Juventude Transviada
16 Capítulo 16 - Marcos
Notas iniciais
Não bastava ter desapontado a garota do ônibus, desapontou a si mesmo.
Como podia ter sido movido pelo instinto dessa maneira? Como conseguiu pegar aquele rosto nas mãos, movido sua boca e depois fechado a porta na cara dele?
Marcos subiu para o quarto e se trancou lá. Pegou seus cadernos, tentou fazer suas tarefas, mas toda vez que iniciava certa linha de raciocínio, a lembrança daquele garoto vinha a sua mente. Não era como se ele estivesse apaixonado ou algo do tipo – afinal, não era gay, era? Bem, isso era uma questão para depois. O que lhe ocorria agora era como seus instintos o moveram para fazer aquilo.
Passou uns 40 minutos deitado na cama, olhando para o teto, tentando se concentrar em não pensar em nada, mas sua cabeça parecia uma fusão de frustração e confusão. Quando finalmente se levantou, havia decidido passar o resto de sua vida no seu quarto, aprendendo por vídeo-aulas e fazendo provas pelo correio. Poderia viver de sua mesada e...
Deu risada do quanto era patético. Era a primeira vez que dava risada desde a noite anterior. Soava estranho, impróprio. De repente, ele percebeu que era mesmo impróprio. Ele deveria estar de luto, não deveria? Deveria estar vestindo preto, chorando... Em caso mais extremo, deitado no chão em posição fetal, pensando o porquê de ter nascido ou algo assim.
Mas ele apenas se sentia confuso e frustrado.
Olhou para o porta-retrato que sua mãe havia colocado na parede. Era uma foto dele e de Gustavo, de lados opostos de um campo de futebol. Gustavo estava dando embaixadinhas, e Marcos estava olhando pra cima, para o céu, tentando descobrir o formato de uma nuvem.
Marcos balançou a cabeça. Percebeu que não comera nada desde que acordara. Foi até a cozinha. Na geladeira, uma foto estava pendurada por um imã. Eles eram mais velhos, ambos sentados numa escada, uma garrafa de refrigerante ao lado. Gustavo sorria para a câmera, Marcos olhava para uma flor em um vaso ao seu lado.
Marcos sentiu uma raiva crescer dentro dele. Ele pegou a foto e jogou-a no chão. Pisou em cima dela. Abriu o armário em busca de cereal, mas não achou nada. Bateu a porta. Bufou. Estava sendo infantil.
Que se foda!, ele pensou. Precisava fumar. Seus pais não podiam sentir o cheiro de cigarro, então ele foi em direção ao quintal de trás. A parede do corredor estava infestada de fotos. Gustavo com ele, Gustavo com seu pai, Gustavo com sua mãe, Gustavo com a empregada. Gustavo, Gustavo, Gustavo.
Marcos passou a mão com força pela parede. Derrubou quase todos os quadros. Ficaram ali um ensaio fotográfico da família. Sua mãe, seu pai, Gustavo e Marcos.
Marcos olhou para a foto de Gustavo. Uma foto em preto e branco. Ele estava sério, com aquele topete ridículo, um casaco a estilo Alex Turner. Marcos respirou fundo antes de fechar o punho e bater na foto. O vidro estilhaçou-se.
-- Marquinhos! – ouviu a empregada chamar. Não respondeu. Encarou o vidro quebrado, os olhos do irmão. Sua mão sangrava, mas ele não sentia. Ele pegou o quadro, abriu a porta de trás e jogou o quadro na grama. Depois, pisou no quadro o máximo de vezes que conseguiu.
Quando seus joelhos cederam, ele tinha lágrimas de raiva nos olhos.
-- Por que você foi embora?— Marcos gritou. – Por que você me deixou sozinho? Seu viado!
Começou a tremer. Quando se sentou na grama, com os joelhos no peito e os braços enroscados, se perguntou que porra que estava acontecendo com ele e se isso acontecia com todos os gays do mundo.
* * *
Quando sentou-se na frente do psiquiatra, seus olhos ainda ardiam, sua mão ainda sangrava e ele ainda tremia. Seus pais estavam no corredor.
O psiquiatra tinha uma barba rala, era careca e tinha orelhas enormes. Marcos não conseguia encará-lo. Não conseguia encarar ninguém. O psiquiatra não escreveu em um papel nem anotou. Apenas fitou Marcos.
-- Por que você quebrou o quadro do seu irmão? – ele perguntou. Marcos bufou.
-- Me diga você. É seu trabalho – Marcos replicou.
-- É meu trabalho te avaliar. É seu trabalho me dizer o porquê das coisas.
Marcos bufou.
-- Achei que vocês soubessem tudo.
-- É isso o que você quer? Respostas? – o psiquiatra perguntou.
Marcos levantou os olhos pra ele, relutante.
-- Talvez seja – Marcos disse. – Mas eu não posso dizer as perguntas.
O psiquiatra suspirou.
-- “Por que você me deixou sozinho? Seu viado!” – ele recitou. – Quer saber por que ele morreu?
-- Eu sei porque ele morreu – Marcos disse. – Porque ele estava numa porra de rave!
-- O que ele estava fazendo lá?
-- Fumando e... Se agarrando com um piá de merda que... Eu...
O psiquiatra olhou pra ele.
-- Com um piá?
-- Eu não vou dizer mais nada! Isso é ridículo – Marcos bufou novamente.
O psiquiatra semicerrou os olhos.
-- Me conte mais, por favor – ele pediu. Marcos fez que não com a cabeça. – Eu não vou poder te ajudar.
-- Eu não quero sua ajuda – Marcos replicou.
-- O que você quer? Seu irmão de volta?
-- Eu quero saber porque eu só faço merda – Marcos murmurou.
O psiquiatra deu uma risadinha. Aquilo irritou Marcos profundamente.
-- O que foi? – Marcos perguntou. – Por que está rindo?
O psiquiatra olhou pra ele.
-- Seu irmão era gay – o psiquiatra disse. – E você acha que é gay também.
-- Não, não acho – Marcos replicou. Já começou a tremer.
-- Sim, acha. Você não chamaria ele de “viado”, chamaria?
-- Foi a primeira coisa que veio na minha mente!
-- Por que será?
-- Eu não sei! Eu não...
-- E esse garoto da rave? Ele é legal?
-- Não sei! Ele não...
-- O quê? Qual o nome dele?
-- Lucas, mas...
-- Como você sabia? Você viu eles?
-- Não!
-- Então como você sabia que eles estavam juntos?
-- Eles não estavam juntos!
-- Não? Então por que você disse que eles estavam...
-- Ele me disse, ok? – Marcos explodiu. – O Lucas me disse. Ele tocou no meu rosto e eu... Eu não... – Marcos limpou a garganta. – Eu toquei no dele de volta – Marcos fungou. – Que porra eu estou fazendo?
O psiquiatra suspirou.
-- Eu acho que você não consegue aceitar.
-- Aceitar o que?
-- Que seu irmão era gay. E que, talvez, você também seja. Mas independente do que você descobrir, você tem que saber que não é sua culpa, e que você não tem que se desculpar por nada. Exceto, talvez, por ter quebrado aqueles quadros.
Marcos fechou os olhos. Sentiu uma lágrima escorrer do olho esquerdo. Limpou-a com a manga da camisa. Não podia chorar. Não podia demonstrar que ele estava certo. Afinal, ele não poderia ser gay.
E seu pai, como ficaria? Dois filhos gays? Duas... Abominações na família? Dois fracassos? Talvez fosse demais para ele. E sua mãe? Ela se sentiria culpada por ter dado a luz a dois erros. Ela se sentiria a pior pessoa do mundo. A pior mãe do mundo. “O que eu fiz de errado?”, ela se perguntaria.
Marcos não conseguia parar de tremer e soluçar. Não sabia se era pelo que o psiquiatra havia dito, se era pela dor em sua mão ou se era porque a ficha tinha finalmente caído. Talvez fosse de frustração.
-- Eu tentei, sabia? – a voz de Marcos falhava.
-- Tentou o que? – o psiquiatra perguntou.
-- Transar com uma garota – Marcos disse. – Ela era linda. Nem me lembro o nome dela. Ela ficou tão puta comigo... – Marcos passou a mão no rosto. – Eu não consegui. Não sei porque não consegui.
-- Porque não é da sua natureza, Marcos – o psiquiatra disse. – E também não é sua culpa.
-- É culpa de quem?
-- Não é culpa de ninguém. Não é um problema.
-- Pra você é fácil falar, né? Você não vai ter que encarar seus pais e dizer que eles criaram dois fracassos na vida. Você não vai ter que encarar todos os seus familiares olhando torto. Não vai ter que encarar piadas e... E...
-- E você tem que saber que você sempre vai ter pessoas do seu lado – o psiquiatra interrompeu.
-- Não, não vou – Marcos disse. Olhou no fundo dos olhos do psiquiatra. – Você já se sentou no meio dos seus amigos e percebeu que você não tem amigos? Que são só pessoas que jogam futebol com você, que matam aula com você... Eles não te escutam, eles não te conhecem, você só tá lá, sozinho? E, se você fracassar uma vez, se você mostrar fraqueza uma vez, eles todos vão simplesmente se afastar, agir como se você não fizesse falta? E você vai perceber que você não faz, mesmo?
O psiquiatra parecia não conseguir dizer mais nada. Suspirou, escreveu alguma coisa em um papel e entregou para Marcos.
-- Receita de um remédio que eu quero que você tome. Dá sono, então é bom tomar antes de dormir e...
-- Que se foda essa merda toda! – Marcos disse, jogando a receita no chão. – Ninguém me ouve nessa porra!
Marcos abriu a porta. Disparou pelo corredor. Ouviu sua mãe chamando, mas desceu pelas escadas de incêndio. Só conseguia pensar no quanto estava sozinho, sem ninguém que realmente pudesse ouvi-lo.
De repente, teve uma ideia. Era uma péssima ideia, mas era a primeira que veio á sua mente.
* * *
Tocou a campainha daquela casa pela segunda vez. A garota negra novamente abriu a porta e cruzou os braços. Olhou feio pra ele.
-- O que você quer aqui? – ela perguntou. Marcos limpou a garganta.
-- Eu preciso falar com o Lucas – ele disse.
-- Nem pensar. O Jean me contou o que você fez.
Marcos não tinha ideia quem era Jean.
-- Eu fiquei confuso, eu... Eu estou confuso agora – Marcos comprimiu os lábios. – Por favor, eu preciso muito falar com ele.
A garota suspirou. Olhou pra trás e fez um sinal. Lucas apareceu na porta e olhou pra fora.
-- O que foi? – Lucas gritou. – Veio pra me chamar de viado de novo? Pra me beijar e fechar a porta na minha cara?
Marcos suspirou.
-- Eu só preciso falar com você.
Lucas semicerrou os olhos.
-- Se você tá com a porra de uma ganguezinha pra me bater, saiba que eu tenho outra gangue de...
-- Não – Marcos interrompeu. – Por favor. Eu não tenho mais ninguém.
Lucas suspirou. Olhou para Thau.
-- Na minha casa, ele não entra mais – ela disse. Lucas foi até o portão e saiu. Thauane bateu a porta. Rostos adolescentes se amontoaram na janela. Lucas encarou Marcos.
-- E então? – perguntou. Marcos tossiu e apontou para a janela. Lucas revirou os olhos e começou a andar. – Vamos.
Depois de um tempo, Marcos disse:
-- Eu sei que...
-- Shh – Lucas disse. – Ainda não chegamos lá.
Andaram mais um pouco. Quando chegaram em um banco de praça na frente de um rio, completamente estourado, Lucas se sentou. Marcos se sentou ao seu lado. Ficou encarando o rio.
-- Eu acho que eu sou gay – Marcos disse.
-- Você acha? – Lucas disse, em tom de deboche.
-- Me desculpe – Marcos disse. – Me desculpe por ter te xingado e te beijado e por batido a porta na sua cara e... Eu tive a porra de um surto, ok? – Marcos tremeu. – Eu rasguei e quebrei todas as fotos dele. O psiquiatra não me escuta, meus pais vão... eles vão... Eu nem sei o que eles vão fazer.
Lucas fitou-o por um momento, depois disse:
-- Tudo isso porque você gosta de garotos?
-- Você não entende – Marcos disse. Olhou pra ele. – Seus amigos te apoiaram, né? Quer dizer, você tem amigos. Aquele negão que tava atrás de você, ele deve ser, sei lá, seu parça. Se eu ousar dizer pra algum cara da minha turma que, talvez, eu queima a rosca, ele provavelmente vai...
-- Não use esse termo – Lucas disse.
-- Que termo?
-- “Queimar a rosca”. Você soa muito homofóbico.
-- Talvez eu seja.
-- Não, você não é – Lucas disse. – O Gus também não era. Vocês dois são só medrosos pra caralho.
-- Você não entende porque nós não...
-- Sim, eu entendo – Lucas interrompeu. – Minha mãe ficou duas semanas sem olhar na minha cara quando eu disse que eu beijava garotos. Meu pai não aceita que eu chame ele de “pai”, é “senhor” ou “você”. Teve uma vez que ele me fez chamar ele de Roger! Quer dizer, não me diga que eu não entendo, tá bom, porra?
Marcos engoliu em seco. Abaixou a cabeça.
-- Eu só queria que algum deles me escutasse e me dissesse algo que preste – ele murmurou. – Ninguém me diz nada que preste.
-- Bom, eu vou dizer algo que preste – Lucas disse. Colocou a mão no queixo de Marcos e levantou a cabeça dele. -- Pra quem gosta de você, não de quem você fica fingindo ser, não importa se você beija garotos. Não importa se você bate a porta na cara das pessoas ou se você rasga fotos por aí. Eu tinha uns 20 “amigos” antes de sair do armário. Agora, eu tenho 8. Ah, na verdade, 6, porque dois deles morreram. E não foi minha culpa. Não foi por eu ser gay. E nada do que acontecer depois, vai ser porque você é gay.
Marcos limpou a garganta.
-- Mas eu tô com medo pra caralho – Marcos disse.
-- Bom, eu também tava com medo. Acho que Ney Matogrosso também tava com medo, mas...
-- Quem é Ney Matrogrosso?
-- A questão é que você vai saber quem presta assim que você enfrentar teu medo. Não precisa parar de ter medo. Bom, quando eu ando sozinho na rua, eu tenho medo de alguma gangue ir e me espancar, mas eu não posso deixar isso me impedir de andar, né? Quer dizer, eu nasci desse jeito.
-- Não diga isso.
-- O quê?
-- “Eu nasci desse jeito”.
-- É verdade.
-- Minha mãe ia se matar se descobrir que deu a luz a um gay.
-- Sua mãe é uma anta.
Marcos olhou para o lado. Queria socar aquele garoto. Não achou forças pra isso. De alguma maneira, o que ele falava fazia sentido.
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