Just One Scene
1 Capítulo 1
– Passaporte, por favor.
Cherry Morgan enfiou a mão no bolso e retirou o documento, entregando-o para o homem. Este permaneceu alguns segundos fiscalizando e, então, devolveu-o para a jovem, permitindo sua passagem. Ela puxou sua mala consigo e atravessou a catraca que antes a impedia, dirigindo-se ao avião que estava prestes a embarcar.
Ela respirou fundo. Nunca havia nem sequer entrado em um avião e não podia deixar de admitir que estava com um pouco de medo. Mas, quem não estaria em sua situação? Ela estava indo para uma cidade completamente nova, onde não conhecia ninguém, para ingressar em uma universidade extremamente concorrida. Não que ela estivesse reclamando. Não, de maneira alguma. Cherry sabia o quanto havia batalhado para conseguir isso e também se lembrava de quão baixas eram suas esperanças de que, um dia, a carta de aprovação chegasse em sua casa. Custou a ela acreditar quando, da sua caixinha de correio, retirou o envelope da Julliard School, com uma mensagem no interior dizendo que havia sido aceita e que suas aulas começariam no ano que vem. Por uma semana inteira, ela esperou por algum sinal de que tudo fosse uma pegadinha ou brincadeira de algum idiota que soubesse que ela estava tentando ingressar na universidade. Porém, nada veio.
“Você pode parar de se rebaixar uma única vez na vida e comemorar? Você conseguiu!” ela lembrava de sua mãe dizendo, beijando-a e sorrindo de felicidade. Após algum tempo, ela entendeu que podia se orgulhar de si mesma só pelo fato de ter conseguido MESMO aquilo que ela tanto almejou durante seu crescimento. Foi uma alegria e tanto em sua casa e, mesmo sabendo que teria que deixar sua família por um longo tempo, ela estava feliz. Todos estavam felizes por ela.
A voz da aeromoça ecoou pelo avião, avisando que decolariam em poucos minutos. Cherry se ajeitou em seu assento e pegou seu celular. Antes de desligá-lo, ela olhou a própria aparência no visor. Seus cabelos ruivos saíam por baixo da boina de crochê que estava usando, caindo por sobre os olhos verdes. Ela ajeitou a franja com os dedos finos e empurrou a boina um pouco para trás. Preparando-se para desligar o celular, foi surpreendida quando o mesmo vibrou em sua mão. “Mamãe”.
“Boa sorte, princesa. Amo você!”, dizia no SMS. Cherry sorriu e, então, desligou o aparelho, guardando-o na bolsa que estava segurando consigo. Antes de fechar seu zíper, ela pegou a mesma carta de aprovação que guardava consigo. Julliard School estava escrito, com uma letra elegante e fina. Era uma universidade muito reconhecida por seus cursos de música e artes cênicas, graduando muitos alunos conhecidos mundialmente. Para Cherry, que sonhava em ser atriz desde criança, era a faculdade dos sonhos. “Quando eu crescer, vou ser a melhor atriz de todas”, ela dizia. E, desde pequena, frequentava aulas de teatro, participava de peças e sempre encantava o publico, já que era uma criança encantadora. Crescendo, continuou frequentando as aulas e melhorando cada vez mais sua atuação. Hoje, com 19 anos, Cherry podia ser considerada uma boa atriz, já sendo especialista no básico do teatro. Porém, sabia que encontraria alunos muito mais que simplesmente “bons” em Julliard. Ela tinha medo de não conseguir o destaque que tanto queria e de não conseguir mostrar seus talentos que tanto havia cultivado ao longo de sua vida.
O avião começou a chacoalhar, afastando-a de seus pensamentos. “Ah, a decolagem”, ela se lembrou. Segurando firme no assento em que estava, Cherry mordeu o lábio inferior e esperou. Haviam avisado-a sobre o alçar voo do avião, e lhe disseram que era a pior parte. Às vezes podia dar a impressão de estar caindo, mas ela não precisava se preocupar.
“Não preciso me preocupar? É fácil falar”, ela pensou consigo mesma conforme o avião balançava e ela tentava manter a calma. Após algum tempo de tortura, o balançar cessou e ela pôde, finalmente, relaxar. Olhando pela janela ao seu lado, ela podia ver as nuvens bem de perto e a terra lá em baixo, minúscula. Era encantador e, ao mesmo tempo, um pouco amedrontador. Cherry não tinha medo de altura, mas era difícil não se arrepiar com a imagem que podia ser vista da pequena janela.
– Precisa de alguma coisa, moça? – uma voz chamou-lhe a atenção. Ela virou a cabeça e viu uma aeromoça com um carrinho cheio de doces ao seu lado. Cherry torceu o nariz. Não era muito fã de doces, se enjoava facilmente.
– Hmm, não. Eu estou bem, obrigada – respondeu, olhando para a mulher e sorrindo de leve.
– Aceita uma água, então? – a aeromoça insistiu. Ela estava sendo tão gentil que Cherry sentiu que não poderia recusar, mesmo estando sem sede.
– Ah... Claro. Aceito sim – disse, sorrindo um pouco constrangida. A aeromoça retribuiu mostrou os dentes brancos e agachou-se para pegar um copo de água, que se encontrava na parte mais baixa do carrinho.
– Aqui está. Tenha uma boa viagem, e não hesite em me chamar caso precise de algo – disse, se afastando com seu carrinho. Cherry olhou para copo que estava segurando. Sempre tivera esse jeito, de querer deixar as pessoas felizes, mesmo os desconhecidos. Às vezes, deixava até suas próprias vontades de lado para não magoar alguém. Puxando o papel que tampava o copo, deixou que um pouco de água caísse em seu cachecol acidentalmente. Ela bufou, já que sempre odiara esses copos: sempre acabava se molhando. Além do mais, era um tanto quanto desastrada, e coisas assim eram comuns no seu dia-a-dia.
Ela afastou o cachecol que estava usando, deixando a mostra a parte de cima de seu vestido preto e simples, coberto por uma jaqueta jeans, também preta. Por fim, uma bota marrom um pouco acima de seu calcanhar e um cinto, apertando-lhe a cintura. Retirando por completo o cachecol, ela colocou-o em seu colo para que não esquecesse quando desembarcasse.
“Passageiros, dentro de cinco horas estaremos em nosso destino, Nova York”, a voz do comandante ecoou pelo avião. Cinco horas? Ainda levaria um bom tempo. Cherry encostou a cabeça no banco e permaneceu olhando o céu pela pequena janela ao seu lado.
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