Just One Scene
4 Capítulo 4
– Olá? Tem alguém ai? – Cherry chamou, batendo na porta do quarto 51. Ficava no 5º andar do edifício, que parecia ter cerca de oito ao total.
– Sim, pode entrar – uma voz fina respondeu. Ela colocou a mão na maçaneta e virou, abrindo devagar. Em um canto conseguiu ver uma cama, uma televisão média, algumas almofadas jogadas pelo chão e uma escrivaninha, com um laptop em cima. Ajoelhada no chão, estava uma menina de porte pequeno, com cabelos curtos e loiros.
– Oh, olá. Você deve ser minha nova colega de quarto, não é? – a menina levantou-se rapidamente, derrubando algumas folhas no chão. – Ah, droga! – ela exclamou, abaixando-se novamente e juntando os papéis – Me desculpe a bagunça, hoje nada está dando muito certo pra mim.
Cherry segurou o riso e fechou a porta atrás dela, deixando sua mala de lado e ajoelhando-se para ajudar a menina – Não se preocupe, não sou o que se pode chamar de “organizada”. Acho que me sinto melhor em um quarto com travesseiros distribuídos pelo chão mesmo.
A loirinha riu e levantou-se, abraçando as folhas amassadas – Isso é bom. Pelo menos não preciso me preocupar em esconder a minha bagunça. Ah, a propósito – ela estendeu uma mão -, meu nome é Anna.
– Cherry, prazer.
– Cherry? Que lindo nome! – a menina juntou as mãos, encantada. Era tão pequena e delicada que Cherry percebeu imediatamente uma grande semelhança com Tinker Bell. Parecia a fada, porém sem asas e com roupas normais.
– Obrigada – ela agradeceu, sorridente. Anna parecia ser uma garota muito agradável, e isso já a aliviava. Tinha medo de pegar uma colega com a qual não se desse bem e ser forçada a dividir o quarto com ela pelo resto dos anos.
– Precisa de ajuda com as malas? Aliás, qual cama você prefere? Tem roupas minhas sobre as duas, mas eu juro que vou tirar.
– Ah, qualquer uma. Pode pegar a que quiser – Cherry respondeu, querendo ser agradável. Anna colocou um dedo no queixo, pensativa, e então começou a retirar suas roupas da cama próxima à janela.
– Pode ficar com essa, então? – ela perguntou e Cherry assentiu, começando a abrir suas malas. Anna jogou-se na outra cama e apoiou o queixo nas mãos – E então, de onde veio?
– Arizona.
– Uau, é uma longa viagem. Eu sou de Boston, então não sofri tanto. Você canta, dança...?
– Atuo. Vou estudar dramaturgia aqui – Cherry respondeu enquanto colocava suas roupas dentro das gavetas.
– Quer ser atriz? Quem sabe um dia não pode atuar sobre um dos meus trabalhos!
– Seus trabalhos? – a ruiva perguntou, terminando de dobrar um vestido e voltando sua atenção para a loira que sorria de orelha a orelha.
– Sim. Eu gosto de fazer roteiros para peças. Também gosto de atuar, mas o que eu quero mesmo é ser uma roteirista de sucesso. É nisso que sou boa de verdade.
Uma batida na porta fez com que Anna pulasse da cama e a abrisse apenas o suficiente para conseguir ver, pela fresta, quem era.
– Vai me deixar entrar ou vou ter que apodrecer nesse corredor? – uma voz masculina falou. Anna abriu a porta por completo e um menino de cabelos castanhos e olhos azuis entrou, parecendo irritado.
– Tenha modos, Colin – Anna reprovou, apontando para Cherry. O garoto olhou para ela pela primeira vez e colocou a mão na boca.
– Oh, me desculpe! Eu não te vi aí – ele disse, se aproximando dela e observando-a de perto – Você é uma graça! Sou Colin, prazer.
– Sou Cherry, e obrigada – respondeu, rindo do comportamento atrapalhado do rapaz.
– O que você quer aqui? – Anna perguntou, cruzando os braços. Colin lançou-lhe um olhar irritado.
– Como se você já não soubesse. Ah, você não facilita as coisas.
– Ele não te ligou ainda, é isso?
– O que mais seria? – Colin respondeu, impaciente.
Cherry permaneceu quieta, sem entender nada. Ela não tinha coragem de perguntar sobre o que eles estavam falando, já que havia acabado de chegar e não queria parecer intrometida. Porém, não levou muito tempo para que entendesse, já que Anna abriu o jogo.
– Colin brigou com o namorado dele faz dois dias.
Colin olhou para ela com uma expressão chocada e então revirou os olhos.
– Então você é gay? – Cherry perguntou, mesmo sendo óbvia a resposta.
– Espero que não seja homofóbica – ele respondeu, com um sorriso amarelo.
– Não, de maneira alguma – ela se apressou em dizer. Não queria que eles tivessem a impressão errada e, realmente, ela não se incomodava com isso.
Outra batida na porta atraiu a atenção dos três, seguida da voz de Marlene.
– Meninas, o ensaio vai começar dentro de dez minutos. É bom vocês irem para ter uma noção do que está sendo produzido.
– Vamos, quero um lugar bom dessa vez. Já disse que não enxergo muito bem de longe – Anna disse, levantando-se e puxando Cherry pela mão. Colin foi logo atrás, com as mãos nos bolsos.
Eles passaram pelo gramado enquanto Anna tagarelava sem parar sobre o fato de ela não gostar de óculos e se recusar a usar um.
– Você sabe que a tendência é aumentar o grau, certo? – Colin disse, calmamente.
– Você acha que eu sou estúpida, Colin? É claro que eu sei! – ela disparou agressivamente, assustando o garoto – Só que eu nunca enxerguei cem por cento e, até agora, estou me dando bem sem ter que usar uma armação na minha cara o tempo todo.
– Existem lentes para isso, também – ele disse.
– Você realmente acha que eu sou estúpida, não é? – Anna bufou — Eu também sei disso. Porém fiquei sabendo que uma menina ficou cega por conta de uma lente de contato, então eu prefiro não arriscar.
Colin franziu o cenho, mas resolveu permanecer quieto. Uma discussão com Anna jamais levaria a lugar algum. Ele mesmo já havia tentado várias vezes.
Passando pela porta que levava para o teatro, os três encontraram a 5ª fileira praticamente vazia. Eles se sentaram, com Anna ao meio, e esperaram os outros alunos se acomodarem. Cherry olhou as pessoas que já estavam sentadas a fim de encontrar o rapaz que vira anteriormente naquele mesmo dia, porém não conseguia achá-lo.
– Ali estão as “patricinhas de Juilliard” – Anna disse, fazendo uma careta.
– Não seriam “patricinhas de Beverly Hills”? – Colin corrigiu.
– Estamos em Beverly Hills? Acho que não – a loira respondeu, sorrindo vitoriosa ao ver Colin desistir de respondê-la.
– Quem são elas? – Cherry perguntou.
– Aquelas ali – Anna respondeu, sinalizando duas garotas. Uma delas usava uma minissaia rosa, e Cherry reconheceu-a. Era a menina que vira ensaiando de manhã.
– São só duas? – ela perguntou.
– Pois é, Anna fala como se fossem umas sete – Colin disse, curvando-se para perto de Cherry.
– Porém, essas duas valem por sete em questão de arrogância – ela se defendeu.
– Você só fala assim porque todos os garotos babam nelas. Inveja não é bom, queridinha – ele disse, dando um sorriso satisfeito ao ver Anna se irritar.
– Como se eu ligasse pra isso. Qual é, o que tem demais em estarem no 3º ano?
– Não é só por elas “estarem no 3º ano do curso”, e sim porque parecem Barbies. Eu, particularmente, acho babaquice. Essa beleza “boneca” já está tão ultrapassada, não sei porquê ainda insistem em usar rosa e manter os cabelos loiros e volumosos. Mas, quem sou eu para falar alguma coisa. Sou apenas um garoto gay prestes a ficar sem namorado.
– Pessoal! – o professor falou, cessando os murmúrios do teatro – Atenção: temos apenas uma semana até a nossa apresentação. Vamos nos concentrar nos nossos ensaios.
– Qual é a peça? – Cherry sussurrou para Anna.
– É um roteiro criado por uma aluna. Uma história sobre dois primos de uma família importante que se apaixonam, coisa assim. A Barbie nº 1 ficou com o papel principal, junto com outro rapaz. Eles dois são o “casalzinho da escola”, já que todos babam em cima deles.
– E onde está esse rapaz?
– Ele está... Ah, bem ali – Anna apontou com o queixo.
O rapaz estava subindo os três degraus que davam para o palco e ficou parado no canto direito, esperando o professor terminar de falar. Da pequena distancia que estava, Cherry conseguiu ver melhor sua aparência. Pálido, alto e de aproximadamente 23 anos, o rapaz era encantador. Seus cabelos pretos estavam bagunçados, com algumas mechas caindo-lhe sobre a sobrancelha direita e outras levemente arrebitadas na parte de trás da sua cabeça, dando-lhe um ar despojado. Seu maxilar definido parecia tenso e ele batia o pé, impaciente. Quando levantou o rosto, Cherry enxergou seus olhos verdes e calmos e seu nariz fino. Então, seu olhar encontrou o dela, e ele deu-lhe um sorriso de canto assim que a reconheceu, mostrando ligeiramente os dentes brancos e alinhados.
Sentindo o rosto enrubescer, Cherry desviou o olhar rapidamente e deu de cara com Anna, que a encarava curiosamente.
– Vocês se conhecem? – ela perguntou.
– “Vocês” quem?
– Você e o Brandon – a loira disse, indicando.
– Ah... Não, eu nem sei quem ele é – Cherry respondeu, tentando parecer normal.
– E o que foi aquilo, então?
– O quê?
– O olhar dele, o sorriso. Não vai fingir que não percebeu, ou vai? – Anna levantou as sobrancelhas.
– Eu não sei, nunca conversei com ele nem nada. Deve ter me confundido com outra pessoa, eu acho.
– Então, vamos começar! – o professor falou, dando início ao ensaio. Cherry assistiu atenciosamente cada cena, prestando atenção nas dicas do professor e nas técnicas que cada aluno usava, dando uma atenção especial àquelas que Brandon aparecia. Ela não podia negar: ele e a mulher loira, Cassandra, tinham uma bela química. Cada cena que ambos interpretavam juntos tinha capacidade de tirar suspiros do público. Era tão incrível a maneira como conseguiam fingir estarem apaixonados um pelo outro que Cherry começou a desconfiar que houvesse, realmente, uma paixão entre eles.
Após uma hora e meia de ensaios, os alunos foram liberados. Anna esticou as costas e virou-se para Cherry:
– Vou para o nosso quarto. Colin e eu combinamos de assistir um filme hoje à noite, na nossa TV mesmo. Você quer vir?
– Claro, mas preciso comer alguma coisa antes – ela explicou, sentindo a barriga roncar. Anna concordou e sorriu, puxando Colin junto com ela.
Sozinha, Cherry procurou algo para comer e encontrou, na lanchonete que ali tinha, um pequeno lanche de peito de peru. Ela foi para o gramado, que alguns alunos já ocupavam, e se dirigiu para uma árvore solitária, encostando-se no tronco e comendo seu lanche.
Quando terminou, ela relaxou e sentiu o ar frio batendo no seu rosto. Olhando no relógio, ela viu que estava prestes a anoitecer. Como havia passado rápido! Estava tão exausta que nem sequer tinha percebido. Fechando os olhos, permaneceu sentindo o cheiro da grama ao seu redor. Era tão reconfortante que ela podia ficar lá o tempo todo, apenas descansando.
– A propósito, essa é a minha árvore.
Cherry deu um pulo, batendo a cabeça no tronco. Abafando um gemido de dor, ela levantou o rosto, prestes a discutir com seja lá quem a havia incomodado, mas parou abruptamente ao ver um par de olhos verdes.
O mesmo par que já havia lhe encarado duas vezes anteriormente.
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