- Você é linda, Jolie – eu disse em um sussurro, vendo minha amiga se encarando no espelho como se visse a pintura mais triste e avassaladora de todas.

- Não, não sou – respondeu, ainda concentrada.

Eu sabia que a pior parte viria logo a seguir, quando ela subisse na balança há poucos metros dos seus pés. A sala branca em quadrado tinha apenas um espelho enorme, que ficava no centro. De frente ao espelho tinha uma balança moderninha que Jolie frequentemente se pesava.

Era a sala terapêutica. Onde ela dizia combater seus piores demônios.

Quem visse o olhar aterrorizado dela olhando para o próprio corpo seminu neste exato momento, não diria o contrário.

- Jolie, não precisa disso. São só algumas gramas, não vai fazer diferença naquela roupa que deve ser dois números maiores que o seu – tentei.

Ela me olhou acusatória, como se eu acabasse de xingar sua mãe.

Ela tinha olhos tão lindos...

- Não são só algumas gramas, Ed. Essas gramas fazem diferença, porque compõe o quilo. Elas me compõem. E se eu não tiver as perdido depois de tanto tempo trabalhando por isso, do que vai adiantar meu esforço para o desfile? Como poderei ser a melhor se não fizer tudo direito e deixar excessos esparramados? – respondeu calmamente. Seu tom dava a impressão que ela estivesse ensinando matemática a uma criancinha de nove anos pela quinta vez, estando prestes a dar uma crise de falta de paciência.

Mas sua feição pálida demonstrava desespero, também. E medo. Era uma beleza delicada e sentimental, que qualquer artista gostaria de passar da sua tela para o telespectador.

Chegou o momento em que ela colocaria os dois pés na balança e respiraria fundo, para ver seu peso exato. Segurei o ar e aguardei.

Ela se mexeu graciosamente e subiu. Fechou os olhos, respirou fundo e antes de fazer qualquer encarou seu próprio rosto no espelho.

Eu daria tudo para saber o que ela estava pensando neste exato momento, mas daria até o que eu não tinha para afastar qualquer pensamento ruim que passasse por sua cabeça.

- Fica tranquila, Jo. Vai dar tudo certo. – Minhas palavras foram calmas e cheias de segurança, na esperança de confortá-la.

Jolie abriu os olhos e olhou diretamente para os números entre seus calcanhares que indicavam seu peso atual.

Não deu tudo certo.

Ela não ficou tranquila.

O resultado foi pior do que esperávamos.

x-x-x

Manhattan, 08h37 da Manhã, Segunda-Feira.

- Clov, eu realmente preciso do vestido de gala antes de sexta. Eu sei que a Victoria Secrets tem modelos especiais pós-festa para as modelos, mas eu não quero saber. Preciso de algo novo, glamouroso. Preciso de mais influências pela beleza, está me ouvindo? – falei em um tom sério para o estilista do outro lado da linha enquanto caminhava inquieta pela minha sala.

- Sim, senhora. Mas não sei se vou terminar todos os detalhes a tempo...

- Como não? Não tenho mais tempo. Estamos em Nova York, Clov. Segundo os romances, a vida aqui não para. Por que a sua deve parar? E, por consequência, por que a minha deve parar?

Ouvi um suspiro tímido pelo telefone e a compreensão passou pelo meu corpo. Mas eu não podia ceder. Não era assim que as coisas funcionavam.

- O que pediu é especial e trabalhoso. Tenho outros compromissos – respondeu e eu quis rir desesperada.

- Eu também tenho. E me parece que mais um deles é ter que encontrar outro estilista.

Pelas paredes de vidro da minha sala, vi Ed entrando todo atrapalhado na agência, passando por várias pessoas e dando olás simpáticos enquanto equilibrava um ou dois, três quadros.

Eu sabia que seu destino era minha sala e sorri afetada pela sua emergência diária.

- Entrego oito horas – seu tom era firme e decidido. – Ou então, pode me demitir e eu aceitarei dignamente.

Desliguei o celular e travei a tela, indo me sentar logo depois. Ed estava há poucos metros de distância da minha porta e eu já podia sentir seu perfume.

Seu perfume e o cheiro de tinta óleo.

Tinta óleo.

Antes mesmo de Ed terminar de entrar e fechar a porta eu já estava quase pulando em cima dele, como uma mãe muito brava.

- Você não fez isso – afirmei séria.

Ele arregalou os olhos e me olhou cheio de culpa. Seus cachos voaram para o seus olhos, deixando-o com a aparência de um adolescente delinquente.

- Jolie... Deixa eu te explicar...

- Nada disso. – Funguei para sentir melhor o cheiro. – Você fez! – O olhei acusatória.

Logo ele deu uma risada sapeca e foi pendurar os quadros em uma das únicas paredes de firmes, de cimento, da minha sala. Eu juro, estava com tanta raiva que nem queria saber o motivo ou de explicações.

- Sua alergia pode ficar mais grave, pode ter danos sérios e... – Mas eu não tive como evitar descobrir e entender. Eu olhei os três quadros que ele havia trazido e perdi o fôlego.

Era normal Ed sair das suas aulas extras de arte e do trabalho com quadros experimentais, de diversas culturas e que nunca eram comprados. Eu acabava comprando alguns, ganhando outros ou tendo minha sala redecorada por suas artes semanalmente, mensalmente.

Mas ele nunca havia feito algo como aquilo.

Vendo meu rosto em choque e tentando me reajustar, meu melhor amigo Ed sorriu para mim e piscou. Ele parecia meio tímido e meio sapeca, mas eu não sabia exatamente como deveria reagir.

Meu coração pesou e minha respiração saiu enquanto eu olhava para o quadro de uma mulher tão bonita. Com traços iguais aos meus, olhos coloridos – azul, verde e laranja em cada uma, respectivamente -, nariz afiado e sobrancelhas em diversas expressões.

Era uma pessoa muito parecida fisicamente comigo, mas era outra pessoa. Era uma pessoa linda, que os olhos amavam o mundo e seu cabelo caía graciosamente pelos ombros.

- E aí? Gostou? – Ed me analisou e sorriu, tirando a sua franja do rosto.

Olhei em volta pela sala, sem respostas. Me recompus meio confusa pela falta momentânea de postura. Era tudo tão acolhedor e preto e branco. Fotografias que eu tirava de lugares agraciados com uma boa arquitetura. Momentos congelados em um clique e depois jogados ao efeito preto-e-branco, onde ficavam ainda melhores.

Sofá quadrado, alinhado perfeitamente. Tapete em um retângulo peludo e os demais móveis seguindo o mesmo padrão, junto com as duas paredes de vidro cinza esfumado que faziam parte do meu pequeno cafofo.

E aqueles três quadros cheios de linhas, cores vivas – de tinta óleo – e formas encantadoras davam um jeito de desconcertar a decoração padrão da sala.

Seria algo esquisito se não mexesse tanto comigo.

- Terra para Jolie, Terra chamando Jolie... – Ed fez voz de capitão e procurou meu olhar.

- Desculpa. É... – Juntei as sobrancelhas e franzi a testa para voltar a ter o foco perdido. – Gostei. Estilo indiano?

- Com certeza! – Sorriu animado. – Foram os melhores. E eu queria achar alguém para decorar com pedrinhas na testa. Acho muito massa o que eles fazem, sem contar os tons de vermelho!

Sua voz era animada e inspirada. Me fez rir e voltar ao computador.

Mas aí eu lembrei o porquê que eu queria bater nele mais cedo...

- Você tem alergia à tinta óleo – lembrei ironicamente.

Ele fez uma carinha de desentendido e eu quis socar meu melhor amigo.

- Tenho? – A vontade de socar aumentou.

- Você tem. Teve crise? Foi para o hospital? – questionei impaciente.

- Ahn... Sim. Mas já tá tudo bem. Mesmo usando máscara e etc, eu já fui ao médico. – Ed sorriu como um bom menino e se sentou na cadeira a frente da mesa do computador, de frente também à mim.

- Okay, assunto resolvido. Mas tem algo que eu quero te mostrar. – Fiz o login inicial no Mac e entrei na minha área de trabalho, indo direto para as pastas.

- Fotos suas?

- Não.

- Fotos de você?

- Também não. – Continuei procurando a pasta ao doce som de Lana Del Rey, Videogames, que tocava baixo ao meu lado. – Aqui.

Quando a abri, várias imagens do projeto do Grande Desfile apareceram. Detalhes do show, arquitetura, das roupas, do palco e mais. Muito mais.

Ed estava olhando curioso para a grande tela, meio que encantado.

- Eu sei. É um máximo. – Sorri de canto.

Ele me olhou como se eu tivesse xingado a mãe dele.

- Um máximo? Um máximo?? Isso que você fez tem um nome! Chama-se eufemismo!

Me limitei a dar uma risadinha.

- Qual é, Edward. – A música acabou e ele pareceu perceber, quando me olhou entediado.

Ele franziu o nariz, olhou para a tela novamente, todo expressivo com sempre e adorou o que viu.

- Isso vai ser enorme. Gigante. Glamouroso.

- E eu vou estar lá.

- E você vai estar lá. – Sorrimos.

- E você também.

- Ah, eu não sei bem não... – Deu um impulso com o pé no chão e empurrou seu corpo e a cadeira de rodinhas para longe, girando pelo centro da minha sala. – Sabe como é o mercado da arte...

- E você sabe como a tecnologia de hoje funciona – retruquei, novamente séria. – Você pode muito bem vender até para alguém da China.

- E você sabe bem como eu não gosto de tecnologia influenciando na minha arte. Cara, eu retrato o passado! Não vou sair por aí tirando foto delas e colocar no Mercado Livre.

- Pois deveria. Acha que vão simplesmente à sua casa, adivinhando seu trabalho e querer comprar umas mil? Você precisa fazer propaganda, Ed.

- Preciso. – Fez careta e girou para o lado contrário, evitando ficar realmente tonto.

- E?

- E eu dou um jeito, como sempre. Vendo por aí, passo nas praias... Sei lá. Quem sabe eu puxo um dinheiro no banco e abro meu próprio negócio de vendas. Uma barraquinha bonitinha na feira onde eu imploro para as pessoas comprarem! – Sorriu.

No segundo em que eu pensei em abrir a boca para oferecer meu próprio dinheiro para ele abrir a loja, tive que afastar o pensamento rapidamente. Ed era muito expressivo e intenso, gostava das coisas tradicionais. E se fosse para ele conseguir algo, seria com o suor dele.

- Mas prometa que você vai – eu disse, desligando o computador e dando toda a minha atenção para ele.

Ele sorriu e girou novamente. Como a minha fama de estraga-prazeres permitia, fui lá e segurei um dos braços da cadeira, fazendo-o parar.

- Estraga-prazeres – murmurou. – E seu namorado? – Sorriu simpático.

- Não mude de assunto. Te conheço.

- É, mas e ele? – Continuou com o mesmo sorriso.

- Ele vai, sim. E você?

- Hm... – Olhou pensativo e eu girei os olhos pela cerimônia. – E eu já deixei de ir?

- Desta vez é importante, Ed.

- Eu sei, Jo.

- Vai?

- Vou... – Sorri. -... Dar um jeito.

- Edward!

Ele deu uma risadinha sapeca e concordou.

- Já estou lá.

x-x-x

Manhattan, 16h45 da Tarde, Quarta-Feira.

Estávamos descendo pela Times Square, procurando a minha sorveteria favorita, vulgo Ben & Jerry’s, não muito longe do Museu da Arte Moderna. Jolie andava reta e de cabeça erguida, como sempre. Seus quadris se movimentavam levemente curvos, um rebolado discreto que só uma modelo profissional poderia ter.

Ela era quente.

Às vezes eu me sentia até menor que ela em termos de altura e personalidade. Mas não era assim que a banda tocava. Não era como se fingíssemos que o problema não existisse, mas fingimos. Assim não a perturba totalmente, mesmo não saindo da minha mente.

A Times Square era muito colorida, o que puxava minha atenção muito facilmente com todos os anúncios e imagens brilhantes, como uma criança vendo pela primeira vez. E logo eu tinha que praticamente correr atrás da Jolie para recuperar o tempo que minha distração tomou.

Foi mais ou menos assim durante um bom tempo. Mas desta vez até ela parecia longe demais, em um lugar que eu não poderia alcançar.

- Seu aniversário está chegando, não é? – disse ela, sempre inexpressiva e uniforme. Olhando para frente, também. Mas acho que tinha a consciência que eu estava ao seu lado.

- Está. Dia 19. – Avistei de longe a sorveteria colorida de amarelo. Minha tão amada Ben & Jerry’s.

- Temos que fazer algo – ela comentou tranquilamente, como se não fosse uma afirmação e eu ri. Puxei uma das cadeiras para ela, que girou os olhos e sorriu para mim.

- Temos nada! Um ótimo presente seria sei lá, você em um vestido de banana... – brinquei e sentei esparramado, zoando a postura perfeita. – Suas costas não doem não?

- O quê? – Ela me olhou confusa, analisou e entendeu a situação. – Oh, não. Aliás, um vestido de banana seria como? Uma roupa colada, longa e amarela?

Seu voltou a viajado por aí, provavelmente pensando em alguma coisa. Mesmo conversando comigo, ela não estava.

- Rabibananacolau.

- Aham... Banana, legal.

Eu tive que rir e ir bagunçar o cabelo dela, recebendo um tapa forte na minha mão em troca. E sua atenção, também.

- O que foi isso? – reclamou e juntou as sobrancelhas, formando traços finos de futuras rugas entre elas. E mesmo assim, deixava-a com uma aparência maravilhosa.

Ela era tão linda, tão linda.

- Ed? – Estralou os dedos na frente do meu olho, e eu tive que gargalhar pela repetição.

- Sim? – Ela me olhou estranho.

- Desculpa por isso... E não toque no meu cabelo.

- Claro que não toco. – Sorri para ela. – O que vai querer?

- Eu não vou querer comer nada, não – disse segura, mas posso jurar que ouvi sua voz fraquejar lá no fundo.

Senti uma raiva e angústia dentro de mim, borbulhando e me machucando.

Seu olhar me dizia para não insistir mais e foi o que eu fiz. Me levantei humildemente e fui me servir.

Quando voltei, Jolie digitava freneticamente no celular e foi quando eu realmente fui reparar mais nela. Ela estava pálida e sua face estava ficando magra demais, deixando os ossos moldarem seu rosto. Seus olhos pareciam cansados e sem brilho.

Naquele momento, dentro de seus olhos, eu vi Jolie. Vi uma garota fosca, sem vida.

Eu não gostei do que vi.

E aparentemente, ela também não gostou disso, porque quando reparou meu olhar demorado me deu um inquisidor que gritava “o que você está fazendo aí?”, mas já sabia a resposta.

Eu me sentei com o copão de sorvete e a encarei. Ela guardou o celular e me encarou de volta.

- Quantos dias? – meu tom era quase que magoado.

- Não interessa – o dela era seco.

Sua linguagem corporal e seu olhar me passavam a mesma sensação de O Grito, de Edvard Munch. Angústia, medo, expressão presa entre as pinceladas. Mas seu rosto era pacífico, como se estivesse observando o mar durante a chuva grossa.

- Eu quero saber quando foi a última vez.

Ela negou com a cabeça.

- Foi recente.

- Quem era no telefone?

- Para que quer saber? – Ela me olhou ofendida. E naquele momento reparei que havíamos criado uma barreira no nosso relacionamento, onde o país dela era lá e o meu aqui. E nenhum dos dois tinha permissão para invadir o outro.

Arrependido e machucado, para tentar amenizar decidi mudar de assunto.

- E o Ben? – eu disse com pesar, mas ela abriu um sorriso discreto na hora.

Como eu detestava esse cara...

Uma vez cheguei a desenhar eu e ele em uma briga épica romana com cavalos, mas eu era o forte e campeão e ele o perdedor. A fantasia é sempre melhor que a vida real. É o que dizem.

- Ele... Ele está ótimo. Maravilhoso como sempre. – Se limitou a dizer e eu concordei. Mas acho que nem ela esperava continuar, mas o fez subitamente. – Mês passado viajamos para França, como você sabe. Mas eu não sabia que ele tinha tido tempo para falar com a família.

A observei sentindo meu coração se encolher como um cachorrinho no frio de uma chuva gelada.

- Continue.

- E então... Eu meio que descobri que ele pretendia me apresentar para eles.

Eu sabia tanto sobre ela. Ele sabia tantos nadas sobre ela.

Eu até sabia qual seria o assunto que ela tanto fazia suspense para falar.

- E aí?

- Como eu sou uma amiga secreta da irmã dele, ela me contou que ele vai propor. – Disse com um sorriso discreto brincando nos lábios, não se permitindo dar os gritinhos que sua mulher interior implorando para dar.

Mas o que eu podia falar? Eu também queria gritar. Meu coração estava sendo massacrado pela ideia de uma aliança em sua mão que não tivesse meu nome.

Friendzone era foda, meus amigos. O mais foda ainda era o fato que eu não queria desistir dela.

- Você está bem? – Ela perguntou levemente preocupada.

Ele sequer sabia que ela fazia aquilo. Ele sequer sabia!

Eu estava enjoado. Destruído. Destripado. E mais uns outros adjetivos deprimentes e dramáticos que eu iria imaginar ao longo do dia.

- Estou. – A encarei com uma expressão perdida.

Quem agora parece o quadro d’O Grito, hein, Edward?

- Não está feliz pela gente? – olhou séria.

Não, não estou.

- Sim! – Recuperei os modos, falso como na aula de teatro.

- Ah, não se preocupe. Vamos deixar você decorar e fazer a pintura da nossa casa e do casamento, não se preocupe. – Ela deu uma risadinha boba como se o motivo que eu estivesse vendo fantasmas fosse preocupação/ciúmes por não poder pintar algo para eles.

Ah, claro que era.

Eu adoraria pintar a cara dele de amarelo e vesti-lo de banana.