Just One Scene
3 Capítulo 3
Notas iniciais
– Oh, não se preocupe, senhorita Cherry Morgan. Eu vou lhe mostrar toda a universidade, e seja bem vinda a Juilliard School! – a funcionaria disse, animada. Foi a ela que Cherry recorreu logo ao entrar no lugar – Venha comigo. Ah, e a propósito, meu nome é Marlene.
Marlene era uma mulher de, mais ou menos, 50 anos. Tinha os cabelos loiros tingidos presos em um coque alto e usava óculos. Seu terninho lhe dava um ar sério e trabalhador, junto com a calça social e o sapato alto. Mesmo assim, ela tinha um grande sorriso no rosto e um olhar bondoso e receptivo.
A garota se pôs ao lado da mulher, que começou a caminhar animadamente. Ela a conduziu por uma grande escada, que as levou para o andar de cima. Pelo fato de ter vidros por todos os cantos, uma luz natural iluminava o local. Elas andaram por um corredor grande até chegarem a uma sala espaçosa, onde vários alunos praticavam.
– Essa é nossa área especializada em dança. É aqui onde eles colocam em pratica o que aprenderam e suas coreografias, seja qual for o estilo. Temos mais três salas desse tipo.
Cherry assentiu, observando. Havia bailarinas se esticando, alguns casais dançando algo parecido com tango, um grupo de pessoas dançando jazz e outros estilos que ela não reconheceu. Todos os seus respectivos professores estavam ali, orientando e demonstrando como se fazia. Era um local grande o bastante para que todas aquelas pessoas pudessem dançar confortavelmente, sem misturar um estilo com o outro.
Seguindo a funcionária, elas foram para outra sala não tão distante. Ao entrar nela, Cherry pode ouvir vozes cantando em ritmo. Não demorou muito para ver três meninas, de aproximadamente 17 anos, cantando juntas enquanto um homem as avaliava. Era uma melodia graciosa e admirável, e Cherry ficou encantada com o talento das três.
– Como pôde perceber, essa é nossa sala dedicada ao vocal. É aqui que os professores testam a voz de seus alunos, não importa quantas são as pessoas cantando ao mesmo tempo. E, continuando – ela disse, puxando Cherry com cuidado – temos a sala de orquestra e instrumentos. Suas paredes abafam completamente o som, senão estaríamos ouvindo agora.
Marlene andou até outra parte e abriu uma porta, sendo seguida por Cherry. Assim que chegou perto, conseguiu ouvir o som inconfundível de vários instrumentos juntos. Marlene apressou-se em fechar a porta, evitando atrapalhar as outras turmas.
Vários alunos estavam tocando. Um homem – provavelmente, o professor – estava na frente de todos, como um maestro.
– Essa área é praticamente ligada inteiramente a musica. Há mais outra, voltada para a dramaturgia. É lá que estão as salas de aula, bibliotecas e todo o resto, também – Marlene explicou. As duas desceram as escadas novamente e se dirigiram a uma porta um pouco distante, que levava a um grande gramado. Lá, Cherry pode ver vários alunos lanchando, conversando com seus grupos e, até mesmo, ensaiando entre si. Era um lugar agradável só de se olhar, e as pessoas ali pareciam bem felizes. Após caminharem um pouco, elas entraram em outro prédio. Havia salas de aula normais, bibliotecas e áreas multimídia. Marlene a conduziu por um corredor que terminava em uma grande porta. Ao abri-la, Cherry se deparou com um teatro magnífico.
– Aqui é a área dos dramaturgos. Você vai passar grande parte do seu curso bem aqui, ensaiando e fazendo testes. Tem sorte, até. Não é longo o caminho entre as salas de aula e esse teatro. Sinto pena dos alunos de música, que tem de atravessar esse campus inteiro quase sempre – ela disse, brincando, mas Cherry estava ocupada olhando o lugar. Era incrível! Assentos almofadados, paredes de veludo, iluminação incrível e um palco maior que qualquer um que ela já tivesse visto.
– Está surpresa? – Marlene perguntou.
Cherry virou-se para ela e se recompôs.
– Ah... é maravilhoso!
– Se acha esse maravilhoso, espere para ver nosso teatro principal. Esse aqui não é nada comparado àquele. Sempre que fazemos alguma apresentação aberta ao publico, é ele que usamos. Ah, olhe. Eles estão prestes a ensaiar uma cena – disse, apontando para o palco. Cherry desviou os olhos e prestou atenção. Havia uma mulher, loira, vestindo uma minissaia rosa e uma blusa branca. Ela segurava um papel na mão, que Cherry deduziu ser o script. Atrás dela, entrou um rapaz de cabelos negros, vestindo um moletom de capuz e calças jeans. Ao contrario da moça, ele estava de mãos vazias.
– Vocês dois estão prontos? – um homem pequeno e magricelo falou em voz alta, sentado na primeira fileira. Cherry não havia percebido sua presença até aquele momento, e nem precisou pensar para adivinhar que era o professor – Então... AÇÃO.
– Sir Loures, o que estamos fazendo? – a loira começou, andando para longe do rapaz, pensativa. Ela juntou as mãos e virou-se para ele novamente. Daquela distancia não conseguia ver bem, mas Cherry percebeu sua expressão de preocupada – Se nos descobrirem... Não sei o que farão.
– Amelia, por favor – o rapaz disse, sua voz forte e firme tomando contra do teatro vazio – Você sabe que não há mais como voltar atrás – ele se aproximou e colocou as mãos sobre as dela.
A loira abaixou o rosto, balançando a cabeça.
– Não deveríamos estar fazendo isso. Não deveríamos nem sequer ter começado. Somos primos, Loures. Primos! Como nossa família irá encarar isso? Ah, – ela colocou a mão no rosto, afastando-o do homem – se soubessem tudo que já fizemos...
– Amelia, me ouça – ele falou, firmemente, pegando o rosto da loira entre as mãos e forçando-a a olhar para ele. Fixando seu olhar no dela, ele continuou com a voz carregada de emoção – Não nos culpe por seguir nossos desejos, por seguir nossos corações. Tudo o que eu fiz... foi por você, porque te amo – disse, intensamente. Seus olhares ainda continuavam grudados um ao outro. Cherry estava tão submersa em pensamentos, procurando lembrar se conhecia a peça que os dois estavam interpretando, que quase não percebeu quando o olhar do rapaz tomou outra direção. Na verdade, ela demorou um bom tempo para perceber que era a direção dela. E mais alguns segundos para perceber que não era a “direção”: ele estava mesmo olhando pra ela. Fixamente. Cherry gelou. “Será que estamos atrapalhando?”, pensou. “É melhor eu sair?”. Porém, antes que ela pudesse tomar qualquer atitude, a voz do rapaz tomou conta do teatro novamente – E eu faria tudo novamente.
A loira franziu o cenho, sem entender, virando a cabeça rapidamente para trás a fim de ver o que havia chamado a atenção do seu parceiro. Cherry pôde sentir uma faísca de raiva passando pelo seu olhar nos poucos segundos em que esteve focado nela, o que já foi suficiente para que a deixasse desconfortável.
– Brandon, Cassandra: terra – o professor disse, estralando os dedos – Estamos ensaiando uma cena aqui, caso vocês não saibam.
– Me desculpe, professor – o rapaz afastou-se da loira, finalmente tirando os olhos de Cherry –, mas a próxima fala é dela – disse, apontando para a parceira.
A moça pegou seu script e passou os olhos rapidamente por ele.
– Oh – ela exclamou baixinho – É, era minha.
– Vamos sair daqui – Marlene sussurrou, puxando Cherry para fora do teatro. Ela a seguiu sem pestanejar e voltou sua atenção para o que interessava: a universidade.
A mulher olhou para ela e riu – Parece que ele gostou de você.
– Ele?
– Sim, o rapaz que estava ensaiando. Você tirou toda a atenção dele – disse.
Cherry balançou a cabeça, negando.
– Acho que estávamos atrapalhando eles, isso sim.
– Atrapalhando? Duvido! – Marlene discordou – Já levei muitos novatos para conhecer o teatro no meio de ensaios, eles já estão acostumados com isso. Uma de nós chamou a atenção dele, e eu garanto que não foi o meu corpinho de 50 anos – ela brincou, arrancando risadas de Cherry – Porém, você pode se preocupar com isso depois. Agora, tem que conhecer o seu quarto. Ah, já disse que você vai dividi-lo com alguém? Sua colega já deve estar lá – disse, entregando-lhe uma chave.
Cherry segurou-a entre os dedos, balançando-a na sua frente. “Quarto 51”.
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