Juventude Transviada

17 Capítulo 17 - Sarah


Notas iniciais
Trilha: – Kids (MGMT) https://www.youtube.com/watch?v=fe4EK4HSPkI

Quando Lucas saiu junto com aquele garoto alto e louro, Sarah começou a se preocupar.

Lucas era uma das pessoas que ela mais gostava no mundo inteiro, simplesmente porque ele parecia ser completa e absolutamente livre. Ele parecia transpirar originalidade. Sarah queria ser capaz de fazer isso – sem ser um clichê absoluto.

-- Não gosto disso – Sarah murmurou, encostada na parede.

-- O quê? – Bruno perguntou.

-- Ele lá fora, com aquele homofóbico do caralho – Sarah não parava de mexer no cabelo, como sempre fazia quando ficava nervosa.

-- Não se preocupe. Ele já é grandinho, vai ficar bem. Qualquer coisa, ele queima aquele piá com cigarro.

-- O problema é que ele nunca tem a porra de um isqueiro, tem? – Sarah levantou a voz. Thauane olhou pra ela.

-- O que tem de errado com você? – Thauane perguntou. Sarah respirou fundo, tentando controlar sua raiva. Se gritasse, ninguém a levaria a sério. – Parece a porra de uma criança.

Sarah não aguentou.

-- Duas pessoas morreram e vocês deixam os outros irem desse jeito – ela disse. Sua voz tremeu, assim como suas pernas. Ela marchou em direção ao banheiro e bateu a porta. Ficou encostada na porta, com vontade de chorar, sem conseguir derramar uma lágrima.

-- Sarah – ela ouviu uma voz atrás da porta.

-- Vaza daqui – ela murmurou. A porta se abriu um pouco. Jean colocou a cara pra dentro e olhou pra ela.

-- Você não trancou, bobinha – ele disse. Entrou e fechou a porta. Deu um daqueles sorrisos que tirava o fôlego dela. Não importava se ela não gostava realmente dele, ela queria ele, naquele exato momento. Ele a fitou. – Olha, se aquele piá de janho encostar no Lucas, eu vou arrancar aquela cabeça branquela dele e enfiar pelo traseiro, ok?

Sarah suspirou. Percebeu o tamanho de sua infantilidade. Sentia-se completamente estúpida por todos os seus gritos e sua histeria.

-- Eu ainda estou brava com você – ela mentiu. É claro que não estava. Nunca conseguia ficar raivosa por muito tempo. Nunca conseguia manter nenhuma emoção por muito tempo.

-- É por isso que eu estou bolando um plano – Jean disse. Olhou pra ela de cima a baixo. Encaixou sua mão na nuca dela e aproximou sua boca do ouvido dela. Deu uma mordida no lóbulo da orelha.

Sarah colocou as mãos nas costas dele. Por algum motivo, adorava fazer aquilo – sentir a pele daquele garoto, arranhá-lo de vez em quando.

Tremeu quando sentiu a outra mão dele na parte interna de sua coxa. Colou sua boca na da dele e encostou-o na parede do banheiro. Enquanto a mão dele se movia entre suas pernas, seus lábios se moviam para seu pescoço.

Ela deu um chupão no pescoço dele e arranhou suas costas com as duas mãos. Ambos ofegavam no espaço minúsculo do banheiro. Se moveram até a área do box do banheiro. Sem ligar para o piso escorregadio, eles se tocavam embaixo do chuveiro desligado.

De repente, água começou a escorrer. Sarah sentiu seu cabelo molhado e deu um gritinho. Se afastou de Jean, que tentava desesperadamente fechar o chuveiro, sem sucesso.

-- Fecha essa porra logo! – Sarah disse.

-- Não consigo – Jean replicou. Suas mãos estavam nas duas chaves do chuveiro, tentando desliga-lo. Sarah bufou e tentou colocar sua mão no meio daquilo, mas não conseguiu.

Ambos ficaram debaixo do chuveiro, tentando desliga-lo, enquanto a água escorria e molhava ambos. A porta se abriu e Thauane entrou, com Bruno, Jeana e Katrina atrás. Katrina e Bruno começaram a dar risada quando viram Sarah e Jean. Thauane revirou os olhos e simplesmente fechou o chuveiro. Encarou-os.

-- Eu não acredito que vocês iam trepar no meu banheiro – ela disse, com as mãos na cintura. Jean e Sarah não responderam.

-- Eu preciso de uma toalha – Sarah disse, finalmente.

-- Vem cá – Jeana disse, puxando Sarah, que bufou e franziu o cenho.

* * *

Quando Sarah estava enrolada em uma toalha, sentada no sofá de Thauane, com Jeana do lado, ela finalmente olhou para Jean. Os dois começaram a dar risada. Fariam aquilo tudo de novo. Cada pequena merda. Eles fariam tudo novamente.

Thauane entregou um chocolate quente para Sarah e se sentou ao lado de Jeana. Passou o braço nos ombros dela. Sarah olhou. Nunca tinha pensado nelas muito próximas – não dessa forma. Nunca tinha sido muito próxima de Jeana também – exceto por alguns segredos básicos que contava para todas as suas “amigas”.

Nem sabia se aquilo era o que ela estava pensando. Nem sabia se ia aceitar numa boa. Com Lucas era uma coisa – ele nunca escondeu quem era. Não rebolava, mas também não criava um armário.

Mas Thauane... Era diferente. Bem, ela também nunca escondeu que era... O que... Uma vadia? Bom, ela não era. Debaixo daquela vadia tinha uma garota muito amorzinho, que Sarah não conseguia imaginar que fosse do tipo que “corta dos dois lados”. Mas, pensando bem, olhando por um certo ângulo... Fazia sentido.

Sarah olhou para Jean. Ele nem se dava conta, apenas mexia no celular. Ela sorriu. De certa forma, ele era tão desligado de certas maldades que poderia ser tão infantil quanto ela. Por dentro, era um moleque, também.

Olhou para Katrina. Ela era, de longe, a pessoa mais homofóbica do grupo. Era intolerante em todos os sentidos. Na oitava série, espalhara um boato de que o diretor do colégio era gay e que encoxava os garotos na aula de educação física. Bem, ele realmente era gay, mas aquilo não fazia dele um pedófilo. Desde então, Sarah tomara cuidado para não contar muitos segredos para Katrina.

Quando Sarah reparou na expressão de Bruno, parou de pensar na oitava série. Bruno abaixou a cabeça. Olhou pra ela. Tentou um sorrisinho sem graça, sem sucesso. Só faltava uma vela ali no meio – estava muito na cara. Era óbvio que Thauane tinha pegado Bruno – ela pegava todo mundo. E, aparentemente, ele teve a impressão errada.

Sarah se sentiu mal de repente. Deu um gole em seu chocolate quente e olhou novamente para as garotas. Thauane enrolava o cabelo de Jeana em seu indicador e sorria. Sarah quase pulou em cima delas para separá-las, mas aquilo seria ainda mais rude.

O telefone tocou.

-- Eu atendo – Sarah disse. Levantou o telefone do gancho. – Alô?

-- Thauane, filha? – uma voz do outro lado da linha disse. Sarah olhou para Thauane.

-- É sua mãe – ela disse baixinho. Thauane arregalou os olhos e se ajoelhou ao lado do telefone.

-- Oi, mãe – Thauane disse. Sarah se concentrou em ouvir a conversa, mas não conseguiu fazer isso muito bem, porque seus amigos começaram a gritar.

-- Passa a maconha!

-- Cadê a vodka, Thau?

-- Volta pra cama!

-- Você deixou sua calcinha molhada no banheiro!

Sarah começou a dar risada, embora hesitasse em fazê-lo. Parecia meio errado, como se aquilo pudesse de fato ferrar com Thauane. Mas ela começou a rir também.

-- Não, mãe, não é nada – ela disse. – É, eu sei. É, foi lá mesmo. Não. Tá. Eu sei. O quê? Agora? Hã... Não, eu tava só fazendo tarefa. É. Tá. Tô indo. Tchau. Tchau.

Bateu o telefone, se levantou e pôs as mãos na cintura.

-- Minha mãe tá na rodoviária. Preciso buscar ela – Thauane disse. Olhou para Bruno. – Me leva?

Sarah pôs a mão no rosto. Dar esperanças para o garoto apenas ia foder tudo.

-- Ah, mas eu pensei que ia rolar uma festa ou sei lá o que – Jeana disse.

-- A gente pode fazer na minha casa – Katrina sugeriu.

-- Mas e a Mari? O Gabriel? O Lucas? – Sarah perguntou.

-- A Mari deve estar chorando porque o Gabriel prefere assistir anime do que pegar ela – Katrina disse. – E o Lucas deve estar se agarrando com aquele pitelzinho.

Todos olharam para Katrina.

-- O quê? – ela perguntou. – Se ele fosse Hétero eu estaria me agarrando com ele.

Jeana e Bruno deram risada. Sarah e Jean se encararam. Nenhum deles achava muito engraçado. Sarah se levantou.

-- Eu vou pra casa, ok? Isso é muito... Muito pra mim – Sarah disse. Pegou sua bolsa na mesa e abriu a porta.

-- Não! – Katrina se levantou. – Por favor, a gente faz uma festa loca lá em casa. Vai ser legal – Katrina disse, batendo o pé. Sarah olhou pra ela.

-- Acho que... deu de festas por hoje, né? – ela murmurou. Katrina revirou os olhos.

-- Qual é. Não é como se ninguém fosse morrer – Katrina sorriu. – Pelo menos não de tédio.

* * *

No ônibus, o grupo se sentou em pares. Sarah com Katrina, Jean com Bruno, Marcos com Lucas e Jeana ficou em pé ao lado deles.

Quando Lucas arrastou Marcos para ir junto dele, Sarah achou que talvez toda a nicotina que ele puxava para seu corpo tivesse começado a afetar realmente seu cérebro. Porém, ele parecia bem a vontade ao lado daquele garoto que havia xingado ele, beijado ele e batido a porta em sua cara.

-- Olha, eu não consigo parar de pensar – Jeana começou. Olhou para Marcos. – Por que você fez isso? Quer dizer, beijar o Lucas?

-- Meu deus – Jean murmurou, colocando a mão na cabeça como se não acreditasse.

-- O quê? – Jeana perguntou. – É uma pergunta válida. Eu tô confusa.

-- É... Eu meio que... Hum... – Marcos gaguejou.

-- Acho que ele está confuso também – Lucas disse. Bruno franziu o cenho.

-- Você não deveria dizer isso, né? – Bruno disse.

-- O que eu quero dizer é...

-- Ah, esses gays são todos iguais – Katrina soltou.

Sarah arregalou os olhos e olhou para Lucas, já prevendo o que viria a seguir. Ele cerrou os punhos e comprimiu os lábios. Sarah olhou para Marcos. Ele também estava de olhos arregalados, e parecia não entender muito bem o que estava acontecendo.

-- O que foi? – Katrina perguntou. – Eu só tô dizendo que não importa quem vocês são, vocês só ficam confusos e...

-- Katrina, cala a boca por favor – Jean disse, impaciente. Sarah sabia que, quando Jean ouvia algo assim, ele ficava com muita raiva. Quando ela olhou pra ele e lembrou-se disso, desejou ele mais do que nunca, naquele exato momento, naquele exato lugar. Quase sorriu.

Lucas se levantou e puxou Marcos junto, segurando no pulso dele. Apertou o botão do ônibus e ficou na porta. Katrina franziu o cenho.

-- Ah, que se foda você – Katrina disse. – Da pra fazer umas festas bem massas sem esses viadinhos.

Jeana bufou. Ficou ao lado de Lucas. Quando o ônibus parou. Os três desceram e Katrina bufou.

-- Eu disse que era pra você calar a boca – Jean disse, de braços cruzados. Bruno balançou a cabeça, como se estivesse decepcionado.