Just a game
1 The diary
Ganhar uma viagem para New York com direito a tudo, não estava nos meus planos mas ganhei. No primeiro momento eu fiquei assustada, pensei que minha mãe estivera fazendo alguma brincadeira. Demorei uns dois dias pra cair na realidade. – Você merece Alice. Mamãe dizia sempre que me pegava pensando sobre a viagem. Eu estava tão animada. Não me aguentava mais. Logo depois que descobrimos que eu iria passar um ano em NYC, minha mãe fez questão de sair e comprar novas roupas para mim. Ela dizia que NYC fazia muito frio então por isso daquele monte de roupas pesadas. Minha viagem era no mês seguinte. Compramos tudo que eu precisava e mais um pouco. A comunidade onde eu ficaria era só de meninas, principalmente as que estariam cursando o primeiro ano de faculdade.
Minha mãe reagiu como todas as mães quando seu filho vai passar um tempo fora. Triste. Mas ela sentia um alivio ao pensar que eu estaria bem e realizando mais um sonho. Meu pai me deu um abraço bem forte e logo saiu. Meus irmãos se despediram com um traga presentes pra gente, te amamos.
Foram longas horas de voo, cheguei exausta ao ponto de nem conseguir falar direito onde eu ficaria para o taxista. Na comunidade, viviam mais 32 meninas. Na casa onde ficaria tinham 4. Lembro-me que quando cheguei, uma garota pequena, cabelo lisos, e olhos brilhantes, veio me receber toda animada. Era a Emilia. Morava ao norte do Canadá junto com seus 6 irmãos, cursava direito e era bastante esperta e carinhosa. Nina era a mais nova, tinha 18 anos e cursava moda. Sempre deixava o resto de comida no prato, nós reclamávamos mas de nada adiantava. Kate era a mais velha, tinha olhos azuis e cabelos ruivos, era a mais animada de todas, sempre nos chamava para sair. Ela cursava literatura inglesa e simplesmente amava. Nunca vi alguém amar tanto o que faz do que a Kate. A mais quieta se chamava Rose. Com 19 anos saíra de casa com o sonho de cursar medicina. Era ótima na cozinha. Sempre que chegava da faculdade lá estava a belíssima torta de limão esperando para ser devorada.
Nos primeiros dias foi complicado a nossa convivência. Separamos uma lista de afazeres para cada uma. Então, cada dia uma garota limpava a área externa a outra limpava os banheiros e assim por diante.
Cursar jornalismo no começo para minha família era perda de tempo. Foi difícil fazer eles aceitarem que eu queria aquilo e que realmente me fazia feliz. Meu pai nunca me perguntou o que tinha acontecido para eu mudar do dia pro outro o curso que escolhera fazer. Sempre falava que queria medicina, mas, com o tempo descobri que eu era totalmente diferente. Descobri que eu não merecia a medicina. Minha mãe sempre me apoiou mas também ficava confusa. Meus irmãos nem sabiam o que era faculdade, então nunca me perguntaram sobre isso.
— É isso que você realmente quer?
— Sim, mãe.
— Tudo bem. Disse ela saindo pelo meu quarto pegando roupas sujas.
Nunca fomos bem de vida, quero dizer, nunca faltou nada em casa, mas para bancar um filho na faculdade não seria fácil para meus pais. Comecei procurar faculdade que ofereciam bolsas. Achei uma em NYC. Eles faziam uma espécie de entrevista, procuravam saber qual a renda da família, do que meus pais trabalhavam e como eu iria me sustentar em NYC. Eu fiz mas foi por fazer mesmo, não acreditava que daria certo mas por fim, deu. Consegui uma bolsa integral, hospedagem e transporte. Meus pais ficaram aliviados por não ter que pagar a hospedagem e nem o meu transporte. Não os culpo. New York é uma cidade cara, para viver bem nele, precisa ter um trabalho e tanto. O custo que eu daria a eles era menos de 400 dólares, então o sentimento de alivio também me tomou. Esse dinheiro era para comprar a alimentação e pagar os livros da faculdade. As meninas dividiam o dinheiro para as compras, ficavam 120 dólares para cada e no fim do mês ainda sobrava comida na dispensa. Nós passávamos o dia inteiro estudando, então era raro comermos em casa. A faculdade oferecia almoço e café da tarde para os estudantes. Isso me ajudou muito em relação a que horas comer. Eu morando com meus pais, esquecia de almoçar e comer algo de tarde.
Me adaptei e logo consegui ter uma rotina que eu sempre desejei. Acordava por volta das sete da manha, me arruma e ia pra aula. Geralmente as aulas começavam as oito e dez, as vezes um pouco mais tarde. Ás nove e quarenta eles serviam o café da manha e as uma e dez o almoço. Minha aula termina as três horas. No começo eu ficava na biblioteca e depois eu ia embora mas passou um tempo e resolvi me inscrever para trabalhar em algum lugar na universidade. Depois de duas semanas, recebi o convite de ir fazer uma entrevista na biblioteca geral. Não ia mais para bibliotecas ler e ficar revirando a internet em busca de casos horríveis sobre crimes em NYC, passei a gritar silencio! E limpar os milhares de livros espalhados por ela inteira. Fechava as seis e meia, e nos sábados abrira as oito e fechava as duas.
Peguei uma amizade mais intima com a Nina. Adorávamos sair depois do trabalho e comer algo na padaria perto da faculdade. As quintas nós não tínhamos aulas então basicamente ficavamos passeando pela cidade ou assistíamos series no quarto da Kate. Ela odiava. Nós gostávamos de ir ao cinema, somos fãs da mesmas coisas, como series, filmes, livros e HQ e isso acabou deixando a gente mais próximas.
Ela é fã da Marvel e eu da DC. No começo nossas discussões eram para ver qual super-herói era melhor que o outro. Fazíamos isso na brincadeira, o que deixava a Rose irritava, pois queria estudar e a gente falava muito alto.
Na quinta de tarde, resolvemos sair para comer algo na confeitaria nova, falaram que os bolinhos de limão deles era extremamente maravilhosos. Nina sentou na minha frente eu sentei num sofá que fazia parte da mesa. Ficamos conversando e rindo sobre os fatos ridículos que aconteciam com a gente por horas. Eu sempre fui distraída, as pessoas falavam mas eu simplesmente não entendia. Uma amiga minha sempre me dizia que se eu não olhasse sem ela terminar de falar não olhe agora eu estaria doente. Nina começou a virar os olhos pro lado dizendo algo que eu não entendia, eu achei que fosse uma brincadeira por que eu olhava e não tinha nada.
— Olha pro lado sua tonta. Ela disse baixinho e direcionando seus olhos para o outro lado.
— O que que tem? Você está louca? Falei.
— Leonardo Dicaprio está do seu lado.
— O QUE?
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