Juventude Transviada
11 Capítulo 11 - Gabriel
Notas iniciais
Contra a própria vontade, Gabriel entrou no carro de Bruno. Ele, Mariane e Sarah ficaram no banco de trás, Jean ao lado de Bruno. Thauane ia de ônibus. Todos iam atrás de Danielle primeiro, depois de Katrina. Depois de Lucas. Na verdade, não tinham decidido qual estava mais destruído e confuso.
-- O causou o incêndio, de qualquer maneira? – Jean perguntou, de repente.
-- Não faço ideia – Bruno disse. – Talvez um baseado que deu errado?
-- Maconha não taca fogo nas pessoas – Sarah disse. – Pessoas tacam.
Gabriel pensou ter ouvido uma ponta de ressentimento na voz dela.
-- Eu acho que foi tipo na boate Kiss, sabe? – Mariane disse. – Tinha uma galera acendendo uns fogos lá.
-- Fogos? Numa garagem? – Gabriel perguntou. – Esse pessoal tem merda na cabeça?
Mariane deu de ombros.
-- Alguém tem um cigarro? – Mariane perguntou. Gabriel olhou pra ela.
-- Desde quando você fuma? – ele perguntou.
-- Desde que eu perdi a porra de um amigo meu, tá?
-- Seu amigo era um homofóbico do cacete – Sarah disse.
-- Ele ainda era uma pessoa, não era?
-- Não importa se ele era homofóbico ou não – Bruno disse. – Ele não merecia morrer desse jeito.
-- Dá pra vocês calarem a boca? – Jean pediu. – Chega – Jean tirou um cigarro e um isqueiro da mochila. Estendeu para Mariane.
Gabriel percebeu que as mãos de Mariane tremiam. Ela não conseguia acender o isqueiro. Ele lembrou do momento em que ela envolvera sua mão na da dele e o ajudara com a xícara. Ele envolveu seus dedos na mão dele e apertou o isqueiro até a ponta do cigarro acender. Ela olhou pra ele.
-- Obrigada – ela disse.
-- Tudo bem – Gabriel disse. Devolveu o isqueiro para Jean, que tinha um meio sorriso no rosto.
O resto da viagem foi silenciosa.
* * *
Na casa de Danielle, Mariane tocou a campainha. Todos concordaram que ela deveria tocar, pois era a que falava melhor (mesmo com sua cara estranha).
Uma mulher grande de cabelos presos apareceu na porta.
-- Vocês de novo! – ela disse. – O que fizeram com a minha filha? Ela não consegue falar!
-- Hã... Nós... – Mariane limpou a garganta. – Precisamos ver ela.
-- Não até que me digam o que aconteceu – a mulher foi até o portão. – Ela foi estuprada? Alguém morreu? Ela chegou aqui cheirando a fumaça e não disse uma palavra. No banho, eu ouvi ela chorando. Que merda vocês fizeram com ela?
-- Estávamos numa festa – Mariane começou. – E houve um incêndio. Um amigo nosso morreu. O outro está desaparecido. Por favor, deixa a gente falar com ela.
A mulher prendeu a respiração.
-- Vocês já falaram com a polícia? – ela perguntou.
-- Não. Não vieram atrás de nós – Bruno disse.
A mulher comprimiu os lábios.
-- Não quero que vocês envolvam a Dani nisso, entendido? Ela está lá em cima.
A mulher abriu o portão. Eles entraram. Subiram as escadas. Danielle estava sentada na cama, fitando o vazio. Levantou o rosto e olhou pra eles. Não disse nada. Sarah se sentou ao lado dela e afagou sua mão.
-- Dani... – ela começou. – Você sabe o que aconteceu com o Gus, né?
Danielle não respondeu. Apenas fitou a amiga.
-- E com o Caio? – Sarah continuou. Os lábios de Danielle tremeram. Ela começou a soluçar. Encolheu-se na cama.
-- Eu juro que eu tentei puxar ele... – ela disse. – Mas ele foi engolido, sabe? Tinha tanta gente. Muita gente. E-eu juro que puxei ele...
Jean se sentou ao lado de Danielle e pôs o braço em volta dos ombros dela. Sarah olhou para seus amigos.
-- E agora? – ela perguntou.
Mariane encostou-se à parede. Parecia não conseguir falar. Gabriel afundou a cabeça nas mãos. Bruno tirou o boné e começou a girá-lo entre os dedos. Afastou o cabelo de Danielle da frente do rosto da garota e deu um beijo em sua bochecha.
-- Eu vou ligar pra Jeana, tá? – ela disse. – Ela pode passar o dia com você, tudo bem?
Danielle fez que sim com a cabeça. Na porta, a mãe de Danielle tocou no braço de Gabriel.
-- Ela falou alguma coisa? – perguntou. Gabriel limpou a garganta.
-- Acho que ela viu ele morrendo – Gabriel disse. Sua voz estava fraca e ele mal conseguia se manter em pé. Ao seu lado, Mariane parecia ter um ataque de pânico: os olhos arregalados, a respiração entrecortada e todo o seu corpo tremendo. Ele passou um braço pelos ombros dela. Não sabia se deveria. Sempre havia tentado deixar claro que não queria nada, mas ela sempre estava ali. Porém, nos últimos meses, ele não tinha certeza se realmente não queria nada. Talvez quisesse. Talvez fosse aquilo que ele precisava.
-- Meu Deus – a mãe de Dani disse. Não conseguiu se mover.
* * *
De volta no carro, enquanto Sarah mandava mensagens para Jeana e Thauane, Bruno dirigia até a casa de Katrina. Mariane não conseguia mais falar, não conseguia se mover, apenas bater o pé no chão do carro.
Gabriel olhou pra ela. Sobrancelhas e olhos separados, um nariz grande, uma testa grande, rosto quadrado. Nenhum dos garotos a achava realmente bonita, mas Gabriel achava que ela era uma das poucas garotas que ele conhecia que realmente prestava.
Era uma daquelas garotas que estava sempre nervosa, porém tentava acalmar os outros. Gabriel se lembrava de uma vez que ela havia arranhado ele e sua mão começou a sangrar; ela virou-se, tocou na mão dele, olhou nos olhos dele e disse:
-- Desculpa.
Não era uma confissão de amor eterno nem nada, mas ela falou aquilo de forma tão intensa que Gabriel ficou até com certo receio. Não sabia o que estava acontecendo, o que ela estava tentando dizer. Não sabia como deveria reagir. Por isso, puxou a mão de volta pra si.
Percebeu que ela tentou esconder a decepção no olhar dela por baixo de um sorriso sem graça. Ela virou pra frente e tornou a escrever.
Bruno encostou o carro. Todos saíram.
-- Mari...? – Bruno disse. Ela continuava sem falar nada.
-- Deixa ela – Gabriel disse. – Eu vou.
Gabriel andou até o portão e tocou a campainha. Katrina abriu a porta. Estava usando uma camiseta larga e um short curto. Ela abriu o portão.
-- Eu não me lembro de nada além da fumaça – ela começou dizendo. O grupo se olhou. Ela franziu o cenho. – O que foi?
-- É melhor você entrar antes da gente te falar, ok? – Jean disse. Colocou a mão nas costas dela. Sarah foi a última a entrar. Fechou a porta. Katrina se sentou na poltrona, enquanto os outros se sentaram no sofá. Jean suspirou. – O Gus e o Caio... Eles... Eles não saíram de lá.
-- Eles estão presos? – Katrina perguntou. Mariane deu uma risada nervosa.
-- Sim, porra – ela disse. Estão presos no fogo do inferno!
Katrina arregalou os olhos.
-- Calma, meu deus. O que foi?
-- Eles morreram, Kat – Sarah disse.
Katrina abriu a boca. Piscou algumas vezes. Encheu os olhos de lágrimas. Levantou-se e foi até o banheiro. Jean abaixou a cabeça.
-- Pronto. Agora está todo mundo emocionalmente fudido. Uma maravilha – ele resmungou.
Gabriel não respondeu. Olhou para Sarah.
-- Falou com a Jeana? – ele perguntou.
-- Ela tá indo pra casa da Dani – Sarah suspirou. – E agora?
-- Eu acho que a gente tem que ir pra casa – Mariane disse, finalmente. – Quer dizer, a não ser que vocês prefiram enrolar um baseado.
Bruno deu risada.
-- Claro – ele disse. – Minha prioridade.
* * *
Quando Gabriel chegou em casa, seu pai saiu da cozinha e se encostou na parede, encarando-o.
-- Onde você estava? Onde você dormiu? Por que não me ligou? – perguntou. Gabriel suspirou.
-- Eu tava com uma amiga – ele disse.
-- Se você engravidar uma dessas suas putinhas eu juro que não vou criar seu neto.
-- A gente passou a noite assistindo TV, pai – Gabriel disse. – Mesmo que a gente já tivesse ficado, acho que eu fudi tudo de qualquer maneira.
Gabriel se largou no sofá de casa. Estava com sono, com fome e exausto. Seu pai foi até a geladeira e serviu um copo de Coca pra ele.
-- Valeu – Gabriel disse. O pai se sentou ao seu lado.
-- O que aconteceu, Gabriel? – perguntou. Gabriel olhou para o pai. Era magro, tinha os cabelos cortados curtos, vestia sempre o mesmo estilo: bermuda e camisa de manga curta. Gabriel respirou fundo.
-- Eu tava numa festa... Gabriel começou.
-- Você usou drogas? – seu pai interrompeu.
-- Não. Me deixa terminar, ok? Teve esse incêndio e... Aparentemente... Dois amigos meus não saíram de lá.
O pai de Gabriel encarou o filho por um instante.
-- Eu conheço eles?
-- O Caio. O Gustavo.
O pai de Gabriel esfregou os olhos.
-- Vocês falaram pra polícia? – o pai de Gabriel perguntou.
-- Nós não podemos.
-- Por quê?
-- Nós meio que subornamos o segurança, porque a festa era pra maiores de 18, e a única maior era a Katrina, então...
-- Meu Deus, Gabriel. Eu juro que se a polícia bater aqui procurando você, eu vou fingir que não te conheço.
Gabriel sorriu.
-- Obrigada, pai.
-- Não me agradeça – o pai de Gabriel bufou. – Vai pro seu quarto. Você não vai a lugar nenhum além da escola.
Gabriel se levantou do sofá. Jogou-se na cama de seu quarto. Pensou no fogo, nas luzes da rave e em Mariane. Pensou em Caio e em Gustavo sumindo no meio da multidão, ao mesmo tempo, sendo engolidos pelas pessoas.
Em meio a todo caos, ele apagou.
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