Just One Scene

2 Capítulo 2


– Senhorita? Senhorita?! – uma voz dizia. Com um sobressalto, Cherry acordou e olhou em volta, levando alguns segundos para perceber onde estava. “Ah, o avião...” pensou enquanto levava uma mão ao olho.

– Parece ter sido um sonho e tanto – brincou a aeromoça que havia despertado-a. A mulher sorriu, um pouco desconfortável por tê-la acordado. Cherry balançou a cabeça e riu de leve, grogue por conta do sono.

“Obrigado por escolherem nossa companhia. Esperamos que tenham uma ótima semana”, soou pelo avião. Com isso, alguns passageiros começaram a se dirigir para a porta com suas malas. Cherry levantou-se e pegou suas bagagens, checando mais de uma vez para ter certeza de que não tinha deixado nada para trás. Ela passou pelo resto dos passageiros e desceu para o aeroporto. Não foram necessários mais que alguns segundos para que ela já sentisse que estava mesmo em outra cidade. Já podia sentir o vento gelado em suas pernas nuas, e percebeu uma leve garoa no lado de fora. Acostumada com o calor do Arizona, ela sabia que demoraria certo tempo para se acostumar com isso.

Um baque em seu ombro esquerdo a desequilibrou, fazendo-a cambalear. Olhando de relance, ela viu um homem segurando uma mala olha-la furioso.

– Você poderia não ficar parada, atrapalhando minha passagem? – ele disse, voltando a marchar sem esperar por uma resposta. Cherry arregalou os olhos e logo se endireitou, pegando suas bagagens e se pondo a andar antes que mais alguém soltasse sua fúria sobre ela. “Não posso esperar educação aqui”, pensou consigo mesma. Ela tirou um papel amassado do bolso e leu, para verificar se estava legível, e se dirigiu para fora do aeroporto. Teria que pegar um taxi e, então, ir para a universidade.

Logo pôde ver vários carros amarelos à espera de seus passageiros. E, também, vários passageiros. Sinalizando para um dos motoristas, logo conseguiu entrar no carro, puxando sua bagagem junto.

– Para onde, mocinha? – o motorista perguntou. Era um homem na casa dos 40, de cabelos grisalhos e barba por fazer.

– É... Esse endereço – ela entregou-lhe o papelzinho, apontando. O homem passou os olhos pelos escritos e assentiu com a cabeça, pisando no acelerador e avançando com o carro.

Cherry relaxou no banco; agora, só precisava esperar. Ela se aproximou da janela do carro e aproveitou para observar a cidade em que estava, encantada. Claro, sempre soube da fama de Nova York: luzes, outdoors, tecnologia... Era incrível só de se ouvir falar. Porém, nenhuma imagem podia ser comparada a sensação de ver, pessoalmente, todas as maravilhas que o lugar apresentava. Seus olhos brilhavam diante de tantas cores, sem falar no tanto de pessoas que andavam pelas ruas. Haviam prédios e prédios e mais prédios, e luzes por todos os cantos mesmo durante o dia.

Olhando pelo retrovisor, o motorista percebeu o olhar encantado da moça. Já havia visto o mesmo tantas vezes que nem precisava perguntar para saber:

– Então, primeira vez em NY?

Cherry desviou sua atenção da cidade e olhou para o motorista, sorrindo de leve.

– É tão obvio assim?

– É uma reação comum. Vejo, pelo menos, uma vez por dia. Mas não te culpo – apressou-se em dizer – É uma cidade incrível. Até mesmo eu, que vivo aqui desde a minha infância, me surpreendo às vezes.

A moça sorriu e voltou os olhos para fora, observando as pessoas que passavam. Uma hora ou outra, acabaria se acostumando com a aparência da cidade.

– E o que te traz aqui? – o motorista tornou a falar – É alguma viagem de aniversário?

– Estudos, na verdade – ela respondeu – Vou ingressar na Juilliard School.

O homem levantou as sobrancelhas.

– Juilliard School? Meus parabéns – disse, transmitindo orgulho – Você é cantora?

– Não, de maneira alguma – apressou-se em dizer. Era péssima nisso. PÉSSIMA. – Sou atriz. Quer dizer, pretendo me tornar uma.

– Já deve ser, e das boas – ele discordou — Sei o quanto é difícil entrar nessa universidade. Se te aceitaram, é porque é especial — Cherry sorriu, como agradecimento, enquanto o homem continuou a falar – Porém, é uma instituição bem exigente. Não é só porque entrou lá que vai se sair bem. A filha de um amigo meu também havia ingressado, mas não aguentou mais de seis meses.

– Por quê? – Cherry atreveu-se a perguntar, mesmo já imaginando a resposta.

– Bem... Ela podia ser boa, e era muito, mas não era a única. Eu mesmo presenciei uma das peças dela e posso lhe garantir que sempre achei que aquela menina teria um grande sucesso pela frente. Mas... não foi bem o que aconteceu. É sempre assim: os bons são ofuscados completamente pelos ótimos, e os ótimos pelos melhores ainda – ele dizia, balançando a cabeça para enfatizar – e por aí vai. Se você não conseguir mostrar um belo desempenho logo no começo, começará a pegar papeis miseráveis em qualquer peça. E, convenhamos, você nunca vai ser notado em um papel miserável. Eles sempre vão dizer que todo papel é importante e aquela baboseira de sempre, mas não é. Dificilmente um ator de papeis miseráveis vai conseguir outro acima disso, e nunca terá um bom futuro na dramaturgia. E tudo que estou te dizendo aqui é o que a filha do meu amigo me disse, caso você pense que falo da boca pra fora.

Cherry pressionou os lábios. Já estava nervosa antes de embarcar no avião; agora, estava muito mais. Porém, ela não podia deixar de aceitar que era verdade. Era esse o motivo de muitos alunos desistirem do curso antes mesmo de completarem um ano nele.

– Desculpe, acho que te amedrontei. Não foi minha intenção – o motorista falou, percebendo o nervosismo da moça.

– Não, tudo bem. O senhor não falou nada de errado... muito pelo contrário.

– Não me chame de senhor, me chame de Bill. Me sinto velho. Crise da meia idade, sabe como é – brincou, piscando pra ela. A menina riu, tentando deixar de lado a ansiedade.

Mais alguns minutos se passaram até que o taxista estacionou em uma esquina.

– Ali – ele apontou para a outra rua. Cherry abriu sua carteira e pagou o homem.

– Obrigada – ela agradeceu, abrindo a porta e puxando sua mala junto.

– Ei – o homem chamou – Boa sorte – disse. Cherry sorriu em agradecimento e se pôs a andar, carregando sua bagagem. Alguns passos depois ela parou em frente a uma porta dupla de vidro, cercada por mais vidros. Em cima, o nome: “Juilliard School”.