Just a give a reason
2 Reencontrar
Notas iniciais
Parte II –
Tenzin perdeu um pouco da respiração ao ver Lin após tantos anos.
Os cabelos escuros, o corpo esguio, vestia-se com simplicidade como sempre, mas tinha aquele par de marcas no rosto que ela não possuía na última vez que se viram. Aparentemente sua presença a surpreendeu tanto quanto era esperado. Ficaram cerca de um minuto em silêncio se encarando.
– Boa noite, Lin, posso entrar? – por mais que estivesse confuso e quisesse resposta não podia deixar de ser educado –
A mulher demorou mais do que o normal para respondê-lo e como sempre sua resposta não foi o esperado.
– Não, não pode entrar. O que faz aqui?
– Não creio que seja apropriado conversarmos aqui fora.
– Não temos o que conversar, agora pode voltar para onde estava.
A mulher estava prestes a fechar a porta na cara dele quando sua mão grande tocou o objeto impedindo que ela continuasse. A possibilidade dela estar casada e com a filha aí lhe deixaram com uma raiva súbita, será que estava tentando escondê-lo do marido e filha?
– Temos sim, Lin! Ou será que não quer que seu marido saiba de mim?
A mulher piscou duas vezes, marido? Ela não era casada e não sabia de onde aquele homem ressurgido das profundezas de seu passado soube disso.
– Não, porque mesmo não sendo de sua conta, não sou casada e com certeza se fosse não teria motivos para escondê-lo de um marido!
Outra bacada como uma rocha em seu corpo.
Ela não era casada e tinha um filho? Lin teve um filho com alguém que nem mantinha mais um relacionamento e não quis ter filhos com ele?
– Se não é casada, Lin, como pode ter um filho?
Okay.
A mulher arregalou os olhos e perdeu a respiração. Suas mãos longas seguraram a porta com mais intensidade. Como Tenzin soubera que tinha uma filha? Não que escondesse o fato, apenas não o divulgava aos quatro ventos.
– Então soube da minha filha, bem Tenzin... Acho que é um homem adulto suficiente para saber que não são somente pessoas casadas que têm filhos, não que novamente, isso seja do seu interesse.
Nesse momento o sangue do homem ferveu e teve de usar todo seu auto-controle de monge para não começar um escândalo. Só que que Lin não estava mais com vontade de lidar com aquele fantasma em sua porta.
– Não jogue com as palavras, Lin! Sabe do que estou falando! Não pode ter um filho agora sendo que não quis ter filhos comigo!
Provavelmente na confusão de sentimentos que aquele reencontro trouxe, não pensou nas próprias palavras e no que significavam e o quanto soavam ridículas. Lin por sua vez sentiu sua raiva subir e quando estava prestes a perder a calma ouviu um chamado.
– Mamãe...
Shen tinha o início do sono leve e provavelmente a agitação incomum chamou sua atenção. Ela vinha caminhando e se abraçou nas pernas da mãe, esfregando um dos pequenos olhos verdes leitosos. Tenzin reconheceu-a na hora. Era a garotinha da praça.
A menina da praça era filha de Lin Beifong e neta de Toph. O que justificava todas aquelas semelhanças e dizia que sua mente não estava tão atormentada. Seus pensamentos não estavam errados.
– O que faz fora da cama, tampinha? – o tom de voz de Lin mudou totalmente, deixou de ser forte e autoritário para ser macio –
– Ouvi gente conversando... Quem tá aqui mamãe?
A mulher baixou-se a altura da criança e tirou-a do chão com um braço direito. A criança facilmente aconchegou-se contra a mãe. Estava vidrado e Lin não queria que ele tivesse qualquer contato com a sua menina.
– Ninguém importante, volte a dormir... – ela voltou os olhos para o vereador e ao falar seu tom voltou a ser autoritário – Boa noite, Vereador, passar bem e espero não ter o desprazer de encontrá-lo aqui novamente.
Dito isso a porta fechou-se e antes que pudesse pensar em bater de novo uma parede rochosa formou-se em frente a grande porta num sinal claro de que não devia insistir. Fechou os olhos e suspirou.
Lin realmente tinha um filho, ou melhor, filha.
E era a garotinha que salvou dois dias antes.
Aquilo deveria significar algo, coisas assim não podem ser unicamente obra do acaso.
***
Naquela noite o monge não dormiu bem.
Toda vez que fechava os olhos a imagem de Lin com a criança no colo aparecia em sua mente. Ela parecia tão maternal como sempre achou que seria com os filhos que viriam a ter. Não conseguia crer que viveram toda uma vida juntos. Foram vinte anos juntos, muito mais que a maioria dos casamentos. Vinte anos! E Lin se recusou a ter um filho deles, como assim agora tinha aquela menina...? Talvez fosse adotada. Obviamente que não, a garota era a personificação da avó, não tinha como não compartilharem o mesmo sangue.
Revê-la após tantos anos foi como voltar ao passado, mas infelizmente não aos tempos bons. Ela não ficou minimamente feliz em vê-lo. Será que toda a amizade e vida que tiveram juntos não valeu de nada? Não esperava flores, mas ao menos um sorriso saudoso e um convite para tomarem chá. Será querer muito esperar isso?
Não gostava da ideia dela ter seguido em frente e ter tido um filho com qualquer um, mas sentia-se traído pela maneira como foi recebido. Sem dizer que conhecendo Lin como conhecia havia algo errado.
Primeiro porque ela escondeu essa criança dele e aparentemente de todos que conheciam em comum. Segundo porque a recepção dela foi muito mais pé atrás do que o necessário. E terceiro, ela era Lin, não precisava de um motivo mais para interessar-se pela vida dela. Algo estava errado ali, muito errado.
Foi então que a ideia mais absurda passou por sua mente...
Aquela criança podia ser filha dele.
Abriu os olhos com aquela constatação.
Não, não podia ser! Lin não teria escondido um filho dele! Ela sabia o quanto queria um filho dela!
Puxou em suas memórias os últimos encontros que teve com a Beifong após o término. Todas as vezes foi ela quem o procurou, mas nunca efetivamente a deixou falar, se ela não podia dar o que ele precisava tinha o direito de ir em frente. E então após palavras pesadas sobre ela e Lin nunca mais voltou.
Oh Espíritos... A Beifong não era do tipo que corria atrás, se ela voltou... Passou a mão sobre o rosto. Olhou para o lado vendo a esposa dormir, será que tinha casado e deixado a mulher que mais amou e ainda mais com um filho?
***
A visita inusitada de Tenzin tantos anos abalou as estruturas de Lin.
Todas as vezes que se imaginou vendo-o novamente geralmente estava em sua cidade fazendo o que fazia de melhor dentro da armadura de metal, superior, forte, decidida. Não em Ember com a filha no colo. O que raios aquele homem queria? Será que pensava em tomar chá com biscoitos?
Foi difícil dormir aquela noite e sua inquietação passou para filha que se esgueirou para sua cama na madrugada. Geralmente a voltaria para sua própria cama, mas naquela noite precisava dela perto.
***
Pema ter feito uma amiga e saído para um dia de garotas foi a melhor notícia que o Vereador ouviu. Não estava com a menor cabeça para ficar passeando e sorrindo. A ideia de que aquela menina podia ser sua filha não parava de martelar, apesar de ser um tanto quanto improvável, Lin jamais faria algo assim.
Seus passos novamente o levaram a residência de verão da família real. Não sabia como aparecer lá outra vez, a mulher foi enfática dizendo que não queria vê-lo, mas não podia ficar com aquela dúvida e mesmo que fosse de outro tinha o direito de saber o por quê dela ter decidido ter de repente o que negou tanto que tivessem juntos.
Ficou olhando para a porta, agora sem a rocha que estava ali ontem...
Por fim, resolveu bater e terminar logo com aquilo.
***
Lin tinha saído para espairecer e Tenzin foi convidado a esperar por ela. Foi dirigido até a sala de visitas onde a criança estava sentada rodeada de brinquedos com as mãos diferentes formas, aparentemente o intuito era que ela conhecesse as formas e as colocasse no lugar certo.
Shen parecia por demais entretida, entretanto virou o rostinho em sua direção. Espalmou as mãos no chão e ficou quietinha algum tempo.
– Quem tá aí, Pamin? Naum é a mamãe...
– É uma visita para sua mãe, criança. – respondeu a criada para a menina – Pode se sentar, a Senhora Lin deve voltar rápido, ela até dispensou a babá para passar o dia com Shen. Vou leva-la para dentro e trazer algo... Deseja um chá, suco, água?
– Não precisa leva-la... – Tenziu caminhou Shen e se abaixou – Não lembra de mim, pequena? Nos encontramos na cidade, até mesmo conversamos.
O sorriso infantil surgiu.
– Aaaaahh, o moço sem cabelo! Conhece a mamãe?
– Sim, eu e sua mãe fomos amigos desde que erámos menores do que você.
– Ohhhhh... Igual o Tio Bumi e a Tia Kya?
Nesse momento a boca do monge do ar secou, seus queridos irmãos mais velhos eram cientes de que Lin tinha tido um filho? Oh isso parecia cada vez pior! Respirou fundo tentando manter a compostura, não podia se descontrolar na frente da criança e também podia haver uma explicação perfeitamente plausível.
– Isso mesmo, do que está brincando?
– Um jogo que mamãe deu, ela disse que é para eu aprender a conhecer as coisas para quando eu sentir saber pra que serve...
Um barulho vindo da cozinha chamou atenção da criada que parecia querer ver do que se tratava, mas ela não sabia se podia deixar o desconhecido com a filha da convidada. Notando a inquietação dela, Tenzin a fitou e disse com sua tranquilidade de monge que convenceria até o mais desconfiado:
– Pode ir ver, como vê, ela me conhece e sou um velho amigo da família.
Um pouco desconfiada a criada saiu deixando os dois a sós.
– Penga deixou panelas caírem, tropeçou numa coisa no chão... Pamin vai ficar brava... ela é mais brava que a mamãe... – riu –
O monge do ar estava surpreso com a percepção da criança, ela era mesmo incrível, da sala podia saber o que se passava na cozinha. Quantos anos teria aquela menininha? Hum... Se fosse sua filha teria três anos e meio, mas não sabia dizer ao certo. Um vento vindo da grande janela bateu-a assustando a criança com seu som forte, o que o fez levantar-se e ir até ela fechá-la para que não batesse outra vez.
O risinho da menina que punha as formas geométricas nas formas corretas chamou sua atenção.
– O que foi? – indagou voltando a ficar perto dela –
– Você anda engraçado... Parece com sininhos...
Tenzin não conseguiu deixar de sorrir.
Toph e Lin já haviam lhe dito isso.
Sentou-se no chão perto dela e foi entregando as peças que ela tateava agilmente e dizia os nomes. Era impressionante... Mas também notou o quão fácil perdia a concentração. Toda hora virava o rosto na direção de alguma vibração provavelmente. Para alguém tão pequena devia ser difícil lidar com todas as vibrações que podia ver.
– Cadê a moça que tava com você? – a pergunta dela o pegou desprevenido –
– Pe-Pema está na cidade fazendo compras.
– Aaah tá... Ela foi boazinha comigo... Como sabia da gente aqui, mamãe disse que não contou para ninguém...
– Hum, eu soube pela cidade, sua mãe é uma mulher famosa...
– Sim, sim... – o rostinho se iluminou – Mamãe é a melhor earthbender do mundo todo! E ela pega os bandidos! Todo mundo conhece ela! Eu vou ser igual ela quando for grande! Eu soube que a mãe dela era que nem eu... – um suspiro – Aí a mamãe disse que se eu treinar muito, muito vou ser igual ela e a vovó!
– Tenho certeza que será, sua avó foi a melhor earthbender do mundo e foi uma mulher fascinante, e você é muito parecida com ela.
– A mamãe disse! Disse que sou igualzinha... Mas como eu não vejo não sei o que isso quer dizer!
– Você pode ver sim, pequena, mas do seu jeito.
– Hummm... Tia Kya e Tio Bumi falam assim também! Eu tô com saudade deles... Vou pedir a mamãe para chamar eles!
Tenzin não teve tempo de responder, pois Lin apareceu vindo dos fundos da casa e o monge podia jurar que sentiu chão tremer sob seu corpo quando notou sua presença. O olhar dela foi mais congelante do que a capacidade de sua irmã em congelar água e o desprezo em sua voz palpável.
– O que faz aqui, Tenzin?
O homem levantou-se e foi até ela numa tentativa de cumprimentar, mas ela não estava a fim de lhe dar qualquer sinal de cortesia.
– Nosso primeiro encontro não aconteceu da melhor maneira, pensei em tentar novamente... – foi cortado por ela –
– Não temos nada para conversar! Saia daqui antes que eu o coloque para fora do meu jeito!
Shen saiu de seu lugar no tapete e agarrou-se as pernas da mãe.
– Por que tá mandando ele embora, mamãe? Ele ajudou a Shen na cidade aquele dia que eu fugi da Myuu!
– Como? – foi a única pergunta que a mulher conseguiu formular abaixando-se a altura da filha – O que disse, Shen?
– O moço careca ajudou, eu tava com ele e a moça de voz fanhosa quando a Myuu me achou! Ele tem um desenho legal na cabeça e não tem cabelo, mamãe!
Lin fitou o monge e suspirou, não podia chutá-lo para fora de casa onde Shen pudesse sentir!
– Suponho que essa mulher fosse Pema, estou certa, Tenzin?
– Sim, era Pema quem me acompanhava.
– Pema? — fez careta – Não é um nome legal... Mas ela foi boazinha, só que num gosto quando me pegam no colo!
– Pois é, tampinha, ela é esposa dele e com quem ele deveria estar agora. Por isso a mamãe está dizendo que Tenzin devia ir embora!
– Aaaaaaaah... esposa igual a que o Loukai tem? Que eu fui daminha naquele vestido legal?
– Isso! Exatamente!
– Por que não tá com ela, Twinkle-toes?
A dupla encarou a criança curiosos. Do que mesmo ela o tinha chamado?
– Do que chamou ele, Shen?
– Twinkle-toes... os passos dele são como sinos, mamãe, você não nota?
– Oh... Sim, noto... É só que...
Tenzin sorriu e se abaixou a altura dela afagando os cabelos.
– Sua avó chamava assim meu pai e quando eu era criança me chamava de little twinkle-toes.
– Ohhhhhh, sim! Mas porque não tá com a sua esposa, o Loukai disse pra Shen que toda vez que não tá trabalhando ele queria estar com a Mai e por isso ia casar com ela.
O monge engasgou e Lin não notou ainda estava perdida lembrando-se de sua mãe irritada. Oh espíritos, como Toph odiava ouvir aqueles passinhos em sua mansão! Lembranças a muito esquecidas passaram pela cabeça da dobradora... Entretanto quando um pequeno sorriso quis surgir em seus lábios, tratou logo esquecer esses pensamentos.
– Pema saiu com uma amiga e eu vim visitar um velha amiga também. – respondeu o monge notando que Lin tinha perdido o foco por alguns instantes – Hum quem é Loukai?
Tenzin indagou talvez ele fosse... Hum... o pai da pequena.
– Loukai é meu segundo em comando, um dos melhores Metalbenders que já treinei, ele casou-se recentemente e a noiva dele quando viu Shen pediu que ela fosse a daminha dela.
A voz de Lin soou forte, mas não tão imponente quando ela desejaria.
– O Loukai é muito legal e a Mai me deu um montão de biscoitos!
– Às vezes acho que você decide de quem gosta pelo número de biscoitos que lhe dão! – o tom de Lin era leve e ela pegou a filha no colo – Um chá e você vai embora, Tenzin.
O tom dela não era uma pergunta, era uma afirmação, o monge sabia que teria de convencê-la de sua presença para poder voltar ou conseguir todas as respostas que queria antes que ela o botasse para fora.
– Será um prazer lanchar com as duas Beifongs.
Lin passou com a menina no colo na intenção de que a seguisse, terminaram por sentar numa mesa num pátio ao ar livre onde rapidamente foram servidos com guloseimas e sucos. O filho de Aang observava Lin com a filha e não podia estar mais satisfeito com a cena, a interação era perfeita. A morena era tão suave e graciosa lidando com a pequena que era como se fosse feita para o cargo.
A menina tateava a mesa a procura do que comer e sozinha conseguia ter uma boa independência, entretanto como toda pequena ela se sujava consideravelmente. E tinha um prazer infantil adorável na comida, com certeza era boa de prato.
– Sua filha é adorável, é quase como ter uma visão de sua mãe criança, provavelmente serão muito parecidas.
– Já notei. – disse mordendo um pedaço de bolo –
– Sinceramente não compreendo essa má vontade com minha presença, Lin. – disse levando uma xícara com chá aos lábios – Passamos boa parte da vida juntos, nossos pais foram grandes amigos...
– Por favor, sem essa conversa... – suspirou – Lembra-se de quando conversamos pela última vez? Você fez sua escolha e eu respeitei com o acordo de que nossas relações fossem totalmente cortadas.
– Nunca concordei com corte de relações... – se arrependeu amargamente ao ver o olhar dela –
– E esperava o que? Me deixou logo após a morte da minha mãe e semanas depois marcou casamento, não quis conversar, tomou sua decisão e me comunicou. Não me venha com isso!
Os olhos verdes se desviaram para algum ponto na praia abaixo deles e o homem sentiu sua boca amaldiçoada.
– Não simplifique tanto os termos, não foi simplesmente assim... E sobre depois, eu havia tomado uma decisão e dado minha palavra, não havia como voltar atrás.
As pedras de jade voltaram a sua imagem e o homem levou a bofetada sem toque que quase o nocauteou com sua verdade. Os lábios crisparam-se e provavelmente ela teve náuseas de raiva.
– Gostaria que tivesse lembrado do peso de sua palavra comigo, mas não o fez. Saia daqui, volte a sua mulher.
– Lin... – queria se justificar mesmo não havendo palavras para isso –
– Vá embora, Tenzin... – seu tom era baixo, quase um sussurro, mas tocou-o muito mais que um berro –
Haviam se excedido, nada mais a fazer naquele momento.
Os ressentimentos tocariam suas palavras tornando-as muitas vezes mais pesadas do que seriam em outro momento. Reunindo toda a dignidade que possuía, levantou-se e despediu-se da garotinha que comia alheia aquela conversa pesada.
A mulher levantou-se para acompanha-lo até a saída para ter a certeza de que não voltaria.
– Não volte, não me procure, não pense em mim, Tenzin! Se realmente tem algum respeito pela vida que compartilhamos, esqueça-se de mim novamente. – disse num tom baixo e fitando o chão de pedra –
– Eu não posso, Lin, não posso ignorar este nosso reencontro... E sua filha... – fitou a porta que dava para onde a menina ainda comia tranquilamente –
– Não ponha Shen nisso, minha filha não tem nada a ver com isso!
– Eu só... Eu só não compreendo... – disse passando a mão pelo rosto num desespero quase palpável – Quis muito ter isto com você, uma família, um filho, Lin! E você negou, nos negou isso... Agora te acho anos depois com essa pequena e aparentemente sem um pai... Não posso aceitar, não posso compreender.
Um olhar e sorriso de escárnio surgiram no rosto da Chief ao olhá-lo.
– Está com orgulho ferido? Quão mesquinho e hipócrita consegue ser? Me deixou por uma mulher que lhe daria o que eu não podia sem se importar com meus sentimentos ou com o fato da minha mãe ter morrido meses antes e agora vem me cobrar como se EU lhe devesse algo? Escute aqui, seu monge hipócrita, o que fiz da minha vida depois de você não o interessa! Faça filhos em sua jovem esposa e preencha o mundo com airbenders como você e me esqueça, porque não sou mais da sua conta.
O tom dela era duro e ferino, a Beifong sabia como usar as palavras para machucar e naquele momento ela o queria ferir além das expectativas. A fitou vendo a raiva e o ressentimento naqueles olhos verdes que tanto amava, Lin ainda estava ferida como se a tivessem cortado ontem.
– Eu só quero entender o que te fez dar a outro que nem está mais com você o que lhe pedi e ofereci tantas vezes. Sei que ao renunciar a nós, perdi o direito a saber e opinar sobre sua vida, mas eu preciso saber Lin. Preciso!
Levantou os olhos nos olhos.
– Não tem nenhum significado como procura, tive um filho de uma noite que aconteceu em Capital City de um homem que só me recordo o nome. Era isso o que desejava tanto saber? Pois bem, Shen é fruto de um caso de uma noite.
Deu dois passos para trás chocado e sentiu a boca seca.
– Isso... Eu pensei... Por um minuto...
– Que fosse sua filha? Oh... Que poético! Não, não é e mesmo se fosse, eu jamais deixaria que se aproximasse dela. Vá para sua esposa e me deixe em paz.
Dando as costas a ela e contendo um comentário ácido, o monge seguiu o caminho da porta. Ela tinha toda razão, não possuía o direito de julgá-la. Mesmo não compreendendo como ela pôde ter um filho daquela maneira quase imoral quando poderiam ter tido uma família feliz. Uma verdade amarga lhe apareceu, talvez Lin não desejasse uma família com ele.
Aquele reencontro não fez bem a nenhum deles.
Muitas de suas convicções foram colocadas a prova e não tinha certeza de que seria aprovado. Dentro da casa a mulher sentia-se retalhada novamente, será que os espíritos queriam puni-la por algo? Tenzin não tinha o direito de surgir depois de tanto tempo e exigir coisas. Não tinha. Ele a deixou em prol das necessidades dele. Não podia julgá-la por nada, por nada.
Sem que notasse, tinha se abaixado como se tentasse manter-se inteira e lágrimas começaram a escorrer. De tão presa em sua própria dor, não notou os passinhos da filha só concluindo sua presença quando ela tocou com as pequenas mãos seu rosto sentindo suas lágrimas.
– Tá triste, mamãe? Num fica triste!
E a abraçou.
O abraço de sua menininha, o pedacinho que restou do que um dia foi um belo sonho. Apertou-a contra si consolando sua dor com ela. Nunca imaginou que pudesse existir um tipo de amor assim. Algo tão puro, inato e desprendido.
– Não, mamãe não está triste, pequena... Foi só uma lembrança... vamos comer! Sei que ainda deve estar com fominha!
Continua...
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