Juventude Transviada
5 Capítulo 5 - Danielle
Notas iniciais
Danielle resolveu ficar sentada na beira da piscina, esperando Sarah sair de lá. Não demorou muito, mas outras pessoas resolveram ficar também. Estava quente, o ar pesado, todos tiraram seus casacos. Os garotos queriam jogar futebol – especialmente Jean, que parecia magoado --, mas a piscina ocupava todo o espaço do que deveria ser o quintal.
Gustavo se sentou do outro lado da piscina, tirou os tênis e as meias e colocou os pés na água. Lucas, encostado no muro com o cigarro entre os dedos, deu risada.
-- Nossa, acho que você está ficando selvagem – Lucas provocou, olhando para Gustavo.
Danielle escondeu um risinho. Percebeu que Gustavo queria rir, mas não podia. Será que ela era a única que percebia o clima de te(n)são que se formava toda vez que eles chegavam perto um do outro?
-- Acho que eu vou ficar selvagem também – disse Danielle. Tirou seu par de alpercatas e pôs os pés na água.
-- EU VOU MOSTRAR PRA VOCÊS O QUE É SER SELVAGEM – uma voz gritou atrás de Danielle. Num segundo, Caio arrancou sua camiseta vermelha e pulou na piscina. Água voou em cima de Danielle. Se fosse qualquer outra pessoa, ela teria gritado e xingado. Mas, quando caio emergiu a água, seus músculos paralisaram e ela ficou apenas fitando-o.
De repente, sentiu um pé a empurrado. Ela deu de cara na água. Seu boné preto ficou na superfície, enquanto ela afundava. Tinha certeza que tinha batido em Sarah sem querer, mas, assim que sentiu uma mão em seu braço, deixou isso pra lá.
Foi puxada pra cima e o ar voltou a seus pulmões. Ela deu graças a deus por estar com rímel à prova da água. Abriu os olhos e olhou para Caio, que estava dando risada. Jeana estava em pé na beira da piscina.
-- Sua puta! – Danielle disse, rindo.
-- Você precisava de um empurrãozinho – Jeana respondeu.
Danielle puxou a canela de Jeana. A garota desequilibrou-se e caiu dentro da piscina também.
-- Se meu celular estivesse no meu bolso sua cabeça estaria sangrando – ela disse.
-- Você precisava de uma puxada – Danielle sorriu. Jeana empurrou a garota para cima de Caio, que passou seus braços em volta dela e a puxou para debaixo da água.
Enquanto isso, Sarah emergia discretamente da água no canto da piscina. Se sentou ao lado de Gustavo e ficou observando a cena, sem saber que, debaixo da água, Caio continuava com seus braços em volta de Danielle.
Sarah olhou para trás. Lucas continuava olhando para Gustavo. Sarah puxou assunto com o loiro.
-- Tem piscina na tua casa? – ela perguntou.
-- Tem, mas não usamos – Gustavo respondeu.
-- Por quê? – Sarah perguntou.
-- Ah, meus pais não limpam faz um ano e...
Sarah fez sinal para Lucas se aproximar. O moreno largou o cigarro e correu até Gustavo. Pulou nas costas do garoto e o empurrou pra piscina. Sarah sorriu. Talvez aquilo funcionasse. Ou talvez não. Pelo menos, ela teria tentado.
Debaixo da água, Danielle abriu os olhos e encarou Caio. Estavam com seus rostos próximos, quando sentiram outros dois corpos caindo juntos na água. Olharam para o lado. Lucas estava agarrado ás costas de Gustavo. Danielle sorriu e emergiu da água, pronta para ver o que aconteceria. Caio emergiu logo em seguida.
-- Mas que porra! – berrou Gustavo. Danielle, Caio, Sarah e Jeana começaram a rir. Jean estava apoiado na parede, de braços cruzados, com uma garrafa de Coca na mão; ele deu um risinho. Gustavo se virou para Lucas. – O que você acha que está fazendo?
-- Te dando um empurrãozinho – provocou Lucas. Dentro de sua mente, se passava apenas a ideia de beijar aqueles lábios molhados e agarrar os cabelos louros daquele garoto. Por fora, seu riso espontâneo estava esperando o momento de se calar e começar a beijar Gustavo de uma vez.
-- Não! Eu não...
Lucas pegou o rosto de Gustavo entre suas mãos e o beijou. Todos começaram a bater palmas, menos Jean. Ele franziu o cenho. Sabia que aquilo não ia acabar bem.
Gustavo empurrou Lucas para longe. A expressão em seu rosto dizia tudo.
-- EU NÃO QUERO A PORRA DE UM BANHO – ele berrou. – AINDA MAIS COM UM VIADINHO COMO VOCÊ.
O silêncio entrou sem ser convidado e permaneceu ali. Danielle não se atrevia nem a respirar. Gustavo se impulsionou pra fora da piscina. Parou na porta.
-- Caio – ele chamou.
Caio limpou a garganta.
-- Oi?
-- Onde tem uma toalha?
-- Hã... No banheiro de cima. Provavelmente. Pode usar a minha. É uma azul e...
-- Tá.
Gustavo desapareceu dentro da casa. Todos olharam para Lucas. Nunca tinham visto ele chorar. Nem quando quebrara o joelho, nem quando levara chutes no estômago depois de uma festa, nem quando teve sua primeira briga com seu pai.
Mas, naquele momento, sua expressão de dor era tamanha que parecia que todo o sofrimento daqueles três momentos havia se instalado ali em um único segundo. Seus olhos encheram-se de lágrimas e ele voltou para dentro da água. Danielle voltou também e viu Lucas com seu rosto afundado entre as mãos, encolhido no canto da piscina.
Danielle esqueceu-se de Caio, nadou até Lucas e o abraçou. Foi puxando-o pra cima devagar, até ele se sentar na beira da piscina, curvado, soluçando. Não conseguia se mexer mais do que aquilo, e Danielle sabia. Olhou para cima, para a janela do quarto de Caio, onde Gustavo estava apoiado, olhando para baixo. Danielle levantou o dedo do meio para Gustavo e não ficou olhando para ver a resposta.
* * *
Depois que eles finalmente conseguiram levar Lucas para dentro, enrolá-lo em uma toalha e fazê-lo beber um pouco de refrigerante, Danielle e Caio deixaram Jeana com Lucas, e subiram as escadas atrás de Gustavo.
-- Que porra foi aquela? – Danielle perguntou, abrindo a porta do quarto de Caio.
-- A culpa não é minha se aquele bichinha não consegue se controlar – Gustavo replicou.
-- Cala a porra dessa sua boca – Danielle quase gritou. – Você parece a porra de um eleitor do Bolsonaro.
-- E se eu for? -- Gustavo respondeu.
-- Então você não merece ficar dentro dessa casa – disse Caio. Gustavo o fitou.
-- Sério? – Gustavo balançou a cabeça. – Você prefere um bichinha do que eu?
-- Já ligou pro seu “papai” vir te buscar? Senão eu mesmo vou te chutar daqui.
Gustavo encarou caio depois Danielle.
-- Que seja – Gustavo largou a toalha na cama e pegou seu celular na cômoda. – Vocês nem são tão incríveis quanto aparentam, sabiam?
Gustavo saiu do quarto. Danielle bufou, querendo xingar mais, querendo meter a mão na cara daquele loiro homofóbico, mas simplesmente desabou na cama de Caio. Ele se sentou ao lado dela.
-- Ele não era tão ruim assim no oitavo ano – caio murmurou.
-- Ele podia ter simplesmente dito não – ela disse. – Não precisava de toda essa cena.
Caio se deitou ao lado dela. Os dois ficaram ali, olhando para o teto, respirando fundo. Danielle virou o rosto e olhou para Caio.
-- Ainda quero entrar na piscina – ela disse.
-- Pensei que você achava a Jeana uma puta – Caio disse, sorrindo.
-- Eu acho – ela respondeu. – Mas uma piscina cura qualquer coisa.
Caio olhou para Danielle.
-- Sabia que da janela do quarto dos meus pais dá pra pular direto na piscina? – ele disse.
Os olhos de Danielle brilharam.
-- Sério?
-- Você quer tentar?
Danielle fez que sim com a cabeça. Caio pegou na mão dela e abriu a porta do quarto de seus pais. Foi até a janela e a abriu. Danielle e ele ficaram agachados na beirada, olhando para a piscina.
-- Pronta? – Caio perguntou.
-- Não, na verdade – ela disse. Riu de nervosismo.
-- Não se preocupe. Eu já fiz isso mil vezes. O segredo é não pular de pé.
-- Como eu devo pular então? – Danielle perguntou. Seu rosto estava perigosamente perto do de Caio,
-- Assim – ele respondeu. Pegou na mão dela, encolheu seu corpo e pulou na piscina como uma bola. Danielle encolheu seu corpo bem a tempo, sentindo o ar jogando seus cabelos pra trás e depois a água morna em volta de si.
Ela girou seu corpo dentro da piscina. Emergiu e olhou para os lados. Caio ainda estava dentro da água. Ela sentiu dois braços em suas pernas puxando-a para baixo. Tampou o nariz e abriu os olhos bem a tempo de ver o rosto de Caio próximo do seu.
Esquecendo-se de Lucas, de Gustavo, de Jeana e de toda e qualquer outra pessoa naquele dia, mergulhou nos lábios de Caio bem ali, no meio da água morna de uma piscina numa sexta-feira qualquer.
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