Já não somos tão jovens
3 Negros como o Breu
AGORA
Cat Noir está espreitando o traficante akumizado que transforma refrigerantes em anabolizantes. O tempo tinha passado e os crimes também evoluíram a um outro patamar. Aproveitando-se da visão noturna, Cat alcança o cinto do vilão usando seu bastão, e puxa-o sutilmente deixando cair um envelope prateado. Ele o recolhe sem ser percebido e começa a voltar sorrateiramente para seu esconderijo de gato — um loft próximo ao Louvre. Lá ele usaria o Kwami de uma amiga para purificar o Akuma. Ao longo do tempo que se passara após a partida de Ladybug ele fora encontrando outros amigos miraculous, por vezes fazendo algum trabalho junto deles, mas na maior parte do tempo estava sozinho. Nunca mais conseguira encontrar alguém que fizesse tudo de forma tão paralela e perfeita com ele, nunca mais encontrara alguém que se movesse tão bem, em sincronia perfeita. Sim, eles eram perfeitos juntos, como duas peças de um quebra-cabeça.
Ele tira o anel e faz a destransformação. Resolve caminhar pelos becos, à noite, como um gato de rua que é; desta forma é mais difícil ser seguido. Caminha rapidamente já que o cansaço começa a pesar. Tinha sessão de fotos dali ha algumas horas e novamente teriam que sobrecarregar na maquiagem para apagar as olheiras. Seu agente reclamara que havia perdido muito mais peso do que o esperado, então começara a malhar muito mais. Ajudava a aliviar a frustração. Seu corpo esbelto agora era pura massa magra, em seus 1,79 de altura. Ninguém reclamou quando os pêlos finalmente apareceram no baixo abdômen, ou quando começou a deixar a barba despontar, escurecendo o rosto de uma maneira sutil e muito sexy, fazendo com que garotas em todo lugar fantasiassem ser arranhadas por ela. Mal sabiam elas onde de fato ele tinha garras pra mostrar.
Ele era constantemente assediado. Mas não estava pronto pra seguir em frente. Ainda não.
Fez a curva em outra rua e sentiu um arrepio repentino na nuca, como se houvesse alguém espreitando seus movimentos. Seu instinto felino aguçou-se instantaneamente. Olhou discretamente pelo canto dos olhos mas não notou nenhum movimento, então continuou caminhando. A sensação persistia e ele começou a ficar estranhamente excitado, como um gato que reconhece uma caça próxima. Se não houvesse ninguém atrás, talvez no alto… foi quando olhou rapidamente pra cima e viu um vulto vermelho e preto cruzar o espaço entre duas varandas. Sua boca secou instantaneamente e o peito fechou-se como se tentasse ficar do tamanho de uma noz. O que…? Pulou numa escada de incêndio e passou a escalar a marquise na direção ao telhado por onde o vulto se escondera. Não podia se transformar agora, um Plagg muito mal humorado aguardava em seu bolso pra ser alimentado e ele não tinha opções até chegar em casa… fora um dia cheio.
Segura-se na calha e dá um salto espetacular para o telhado, mas não há nada ali. Fica parado com o coração disparado, é como se suas veias estivessem eletrizadas, tremendo por debaixo da pele. Poderia ser ela? Aquela energia toda acontecia apenas quando ambos estavam próximos, mas… seria possível?
Dá mais uma volta pelo telhado e fica observando a Torre Eiffel à distância, brilhando. Como doía a falta que sentia de sua lady. Talvez seu subconsciente estivesse lhe pregando peças, mas tinha certeza de que…
Não tinha certeza de nada. Esta era a grande verdade. Ela o abandonara para morrer, e se não havia nada para ele num passado distante… o que sobraria para agora? Ela nunca mais iria voltar, e ele deveria continuar reconstruindo o que havia sido destruído, e sem a ajuda de um ioiô encantado. Virou-se e foi quando enxergou, ha umas cinco quadras de distância, no topo de um sobrado, uma sombra com longos cabelos esvoaçantes, brilhantes e negros como o breu…
——
Ela viu dois pontos verdes cintilando à distância e teve certeza. Cat Noir estava vivo!
ANTES
Adrien está voltando pra casa numa euforia nova. Aquela noite de trabalho tinha sido produtiva e empolgante. Não pelo trabalho em si, mas pelo tempo que tinha passado com Marinette. Algo começava a se formar em seu peito, e ele se via constantemente tendo fantasias com Marinette numa roupa vermelha de joaninha. Estava confuso sim, tudo embaralhado, mas ele não estava disposto a enquadrar as coisas no momento. Ao menos uma vez em sua existência deixou a vida acontecer sem planejamento, sem interferências. Estava se apaixonando por Marinette. Estava amando duas garotas ao mesmo tempo.
—-
Marinete está deitada em sua cama, olhando o teto, saboreando as últimas horas que passara junto com seu amado. Lembra-se com certo torpor dos toques acidentais aqui e ali. Num momento em que Adrien tirava a camisa, tocara acidentalmente seu seio. Talvez ele nem tenha notado, mas ela sentira uma onda de calor que percorrera todo o seu corpo da ponta do seio até o dedão do pé. Fecha os olhos e invoca cada sensação novamente. Está em chamas, e não consegue pensar em outra coisa. Quer ter coragem de avançar, de tocá-lo, de saber se há algum sentimento dele para com ela, ou se a química que sente entre eles é fruto de sua imaginação. Com os olhos fechados, toca o próprio ventre; acaricia lenta e suavemente seu abdômen e sube a mão até a ponta do seio que havia sido tocado por ele. Veste apenas uma camiseta e calcinha, e está tão escuro… o que poderia ter de errado? Um pouco envergonhada, vai descendo lentamente a mão de volta para a barriga, e um pouco mais abaixo…
Duas batidas na janela. Apenas duas, muito sutis mas com o poder de quase jogá-la ao chão. Marinette se levanta com o lençol sobre o peito. A vergonha por ter sido pega num momento tão íntimo e novo pra ela deixam-na aturdida e completamente constrangida. Olhos verdes mascarados a encaram por trás do vidro, e ela vai até o beiral para abrir a janela.
“C-Cat Noir?… o-o que está fazendo aqui?…” A situação é tão improvável, e estranha, porque ha pouco, enquanto ela fantasiava, imaginava mãos com garras em seu corpo… mas, por que, se era com Adrien que estava sonhando?
“Patrulhando. Às vezes nós, heróis, saímos pra dar uma volta, pra checar se está tudo bem na vizinhança.” Ele responde, de maneira descontraída.
Marinette olha pra ele com jeito desconfiado. Desde quando? Eles nunca haviam feito isso juntos! Algo passa por sua cabeça e ela fala sem pensar.
“Pra checar se está tudo bem ou pra espionar mocinhas seminuas adormecidas?”
Cat Noir se espanta com a resposta dela. Seus olhos brilham mais, e seu corpo responde involuntariamente ao comentário. Ela estava seminua?
O espanto também toma conta de Marinette. Ela está com ciúmes de Cat Noir? Se ele sequer desconfiasse disso nunca mais deixaria Ladybug em paz.
Partindo do pressuposto de que ele soubesse que Marinette é ela.
Ah, que confusão dos diabos!!
“Desculpe… eu fiquei assustada, só isso. Quer entrar?”
Com um movimento sutil, empurra a ponta do travesseiro sobre Tikki que jaz adormecida em sua cama, escondendo-a. O gato pula o peitoral e entra no quarto que ele conhece tão bem. Aspira o ar com um perfume suave de baunilha, morangos… e Marinette.
“Você quer alguma coisa? Aqui tem… água!”
Ela cora novamente, e ele reage mais uma vez de forma involuntária. Ah se ela fizesse idéia do que ele realmente queria… Apenas olha pra ela e então se dá conta de que não tinha planejado o que fazer quando chegasse ali. Todas as desculpas que poderia pensar se esconderam numa nuvem branca em sua cabeça. Ele só sabe que há pouco tempo estava em seu próprio quarto, sem conseguir dormir, e num impulso se transforma e pula os telhados até chegar ali, só pra vê-la. Na verdade, ele queria ver Ladybug, mas não tinha como procurá-la, então… Não, não era bem isso, Marinette não era um prêmio de consolação…
Ele estava perdido, merda! Não sabia mais como explicar esse paradoxo estranho… era como se não houvesse uma ou outra… era como se ambas fossem…
“Olha, não leva a mal, mas, essa situação é um tanto imprópria, pra nós dois. Meus pais estão dormindo no quarto ao lado e eu… bem…não me sinto confortável em ficar de conversa com um super-heroi que mal conheço…”
Aquela eletricidade volta a tocar seu corpo, deixando-a com a boca seca de novo… ah meu Deus, me ajuda! São gatos demais pra um dia só.
“Desculpa… eu vou embora…” Ele segura o pescoço dela, e só então se dá conta de que nunca a tinha visto de cabelos soltos. Levanta a mão e toca-lhe a nuca, sentindo a maciez dos fios negros. Poderia ficar ali por muito tempo, mas seu anel o sobressalta com um apito.
“É um aviso, de que preciso ir embora. Até mais, Marinette!”
Ele sabe seu nome… como?
Volta pra cama, encolhe-se e continua tentando dormir. A frustração sexual latente sob a pele, o estresse emocional, a confusão de sentimentos por duas pessoas distintas. Uma lágrima escorre e molha a fronha do travesseiro cor de rosa. Finalmente ela adormece, um sono polvilhado de sonhos com um Adrien mascarado.
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