Já não somos tão jovens
4 Sem argumento
Notas iniciais
AGORA
Ele corre e pula pelos telhados, frenético, até para diante dela. Ela está paralisada, olhos vidrados, lábios molhados. Ela está linda…
Estão frente a frente agora, a alguns passos de distância, respirando de forma irregular. Se houvesse uma maneira de ilustrar a situação, seria dois elementos, um vermelho e outro negro, no olho de um furacão. Paris tinha desaparecido, sugada pelo torvelinho de emoções. Qualquer ruído se resumia a um apito constante que só se ouvia na cabeça deles.
Ela articula, mas não consegue emitir som. Ele avança mais um pouco e pára, como se temesse que ela evaporasse como fumaça.
“Eu…” ele tenta começar, mas um bolo se forma em sua garganta. Ela continua imóvel e dá um passo a frente; enfim, com mais um passo ele cobre a distância entre ambos e a beija.
ANTES
“Adrien querido, tinhamos marcado de tomar aquele sorvete ontem depois da aula, mas você sumiu!” Chloe mais uma vez entra no campo de visão de Adrien, fazendo Marinette desaparecer.
“O que?” Ele tinha certeza de que não combinara nada com ela; ok, ultimamente ela falava com ele e ele respondia com uma mistura de “hum-hum” e “hã-hã”. Ela parecia um zumbido que ele tentava espantar, ou fingir que não existia. Não que não tivesse respeito por ela. O que ocorria é que Chloe não respeitava ninguém, só a si mesma. Era difícil conviver com pessoas assim, porque elas nem notavam que havia algo de errado com elas.
“Adrien, Adrien?! Ah, meu amor, eu entendo, você tem muito trabalho! Lindo como é, cheio de propostas pra pensar… Fique tranquilo, sim? Estarei com meu celular ligado e disponível, qualquer hora do dia… ou da noite!
Ele não sabe se é porque passava tanto tempo fantasiando com duas garotas ao mesmo tempo, ou a própria insinuação pairando no final da frase, mas ele olha pra ela. Contempla sua aparência com um pouco mais de atenção, depois de muito tempo. Lembra-se de quando estavam no jardim de infância, ela era uma garotinha birrenta que se fantasiava de fada. Ficava o tempo todo batendo sua varinha de condão na testa dele, o que o irritava muito. Ele contudo não esboçava muita reação, já que sempre fora bem reservado, desde criança. Crescer sob cuidados de terceiros e migalhas de um pai ausente causava esse efeito. Ele não tinha ânimo para conviver, e muitas expectativas para superar.
Chloe está vestindo uma blusa branca muito justa e decotada, um lenço no pescoço e calça azul celeste do mesmo tom dos seus olhos muito claros. Os cabelos parecem uma cascata dourada, presos num rabo de cavalo, não de maneira descontraída, mas feito artisticamente por algum bom cabeleireiro. Ela parece um anjo, toda perfeita… mas está longe de ser um. Sua pequena boca rosada distorce-se levemente em constante desdém, e suas sobrancelhas sempre arqueadas denotam alguém acostumado a olhar os outros de cima. Ele tenta, realmente, sentir alguma coisa por ela. Ele sabe que bastaria uma palavra, e ela seria sua, totalmente. Cogita por alguns instantes se aproveitar da situação, mas seu corpo não reage a ela. Seus olhos são atraídos novamente para um movimento além dela. Marinette…
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“Você sabe que não tem nada rolando entre eles.”
Alya fala, na tentativa de fazer sua amiga sentir-se melhor, enquanto ambas observam Chloe tagarelar.
“Eu sei… eu só… não estou muito bem hoje. Não dormi direito essa noite, estava muito calor…”
“Calor?… mas estamos no fim do outono!”
Alya fica observando Marinette com o cenho franzido, como de costume. Algo nela está diferente. Sua amiga parece um pouco perdida... algo para além de apenas o efeito de uma paixão. Faz tempo que ela gosta de Adrien, e agora que as coisas parecem estar tão bem entre eles…
“Vamos, preciso terminar esses desenhos ainda hoje. A apresentação do projeto de Carnaval da campanha de marca do Adrien é na sexta-feira”
Levantam-se e caminham para a saída. Marinette dá uma olhada e vê Adrien, meio distraído, olhando pra Chloe. O ciúme arde dentro dela, mas ela o engole e empina o nariz altiva.
Já no pátio, ela nota uma movimentação estranha nas imediações, e ao erguer os olhos contempla uma coluna de fumaça, não muito longe dali. Vendo que Alya está distraída com a mesma visão, afasta-se sorrateiramente para uma fenda entre duas colunas e toca no brinco. “Tikki, transformar!”
Em segundos ela é Ladybug. Sai correndo em direção à fumaça e se depara com um ser estranho, com asas de morcego e olhos vermelhos. Ele está atirando bolas de fogo em todos os táxis que circulavam nas imediações.“ mas o que…?”
“MyLady… as coisas andam agitadas esses dias, não? Mesmo assim eu já estava com saudades!”
Cat Noir surge ao seu lado, deixando-a arrepiada. Que reação era aquela?
“Se controla, gatinho! Vamos ver o que Hawk usou dessa vez pra revoltar o pobre homem.”
“Sempre tão esnobe, sempre tão segura… “
“Cat, foco! Preciso resolver logo esse assunto porque tenho que terminar…" Ela engole o final da frase, assustada. Por pouco não dá a dica para Cat Noir.
“Veja… ele tem um alarme de carro colado sob a asa esquerda. É isso! Só precisamos tirar dele e assunto encerrado!”
“Como vamos fazer isso?”
Ela resolve usar o Lucky Charm e em sua mão cai uma bola de tênis. Usando sua visão, enxerga um toldo de bistrô logo abaixo ao lado de um hidrante, a 50 metros do homem morcego. “É isso! Cat, o hidrante!”
Ele pula em direção ao hidrante e usa o Kataclism, fazendo-o jorrar com pressão, ao mesmo tempo em que Ladybug joga a bola em direção à asa esquerda do vilão, pula no toldo e dá um rodopio em sua direção. Ele é atingido na ponta asa e perde o equilíbrio, tendo que abrir ambas para manter-se de pé, bem quando o jato de água vai em sua direção. Ladybug aproveita e faz um último movimento, usando seu ioiô para “pescar" o alarme, ao mesmo tempo que a água bate em cheio no morcego, jogando-o contra a parede.
“Chega de maldade, akuma! "ela abre seu ioiô" É hora de aniquilar a maldade!” e todo o mal espalhado se desfaz miraculosamente.
Em poucos instantes, um taxista atordoado se levanta do chão, sem saber por que estava todo molhado. Cat Noir se aproxima sorrindo. A tensão do embate aos poucos vai se diluindo, deixando Lady e Cat repentinamente sem graça, pela primeira vez em muito tempo.
“É isso aí…” Cat procura desesperadamente alguma tirada para o momento, mas encontra-se meio que fascinado com Ladybug. Ela está completamente encharcada, visto que em algum momento de suas manobras o hidrante a atingira também. Cabelos pingando e uniforme molhado… Cat Noir sente uma fome repentina, e não é no estômago.
Por outro lado, Ladybug olha para Cat e lembra-se da noite passada; ele em pé, em seu quarto. Se não estava completamente molhada antes… agora estava.
O brinco de Ladybug apita, e ela afasta-se, pela primeira vez sem uma frase de saída. Ele também fica em silêncio, parado no mesmo lugar. Onde fora parar aquela atmosfera descontraída? Eletrizante, sim, mas alguma coisa tinha mudado. Marinette sai de dentro de um banheiro público e dá um petisco para Tikki, dentro de sua blusa.
“O que está acontecendo, Marinette? Você está muito esquisita!” Pergunta Tikki, de forma inocente.
“Eu não sei, Tikki… eu não sei.”
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