Já não somos tão jovens
7 Escolhas
Notas iniciais
ANTES
Tinha que ir pra escola. Tinha mesmo que ir. Só de pensar em encontrar os amigos ela sente arrepios. Parece que tem uma placa no pescoço “EU TENHO UM SEGREDO!!”.
Mas o que mais a assusta é a expectativa de encontrar Adrien. Tudo o que pensa que sabe sobre ele até o momento fica embaralhado, e uma sombra de ressentimento começava a brotar em seu coração. Obviamente ela não tinha direito nenhum de se ressentir, já que ela também mentira a respeito.
Não, não se trata de uma mentira. Ambos tinham consciência de que era importante guardar suas identidades. Só não tinham a menor idéia de que eram tão próximos.
“Bom dia…!”
É ele! Droga! Ela não sabe como se comportar!
“Bom dia, Adrien.”
Está constrangida. Lembranças da noite anterior mandam agulhadas no seu ventre, e ela cora instantaneamente.
Ele olha pra ela e sorri. Ainda não se conformava em como não enxergara LadyBug ali, dia após dia, tão próxima. Saber a verdade mudava tudo agora. Ele precisa aceitar que o mistério tinha suas vantagens, e no momento é necessário analisar friamente o quanto isso mudará suas vidas, e sua missão.
Mas de uma coisa ele tem toda a certeza. Não pode imaginar a sua vida sem ela por perto. Como Ladybug, como Marinette… ele ama ambas, cada pedacinho delas, por assim dizer. O bizarro da situação é que ainda não conseguia juntá-las em uma única pessoa…
Alguém se aproxima para livrá-los da síndrome do "eu-não-sei-o-que-falar-agora."
“Mari! Tudo bem? Olha só, ontem você sumiu do meu lado no pátio! Fiquei tão assustada!! Depois tentei te ligar várias vezes, no seu celular, mandei mensagem e nada! É tão difícil retornar minhas ligações?”
Alya estava magoada, e com razão. Geralmente Marinette voltava pra perto dos amigos após uma missão, mas no dia anterior, depois daquele desfecho com o homem-morcego-taxista-dodói, ela tinha de fato fugido pra um lugar solitário e distante de Cat Noir.
“Desculpa Alya. Lembra que te falei da nova coleção?…”
“Mari, justifica deixar uma amiga plantada ao lado do telefone esperando um sinal de vida? Olha, eu entendo, você sempre foi muito avoada, principalmente pra telefonemas… mas às vezes acho que você não tem sido muito legal como amiga. Você guarda segredos, e não faz questão de deixar a gente ajudar, não se abre… pelo menos não ultimamente. Estou um pouco chateada, mas vou respeitar se você quiser manter-se à distância e…”
Adrien se aproveita do “bla-bla-bla" de Alya para se afastar. Marinete aproveita-se do distanciamento dele para disparar:
“Ele me beijou!…”
“O que?!”
Alya toma um susto com a revelação bombástica do absoluto nada.
“Duas vezes!”
“Calma! Vai devagar senão meu coração não aguenta!”
“E só não prosseguimos porque minha mãe chegou e…! “
“Oook! Vamos com calma!!! Vamos pra sala e depois eu quero detalhes minusciosos!!”
Alya já estava totalmente recuperada. Era como se nada tivesse acontecido no dia anterior. Sua amiga estava de volta e ela estava feliz pela escolha dela em se abrir.
“Conte-me tudinho, não me esconda nada!".
——
A noite chega. Todos já tinham se recolhido e Adrien está em seu quarto pensando em Mari/Ladybug. Precisava fazer alguma coisa a respeito, não podia deixar o clima esfriar. Levanta-se e sai do quarto, depois caminha até o jardim. Está volteando por ali quando enxerga no alto da mansão uma estranha iluminação violeta. “mas que diabos é isso?”
Ele resolve entrar de novo em casa e sobe até o segundo pavimento. Abre porta por porta, mas nenhuma tem alguma luz violeta. “Estranho… deve ter se apagado.”
Volta ao jardim e já não vê mais a luz. Fica tentando decidir se continua a investigar ou atende o chamado do beco. Depois de um tempo parado, ele gira seu anel e pula o muro.
——
Mari está dormindo. Abrir-se com Alya, mesmo preservando alguns segredos, ajudou-a a finalmente relaxar. Alya tinha razão; amigos fazem uma grande diferença. Guardar segredos são um fardo quase impossível de sustentar.
Ao lado de sua cama um gato observa, incerto se deve fazer algum ruído proposital e despertá-la ou apenas ficar mais um pouquinho ali, no silêncio, aspirando seu aroma doce.
AGORA
Adrien sente um arrepio na nuca com a menção de Hawk. Fragmentos sempre vinham em seus sonhos. Uma luz violeta, borboletas escuras e suas mãos ao redor do pescoço de Ladybug. Era ali que ele travava. Algum bloqueio fazia com que ele não se lembrasse.
“Você amava seu pai. Mesmo com tudo que Gabriel fazia, você sempre esperava dele algum resquício de gentileza e bondade. Na noite em que você descobriu…”
“Na noite em que ele teve que decidir se queria um filho ou algum tipo de poder sombrio…”
“Talvez ele não tenha encarado assim…”
“Não, ele não encarou porque já tinha feito uma escolha. Desde quando nasci, já não significava nada pra ele.”
M fitou-o e viu as sombras da rejeição nublarem o verde dos seus olhos. Ela já as tinha visto antes. Esse era o ponto: a rejeição. Adrien sentira-se rejeitado a vida inteira. Por uma mãe que não existia, por um pai que fingia que ele não existia, por…
“Ele akumizou você. Ele usou a rejeição como porta de entrada…”
“Sempre fui rejeitado! O que tinha mudado dessa vez? Como ele conseguiu entrar?”
“Não foi bem a rejeição dele que o feriu naquela noite…”
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