Notas iniciais
aqui, passado e presente se encontram! prepare seu coração!

ANTES

Marinette está preparando-se para dormir. Não conseguira comer, nem conversar com sua mãe. Tranca a janela e fecha as cortinas. Não quer ver ninguém. Hoje não. Está exausta, física e emocionalmente. Os dois dias combatendo o monstro da rejeição tinham esgotado suas energias, não pela luta em si, mas pelo conflito mental de estar lutando ao lado de Cat Noir.

Não ia dar certo.

Ela sabe que está sendo fatalista demais, mas não consegue encontrar paz naquela situação. Talvez não tenha maturidade pra lidar com um relacionamento tão profundo, afinal. Isso e salvar Paris ao mesmo tempo. Talvez fosse muita coisa mesmo para uma garota de apenas 16 anos.

“Marinette, você não precisa ficar assim…” Tikki fala com sua voz doce sobre seu ombro. “pense um pouco, talvez esteja fazendo tempestade em um copo de água. Dê um tempo a si mesma e vai ver que as coisas se ajeitarão.”

Esse era o problema. Não tinha tempo pra dar. Não sobrava tempo nenhum, nem pra respirar. Missões, escola, projetos e namoro. Todas as horas do seu dia eram preenchidas com Adrien. Seria normal sentir-se sufocada, mas não era o caso. Ela sentia uma co-dependência doentia entre eles. Nunca era suficiente.

Numa autoanálise percebe que não está sendo totalmente verdadeira, inteira. Ela ainda não consegue ser Marinette com ele. É como se uma parte dela estivesse guardada, preservada, com medo de se ferir. Por fim, ela enfia uma camiseta de malha e deita. Adormece instantaneamente num sono sem sonhos.

É alta madrugada e um relâmpago cruza o céu, clareando o quarto. O trovão que o seguiu faz Marinette dar um salto sob os lençóis. Chovia forte agora, e o ruído do vento na janela deixava o ambiente meio assustador. Ela se levanta para olhar através da vidraça e quase tem um infarto. Um vulto negro está do lado de fora da janela, sentado no parapeito, imóvel sob aquela forte chuva.

Marinette abre a janela apressadamente. O vento forte levanta as cortinas e a chuva invade seu quarto com impetuosidade.

“Pelo amor de Deus! Você vai ficar aí ou vai entrar logo?!”

Ele permanece imóvel.

“Adrien! ADRIEN! Está ficando tudo enxarcado!”

Ele sai da letargia e pula no quarto. Marinette fecha a janela rapidamente mas já está toda molhada. Ele também está molhado, e muito gelado. Ela estranha o fato de ele não estar tremendo de frio. Nota que ele segura uma pequeno pedaço de papel... talvez um retrato, e que seus olhos estão frios como o aço.

“Adrien… o que aconteceu?”

De repente ele parece que desperta de um transe. Fica contemplado-a por um tempo, sem falar, e depois dá dois passos e a envolve num forte abraço.

“Adrien, espere…O que está acontecendo? Por que você está aqui, a esta hora, tomando chuva na minha janela.?”

Ele não responde. Percebe que não conseguiria falar pra ela. Nem sequer se lembrava como tinha chegado ali. O seu silêncio começa a deixar Marinette desconfortável. Isso e as roupas molhadas somado ao mal humor que ela nutrira naquele dia deixam-na irritada. Ela sabe que talvez dará uma de insensível, mas resolve que precisa de um tempo.

“Adrien… eu estou cansada. Você se importaria de ir embora?”

Ele não esperava por aquilo. Não estava pensando direito, era verdade, mas as palavras dela o atingiram de forma profunda. Ignorando a vontade dela ele tenta abraçá-la novamente, mas ela se esquiva. Uma onda de desespero começa a sufocá-lo levando-o a uma nova tentativa de segurá-la, agora com mais força.

“Adrien, pára! Você está me machucando!”

Ele não está escutando. Começa a puxá-la pra si, até que ela o golpeia no peito, com força. O impacto faz com que ele bata as costas na parede e saia do torpor. Marinette o encara muito assustada e magoada.

“Vá embora!” Ela fala baixo, com voz trêmula.

“Marinette… aconteceu uma coisa… eu preciso falar com você sobre…”

Ele resolve finalmente tentar a comunicação.

“Hoje não. Eu não quero ouvir. Vá embora, por favor!”

Ele sente um bolo na garganta.

“My Lady…”

“EU NÃO SOU SUA LADY!”

Finalmente ela vomita as palavras que estavam fazendo mal à sua alma.

“Deus sabe o quanto eu o amo, mas você precisa entender que eu não sou sua heroína, seu prêmio ou o que quer que você esteja fantasiando! Eu sou uma garota comum, que estuda numa escola comum, com um guarda-roupas comum e sonhos juvenis prá lá de comuns! A única coisa que me torna diferente dos outros é um maldito Kwami!!”

Tikki se retrai e encolhe-se num canto. Marinette percebe o que acabara de dizer.

“Tikki…”

Lágrimas sobem aos olhos de Marinette. Ela sabe que está sendo mesquinha, mas está muito concentrada em sentir pena de si mesma pra prestar atenção aos demais. Aquela era uma Marinette que ninguém nunca tinha conhecido, nem mesmo ela.

E nem Adrien. O gelo volta aos olhos verdes, e as sombras outrora inibidas o abraçam sem controle. Rápido como um felino, ele abre a janela, pula o parapeito e desaparece na escuridão.

——

Ele sente agora muito frio. Não causado pelo clima ou pela umidade da sua roupa. O gelo vem de dentro dele.

“Ninguém o ama…”

A voz invade seu subconsciente. Ele sente garras apertando suas entranhas, sufocando sua razão.

“Ninguém lhe dá valor…”

Ele nota ainda em sua mão o retrato que encontrara mais cedo. Sua alma se debate procurando um caminho de volta à consciência, mas a voz sombria continua o atormentando.

“Nem mesmo ela o amou… Sua Ladybug não precisa mais de você. E por que ela o amaria? Por que qualquer pessoa o amaria?”

“Maldição, pai! Eu sou o seu filho!"

As garras sombrias o apertam impiedosamente e ele cai de joelhos numa poça. Por um tempo que ninguém saberia mensurar ele permanece ali, prostrado. Enfim solta a foto dos seus pais, já amassada e borrada por causa do temporal. Ela vai se dissolvendo lentamente sob os grossos pingos da chuva, ao mesmo tempo em que a sua dor esmaece lentamente. Um invólucro de indiferença o envolve, abraçando-o de baixo pra cima, pouco a pouco até que finalmente não sobra mais nada.

Ele não sente mais nada.

Notas finais
Foi dificil escrever esse capitulo. confesso que foi