Juventude Transviada

6 Capítulo 6 - Gustavo


Notas iniciais
trilha: Take me to Church (Hozier) https://www.youtube.com/watch?v=PVjiKRfKpPI

Gustavo ficou parado na frente da casa de Caio, esperando seu pai.

Não sabia por que tinha feito o que tinha feito ou porque tinha agido da maneira que tinha agido. Só sabia que estava tremendo. Tudo em si estava tremendo. Suas mãos, suas pernas, seus lábios... Até seu coração parecia estar batendo de maneira diferente.

Ele estava se sentindo de maneira diferente.

Que porra que eu fiz?, ele se perguntou. Por um momento, pensou em dar meia volta, entrar na casa de Caio e abraçar Lucas, pedir desculpas. Mas aquilo ia foder a cabeça dos dois.

Ouviu passos atrás de si. Virou a cabeça. Jean caminhava até ele com as mãos nos bolsos. Parou ao lado dele, sem dizer nada. Gustavo não aguentou a pressão.

-- Se tu veio aqui pra me xingar... – começou.

-- Não – Jean disse. Tirou do bolso uma cartela de cigarros.

-- O que? Vai me bater porque eu chamei ele de viado?

-- Não.

Gustavo bufou. Depois de alguns segundos, perguntou:

-- O que foi então?

Jean acendeu dois cigarros e deu um para Gustavo. Gustavo o fitou e pegou um dos cigarros. Jean ficou olhando para a mão do garoto, tremendo.

-- Eu sei que você não pensa realmente aquilo – Jean disse, depois de tragar. Gustavo puxou a nicotina para seus pulmões.

-- Como você sabe? – ele perguntou.

-- Você demorou pra reagir – Jean disse.

-- Eu fiquei assustado. Nenhuma bicha nunca me atacou antes.

-- Cale a boca. Eu sei que você não pega ninguém porque é inseguro pra caralho, ok?

Gustavo arregalou os olhos, estupefato. Jean olhou pra ele.

-- Eles podem achar que você é um homofóbico filho da puta, mas eu sei que você é só um garotinho confuso e medroso – Jean soprou a fumaça do cigarro na cara de Gustavo.

-- E-eu... Eu não...

-- Sabe, eu trepei com a Sarah hoje, no parque. Não queria que vocês soubessem, e ela ficou irritada pra porra. Disse que eu sou patético e que tem pena de mim – Jean riu. – talvez eu seja mesmo. Mas pelo menos eu deixei claro o que eu queria. Não estou me escondendo atrás da máscara que papai criou pra mim.

Um carro prateado encostou na frente da casa de Caio. Seu pai botou a cabeça pra fora da janela do carro.

-- Venha, já estou atrasado pra reunião – ele disse.

Caio olhou para seu pai, depois para Jean.

-- Apenas... Não fale, ok? – ele disse. Jean deu de ombros. Mesmo sem saber o que aquilo significava, Caio largou o cigarro e foi até o carro. Entrou, fechou a porta e encostou a cabeça no banco.

-- Como foi? Pegou alguma garota? – seu pai perguntou, arrancando o carro.

Caio fitou-o.

Como poderia dizer aquilo polidamente? Como poderia falar para um homem homofóbico e racista que, quando um garoto gay pegou seu rosto entre as mãos dentro de uma piscina e o beijou, ele ficou morrendo de vontade de retribuir o beijo?

-- Não. Ninguém pegou. Só... Assistimos um filme – Gustavo disse.

-- Que filme?

-- Vingadores.

-- De novo? Deve ser a décima quinta vez que você vê esse filme.

-- Bom... Sarah ainda não tinha assistido.

-- Certo. Escuta, por que seu cabelo está molhado?

-- Pulamos na piscina.

-- Adolescentes numa piscina e ninguém engravidou?

-- Não tem graça.

-- Tá. Que seja. Vamos passar na Igreja e pegar sua mãe e sua irmã.

Gustavo não respondeu.

“Você é só um garotinho confuso e medroso”.

Talvez Jean tivesse razão. Talvez o motivo de ter acabado com toda a alegria de Lucas naquele momento fosse porque ele não sentia alegria nenhuma – sentia apenas confusão.

É claro que já tinha sentido outras coisas com outros garotos. Mas nenhum garoto abraçou ele daquele jeito, beijou ele daquele jeito, ninguém foi tão espontâneo a ponto de Gustavo querer gritar e sair daquele lugar o mais rápido possível, apenas para fugir da única verdade que ele não conseguia aceitar.

* * *

—- Você não acredita no que aconteceu no culto hoje! – a mãe de Gustavo entrou no carro. A irmã de Gustavo, Adriane, entrou pela porta de trás.

-- O que foi, amor? – o pai de Gustavo perguntou. Gustavo tinha vontade de vomitar. Como o pai poderia ser tão falso? Todas as secretárias que ele já tinha comido durante todos aqueles 20 anos de casamento... Daria para fazer um cabaré inteiro.

-- O pastor Marcos levou um gay para falar no púlpito hoje! – ela disse.

Todos os músculos de Gustavo se contraíram.

-- Era um daqueles viadinhos que usa calça colada – Adriane disse, rindo.

-- Ele começou a falar sobre como devemos amar todos os seres humanos!

-- Seres humanos, não gays.

-- E começou a dizer que os gays tinham tanta capacidade quanto às pessoas normais... Ah, eu quase saí nessa hora. Que absurdo. Sermos obrigados a nos misturar com... Ah, essa gente.

-- Vocês não foram obrigadas a nada – Gustavo soltou.

A mãe dele e Adriane o fitaram.

-- Quer dizer, eles provavelmente tem uma arma em algum lugar naquela calça colada... – Gustavo tentou explicar.

-- Nem quero saber aonde – disse Adriane. – Deve ser um lugar onde já entrou muito mais coisa do que uma arma.

O pai de Gustavo deu uma risadinha.

Gustavo estava com vontade de abrir a porta do carro e pular fora, mas apenas cerrou os punhos.

Que porra que estava acontecendo com ele?

* * *

Em casa, Gustavo se jogou na cama e ficou olhando para o teto.

Não sabia o que deveria fazer.

Começou a pensar.

Esse foi seu erro.

Pensou sobre os braços de Lucas a sua volta. Pensou sobre as mãos de Lucas em seu rosto e os lábios dele sob os seus. Pensou no momento em que colocara as mãos no peitoral de Lucas e o empurrara.

“Eu não quero a porra de um banho. Ainda mais com um viadinho como você.”

Lembrou-se de Danielle levantando o dedo para ele, e Gustavo sabendo que merecia. Todo o arrependimento pelo que tinha feito estava vindo a tona. Como ele conseguiu ser tão babaca? Quando ele percebeu toda a insegurança dentro de si teve vontade de socar as paredes, de quebrar as janelas e, mais do que tudo, de voltar para dentro daquela piscina, afastar Lucas delicadamente e dizer “não”.

Mas será que ele realmente teria feito isso? Será que ele não teria eliminado todo o espaço entre ele e Lucas, voltado para debaixo da água, colocado seus dedos entre os fios do cabelo castanho do garoto?

Colocou as mãos no rosto. Aquilo lhe causava dor de cabeça. Pegou o celular. Abriu o WhatsApp.

Como ele tá?, mandou uma mensagem para Jean. Cinco minutos depois, uma resposta.

Jean: Tá vivo

Me fala, porra

Jean: Tá bem agora. Sarah levou ele pra casa faz meia hora

Gustavo pensou em pegar a carteira e descer as escadas. Mas não sabia onde Lucas morava, e, mesmo que soubesse, ele provavelmente ia bater a porta em sua cara. Gustavo ficou rolando na cama por quase quarenta minutos.

O que eu faço?, Gustavo mandou uma mensagem novamente para Jean.

Jean: Q tal não foder com tudo outra vez?

Eu tô falando sério

Jean: pq vc n se assume?

Assumir oq?

Jean: viu? Esse é o problema

Gustavo jogou o celular no chão encarpetado. Enterrou o rosto entre as mãos.

Nunca havia se perguntando quem era, de onde viera, para onde ia nem todas essas merdas filosóficas que os velhos da Grécia se perguntavam. Apenas vivia, fazia o que achava certo e o resto que se foda.

Mas quando ele não sabia o que era certo, sua cabeça dava um nó em si mesma e se apertava. Gustavo ficou naquela posição até que os últimos raios de sol do dia se infiltraram pela sua janela.

* * *

No dia seguinte, ele acordou com uma fome monstruosa.

Desceu as escadas. Nada lhe passou pela cabeça. Fez três ovos mexidos, um pouco de Nescau e se sentou na mesa. Sua irmã e seu irmão dormiam até mais tarde, seu pai acordava e ia direto para o computador, sua mãe acordava cedo para ir para a academia.

Assim que a cabeça de Gustavo começou a funcionar, ele se lembrou novamente da água morna envolvendo-o, das mãos de Lucas em seu rosto, das palavras de ódio que proferira. Se lembrou também que Danielle disse que ele parecia um eleitor do Bolsonaro. Aquilo fez ele rir sozinho. Riu tão alto que a empregada pôs a cabeça pra dentro da porta da cozinha.

-- Gustavinho, que que tá acontecendo, Gustavinho?

Gustavo não conseguia falar, porque seu riso não cessavam.

-- Ele... me chamou... de eleitor do... – Gustavo tossiu em meio a sua risada. Colocou as mãos na mesa. – do Bolsonaro...

-- Gustavinho, coitado do Gustavinho – a empregada disse. – Quer que eu ligue pro médico, Gustavo?

Gustavo fez que não com a cabeça. Riu, riu e se engasgou novamente. A empregada deu tapinhas carinhosos nas suas costas, fez cafuné na sua cabeça.

Quando os risos cessaram, seus olhos se encheram de lágrimas. Ele começou a soluçar. Não sabia o que deveria fazer, como deveria agir, para quem deveria ligar. Se sentia sem rumo, se sentia perdido.

-- Gustavinho? – a empregada perguntou. Se ajoelhou ao lado dele. – O que foi, meu menino? Isso é dor de amor? Tá apaixonado, Gustavo?

Eu não sei, Gustavo pensou. Eu não sei de nada, porra.

Não respondeu em voz alta.

Notas finais
GUSTAVINHO Q Q TA COM TESENO GUSTAVINHO