Just Call My Name

1 O conforto dos meus sonhos.


- Mas eu não sei seu nome.

- Você saberá quando for preciso.

Foi com essas palavras em sua mente que Mio acordou. Abriu seus olhos, desejando voltar a dormir novamente, desejando voltar àquele mundo dos sonhos, onde ela poderia controlar tudo, onde “ele” estaria. O efeito dos sedativos havia passado, portanto ela não conseguiria dormir novamente até o final desse dia que estava agora apenas começando. Os raios do sol entravam pelos espaços entre as cortinas amareladas que cobriam a janela do quarto 345 do Hospital Seiko, e atingiam os cabelos louros da garota. Uma enfermeira entrou no quarto trazendo à Mio o café da manhã. Elas são sempre bem educadas – pensou – mas parecem apenas robôs seguindo ordens e protocolos para lidar com os pacientes. Já estava cansada da vida ali. Por dois anos sua vida restringia-se às paredes daquele quarto. Não que ele não fosse aconchegante... As cortinas beges deixavam-no bem iluminado, porém não claro demais. O ar e o clima ali dentro eram agradáveis e a sensação de limpeza era permanente, talvez por conta das paredes, do teto e dos pisos impecavelmente brancos. Aliás, tudo naquele hospital era impecavelmente branco: roupas, lençóis, sapatos, travesseiros... tudo mesmo.

- Você andou conversando enquanto dormia, novamente, Mio. – A enfermeira dirigia-se à ela delicadamente.

- Ah, eu disse algo constragedor dessa vez, Yuso? – As bochechas de Mio sempre coravam quando alguém chegava perto de invadir seu perfeito mundo de sonhos.

- Não, não. Foi só algo sobre nomes, se me lembro bem.

- Deve ter sido bobagem, como qualquer sonho. E, Yuso, você já sabe dizer se terei alta no final dessa semana? – Desviar o assunto era sempre bom quando se tratava dos seus sonhos.

- Ainda não. O doutor disse que precisa de mais alguns exames.

Nesse ponto, Mio empalideceu. Sua pele perfeitamente branca e lisa, por falta da luz solar, agora parecia porcelana. Sempre que diziam “mais alguns exames” naquele hospital, significava que ela ficaria mais uma semana trancada ali sendo espetada por agulhas e passando por mais exames dolorosos e incômodos. Ela tinha apenas dezesseis anos e já havia sentido mais dor que muitas pessoas poderiam imaginar. Sempre tentava esconder sua tristeza e sua solidão. Aos quatorze anos, quando seus pais descobriram que ela tinha câncer, eles a internaram num dos melhores hospitais da cidade e a deixaram ali. Nunca mais a visitaram, nem mandaram notícias, cartões, ou qualquer outra coisa que dissesse que eles se importavam com ela ou que ao menos estavam vivos.

Mio não chorava. Nunca derramava uma lágrima sequer. E isso deixava as enfermeiras estupefatas. Sempre em tratamento, sempre sofrendo e passando por tudo sozinha. Como ela conseguia? Nunca chorar, nunca se queixar. O motivo da aparente força de Mio estava em seus sonhos. Sempre que fechava os olhos, ela ansiava por adormecer rapidamente. Em seus sonhos ela sempre encontrava “ele”. Ele aparecia com seus cabelos castanhos cobrindo parcialmente o rosto, numa franja espessa. Ele era alto e magro, seus ombros eram largos e seus músculos, todos bem definidos. Era um rapaz lindo. Sempre chegava sem que Mio percebesse e a abraçava, deixando as costas dela contra seu abdômen. Inclinava a cabeça na direção do rosto dela e a encarava com os olhos cor de mel, e então, numa voz aveludada e calma, dizia delicadamente:

- Vai ficar tudo bem. Logo, tudo isso acabará. Mas, quando você sentir que vai desmoronar e que não pode mais encarar isso sozinha... – “ele” delicadamente pousava seus lábios na bochecha da garota e então, continuava – apenas chame meu nome.

“Ele” estava sempre vestindo uma calça e uma camisa de manga comprida, ambas em um tom acinzentado. Sempre descalço. Em seu pescoço, pendia um colar com o cordão negro e um pingente em forma de cristal branco, aparentando ser o objeto mais puro de todo o universo. Mio sempre se sentia calma e segura em sua presença, sempre ansiava pelo momento no qual o encontraria novamente e sentiria seus braços quentes e fortes envolvendo-a. Apesar de ela nutrir um amor e uma necessidade crescentes por ele, ela não sabia seu nome. Não sabia quem “ele” era, o que queria. Nem sabia se “ele” era real. Apenas desejava estar com ele em seus sonhos. E, embora ele dissesse para que ela o chamasse, ela não sabia seu nome.

Imersa em pensamentos, Mio não percebeu quando uma outra enfermeira entrou. Ela voltou a si abruptamente e a encarou, esperando logo receber uma agulha em suas veias. A enfermeira porém, sorriu, e disse:

- Você tem visitas, querida. Posso deixá-lo entrar?

- P... pode. – Mio arregalou os olhos e não conseguia encontrar as palavras nem para perguntar “Quem é?”. Seu coração acelerou, e ela esperou.