Just a give a reason

1 Parte I - Quatro anos que passaram


Notas iniciais
Nota inicial: Essa ideia eu tive desde que ouvi Linzin pela primeira vez e aqui está. Mais um presente a minha mokona amada, e ai? Está perto do que imaginou? Espero que sim. Boa leitura a todos.

Just a give me reason

Aquele era o quinto aniversário de casamento de Tenzin com a jovem Pema, eles ainda não tinham filhos e resolveram passar alguns dias na pacífica ilha Ember. O casal caminhava na praça da cidade e mesmo ali o Vereador era reconhecido. Houve alguns cumprimentos, conversas rápidas, mas ele não estava interessado. Aquele era um momento apenas dos dois, longe de toda turbulência do trabalho em RC.

Havia muita gente, pois estava sendo preparado um festival de comidas, então para todos os lados pessoas andavam, gritavam, montavam tendas, cozinhavam... O casal após uma volta decidiu sentar num banco de pedra. Pema correu num ambulante de sorvete e voltou rindo. O homem ao seu lado apenas sorriu, ela era tão jovem, quase uma menina ainda.

Ficaram conversando tranquilamente aproveitando a brisa que vinha do mar quando de repente os olhos da esposa do monge caíram numa pequena pessoa da multidão, mas pequena mesmo, uma criança. Cabelos negros com uma franjinha acima dos olhos. Vestia-se com esmero e deveria ser do reino da terra, pois seus trajes eram verdes. Mas o que mais chamava a atenção é que parecia estar sozinha na confusão de pessoas.

Caminhava tranquilamente e não parecia assustada.

E ria.

Um risinho sincero e infantil. Sem que notasse Pema ficou a seguí-la com os olhos, era tão adorável.

- Querido... – chamou o marido –

- Sim? – respondeu tranquilamente –

- Olhe ali... – apontou – Aquela garotinha está sozinha.

- Como?

O homem correu os olhos cinza pela multidão e demorou alguns segundos para conseguir efetivamente ver o que a mulher lhe dissera. Quando avistou a pequena, ela estava recebendo um balão de artista que passava, mas sua alegria infantil durou pouco, não soube o motivo, mas ela simplesmente o soltou e nem olhou para cima para vê-lo se afastar.

Percebendo ao redor realmente constatou que estava desacompanhada e franziu o cenho. O que uma criança tão pequena, não daria a ela nem quatro anos, tão bem vestida fazia ali? Constatou as vestes finas e esmeraldas, definitivamente não era nativa.

- Será que devemos ajudar? Hum.. Ela parece tão pequena... – Pema apertou seu braço –

- Não vejo ninguém parecido por perto, mas devem estar procurando. Vamos leva-la até o centro da praça onde será mais fácil deencontrarem-na.

Dito isso, o casal se levantou e caminhou pelas pessoas tentando não perde-la de vista. Um barulho aparentemente chamou sua atenção e ela começou a correr até onde uma trupe de quatro dobradores de fogo circenses fazia uma apresentação, provavelmente anunciando algum show de circo. As pessoas formavam um círculo e a menina facilmente foi por entre as pernas dos adultos até chegar bem a frente, onde havia o barulho de música de circo.

O casal logo atrás tentava chegar até ela, mas sendo adultos não parecia tão fácil, as pessoas não queriam abrir espaço. Tenzin levemente apressado, preocupado com a criança sozinha, começou a usar um pouco de dobra para afastar os espectadores. Conseguiu ver que era uma demonstração de firebenders e preocupou-se, a menina sozinha podia acabar se ferindo sério.

Estavam perto de alcançá-la quando ela de repente saiu correndo para onde estavam se apresentando. Foi tudo muito rápido, num momento ela estava parada e no outro o som de sino do outro lado entoou e ela simplesmente saiu correndo enquanto as labaredas queimavam. Era como se não visse. Pema colocou as mãos sobre a boca e fechou os olhos, Tenzin por sua vez usou sua dobra para jogar os malabaristas para longe da criança que foi derrubada pela corrente de ar.

Correram até o centro e viram ela se levantando. Abaixaram-se a sua altura.

- Olá pequena. – Pema chamou, mas ela não a olhou diretamente –

- Oi! – respondeu encarando um ponto entre ela e o marido –

- Está tudo bem? Se machucou?

- Hum... – ela passa as mãozinhas pela roupa – Naum...

O som da sineta novamente ecoou e ela virou o rosto disposta a correr, mas a mulher do Vereador foi mais esperta e segurando. Instintivamente virou o rostinho numa careta.

- Solta... – empurrou as pequenas mão sobre o leve aperto de Pema –

- Hey, hey... calma, não pode ficara andando sozinha! Onde estão seus pais?

- Sinos!! – ela virou-se tentando correr novamente –

A essa altura Tenzin já se desculpava com os malabaristas e fez sinal para que saíssem do meio da roda. A esposa facilmente pegou a criança nos braços que logo ficou inquieta e começou a se debater levemente tentando descer. Rapidamente foram para um lugar mais tranquilo e logo ela foi posta de volta no chão. Onde aparentemente sentiu um alívio.

- Qual seu nome? – perguntou Tenzin –

A garotinha aparentemente tinha ficado ressabiada por ter sido pega e só fez um bico ficando calada.

- O que foi, meu bem? – Pema tentou – Desculpe, não queria te assustar... Prometo não te pegar mais.

Ela fez algumas expressões e andou de um lado para o outro dentro do limite que a presença do casal permitia.

- Shen não gosta de ficar longe do chão!

- Oh... Então seu nome é Shen que nome bonito...

Depois de alguns segundos ela se senta no chão e mexe a cabeça para os lados. Pema conversava com ela que não parecia muito interessada em papo, alguns sons altos como de foguetes a assustaram e então se encolheu. Tenzin apenas observava, algo estava errado com aquela criança. O jeito com que ela olhava, a maneira como não os olhava no rosto quando falava com eles e foi então que notou que seus delicados sapatinhos verdes não tinham sola... Revelando solas sujas de poeira.

Pelas roupas que vestia claramente vinha de uma família abonada, não fazia sentido ter sapatos sem solas. Depois de alguns minutos a esposa conseguiu a confiança dela novamente e ela falava um pouco enrolado às vezes sobre as coisas. Mas não citava cores, objetos ou tamanhos, apenas sons. Crianças eram muito atraídas por coisas coloridas.

- Não pode ficar correndo por aí sozinha, quase que aqueles dobradores te queimaram, não viu o fogo, pequena?

- Não... Shen não vê nada.

- Podia ter se machucado... Aí... Sua mãe deve estar tão preocupada... Como fazemos querido?

- Ela parece de família abonada, já deve ter pessoas procurando...

- Quero água!

- Hum? Água? Okay... está quente mesmo.

No segundo seguinte Pema foi a procura de água para criança, Tenzin estava sentado no banco de pedra e permaneceu olhando, tinha alguma coisa nela que chamava sua atenção, ela com certeza lhe lembrava alguém. Quando se levantou colocou as mãos sobre o assento tateando a pedra lisa até alcançar o homem tocando suas vestes, ela parecia se divertir com a diferença de textura. Parecia um pouco velha para divertir-se com algo tão trivial.

Pegou-a pelos lados colocando-a sentada, ela não gostou daquilo, mas logo se acalmou tateando o banco e foi então que ela olhou para cima. A primeira vez que o encarava, mas o engraçado é que não parecia realmente o estar encarando. Os cabelos pretos lisos, rosto redondo, olhos verdes puxados para algo leitoso... Nossa, realmente tinha os traços conhecidos.

A esposa voltou com a água.

- Aqui, Shen, água fresquinha!

Colocou um pouco num copo e colocou a mão em frente a ela onde suas mãos alcançariam, mas ela não pegou. Continuou a olhar para frente.

- Ela é uma gracinha, não é Tenzin? Tão bonitinha, parece uma boneca como as que eu tinha... Não quer mais a água?

- Quero... Cadê?

Ela balançou os braços no ar e por fim bateu as mãos no copo e então pegou-o.

- O que foi isso? – Pema olhou o marido –

O último airbender passou então sua mão em frente aos olhos dela algumas vezes e nada.

Os olhos permaneceram parados.

- Ela é cega, Pema.

- Como? – a mulher deu um pulo – Não, não é... Ela não parece cega... A vimos andando...

- Notou como o que chama atenção dela são sons mais chamativos? Ela está descaça e ameaçou chorar quando a tiramos no chão... Sem contar que não viu os dobradores, ela mesma disse.

- Oh Espíritos! Impossível... Ela caminhou pela multidão sem bater em ninguém.

- Ela não nos olha no rosto quando falamos... E não viu a água que ofereceu. – olhou para menina que ainda bebia do copo – Shen... – ela virou o rosto – Você gosta da minha tatuagem?

- Hum? – indagou confusa – Shen não sabe o que é tatuagem...

- O desenho que tenho na testa, a seta azul... – disse tranquilo tentando não assustá-la –

Ela piscou duas vezes e voltou a mirar a frente.

- Não vejo,Shen não vê nada... Pode tocar?

Pema somente arregalou os olhos, o marido por sua vez parecia tranquilo.

- Você conhece as coisas tocando certo? – ela balançou a cabeça – Então venha cá... – ajudou-a a colocar-se de pé sobre o banco e levou as mãozinhas até seu rosto –

Ela riu tateando as sobrancelhas, foi descendo pelo nariz, quase enfiou um dos dedinhos nos olhos azuis e achou graça da barba no queixo. Foi indo pelas orelhas e subiu até a cabeça raspada sentindo a leve diferença de textura entre a pele tatuada.

- Então? Gostou?

- Não tem cabelo! Por que você não tem cabelo?

- Eu sou um monge do ar, por isso tiro todo o cabelo. – ela fez uma expressão engraçada –

- Monge não pode ter cabelo?

- Pode sim, mas eu prefiro assim para todo mundo ver minha tatuagem...

- Sua tatuagem... Hum ... Senti diferente...

- Oh sim, você sentiu? Então, pequena, por que está aqui sozinha?

- Vim com a Myuu...

Uma voz ecoou com o nome dela e os dois adultos olharam. Uma mulher de cabelos castanhos e vestida com uma blusa chinesa vermelha, calças e sapatilha. Bem jovem e trazia consigo uma cesta de palha cheia de verduras.

- Shen!!! Oh Espíritos!

- Myuu!! – a menina pulou e correu diretamente para a mulherque a abraçou –

- Oh Shen!! Por que saiu de perto de mim? Eu quase morri de preocupação!

- Sinos, Myuu!! Gosto do som de sinos!

- Não pode correr sempre que ouvir um som que gosta! O que combinamos para sair? Sempre perto! – olhou para o casal – Nossa! Obrigada por cuidarem dela, algo aconteceu?

- Bem, ela quase foi acertada por malabaristas de fogo, mas meu marido conseguiu impedir o pior!

- Oh!!!Firebenders? Está machucada? Shen!! Sua mãe me mataria se algo te acontece!

- Não se preocupe, não aconteceu nada! – Tenzin disse tentando acalmá-la –

- Muito, muito obrigada mesmo! Nossa... Nem me apresentei,Myuu! Sou a babá dessa pequena travessa!

- Não foi nada. – Tenzi assentiu com a cabeça –

- Hum... Myuu... A garotinha é cega? – Pema perguntou ainda não crendo no marido –

A criada ficou um pouco corada e olhou para baixo.

- Sim, sim... Shen é cega de nascença, mas ela consegue sentir as vibrações pelo solo.

- Vibrações?

- Hum... Eu não sei explicar! Mas enquanto tem os pés no chão não vai tropeçar, bater ou errar a localização de nada. Bem, obrigada por cuidarem dela, mas temos que ir, está tarde!

- Oh sim... Adeus, pequena! – Pema acenou esquecendo da cegueira dela –

- Vamos, vamos... Sua mãe já deve estar nos esperando para comer, eu disse que sairíamos rapidinho! – disse levando-a pela mão –

- Hai, hai! Tchau! – ela balançou a mãozinha livre enquanto se afastava –

Tenzin ficou em silêncio.

Cega e ‘vendo’ por vibrações? Ele só conheceu uma pessoa que era capaz de fazê-lo.

***

LinBeifong estava sentada numa confortável poltrona de vime na parte detrás da residência de verão da família real do fogo de onde tinha a vista para uma praia particular. Quando recebeu ordens de seus superiores burocráticos para sair em férias realmente não lhe agradou a ideia, mas agora depois daquela semana em Ember podia dizer que não estava de todo incomodada.

Sua vida era muito ligada a polícia e a academia de dobra, e após o fechamento de um grande caso recebeu ordens de sair por pelo menos quatro semanas. Resistiu o quanto pôde, mas aparentemente não teve chance. Gastou um considerável tempo imaginando o que faria naquelas semanas quando após um telefonema de Ursa para avisar que o pai havia se recuperado de uma breve doença surgiu. Foram companheiras de infância todas as vezes em que foi possível e Zuko não deixava de ser seu “tio” após tantos anos. Comentou de suas férias forçadas e a futura herdeira do trono lhe ofereceu a casa da família na pacifica Ember.

No início relutou em aceitar, mas parecia bom. Um lugar tranquilo, com toda a privacidade que a casa do Senhor do Fogo oferecia. Seus pés no chão captaram vibrações que seria capaz de reconhecer a uma milha de distância e um leve sorriso surgiu na face da Chief.

Ouviu a porta da frente se abrir e logo a voz de sua criança ecoar chamando-a.

- Mamãe! Mamãe!!

Não precisou falar nada, Shen saberia onde encontrá-la por si própria. Os passinhos leves e quase como sinos dela logo se aproximaram e sentiu que ela abraçou-lhe as pernas colocando o queixo sobre seus joelhos.

- Olá, pequena. Como foi o passeio?

- Muito bom! Tinha um monte de gente... E sinos, mamãe!

- Nossa! Sinos? Mesmo? E você gosta muito certo?

- Sim, sim!

Lin pegou a filha colocando-a no colo, somente o colo da mãe era bom o suficiente para que ela trocasse o contato do chão com seus pezinhos.

- Desculpe a demora, senhora... – Myuu estava parada em frente aLin e claramente não estava tranquila –

- E eu imagino que queira me contar o motivo desse atraso? – indagou mexendo nos cabelos escuros da filhaque estava tateando o livro que tinha em mãos –

A mulher corou e a Chief sentiu sua pulsação cardíaca aumentar.

- Eu estava comprando algumas verduras e a Shen se perdeu de mim... – a sobrancelha esquerda de Lin arqueou-se – Foram só alguns minutos, senhora! Eu tirei os olhos dela um minuto e acho que ela ouviu algum sino...

Lin fechou os olhos e contou mentalmente até dez. A filha tinha se perdido? Como assim Myuu deixava Shen sem supervisão? A garotinha era simplesmente uma pequena espoletinha, num minuto estava a sua frente, no outra explorando o lado oposto. Segurou a respiração e depois abriu os olhos.

- Myuu, sabe que crianças pequenas precisam de supervisão todo o tempo, principalmente a Shen, ela ainda não enxerga totalmente bem do jeito dela.

- Eu sei, senhora, mas juro que foi só um minuto, não vai mais acontecer!

- Tudo bem, Myuu, mas que não se repita.

Lin não era mulher de aceitar erros, principalmente quando se tratava de sua filha, entretanto Myuu a estava acompanhando desde o sexto mês de gestação e foi a babá da filha desde que nasceu, fazia isso muito bem, não tinha o que reclamar, por isso resolveu relevar daquela vez. Sentiu as mãos da filha segurarem cada lado de seu rosto.

- Mamãe!

- O que foi?

- Eu tô com fome...

- Então vamos lavar as mãos e lanchar!

- Eu quero bolo... Hum... E biscoito!

- Você sempre quer bolo e biscoito, baixinha!

- Mas é booom! – e riu –

- Okay, vamos lavar essas mãos e achar uns biscoitos!

A menina escorregou de seu colo e saiu correndo na frente.

***

Pema tinha descido para comer no restaurante do hotel e Tenzin mentiu uma dor de cabeça, não estava muito no clima de ficar conversando. Estava intrigado com aquela garotinha. Depois de irem embora lembrou-se com quem ela parecia, mas é óbvio. Shen era a cara de TophBeifong. Os mesmos cabelos pretos lisos, olhos verdes leitosos, pele clara, até a risada lembrava a grande amiga de seu pai... Quase como uma miniatura da criadora da Metalbending.

Oh Espirítos! Nunca tinham ouvido falar de outra pessoa capaz de ver como Toph via. Ele sabia que Linde certa forma era capaz de ‘ver’ através das vibrações, mas nunca ouviu-se de outro caso de uma pessoa cega usar a dobra como meio de visão. Toph era excepcional, praticamente uma em um milhão.

Levantou-se sentindo a respiração pesada, mexeu em sua mala atrás de seu Japamala, nessas horas em que estava com a mente confusa gostava de ter o terço de orações que ganhou do pai, era uma relíquia que ele achou visitando um dos antigos templos dos Nômades do Ar. Estava dentro de uma pequena caixa e quando olhou bem, no fundo havia uma foto antiga.

Apertou os olhos trazendo-a mais para perto, o quarto estava sob penumbra. Aquela foto tinha mais de vinte anos... Pelo menos vinte e cinco. Estavam todos os grandes amigos de seu pai e suas respectivas proles. O pai, a mãe, Sokka, Zuko, Mai, Toph, Ursa, Lin, os irmãos e a si mesmo. Notou que estava ao lado de Lin com o braço em sua cintura. Eram tão jovens naquela época... Uns quinze anos talvez.

Um sorriso saudoso lhe surgiu sem notar.

Tocou com a ponta dos dedos... aqueles eram bons tempos.

Sentou-se numa cadeira e ficou olhando aquele retrato. Tudo poderia ter sido tão diferente. Definitivamente aquela garotinha era uma cópia de Toph, mas como isso era possível? Duas pessoas no mundo do Reino da Terra, cegas, parecidas, separadas por uns oitenta anos, com uma capacidade inata de dobra. Porque se aquela garotinha tão pequena podia ‘ver’ pelos pés, era uma earthbender.

Só se fossem parentes... Talvez neta e avó...

Não, não, definitivamente não. A linhagem Beifong estava em Lin e ela não tinha filhos. Até porque o fato dela não querer tê-los foi um dos problemas que os levaram ao fim de um relacionamento de outra vida. Sem dizer que mesmo estando afastados esses anos todos, saberia se ela tivesse casado ou estado grávida. Ela era LinBeifong a atual melhor earthbender do mundo, a chefe da polícia de dobra e mestra da academia Beifong, o lugar que formou os integrantes da Dai Li nos últimos cinquenta anos pelo menos... NÃO TINHA COMO ELA TER TIDO UM FILHO E ELE NÃO TER SABIDO.

Fechou aquela foto na caixa novamente e começou a caminhar pelo quarto.

Não havia outra ramificação da família de Toph. Os pais dela não tiveram outros filhos... Nunca soube de tios, primos ou qualquer outra coisa. Não tinha como aquela menina ser uma Beifong!

E foi quando um raio de lucidez surgiu em sua mente.

Por que estava tão interessado em uma garotinha de três anos que conheceu por alguns minutos? Okay, tinha feito uma boa ação como era o certo a impedindo de se machucar, mas só isso. Não lhe importava quem eram os pais, se ela era cega ou não, se era dobradora!

Fechou os olhos e apertou o japamala entre as mãos.

Tudo era simples, tinha ficado obcecado por aquela criança porque ela lhe lembrava Lin. Só isso. Pura e simplesmente isso. Estava tão claro agora. Provavelmente ela nem era tão parecida assim com Toph, o problema era que sua mente estava dando um jeito de ter a ex-namorada em pensamentos. Nossa... Sentia-se um idiota. Respirou fundo e soltou um suspiro.

- Sou um homem casado e minha esposa está jantando sozinha enquanto fico pensando em uma criança que nem conheço.

Dizendo em voz alta ficou ainda mais ridículo.

Saiu por a fora disposto a não pensar mais em coisas inúteis.

***

Cerca de dois dias depois estava almoçando com Pema no centro da cidade. Tudo tinha voltado ao normal e estava aproveitando aquela segunda lua-de-mel. Sentia um pouco de Pema às vezes, o trabalho como Vereador lhe tomava muito tempo e quando estavam em casa ela passava muito tempo sozinha, a esposa era tão jovem, não devia ser fácil ter aquela vida.

Estavam quase terminando a sobremesa quando o prefeito da cidade surgiu. Já tinha achado estranho estar ali há sete dias e não ainda não o ter encontrado. Obviamente que o homem viria trocar algumas palavras e talvez até tirar umas fotos com o Vereador Tenzin.

- Boa tarde, Vereador Tenzin! É uma honra receber o senhor e sua esposa... Gostando de Ember?

- Boa tarde, Prefeito Li. – estendeu a mão – Ember é um lugar ótimo, estamos tendo um ótimo tempo juntos, não é mesmo, Pema?

- Com certeza. Aqui é tão lindo... Sem dizer a praia que é ótima. Tem uma bela cidade, Prefeito.

- Fico feliz que estejam gostando, fazia tempo que não recebíamos tantas visitas ilustres.

- Quem mais está na cidade? – indagou Pema curiosa, talvez fosse alguma celebridade –

- Vocês devem conhecer, a Chefe da Metalbending de Republic City, LinBeifong. – um silêncio constrangedor caiu sobre a mesa, mas o prefeito tão perdido em seus devaneios não notou continuando tagarelando – E sua adorável filha! Estão hospedadas na residência do Senhor do Fogo, aparentemente,ela prefere ficar longe das grandes aglomerações.

Olhos arregalados.

Quatro olhos muito arregalados.

O casal tinha acabado de ouvir que LinBeifong estava em Ember com sua filha?

Desde quando a grande ChiefBeifong saia da cidade que considerava sua para ir relaxar num lugar pacifico e praiano? E o pior de tudo, desde quando ela tinha uma filha? Lin não tinha filhos.

Só podia estar havendo um engano.

- Desculpe, mas acho que deve estar confundindo, ChiefBeifong não tem filhos, prefeito... – Pema disse tranquilamente depois de engasgar vexaminosamente com um pedaço de aipo–

- Não, não, eu mesmo a vi com a pequena fazendo compras no mercado duas semanas atrás. Me apresentou a criança, uma garotinha adorável. Enfim, espero que tenham uma excelente estadia e se possível Vereador, gostaria que visitasse meu gabinete para conversarmos um pouco.

- Se-será um prazer... Prefeito.

O homem saiu e o casal continuou ali parado, sem mais tocar na comida.

- Hum... Parece que Chief resolveu não deixar o legado da família morrer com ela... – Pema tentou não parecer incomodada com o assunto Lin –

- Pois é, nós não soubemos de nada. – disse tomando um gole de água tentando não perder a compostura –

- Bem querido, você perdeu o contato com ela depois que nos casamos, não é mesmo? Tantos anos já passaram, óbvio que ela seguiu em frente como você... Está até tirando férias...

Aquelas palavras acertaram Tenzin como uma rocha. Lin seguindo em frente? Tendo filhos e tirando férias? Tiveram um relacionamento por praticamente vinte anos e ela sempre manteve-se rígida como uma rocha quanto aos seus deveres como Chefe e Mestra. E agora ouvia que ela podia ter casado, tido uma filha e estava de férias com alguém que não esteve nem por cinco anos.

Não podia ser possível.

- É possível, mas como temos amigos em comum e... Bem, esse é o tipo de notícia de que corre.

- Bem, de qualquer modo, que bom para ela. Uma mulher por mais bem sucedida que seja não é completa sem uma família... Espero que seja tão feliz como nós dois. – sorriu mesmo estando com vontade de ter um chilique –

- Claro que sim, Lin merece toda felicidade, assim como nós.

Ficaram pouco mais de dez minutos no restaurante e foram para o hotel. Lá deixou Pema com a desculpa de ir falar com prefeito para resolver aquilo logo. A esposa não gostou e ficou desconfiada, mas não disse nada. Tinha que confiar nele. Tenzin era seu marido. Casar-se com ela foi uma escolha, ninguém o obrigou.

Podia confiar nele e na solidez de seu relacionamento.

Seu marido jamais a deixaria ali para correr atrás da Beifong.

***

Lin vestia uma legging preta com uma bata verde escura e estava sentada numa das espreguiçadeiras vermelhas Sentia a brisa do mar tocar-lhe a pele já não mais tão jovem quanto alguns anos atrás. Tinha os olhos a fitar o céu repleto de estrelas. Não se podia ver uma noite assim em RC por causa de todas as luzes.

- Mamãe...

Ouviu a voz da filha e a viu correr até si já vestida para dormir acompanhada de Myuu.

- Olha quem apareceu limpinha e pronta para dormir...

- Não tô com soninho! – disse entre um bocejo –

- Claro que não... – sorriu e olhou para a babá – Pode ir Myuu, se quiser sair ou descansar, eu cuido da tampinha agora, obrigada por dar banho nela... Eu realmente precisei atender aquele telefonema.

- Tudo bem, senhora Lin, é o meu trabalho no fim das contas.

- Mas não é uma escrava, tem o dia de folga para fazer o que quiser amanhã. – disse ajudando a filha a subir na cadeira –

- Não, não... Meu dia livre é só no sábado...

- Terá amanhã e o sábado, vá passear na cidade, ir a praia, dormir... Não sei. Todos merecem descansar, posso muito bem cuidar dela. – disse acariciando os cabelos da filha que riu –

- Oh... Obrigada... Mas se precisar pode chamar.

- Tudo bem, mas vamos torcer para que não aconteça.

- Boa noite, senhora! Tchauzinho, Shen!

- Bye, bye... Myuu! – a menina deitou de costas sobre o colo e torso da mãe – Mamãe...

- Sim?

- O que tava fazendo?

- Nada, só olhando o céu, aqui tem uma bela vista.

- Hum... Como é o céu, mamãe?

Aquela pergunta fez a mulher suspirar. A filha tinha o dom de lhe fazer perguntas que não sabia como responder. Como como eram as cores, as flores, as nuvens... Coisas triviais para quem enxerga, mas completamente desconhecidas para ela. Mexeu nos cabelos lisos pensando em como descrever o céu estrelado para ela.

- O céu... Deixe eu ver... Uma noite estrelada é como aquele vestido que usei para ir naquela festa chata que não queria ir, lembra? Tinha o tecido macio que parecia não ter fim e naquela imensidão um monte de pontinhos que você tocou e gostou.

- Oh... então o céu é bem grande com pedacinhos que saltam chamam atenção?

- Sabe aquelas pedras especiais que você descobriu quando conheceu as topeiras-texugo em Gaoling? Os cristais?

- As pedrinhas diferentes? Aquelas que pareciam mais fortes que as pedras normais e mais lisas... Elas são diferentes das outras, são mais... Hum... num sei dizer... o jeito que elas tem forma... é mais bonito...

- Isso, meu bem, as estrelas são como cristais... Tem aquela coisa diferente das pedras normais que as fazem especiais.

- Então o céu é cheio de pedrinhas legais que deixam aquele tanto de espaço sem nada com alguma coisa que o faz ficar mais chamativo?

- É... Algo como isso.

- Shen gosta dos cristais, eles são as pedras mais legais, se no céu tem coisas iguais aos cristais deve ser muuuuito legal!! Por isso a mamãe gosta de ver!

- Sim... Por isso eu gosto de ver!

A menina se virou deitando o pequeno rosto contra o peito da mãe.

- Queria poder ver também...

Nesse momento Lin sentiu seu coração de mãe apertar e entendeu quando a mãe que mesmo nunca lamentando sua cegueira disse que uma das maiores alegrias que teve foi saber que tinha nascido saudável e que podia ver. Por mais que a cegueira nunca a tenha impedido de nada. Havia coisas que ela nunca pôde ter.

E sua filha também.

Abraçou a criança e sentiu um par de lágrimas descer em seu rosto. Ser mãe havia mexido com um lado seu que nem sabia existir. Ficaram abraçadas até que sentiu que a pequena dormia. Decidiu leva-la para cama pensando em um monte de coisas.

Quando a olhou adormecida na cama pensou em como seria se... Se ele estivesse ali com ela. Tenzin toda vida foi muito melhor com as palavras, com certeza explicaria melhor como era o céu estrelado, um jardim florido ou mesmo as cores.

Fechou os olhos e chacoalhou a cabeça.

A presença dele não mudaria nada, Shen seria cega da mesma maneira e ele provavelmente estaria preocupado demais em tentar fazê-la ter um airbender para olhar a filha. Pelo menos era isso que queria acreditar, precisava acreditar. Pois quando deixou-o casar mesmo sabendo que sua gravidez mudava tudo, permitiu que partisse para sempre de seu alcance.

Sentiu que alguém se aproximava da porta e estranhou. A casa era afastada e era de conhecimento geral a quem pertencia, não o tipo de lugar que recebia gente que confundiu o endereço. Conhecia aqueles passos... Não era um desconhecido...

Caminhou até a porta principal e abriu-a antes que batesse.

Seu coração quase parou.

Como num feitiço o homem em que pensou no último minuto e não via há anos estava a sua frente, real e material. A cabeça ficou leve, a boca seca, os joelhos moles e foi como se o chão abrisse sob seus pés.

- Tenzin.

Continua...

Notas finais
Notas finais: Então? Gostaram do reencontro? Só eu acho a Shen uma fofura? Me digam o que acharam!