Just The Way You Are
2 Capítulo 2
Dois dedos.
Apenas dois dedos escorregando para dentro da minha garganta e recebendo uma resposta imediata do meu corpo, mandando o tão aguardado vômito e todo o liquido avulso bebido.
Meus dois dedos, meus melhores e reais amigos.
O banheiro de cerâmicas brancas, o vaso luxuoso preto e cheio de artimanhas, mas o show acontecia bem ali. Onde eu ficava a cada segundo mais magra e perfeita.
Por apenas dois dedos.
Simples, não é? Tão simples...
O gosto azedo veio novamente e eu estava pronta para mais uma rodada, inalando o odor ruim que subia, mas nada veio. Tentei de novo, de novo e de novo até machucar a minha garganta e lacrimejar; senti meus intestinos se contorcerem com a falta de algo além de água para mandar de volta e suspirei derrotada.
Sentei-me no chão e minha cabeça latejou contra a ponta dos meus dedos, me dando a sensação de fraqueza e pré-desmaio. Respirei fundo e tentei me organizar, me levantar e tomar um banho frio para as melhorias chegarem logo, mas não foi o que aconteceu.
Cada vez mais fraca e perdendo a consciência, meu tronco foi caindo aos poucos, pausado pela pressão da parede contra minha pele, até o chão gelado que me enchia de arrepios. Minha bochecha tocou a superfície e eu senti um choque, uma vontade de contrair.
Minha dor de cabeça piorou.
Sem que eu me desse conta, começaram a cair lágrimas dos meus olhos enquanto eu encarava a cerâmica pálida com detalhes dourados bonitos. Meu rosto se molhou, mas minha mente estava limpa e clara.
O que só durou até que eu fechasse os olhos pesados sem escolha e mergulhasse em um pesadelo horrendo.
Flashback.
– Classe, hoje eu gostaria de mostrar nossa mais nova aluna, Jolie – a professora simpática apresentou, sorrindo para os alunos da velha escola pública do interior quente do Texas.
Uma garotinha rechonchuda entrou pela porta assim que ouviu o chamado, pronta para o desfile. Chegou sorridente, com os cabelos organizados e lambidos. Sua feição era de simpatia pura.
– O quê? – um dos coleguinhas murmurou chocado olhando para a garota. Virou seu rosto para o amigo, encarando-o. – Ela é uma baleia, não uma nova aluna.
Assim que foi dito, pelo menos as cinco pessoas em volta dele riram alto e olharam discretos para não causar desconfiança.
Jolie aguardava atentamente e obediente os olharem apreciando-a, que não vieram. Todos a encaravam e cochichavam baixinho, porém a criança se manteve positiva, acreditando que aqueles cochichos eram coisas boas.
Mas lá no fundo algo gritava que não era. E ela se encolheu de leve, meio assustada agora com os olhares.
– O que dizemos quando recebemos uma aluna nova, classe? – A professora deu um olhar rígido para a turma e sua voz foi claramente rude, uma maneira de repreensão discreta.
Sua saia xadrez deveria ser o problema. Ou quem sabe que a luz desbotada do sol que entrava na sala a deixava pálida demais e eles achavam que ela era um vampiro.
Ou...
– Seja bem-vinda, baleia! – Um garoto disse alto de braços abertos, como se fosse abraçar algo grande e toda a sala caiu em gargalhadas.
Jolie sentiu seus olhos se encherem de lágrimas e se encolheu mais uma vez, andando para trás em direção ao quadro negro. Ela não achou nada engraçado.
A professora parecia chocada e morta de vergonha.
– Não fale isso, August! – Outro garoto ficou de pé e olhou para o colega do comentário em tom de reprovação. Jolie viu ali seu herói. – É claro que ela não é uma baleia. Não se ofende as baleias assim!
Seu herói se tornou um vilão.
Novamente, todos riram.
Aquele dia parecia ter sido o pior dos dias da vida de Jo, mas era só o começo do que estava por vir em todos os próximos.
Flashback.
Arregalei meus olhos assustada e ofegante, banhada pelas sensações do trauma percorrendo o meu corpo molhado de suor. Encarei fixamente o teto branco e liso, tentando manter a consciência e acordar de uma vez, sem dar chance para acontecer de novo.
Era claramente mais tarde, mas não pareceu ter nem passado sete minutos. O barulho lá de baixo estava mais tranquilo.
Respirei fundo. Inspirei. Repeti.
Desci minhas mãos pela minha barriga, apertando qualquer parte mole que a academia ainda não tinha dado um jeito. Me tateei, senti e medi. Desci para o quadril que ainda tinha alguns malditos excessos, mas não me abalei e fechei os olhos concentrada. Mexi os dedos na área em movimento circular e abaixei para as cochas.
As abri, concentrada no trabalho e segurei em tudo que conseguia, alisei e puxei de leve, sentindo novamente minhas forças se esvaírem.
Abri os olhos para evitar cair na escuridão novamente e comecei a chorar. Eu chorei como se eu fosse uma criança recém-nascida que precisasse do apoio da mãe, o que eu nunca tive. Chorei ao ponto de sentir minha alma doer.
Lembrei onde tudo tinha começado. Pensei no ponto que tinha chegado. Relembrei quando foi a primeira ideia, o primeiro e único corte no início da cocha para aliviar as outras dores, quando perdi meu primeiro quilo completo em pouco tempo e como o mundo era fácil e brilhante.
Eu estava tão perdida e cega.
“O que eu fiz, Meu Deus?” me perguntei sem parar, pedindo uma ajuda silenciosa. Uma ajuda vazia.
Lembro de tentar comer naquela tarde e meu estômago, tão acostumado, colocar tudo para fora, rejeitando na hora. Eu estava tão faminta e era apenas uma maçã, mas ela simplesmente não entrava. Foi aí que eu reparei no que estava fazendo. E eu não senti medo, culpa ou qualquer outra coisa.
Senti vontade de desistir da vida, na verdade. Eu queria andar sobre caminhos descomplicados, simples e diretos. Mas o mundo não era assim e eu era uma criancinha crescida que não queria aceitar o fato. Então, lutando contra isso e toda as leis existenciais, dava um desânimo estúpido apontando o óbvio.
Chorei mais dar atenção ao que não saía da minha cabeça: fora o Edward, eu não tinha ninguém. Meus pais diziam que o fato que eu desfilava de roupa íntima significava que eu era uma prostituta da pior categoria, já que eu estava vendendo a imagem do meu corpo.
Eu não tinha muito tempo para fazer amigos e era atualmente amarga demais para isso. Meu humor era direcionado levemente ao Ed e só. Talvez na época que eu era mais nova a situação fosse diferente, onde poderia conseguir me aproximar das pessoas. Mas agora, não adiantava nem tentar.
Eu necessitava de amor como qualquer outra pessoa.
E as minhas colegas ao meu redor não eram muito diferentes de mim. Elas faziam as mesmas coisas. Se tocavam do jeito mais repugnante possível, assim como eu.
Levantei fraca do chão e me apoiei nas superfícies, indo diretamente ao banheiro tomar um banho gelado. O choque térmico foi grande demais e eu mal conseguia ficar de pé. Eu era um fracasso. Uma fraude em forma de mulher.
Como alguém pode ser tão burra quanto eu e insistir no erro eu não sabia. Mas aquela era minha vida agora e não ia sair mais dela, até alcançar meu clímax da perfeição ou morrer tentando.
Assim que a água gelada se derramou por meu corpo eu me senti renovada e ergui minha cabeça, recobrando o equilíbrio e a postura. Senti as gotas percorrendo todo meu corpo, me alcançando.
É aquela sensação gostosa do cinema, sabe? O poder psicológico entre estar nua, cabelos molhados e uma camada fina de água sobre o corpo, dando-lhe poder e sensualidade.
Deixei cair na minha cabeça também, escorrer por meus cabelos e me fazendo respirar pela boca. Aquilo esclareceu meus pensamentos de uma maneira grandiosa, o que me deu mais lucidez. Ainda assim eu sentia aquela sensação ruim na barriga. Tristeza. Uma tristeza acompanhada do meu tão velho orgulho.
Me lavando com o xampu por todo corpo e cabeça, enxaguei rapidamente e saí piscando várias vezes enquanto secava com uma mão meus fios de cabelo em uma toalha branca.
As pessoas simplesmente não entendem o motivo das outras serem frias. Das pessoas serem arrogantes, orgulhosas. Queixo-erguido. Mas a verdade é que se sua cabeça estiver erguida, você não dá espaço para que te machuquem, que doa. Não dá uma mínima brecha para se permitir cair de joelhos.
Quando sua arrogância lhe cobre, a proteção vem junto. A arrogância espanta qualquer medo de errar, falar bobeira ou tropeçar no salto. Porque você acredita que consegue. Você acredita que não acontecerá nada de ruim, que você consegue. E de tanto acreditar, a arrogância vem junto com o placar de mérito que diz que você é o melhor no que faz.
E a arrogância que me refiro não é aquela que você sequer olha para os perdedores, finge que eles não existem. A arrogância que falo é a que você adquire para si mesmo.
Me encarei no espelho, vendo as veias coloridas de cima do olho serem marcadas na pele pálida. Foi então um daqueles momentos em que você observa o próprio rosto como ele realmente é.
Quando não há câmeras e poses, efeitos e melhorias. Maquiagem, cabelo na frente ou o charme do sorriso e piscadelas. Quando você é... isso. Você simplesmente é.
O caminho até a VSecret foi muito longo e difícil, porém, eu continuava com orgulho das minhas cicatrizes de batalha. Muitas propostas recusadas para não cometer o erro comum e humano de fazer a escolha errada. Eu tinha meu objetivo atrás das minhas pálpebras todas as vezes em que eu fechava os olhos.
Eu sabia onde queria chegar. Exatamente o que queria fazer, onde iria fazer. E por isso nunca me perdi nas viagens da vida. Podia dizer com orgulho que não foi fácil, mas eu consegui.
E, por incrível que pareça, foi quando consegui que ficou fácil.
Tinham apenas uma roupa um número a menos? Sem problema, Jolie Black é uma modelo sensacional, ela pode fazer a roupa ser dela.
Tinham um ensaio para amanhã cedo e outro para hoje de madrugada? Sem problemas. Jolie Black pode tirar seus horários e se dedicar totalmente ao trabalho bem feito e organizado.
Precisam de voluntários, fotos novas e ideias? Precisam de gravações adicionais antes da estreia? Precisam de uma modelo para cobrir a outra? Seus problemas acabaram. A super Jolie Black está aqui e provavelmente irá fazer tudo que quiserem.
Porque a Jolie Black precisa da carreira. Jolie Black é bonita, audaciosa, alta. Sabe o que querem, o que precisam. Ela tem o que precisam e querem para dar.
Agora, me olhando no espelho, me perguntei se Jolie Black sabia o que ela queria.
A expressão séria e morta me encarou de volta do espelho. Sem vida. Fraca. Cansada.
Me dei conta desta grande verdade.
Eu não sabia o que queria. O que precisava. O que gostava. Apenas o que queriam, precisavam e gostariam. Minha cabeça trabalhava com força para se concentrar no time inimigo e o que lhe daria medo que parei de pensar no que meu time realmente precisava.
Assim que desci o apartamento encarei as ruas iluminadas da cidade. Nova York sempre fora cheia de vida, forte e pulsante; em outras palavras, um paraíso onde o tempo nunca parava. Era até mesmo excitante, animador. Aquela cidade tinha uma energia motivadora.
Mas não era esse meu interesse para ela esta noite. Saí e caminhei pelas calçadas um pouco mais vazias por não ser horário de pique. Concluí surpresa que já se passava de mais de onze horas da noite.
O trânsito estava o mesmo de sempre, mas fui me aventurar pelas ruas admirando as placas e outdoors, as pessoas e suas manias, carros e suas buzinas. E foi nisso que consegui distrair minha mente barulhenta durante um bom tempo.
Analisei a pessoa à minha frente, totalmente interessada no celular e na sua vida social; com todos os seus problemas e altos. Seu rosto era sério, seu cabelo de um liso falso, obviamente um cabelo ondulado com bastante chapinha. Uma maquiagem que deveria ter sido feita no início do dia, mas agora já de noite se tornava fraca e até mesmo borrada. Estava tão fora da realidade que era bonito de se ver.
O próximo parecia ser um homem de meia idade, cansado e com um terno barato. Tantas suposições do que ele poderia ser. Entretanto, estava em uma arrumação desleixada, como se estivesse voltando para casa depois de um bom tempo no trabalho ou qualquer outra atividade.
As rugas do seu rosto eram bem definidas, apesar de que eu tinha certeza de ter visto um leve toque de base no rosto dele. Com isso, fui analisar o próximo que daqui pouco tempo iria passar perto de mim.
Era um rapaz alto. Ele tinha luzes no cabelo de um modo bem style, óculos modernos e uma aparência bonita. Suas roupas eram cheias de estilo, chiques no ponto certo sem deixá-lo muito velho.
Se tinha uma coisa que eu entendia era de moda. Certas roupas, independente do quão bonitas ou das suas respectivas cores, tinham o poder de deixar a pessoa mais magra, mais gorda, mais discreta, mais sexy, e até mesmo mais velha. Era um truque tão simples e aparentemente tão bobo, porque não era para você. Era para o seu subconsciente.
O jeito que você usava as roupas ou o jeito que elas eram refletiam na sua aparência, no seu jeito. Consequentemente, na maneira que as pessoas viam você. Era psicologia pura. “A primeira impressão é a que fica” e isso é direto. A primeira impressão é o que veem.
O rapaz estava no ponto certo e reparou que eu o encarava. Talvez trabalhasse na Vogue.com. A vaidade estava presente nele.
E em todo mundo. Assim que ele passou eu constatei o óbvio.
Todos sabemos que as pessoas querem ser amadas, precisam disso. Mas o jeito que encontram de ser amadas é através da beleza. Elas, assim como eu, precisam da beleza.
A perfeição é atrativa, é encantadora. Não podemos alcançá-la, mas só pelo fato de procurá-la ao máximo a mantêm próxima, então o poder de atração dela passa para você.
Não há maneira melhor e mais fácil de encontrar o amor em pessoas que te acham atrativo. Assim como um fã “ama” seu ídolo.
De certa forma, isso é triste e doentio. Mas o mundo está doente pela beleza, uma pandemia que não se mostra tão ameaçadora a ponto de ser extinta ou quererem extingui-la. Eu, mais do que nunca, estava doente. Era vítima da doença da beleza social.
Minha beleza interior não existia mais, porque eu a dediquei à exterior.
Respirei fundo e ergui a cabeça, seguindo caminho para um pub bem longe, cujo o nome “Jack’s” era escrito em letra cursiva, grande e prata, chamando a atenção de longe. Mesmo que eu não conseguisse ler com perfeição naquela distância pude reparar.
Puxei meu capuz para cobrir mais meu rosto e continuei encarando o local enquanto chegava aos poucos. Sua parede de um preto fosco bem pintado, porta de madeira e música eletrônica agitando.
Aquela sensação gostosa de familiaridade e liberdade tomou conta do meu corpo.
Assim que adentrei o local, o cheiro de gelo seco de boate e álcool entrou em minhas narinas, me dominando completamente. Minhas energias se abasteceram e eu me senti... bem.
Eu me definia certas vezes como um rato de boate. Onde a boate era minha noite, quando os gatos dormiam e eu podia fazer a festa.
Fiz questão de entrar no clima agitado logo logo, tirando meu capuz e deixando o vestido solto que eu usava se aventurar por aí. O frio do ar-condicionado subiu minhas pernas e eu senti o alívio.
Jack’s era um lugar muito... diferente. Tinha sempre uma música boa tocando, mas nenhum DJ. Seu clima variava entre festas animadas, para tempo para pegação, para tempo para beber uma na fossa, para o tempo de debater política em um lugar agradável e com bebida e petiscos agradáveis. Entretanto, o estabelecimento sempre estava mais ou menos cheio em todas as partes.
Lotações aos finais de semana e nas segundas de manhã.
O local era gigante, mas ninguém nunca soube de onde vinha a quantidade de dinheiro que o abastecia e mantinha ou quem era o proprietário. Até especulávamos sobre, milhares de palpites com grandes empresários, porém nunca tivemos provas de nada.
A parte mais agitada era no subterrâneo e por mais que fosse esperado, lá não era abafado. Nem quente demais. Ou afobado. O clima era tão agradável e seguro quanto qualquer outra parte do negócio. Por outro lado, nos dava uma privacidade que o resto da cidade parecia tomar.
Era uma espécie de esconderijo, onde os nova-iorquinos fugiam de suas rotinas por um pouco de vodka.
Como se não fosse óbvio, o meu destino era justamente a parte debaixo. A única parte em que havia restrição de idade e seguranças nas portas, vendo quem entrava e saía.
O da vez era um homem negro bem alto, com o porte másculo e grande; aqueles caras prontos para destruir qualquer chance de confusão que vocêpensasse em arrumar apenas se lembrando de sua face.
– Documentos, senhorita – exigiu e eu procurei nos bolsos do casaco.
Ele sequer me olhava, entretanto parecia bem atento com o que estava acontecendo por todo lado. Não quis arriscar e lhe entreguei minha identidade logo depois tirando o cabelo do rosto para a verificação.
Ele encarou a pequena identidade em sua mão gigante e me analisou, tendo certeza que era eu. Quanto mais parecia um boi com raiva do seu toureiro de frente a mim, mais eu pensava em lhe confessar todos os meus segredos e chorar por clemência.
No entanto, o segurança abriu um sorriso simpático.
– Jolie! – me reconheceu. – É uma honra te conhecer!
Eu não era uma das únicas ou primeiras celebridades que frequentava o Jack’s, mas mesmo assim me senti agradecida. Dei um sorriso de canto de volta.
– Olá. O prazer é todo meu – fui cortês.
Ele riu desacreditado e me cumprimentou.
– Pode entrar. – Liberou a passagem. – Tudo certo. E, aliás, tenho que lhe dizer. Sou seu fã; eu compro tudo que você usa para a minha esposa.
Eu meio que não tive uma reação a partir do que eu ouvi. Também não soube reconhecer o seu tom e o que ele queria dizer com aquilo. Para não ser rude, sorri amarelo como se entendesse e estivesse honrada e entrei na área.
Encarei o nada, confusa. Fiz questão de dar de ombros e continuar a andar até uma parte mais reservada onde três barmen atendiam o público rapidamente, com simpatia.
Quando você se dá conta do feito da sociedade, suas regras e seu funcionamento, quando você se dá conta que é um indivíduo dentro dela, a primeira coisa que se questiona é sobre o que deve fazer.
Como se entrosar. Qual é o seu lugar. Por quê. Você não quer saber se é assim que ela deve funcionar, porque ela funciona assim há anos e anos e nunca ninguém mudou. O que você precisa fazer é se adaptar.
Com isso, você pode acabar sendo arrastado para uma grande força de pensamento em massa, onde são levados ao mesmo padrão onde ninguém se interessa por ir além.
Sentei-me e pedi um copo de vodka com água e limão para começar a noite. Assim que tomei o primeiro gole a lucidez e atenção me acordou e me fez respirar fundo. O cheiro bom de gelo seco e ar-condicionado fazia uma mistura maravilhosa para o momento.
Continuando. Você cresce, se torna um indivíduo diferente, mas igual. Você pensa em A+B enquanto o outro pensa B+A. Com isso, a psicologia diz que você é único e diferente. Você gosta disso. Gosta da ideia das duas primeiras letras.
Você gosta do que está vivendo, se acostumou, amou. Gosta de como a vida funciona. E você então tem seus amigos, que lhe dizem para fazer tal coisa. Tem seus colegas que te ensinam outras. Você é um ser com influências, agora. Um ser conhecido, com argumentos e cultura.
Mas de repente, você para e acorda. Você faz parte de um todo, sim. E isso é reconfortante. O que não te falta são amigos e conversas, interesses. Paqueras.
Mas será que isto basta?
Mais um gole generoso da minha bebida.
Você começa a questionar. A se questionar. Você repara erros e não tem certeza se deve consertá-los. E quando você conserta, você quebra alguma coisa; que consequentemente quebra outra.
E então esse pensamento que aparentemente era inocente começa a destruir tudo que você acreditava e tinha, o que você era. Esse pensamento se torna perigoso aos seus círculos. A você.
E então, como a maneira primitiva humana de se afastar de problemas e perigos, você de repente começa a parar de pensar assim. É ofensivo. Ameaçador.
A vida segue. Você continua bem, reconstrói o que aquele pensamento um dia derrubou. E pronto, tudo continua dentro dos padrões.
Encarei o barman bonito que servia no canto, sorrindo sugestivo para a moça em sua frente. Ele parecia ser bom e tinha um sorriso lindo. O chamei para me servir de mais um copo que eu tinha tomado por completo, sem notar.
Notando-me, ele seguiu até mim e se debruçou, colocou os cotovelos sobre o balcão, me encarando e provavelmente cruzando as pernas afastadas e descansadas.
– O que vai querer? Mais uma dessas? – Sorriu de canto e ergueu a sobrancelha. Eu tinha que confessar que ele era extremamente gato e tinha seus efeitos em qualquer mulher que o analisasse melhor. Mas eu não estava nesta lista.
Era um bom exemplo do que acontecia quando alguém ignorava aquele pensamento intenso e resolvia se dedicar às coisas mais sociais. Como a sedução. Ele exalava confiança.
– Claro – confirmei também com a cabeça para logo me sentir estúpida por ter feito. Mais um argumento bom para a minha teoria. – E uma tequila separadamente, por favor.
Ele concordou e anotou no pequeno papel. E então, se virou e foi pegar uma das garrafas no armário para logo satisfazer meus desejos.
Certas vezes, em vez de se afastar assustado daquele pensamento, as pessoas se interessam por ele e o que ele pode causar. Assim como os amantes de filme de terror e a quantidade absurda de odiadores de filmes de terror.
Elas questionam tudo e todos; se questionam. Suas amizades mudam, seus interesses também, consequentemente suas vontades e pensamentos são outros. As pessoas se destroem para começar do zero.
Nasce aí a filosofia. Nascem também bêbados inconformados, pessoas magoadas com a vida e irônicos de plantão. Esse pensamento é um berço para um terço da população; eles renascem.
O barman me serviu e eu tomei o primeiro gole, acenando com a cabeça agradecida e recebendo uma piscada envolvente de volta. Sua atenção mudou de foco e meu olhar foi para a variedade de garrafas de diferentes épocas e embalagens à frente.
Na mitologia grega, Atena nasce do pensamento de seu pai, o grande poderoso Zeus. Isso causa um alvoroço geral, assim como em seu casamento. Mais um exemplo de como um simples pensar – igualmente lógico, cheio de razão e perspectiva – pode mudar as coisas e, apesar de tanto sentido adicionado, o resto perde a razão.
As coisas se tornam diferentes. E você quebra, tentando acompanhar.
Mas há aquele que consegue se manter; manter tudo. Seu pensamento crítico e seus amigos. Há aqueles que não viram bêbados insatisfeitos sem respostas para suas perguntas, porém viram uma máscara no mundo.
Sabem ser gentil, mas não questionam esta gentileza. Eles sabem como a sociedade está funcionando, mas não saem do ciclo da mesma. É aquele tipo de pessoa que sabe que se você beber irá ter problemas nos rins; mas é a vida e não vão parar de beber por um talvez.
Aquele tipo de pessoa que vomita para ficar magra, mesmo tendo noção; mas não para de fazer, porque funciona. Estão destruídos por dentro mas por fora ainda há aparências a manter e sorrisos para dar.
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