Juventude Transviada

10 Capítulo 10 - Bruno


Notas iniciais
Trilha: Corpse Roads (Keaton Henson) https://www.youtube.com/watch?v=UAOEOCji3_E

Bruno acordou na manhã seguinte num quarto que não era seu. Seus olhos ardiam e seu corpo doía. Olhou para o lado e viu Thauane no chão, com o cabelo emaranhado, sem blusa. Parecia ter chorado muito.

Bruno demorou a lembrar o que aconteceu. Quando lembrou, quis chorar, mas não conseguiu. Se levantou, agachou-se ao lado de Thauane e a cutucou. Ela abriu os olhos devagar, depois se sentou no chão.

Bruno colocou o braço em volta dos ombros dela.

-- Mais alguém ligou? – ela perguntou, depois de certo tempo em silêncio.

-- Não sei – Bruno disse. Olhou pra ela. – Vamos tomar café fora, ok?

Thauane fez que sim com a cabeça. Levantou-se e tirou seu short. Pegou um vestido e se enfiou nele. Bruno estava deprimido demais para ver Thauane de qualquer maneira que não fosse como simplesmente uma igual, uma garota tão confusa e amedrontada quanto ele. Não era uma vadia, não estava tentando apenas arranjar drogas transando com todo mundo. Estava apenas tremendo porque não conseguia exibir mais nenhuma reação.

Bruno pegou seu boné do outro lado do quarto e pôs na cabeça.

* * *

Enquanto Bruno arrancava o carro, disse:

-- Manda mensagem pra galera. A gente precisa conversar.

Thauane pegou o celular.

Thauane: ei

Thauane: a gente precisa conversar

Mariane: q porra q vc sugere q a gnt faça?

Thauane: não sei, porra

Katrina: eu n sei q q ta acontecendo

Jean: do q q vcs tão falando?

Sarah: do q q vcs tão falando?2

Thauane: alguém conseguiu falar com o caio??

Ninguém disse nada durante dois minutos.

Mariane: vcs sabem do Gus, né?

Sarah: não

Jean: oq houve? Q treta eu perdi?

Thauane: vamo lá no Café Catedral pra gente conversa

Thauane: agora

Bloqueou a tela do celular. Olhou para Bruno.

-- No café – ela disse.

Bruno continuou dirigindo.

-- Quem não sabe ainda? – ele perguntou.

-- Sarah. Jean. Eles não estavam na rave. Mariane sabe, então Gabriel provavelmente também – Thauane disse.

-- Eles estão juntos? – Bruno perguntou.

-- Ela é muito trouxa. Ele é ingênuo pra caralho.

-- Quem sabe? Ela gosta dele faz uns três anos.

-- E ele não se toca disso faz uns três anos.

Bruno deu de ombros. Encostou o carro na rua. Ele e Thauane saíram do carro e entraram na cafeteria. Sentaram-se no canto. Ficaram se encarando.

-- O que vão querer? – a garçonete perguntou. Bruno esfregou os olhos.

-- Nescau.

Thauane fungou.

-- Um café.

-- Expresso, macchiato, cappuccino...? – a garçonete perguntou.

-- Expresso.

Bruno começou a batucar os dedos na mesa.

-- Acha que vamos precisar ir na polícia? – ele perguntou. Thauane deu de ombros.

-- A única que não é menor é a Katrina. O resto de nós vai acabar se fudendo.

Dez minutos depois, Mariane entrou pela porta da cafeteria. Ela vestia a mesma roupa da noite anterior – um jeans e uma blusa de gola alta. Gabriel veio atrás, também com a mesma roupa. Eles se sentaram.

A garçonete chegou com o café de Thauane e o achocolatado de Bruno.

-- E vocês, o que vão querer? – ela perguntou.

-- Expresso – disse Gabriel.

-- Cappuccino. Sem açúcar – disse Mariane. Olhou para os outros. – E agora?

-- Não tenho ideia – disse Thauane.

-- Que porra, o que ele estava fazendo lá de qualquer maneira? – Gabriel perguntou. – Quem convidou ele?

-- O irmão dele tava lá também – disse Bruno. – O nome do piá é Marcos, eu acho.

-- Alguém viu o Lucas? – Thauane perguntou.

-- Ele foi com a Dani. Não voltou com a gente – Mariane disse.

-- Mas que merda – Gabriel grunhiu. Apoiou os cotovelos na mesa e enterrou a cabeça nas mãos. O cabelo criou uma cortina na frente de seu rosto. Ele começou a tremer. Mariane estendeu a mão, devagar, depois passou o braço ao redor dos ombros dele. Estava claro que ele estava soluçando.

De repente, Sarah chegou, usando um vestido azul claro e o cabelo em uma trança. Se sentou na ponta da mesa.

-- Gabriel? – ela perguntou. – O que foi?

-- Você não sabe, não é? – Mariane perguntou. Sarah fez que não com a cabeça.

-- A gente tava nessa festa ontem... E teve um incêndio – Thauane disse. Sarah arregalou os olhos.

-- Está todo mundo bem? – ela perguntou.

-- Não, porra – Gabriel levantou o rosto. – Se estivesse tudo bem, o Gus e o Caio estariam aqui, porra. Não está tudo bem! Você só vive nessa porra dessa sua bolha de felicidade e... e...

Mariane abraçou Gabriel. Afagou o cabelo dele. Olhou para Sarah e disse, baixinho:

-- Acharam o corpo do Gus. Queimado, Sarah.

Sarah respirou fundo. Tapou a boca com as mãos e tremeu. Bruno estava cansado das pessoas tremendo. Se levantou e foi ao banheiro. Jogou água fria em seu rosto. Se olhou no espelho, fechou os olhos.

Que porra deveria fazer? Como iria reagir?

* * *

—- Bom dia pra vocês – Jean disse, se sentando no extremo oposto da mesa. Olhou para todos. – Que cara de morte. O que foi? – ele perguntou.

-- Cara de morte – Thauane disse. – Muito engraçado você.

-- O quê?

Mariane continuava abraçada a Gabriel. Olhou para Jean e sussurrou:

-- O Gustavo morreu. O Caio não voltou até agora.

Jean engoliu em seco. Começou a respirar alto, descontroladamente. Estava claramente tendo um ataque de pânico. Seus olhos ficaram arregalados, ele começou a bater os pés no chão. Enfiou a mão no bolso atrás de um cigarro. Acendeu um e começou a tragar incontrolavelmente.

-- Mas que porra, eu... – ele começou. – Ele não... Ele não merecia... Ele não era...

-- Cadê a Dani? – Mariane perguntou.

-- Nós deixamos ela em casa ontem – Bruno disse. – Não conseguia nem falar.

-- Ela viu alguma coisa que a gente não viu – Thauane disse. – Alguém.

-- Por favor... – Sarah murmurou. – Por favor, não diga isso. Apenas pare, por favor.

A garçonete chegou com o cappuccino de Mariane e o expresso de Gabriel. Mariane deu um gole em sua xícara. Gabriel levantou a cabeça. Seus olhos estavam inchados e sua mão tremia quando ele pegou a xícara. Mariane envolveu sua mão na dele.

-- Você não pode fumar aqui – a garçonete disse para Jean.

-- Eu não dou a mínima – ele disse. A garçonete virou-se e voltou a atender as outras mesas.

-- A Katrina não vem? – Bruno perguntou.

-- Deve estar cheirando o resto da cocaína que eu dei pra ela – Thauane disse.

-- Você é um péssimo exemplo – Bruno disse.

-- Eu sei. O diabo me adora – Thauane brincou. Ninguém riu. Todos estavam absortos demais em suas próprias confusões.