era aquele cara? Eu queria escutá-lo, mas eu tinha medo. Medo de estar só me iludindo. Medo de ser somente uma capa mais bonita. Balbuciei que iria pensar sobre e saí. Ainda ouvi um “vou te esperar lá” quando passei da porta direto para a rua.
[...]
— CLARO QUE NÃO, NÉ, GABRIEL?
Era Iara por Skype, sete horas depois, eu tinha voltado para o quarto de hotel. Ela estava com o filho no colo, Moacir, de dois anos. Laura estava perto, sentada em uma cadeira com o celular na mão, claramente escutando tudo, mas fingindo que não. As duas haviam casado três anos atrás após Laura finalmente convencer Iara de que era um bom partido.
— Você tá doido? — Iara continuou. — Tô pouco me fudendo se ele parece que decidiu parar de fingir ser hétero, tô pouco me fudendo se pediu por favor, tô pouco me fudendo. Não dá pra perdoar, você não vai perdoar. Caralho!
Moacir ergueu os olhos pretos, obviamente assustado com os palavrões.
— Iara, eu vou embora amanhã...
— EU NÃO ACREDITO QUE TU REALMENTE QUER IR. VAI SE FUDER, TU É MUITO TROUXA, MEU DEUS.
Eu enfim contei sobre tudo o que aconteceu desde o momento em que vi Pedro na universidade. Não me surpreendi com a resposta, Iara era o ser que menos gostava de Pedro em todo o planeta. Mas eu estava tentado a aceitar a proposta de Pedro. Eu iria embora no dia seguinte, se não fosse bem, eu estaria sobre o oceano Atlântico dali umas horas.
— Posso me manifestar? — Laura ergueu um dedo.
— NÃO. — Iara respondeu.
— Já me manifestando apesar da mulher dizer que não posso. — Laura se aproximou. — Eu acho que a Iara está sendo radical.
— Aquele filho da puta disse que o Gabriel estuprou ele! — Iara exclamou.
— Tá, eu sei. — Laura assentiu. — Mas mano, já foram dez anos. O Gabriel disse que o Pedro fez dez mil coisas que não fazia antes. Tem que dar uma chance para ver o que aconteceu, né? O Pedro claramente amadureceu. Meu voto é que você vá.
Iara ajeitou a franja do cabelo (era corte novo) com uma carranca.
— Vou pedir o divórcio!
— Vai nada, me ama demais. — Laura piscou.
— Gabriel, se tu for, eu juro que saio daqui de Goiânia pra te matar. — Iara ignorou a esposa.
— Supus que diria isso. — ri sem querer ri.
— Ela não vai. — Laura interviu.
— Vou tomar banho. — falei.
— VOCÊ OUSA IR! — Iara exclamou.
— Eu não disse nada, disse que ia tomar banho.
Desliguei a vídeo-chamada.
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